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A Reforma

II PARTE A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS (continued 2)

J. S. Canuto translation

Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio, duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé. Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau, onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot, o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se atreveram a castigal-o.

Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém, d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que teve logar em Junho de 1559, morreu.

O primeiro synodo nacional.—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro Synodo Nacional. O que motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno, Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers, afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade. Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes. Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.

A Confissão, conhecida depois pelo nome de Confessio Gallica, foi provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a Confissão da Egreja Protestante Franceza.

O Livro da Disciplina Ecclesiastica foi modelado pelas Ordenanças que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos, preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes. Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a suprema auctoridade ecclesiastica.

É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz» organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central. Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral, privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas escocezas e francezas.

Anne de Bourg.—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido, que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.

O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde, foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo, e conduze-me ao logar do supplicio.»

Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração. La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica, e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com animo de o atacar de novo.

O morticinio de Amboise, longe de aterrorizar os protestantes, parece que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome de Huguenotes. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes, no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.

Coligny na Assembléa dos Notaveis.—A côrte, comtudo, estava convencida de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis. Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei, outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o culto divino.

Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral. O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.

Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece, tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá partiram.

O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a estalar, o rei adoeceu e morreu.

«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm, «algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae feriu agora os ouvidos do filho».

Catharina de Medicis.—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei, Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico. Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi investida no poder.

As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade, mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da morte do ultimo rei.

Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.

As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas, essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou, e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres catholicos romanos.

Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes, voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém, mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria, tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas, derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».

A Conferencia de Poissy.—A data designada para a Conferencia approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.

Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante. Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine. O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem, produziram sensação na côrte.

Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.

Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».

Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se, além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois partidos a prepararem-se para uma guerra civil.

O massacre de Vassy: outros massacres.—O signal foi dado pelo duque de Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia. No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes, que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria, assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.

O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina, fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra, foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862 se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do centenario.

Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.

A guerra civil. Os iconoclastas.—No meio de tudo isto os dois partidos formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.

O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi, porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.

Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé, acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior. Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e, por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre crescendo, começou a declinar.

O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra; ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux, em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.

Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas; e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em dois recintos intra-muros, que serão opportunamente designados pelo rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.

As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto. Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram identicas ás do Edicto de 1562.

Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba, o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva. Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente, supprimir a obnoxia fé.

Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar. Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos protestantes como logares de refugio.

Coligny e Carlos IX.—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas. Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma suspeita em todo o reino».

Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como nunca tinha confiado em pessoa alguma.

Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso, lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a causa do massacre de S. Bartholomeu.

Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.

A matança de S. Bartholomeu.—Esta terrivel carnificina de protestantes, que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram commandadas pelos irmãos Guise.

Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças, e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma que cairam sem vida 70:000 pessoas.

Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha para commemorar o Hugonotorum Strages. Alguns dos principes catholicos romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na sua vida, quando a noticia lhe constou.

O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes, Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.

La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco, obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou restabelecida a paz.

D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens, pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora», exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.

Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se, para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei, em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes, isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia, esperaram a occasião de intervir.

Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio de impudencia.

Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises, e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém, como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos» e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas mãos dos protestantes.

A Santa Liga.—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes, e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou, pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.

Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta, como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos protestantes.

Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours, que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram victoriosos.

As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588, juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir. É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga, foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo herdeiro da corôa de França.

Henrique de Navarra.—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria. O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.

A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique, (que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de Hespanha, que tinha casado com uma Valois.

Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu, e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu, havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam luctado durante trinta annos.

O Edicto de Nantes.—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes, que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.

Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas. Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações. Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc. Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da egreja catholica.

Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597, com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram nomeados pelos huguenotes.

CAPITULO IV A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS

Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag. 114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os mendicantes, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange, pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag. 126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag. 129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag. 130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag. 132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua organização e confissão, pag. 133.—O Confessio Belgica, pag. 134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da Egreja na Hollanda, pag. 136.

Os Paizes Baixos.—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.

Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia, ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação, com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam, tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.

A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada. N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes; n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht, considerava seu subdito o bispo da provincia.

Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram inexoravelmente atacados.

Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.

A politica de Carlos V.—No seculo quinze a maior parte d’estes estados livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.

Carlos V, que era conde de Hollanda, e stadtholder dos Paizes Baixos, assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de procedencia hespanhola.

Os principios da Reforma.—Quando a Reforma começou na Allemanha, e foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma. Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.» Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das obras de Luthero.

Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.

Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados, as interpretações biblicas.»

O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em 1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a luctar pela liberdade politica e religiosa.

Filippe II nos Paizes Baixos.—Carlos viu todos os seus projectos transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr, illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.

Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das provincias.

Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios. Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes da soldadesca.

Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont, que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.

A Inquisiçao.—O mais importante elemento de repressão, comtudo, foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media, mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre uma base independente.

Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição; usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.

A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado, prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico, e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.

A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella abertas.

Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir, copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550 já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio que lhes fosse necessario.

Os novos bispados.—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado, appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém, foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os casos de heresia fossem julgados e sentenciados.

Tornar-se-ha hespanhol o paiz?—No entretanto o paiz ia-se alarmando. Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.

Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as imagens.

Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas. O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres, transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade, os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam protestado.

A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres, e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente informado.

Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565, onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as representações dos nobres seriam attendidas.

Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos, que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita». «E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode inventar.»

Os mendicantes.—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia. Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5 de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse: «Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.

Prégações ruraes.—O nome de mendicantes foi adoptado com grande enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos, ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento, e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não poderia conter a excitação popular.

O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken! (Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e, em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.

Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange, sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria, e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir; que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.

Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren; reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.

O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que, quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito hespanhol.

O duque de Alba nos Paizes Baixos.—Fernando Alvarez de Toledo, duque de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador. Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos de misericordia.

Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular. Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle, e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno; prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o Luxemburgo e Paizes Baixos.

Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter entrado no paiz.

A prisão dos Condes Egmont e Horn.—A primeira coisa que elle fez foi lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.

Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe. Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do «rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.

Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de aterrorisar o povo. Organizou um Conselho de Disturbios, que substituiu o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue». Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital. Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»

No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas, roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido na anarquia.

A guerra civil. O principe de Orange.—Em 1568 o principe de Orange conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.

O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse, chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes, conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e foi em auxilio dos huguenotes francezes.

Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam, tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso, descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.

Os mendigos do mar.—A parte mais valente da população neerlandeza eram os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte, acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e traficantes maritimos uma força naval.

Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes. Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes, e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os «Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes. Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em terra.

O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a nos Paizes Baixos.

O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade; esse imposto ficou sendo chamado a Centesima. A accrescentar a isto, ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém, que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão, os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto sobre as vendas não podia ser cobrado.

A tomada de Brill.—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme, guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn, e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.

De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo, mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo, e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor. Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos, convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.

Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S. Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.

Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes, Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente, e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes quando vissem que não podiam convertel-os.

Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol. Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade, para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle, «ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás intimativas d’esse algoz sedento de sangue».

A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição hespanhola.

Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.—A pessoa que Filippe II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados. Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os «Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos, dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou também chegar a um accordo com os insurrectos.

Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa mesma politica havia provocado.

A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva, segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente. O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria, vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam deixar de reconhecer a sua derrota.

Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e mettendo o resto no fundo.

O cerco de Leyden.—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram, mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte, facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade, e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente, como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles, soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas». Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços. Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a chorar.

A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.

Negociações entre as provincias do sul e as do norte.—O levantamento do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia. O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576. A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido. A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada, revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade», era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.

O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus, tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito, experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou a Pacificação de Ghent, que foi assignada por delegados de dezesete provincias.

Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo statholder até posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.

D. João de Austria nos Paizes Baixos.—A Pacificação de Ghent alarmou em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos na qualidade de statholder com plenos poderes. Os estados recusaram reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas. Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente, que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do Edictum Perpetuum, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo, mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e o statholder sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.

Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.—Alexandre Farnese, principe de Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.

O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha, com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua determinação de permanecerem livres.

O Tratado de Utrecht.—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders, Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia, escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a quem assassinasse o principe.

Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa. Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607 combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era disputada pela Inglaterra.

A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.—Durante os annos de dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades, que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros, especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante, acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.

A Confissão Hollandeza.—N’uma epoca relativamente afastada, isto é, em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles, justificar pela Escriptura a religião reformada.

Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra, onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela celebre Confessio Gallica.

Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei, Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os Institutos de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e renunciar-se a si proprios».

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