Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES
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XVII
Não havia mentido a grande scintillação das estrellas na noite de Natal.
A manhã do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo pura, desennevoada, com um céo azul sem manchas, e um sol de fundir os gêlos dos montes e os gêlos da velhice.
O frio intenso convidava a sair, e desde pela manhã aldeões de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos, saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na direcção da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da Natividade.
Era dia santo entre os que mais o são; e os dias santos na aldeia teem uma feição solemne e festiva, que mal avaliamos nós, os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cópas das enfezadas arvores das nossas praças e jardins.
Desde que a moda estabeleceu a lei de não solemnisar o domingo nem o dia santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na lista do jantar, com uma diversão excepcional, que todos deram em vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feição typica e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.
Dirá então se não parece que até o sol tem outra luz e que as arvores e as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os dias de festa.
Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manhã sentindo Henrique de Souzellas, encostado á varanda do quarto em que pernoitára, e emquanto esperava que o chamassem para o almoço.
De vez em quando a recordação das scenas nocturnas da vespera desviava-lhe para outra ordem de reflexões o pensamento; acudiam-lhe todos aquelles incidentes á memoria, mas vagos e confusos, como se tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.
Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber como seria recebido pela morgadinha, e que posição deveria tomar na presença d'ella.
Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.
D'estas cogitações veio por fim arrancal-o o toque da campainha annunciando o almoço.
―Vamos,―disse Henrique―preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle regular o meu plano de tactica.
E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do almoço.
Já alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha presidindo á mesa e preparando o chá.
Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que elle tinha passado a noite.
Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando, desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural, sem timidez nem audacia.
Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar Magdalena.
―Bons dias, prima Magdalena,―disse Henrique, estendendo a mão e fixando-a com olhar investigador.
Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de affectado nem de constrangido:
―Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos habitos matinaes. Foi uma indiscreção mandar tocar a campainha. Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidadã.
―Eu é que não consentia:―disse o conselheiro―na aldeia como na aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas são mais tardias.
―Tem razão, sr. conselheiro. Eu proprio não esperei que me acordasse o toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manhã da janella do meu quarto.
―Eu não pude dormir toda a santa noite―disse D. Dorothéa.―Estranhei a cama e a casa. Eu cá sou assim, quem me tira do meu ninho!...
―Ó prima, não vá sem resposta―disse D. Victoria―que tambem eu não puz olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda ouvia pés nas escadas de pedra. É verdade; o primo Henrique não ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.
―Não, minha senhora; eu não senti rumor.
E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente n'aquella occasião lhe servia uma chavena de chá, e que de novo o fixou sem perturbação nem affectada indifferença.
Henrique sentiu-se embaraçado com isto. Custava um pouco á sua vaidade este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em Magdalena.
No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorothéa o facto das passadas que ouvira de noite.
―Deixe-se d'isso, prima. É porque não sabe o que vae. São coisas d'estes criados. Não faz ideia! É uma pouca vergonha! É preciso paciencia de santa para os aturar.
―Angelo,―disse a morgadinha ao irmão―entretido como estás a conversar com as creanças, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece de se fazer lembrar. Que distracções por aqui vão!
Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e caida em uma d'aquellas abstracções, a que ultimamente era sujeita.
―Eu não sei que tem hoje esta Christe―disse Angelo.―Julgo que lhe fez mal o frio na noite de hontem.
―É verdade, até está falta de côr! Ora queira Deus que não seja coisa de cuidado. Dóe-te alguma coisa, menina?―perguntou D. Victoria, apprehensiva.
―Não, mamã―respondeu Christina.
―Ó meninas, vocês tambem são umas desacauteladas. Eu bem te dizia hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo é não faz mal, tudo é não tem dúvida, e depois é que vem o queixarem-se.
Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido. Estas reflexões fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto d'ellas.
Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta côr e d'esta expressão recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava mais graciosa.
Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creança, em que mal fixára a attenção até alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a com alguma insistencia.
―É interessante esta pequenita―pensava elle comsigo.
Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorothéa, quando encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe então ás faces um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos baixaram-se de novo.
―Ha de ser adoravel esta mulher―pensou d'esta vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.
O conselheiro disse, sorrindo:
―Ora, que estão a dizer? A Christe até está com umas côres muito bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados. Provavelmente está agora n'algum episodio sentimental no romance da sua imaginação. Não sondemos aquelles mysterios, mana. Já não é para nós comprehendel-os, prima Dorothéa.
Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.
A morgadinha, a quem não passára despercebida a impressão, que a prima d'está vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que havia tanto procurava, e para isso propoz que se désse uma volta pela aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenções de Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se não decorresse o tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a impressão que o dominava.
A manhã convidava á excursão campestre. A proposta da morgadinha foi acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os até á casa do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manhã.
Levantaram-se todos da mesa, e á excepção de D. Victoria e D. Dorothéa, todos saíram.
A morgadinha, sob não sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz para dar tempo a Henrique de offerecer o braço a Christina, o que effectivamente aconteceu.
―Bem,―disse Magdalena comsigo ao vêl-os―agora que os anjos bons de um e de outro se convençam da obra meritoria que fazem entendendo-se.
E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no braço.
Angelo ia com as creanças adeante.
Approximemo-nos nós de Henrique e de Christina, para vêr se os anjos bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.
―Não ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos, n'uma manhã como a de hoje, e em companhia tão amavel―dizia Henrique, procurando aquilatar o espirito da sua
partner
, n'um certame de galanteria, fóra do qual não concebia que se pudesse temperar uma paixão.
Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os labios, não lhe deixando formulal-as; apenas pôde responder:
―Está muito agradavel a manhã, está; nem parece de inverno!
―Pelo que vejo, não gosta do inverno? É natural em uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irmãs. Eu prefiro o inverno, porque prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogão, as leituras em commum, e traz-me á ideia as imagens de um viver a que a phantasia de todos sorri; de todos os que teem um resto de coração; refiro-me ás imagens de uma familia.
Não ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra não sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expansões. Na apparencia é fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforços realisados, que os fortes nem concebem sequer.
Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios só puderam responder:
―Na cidade o inverno é mais facil de passar, julgo eu; porém na aldeia...
―Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino. Não é fóra das portas de casa que devemos procurar os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e sete annos sem familia. Não é verdade?
Christina só pôde sorrir:
―Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do ideal e abraçado á peor das realidades. É a consequencia legitima e triste do aspirar demasiado. Até hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, amaveis, interessantes; porém nenhuma que satisfizesse ás necessidades do meu coração, de quem me affirmasse a consciencia poder esperar a realisação do meu sonho. Perdôe-me falar-lhe n'isto, priminha; é uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no coração bastante bondade para m'a perdoar.
―Está a gracejar?―disse Christina, em quem redobrava a turbação, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vêr interrompida a sua felicidade: contradicções proprias dos timidos.
―A prima é muito moça―continuou Henrique, que não desesperava ainda de animar esta Galatheia―e talvez por isso lhe causará estranheza este meu modo de falar. Um dia virá, porém, em que o comprehenderá melhor. Se então encontrar um desconfortado como eu, peço-lhe que tenha misericordia d'elle e o salve do desalento, em attenção a quem a conheceu n'uma época, em que só podia vêr em si, priminha, a aurora de uma esperança que já não tinha de luzir para elle.
―Mas... salval-o!... como salval-o!...
―Como as mulheres salvam; amando.
―Bem digo eu que está a gracejar―balbuciou Christina, com voz trémula.
―Tem o defeito da innocencia―disse Henrique para si.―Não se lhe tira uma resposta de geito.
N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha saído da quinta na noite passada.
―Agora deixo-os por aqui―disse o conselheiro―irei encontral-os á igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.
―Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei―disse Magdalena.
―Socega, filha; serei de cera. Até logo.
―Até logo.
E o conselheiro tomou a direcção da casa do herbanario.
―Era tempo!―disse Henrique comsigo.―A minha eloquencia arrefecia na proximidade d'este gêlo.
A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de Christina e de Henrique, conheceu que se não haviam entendido.
―Ainda não!―murmurou ella.―Pobre Christe! como se deve estar odiando a si mesma! Como ha de esta creança vencer este obstinado? Mas não perco ainda as esperanças.
Henrique, na presença d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e tentou outra vez experimentar Magdalena.
―Esta porta é da quinta do Mosteiro, não é, prima?
―É―respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:―O que te faz lembrar esta porta, Angelo?―perguntou ella.
―Que muitas vezes por aqui saímos, eu e vós ambas já de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caça das borboletas.
―Fica perto a casa d'elle?―perguntou Henrique.
―É alli, logo ao dobrar d'aquella esquina―respondeu Angelo.
Henrique pensava:
―Seria para provocar uma explicação que ella fez a pergunta? Esta mulher é admiravel! Não lhe sei resistir.
E já lhe não restavam vestigios da impressão causada por Christina.
―Este herbanario―continuou elle em voz alta―deve, pelos seus habitos excentricos e até pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.
―E tem,―affirmou Magdalena―mas de feiticeiro bem intencionado.
―Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.
―É certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o bem que elle faz de dia.
―Ah! Então temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que lhe valerá é algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que diz, prima Magdalena? haverá?
Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:
―Á excepção de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais o visita.
―Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!
Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.
―Lá me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto não chegava o seu animo não, prima?
―Tanto chega, que já muita vez alli tenho ido só, e a altas horas―respondeu Magdalena com a maior firmeza.
―Sim?! E não tem mêdo?
―De quê? De almas do outro mundo? não tenho crença para tanto. De malfeitores? não os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me offendem―disse a morgadinha, accentuando com expressão as ultimas palavras.
Henrique acudiu immediatamente:
―Longe de mim duvidal-o.
E calaram-se por muito tempo.
Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanças de aspecto doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanças de aspecto rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio humano.
―São os peregrinos que veem de Meca―disse comsigo o conselheiro.―Pelo que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor não trata com muito respeito o codigo.
Entrou emfim a porta do quintal.
Poucos passos andados encontrou-se com o Zé P'reira, que vinha virando e revirando nas mãos um papel e monologando, segundo o costume:
―Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerofada! Isso até era um peccado. N'essa não caio eu!
O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.
O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa dos seus males. A receita era extrahida da
Polyantheia
, e tinha por ingredientes uma cabeça e sangue de carneiro, cabellos de homem e figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a efficacia.
Depois de se separar do Zé P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal. Cêdo chegou á vista do herbanario, que dera audiencia
sub tegmine fagi
.
Estava sentado á borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava sombra.
O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.
Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabeça, e, depois de reconhecer quem era, retomou a sua primeira posição e ficou silencioso.
―Bons dias, Vicente―disse o conselheiro com familiariedade e parando defronte d'elle.
―Bons dias, Manoel―respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.
―Saía agora d'aqui um homem, que julgo será rebelde a toda a tua medicina. Padece de mal que se não cura.
―Os vicios são enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo, são.
―Já que tu não appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar comnosco as festas do Natal, vim eu vêr-te.
―Obrigado.
―A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente―continuou o conselheiro, sentando-se á beira do tanque.―Cada vez te estás a sequestrar mais dos homens, cada vez mais os aborreces.
―Eu não aborreço os homens, enganas-te. Não os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro já no mundo pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.
―És um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que cogitas tu, quando assim passas uma manhã inteira, sentado n'esse banco, com os joelhos ao sol, os braços cruzados, e os olhos no chão?
―No passado. Pois não t'o disse já? O domingo reservo-o eu para me recordar. Ahi está que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje. Lembras-te d'elle, Manoel?
―Do dia de Natal de ha quarenta annos? Não.
―Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cêdo do que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae saíra; julgámos nós ambos boa a occasião de levar a cabo um projecto que havia muito tempo traziamos na cabeça. Crescia a um canto do muro, além, á beira do poço, uma pequena faia que alli não podia durar muito tempo; meu pae todos os dias a ameaçava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos transplantal-a. Deitámos mãos á obra essa manhã, e, no fim de alguns segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz os hortelões, e para junto da agua que ella já tinha procurado. Conheces a arvore hoje?
―Não―disse o conselheiro, olhando em roda, como á procura de algum pequeno arbusto.
―Olha que ha quarenta annos; a planta é hoje arvore. É esta a que me encosto.
O conselheiro levantou então os olhos para os ramos vigorosos da arvore, como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas mãos.
―É singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa―disse elle, distrahidamente.
―Depois da nossa tarefa, sentámo-nos―proseguiu o herbanario.―Tu ficaste, exactamente como estás agora, á beira d'este tanque. Então, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda não sabiamos se viveria, tu disseste: «Fizemos uma obra que durará mais do que nós.» E eu respondi: «Quem sabe? O machado vem, quando menos se espera.»
―Como te lembras bem d'essas coisas!―disse o conselheiro, sorrindo constrangidamente, porque não agourava bem do exordio que abrira a entrevista.
―Ai, eu tenho boa memoria!
Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente, dizendo:
―Mas a final o que te trouxe hoje aqui?
O conselheiro respondeu com resolução:
―Vêr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.
―Sim? E commigo é que vens tratar os objectos graves?
―Por que não? sempre foste homem de bom conselho.
―Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.
―Não poderás dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem divergencias naturaes, que comtudo nos não obrigam a deixar de nos estimarmos, julgo eu.
―Bem, então dizias tu que vinhas?...
―Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.
―Dize.
―Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?
―Pouco tenho que sacrificar.
―Tens, e é um sacrificio doloroso.
―Acaba.
―Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por aqui a estrada em projecto.
O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza estas palavras, e respondeu, com certa ironia:
―E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.
―Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...
―Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar differente de mim, não déste a isso o nome de ingratidão.
―Ouve.
―Sê franco, que eu te ouvirei.
―Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situação politica me ser contraria. Tres traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d'ella não teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias que o fizesse? ou não me desculpas por o não ter feito?
―Fizeste bem―respondeu o herbanario.
―O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que, nas mãos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabeça que, entregue a si, não faz coisa de geito. O homem oppunha-se formalmente a esse traçado; se o não attendesse, declarava-se, por despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar áquellas mãos os seus destinos; vencido, era perder a esperança de tirar dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequisar o homem, para vêr se consigo d'elle uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um estabecimento sericicola; se o desattendesse, lá iam as esperanças d'estes melhoramentos tão uteis, e que o mais que nos poderão custar é um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te não agradam estes meios, porém olha que em politica são dos mais innocentes que podem empregar-se. Já vês pois que o segundo traçado tinha desvantagens para o circulo, por cujo interesse me empenho devéras; podes crel-o. Resta pois o terceiro traçado que, lealmente o confesso, não era o melhor, nem scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia para o teu coração o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo memorias ligadas a estas arvores, e não ha homem que, aos cincoenta annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma generosa e heroica, e que não duvidarias comprar, á custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de má vontade, corre risco de se não fazer, se, quanto antes, não principiarem os trabalhos; a menor opposição dos proprietarios, o menor embargo dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido. Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?
O herbanario estava cada vez mais pensativo.
―Pensaste bem. A velhice é assim; e eu queria dar mais importancia a dois annos de vida que me restam, do que á vida nova que vae haver para esta terra. Fizeste bem.
―Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Além de que, dissipa as apprehensões com que estás; em toda a parte terás arvores...
O herbanario interrompeu-o:
―Se não entendes o amor que eu tenho a estas, não faças por consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.
―Porém deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das nossas propriedades, tens sempre um logar vago á tua espera, tanto á mesa, como ao canto do fogão, e amigos que te receberão com prazer.
―Não receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria tecto e pão. Conto com a colheita de algum bem que semeei.
―Eu farei com que o contracto da expropriação seja o mais favoravel possivel. Vejamos, em quanto avalias...
―Não falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o pagaria; a não attender a isso, tudo será pagal-o bem.
―Mas...
―Não falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouçam propôr o preço por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te, então...
―Tudo. Dize em que te posso servir.
―Peco-te que decidas a pretenção d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte annos, um coração e uma cabeça como tu sabes, e que de ti e dos teus, da gente que dá e vende graças, honras e empregos, só quer um favor... mais uma justiça: lembra-te d'isso.
―Falas do despacho effectivo para professor? É uma coisa facilima; mais que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por modesto. Acredita, ás vezes é mais facil servir os ambiciosos. Nem eu sei o que tem empatado esse negocio. É certo que ha um competidor, por quem alguem trabalha; mas não importa; conta com isso, como negocio concluido.
―Emquanto não vir...
―Hoje mesmo escrevo para Lisboa. É só isso que pedes? Vê lá.
―E que me deixes agora só.
―E não me ficas querendo mal, Vicente?
―Não. Estou a acreditar que tiveste razão, ou pelo menos que suppões que a tens. Basta-me isso para te perdoar.
―Vêr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a Lisboa, e só tornarei para a campanha eleitoral.
―Não prometto.
―Adeus.
O conselheiro estendeu a mão ao herbanario, que não retirou a sua, e partiu.
―Está feito!―ia pensando o conselheiro á saída―não foi tão difficil como julgava. Está razoavel o homem. Quem o viu e quem o vê! O que faz a idade! Bem! Agora é apressar os trabalhos para antes das eleições, a vêr se acalmam algum fermentosito de opposicão, que por ahi possa haver, que pequeno será.
N'estas cogitações chegou á igreja. Magdalena esperava-o no adro.
―Então?―perguntou ella, com anciedade.
―Tudo está remediado; entendemo-nos perfeitamente―respondeu o conselheiro, com manifesta satisfação.
―Devéras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!―exclamou Magdalena, com alegria.
―Como ceder?―tornou o pae.―Elle é que foi mais condescendente do que eu esperava. Não oppôz a menor resistencia, nem se queixou muito amargamente.
―Pois consentiu?!
―Sem grande custo, ao que parecia.
―Ó meu Deus! meu Deus! agora é que eu temo devéras. Pobre tio Vicente! assusta-me isso que diz, meu pae!
―Ora vamos; a tua imaginação é que te illude. Mas deixa-me aqui falar com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me dizer. Vae para a igreja, que eu vou já ter comvosco.
E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que estavam aquellas duas notabilidades.
―Dou-lhes uma boa nova, meus senhores―disse o conselheiro, depois de cumprimental-os―dentro em pouco temos os alviões a trabalhar cá na terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do homem, que nos obrigassem a expropriações judiciaes, sempre demoradas. Mas não, achei-o nas melhores disposições; e assim, dentro em poucos dias...
―Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios não sejam tão doceis―lembrou o brazileiro.
―Bem sabe que são terras insignificantes, cujos possuidores com pouco se contentam.
―Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco―disse o brazileiro, sorrindo velhacamente―mas os modernos...
―Pois mudaram de senhorio?
―Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.
―E quem os comprou?
―Este seu criado.
O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porém, dizendo:
―Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos publicos, do que...
―Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar estão os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.
―De certo que não ha de querer pôr estorvos a uma empreza como esta.
―Estorvos, não, mas emfim... Amigos, amigos, negocios á parte.
O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.
―Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?―requereu do lado o sr. Joãozinho das Perdizes.
―Mil que pretenda―acudiu o conselheiro; e tomando o braço do morgado afastou-se do grupo.
―Eu tenho a pedir-lhe um favor―principiou o morgado.― Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Chão do Pereiro, que quer vir ensinar para aqui. Este negocio está empatado, como sabe; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.
―Pois sim, mas...―fez-lhe notar o conselheiro―não sabe que é Augusto o outro concorrente?
―Então que tem isso?
―Não lhe parece que seria uma injustiça? Um rapaz de merecimento, como elle é, aqui da terra, que já exerce o emprego ha tres annos e com tanta intelligencia? e haviamos de...
―É verdade,―atalhou o outro―pois isso é verdade, mas... Emfim, elle que passe para outra parte.
―Mas se o rapaz quer isto?
―Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa é fresca. E vamos, sr. conselheiro, a gente tambem não ha de estar só a fazer favores, sem os receber quando os pede. Com este já são tres. Pedi-lhe para o meu tio abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias lá para a freguezia... estou á espera d'ellas... Ora isto não se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleições com a gente da minha freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora não sei o que será. A não se decidir este negocio depressa...
―Ora não será isso motivo para tanto.
―Com certeza que é―insistiu o sr. Joãozinho.―Então digo-lhe mais: a mim já me falaram. Ha ahi alguem que não desgostaria dos votos de que eu disponho, e votar pelos que já estão no poleiro não sei se lhe diga que não é peor.
O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:
―Não posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relação ao que me diz, eu verei.
―Mau! Não é «eu verei». Então falo-lhe claro. Se d'aqui até ás eleições não estiver feito o despacho, não conte commigo.
―Mas quem lhe diz que não ha de estar?
―Pois lá isso...
―Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.
―Bem.
O sino tocava a chamar para a festa.
Terminou o dialogo.
―O peor―ia pensando o conselheiro―o peor é que prometti ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. Não tem dúvida; é tão magra a posta, que não vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. É preciso ter ambição por elle. Se elle quizesse ir para Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, já se maquina no campo contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vêr o que sabe.
Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o pae de Magdalena a ponto de não conter um movimento de impaciencia, assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e, á fôrça de cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de attenção.
Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista com tanto ardor namorava.
O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:
―Ora adeus! O senhor é uma sanguesuga que se não farta de chupar. Contente-se com o que tem; vá conjugando o
laudo, laudas
, que outros, com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.
O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestação, e curvou-se para deixar passar o conselheiro.
Mas lá comsigo dizia:
―Sim? Elle é isso?! Pois veremos se a sanguesuga te não pica.
E entrou tambem para a igreja, com não muito christãs disposições de espirito.
XVIII
Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em visitas ás freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral, visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com gôsto, n'estas excursões politicas.
Em casa do sr. Joãozinho das Perdizes, na freguezia de Pinchões, passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e desmazelo; a cada passo se tropeçava n'um podengo ou se trilhava a cauda a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dóses de carne de porco e de vinho, com que elle, á viva fôrça, o queria regalar.
No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do chão uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos pés dos leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles não conseguiram desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor que escutavam fóra.
Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o obrigava a esta noitada.
Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em affectadas exclamações, deante dos prodigios de mau gôsto reunidos alli.
As estatuas de louça, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana, por onde se entrelaçavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de fragata brazileira com tripulação de altura dos cestos de gavia, fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar; lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados, diplomas de socio de não sei quantas sociedades brazileiras; tudo encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de Braga. Á impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de ouvir e de ter de achar graça a um papagaio que cantava o hymno brazileiro.
Henrique saíu de lá exhausto de paciencia.
Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia occorresse coisa que mereça nota.
Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que tão acerbas palavras se haviam trocado. Augusto não voltára ao Mosteiro desde então. Era tempo de férias para as creanças, o que fazia natural esta ausencia, contra a qual Angelo em vão protestava. Magdalena nunca porém alludia a ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os dissipava com uma palavra.
Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.
Henrique e D. Dorothéa vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir á solemnidade popular.
Já por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a ensaial-o, e vimos com antecipação andar Ermelinda decorando a parte da Fama, que lhe competia desempenhar.
Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, são como os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira deixou ficar pelo chão.
Não obstante as extravagancias e as modelações toscas e risiveis de muitos, é certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado mais fiel a indole peninsular, do que sua irmã, a civilisada musa das cidades, a cujo paladar já sabem mal as popularissimas redondilhas, tão apreciadas ainda na Hespanha.
Em occasiões de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros, em que se combinam os elementos de épocas e de nacionalidades disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os episodios comicos do algum enredo popular.
A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do Mosteiro, e que fôra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriação do terreno a todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos recebiam de s. ex.
a
, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero de espectadores.
Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do espectaculo popular.
O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pôr á disposição dos seus representados.
Desde a vespera havia grande agitação e azafama no pateo do Mosteiro. Os artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas; serravam barrotes; os directores, e á frente d'elles o infatigavel e imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres absurdos.
Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de enthusiasmo.
Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar as creanças e estremecer as mães; ia resuscitar Herodes, o déspota legendario.
Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos scenicos futuros.
Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a ausencia de vocações dramaticas que auxiliassem a d'elle.
E não sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico, deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha abafado mineral de lei.
Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vêl-o-hiam porventura arrebatar plateias inteiras com as revelações do genio, que ás vezes n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim inculto, não mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no calor do desempenho; não mentia aquella embriaguez que lhe causavam os applausos da multidão. Não ha verdadeiro genio artistico, que se não namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca será poeta nem artista de verdadeira inspiração. O amor vivo da
gloria
adeantou a meio caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino.
Ermelinda, essa tremia com a commoção de artista novel, á lembrança do espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar.
As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido encarregar-se da
toilette
da Fama.
Logo de manhã fôra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das mãos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos, pois que pretendiam reservar para a occasião a surpreza toda. Contra a curiosidade de Angelo é que mais tiveram que luctar.
Logo depois da uma hora da tarde começou a povoar-se o pateo de espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto por as colchas de chita aos olhares da multidão.
Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica, dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de batuta.
Chiava já o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas.
Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos, deu o signal de principiar.
Um, dois, tres; um, dois―dizia ou fazia elle com os olhos e com os movimentos da cabeça e pés, porque a bôca, essa já estava applicada á embocadura da trompa. O segundo «tres» era o tempo fatal. Os musicos, porém, ou por distrahidos, ou por a commoção propria dos actos solemnes, não corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do mestre Pertunhas, achou-se só no espaço, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quasi em sangue.
Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota chefe e reconhecendo a falta, saíram alvoroçadas atraz d'ella, cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.
O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a vêr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da banda, berrando, ralhando, cheio de cólera e de razão.
Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!
Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.
Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fôram de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaçava estalar todas as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade das dimensões d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpentão, que embocava com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acolá um flautim, de braços compridos e tibias esquinadas, com meio braço fóra das mangas, com meia perna de fóra das calças, figura em que havia não sei o que de onomatopaico, tão bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os pulmões dentro de um figle; um corcovado e semi-anão repicava os ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa estavam confiadas ás mãos callosas de um moço de lavoura, de rêpas hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E, no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo com o pé, suando, arregalando os olhos, piscando-os, marcando o compasso com a cabeça armada de enorme trompa, que lhe dava então não sei que apparencias de proboscidiano.
Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a familia do Mosteiro escutavam das janellas, e á qual tiveram de dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforços fez para soffrer com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem á orchestra de S. Carlos perdoava uma desafinacão, obrigado a escutar com um sorriso aquella banda pandemonica!
―Coragem! coragem!―murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como perfeito politico.―Nas occasiões é que os homens se conhecem! Coragem.
―É em extremo forte a provação!―respondia-lhe, gemendo, Henrique.
―Firmeza; que a pallidez do susto nos não atraiçoe―continuava aquelle.
Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade.
A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o estremecimento que precede as occasiões solemnes. Os olhares de tantos espectadores fixavam-se na coberta de chita que já se via ondular. Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fôra a resultante do palpitar de tantos corações.
Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.
A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multidão um quasi pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia dissipar.
Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos, corpete de velludilho azul, calções golpeados. Pendia-lhe á cinta um alfange e uma pistola; ao peito algumas condecorações.
Apparencia geral, a dos prophetas nas procissões.
O auto rompe com um monologo de Herodes.
O tyranno da Judéa, sobresaltado e meditabundo, faz considerações substanciosas sobre a condição dos reis em geral e a sua em particular. Principia elle assim:
Não ha vida mais inquieta, Nem mais cheia de cuidados, Do que a de um rei que pretende Conservar os seus estados.
O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braços cruzados, medindo o palco a passos largos.
Continuavam varias proposições de physiologia do throno, e, do caso generico baixando ao particular, da these á hypothese, principia a falar de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, começava aqui a dar mais vida á recitação, como para mostrar o maior empenho que tomava a alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda do Messias, e inquietava-se; a maré das paixões subia; a voz traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fôrça á sua voz potente, soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre.
Começarei desde logo A publicar leis tyrannas, Que aterrem os meus montes, Os palacios e as choupanas. Será tal o meu furor, Tal a minha indignação, Que ninguem se atreverá A conquistar meu brazão.
O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam a fixar-se. A excitação de animos a que os transportes de Herodes, inquieto pelo seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado côro de anjos que cantavam atraz da cortina:
Não temas, ó rei cruel, Que te conquiste o docel.
Herodes pára aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afiançarem a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.
Aqui é que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevêem se desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes:
Porém o furor me incita!
Dava, ao dizer isto, tres passos á frente, desembainhava o alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.
O brio dá-me ousadia.
Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.
Para defender o sceptro A favor da tyrannia!
Aqui agitava os braços como azas de moinhos.
Será cada lança um raio!
E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.
Cada espada um corisco,
E o braço, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.
Cada soldado um trovão,
E trovejava-lhe a voz.
Cada golpe um basilisco!
E na posição e gesto em que ficava, não era menos terrivel e pavoroso do que a fera da comparação.
Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; só as mulheres e as creanças ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um peccado applaudirem Herodes. E não sei se, o que fizera menos escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fôra o exemplo partido das janellas do Mosteiro; porque é certo que em geral os tyrannos no palco são admirados, mas raras vezes applaudidos.
Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o auto.
Dariamos de bom grado na integra tão importante peça dramatica ou pelo menos circumstanciada noticia d'ella, se não receiassemos o recheio excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves. Não podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.
Além do Herodes, são figuras do auto: o caixeiro do dito―assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que dá a entender que Herodes era homem de escripturacão regular,―o capitão das tropas reaes, os tres reis magos, o anjo, a Virgem, S. José e o menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidadãos de differentes cidades, o criado de um d'elles, a Fama e duas creanças, chamadas Giraldinho e Amorzinho.
As scenas passam-se successivamente nos paços de Herodes, na lapa de Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.
A imaginação do espectador era a encarregada da mudança do scenario.
O poeta corre toda a clave das paixões humanas, vibra todas as cordas do coração.
Ao terror despertado por Herodes e suas ameaças, succede a sympathia pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moços de lavoura, de manto, luvas de algodão e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com profusão de
xes
, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus nascido a protecção para Portugal.
Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. José, como carpinteiro que era, apparelhava um madeiro a enxó e plaina, emquanto a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a despontar o buço da puberdade. O anjo apparecia, como nas procissões, carregado de cordões de ouro.
No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica simplicidade. Quando os sagrados esposos estão para partir, chega a elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocetão em trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por não poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se muito a sua prima.
O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha personagens, reflexões e scenas sempre apreciadas e já aguardadas pelo publico, que as saúda com sinceras gargalhadas. D'estas a principal é evidentemente a que se passa entre um cidadão, de quem a sacra familia recebe gasalhado, e o criado do mesmo.
É uma scena de disputa domestica, cheia de allusões satyricas á classe dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidadão, depois de mostrar ao criado, de relogio em punho―anachronismo shakspeareano―a demora excessiva que elle tivera fóra de casa, diz para o auditorio:
Não se pode ter criados Hoje em dia, n'esta vida, Ou quem houver de os ter Não lhes deve dar guarida.
N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso episodio.
D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa de toda a peça, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, não pôde conter-se, que não exclamasse:
―Aquillo é que é uma verdade!
A espontaneidade da reflexão fez rir a familia do Mosteiro, riso que teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.
A scena comica prolonga-se, mandando o patrão distribuir pelo caixeiro o rapé ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito.
O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia pitadas ao publico, dizendo:
O meu amo, com ser rico, Gosta d'estas patuscadas. Nunca os senhores tiveram As pitadas tão baratas.
Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam, riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e não se ouvia senão: «Dominus tecum» e «Deus te salve» no meio de toda aquella confusão. Porém a um signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito das massas, tudo entrou na ordem.
Preparava-se nova transição dramatica. O criado, que vae a saír, volta, dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio:
Jesus, Jesus, que é isto? Jesus do meu coração! O signal da cruz me livre De tão terrivel visão.
Era a Fama que apparecia.
Ermelinda entrava em scena.
No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia tão completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensação correu o auditorio.
Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para lhe darem a apparencia superior.
O proprio Henrique, que até alli estivera commentando maliciosamente o espectaculo, não pôde reter uma exclamação de surpreza, que foi secundada por o conselheiro. É que parecia que um verdadeiro anjo occupava agora a scena.
A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.
Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos contornos e esbeltas proporções d'aquella creança, que promettia ser uma mulher esculptural. Os cabellos, cuja côr loura era de uma pureza rara, caíam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das faces sobresaía n'aquella moldura natural. Com os braços descaídos, os dedos encruzados, e a cabeça ligeiramente pendida, em expressão de melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem o céo, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto da innocencia, tendo nos passos a hesitação da timidez. Havia tanto de sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave d'aquella creança, que o actor que estava em scena não teve de simular espanto, porque o sentia real, e não podia desviar os olhos d'aquella apparição.
O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fôrça de um encantamento.
Como na antiga tragedia, o facto principal da acção, a carnificina dos innocentes, passava-se fóra de scena. Á Fama competia narral-o.
Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor de commoção, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a recitar os versos da narração, os quaes, como o leitor já sabe, não eram os do auto, que mestre Pertunhas se estafára a ensaiar.
Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:
Desci dos celestes córos, Por Deus mandada a escutar Da infancia as queixas e os choros, Para lh'os ir confiar. Desci. Na terra, nos mares Tanta miseria encontrei. Que os meus magoados olhares Da terra e mar desviei. Desci. E tantos gemidos, Tão dolorosos ouvi! Que, turbados os sentidos, Quiz recuar... mas desci.
N'esta colheita de dôres Pelo mundo todo andei, No pranto dos peccadores As minhas vestes molhei. Vagueando dias e dias, Chegára á Judéa emfim, Quando um clamor de agonias Veio de longe até mim. O sol, o sol inflammado D'estas terras orientaes, Tinha no disco afogueado Não sei que estranhos signaes. Soavam menos distantes Sinistros brados de dôr, Choros de mães e de infantes, Cantos de morte e terror. Vi anjos de azas nevadas Em bandos subir ao céo, Quaes pombas amedrontadas Fugindo á voz de escarcéo. «Onde ídes? Quem vos persegue? A que tormentas fugis?» Um, que triste o bando segue, Estas palavras me diz: «Somos as almas de infantes Mortos em guerra feroz; Inda das mães delirantes Nos chama a sentida voz. «Só a materna saudade Nossa carreira detem, Embora no céo, quem ha de Esquecer, o amor de mãe?» Disse e o semblante formoso Com as azas encobriu, E ao bando silencioso Silencioso se uniu. Eu segui. Na impia cidade Aterrada penetrei... Ai, da fera humanidade Os meus olhos desviei!
Que scena! Corre nas praças Sanguinaria multidão, Como nuvem de desgraças Semeando a desolação. Cáem por terra sem vida Tenras creanças ás mil, E uma turba enfurecida Corre á matança febril, As mães pallidas, chorosas, Supplicam, pedem em vão! N'essas feras sanguinosas Não palpita um coração. Outras tentam em delirio, Os seus filhos disputar, E com elles no martyrio Gostosas se vão juntar. Sobre a terra ensanguentada Eu soluçando, ajoelhei, E de intensa dôr magoada, A Deus piedade implorei. Findava a prece, e uma estrella No horisonte despontou, Pura, scintillante, bella O caminho me traçou. Á humilde e escondida estancia Da venturosa Belem Cheguei; vi um Deus na infancia Nos ternos braços da mãe. Minha colheita de dôres N'aquelle berço depuz, Da humanidade aos rigores Pedi remedio a Jesus. No olhar do divino infante Raiou a luz e fulgor, Foi a aurora radiante Que annuncia um redemptor.
Não se descreve a impressão causada por estes versos, que assim transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposição desconhecida e em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impressão d'aquella voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos, collos estendidos e bôcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma, aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cêdo formaram circulo á volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltação de artista combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expressão quasi de extase. Olhava para a filha como se a visse animada de inspiração divina.
Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bôca aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro só Angelo sorria, elle só interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente aquella voz de creança, que, em campo descoberto e no meio de tantos espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse alguma coisa de sobrehumana.
Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena, exprimiu n'um «bravo» todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.
O silencio degenerou na mais altisona ovação.
O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a sustentar, a logica da situação, e tomando nos braços musculosos o corpo debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braços para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a, os lenços das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo e de paixão; e Ermelinda foi de braços em braços, entre beijos e afagos, transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde não foi menos calorosa a recepção.
Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforços do mestre Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vêr as restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.
O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se não fôsse bastante pathetico para commover.
―Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os dizia!―exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena que vira.
Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:
―Foi Augusto que fez aquelles versos?
Angelo sorriu.
―Por que me perguntas isso a mim?
―Porque o deves saber.
―Então não crês no milagre?
―Responde.
Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o conselheiro:
―Se eu digo a v. ex.
a
que o Bernardim existe.
―Mas quem é?―perguntou o conselheiro.
―Não sei; porém posso afiançar a v. ex.
a
que não são estes os primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos montes são as suas confidentes. Não está certa, prima Magdalena, de umas quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?
―Sim; recordo-me.
―Não acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a attribuil-as á mesma pessoa?
―Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.
―Mas talvez este lhe seja habitual.
Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a accrescentar:
―Por muito o vêr por ahi desperdiçado por paredes de capellas e ruinas, e nos troncos das arvores.
Ermelinda foi de uma discreção impenetravel. Quando lhe perguntavam quem lhe ensinára os versos, sorria, respondendo que não sabia, ou que não podia dizel-o.
―Apostemos que n'isto entra Angelo?―disse o conselheiro.
O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fôra pura inspiração.
Henrique, aproveitando uma occasião em que estava proximo da morgadinha, disse-lhe ao ouvido:
―Parece-me que ia pôr o dedo no rouxinol silvestre, que tão bem canta sem se mostrar.
―Sim?
―Não ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediações. Estas aves melancolicas amam as inspirações nocturnas.
―Pois as noites nem sempre são boas conselheiras, primo. É a hora favoravel á espionagem e ás... calumnias... Mas se sabe quem é, diga-o. Aqui em minha casa e no seio de minha familia, é sempre bem recebida a verdade. Não ha quem se tema d'ella.
E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.
―D'esta vez foi de uma severidade!!―pensou Henrique.―Cada vez me convenço mais de que o idyllio existe e que vae já muito adeantado. Mas agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? Não foi má tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que o caso não vale a pena.
O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fôra d'esta vez mais intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da tenção que alimentava ainda, pois disse a Christina:
―Ai, filha, que não sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.
―Que dizes?!
―Nada. Ha doenças que fazem desesperar os medicos.
Era já noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fôram dispersando pouco a pouco.
A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem era devido o cantar os Reis.
Angelo saíra da sala. Fôra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.
Á medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras á fronte e ao coração do pobre rapaz.
Era a noite de Reis, a ultima dos dias de férias; na manhã seguinte devia partir com o pae para Lisboa.
Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades não se amontoam no coração das creanças ao expirar o termo d'esse feliz espaço de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos despreoccupados!
Percebe-se em nós mesmos aquella imminencia de lagrimas, que á menor palavra rebentam.
Quem não terá recordações de infancia a falar-lhe d'isto?
O pateo despovoára-se de gente; através das vidraças da casa viam-se já brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no chão, a cabeça inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e mulheres, sem que elle désse por isso.
De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos. Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficára atraz a pôr em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.
―Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus―disse Angelo.
―Então vae-se embora?
―Vou ámanhã―respondeu Angelo, com a voz presa de commoção.
―Muito cêdo?
―De madrugada.
Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.
―E agora quando volta?
―Eu sei lá? agora... só para agosto.
Novo silencio.
―Então... adeus...
―Adeus, Ermelinda.
E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo estreitou contra o peito aquella que de pequena tratára como irmã, e que chorava ainda mais do que elle.
Que melancolico fim de dia tão alegre!
A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.
―Ermelinda―disse logo a voz esganiçada e colerica, que saiu d'aquelle vulto.
Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.
Era a mulher do Zé P'reira que voltava das suas devoções e ficára surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadiça castidade d'aquella matrona toda se alvoroçou com a tocante despedida das duas creanças.
Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou pelo braço e a levou comsigo.
Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mãos d'aquella harpia a innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.
A sr.
a
Catharina do Nascimento de S. João Baptista ia dizendo, ao levar comsigo a afilhada:
―Que terão ainda de vêr meus olhos, meu Divino Pae do Céo? Que mundo este de abominação, meu doce Jesus! Ó Virgem das Dores, isto é para se vêr e não se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer, e já assim com a alma perdida! Ó meu Jesus crucificado!...
―Minha madrinha―dizia Ermelinda, chorando.
―Anda, anda, anda, minha amiga, que já os demonios saltam e riem de contentes. Teu pae é que tem a culpa. Isto são lá modos? trazer-te por entremezes, que são artes do demonio, e arredar-te da igreja, que é a casa do Senhor! É a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados são estes!... Ai, filha, que muita penitencia te é já precisa para salvares a alma!
―Minha madrinha, minha madrinha, por as almas não me diga isso―exclamava Ermelinda, aterrada.
―Os tres inimigos da alma te farão guerra, creatura, assanhados como cães raivosos... Eu previa isto... É o lucro de andar por essas casas de Satanaz, onde não ha religião nem temor de Deus... Ó meu divino Jesus, e para isto tanto padeceste por nós! E nós tão pouco caso fazemos dos vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois queixamo-nos da vossa justiça, quando já ardemos nos fogos do inferno...!
A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.
A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamações, bramando contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes, contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso, desenvolvia sobre o thema do peccado dissertações não em demasia apropriadas aos ouvidos de uma creança.
O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficára-lhe uma horrivel convicção de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a pobre creança bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que já tinha remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.
Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraçal-a, Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pôde saber que explicasse os vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o pranto; desistiu pois.
Pobre pae! não pôde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.
Deixou Ermelinda a dormir; não a quiz acordar; beijou-a na fronte desmaiada, abençoou-a e saiu.
―Comadre,―disse ao passar por casa do Zé P'reira―ahi lhe deixo a pequena. Olhe-me por ella, que não está lá muito boa.
―Vá com Deus―disse uma voz de dentro.
Era a sr.
a
Catharina.
O recoveiro partiu, silencioso e triste.
XIX
No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a muitas saudades. O conselheiro devia voltar sómente por occasião das eleições geraes que estavam proximas.
Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de coisas de pouco interesse e ás quaes elle ligava a minima attenção.
Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da cadeira; D. Dorothéa, de mãos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de Jesus que, depois de pôr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias e frequentes inexactidões em que a via cair.
Henrique habituára-se já a estes placidissimos habitos; e apesar de não ligar attenção á conversa, ou por isso mesmo que lh'a não ligava, achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.
Depois de muitas voltas a conversa caíu sobre as occorrencias do auto dos Reis.
―Eu ainda estou para saber como aquillo foi!―dizia D. Dorothéa.―Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!
―Ó senhora; olhe que já me disseram que a pequena tinha espirito―disse Maria de Jesus, com ar de mysterio.
―Olhem o milagre!―respondeu D. Dorothéa.―Por essa estou eu.
―Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a mesma.
―Então é mais do que certo.
―Ai, a tia Dorothéa tambem com crendices!―disse Henrique, rindo.―Então parece-lhe que traz espirito aquella creança?
―Pois, menino, aquillo a falar a verdade!
―E não é mais natural suppôr que alguem lhe ensinou os taes versos?
―Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e até que aquelles não calhavam bem nas lôas?
―O Pertunhas é um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo á pequena e até suspeito com que fim.
―Não, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas tão bonitas, que nem um livro. A senhora não se lembra?
―Ora se lembra!
―Digam-me―insistiu Henrique.―Quem ha aqui na aldeia que faça versos?
―Versos!―repetiu a D. Dorothéa, admirada.―Ninguem, que eu saiba.
―Ó senhora! Então o João do Trolha? Não deita tão bonitos versos nos desafios?
―Sem ser o João do Trolha―tornou Henrique, sorrindo.
―Ai, não se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, não se lembra, senhora, dos versos que elle botou?
Viva a senhora D. Dorothéa, Raminho de bem-me-queres, Quando põe a sua touca É a rainha das mulheres.
―E depois a mim:
Viva a senhora Maria, A perola das criadas, Quando se chega á janella Ficam as estrellas pasmadas.
―Ora com o que você vem, mulher! Não tinham as estrellas mais que fazer do que pasmarem―disse D. Dorothéa.
―Isso é por dizer, senhora; já se sabe que... sim... como o outro que diz...
―E além do João do Trolha, quem ha mais que faça versos?―perguntou Henrique.
―Que eu saiba...―disseram as duas.
―E aquelle Augusto?
―O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim! Credo! Não, aquillo é um rapaz de muito juizo.
―Isso não tira. Então a tia julga que só os tolos fazem versos?
―Tolos não digo, mas...
―Mas um pouco feridos na aza, não é verdade?
―Ora pois então dize-me tu, menino, se um homem sério... sim... um homem de respeito, faz versos?
―Por que não?
―Versos?!
―Versos, sim, senhora.
D. Dorothéa fez um gesto de incredulidade.
Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da entrada e após algumas pancadas á porta da sala.
―Abra, tia Dorothéa―disseram de fóra as vozes de Magdalena e de Christina, que fôram logo reconhecidas.
E cêdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria, que vinha mais retardada.
D. Dorothéa levantou-se para recebel-as.
―Bons dias ou boas tardes, tia Dorothéa, porque me parece que já jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que não nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do missionario―disse a morgadinha.
―Eu não; para apertos e barafundas é que não estou.
―E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorothéa.
―Então? Não quero passar por impenitente. Ainda o não ouvi. Pode crer? Além de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.
―Dizem que préga tão bem―atalhou Christina.
―Pois prégará, mas eu é que já não estou para sermões―ponderou D. Victoria.
―Vou eu tambem ouvir o missionario―disse Henrique, levantando-se.―Já m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem á figura...
―Então?―interrogou D. Dorothéa.
―É um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da grossura do pulso.
―Pois bom é que vás, menino―disse D. Dorothéa―para acompanhares as pequenas.
―Como quizer, primo,―acudiu Magdalena―mas não se constranja. O Torquato tambem vae.
―Que quer dizer? Que me dispensa?
―Não; mas que se é só por condescendencia que...
―É por prazer. É por devoção.
―N'esse caso...
E Henrique foi procurar o chapéo para acompanhar as duas primas á igreja.
O Santo Amaro fôra festejado com espavento na freguezia da sua invocação. Vesperas, missa cantada, duplo sermão, e procissão á volta da igreja, nada faltára para solemnisar a festa.
O sermão da manhã fôra prégado por o abbade; o da tarde havia sido concedido ao missionario, que o aproveitára para uma das suas catechéses.
A procissão já tinha recolhido, quando chegaram á igreja a morgadinha e Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de café, como n'um arraial.
Pela porta principal da igreja engolfava-se a multidão, como em bôca de sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as aguas impetuosas.
A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermão.
As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular, que se amontoava á porta da igreja, e conseguiram, por deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a capella-mór.
Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasião. Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres de roupas escuras e em que só alvejava o lenço branco que usavam á cabeça.
Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli dentro uma atmosphera quente, abafadiça e pouco salutar.
Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom, orações e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se escutavam lá fóra, e requintava a triste impressão que se recebia ao entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de pias orações, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em côro com Padre-Nossos e Ave-Marias; além viam-se outras com as faces rojadas no chão, batendo no peito e desentranhando exclamações, para commoverem a Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braços abertos deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. Ás portas d'estes nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a circumstanciada exposição dos peccados da semana, e recebendo de lá regras de bem viver, preceitos de devoção, ás vezes exaggerada e inspirada de certa moral de convenção, com que a ignorancia ou a má fé porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a consciencia reconhece e que o Evangelho apregôa.
Ás vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e exhausta de fôrças, abatida de animo, descrendo da misericordia divina, ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo cego, senão hypocrita, lhe pintára inexoravel verdugo. Quando outra se não succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes cubiculos, e sair de lá um padre de batina, sócos e capote de cabeção, satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo, tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os ingenuos espiritos que dirigia pela intimidação cruel.
De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre á igreja, que nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.
Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.
Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e sentia exacerbarem-se-lhe as prevenções que nutria contra o clero, cuja influencia moral, aliás justa e vantajosa, é cada vez mais diminuida por aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios improprios da sublimidade da sua missão e até dos preceitos da religião, de que se dizem ministros.
Henrique fez algumas reflexões n'este mesmo sentido a Magdalena, que não pôde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que os escutava, não de todo superior a este apparato terrorifico.
A hora marcada para o sermão approximava-se; haviam-se já evacuado os differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos os pontos da igreja e trasbordava para fóra das portas do templo. Quem de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia, na rua, se prolongava a multidão.
Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabeça coberta por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.
Nem o menor movimento revelava animação n'aquelle vulto.
Henrique notára essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porém, não foi a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confissão, reconheceram as feições da penitente por as de Ermelinda, a filha do Herodes, a formosa e amoravel creança, que, dias antes, tanto enthusiasmo causára, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos labios, que tanta graça lhe davam!
E era esta creança que tão longos peccados tinha a narrar, para assim ficar tanto tempo aos pés do confessor?
Ermelinda, vagarosa, trémula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e, como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cêdo rojava com ella a fronte no chão, que regava de lagrimas ferventes.
Pobre creança! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas teria a expiar aquella inconsolavel dor?
O confessionario d'onde ella se afastára, abriu-se, emfim, e ás vistas, que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, córado, de olhos e fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.
Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou aquellas cabeças todas, quando este homem appareceu.
Era o missionario.
A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente triumphal. Curvaram-se até ao chão as beatas, beijando-lhe a mão ou as borlas da batina, e pedindo-lhe a benção, que elle distribuia com profusão.
Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi do chão um estorvo.
Zé P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e realisando um triplice e admiravel esforço para firmar as pernas, para abrir os olhos, e para desembaraçar a lingua.
Dizia o homem:
―Ó sr. aquelle... ó sr. padre, ou missionario, ou lá o que é... eu quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A religião manda... Quando um homem se casa...
O missionario não esperou pelo fim da inesperada interpellação; com modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de cólera:
―Então que desafôro é este? Deixam um homem n'este estado vir ter commigo?!
E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que rira do desengano do Zé P'reira. Os mordomos acudiram logo para afastarem o Zé P'reira d'alli para fóra. Elle deixou-se ir, limitando-se a dizer mansamente:
―Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Então uma pessoa não pode dizer o que sente?
Ia elle já fóra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:
―Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!
Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:
―Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas não é mais de magarefe do que de pastor?
O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico. Henrique arrostou-o com audacia provocadora.
O padre entrou para a sacristia.
No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermão, o mais commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.
No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e pouco attrahente do famigerado educador dos povos.
Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com firmeza.
Esta tacita provocação durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabeça quasi ameaçador:
Emfim soltou o texto latino do sermão.
Seguiu-se nova pausa, e principiou.
Apesar do exemplo de Sterne, que não duvidou entresachar nas paginas humoristicas da
Vida e opiniões de Tristam Shandy
, um sermão sobre a consciencia, eu não ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.
Ainda se eu pudésse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava a recitação dos descosidos periodos d'aquella indigesta prática, talvez me animasse á empreza, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisação do povo e prejudicando a verdadeira religião, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz é abafada por aquella gritaria.
As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.
Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como um jejum mal guardado, uma confissão mal feita, uma involuntaria falta á missa, uma penitencia esquecida, uma oração supprimida, arriscava as almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo Officio, onde os autos de fé, os pôtros, e cavalletes aguardavam os delinquentes arrastados até alli; eis o resumo da oração. A fatal e desesperadora sentença, que o poeta florentino esculpiu no portico do inferno, traçava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.
Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto de um accusador, surgindo alli a pedir vingança, e não o do Redemptor sublime a implorar e prometter perdão. E tudo isto de mistura com imprecações contra as modernas instituições sociaes, contra a obra do seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que se descobrisse o cunho da época e que tendesse a modificar os costumes e as ideias em sentido menos favoravel á propaganda reaccionaria.
Á medida que a oração progredia, animava-se a voz do orador; augmentava a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.
Ao mesmo tempo os gemidos, os soluços e os ais do auditorio, e principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro manifesto, em gritos e alaridos. Cêdo era já um angustioso clamor em toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco impressionada por este espectaculo de desolação, voltou os olhos para Christina. Viu-a trémula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas, tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.
Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e tacitamente lhe communicou as apprehensões que sentia.
Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que se estava exercendo no animo timido de Christina.
Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as com commentarios satyricos ás palavras do sermão e á figura do orador, que ambas offereciam farto alimento para elles.
D'ahi a pouco Magdalena instava já com Henrique para que se calasse.
Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios improprios do logar.
Effectivamente não tinham passado despercebidos, do padre os commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Magdalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador, exacerbando-lhe a virulencia da phrase.
Já não podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a cólera, estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.
Alguns ouvintes, seguindo a direcção d'aquelles olhares faiscantes, haviam attingido já a causa d'elles.
D'ahi algumas murmurações que principiaram a sussurrar pela igreja.
No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fôram ellas mais acerbas do que nenhumas. A sr.
a
Catharina e as suas companheiras fartaram-se de anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no coração da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermão levára ao cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se fôssem já prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irmã e a prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem já não se atrevia a pensar.
N'uma occasião em que o missionario fulminava com mais vehemencia os progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do inferno aos telegraphos electricos e ás vias-ferreas, Henrique approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez não sei que reflexão tanto a proposito, que a morgadinha não conteve o riso; a propria Christina sorriu tambem.
Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braços hirtos e estendidos na direcção de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:
―Fóra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor! Fóra do templo, impios libertinos, que não respeitaes os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraçae-os, irmãos, se não quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. São esses os que trazem das cidades a peste para as aldeias; são estas as pragas que nos veem com as estradas e com a civilisação. Fugi d'elles, que trazem o demonio na alma! Homens sem religião, mulheres sem temor de Deus, mações, pedreiros livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos requeiro! Vade retró, Satanaz, vade retró! vade retró!...
E de cada vez que repetia a fórmula exorcista, o missionario estendia o braço na direcção de Henrique.
Este, desde que viu que a imprecação lhe era dirigida, levantou-se e fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder alli mesmo.
Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja má vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaças soavam já distinctas, os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomára proporções assustadoras.
Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a presença de espirito, que nunca a abandonava, segurou o braço de Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.
Henrique resistia e procurava falar.
O velho Torquato, trémulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.
O alarido, a confusão, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a cabeça, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.
Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que havia na freguezia, obrigaram, quasi á fôrça, Henrique a sair da igreja por a porta da sacristia.
Ao vêl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em confusão para a porta principal, para os vir esperar á saída da sacristia, e correu clamando atordoadoramente.
E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de braços que os ameaçavam, e de bôcas d'onde partiam gritos de «morte aos pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.»
Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.
Henrique parou á porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente furiosa e ameaçadora.
―Que querem de mim e d'estas senhoras?―perguntou elle, com voz firme.
Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:
―Morra o pedreiro livre!
―Ensinem esses senhores da cidade!
―Pouca vergonha!
―Isto não fica assim! Isto é de mais!
―Mação!
―Hereje!
―Quero passar!―repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.
―Havemos de ensinar estes fidalgos.
―Excommungados!
―Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.
Henrique não podia já reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo para elles, levantando o chicote que trazia na mão.
Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de varapaus cruzou-se sobre a cabeça d'elle.
E os gritos de «morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!» levantaram-se mais ameaçadores do que antes. Magdalena susteve, a tremer, o braço de Henrique.
E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.
Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da sacristia, e na quéda ameaçava ferir a cabeça de uma creança que, entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto de Magdalena, e de olhos espantados assistia áquillo tudo com infantil curiosidade, emquanto a mãe afflicta a chamava em altos gritos, procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mãos para proteger a cabeça da creança, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse para toda aquella gente:
―Não vêem que iam matando esta creança?
Esta simples acção, e estas palavras da morgadinha, produziram mais effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e será sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforçam por simulal-a, quando precisam do povo.
―Quem foi que atirou a pedra?―perguntou um.
―Temos tolice!
―Nada de pedra, olá!
―Então isto é coisa de garotos!
Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam «morra» achavam já reprehensivel a primeira tentativa de lapidação. E comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentença. Era evidente que o maior perigo passára e que um pouco de prudencia resolveria a crise.
O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e, irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido, apesar dos esforços de Christina e de Torquato para o reprimirem.
Uma circumstancia, porém, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e concorreu para dissipar a tempestade.
Foi o caso que, depois de ser posto fóra da igreja o Zé-P'reira, que, pelas razões que o leitor já sabe, e inda mais depois do mallogro da interpellação ao missionario, não olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que ainda n'aquelle dia servira á frente da procissão.
Ahi se conservou em quanto durou o sermão. Junto do artista deitára-se a dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na caixa―pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles floridissimos periodos acusticos.
Em posição de cansaço e desalento o Zé P'reira monologava, como era habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.
Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazêlo domestico da sua cara metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e sobre tudo a indifferença que principiava a perceber nas massas para as maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.
Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelão.
Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a philarmonica na aldeia, Zé P'reira andava triste e desassocegado.
N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um
ceci tuera cela
, como o que preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gôsto publico entravam em nova phase, preparava-se uma revolução na arte. O reformador era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira extravagancia romantica comparada á simplicidade e nobreza classica dos portentosos rufos do Zé P'reira, o mestre de latim realisou um commetimento digno de menção na historia da arte.
Pobre Zé P'reira!
Estas reflexões estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto de uma hora, em uma posição contemplativa deante do tombado instrumento de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma melancolia quasi poetica.
N'esta contemplação o surprehendeu a tumultuosa e subita saída do povo pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A intelligencia pêrra de Zé P'reira não achou logo a explicação do que via. Pouco a pouco porém os varapaus no ar, os gritos, a confusão, principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.
Os instinctos ordeiros e pacificos de Zé P'reira acordaram, e o homem ergueu-se.
Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao tiracollo a alça do tambor.
Olhou outra vez, e com um pontapé acordou o seu satellite, que, estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.
Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Então o Zé P'reira não esperou mais nada, tomou uma resolução, fez um signal ao rapaz, e...
Pom
―fez a baqueta d'este, caindo com toda a fôrça sobre a retesada superficie do bombo.
Taplão, taplão, rataplão, rataplão
...―responderam as baquetas movidas pelas amestradas mãos do Zé P'reira.
Muitas cabeças de amotinados voltaram-se na direcção do som.
O Zé P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das baquetas; começava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.
Principiou a acudir o povo para junto do artista.
Este tomára-se já do
raptus
, do phrenesi musical. Já não eram só as mãos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabeça que rufavam. De olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes, contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoço, a vergal-o para traz, Zé P'reira parecia endemoninhado. Não via, não ouvia, não sentia, não tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo, delirio, convulsão, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor, desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos, aquellas visagens extravagantes, aquellas contracções geraes, que o torciam, desconjunctavam e desfiguravam.
Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou com desespero, rufou até as baquetas se não avistarem, de rapidas que se moviam; rufou até o ouvido quasi não perceber a descontinuidade dos sons; rufou finalmente até cair por terra exhausto, no collapso que succede ás convulsões do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de uma gloria, todos os astros lhe invejariam tão esplendido crepusculo.