Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 3)
Reading edition
A beata, apesar de trazer sempre na memoria o
Vanitas vanitatum
do
Ecclesiastes
, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:
―Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um boi! É preciso não ter consciencia.
E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.
Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro recebido.
Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da alma.
É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres como os da beata.
O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.
―Toma lá, Ermelinda―disse elle, tirando da mala uma pequena medalha com um retrato.―É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes, para ti...
Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a creança.
A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o retrato.
―Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!―rompeu ella, com um espanto exaggerado.―Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida a uma creança!
O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:
―Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher? São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança, de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava.
O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando sempre, bradou:
―Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!... Compadre, eu não consinto... Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!... veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Então? Ora, senhores.
Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente.
―Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... Não basta dar á lingua... Na taberna não é que se governa a casa...
A sr.
a
Catharina abstinha-se agora prudentemente.
Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.
Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.
Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.
Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se apertando as mãos.
Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.
O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel contenda em que viviam.
VIII
Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.
Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.
Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha. N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem as do supplicio.
Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia, perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os humanitarios instinctos.
Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores do penoso tirocinio;―mas que importa? nem por isso é menos real o supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que lhe mingúa.
De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os momentos de alegria.
Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo, d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não tinham azas para voar.
Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os ensinou a ler.
Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as suas obrigações lhe permittiam respirar.
D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.
Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma voz bem conhecida d'elle.
Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.
―Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto.
Amice!
Pode falar a um amigo e colega?―dizia elle.
Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.
O latinista entrou esfregando as mãos.
―A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!―dizia elle, batendo no hombro a Augusto.―Invejo-lhe mais a pachorra do que o proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!... Faça como eu.
E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.
―Então que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!... Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E não é agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz até algumas quadras... Poh! poh!... já se sabe, até certa idade, mas nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocação é para a musica... Poh! poh!... Lá para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e Dorothéa―continuava elle, examinando os livros.―Novellas... Poh!... E isto que é?
Confessions
de Rousseau―n'este nome deixou aos diphtongos o valor portuguez―Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!...―E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi arremessado como se estivesse em braza.
Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de repulsão do mestre.
―Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?―perguntou elle.
―Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade...
Quousque tandem, Catilina
... Mas, é por esta vez...
―Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.
―Ah! grande maganão, que adivinhou―exclamou o mestre, abraçando Augusto com effusão.―É isso mesmo, se lhe não custasse...
―Irei.
―É que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica... Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal, e não ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peças do
Trovador
para ensinar á minha gente. São muito bonitas... Poh! poh! poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o pequeno... Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor? Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira d'isto. Pois não lhe parece, hein?
―Não sei bem o que quer dizer com a imagem―respondeu Augusto, levemente enfadado.―Além de que não posso adivinhar as intenções de um homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.
―Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo que vê... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa musica,
et coetera
, andar leguas e leguas para se metter n'este desterro... Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha,
et coetera
... O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preço ao dinheiro, meu amigo.
A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando Augusto, que não redarguia.
―Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!... mas agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.
―Eu?!
―Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho razão.
―Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a criada―disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa.―Em seguida irei aos seus rapazes.
―Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças... Sabe que ando com ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições. O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo pôr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas vá, vá jantar, que eu espero.
―Se quizer fazer-me companhia...
―Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua vontade.
Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, poz-se a examinar os papeis que ella continha.
Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções e esgares dos labios.
A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto trazia, quando o vimos no Mosteiro.
Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.
Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si, para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro e encetou novas variações de trompa.
―Então já! Apre! Isso é jantar a vapor―disse o latinista, pondo-se a pé, logo que Augusto voltou.
E momentos depois sairam juntos.
Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para voltarmos ao Mosteiro.
Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens, que pareciam limital-o.
D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.
A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno costuma dar-lhe.
Christina interrompeu o silencio por fim.
―O que eu não sei―principiou ella―é como o primo Henrique de Souzellas...
―Onze!―atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.
―Onze quê?―perguntou Christina, erguendo os d'ella.
―Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas, uma vez que está decidido que seja primo.
Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.
―E então que queres dizer com isso?
―Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.
―Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece dezembro.
―Não; vae magnifico para os nabaes―replicou Magdalena zombeteiramente.
―Se não mudar com a nova lua―continuou Christina, ainda formalisada.
―É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras baixas.
E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.
―Não sei de que te ris!―acudiu Christina, cada vez mais séria.―Pois não é esta a conversa de que tu gostas?
―Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.―E, mudando repentinamente de tom, accrescentou:―Ora vamos, Christe; não te zangues commigo.
―Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas coisas que mettem raiva―respondeu-lhe Christina, sempre agastada.
―Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.
Christina reproduziu o gesto de impaciencia.
―Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle agora; por isso...
―Pelo menos completa a duzia.
―Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.
―Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho na tal doçura... Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas franquezas.
Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão da prima.
―E não sabes a razão d'isso?―respondeu-lhe ella―a razão é o genio que tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não perdesse a paciencia comtigo.
―Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante! Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E pagas-me assim!
―És muito infeliz commigo. Pobre Lena!
―Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso vêr assim.―E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda certa malicia, Magdalena continuou:―Pois é verdade, dizias tu que não sabias por que o primo Henrique de Souzellas...
Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.
―Então que é isso? Não me acceitas a expiação?―perguntou Magdalena, sorrindo.
―Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as razões que tens para isso...
―Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!
―Eu não quero dizer...
―O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se fala n'este assumpto.
―Que lembrança!―tornou Christina, cada vez mais embaraçada―pois imaginas devéras que eu?...
―E por que não?
―Lena!
―Não ha nada mais natural.
―Se queres, juro-te...
―Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios.―Isso não, que é mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que ousadia ias pronunciar um juramento falso!
―Falso!
―Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo agora que eram fundadas.
―Suspeitas! que suspeitas?...
―O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.
―Lena!
―Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora. Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me dares a preferencia.
―Mas como imaginaste?...
―Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato do mundo...
―Mas...
―Faça favor de me ouvir―atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço o genio timido e porque... porque te conheço o genio timido e mais nada.
Havia mais alguma coisa, havia, mas não era coisa que se dissesse. Magdalena sabia demais que Henrique não saíra d'aquella primeira visita demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez, suspeitava de certo, não me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, que no coração do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a completou.
Christina já não tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para confessar. Encostando a face á mão, calou-se e deixou falar Magdalena.
A morgadinha proseguiu:
―É preciso que saibas, Christe, que é mais facil conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos são imprudentes e linguareiros, denunciam-se, dão signal de si, basta meia hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas qualidades, não; essas são modestas, humildes, discretas; sabem esconder-se. São precisos annos para as descobrir todas. Mas com que olhos de espanto me estás fitando! Parece que te causa estranheza o meu sermão? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso primo... e quem sabe se o futuro virá confirmar, em relação a mim, esse titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto, Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos olhos muitos dos seus defeitos.
―Quaes são?―perguntou Christina com viveza.
―Socega; são ligeiros felizmente, e parece-me que os poderá ainda perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu logo em mim a vontade de o sondar, a vêr se conseguia purifical-o do que n'elle houvesse de menos heroico. Então que queres? para a aldeia era um passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e revestiu em mim mais sério caracter, desde que vi a impressão que este sobrinho da tia Dorothéa te causára.
―Lena! Como te deu para suppôr que eu me apaixonei assim em poucas horas? Julgo que me imaginas apaixonada?
―Não, ainda não; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer termo d'esta fôrça, que deixarei á tua escolha, isso sim. Para isso não é preciso muito tempo. As razões, pelas quaes julguei isto, dispensa-me de t'as dizer, que pouco valem. Suppõe que foi por um tacto especial, por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.
―Pois o tino enganou-te.
―Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fôr realmente o que eu imagino que é, resta-me preparal-o para o tornar mais digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se não fôr, declaro-lhe já guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa fé e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz mentiroso, certo colorido, que é preciso ter visto muita vez, e em muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude, agrada a quem não está costumado, e pode causar graves enganos e desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra é mais da sociedade em que vive, do que d'elle proprio. É necessario deixar cair a primeira capa, para que o natural appareça.
―Não sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de outra―notou Christina, sorrindo.
―Se é! Lembras-te do que tantas vezes conta tua mãe? Que, quando ha annos foi a Lisboa, comprou lá por bom preço um cofrezinho que ella suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentação, desde que o verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou á vista a realidade? pois o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais sérios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os inexperientes.
Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou, olhando pela primeira vez fita para Magdalena:
―Ora dize-me, Lena, qual será a razão pela qual eu não devo acreditar que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e não o meu, que vias dependente do estudo que fazias?
A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas recriminações.
―Por uma razão muito poderosa, Christe, porque ias abrir o coração a um sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido―a desconfiança. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te falo, quando te falo séria; e porque me farias mal sem necessidade e immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o não merecia. Satisfaz-te esta razão?
A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que ás vezes tinha, e tomára quasi o da commoção.
Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida, apertou as mãos da amiga.
―Não faças caso do que eu disse, Lena; perdôa-me. Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei já, para tudo e para sempre, envenenado o coração.
A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.
―Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensação da pequena offensa que me fizeste, vaes-me fazer uma confissão formal, a qual até agora tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu coração? Dize.
Christina hesitou.
―Vamos,―insistiu a morgadinha―acredita que preciso de uma declaração para me guiar... E crê que é para bem teu.
―Que queres que te diga? Eu não me sinto apaixonada.
―Mas já te disse que me bastava um termo menos violento... um «agradada», por exemplo.
―Confesso que...
―Olha, se queres, podes até parar ahi. Esse «confesso que...» já diz muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afianço-te que não corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente coração, mas que queres? Não é o typo que me agrada... o meu ideal como se costuma dizer.
―E então qual é o teu ideal?
―Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim; e não sei onde o procure.
N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, até que D. Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas á quinta. Segundo o costume, ralhava contra os criados, a quem, não sei por que processo, attribuia umas dôres de cabeça com que acordára.
No dia seguinte, Henrique voltou de manhã ao Mosteiro; redobrou de galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina já mal podia disfarçar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a sua timidez não a deixava luctar.
De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar á nova visita ás senhoras do Mosteiro, para gastar as expressões da sua admiração deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura de não sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras á volta, que era a sala das sessões do corpo municipal; e de umas pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos officiaes.
Como é de suppôr, Henrique passou uma tarde deliciosa.
IX
Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinára para o passeio á ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves. Á hora, a que estas ainda se não ouvem chilrear, já a prima de Magdalena abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da projectada excursão matinal. Quasi não dormira toda a noite aquella rapariga, com tal preoccupação.
As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.
Christina vestiu-se á pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta dormia ainda. O projecto de passeio á ermida não a alvoroçára tanto. Christina foi acordal-a ao leito.
A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.
―Que queres tu, Christina? Que lembrança foi essa hoje de andares estremunhando a casa esta noite?
―Levanta-te, preguiçosa, levanta-te. Não o dizia eu hontem? Então são estas as madrugadas em que falavas?
―De certo que não são madrugadas; isto é noite é o que é.
―Dentro em pouco é dia. Queres vêr?
E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e correu as cortinas.
A estrella da manhã, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave estrella, que umas vezes assiste no crepusculo ás melancolias da natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos, scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.
―Vês?―disse Christina.
―Muito pouco. É esse o teu sol? Como vae alto! É pena que não alumie melhor do que esta lamparina.
Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de creança.
―Anda, Lena, anda. Assim não chegamos a vêr do alto da ermida o romper do sol.
―Pois queres vêr isso de lá?! Que crueldade! Em uma manhã de dezembro!
―Está tão bonita, que parece de primavera.
―Triste lembrança a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto é lá coisa que se faça? Vale por uma viagem aos pólos.
Christina não fazia senão ir do leito de Magdalena para a janella e voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos quando nos deixamos apossar da impaciencia.
―Não fazes ideia como está bonito cá fóra; n'alguns pontos ainda se vê neve.
―Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se vê neve!... Parece-me que já estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia ganhando. Vês?
―Mas não está frio; até parece que aqueceu o tempo. Então, Lena!... Elles... não tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e é um engano; aqui estou eu, que não sinto frio nenhum.
―Ora, mas tu estás em condições muito particulares. Quem tem uma fogueira no coração, não precisa...
―Ahi principias com as tuas coisas!
―Eu não sei; o que é certo é que esse teu enthusiasmo pelos passeios matutinos não é natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu t'os propunha? Ora, se me dás licença, eu explico isso.
―Não quero saber de explicações; veste-te, anda.
―Seja! Infeliz lembrança a d'este passeio. E foi d'aquella tia Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. Não, que já tem juizo; dorme a estas horas o somno da madrugada, que é uma consolação. Que sorte de invejar!
E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito para a vêr impaciente, principiou a vestir-se.
Christina ficára á janella, espiando os progressos do amanhecer e transmittindo á prima as observações que fazia.
―Olha, eu que digo?... já o Manoel vae abrir o portão... Não ouves os pardaes?... É dia claro já... Havemos de chegar com sol á ermida, o que não tem graça nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar prompta... Ahi vae já o Luiz com o almoço. É que não chegamos lá senão ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.
―Elle! Quem é esse elle que vem ahi?
―Pois quem ha de ser? Então não é o primo Henrique que nos acompanha?
―É o primo Henrique, é o sr. Augusto e é o Luiz, que tua mãe teimou em mandar com o almoço. Não sabia qual dos tres te merecia as honras de um «elle».
―Eu dizia o primo Henrique, que já ahi está no pateo―disse Christina, que n'esta occasião correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe fazia de baixo.
―Então, com effeito já chegou?―perguntou a morgadinha, admirada.―Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle tambem tem alguma coisa no coração!
―Tambem o julgo―respondeu Christina, despeitada;―é vêr como hontem te falou.
―Socega. Quando o coração tem alguma coisa, não se fala assim com a pessoa que causou esse mal.
―Não sei o que elle me está a dizer―disse Christina, olhando para o pateo.―Posso abrir a janella, Lena?
―Eu já estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manhã. Abre lá a janella, abre. Fala-lhe.
Christina correu a vidraça.
A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.
―Então aquella grande madrugadora da nossa prima, onde está?―perguntou elle a Christina.
Christina respondeu, sorrindo:
―Está a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio dia.
―Oh, que vingança a minha! Ella que tanto falou da minha indolencia!―disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de Magdalena, e elevando a voz ás vezes para se dirigir directamente a ella, mas sempre sem receber resposta.
Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio tivera ainda.
―De maneira que nós, priminha―continuou Henrique―damos uma lição de mestre áquella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos appareça; quero vêr a coragem, com que ousa apresentar-se.
―Eu vou chamal-a―disse sêccamente Christina, e veio dizer a Magdalena, com certo modo, que não podia escapar a esta:―Olha se appareces alli ao sr. Henrique de Souzellas, que não descança emquanto te não vê.
A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranças, dando ao penteado a mais singela e graciosa disposição, voltou-se para a priminha e disse-lhe sorrindo:
―Isso são já ciumes? Mal sabes quanto gósto de te vêr assim! Ao menos ha já vida n'esse teu coração, minha pobre pequena. O que te peço é que não me odeies, só porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem não via.
―Estás a imaginar ciumes, como hontem imanavas...
―Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir accrescentando. Mas, parece-me que ahi está mais alguem no pateo. Ouço falar. Vae vêr. Será Augusto? N'esse caso, espera-se só por mim para completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.
Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.
Henrique trocára com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois ambos a passeiar, um ao lado do outro, á espera das que deviam ser-lhes companheiras na romagem.
A conversa manteve-se pouco animada. Augusto não era expansivo com as pessoas, a quem o não prendiam habitos de longa intimidade; Henrique, talvez por não conhecer a extensão e natureza dos conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas; no frio, na chuva, no inverno e no verão, nos prós e contras da vida do campo e de varios outros assumptos sêccos de si e já além d'isso muito esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.
Digamos nós a verdade; estes dois homens não sentiam um pelo outro aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os corações e dá margens a confidencias.
Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestára-se entre elles certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiança instinctiva.
Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando não fôssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois indifferentes estão na presença um do outro, em entrevista forçada e fatigadora, é sempre saudada interiormente como uma redempção.
Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manhã de dezembro.
Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de D. Victoria, pé ante pé, para não a acordarem, esta presentiu-as, e mesmo do leito perguntou-lhes:
―Então já vão, meninas?
―Vamos, tia; vamos, mamã―responderam as duas a um tempo.
―O Luiz já partiu com o almoço?
―Já partiu, já, minha senhora.
―E ides agasalhadas?
―Como se fôssemos para a Siberia―respondeu Magdalena.
―Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa Senhora.
―Cá os levamos. Adeus, tia; adeus, mamã.
―Adeus, filhas; até logo, se Deus quizer. Olhae lá, não vos estafeis.
Ora os taes guarda-chuvas é que não iam. Para quê? Com uma manhã d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que até o frio abrandára com o vento! Por isso é que vinham ainda a rir.
Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique, depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe attenciosamente o braço, que Magdalena recusou com alguma impaciencia, porque se lembrou de Christina.
―Muito obrigada, primo,―disse ella com vivacidade.―Mas é preciso que o advirta de que não vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos trepar montes, atravessar ribeiras, costear
precipicios
, e para tudo isso é necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasiões, em que melhor nos servem os nossos dois braços, do que o braço de outro, embora seja o de um heroe.
―Mas de certo que não é á borda dos precipicios que esse auxilio se escusa―replicou Henrique.
―É, muitas vezes é. Ha bordas tão estreitas, que mal cabe n'ellas uma pessoa só; felizmente que a natureza nos dá um braço então... um braço de giestas, por exemplo.
―Vê lá, Lena,―disse Christina ao ouvido da prima.―Talvez seja melhor que acceites. Resta-me, a mim, o braço de Augusto.
―Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr. Augusto―continuou voltando-se para este―espero que tome a direcção do nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista; leve-nos por lá, embora tenhamos de comprar as bellezas á custa de perigos e de fadigas. Partamos!
O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos pés as alcatifas da mais rica vegetação; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes, arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos pés, permanecia aspero, severo e nú, como nas épocas primitivas, em que uma convulsão tremenda o evocára do seio da terra, para o consolidar em colosso.
Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda, que, havia perto de um seculo, a piedade christã plantára em volta da ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christãos que alli iam. Era custosa a ascenção por o lado, por onde os nossos romeiros, contra os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia além do Rocio os seus passeios, com medo das ingremes calçadas da cidade alta, julgou ouvir um absurdo.
Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que d'elle o separava.
O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava um bramido atordoador ao cair em toalha dos açudes e ao escoar rapido pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.
Áquella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do monte tinha não sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar através d'elle a briza da madrugada, e, aqui e além, um d'esses degenerados aloes dos nossos climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral do quadro.
A morgadinha, percebendo a hesitação de Henrique, deu-lhe alento com lançar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e atravessou, com não menor denodo do que os outros, o riacho, por o passadiço de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das outras, e que as aguas a cada momento ameaçavam cobrir.
Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os córtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurára facilitar, por aquelle lado, o accesso da ermida á piedade dos devotos.
As difficuldades para Henrique eram continuas.
A cada momento os embaraços d'este forneciam motivo para risos da parte de Magdalena. Christina não lhe podia levar a bem que se risse d'aquillo.
Para compensar as fadigas de tão trabalhosa ascensão, havia porém, a paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava, apparecia mais surprehendente e maravilhosa.
Poucos peitos teriam fôrça para reprimir um brado de admiração.
As nevoas d'aquella manhã de dezembro não eram bastantes para velarem a belleza do quadro.
Á medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos canteiros de um jardim.
Henrique não retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.
―É magnifico! é admiravel! é soberbo!―dizia elle, a cada momento e quando não era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.
O enthusiasmo de Augusto não era menos vivo! Dir-se-ia que eram os montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na planicie, se ia dissipando á medida que subia a encosta.
Magdalena e Christina tambem não estavam menos impressionadas por o que viam. Esta, porém, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer, que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.
Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manhã.
Henrique continuava a ser todo attenções e galanteios com Magdalena; parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mão a ella, sempre a ella, a quem dirigia tambem todas as reflexões que o aspecto da paizagem lhe suscitava e nunca á esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi achava a manhã desagradavel e o sitio feio e sombrio.
A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.
―Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo são mais devidos á necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos auxiliar―disse ella sorrindo.―A falar verdade, para quem tem passado a vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto. Tenho um pouco de alpestre. Adeante.
E de uma occasião, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:
―Pode ser que Christina careça mais do seu braço, primo. Ainda não teve a lembrança de lh'o offerecer.
Henrique só então deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o, offerecendo a Christina tambem o braço, que esta recusou, córando.
―Então por que recusas?―perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.
―Porque não quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.
A morgadinha abanou a cabeça em ar de reprehensão, fitando-a, mas não lhe disse nada.
Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. Já tinham passado acima dos rumores do valle, que não subiam a mais de meia encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo apparecimento do sol.
―Chegamos a tempo!―exclamou Magdalena que, deitando a correr, fôra a primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se não levantou.
Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao pé d'ella.
Houve um longo espaço de silencio, concedido espontaneamente á contemplação d'aquella perspectiva solemne.
As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presença de um espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: não se formulam longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em simples phrases, como estas:
―É bello!
―É magnifico!
―É sublime!
E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasião de que falamos. E eu, por analogas razões, os imitarei, desistindo de descrever o que só bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, não a imaginaria pela descripção, forçosamente pallida, que ahi lhe deixasse d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencherá bem a lacuna.
Desvanecida a primeira impressão, que não deixa ao espirito a serenidade precisa para os processos da analyse, principiaram, como é costume, a fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.
Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre os quatro.
Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus projectos e desconfianças; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua mutua frieza.
―Lá está o Mosteiro―disse Magdalena, apontando para o logar indicado.―Como parece pequeno, visto d'aqui!
―É verdade―respondia Christina―e olha, Lena, como se vêem bem as janellas do teu quarto.
―Lá está aquella que tu abriste esta manhã para cumprimentares...
Sentindo a mão de Christina comprimir-lhe o braço, concluiu:
―Para cumprimentares a estrella d'alva.
―As janellas do quarto da mamã julgo que ainda estão fechadas.
―Tanto não posso eu distinguir; comtudo afianço-te que sim. A tia Victoria não é muito matinal.
―Aquella casa acolá não é a de Alvapenha?―perguntou Henrique, apontando n'outra direcção.
―É―respondeu Augusto―e, mais adeante, alli tem a deveza, em que passou ante-hontem. Não é verdade?
―É justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei! D'aqui é que se vê. Lá vejo umas prêsas, por onde me lembro de ter passado tambem.
―Vê, acolá, aquella casa que tem uma capella ao lado?―perguntou Magdalena, apontando para um ponto distante.
―Perfeitamente.
―É a minha quinta dos Cannaviaes.
―Ah! É verdade, lá estão uns cannaviaes, se me não engana a vista.
―Justamente. Não sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.
―Sim? hei de visital-a.
―Coisa que se lhe peça, fazendo-se o voto da meia noite, é concedido―disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expressão da mais insinuante sinceridade.
―Que quer dizer o voto da meia noite?
―Tem uma pessoa de rezar á meia noite, e sósinha, sete estações no altar da Senhora―continuou Christina.
―Só isso? Boa é de cumprir a promessa. Já vejo que não ha aqui na terra desejo que se não satisfaça.
―Mais devagar,―acudiu Magdalena, sorrindo―pouca gente se atreve até a ir lá á meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas mortas por a sua antiga casa, dizem.
―Cada vez sinto mais desejos de lá ir―accrescentou Henrique, depois de ouvil-a.
―Além, entre aquellas arvores, sr.
a
D. Magdalena, vive um philosopho―disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.
―É verdade; o bom do tio Vicente.
―Tio Vicente? Quem é o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu possa augmentar o meu parentesco na aldeia?
―O tio Vicente é um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda é nosso parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim como quasi toda a gente por aqui.
―Que sombras negras são aquellas que se vêem no adro da igreja?―perguntou Christina.
―Na igreja? Ah! acolá? É verdade, parece um cordão de formigas―disse Henrique de Souzellas.
―São as mulheres que vão ouvir o missionario―respondeu a morgadinha.―Escutem, lá está a tocar o sino.
Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas do campanario da aldeia.
―A estas horas principiam as lamentações d'aquelle pobre Zé P'reira, que tão mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas devoções―notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a que na vespera assistira.
―Degenerou aquella mulher!―disse Magdalena―e, se quer que lhe fale a verdade, sr. Augusto, custa-me vêr o Cancella deixar a Lindita entregue assim a essa gente quando sáe da terra. A pequena é tão apprehensiva!
―Visto isso, já chegou aqui á aldeia a influencia dos missionarios?―perguntou Henrique.
―E não tem lavrado pouco!―tornou Magdalena.
Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras da morgadinha.
―Primo Henrique―disse ella―julgo que ainda será preciso o seu auxilio para livrar do contagio esta innocente Christina.
―Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a minha vontade.
―Olha, Lena, não vês?―exclamou Christina―são os pequenos que nos estão a dizer adeus das janellas do mirante.
De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenços brancos.
Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irmã e a prima. Estas tiraram tambem os lenços e corresponderam-lhes aos signaes.
Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:
―Annuncio a v. ex.
as
, que chega o rei da creação.
Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franças despidas da alameda já se tingiam de luz.
Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida faixa de purpura, que, em insensivel graduação, desmaiava para as extremidades até se perder de todo no azul-celeste.
Rompia já, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prisões que o retinham.
O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas meias sombras da madrugada.
Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha, que veio annunciar que o almoço estava prompto.
―Pois devéras temos um almoço?―exclamou Henrique, sinceramente surprehendido.
―Graças á previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o appetite―respondeu Magdalena. E logo após continuou para Henrique:―Agora é occasião mais accommodada de pôr em prática os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o braço a Christina?
Henrique, em quem a morgadinha suspeitára a intenção de lhe render a ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena fingiu não perceber.
E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoço.
D. Victoria não era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A alvura da toalha, a excellencia da louça e o bem disposto e apurado das iguarias convidavam.
Não se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mórbido, correspondente a lesão organica e como tal sem poesia.
Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justiça á cozinha do Mosteiro.
Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenças, conversou animada e espirituosamente.
Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com vontade das que ouviu a Augusto.
A morgadinha, por sua propria mão, preparou o chá.
N'estas alturas do almoço encetou novamente Henrique o tiroteio de amabilidades, de que por muito tempo não sabia prescindir.
Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.
Henrique ficára sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabeça.
―Bravo!―exclamou, depois de as ler para si―não imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir?
E leu:
Se estás mais perto do céo N'estas alturas da serra, Ai, porque tens, peito meu Inda saudades de terra? Em vez-de erguer os olhares Á luz d'este firmamento, Desço-os á sombra dos lares, Onde tenho o pensamento.
―É pena que a chuva apagasse o resto. Quem é o bardo, prima?
―Não sei; da aldeia de certo que não é―respondeu Magdalena, com indifferença.
Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.
―Da aldeia, não, diz a prima; e por que não? Com esta natureza é facil crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, tão capaz de escrever saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do poeta trocava os esplendores do céo... algumas d'essas casas, que ahi se vêem em baixo. Quem sabe se não será até o Mosteiro? Eu, por mim, confesso que se estivesse hoje aqui só, ou em outra companhia―accrescentou, olhando significativamente para a morgadinha-não teria dúvida em subscrever esta quadra, como a exacta expressão do meu sentir, porque...
Em vez de erguer os olhares. Á luz d'este firmamento
Eu tambem...
Os abaixaria aos lares Onde tenho o pensamento.
Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto á alameda.
Magdalena, que a seguiu com a vista, não disfarçou um gesto de despeito ao ficar só com Henrique.
―Prima Magdalena,―disse em tom mais affectuoso Henrique, passado tempo, e depois de mais algumas palavras―deixe-me falar-lhe com franqueza, agora que estamos sós. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porém, sinto-me tão seguro já do que lhe vou dizer, que não hesito. Não pode imaginar a indelevel recordação que me ficará d'esta manhã.
―Perdão,―atalhou Magdalena―diga-me primeiro o que é isso que me vae dizer. Prepara-se para me agradecer o almoço? Eu sou como os reis; gosto de estar prevenida do sentido das felicitações que me dirigem, para ir preparando uma resposta adequada.
-Que prazer tem em ser cruel!
-Deixemo-nos de loucuras―continuou Magdalena, séria já.―Quem ouvisse o sr. Henrique de Souzellas havia de suppôr que se preparava para me fazer uma declaração.
-Uma declaração do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por que não?
-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenções, peço-lhe desista d'ellas.
―Por quê?
―Porque não posso escutal-o.
―Ou não quer.
―Ou não quero; seja.
―Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu coração já...
―Que impertinente pergunta? Se
já
, não tenho ainda no sr. Henrique a necessaria confiança para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas de hontem, que é o mesmo que não nos conhecermos.―E accrescentou logo depois:―Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo Henrique.
―Que vae fazer?―perguntou-lhe Henrique, admirado.
Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique não desviava os olhos da morgadinha que, sem lhe dar attenção, proseguiu para Christina:
―O primo Henrique falava com certa exaltação da doçura do teu caracter; o meu amor proprio disse-me que―era pouco delicado estar assim a lisonjear uma mulher na presença de outra―e redargui por isso, pondo em dúvida a asserção e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na tua doçura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora dize tu.
Christina córou intensamente e não teve que responder.
Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo sentido e inflexão, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou desaffrontadamente a posição, em que Magdalena o collocára, e respondeu:
―Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma réplica amarga á accusação que lhe fazem, é a mais eloquente prova, já não digo só da doçura, mas da natureza angelica do seu caracter. Já vê, prima Magdalena, que «quando uma das mulheres que diz, fôr como a nossa boa Christina, não se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que alludiu.»
A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras; mas fingiu não comprehender.
Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave expressão que lhe era habitual, temperando-a com não sei que de ironico, que não escapou tambem a Henrique.
Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum parecesse disposto a baixar-se deante do outro.
Desviou-os porém uma dupla exclamação de Magdalena e de Christina, dizendo:
―Olhem o tio Vicente por aqui!
Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e approximava-se da mesa do almoço, o velho herbanario, em que já temos falado no decurso dos passados capitulos.
X
Era uma expressiva figura de ancião o herbanario.
A fronte larga e desaffrontada de cãs, os olhos ainda vivos e penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes meditações e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos; os habitos de solidão, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o caracter até fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando para uso proprio regras de viver, sem attenção ás convenções sociaes.
Era um enigma vivo.
Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita consagrava as maiores attenções e canceiras.
Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porém ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o á isolada casa em que vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo velho.
Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle, como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.
Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e mal digeridas noções de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais predilectos e consultados contava um exemplar da
Polyantheia
de Curvo Semedo.
O herbanario principiára em creança uma educação tal ou qual, que revézes de familia haviam interrompido.
Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os erros, que de taes livros assimilára, eram os elementos, com que chegou a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por maravilhosa.
E o caso era que a fama do homem voára de freguezia em freguezia, de concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.
Os costumes do velho, que errava por valles e montes á procura dos simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplações, com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginação popular aquelle typo, para ella quasi lendario.
Depois de se sentar á mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mão a Augusto, que lh'a apertou com affecto.
―Bons dias, rapaz,―disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e Christina, accrescentou com maneiras paternaes:―Adeus, pequenas; grandes madrugadas hoje!
Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:
―Guarde-o Deus!
Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.
Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:
―Quem é?
Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:
―O homem que, melhor que ninguem, está habilitado a responder a essa pergunta.
O velho nem sequer o olhou.
―Este senhor―respondeu Magdalena―é sobrinho de D. Dorothéa; está hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.
Vicente tornou a examinar Henrique.
―Então é doente?... Não parece... Olhar vivo... Côres boas... voz sã... Umh!...
Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente:
―A doença d'este senhor é um pouco de imaginação.
―E grandes effeitos nascem d'ahi―acudiu sentenciosamente o velho.―Lá veem na
Polyantheia
muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de dôres de cabeça, de que morreu. Pois tanto scismou que das amoras lhe viera o mal, que até se lhe formou no craneo uma pedra do feitio de uma amora.
―Com effeito!―disse Henrique, com ironica expressão de pasmo―ahi estava um cerebro de concepções rijas!
―É divertido!―disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para Magdalena.
―Pelo contrario―acudiu a morgadinha―o seu mal é a melancolia. Não é verdade?
―Eu já não sei qual é o meu mal. Estou quasi a dar razão á tia Dorothéa, que lhe chamou mania.
―Mania e melancolia não são a mesma coisa―emendou o velho.―Tambem lá na
Polyantheia
se diz isso bem claro. A melancolia é sem ira nem furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou cólera requeimada.
―De cólera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!―continuou Henrique, no mesmo tom.
Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse por irritar o velho, perguntou a este:
―Parece-lhe que terá cura a doença?
―Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este é divertido a final. Umh!... Mas contra tristezas e manias não ha como as folhas de ouro em caldo de frangão com flores de borragem e de herva cidreira.
―Este é como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabello; é um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que receita para as manias―disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava proximo.
O velho, que não tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras impertinentes de Henrique, córou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um relampago de irritação.
Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.
―Está bom, menino,―replicou elle amargamente.―Não diga mais, para se não envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou costumado a vêr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os não pedir. Seja attencioso com a velhice que não é baixeza nenhuma. Mas que é isto?―exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas sêccas que o vento trouxera até perto d'elle.―As folhas veem d'este lado! Então virou o vento? É verdade. Ah! sim?... Percebo.
E, depois de olhar para o ar, continuou:
―Mudanças tão repentinas!... Umh!... Já me não agrada aquelle azul e aquellas nuvens.
E levantou-se.
―Dou-lhes meia hora, e verão tudo isto coberto e quem sabe o mais que virá! Aconselho-os a que vão descendo o monte, que não é seguro descel-o quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, já me não demoro, que não tenho confiança na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!... Emfim tudo tem de acabar. Adeus!
E, sem mais palavras, sobraçou a caixa de lata, em que archivava as hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.
Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que parecia haver o que quer que era de forçado.
―É realmente curiosa esta antigualha―disse elle, que interiormente sentia já remorsos pela maneira por que tratára o velho.
―Ai, primo Henrique; que ainda está muito pouco preparado para viver na aldeia!―disse a morgadinha.―Tem uns melindres e uma maneira de vêr as coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenções, propositos de offender! depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos não estão aqui habituados e de que
se sentem
por isso feridos. Isso não é bom! Se vae assim, ou terá de nos deixar cêdo, ou grandes desavenças suscitará por ahi. Não repara que estes modos são proprios do campo?
―Perdôe-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...
―É um homem de bem―atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade de expressão, que até alli não mostrára ainda.
Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou firmemente aquelle olhar.
―Não o nego―respondeu Henrique, pouco depois―mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a imbecilidade.
―Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um juizo são e uma razão clara.
―Acha?―tornou Henrique, já algum tanto azedado.―Ha de dar-me licença de não fazer obra por as suas apreciações... se me é permittido.
―Procede mal―redarguiu Augusto.―Porque eu conheço aquelle homem ha muito e o senhor acaba apenas de o vêr pela primeira vez. Foi o senhor quem primeiro deu ás suas palavras um tom irritante, que desafiou uma digna correcção. Não lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A consciencia lh'o está dizendo n'este momento melhor do que eu.
―Lê fundo nas consciencias dos outros!
―Não é difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma só maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.
―Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! Até aqui suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereço a fineza de abrir uma excepção aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram maximas ou pensamentos moraes? Não reparei.
Augusto córou, mas respondeu com firmeza:
―Nem uma nem outra coisa; é um genero muito mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.
Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada ironia:
―É verdade, é verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu programma... de mestre-escola.
―Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalços, mas n'esse ponto podem dar lições a elegantes filhos das cidades.
―Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia, dever-lhe algumas lições tambem. Comtudo, como, felizmente, as circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lições que receber.
―Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.
―E acceita-a em toda a especie de moeda, não é verdade?―perguntou Henrique, cada vez mais petulantemente.
Augusto respondeu com a mesma serenidade:
―Não faço tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito salvo de pagar na mesma especie de trócos, quando julgar que os devo.
O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais acerbo caracter.
Christina, que já tremia de assustada, cingiu o braço de Magdalena, como para convidal-a a intervir.
Esta não o tinha ainda feito por uma simples razão. Desconhecia Augusto. A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens, rivalisava com o d'elle, eram tão novos para a morgadinha, que a surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade de uma intervenção. O aviso de Christina chamou-a, porém, á realidade.
―Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre os senhores é uma altercação―disse ella por fim.―Vejam que só teem por testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a contenda tomar outra feição. Por isso não é muito para louvar a escolha que fizeram da occasião, para uma justa tão pouco... amavel.
―Perdão, prima Magdalena; reconheço a minha culpa, e a grosseria do meu proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impôr aos discipulos o seu pensamento, quiz estender até mim este despotismo de...
magister
... Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...
―Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinião desfavoravel, que levianamente formou de quem lh'a não merecia. Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu não soffro é que se diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se não costuma fazer o mesmo por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer, lastimo-o; é porque não os tem.
―Com mais paz de espirito se discutirá tudo isso depois―disse Magdalena.―É de crêr que, como sempre, haja de parte a parte razão e aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja porta está sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui traz. E tal é o prestigio que a defende, que não consta de um só roubo sacrilego, que se fizesse n'ella.
Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando episodios da Paixão; os altares, adornados de columnas e florões de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a fé ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.
E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto. D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.
Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongára mais do que a prima a oração que fizera, contemplando a imagem da Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porém, não sei se pensando n'ellas.
Esperava-os uma surpreza á saida.
Realisára-se o prognostico do herbanario.
O vento sul que, segundo elle notára, soprava já havia algum tempo, viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do céo semeiára-se, pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea. Cêdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando por tingir uniformemente toda a extensão do firmamento. Ao mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, começaram a erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espaço, como montanhas moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro ás serras, que as aguardavam firmes.
Um denso véo de nevoeiro escondia já a paizagem, quando sairam da ermida.
―Depressa!―exclamou Augusto―já não ha tempo a perder! Desçamos antes que a tormenta nos colha.
―Tem medo?―disse Henrique em tom de mofa.―Um montanhez!
―Talvez tenha; em todo o caso ha de vêr que não é de inimigo pouco digno de o inspirar. Por agora peço-lhe tréguas ás zombarias e, por amor d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida. Felizmente que o criado já partiu. É um embaraço de menos. Vamos.―Detendo-se, porém, disse para Magdalena:―Se descessemos por o outro lado, minha senhora?
―Para quê?―respondeu esta.―É um momento, emquanto chegamos abaixo.
A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerração do ar; os álamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a chuva principiou por grossas gottas, e cêdo augmentou assustadoramente; havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas nuvens tomavam uma côr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas igualmente sinistras.
Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa orações fervorosas; Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.
Não era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo d'aquelles. O caminho, já de si ingreme e precipitoso, era quasi impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em catadupas, e os ventos vinham despedaçar-se furiosos de encontro ás arestas salientes da rocha.―Era necessario estar muito amestrado para o descer sem perigo.
Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim não tivesse de repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumára áquellas aventuras; e já então seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos despenhadeiros do monte.
A tudo porém attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que inspirava alento e confiança aos mais. Agil, como um animal montez, girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fôra reconhecido chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil transito, ora á retaguarda a dar a mão a Magdalena, que vira em embaraço, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos braços, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parára, sentindo que lhe resvalavam os pés no declive e na humidade do chão. O proprio Henrique, que não era o menos embaraçado do rancho, e nem isso admira, só a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de Augusto.
O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e aptidões, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este momento; ora Henrique não era homem que, tendo consciencia disto, ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma compensação.
Não descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos quaes sómente a preoccupação, em que iam os animos, impedia achar risiveis; porém que mais tarde deviam, como é costume, vir a ser alimento de animadas e joviaes recordações.
Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a pique e erriçada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espaço arremeçou-a ao abysmo.
Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porém em logar, onde seria difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.
Magdalena, no momento, não pôde reter um grito, que fez parar com terror Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.
A morgadinha, com a cabeça descoberta, tranças ligeiramente desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria já do seu exaggerado susto.
A rir, explicou o succedido, pedindo perdão pelo sobresalto que involuntariamente causára.
―Descança em paz!―disse ella, olhando para a mantilha; e accrescentou:―Sigamos.
―Mas não será possivel tiral-a d'alli?―perguntou Augusto, examinando o sitio.
―Para quê? Não podemos demorar-nos agora com isso―respondeu Magdalena.
―Eu desço a cortar uma canna lá abaixo aos Moinhos e volto n'um momento―insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.
Henrique notou, sorrindo:
―O alvitre é de homem prudente. Cuidei que os montanhezes não eram de tão bom aviso.
E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia humilhado, e ao mesmo tempo cedendo á influencia que sobre elle exercia a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma desnecessaria imprudencia.
Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexão, deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mãos á borda do caminho; tenteou com os pés as fendas e as anfractuosidades da rocha, até conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um ramo mais tenaz; á fôrça de vontade dominou a sua impericia em exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o braço, segurar a mantilha, que o vento arrojára ao precipicio.
Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos, pôde, roçando-se como reptil, e ferindo as mãos nas asperezas da rocha e nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os pés em terra, sem acceitar a mão que Augusto lhe offerecia, e com gesto radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de triumpho.
Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.
Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabeça murmurando:
―Que imprudencia!
―Na verdade!―disse Magdalena, ainda nervosa com a impressão que este incidente lhe causára―foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.
E a perturbação era tal, que nem acertou com uma phrase de agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais desejava reprehender, do que recompensar.
Esta reserva offendeu Henrique; serviços
a seu vêr
de menor importancia, tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.
Revoltou-o esta ingratidão.
Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, não concedendo sequer um olhar ás faces desmaiadas pelo terror, aos labios trémulos e aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o desespêro de vêr que fôra outra a que inspirava aquellas loucuras!
Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fôrça das enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que á vinda já tinham encontrado quasi submersa.
Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:
―Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar já coberta, como é provavel, vêr se o moleiro nos abre a porta do moinho, a fim de passarmos por lá. Vão descendo devagar, que eu volto.
―Então deixa-nos sós?―exclamou Christina, assustada.
―É um instante.
―Não sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicação―disse Magdalena.
―O peor está passado. Além d'aquella pedra já vêem o ribeiro e a ponte; o caminho indica-se por si.
E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.
Henrique ia agora na frente; após, seguia-se Magdalena. Christina fechava o cortejo.
O mau humor de Henrique augmentára de ponto, em consequencia dos receios com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos, a direcção do rancho.
Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiança que lhes estava merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o humilhava.
Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique perdera com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo o dia.
Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre demasiado affavel.
Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar. Christina menos.
Este silencio acabou por exasperar Henrique.
Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.
Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.
―Estou devéras arrependido, prima Magdalena,―disse elle com leve ironia―do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era demasiado cauteloso para heroe...
Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou proseguir.
Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.
Seguindo a direcção do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa d'aquelle duplo grito.
Refiramol-o em poucas palavras.
Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou não transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.
O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou para descançar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava. Assim, não obstante haver partido antes dos outros, não lhes levava muitos passos de avanço.
Ao chegar á levada, encontrou já as pedras do tosco passadiço, a que se dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em descer para a passar ainda a pé enxuto; mas a levada, agora torrente caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cêdo já não se viam signaes de ponte. O herbanario parou, embaraçado. Acima ficavam-lhe os açudes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.
O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas, sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.
Tenteou com o bordão o sitio, em que as suppôz. Encontrou a primeira, pousou um pé n'esse ponto; firmou-se como pôde, para resistir á fôrça da corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, até que de repente, ou por esvaímento de sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio, caiu na levada para o lado dos moinhos.
Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraça, de acudir, sem perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados do moinho.
Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o espaço, que o separava ainda do ribeiro, e lançou-se á agua.
Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto se revelava o seu amor de ostentação. Imaginava-se sempre n'um palco, deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o papel de homem perfeito. Fraco perante doenças imaginarias, arriscaria, para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por ventura, um impulso generoso, que não pudésse harmonisar-se com a convenção, que se chama elegancia.
Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhára n'elle.
Augusto era differente.
As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos, para sómente as revelar, quando pudéssem ser uteis.
Ao vêr cahir a mantilha de Magdalena, não arriscou temerariamente a vida para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais segurança, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida, para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o fazia recuar.
Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu ás anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:
―Bem vê que nem sempre é cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe tambem arriscar a vida, quando uma razão de humanidade lh'o pede. A sua imprudencia de ha pouco... agradeço-lh'a, mas... não posso approval-a. Confesse que não foi tão justificada como esta.
Henrique tinha a razão clara bastante e a consciencia justa para vêr que, apesar da sua façanha cavalheiresca, ficára, d'esta vez ainda, inferior ao seu companheiro.
Qualquer que fôsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, é certo que teve sobre a rebellião dos maus instinctos poder sufficiente para se obrigar a ir apertar a mão a Augusto.
O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforço da lucta com a corrente; ainda assim abraçou tambem Augusto, dizendo:
―Agradeço a Deus o haver-me dado esta occasião de te dever a vida, rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.
Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.
Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D. Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudéssem ahi dentro mudar de fato.
Augusto seguiu o herbanario a casa.
Passada meia hora saíam tambem do moinho os outros todos, depois de haverem renovado a roupa, que a chuva repassára.
No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas exclamações e ralhos por não terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ella lhes recommendára; estas iras cêdo se derivaram sobre os criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a não haverem avisado de que na vespera passára por alli o caldeireiro ambulante, repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.
Em Alvapenha, D. Dorothéa e Maria de Jesus não levantaram menor celeuma, ao vêrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de cobertores, emborcaram-o de
punch
e taes mêdos lhe insinuaram, que as apprehensões pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se da sua antiga victima.
XI
Censuravel descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios d'esta narração.
Que se diria de um
cicerone
que, por esquecimento ou proposito, deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questões e interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras, os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato de hontem, se dão ao de hoje mil versões diversas e se adivinha já o de ámanhã?
Pois no mesmo delicto incorremos nós, chegando a este undecimo capitulo, sem ter guiado os leitores á venda de Damião Canada, a qual podia dizer-se o verdadeiro coração d'aquelle organismo social.
Tudo quanto na terra havia de certa representação alli ia falar da coisa publica e tambem da particular;―da particular dos outros mais do que da propria, entenda-se.
Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza após horas continuadas de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o sol, já no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o envolvia, e mandasse os raios amortecidos ás cristas das serras fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na taberna.
Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.
Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe legaram os rigores d'aquella excursão, e ficou em Alvapenha, entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente desorganisação da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus incómmodos actuaes.
No Mosteiro nada tambem occorreu, que mereça narrar-se ao leitor.
Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que dizem os frequentadores do estabelecimento de Damião Canada.
Brilhante é a assembleia alli reunida. Além do proprietario, barriguda e rubicunda figura, que, assim posta ao pé das pipas, podia servir de typo para a representação de um Sileno, havia varias individualidades de peso nos destinos de toda a comarca.
Dê-se primeiro menção ao nosso já conhecido Bento Pertunhas, a quem as humanidades não faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em communicação social com os seus conterraneos.
Observada esta deferencia, mencionemos os mais.
Um era nem mais nem menos do que o sr. Joãozinho das Perdizes, em quem já temos ouvido falar por mais do que uma vez.
Era o dicto sr. Joãozinho morgado e proprietario em uma das freguezias proximas, chamada de Pinchões; mas propriedades e morgadia andavam-lhe tão embaraçadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos acuda.
Os autos, que diziam respeito á casa das Perdizes, enchiam um cartorio. Graças, porém, ao seu genio despreoccupado e folgazão, o sr. Joãozinho deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si não reservava nenhuns.
Proseguia n'aquella vida airada, que já lhe era necessidade. Frequentava as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos, e ás vezes para dar e levar sovas monumentaes.―Nos mezes de caça, a vida do morgado era perfeitamente nómada: estendia por leguas e leguas as suas excursões venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida, de que, de ordinario, participavam os cães, que o acompanhavam; distrahia-se tambem a conquistar os corações femininos da freguezia, calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou outro pae, marido ou irmão. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas tinha contas em aberto, o que não obstava a que entrasse em todas com ares de conquistador e expendesse alli as suas opiniões absolutas, com grande exhibição de berros e de punhadas.
Com todas estas qualidades, era o sr. Joãozinho das Perdizes um homem verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido que quizesse.
Tudo por lá era o sr. Joãozinho; não havia funcção, rixa, solemnidade official, para que elle não fôsse consultado. É que a superioridade do morgado das Perdizes não era d'aquellas que intimidam e acanham o povo; ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e vivendo com elles, o sr. Joãozinho não constrangia ninguem. Os seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a popularisal-o; justo é porém que se diga que algumas boas qualidades tambem para isso concorriam. O sr. Joãozinho não era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, não consentia que pessoa alguma, desde o mais rico proprietario até o jornaleiro mais miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. Não eram poucos os filhos-familias que resgatára de soldado, sem a menor caução ou interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum desgraçado se via perseguido pela justiça, encontrava, fôsse qual fôsse a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em certas épocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.
Graças, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joãozinho uma verdadeira potencia eleitoral.
Eis ahi o homem moralmente.
Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo, vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns botões de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela abertura; entre as calças descaídas e o collete avistava-se o cóz das ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mão; ao pescoço trazia um lenço de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calças de fazenda chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava até ás ultimas, crestára-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa matilha de galgos, podengos e perdigueiros.
Segunda e não menos importante personalidade era a do sr. Eusebio Seabra, chamado por antonomasia―o Brazileiro.
Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar compassado e com seus quês de oraculo, phrases sentenciosas e ares de protecção a todo o mundo.
Saira creança da aldeia e fôra tentar fortuna ao Brazil. Por lá esteve quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu não sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e varandas, jardim com estatuas de louça e alegretes pintados de verde e amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara, igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio manipulava.
As ambições de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos tocava a rachado. Fez á sua custa a festa do orago, chegando a mandar vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do chão. Apesar, porém, de todos estes beneficios á localidade, o conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra o acolhia e lisonjeava até, conservava por elle no fundo uma má vontade, um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cêdo, explosões.
Seabra era tão asseiado, quanto o sr. Joãozinho das Perdizes descurado no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botões de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas côres de uma ave da America; e o ouro, distribuido com profusão por todos os accessorios da sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodão fino. Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a com bota de polimento.
Além d'estes dois e do nosso conhecido Zé P'reira, que bebia, em silencio, ao pé do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia, dois lavradores abastados e já de avançada idade, e outros que deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas.
No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava sentado á porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.
―Pois é verdade―disse elle―fômos todos da mesma creação. O conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu ir para o Brazil. Andámos ambos na mesma escola, que era a do padre Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemecê ha de estar lembrado, sr. Luiz―accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que o caracterisava, a um dos lavradores.
―Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da Luciana.
―É verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle ratão do Vicente, herbanario, que era já rapaz taludo. Lembra-me, como se fôsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da Corredoura.
―Olha lá, hein!―diziam dois lavradores com um sorriso cortezão nos labios―então com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...