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A Morgadinha dos Cannaviaes

Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 5)

Reading edition

O pobre do Zé P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua vida de familia.

Esta occorrencia demorou o Herodes, que só tarde entrou no Mosteiro a despedir-se da familia que tanto lhe estimára a filha.

XXXII

Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada á insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, não porque os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de tantos pensamentos e paixões encontradas, decerto lhe disputaria o espirito.

Partir é já uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferença; partir para não voltar é uma ideia afflictiva, que mais violenta commoção desafia; partir sem esperanças no futuro... poucas torturas de alma se podem comparar a esta!

Experimentava-a Augusto.

Era quasi uma resolução de suicida a sua. Nenhuma ambição tivera poder sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero.

A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os olhos fitos na chamma da véla, com a cabeça entre as mãos, sem saber em que pensava, sem consciencia de si.

A noite estava socegada, e apenas o som monótono de uma fonte proxima interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas.

Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se costuma ler em situações identicas.

Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os seus movimentos uma indecisão, uma falta de consciencia, que não deixava dúvidas sobre o estado do animo que os regia.

Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas acções; e no meio do cumprimento de uma tenção, perdia a consciencia d'ella.

Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria comsigo; mas cêdo afastava-o de si com enfado.

Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de passados devaneios, effusão de uma alma sensivel, fructos da juventude e da solidão, a que a primeira inspirára o enthusiasmo, e a segunda a melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas.

Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em algumas de Magdalena. O sobresalto do seu coração, ao ler aquelle nome, era então mais violento que nunca.

N'estas pesquizas veio-lhe ás mãos um pequeno masso, que pertencêra ao herbanario.

Ia para as queimar tambem, quando a inscripção, que viu por fóra da cinta que as enfeixava, o fez hesitar.

Liam-se estas palavras:―

Cartas de Magdalena

.

Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma tentação.

Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que já tinha renunciado; era entrar em communhão de pensamentos com ella, e infeliz de quem não concebe a casta voluptuosidade d'este gôso.

Mas ao mesmo tempo hesitava.

Pertencia-lhe tambem aquelle legado? Não seria um abuso lel-as? Devia antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal poderia vir da indiscreção? Não tinha elle um coração que não devia abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o quasi em um tumulo.

E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente?

De que se poderia tratar alli, a não ser de algum affectuoso cumprimento da morgadinha ao velho, que sempre tratára com intima familiaridade, ou algumas meigas reprehensões por a sua porfiada ausencia do Mosteiro?

Augusto recordava-se até do velho lhe ter falado na indole d'estas cartas.

Nas vesperas de renunciar para sempre á felicidade, devia-se perdoar a tentação.

Abriu-as.

Não ia muito adeantado na leitura, quando já todos os signaes de hesitação cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a primeira, abriu, leu ou devorou outra, e após outra e outra, até a ultima; da ultima voltava de novo á primeira, e cada vez mais profunda commoção parecia dominal-o.

Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de todas.

Dizia uma:

«Meu bom amigo.―Hontem, depois que nos separámos, recebi de Lisboa a encommenda que esperava. O Angelo não se esqueceu. Mando-lh'a, para que mais uma vez faça de feiticeiro,

adivinhando

os gostos do seu amigo.

«Afianço-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revolução, mas emfim seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreção. E, quando nos virmos, peço-lhe que me não torne a falar nos laços em que diz que eu estou a prender o coração. Mette-me mêdo.―Sua amiga,

Lena

.»

Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam:

«Meu amigo.―Hontem

separámo-nos

de tão mau humor, que hoje acordei com remorsos, e não pude socegar emquanto lhe não escrevi para lhe pedir perdão. Espero que perdoará a este rebelde genio que tenho.

«Mas tambem para que me está sempre a ralhar? Não se assuste pelo meu coração; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle, faz-me sorrir.―É o de me apaixonar?―Então que tinha? Não sonhe com nuvens, e vá representando o seu papel de

adivinho

, que é uma generosa acção que pratica.―Sua arrependida inimiga,

Lena

.»

«Meu bom tio.―Ahi vão uns livros, de que eu não entendo nada. Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo remetteu-m'os hontem. Para Augusto não desconfiar, finja atraiçoar um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, já nada digo.»

A de mais recente data dizia apenas:

«Tio Vicente.―Pensei no que me disse do estado do coração do seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fôsse verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afianço que d'ahi nunca para elle virá a infelicidade. No entretanto, discreção por ora.―Sua affeiçoada sobrinha,

Magdalena

.»

Por a amostra, que lhe damos, o leitor não deve estranhar que estas cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos.

Cada uma era uma revelação.

Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha; d'ella lhe viera pois grande parte da instrucção que recebera, alli, na solidão d'aquella aldeia!

O mysterio dos presentes do herbanario, a que tão diversas explicações dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitára, pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os livros.

Nunca, porém, se lembrára de Magdalena; agora, que sabia de que origem provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com expansões de verdadeira idolatria. Já não tinha coração para se separar d'elles.

Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella por Augusto, não havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as reflexões a que Magdalena alludia.

O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois corações, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaçava degenerar em paixão. Toda a sua intervenção consistia em fazer com que elles se não revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse o incendio. Nas suas mãos paravam os dois fios da corrente, só elle a interrompia.

Esta situação do herbanario era para elle causa de grandes iuctas.

Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambições por o amigo; e, ás vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixão. Por outro lado, não estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer, hesitava e desejava poder abafar no coração dos dois os germens de pesares futuros.

Tivemos occasião de o vêr sob estas diversos impressões. Umas vezes reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanças. A chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de Augusto.

Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto.

Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao coração, e tão enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem se lembrava já da hora proxima da partida do motivo que a originára. Motivo que era o desmentido da sua illusão.

Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impressão que produziu foi dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braços, e assim permaneceu por muito tempo.

Depois levantou a cabeça n'um impeto de desesperação, exclamando:

―Para que me haviam de vir á mão estas cartas? Que espirito diabolico se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com a sua vista protectora só quando elle me vae deixar para sempre! E dizia ella que me não podia vir o infortunio d'aqui!... Não contava com as mudanças do proprio coração.

Na vidraça da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer.

―O Cancella já?... É pois certo que vou partir?

Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado ao caminhar para o supplicio.

Chegára o momento de romper com todas as esperanças.

―Estou prompto―disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que tinha dispersos na mesa.

―Cuidei que era mais cêdo―continuou elle.―Distrahi-me a ler umas cartas que estive a pôr em ordem, e o tempo correu. Vamos lá, meu pobre amigo, deixemos esta terra para os venturosos.

E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico sorriso.

Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplação.

Magdalena foi a primeira que falou.

―Admira-se de nos vêr aqui?―disse ella.―Que ha de mais natural? Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe deviamos... visto que vae partir.

E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de recriminação, que feriu Augusto.

―E é certo que quer partir?―perguntou Angelo.

―Sim... parto...―respondeu Augusto, perturbado.

―Mas por quê? Que significa essa resolução? Lena contou-me ha pouco tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame, e em nossa casa! Mas, já resolvemos; ámanhã, eu e Lena, havemos de falar, havemos de conseguir...

―Não, Angelo. É inutil. Deixe-me com o meu destino. É a elle que eu obedeço.

―Não fala verdade,―acudiu a morgadinha―diga que obedece á sua phantasia, e commette uma ingratidão.

Á palavra «ingratidão», Augusto não pôde reprimir um sorriso de amargura.

―Uma ingratidão, sim―repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e serenidade áquelle sorriso.―Ha dias, depois de uma scena dolorosa para todos nós, quando saía do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que não partisse sem se despedir... de quem através de tudo, o acreditaria innocente. E para esta pessoa não houve uma só palavra na carta de despedida que mandou a meu irmão! E escreveu-a sobre o tumulo de minha mãe!

Estas palavras fôram ditas com tão sentida commoção, que Augusto esteve quasi a lançar-se-lhe aos pés, para pedir perdão; reteve-se, porém, e respondeu turbamente:

―Porém, minha senhora, por essa occasião eu jurei tambem á pessoa de quem fala, e a quem serei sempre grato, que não procuraria tornar a vêl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno da sua generosa confiança.

―Foi isso que jurou, ou antes que não procuraria ser visto?―perguntou Magdalena, sorrindo.―Veja qual d'esses juramentos será mais em harmonia com os seus actos.

A lembrança da excursão nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena, tirou a Augusto o animo de responder.

Magdalena comprehendeu aquelle embaraço, e não insistiu.

―Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas da sua justificação?

―Não, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar justificado para com a consciencia.

―Não tem direito para o fazer. Uma alma, que é nobre, deve homenagem a si propria. Resignar-se á suspeita, é como um suicidio moral.

―Justamente, minha senhora; e não concebe que haja casos em que o suicidio seja natural?

―Meu Deus, Augusto―exclamou Angelo―como eu o estranho! o que o levou a esse desespero?

A morgadinha sorria, ao responder ao irmão:

―É uma febre que passa, verás. Quer que lhe fale com franqueza, sr. Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa descrença, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento da partida, não só não partirá, mas até ha de tomar parte na nossa primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina.

Estas ultimas palavras fizeram impressão em Augusto, que instinctivamente repetiu:

―Do proximo casamento de Christina?!

―Pois não sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.―É verdade, o sr. Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com que arbitrariamente nos tratavamos.

Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expressão, dizendo:

―Quê?... pois é com Christina... pois Henrique vae casar com...

Só depois de lhe romperem dos labios estas palavras, é que, reconhecendo a indiscreção da sua surpresa, accrescentou com mal simulada indifferença:

―Ah! não sabia!

―Devéras? Pois não tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem vêr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque o Cancella tambem estava na mesma crença. Parece que correu essa voz na aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles!

E, mudando de inflexão, proseguiu:

―São dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma maneira, aquella sympathia. Fôram singulares as circumstancias em que isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na capella-mór da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fôra rezar, pela saude de Henrique, as estações da meia noite; onde Henrique foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; intervenção algum tanto perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas intenções de que as de qualquer dos tres, e que, ao vêr-me em tão extraordinario sitio, a taes horas, não me concedesse a confiança precisa para acreditar, através de tudo, na minha innocencia.

A allusão era clara, e mais clara a fazia a inflexão com que foi pronunciada.

Augusto curvou a cabeça e murmurou:

―Tem razão, algum miseravel.

―Ou algum infeliz―corrigiu delicadamente Magdalena.―Os infelizes são tambem sujeitos a perderem a fé. Mas quem lhes pode levar a mal isso?

Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse mais jovialmente:

―Mas afiancei ha pouco que não partiria. Acaso me enganei?

Augusto, como o leitor concebe decerto, já não tinha animo nem razão para dizer que partia. Calou-se.

Angelo, a cuja prompta intelligencia não tinha ficado latente o verdadeiro sentido d'este dialogo, graças tambem ao conhecimento que elle tinha, havia muito, do coração de sua irmã e do de Augusto, respondeu por elle:

―Não te enganaste, não, Lena. Tambem eu já digo que Augusto não partirá.

E Augusto sem protestar!

Magdalena tornou-se de subito mais séria e grave do que até alli, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmão, dizendo:

―Para vir aqui, pedi o auxilio do teu braço de creanca, Angelo, como se fôra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da mesma maneira, emquanto não termino a minha missão. Ha pouco, depois que me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: «Que tencionas fazer?» Não é assim?

―Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te acompanhasse aqui.

―Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo, que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse pensamento não está cumprido ainda.

―Vejo que não.

―Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.

E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar:

―Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação, até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem, os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo. Terás que me ralhar por causa d'ella?

Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos apaixonados.

Magdalena não teve pressa de retiral-a.

Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á pergunta d'ella.

Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os.

O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.

―Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas. Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...

Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o rosto.

Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:

―E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro.

Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com firmeza:

―Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.

Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só.

O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de resolução o seu companheiro de jornada.

Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.

Estes não conseguiram dissuadil-o de partir.

Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento.

Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.

O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas paixões, que desisto de descrevel-as.

XXXIII

Na manhã do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual incluimos já D. Dorothéa e Henrique, reunida em uma das salas do Mosteiro.

As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e Henrique jogavam o xadrez; D. Dorothéa e D. Victoria conversavam a respeito do preço de umas meadas de linho, que esta tinha dado a córar, e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria, das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera, já a pedir empregos e graças em paga dos serviços eleitoraes, ás vezes hypotheticos.

A cada passo, porém, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que não com menor frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da irmã.

Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos da costura.

D. Victoria e D. Dorothéa não era raro metterem-se na conversa dos outros, d'onde facil transição achavam logo para voltarem aos seus assumptos favoritos: meadas e criados.

O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia notar alguma mais exorbitante pretensão de tantas que examinava.

Era evidente que todas aquellas cabeças estavam pouco preoccupadas com os assumptos apparentes das suas cogitações.

―Ó Lena!―dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem conseguir ser ouvida―que tens tu esta manhã? Que distracções são essas, que não respondes quando te chamam?

―Pois falaste-me?

―É o que eu digo! Ó menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em que tempo é que as laranjeiras teem flor?

―Ah! Christe!―acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.―Esse pensamento é linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a scismar.

Christina córou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:

―Ora, não era isso, tio. Eu perguntava, porque...

―Socega, quando o véo estiver prompto, a laranjeira não nos faltará com ramos e flores.

―Não, mano―disse D. Victoria―olhe que se não trata de vêr o que é que está dando nas laranjeiras, dentro em pouco não ha uma só na quinta. Que tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que são só para elles. Não que não faz ideia!...

E continuou com D. Dorothéa a narração dos abusos de que os criados eram culpados.

D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.

―Esta é galante!―disse elle, examinando uns papeis e rindo.―Ora ouça isto, Henrique. Aqui está um homem que deseja que eu lhe empregue nada menos do que sete sobrinhos que tem. Sete! É uma geração como a de Jacob; se estivessemos na côrte de Pharaó!...

―Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio completo―disse Henrique.

―Oh! oh!―disse o conselheiro, passados alguns momentos.―Cá está o meu amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor.

―Pois o maroto ainda se atreve?

―E que despeza de estylo que faz! É uma ode congratulatoria em prosa.

N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos passou-se o tempo até a chegada do correio, successo que marca época n'uma manhã passada na aldeia.

N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleições dos differentes circulos do paiz.

O conselheiro já por tres vezes consultára o relogio, extranhando que o correio se demorasse.

Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos; Henrique deu subito desfecho ao jôgo com um lanço absurdo, e ambos se precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao espaldar da cadeira de Henrique.

O conselheiro principiou por ler uma carta.

Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico.

―Oh! oh!―disse o conselheiro, logo ás primeiras linhas que leu.―Temos crise ministerial. As eleições fôram pouco favoraveis ao governo; perderam-se em quasi toda a parte!

―Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo de fundo―disse Henrique.

―Dizem-me n'esta carta que já se fala em que o ministerio vae pedir a sua demissão.

―Este artigo allude apenas a uma reconstrucção do gabinete.

-«O governo―proseguiu o conselheiro, lendo,―nem espera pela constituição da camara e cáe por estes dias, infallivelmente. Quando vossê receber esta, já talvez elle pertença aos livros findos.»

―«Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura camara»―lia Henrique no periodico, que logo em seguida pôz de lado, para consultar outro.

―«Não imagina―continuava o conselheiro, lendo a carta―o movimento de ambições que vae já por aqui». Ora se não imagino!

―Um numero do

Suffragio Nacional

!―exclamou Henrique, abrindo segundo periodico.―Provavelmente é alguma amabilidade que lhe dirigem, sr. conselheiro; elles que lh'o mandam!

―Sim, decerto. Como da outra vez. Veja lá,―disse o conselheiro, sorrindo―aos moribundos tudo se perdôa.

Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivára a remessa d'ella para o Mosteiro, onde não costumava vir.

―Ah! temos correspondencia cá da terra!―exclamou por fim.

―Deve ser isso. Já tardava. É communicado do Seabra. Leia, que são curiosos. O homem a apreciar as eleições de domingo deve ser soberbo. Isso não se pode perder. Leia, leia.

―Assigna-se

um eleitor indignado

.

―Justo. É o estylo do homem. Vamos lá a vêr isso.

Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro.

A peça litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu transcrevel-a aqui, se, pela sua extensão, não tomasse demasiado espaço, e se, pela sua unidade e estreita ligação logica, se não subtrahisse á menor tentativa de fragmentação.

Aquelle communicado era indivisivel.

Apesar d'esta forçada omissão, espero que os leitores farão a justiça de suppôr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar com tanta proficiencia na taberna do Canada.

O homem escrevia recheado de indignação pela serie de illegalidades, escandalos, subornos e pressões de todo o genero, de que, dizia elle, fôra theatro aquella pacifica aldeia do Minho.

Em

linguagem chã e rude

ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de todos uma

pestifera chaga do organismo social

.

Sophismára-se a urna e calcára-se aos pés a Carta

. As phrases em italico são d'elle. Depois de um exordio por esta afinação, em que fazia a conveniente razão de ordem, entrava o homem na materia. Era um modêlo de impertinente bisbilhotice o escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora.

Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse que havia de fazer, e não fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais maltratados era o sr. Joãozinho das Perdizes. Dizia o auctor da correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera pressão sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberrão cheio de dividas, amigo de malfeitores,

et coetera

.

O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.

O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas.

O brazileiro não lhe perdoára a pressa com que este celebrára a victoria do conselheiro, á frente da philarmonica que regia.

Por vingança chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe suggeria, inclusivé o de estafador de trompa, e fechava por estas memoraveis palavras:

«Para levar á evidencia o caracter infame e intriguista d'este sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio.

Proh pudor!

»

Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensação no auditorio.

Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bôcas uma exclamação de surpresa ou de alegria.

―Como é?... como é?...―perguntou o conselheiro.―Diz que...?

―É o mysterio que se explica―respondeu Henrique.―A traição encarrega-se de a si propria se desmascarar.

―Então foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma pasta!

―Era a de Augusto.

―Mas como estava ella ahi?

―Lá isso sei eu como foi,―disse D. Victoria―fui eu que, por engano, lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a leitura dos pequenos.

Christina celebrou a descoberta, beijando com effusão a morgadinha, e dizia:

―Venceste, Lena! agora está bem provada a innocencia d'elle, até para os que mais duvidavam!

―E quem não duvidaria?―acudiu o conselheiro, como para se desculpar da desconfiança.

―Quem o conhecesse bem, meu pae―respondeu Magdalena, a quem a commoção recebida dava animação ao olhar e ao semblante.―Eu e Angelo, por exemplo.

―E então eu?―accrescentou Christina.―Eu não entro na conta?

Esta reclamação valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que recebera.

―Olhem o pobre rapaz!―dizia D. Victoria, sinceramente consternada.―E eu que o tratei tão mal! Bem me dizia elle: «Não tenha pressa de dizer nada a seus filhos, minha senhora, não lhes ensine a duvidar de um homem que elles se costumaram a amar e a respeitar.» E o caso é que eu, desde que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo tão sério e triste, fiquei resentida, e não disse nada ás creanças, que todos os dias me perguntavam ainda por elle.

―Mas...―dizia D. Dorothéa, deveras embaraçada―eu não sei ainda bem do que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o quê?...

―Ó tia Dorothéa―atalhou ―Ó tia Dorothéa―atalhou Henrique―por quem é, não insista na pergunta. Depois que se sabe que uma suspeita é falsa, não ha nada que mais escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.

―Tens razão, menino. E que precisão tenho eu de saber uma coisa que não é verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique, está-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na consciencia. Ora anda lá.

―Não, tia. Ha muito que lhe faço justiça. Ao principio não digo que não. Mas durou pouco tempo e já estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e até se, em expiação, me não puz em campo a auxilial-o a justificar-se, é porque elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero dizer―emendou, olhando para Christina―a felicidade que me procurou sob a fórma de doença...

Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.

O conselheiro, que ficára pensativo depois das primeiras reflexões que lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:

―Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei áquelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica, apprende-se tanto e tão depressa a duvidar! É sorte minha! Homens, a quem eu estimava devéras, fôram exactamente os que mais fiz padecer! Senão, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia, dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sairá da ideia aquella scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e já então de viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou para o perder, e não só o privei do modesto logar que elle exercia, mas até levantei contra elle uma accusação infamante, e quasi o expulsei de minha casa... É triste que a vida politica me tenha obrigado a estas crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que maneira lhes parece melhor?

―Eu se fôsse―disse D. Dorothéa―fazia como a morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser só padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor de Friande...

―Isso era se elle quizesse ser padre;―acudiu D. Victoria―mas parece-me que não quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, já que o outro foi tratante!...

O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e não pôde deixar de dizer:

―N'esse caso deixava só ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu, Lena, qual é a tua opinião?

Magdalena respondeu sem vacillar:

―A minha opinião é que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe humildemente perdão pela offensa que lhe fez.

―Mas involuntaria―ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que não pôde bem disfarçar.

―Mas offensa―repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse totalmente a fôrça da expressão.

―É um pouco dura de cumprir a sentença, sobretudo esse adverbio humildemente... Não lhe parece?―perguntou o conselheiro, voltando-se para Henrique.

―Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinião―respondeu Henrique;―mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude d'esta desagradavel occorrencia.

―Qual é?―perguntou o conselheiro.

Henrique olhou para Magdalena, respondendo:

―Repito que tenho escrupulos em dizêl-o, porque talvez não seja eu o mais competente para o fazer.

―Tem razão, primo―disse Magdalena.―Elle proprio o dirá. É mais natural.

―Mas sábel-o tambem tu, Lena?

―Sei.

―Então dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.

Magdalena hesitou.

―Vamos, Henrique―disse Cristina, sorrindo―não esteja com tantos escrupulos. Diga o que pensa.

―Pois quer? mas se sua prima me não perdôa?

―Eu o protegerei. Fale.

―Então, Christe?―tornou Magdalena.

―Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode.

―Fale, fale―disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D. Dorothéa.

―Falarei. A recompensa a que Augusto aspira é a de fazer parte da familia de... da nossa familia―respondeu Henrique, olhando para Magdalena, que já não tentava retêl-o.

―De fazer parte da nossa familia?―repetiu o conselheiro.―Mas como?

―Como ha de ser? visto eu não estar resolvido a prescindir de Christina, e Marianna ser ainda creança, facil é de conjecturar o unico meio que ainda resta de realisar aquella pretensão.

O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir, dizendo:

―Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabeça?

―Mas que é a final? eu não entendo―dizia, embaraçada, D. Victoria.

―É uma coisa muito simples―respondeu Henrique.―Augusto sentiu o effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adoração para com a magnetisadora.

Esta explicação foi recebida com espanto por D. Victoria.

―Ora! está a brincar, primo Henrique? Não ouve aquillo, prima Dorothéa?

―Mas que é, que é?―perguntou esta.

-Diz que o Augusto aspirava...

―Perdão, eu disse que o Augusto adorava e não aspirava. Quem pode tomar contas a um coração do culto que elle guarda religiosamente em si? A prima Lena é adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porém...

―É possivel!―exclamou tambem D. Dorothéa, espantada.―Por essa não esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto!

O conselheiro ria ainda da noticia que recebera.

Magdalena córou ao ouvir todas aquellas exclamações de estranheza. Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado, disse com vivacidade:

―Não sei que haja no que diz o primo Henrique nada que mereça esses espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeição que inspire? É verdade. Julgo que não se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no coração e não na cabeça, meu pae. Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque é natural sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais nobre e mais puro do que d'antes.

O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom profundamente irritado:

―Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. Vê lá se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom senso, até o ponto de tomares a sério phantasias e creancices.

―Não é phantasia nem creancice, é uma resolução de mulher―respondeu Magdalena, com firmeza.

―Uma resolução de creança, que está na minha mão remediar―tornou o conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.

Porém para o génio de Magdalena já não era possivel recuar nem parar; replicou:

―Talvez não. E deixe-me então dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu coração. Adivinhei-lh'o eu. Longe de procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava resolvido a deixar a aldeia para sempre.

―Mas ficou―notou o conselheiro com ironia.

―Ficou―respondeu tranquillamente Magdalena―porque eu lhe pedi que ficasse.

O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a filha com olhar severo e interrogador.

A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfôrço interior:

―Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a affeição desinteressada e pura que elle guardava no coração; ficou, porque eu, que só tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e que o sabia tão leal como pobre, tão innocente como perseguido pelo infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pêso de uma accusação em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir eu propria procural-o para lhe estender a mão e dizer-lhe: «fique, e prometto-lhe que todos lhe farão justiça em breve.»

Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltação crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro.

Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo sentiram-se profundamente inquietos.

Todos viram passar por differentes côres as faces do conselheiro, os labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente alterada pela cólera, disse para a filha, passados alguns instantes:

―Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem naturalissimos á sua razão estragada pelos romances. Eu ainda não prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servirá para corrigir essas levezas, de que deveria envergonhar-se.

Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posição de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou, desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer.

Entre as falsas situações, em que nos achamos ás vezes n'esta vida, poucas se podem comparar no incómmodo que produzem, á de assistir a uma questão domestica, por qualquer motivo que seja originada.

Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que prendeu Lena nos braços, não sei se para instinctivamente a defender, se para reprimir-lhe o impeto de reacção que receiava n'ella.

A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao pae:

―Ás vezes aos caracteres levianos estão confiadas tarefas generosas. Cabe-lhes sanar muitas injustiças que por cálculo os mais reflectidos, e por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. Não me envergonho nem arrependo do passo que dei. Não fiz mais do que salvar do desespêro uma alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua consciencia, senhor, o accusasse de não ser innocente n'essa perda. Quiz evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a não dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana assim, a ser cruel como...

O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou:

―Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas terá de escolher entre os seus caprichos e a minha approvação. Fique certa que, com o consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posição, especulará com o estouvamento de uma herdeira rica, que, tão esquecida do que deve a si e aos seus, não hesitou em o procurar na propria casa, sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada á sua credula sensibilidade.

Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala.

Era Augusto.

Da sala proxima, onde chegára muito antes, ouvira elle o que o conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu venceu-lhe toda a hesitação e obrigou-o a entrar.

O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou.

Augusto, respondeu-lhe então com dignidade e tristeza:

―Esse rapaz pobre, sem posição e sem familia, tem n'esse triplice infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como v. ex.

a

, e eu não prescindo d'esses direitos.

O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse responder a Augusto. A irritação dictava-lhe uma violenta resposta, mas já lh'o não permittia a consciencia.

Augusto continuou:

―Sei que v. ex.

a

está já convencido de que as suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mão, veem as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preço que fôsse; elle não m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo, antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a receber-me a justiça e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu encontrei!

―Menos justificado?―repetiu o conselheiro, azedadamente.

―Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.

a

podia julgar-me criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas não tem o de duvidar de sua filha; porque a sr.

a

D. Magdalena pedindo a seu irmão que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma immerecida accusação, e a quem o desalento e o desespêro faziam succumbir, não se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario, aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mãos dos seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr. conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.

a

, que sempre fôram meus amigos, a quem v. ex.

a

ensinára a sel-o, vieram á minha dizer-me: «Não parta, deve á nossa confiança a justiça de ficar».

―É verdade―disse Angelo―eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas vezes que não tenha pressa de principiar a duvidar; eu não podia principiar por Augusto. Não duvidei.

O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarçado despeito, ainda que em tom moderado:

―Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do coração, creia. Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de não ter tido mais fôrça a minha confiança para não ceder. Peço-lhe por isso... humildemente... perdão. Iria a sua casa pedir-lh'o se não viesse aqui. Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Será isso motivo para antevêr realisadas loucuras de rapaz?...

Augusto não o deixou continuar.

―Ouça-me, sr. conselheiro―disse elle placidamente―deante de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu coração. É verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde creança até hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros, se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz sempre por suffocar. Nem ambições me despertou, como meio de realisal-o, porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas esperanças? Perdôe-se-me a fraqueza. As illusões duraram pouco; as palavras de v. ex.

a

dissiparam-n'as... um tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que o ser pobre, sem familia e sem nome, impõe tambem uma certa ordem de deveres, a que eu serei fiel. Não é o de humilhar-me, é o de manter a unica dignidade que me resta, a dignidade moral. Já vê v. ex.

a

que se enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulação, nem da parte da herdeira rica estouvamento.

E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lançar a Magdalena um extremo olhar de despedida.

A morgadinha, porém, ergueu-se, e, apesar dos esforços de Christina para a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mão disse:

―Não saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peço que não saia.

―Magdalena!―disse o conselheiro com severidade.

―Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do coração, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente depois.

―Magdalena!―repetiu o conselheiro com mais fôrça.

―Minha senhora! disse Augusto.

Porém a morgadinha obedecia agora inteiramente á vehemencia do caracter apaixonado.

―Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu coração; todos me ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma franqueza e lealdade, com que nós o fazemos; poderá confessar a natureza dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? Não se envergonharia d'elles? E quer que lhe obedeça! mas obedecer-lhe seria offendel-o, porque seria acreditar na constancia d'essa má paixão que o domina, e no seu bom coração não pode ella durar muito tempo.

O conselheiro, no auge da irritação, ia talvez a responder violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de intervenção, que elle suppunha já indispensavel, quando um incidente veio interromper esta scena e modificar a feição critica do caso.

O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao serviço de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma mensagem para o conselheiro.

O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar á presença do conselheiro.

A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a carregar-se.

O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.

O criado respondeu:

―Venho para entregar a v. ex.

a

esta parte telegraphica, que chegou a meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira que não pôde mandal-a com ellas.

O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu, e correu-o com a vista.

Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.

Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta:

―Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.

O criado saiu.

N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa.

O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma visivel satisfação se lhe desenhára no semblante.

―Leia e admire―disse elle.

Henrique leu, e não reteve uma exclamação de surpresa.

A parte dizia:

«Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle acceite uma das pastas.»

Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz.

Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a surpresa da noticia não fez esquecer a crise domestica a que assistira, disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena:

―Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os emboras pela sua nomeação.

A palavra «ministro» produziu sensação na sala. D. Victoria exclamou:

―Ministro! Pois quem é que está ministro? O mano?... Ora, sim senhor! acertou sua magestade!...

―Mas... valha-nos Deus! O ponto está que não façam por ahi alguma revolução para o deitar abaixo―acudiu D. Dorothéa, em cujo animo os factos das nossas dissenções civis tinham deixado sinistras ideias ligadas á palavra ministro.

Magdalena, Angelo e Christina correram a abraçar o conselheiro; Henrique reteve, porém, os dois ultimos dizendo:

―Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma mercê a s. ex.

a

, e á primeira não ha caracter de ministro que não ceda.

O conselheiro sorriu já.

Magdalena beijou-lhe a mão, e o pranto, provocado pela violencia das scenas anteriores, e até alli a custo reprimido, rebentou agora abundante, banhando as mãos do pae.

Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o não deixar sair da sala.

O coração do conselheiro não era de pedra. Duas causas poderosissimas conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfação da maxima ambição de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso coração, abrimo-nos ás sympathias para com os desejos dos outros; se de nós depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das lagrimas em olhos de mulher, é geralmente sabida: quanto mais se a mulher é joven e bella! quanto mais se a mulher é filha!

Sem o menor vestigio da irritação anterior, o conselheiro ergueu Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:

―Por que choras tu, Lena? Creança! Então promettes-me ser muito feliz, se eu te deixar fazer as tuas loucuras?

Magdalena respondeu-lhe, abraçando-o affectuosamente, e beijando-o.

Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa contra as severidades de um pae?

O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi affectuoso:

―Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustiça e do mal que lhe fiz, tornando-m'a venturosa. É a unica vingança á altura da sua alma.

Augusto não teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforços combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorothéa, que o arrastaram quasi para junto do conselheiro.

E toda aquella familia, em que não havia n'aquelle momento um só coração triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e pathetico grupo, que pode desenhar um artista.

Para mais tocante confusão ainda, as creanças, que voltavam dos seus brinquedos na quinta, entraram então na sala, e de boa vontade se associaram áquella manifestação de alegria, sem querer saber o que a motivára,

São assim as creanças. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres sempre que as vêem, sentem-as antes de as explicarem.

Fôram innumeraveis os beijos, os abraços, as palavras de affecto, os sorrisos, as lagrimas, as exclamações pueris que se trocaram entre os diversos actores d'esta scena de familia.

Chegado a este ponto da minha narração, nada melhor posso fazer do que deixar á imaginação dos leitores concluil-a.

Haverá algum tão malfadado, que na sua vida não tenha visto representada uma scena assim?

Esse mesmo, se existe, obriga-me a não proseguir.

O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de que por certo é victima.

Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a narração, vêl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da philarmonica da terra, que não tardará a festejar a nomeação do conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba verdadeiramente épica, e capaz de mudar a côr ao gesto, como a de que fala o poeta.

Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos acontecimentos ulteriores.

CONCLUSÃO

O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de animo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do novo estadista, se locupletou a fazenda publica, prosperou a agricultura e a industria, refulgiram as artes e as lettras; e que Portugal, como a Grecia, sob Pericles, causou o assombro das nações do mundo.

Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e prospero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espirito dos leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse com isto a desconfiança no chronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a direcção do conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se tem regido sob as duzias de ministerios, que nós todos havemos já conhecido.

O conselheiro, já ministro, voltou tempos depois á aldeia, para assistir aos casamentos de Magdalena e de Christina, que se verificaram no mesmo dia.

Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com D. Dorothéa, que não podia resignar-se a viver só.

Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se completamente a quinta, e é hoje uma das mais rendosas e bem geridas propriedades d'aquelles sitios.

Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. Carlos, está um rico e laborioso proprietario rural. Apaixonou-se pela agricultura, e promette realisar o typo do antigo patriarcha.

Cumpriu-se a sua visão.

Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, já nem memoria lhe resta.

Christina, além de ser adorada pelo marido, vê-se rodeada pelo amor e carinhos de D. Dorothéa e de Maria de Jesus, as quaes, sem o menor despeito, a viram tomar o sceptro da realeza domestica, que usa com adoravel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de mulher.

No Mosteiro não correm peor as coisas, sob os cuidados de Augusto e de Magdalena, que ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, além de se occupar de agricultura, alimenta a imaginação, já não a fazer versos, mas em outra fórma de poesia: a organisar a escola sob bases mais racionaes, e dotação mais fecunda; a generalisar e educar os processos agricolas; a implantar industrias novas.

É assim que a sericultura, graças aos seus cuidados, é hoje alli cultivada com bons resultados, e outras já principiam a ensaiar-se.

Magdalena é sempre a mulher que foi; se é que as nobres qualidades já reveladas nos seus actos de juventude, não se vão caracterisando inda melhor, á medida que de mais graves deveres se incumbe a sua missão de mulher. Intelligencia temperada por um bom senso natural, que a educação esmerada não estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, mas de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que não faz sentir a ninguem o peso da obediencia.

É hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, querida por D. Victoria, adorada pelo marido e abençoada pelo povo, que soccorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina n'aquelles sitios.

D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando despedidos.

Em relação ás personagens secundarias d'esta historia pouco teremos a dizer.

O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava visconde de não sei quê o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a sem-razão de não applaudir.

O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia.

O sr. Joãozinho, em vista d'esta fusão de partidos, achou-se encorporado na liga, e em pouco tempo teve occasião de demonstrar de novo a sua influencia eleitoral, trazendo compacta á urna a freguezia de Pinchões, para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeação, perdera o logar de deputado. D'esta vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vêr o brazileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de commum accordo e de boa harmonia.

A reconciliação entre dois adversarios commove sempre a alma.

O sr. Joãozinho não mudou de habitos, e cada vez tem mais dividas, mais cães e mais bebedeiras.

O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas funcções de ensino e na commissão do correio, odiando os irmãos Virgilios e desafogando as suas mágoas na embocadura da trompa.

O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingança. Confessa que por brincadeira tirára uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornára a collocar no seu logar e por isso...

A familia Zé P'reira vae em rapida decadencia; o homem já nem tem fôrça para fazer resoar o zabumba. É esta uma das que mais deve á caridade de Magdalena.

O conselheiro, ainda hoje no gôso imperturbado dos votos unanimes d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o animo exhausto nas fadigas parlamentares e nas diversões da capital, no seio da sua feliz familia, e volta melhor.

Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, corre com alvoroço de creança a gosar na aldeia os dias que elle já presente terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.

A quinta dos Cannaviaes, á qual andam ligadas suaves recordações dos dois venturosos pares, que os incidentes d'esta historia reuniram, foi transformada por Magdalena n'uma habitação de recreio, onde as duas familias celebram, durante o anno, algumas festas em commum.

Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia muito estava de posse.

E hoje é ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de «Morgadinha dos Cannaviaes».

FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME

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