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A Morgadinha dos Cannaviaes

Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 4)

Reading edition

―Ora, como um homem. Eu fui levadinho da bréca. Boa sóva levei de minha mãe, por causa de umas calças novas que rompi.

―Ora vêdes?―diziam os outros.

―Ai tempos, tempos!―disse, suspirando, o brazileiro.

―Quem havia de dizer então ao que v. s.

a

e o conselheiro tinham de chegar!―notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas.

―Eu sim―respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.―A que cheguei eu? Comi candeias accêsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de pão para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle é outra coisa.

―Não é tanto assim―insistiu Pertunhas―todos sabem que v. s.

a

se quizesse...

―Olhe, meu caro amigo, eu conheço-me; se tivesseo juizo de muitos, que por ahi vejo figurando, então havia de me vêr na brecha; porque, não é por me gabar, mas não me tenho por menos do que muitos d'elles.

―Ora pois, não, não―disseram os lavradores, Pertunhas e o padre.

―Alguns que até ministros teem sido...

―Por essa estou eu...

―O conselheiro mesmo...―resmungou o padre, fungando uma pitada jesuitica―sim, aqui para nós...

―Tanto não digo―continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.―O conselheiro... vamos... Faça-se-lhe justiça. Eu não quero dizer que elle seja uma coisa por ahi além... sim... Que diabo tem elle feito a final?... Mas... Não é dos peores, não é dos peores. Faça-se-lhe justiça. Não é homem de grandes talentos... isso não; nem mesmo de grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta é a verdade... Mas... emfim, vamos andando...Cada um faz o que pode―concluiu o brazileiro, depois de ter feito justiça ao conselheiro.

―No que elle tem andado mal é em prometter mais do que pode fazer. Ha quantos annos nos anda a falar na estrada, e até hoje ainda nem palmo d'ella?―opinou Pertunhas.

―Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o pão: diz o dictado―ponderou o brazileiro.

―A falar verdade!...―disse um dos lavradores―com a influencia que elle tem, podia...

―Ora adeus! palanfrorio―atalhou o padre―bem me fio eu na influencia do conselheiro.

―Eh! eh! eh!―respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre, e accrescentou com um sorriso velhaco:―Não, elle diz que fala com os ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim... Elle lá o sabe.

―Para mim é que elle vem de carrinho...

―Eu não sei―concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro.

―Pois eu cá―disse o sr. Joãozinho, que estivera bebendo em silencio, e descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.―Eu cá já disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as terras, sempre lhes meço as costas com um marmeleiro, que lá tenho, e que já me serviu para varrer a feira de Santo Estevão. Uns mariolas!...

E como para desafogar o pêso da sua amabilidade, despediu um pontapé a um podengo, que lhe viera roçar por as pernas, e fel-o sair ganindo.

―Dizem que vão principiar outra vez com os trabalhos das estradas―informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr. Joãozinho.

―Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!―resmungou este.―Faço como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimámos toda a papelada da camara e do escrivão da fazenda.

―Agora no inverno é que elles hão de principiar com os trabalhos. Sempre se fia em boa!―disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas.

―Vossemecê é que está a ler―veio-lhe á mão obrazileiro.―Então não sabe que as eleições são em fevereiro?

―Ai, é verdade! não me tinha lembrado d'isso!―exclamou o padre.

―Tambem não sei como será d'esta vez essa historia das eleições―acudiu o sr. Joãozinho.―Cáeu e a minha gente ainda estamos a vêr no que param as coisas. Eu já não estou para ser logrado. Até agora tenho dado ao conselheiro a freguezia em pêso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo que não pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar n'uns ajustes. Se o homem não estiver cá por umas contas, não anda o filho de meu pae.

―Ora adeus!―disse o padre cura.―O conselheiro tem artes para o levar.

―A mim? Está enganado. Não querendo eu?Então você não me conhece. Em euembirrando, sou como um borrego teimoso.

―Quando se fala em estradas, já estou a tremer―disseum dos lavradores.―O que elles veem cá fazer é cortar-nos os campos, e a final não sei para que servem.

―Isso não é assim―atalhou o brazileiro, tomando uns ares cathedraticos, cheios de gravidade.―Vossemecê é ignorante e por isso é que fala d'esse modo.

―Eu digo...―tartamudeou, intimidado, o lavrador.

―Pois sim: mas não deve metter-se a falar em coisas que não entende. As estradas não servem para nada! As estradas são meios de communicação e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por conseguinte a riqueza das nações... Porque o trabalho representa um capital..., sim, senhores, mas... mas um capital...sim... um capital morto... quero dizer um capital que não vive... Quero dizer... sim... supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi está o credito... Pois que é o credito?... O credito é... é o credito... depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se nós não tivessemos estradas... Uma supposição... Partamos de um principio. A producção excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a producção... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta? Está claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... Não havendo estradas... Ahi está que se diz por ahi que a livre exportação, que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois não é assim. É preciso que se attenda tambem ás condições economicas dos povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em termos já se sabe...Mas... o commercio livre... a livre troca... entendamo-nos... É preciso clareza de ideias... Quando eu digo que... Ora supponhamos... supponhamos que não havia estradas... Os transportes eram mais difficeis e portanto mais caros... E se além d'isso os generos fôssem escassos e... Diz vossemecê, para que servem as estradas? Ora diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos indirectos... não precisamos de ir mais longe... os impostos indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer.

―Impostos, Deus me livre d'elles!―murmurouo lavrador, cujos instinctos trepidaram á palavra «impostos».

―Isso tambem não é assim... Deus me livre! Não se diz Deus me livre, porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza não está na terra... isto é, a riqueza está na terra... mas é preciso o capital para a exploração... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... Não... vamos cá por outro lado... Ha um

deficit

n'um orçamento... desce o preço das inscripções... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas estradas,

etcoetera

... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim lá que as estradas são uteis, isso é que não tem questão.

Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda attenção.

O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos politicos, conseguira, á fôrça de leitura, fixar na memoria certas phrases de artigo defundo, e acabára por convencer-se de que possuia grandes noções de sciencia politica. Em occasiões como esta dava uma sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposição tal ou qual, mais ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertação, como essa que viram. Em permanente indigestão economica vivia este portento. A doença não é das mais raras entre politicos.

O sr. Joãozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bôca, depois do discurso do brazileiro, e disse:

―Eu cá por mim não sei d'essas coisas. Não se me dava das estradas para poder ir á feira de Penafiel com menos trabalho, mas, já disse, que me não venham mexer na quinta; porque então teem que vêr.

―Pois está arriscado a isso―disse o brazileiro.

―Veremos, depois não se queixem. Temos a historia da papelada outra vez.

―Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fóra, depois de tomar á esquerda pelo Castro e vir direito á Palhoça. Não tinha cruzes nem cunhos. Ia-me parte da propriedade.

―Ah! ah! ah! Tambem não gosta? Diga-me d'isso!―berrou o sr. Joãozinho.

―Não é não gostar, é que o traçado era pessimo.

―Não sei por quê.

―Só a expropriação da minha quinta por que preço não lhes ficava?

―Elles, para esses casos, lá teem umas leis a seu modo―notou o padre cura.

―E por onde ha de ir então a estrada?

―O outro traçado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do capitão-mór, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego, passa o rio n'uma ponte e...

―Oh com os diabos; o que ahi vae!

―Não é tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... Até aos lameiros só tem a deita rabaixoa casa e o quintal do herbanario.

―Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixão, se tal fazem―disse, com certa commiseração, o sr. Joãozinhodas Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeição e respeito, n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o tivera ás portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvára, com uns cozimentos sómente d'elle sabidos.

―Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Está maluco de todo―redarguiu o brazileiro.

―Tambem está um bom magico, está―notou o padre.

―Quer não, que sabe mais do que todos os medicos―acudiu o sr. Joãozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que excommungada!

E principiou a fazer a historia da sua doença.

Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.

―Pois a final por onde devia ir a estrada―continuou o brazileiro;―tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso não se fala, já se sabe.

―Ora! pois está de vêr―concordou o padre.

―E o conselheiro não se ha de oppôr á expropriação da casa do herbanario, porque pelos modos elles não andam muito correntes―lembrou um lavrador.

―É verdade; por que seria aquillo?―perguntou outro.

―Elles em tempo eram muito um do outro; e são até aparentados;―explicou o brazileiro―e o velho ainda hoje é tratado com familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por occasião de umas eleições, quando elle pôz as auctoridades a trabalhar por si, e o velho entendia que as coisas não iam bem assim.

―Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte conselheiros e toda a familia,―exclamou o sr. Joãozinho, batendo outra punhada―e queira elle, que o tal senhor não põe mais o pé nas camaras, mandado cá pela terra.

―Eu gósto de os ouvir,―disse o padre―falam assim, mas em chegando a occasião, vão todos votar n'elle como carneiros.

O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.

―Pois havemos de vêr o que será!―berrou o sr. Joãozinho.―Isso é consoante cá umas coisas.

―A falar a verdade―disse o Pertunhas―não tem pago muito bem ao circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; só essa teima agora em querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!

―Essa a falar a verdade!―disse um lavrador.

―Quero vêr se me hão de enterrar a mim!―disse ameaçadoramente o sr. Joãosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impôr as suas vontades á fôrça de murros e de pragas.

―Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas. É moda e acabou-se. D'antes enterrava-se lá toda a gente e não havia mais doenças do que agora―isto dizia o padre.

―Os romanos tinham as suas catacumbas―ponderou o mestre de latinidade, forçando as suas reminiscencias romanas.

―Vamos―ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade scientifica.―O enterrar nas igrejas é anti-hygienico; porque os chimicos sabem que... o ar que não é puro... é mau para a saude publica. Ora os cadaveres... em putrefacção produzem uns vapores que corrompem o ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vão para a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado é a febre... porque a febre são os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sáem, muito que bem; e se não sáem, ficam retidos e azedam o corpo todo.

A theoria physiologica pathologica foi recebida com attenção igual á que merecera a economica.

―Tudo isso será assim,―disse o padre―mas o conselheiro faz aquillo por instigações das lojas maçonicas e dos pedreiros livres.

―Pois elle será tambem?...―disse um dos lavradores, arregalando os olhos assustados.

―Ora que dúvida! Pois aquella gentinha é toda da sucia.

―Corja!―resmungou o sr. Joãozinho.

O brazileiro, que se filiára no Brazil na maçonaria, fez um discurso sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porém, que não calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.

―Elle não será mação―disse d'ahi a momentoso padre―mas é vêr o que elle tem defendido nas camaras; queria roubar ás irmandades e ás freiras os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do matrimonio; queria que cada qual seguisse a religião que muito bem lhe parecesse. Vejam que christão aquelle!

Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras de censura.

―E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.

―A falar a verdade, os vinculos...―murmurou o sr. Joãozinho, que por vezes tropeçára nas disposições da antiga lei vincular, ao caminhar na estrada da dissipação; porém, recordando-se de um irmão que tinha, casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar á custa de muito trabalho, a ideia da abolição dos morgados não lhe sorriu e exclamou com nova punhada:―Acabem lá com os morgados quando quizerem, que o que eu lhes digo é, que tem de se haver commigo quem quizer tirar-me um palmo de terra!

O padre cura continuou a tratar pouco christãmente o conselheiro.

O pae de Magdalena militára sempre, como já dissémos, nas fileiras do partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeiçoada a maioria do clero, que, entre nós, não espósa ardentemente aquellas ideias.

No principio da sua carreira parlamentar, cedendoao impulso do enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolára desassombradamente a bandeira do partido progressista e pronunciára os mais absolutos artigos d'aquelle credo politico; liberdade era então o seu mote favorito; a liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas consequentes nos codigos, a desamortisação e desvinculação da propriedade, tudo advogára com enthusiasmo, no tempo em que estas palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados á lettra de outro catecismo.

Com o tempo arrefeceu, porém, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convicção, ensinou-lhe a politica pratica a rebuçar em formulas mais ordeiras os seus principios doutrinarios, a contemporisar, e até quando as conveniencias, infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de retrocesso e a transigir com o partido opposto.

Se o fizessem ministro não se arrojaria a transformarem projecto de lei nenhuma d'aquellas medidas por que pugnára nos seus primeiros discursos, e que tantas malquerenças lhe acarretaram então.

Já atraz dissémos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desillusão e de scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem de côrte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo d'elles mercês e empregos para afilhados; fulminava-os ás vezes da tribuna e depois apertava-lhes a mão nos corredores das camaras e nas praças. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avançada, que no principio da sua carreira adoptára comsinceridade; mas não tinha já aos principios o amor preciso para cair, abraçado n'elles, dos degraus do poder, se algum dia os chegasse a subir.

Por isso os soldados rasos do seu partido, os politico sem abstracto, unicos para quem a politica é sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo e tibio; e de gazeta na mão havia muito que lhe dictavam, do obscuro canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porém, a cada passo se desviava.

Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de má fé, a acoimal-o de impio, de republicano e de pedreiro livre.

O brazileiro entrou em dissertação a respeito de todas as medidas politicas a que alludira.

Segundo o costume, ninguem o entendeu.

Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fôra espreitar á porta, voltou-se, exclamando:

―Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!

Todos se levantaram pressurosos para correrem á porta. O que mais de má vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.

Dentro em pouco todos se descobriam. Parava á porta o conselheiro, que montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno baio de fórmas elegantes e olhar vivo.

O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi todo o effeito da conversa que descrevemos.

Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se para entrar na venda.

XII

O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade até se sentar nos bancos de pinho do estabelecimento de Damião Canada, envernizados já pelo uso de muitos annos.

Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com attenções e o flagellava com obsequios.

O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e conversando com aquella familiaridade, tão sabida de candidatos a procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. Até chegou a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu.

Não se lhe percebia porém no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle tão apparente a superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de côrte: presença agradavel, modos insinuantes, palavras tão astuciosamentelisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as tinham.

Alvejavam-lhe já algumas cãs nos cabellos e suissas, que usava talhadas á moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas fórmas certa rotundidade caracteristica; mas no esmero e até elegancia distincta de casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas, havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que não perdera ainda.

Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e não obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim fôsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lançado sobre elle.

Possuia o dom especial de se encontrar á vontade em toda a parte, desde o mais perfumado gabinete da moda, até o menos asseiado local de um comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafés com rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem á vontade, acabando, quasi sempre, por captar sympathias.

Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezão, a phrase conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho popular, a figura oratoria, a maxima moral, e até a praga energicamente expressiva; mas, como os espadachins de profissão, jogava-as todas com frieza de animo, cada qual na occasião opportuna e com perfeita observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes.

Muito tinham que fazer com elle os La Bruyères,que, a cada passo, ahi encontramos no mundo; illudia os mais atilados. Ás vezes parecia abrir-se tão do intimo, tão completamente e sem condições nem reservas, havia tal uncção de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras, falava verdade, mas com taes hesitações na voz, com tal mobilidade no olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creança experimentaria o despontar da primeira dúvida.

Já se vê que um homem d'estes era um contendor de muita fôrça, para poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudéra contra elle; nem ousára romper hostilidades com receio de ficar vencido.

Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do Damião Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.

Deixemol-o nós na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae á porta da venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.

Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com aquelle alvoroço do coração, que conhece quem já foi estudante e se recorda ainda do que experimentava ao vêr de longe despontar o telhado da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas férias.

Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel figura de creança, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas feições um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao mesmo tempo attrahente do conselheiro.

O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis naturaes, com grande vantagem para a espaçosa e bem modelada fronte.

Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do Mosteiro estavam todas obscuras, á excepção das aguas-furtadas, correspondentes aos quartos das creanças. Angelo desmontou e cautelosamente se dirigiu a pé para casa.

Torquato dormia á porta, como frequentemente lhe acontecia.―Angelo pôde assim penetrar sem ser percebido até o mais intimo da casa, até os aposentos onde dormiam as creanças, e em cujas janellas avistára luz.

A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no coração uma suave e encantadora alegria.

O mais novo dos seus primos, creança de tres annos, estava meio nú e de joelhos sobre o leito com as mãos erguidas e os olhos fitos em um crucifixo que tinha á cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe as palavras da oração, que a creança repetia, cheia de fervor.

Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar das continuadas advertencias da prima.

Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para beijar a creança, elle estendeu a cabeça e pousou tambem um beijo nas faces da irmã.

Magdalena soltou uma exclamação de surpreza e cingiu-o nos braços com effusão.

A creança levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna e Eduardo, que cêdo abandonaram os quartos e correram a abraçar Angelo.

―Vens só?―perguntou Magdalena ao irmão, quando uma pergunta lhe foi possivel.

―O pae ficou na loja do Canada―respondeu Angelo.―Estava em sessão a assembleia dos notaveis. E como estás tu, minha Lena, tu e Christe e a tia? Como vae toda essa gente?

―Anda tu mesmo sabêl-o.

―Eu vou dizer á mamã―disse Marianna, saindo aos saltos.

―Eu vou chamar Christe―disse Eduardo, imitando-a.

E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.

O pequeno que Magdalena deitára, pedia, chorando, para se tornar a levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.

―Dize-me―continuava no entretanto este para a irmã―tens-te enfastiado muito, aqui só?

―Não, tenho-me divertido até.

―Devéras? E que fazes? Em que passas o tempo?

―Eu sei? O tempo é que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio muito; trabalho mais.

―Que tens lido?

―Quasi sempre relido.

―O quê?

―Nem eu sei já. O primeiro livro em que pouso a mão, quando os vejo sobre a mesa.

―O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?

―Todos os dias.

―E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?

―Vae bom. Caiu no outro dia á levada da raiz do monte; valeu-lhe o Augusto para o salvar.

―Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorothéa?

―Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas; conheces?

―Eu não.

―É provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe chamemos primo. Aviso-te d'isso.

―Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?

―Coitada! Achei graça, ha dias, á Joanna, que com muita ingenuidade se me veio queixar de que ella até o anjo da guarda lhe occupava em serviço proprio. Tu sabes que a tia, quando está com muito somno, tem aquelle costume de dizer ás criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas. Mas vamos.

―Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?

―Trouxe.

―É verdade; e a filha d'elle? A Lindita?

―Já cá me ia tardando a pergunta―notou a morgadinha, rindo.―Essa anda contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.

―Ora vamos, Lena; não te perdôo a malicia.

―Então devéras esse coração está assim tomado?

―Não te informo do meu coração, que o não levo commigo, quando d'aqui vou. Cá me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que pergunto; em que estado m'o entregas?

―Muito doente.

―Sim? E o teu?

―O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto decorações são como as creanças. As travêssas tantos cuidados dão ás mães, que a todos os instantes querem saber o que ellas fazem e onde estão; as socegadas inspiram tal confiança, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu coração é um modelo de serenidade.

―Então ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...

―O sitio é pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediações, capaz de ferir a imaginação e commover os affectos de uma mulher, é o sr. Joãozinhodas Perdizes; mas esse é um Actéon insensivel, que...

―É verdade―disse Angelo, rindo―lá vi tambem esse javali na venda do Damião Canada. Mas...Não sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de dizer umas coisas.

―A mim? A respeito de quê?

―Do teu coração.

―Que sabes d'elle?

―A seu tempo direi.

―Como te vieram essas presumpções de conhecedor dos corações alheios? Não tinhas isso, quando d'aqui foste.

―Ás vezes vê-se melhor de longe.

―Os de vista cançada... de muito vêr.

―Bem; depois falaremos. Vamos lá ter com a nossa gente, que o pae não tarda ahi.

De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braços, tinha ao collo Marianna; Christina, a pé, encostava-se-lhe familiarmente ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o braço, em que recostava a cabeça, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala, D. Victoria, sentada no sofá, servia de travesseiro a um dos pequenos que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficara pé, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e Eduardo, com as historias que lhes contava.

A conversa cêdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas, familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da vida domestica; conversas cujo suave perfume só em familia se aprecia.

Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos apertados pelos estreitos laços da amizade e do parentesco, e se vê obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que não é a sua! É uma pathetica illusão a de certas familias, que imaginam que para todos é de igual interesse a narração dos successos domesticos, que tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se lhes depara; tudo trazem á luz, o dicto agudo da creança de tres annos, os incómmodos que soffreu na primeira dentição, as espertezas do gato favorito, as razões ponderosas que aconselharam a mudança de um movel, a combinação economica que favoravelmente modificou o orçamento domestico, a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas coisas, que é forçoso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o que obriga a esforços sobrehumanos.

É natural aquella illusão; e pathetica a dissemos nós tambem, porque os que mais decoração se entrega má vida domestica, são os mais sujeitos a ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a imaginação de romancista fecundo. E quem se lembra de que é individualissimo esse interesse, inherente á pessoa e não aos factos, ás causas que tão curiosos lh'os fazem ser?

Eu e o leitor, estranhos á familia do Mosteiro, vêr-nos-iamos, se fôssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posição da pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios domesticos, a que sobre tudo são tão inclinadas as mães de familia.

É verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse curioso é porque realmente o era. D'esta vez, porém, damol-o por suspeito, porque o conselheiro tinha coração e,quando esta viscera se alvoroça com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas sympathicas fraquezas.

O politico, o diplomata reservado, fica fóra do portão da quinta do Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque em todos confiava, contente por não ter de estudar na expressão dos rostos os pensamentos que seguardam; nas palavras o sentido, que n'ellas não vem explicito.

Era um salutar descanço dos continuados esforços da sua vida de Lisboa; lá a lucta; aqui o repouso.

Por isso ouvia com attenção e applaudia com vontade as narrações da cunhada, de Magdalena, de Christina e até da pequena Marianna.

E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro não poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso movimento da sua vida politica.

Eram-lhe já necessidade aquella contenção, aquelle esforço de espirito, aquellas desconfianças continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe tomavam em Lisboa todo o tempo.

Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.

A politica é uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no coração; cêdo, porém, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia, e de novo nos arrasta.

O caracter intimo da conversação foi levemente modificado por a entrada de D. Dorothéa e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram visitaro conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada.

O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa. Frequentavam ambos os principaes círculos da capital e, por mais de uma vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e discussões communs.

Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o serão animou-se de novo, fragmentando-se porém a conversação.

D. Victoria tomou á sua parte D. Dorothéa e passou a fazer-lhe amargas queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorothéa acudiu com conselhos de resignação christã.

Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia rir.

Henrique e o conselheiro, proximos do fogão, estavam empenhados n'um dialogo muito animado.

O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que surprehendiam Henrique, que ainda o não tinha observado por esta face.

―É uma triste verdade―dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto adeantado da conversa, referindo-se a algumas considerações de Henrique sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.―Tenho esta familia que vê; todos me querem sinceramente aqui, e não sei resistir á fatal necessidade que me arranca de todos estes braços para me lançar ao turbilhão da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devéras a minha Lena, creia.

―É um dever que cumpre. N'estes tempos de má fé politica, quem se sente com a coragem de se votar, corpo e alma, á defeza despreoccupada dos bons principios...

Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de descrença, meio de melancolia.

―Defeza despreoccupada? Isso é quando Deus quer―respondeu elle.―Olhe, Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo, vae vêr em mim o homem que talvez não esperasse e que, já lhe digo, debalde procurará reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa. O que lhe vou dizer não lh'o diria, nem lh'o repetirei lá. É verdade que estes ares do campo tambem actuarão em si para me apreciar e tomar á boa parte a franqueza. Lá não acreditaria n'ella; se por acaso não a aproveitasse como arma politica contra mim...

―Pois julga?...

―Peço perdão, se o offendi com isto. Não eraesse o meu intento, mas é pratica tão geral!... Se um dia fôr politico, o que lhe não desejo, dir-me-ha.

Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversação.

Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:

―Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e através de tudo. Não sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que não sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no Mosteiro, acho-me muito ás ordens da minha consciencia, a qual não me deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; até porque, se quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me só, não teria partido. Porque, qual é o que vê nas condições de constancia de opiniões que disse? Tenho crenças politicas, é verdade; espóso no coração certos principios que quizera vêr realisados, mas não combato por elles a todo o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro em transacções, que são a completa negação da divisa da minha bandeira. E este peccado não sou eu só que o commetto; é um peccado venial da nossa época. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos pés, para sustentar umas insignificantes fórmulas, um interesse mesquinho, um capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem é isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fóra nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me persuado de que não são de todo desculpaveis? quando... porque o não direi? quando sinto remorsos de os ter commettido? É aqui, é perante a boa fé, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que me considera um homem perfeito, superior, impeccavel. É perante os generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella creança―e indicava Angelo com o gesto.―Parece-me que tenho n'elles juizes inflexiveis, eescondo por isso a minha face politica dos seus olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo é já indulgente, mas que receio elles me não perdoassem.

Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta effusão de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:

―Estou a vêr que não esperava estas palavras da minha bôca; esta confissão de peccador contricto.

―Confesso que não.

―Então que quer? Surprehendeu-me aqui como coração aberto. Já agora deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual é? Vê aquella creança que alli está? Angelo? É uma intelligencia que, de dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. Não é a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha de dar-me razão. Mas o que ha além d'isso n'elle é um senso profundamente moral, raro até em idades menos tenras. Pois bem, quando penso n'elle por algum tempo, e conjectura que não serão poucas as vezes em que o faço?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos a embriagar as intelligencia se onde presinto que a d'elle terá o direito, senão o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que na atmosphera d'aquellas regiões não duram muito estas primitivas canduras da alma, tão adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que Angelo será um dia... o que eu já hoje sou, um pouco desilludido, um pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais não valeria dizer-lhe: Angelo, vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfações do coração. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas não te fará feliz.

―Mas não admitte possivel que um homem possa atravessar a vida politica, sem sacrificar um só artigo do seu primitivo credo?

O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:

―É difficil. Se um dia a fôrça das circumstancias realisasse, como um phenomeno natural, uma revolução completa nas camadas politicas do paiz a ponto de trazer á superficie de uma só vez uma geração nova, impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenças, então sim, não bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia, a inquinação que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a sós com os seus principios e com os seus esforços, insulados no meio de uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, após uma lucta impotente de momentos, ou se retirará, fiel aos principios, mas desanimado pela inefficacia da sua intervenção, ou ficará, cedendo á corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as massas. Só um d'esses caracteres de excepção, que são raros na historia do mundo, é que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de Angelo não chega o meu affecto paterno.

―Não o fazia tão pessimista, sr. conselheiro;―disse Henrique―conceda-me que julgue em demasia carregadas as côres do quadro que me faz. Eu não creio que a corrupção...

―Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxação, tibieza de fé politica, indifferentismo... em todo o caso será uma doença social. Assim abrandada a fôrça da expressão,nãoponha difficuldades em adoptal-a. Não se me pode levar a mal o propôl-a, desde que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.

―Nunca esperei encontral-o tão desilludido. Eu, que me não tenho ainda assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a égide de uma convicção profunda, pode...

O conselheiro interrompeu-o.

―Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? É aquella de que nos dá uma eloquente mostra a historia do aldeão do Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco montanhez, e escudado só da sua boa fé, achar-se de repente no meio de um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra; vêr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as suas crenças d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel á austera e rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas longas horas de vigilia e de estudo, que lá teve; cair embora, mas cair fiel á consciencia, como um leal cavalleiro da idade média caía pela dama de quem trazia a divisa: é uma especie de lucta, para que não abundam lidadores, e nem sempre se deve lançar o labéo de traidores aos que mentem á sua antiga profissão de fé. A maioria cede com boas intenções. O perigo está em chegar a persuadir-se de que as suas convicções eram sonhos, em perder oamor ás utopias. Eu confesso que só quando aqui estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro tempo lhes tive.

N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação especialissima, reguladorada propriedade rural, fomenta estas disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as miserandas victimas.

Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.

O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica abstracta, sentiu, na presençado recem-chegado que de novo o abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica, sob a feição mais mexeriqueira que ella pode revestir.

Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça ou vontade dos representantes.

Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.

Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores; reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de Christina.

D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa, e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas consoadas.

Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o Tapadas:

―Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso é que eu não transijo. Ninguem é mais condescendente do que eu, menos no que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo, levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graças a um preconceito tolo, á má fé de alguns padres, á frouxidão das auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da igreja onde a extrema devoção d'este povo accumula em certos dias, durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto, com isso não transijo. Hei de acabar com o abuso.

―Pois sim... mas agora na occasião das eleições... sr. conselheiro, não sei se faz bem.

―Para compensação trataremos de apressar o principio das estradas; tambem o pude conseguir.

―Inda assim... Receio alguns motins.

―Reprimem-se.

―O peor é que ha de haver quem lance mão d'essa arma contra nós.

―Quem?

―Ora! não falta quem. Basta o missionario, que já prégou contra isso.

―Não tenho mêdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia. Leve-os por bem. E se fôr preciso fale ao ouvido d'esse tal missionario...O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum canonicato? É preciso vêr isso.

―Elle diz que não quer nada.

―Bem sei, todos dizem o mesmo―disse o conselheiro,com a sua descrença de homem politico.

Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto aopinião publica era, por toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo não estavade todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeição ao conselheiro obrigava-o a digerir a disposição legal, conforme podia.

Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:

―Vem em má occasião a medida, vem; é arrojadapara épocas eleitoraes; se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso não transijo.

Eram dez horas quando se levantou a sessão, e Henrique voltou com a tia para Alvapenha.

XIII

Ao outro dia a impaciencia de Angelo não lhe permittiu longa demora no leito. Tardava-lhe o vêr todos aquelles sitios, tão seus conhecidos; arvores que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, e quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoço; resignou-se porém a não ultrapassar, até então, os muros da quinta. Logo porém que sorveu á pressa o ultimo golo de chá, partiu, veloz como uma lebre, sem nem sequer dar ouvidos á enfiada de recommendações de sua tia D. Victoria, que teimava em o querer prevenir, com sócos, gabão e guarda-chuva, de uma hypothetica mudança de tempo.

Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma recordação e uma saudade; mas seguia sempre, como quem não errava ao acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio por um intento, que tinha pressa de realisar.

Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, cumprimentado e festejado por quantos encontrava pelos caminhos, ou ás portas e janellas das casas, nos campos e nos ribeiros.

Chegou emfim á casa, onde já dissemos morar o recoveiro Cancella e a sua filha Ermelinda.

Era evidentemente aquelle o termo proposto por Angelo ao passeio matinal, porque retardou o passo á medida que se approximava, e parou á porta da casa.

Achou-a fechada, mas não lhe causou isso embaraço.

Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente o muro do quintal, construido de pedras soltas, e dispoz-se á escalada.

Com a agilidade e destreza proprias de quem passou na aldeia os primeiros annos da vida, o irmão de Magdalena trepou sem vacillar até o alto do muro, e n'um momento pousou os pés no chão do quintal.

Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precaução e, com mais precaução ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o logar de recreio do pequeno horto.

Foi motivo d'estas precauções o ter já avistado, por entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido.

Assim se foi approximando sem que o presentissem e, occulto por detraz de uma sebe de roseiras silvestres, poz-se á espreita.

Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.

Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que mezes antes havia sido derrubada, a filha do Cancella e afilhada da familia Zé P'reira, tinha todas as faculdades applicadas á decifração dos hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, que segurava nas mãos, e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e, erguendo a cabeça para o céo, parecia repetir o que lera, como se pretendesse decoral-o.

Angelo applicou mais o ouvido, a vêr se alguma das palavras, que ella declamava, lhe revelava a natureza do manuscripto.

De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais audivel e elle escutou a seguinte quadra:

―Que lamentavel tragedia, Que os meus olhos tristes viram! E publicam minhas vozes Aquelles que não ouviram! E principalmente o rei, Que se chama o rei tyranno, N'esta região remota Do Egypto dilatado.

Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabeça e repetiu:

―Que lamentavel tragedia Que meus olhos tristes viram...

Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precaução, veio collocar-se por detraz d'ella, sem que fôsse presentido ainda.

Tão perto chegou, que, por cima do hombro de Ermelinda podia já ler as quadras que ella estava decorando:

―Tenho mil linguas, mil bôcas...

ia Ermelinda continuar a ler, quando uma respiração mais profunda de Angelo a fez desviar a cabeça.

Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de sobresalto; depois sorriu e instinctivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que lia.

Angelo segurou-lhe a mão.

―Que estavas a ler, Linda?

―Não é nada...

―Deixa vêr.

―Não deixo.

―Por que não deixas?

―Para não ser curioso. Que modos são esses de andar a escutar a gente?

―Pois sim, sim; mas deixa-me vêr os versos.

―Não são versos. Quem lhe disse que eram versos?

―Pois não ouvi? Que era isso de tyranno e de Egypto, que dizias?

―Que ha de ser?―disse a final Ermelinda, dando-lhe o papel.―São os versos do auto dos Reis. Sabe agora?

―Do auto dos Reis? Ai, sim; está a chegar o dia! Mas que tens tu com o auto dos Reis?

―É que este anno meu pae quer que eu seja a Fama.

―Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E já sabes os versos?

―Estava a decoral-os.

―Tenho mil linguas, mil bôcas...

dizia Angelo, lendo no principio.―O que é pena é pôr uma chochice d'estas na bôca de uma Fama como tu.

―Que está a dizer? Então os versos não são bonitos?

―Oh! pois não são!―exclamou Angelo, gracejando.―São uma perfeição!

E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os com accentuação e emphase comicamente exaggeradas.

―Ora ouve lá:

Sabei que aquelle Herodes, Lobo cruel carniceiro, Tremendo de inveja pura Lhe venham tirar o reino...

―Então que ha que dizer a isto?

E proseguiu:

Feria raios de fogo De seus olhos com mudança; E só pretende fazer Alvo da sua vingança.

―Isto é claro e sublime!

―Lendo assim, pudéra!―disse Ermelinda, rindo.

É preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos estamos referindo, não são obra da nossa imaginação. Por ahi corre manuscripto o auto, mais ou menos extravagantemente orthographado, segundo o systema ou o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias dos arredores do Porto podem vêr em cada anno representado este ou outro analogo, com applauso e gloria da arte. Ás mãos nos veio uma d'essas cópias, á qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.

Angelo era talvez em demasia severo na apreciação critica sobre o merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice. É raro que a musa popular não tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspiração. N'este mesmo auto, se encontram vestigios d'ella. Mas não é nossa missão apreciar as opiniões dos actores que pomos em scena; tão sómente as registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma.

Angelo redarguiu á reflexão de Ermelinda:

―Pois bem; para que não digas que é da maneira de ler, que elles parecem chôchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora escuta.

Que quantos até dois annos Em Belem fôssem nascidos, E toda a sua comarca Matassem a ferro frio

Sem excepção a pessoa Que nos districtos se achasse, Entendendo d'esta sorte Que nós lhe não escapassemos.

―Olhem que semsaboria!

Esta divisão administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o auctor fez na Judéa e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios.

―E não foi assim?―perguntou Ermelinda, que não percebia ainda o motivo dos reparos de Angelo.―Pois Herodes mandou matar todas as creanças da Judéa; então não mandou?

―Mandou, mandou; mas a Fama é que devia contar isso melhor.

―Melhor?! Então não é bonito esse verso?

E Ermelinda, tirando o manuscripto das mãos de Angelo, leu a seguinte quadra:

Para livrarem seus filhos Da morte dos innocentes, Dos braços faziam cruzes Aquellas mães impacientes.

Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza, talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.

Esta pequena contenda litteraria entre duas creanças podia dar margem a profundas reflexões a quem para ellas estivesse disposto.

Angelo estava no principio de uma educação esmerada. Principiára já a desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos artisticos que estremeciam já sob as primeiras seducções da fórma. N'estas épocas criticas, em que esses segredos se revelam, é tal o encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louçanias do estylo, os primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos não afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na sombra muita belleza real, ás vezes occulta sob a grosseira revestidura da poesia ou narrativa popular.

É necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixão nascente, que venha a frieza de animo necessaria á imparcialidade do juizo, para que nos não cause repulsão a aspereza, e grosseria até, da fórma e consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva.

Dá-se com a belleza da ideia e da fórma de qualquer obra litteraria, o que se dá com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher.

Ambas são feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar de um sentir novo começa a alvoroçar o sangue do adolescente, quando fórmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas noites febris, a paixão da fórma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma modelação perfeita, um delineamento gracioso poderá decidir da sua vida inteira, e na fascinação que o cega, nunca verá a formosura da alma, que se abriga n'uma pouco feliz encarnação. É que para apreciar a belleza moral, para a vêr transparecer, através do involucro exterior é preciso deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou não a ter ainda experimentado.

Por isso na infancia e nas idades viris é que melhor se apreciam essas fealdades, que escondem um coração angelico. A adolescencia é impiamente cruel para com ellas.

Por uma lei analoga é o povo, o simile da creança, porque não tem os sentidos educados para as mais subtis bellezas da fórma, e é o homem a quem ella já não fascina, embora ainda e sempre o deleite, como poderosissimo elemento de belleza litteraria,―são estes os leitores que mais aptos estão para avaliarem uma ou outra inspiração que, entre muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou a officina do artista.

Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo não perdoou ao auto.

―Sabes que mais? Não decores isso―disse-lhe elle resolutamente.

―Meu pae quer.

―O que é que quer teu pae?

―Quer que eu entre no auto.

―E has de entrar. Quem te diz que não?

―E quer que seja a Fama.

―E has de ser a Fama.

―E não hei de falar?

―Has de falar. Tinha que vêr uma Fama que não falasse. Para que lhe serviriam as cem bôcas?

―Então?

―Então; é que não é forçoso que digas o que ahi está.

―E que hei de eu dizer?

―Outra coisa.

Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o.

―Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.

―Olha, proseguiu Angelo.―D'aqui até chegar o dia do auto vae muito tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses.

―E onde os tem?

―Eu os procurarei. Não digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez d'esses, os que eu te der!...

―Mas que dirá meu pae e o sr. Pertunhas?

―O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto?

―É quem ensina como a gente ha de dizer.

―Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasião os versos que eu te arranjar. Até ha de ter graça vêr a cara com que elles ficarão todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam.

―Mas... diga: onde é que vae buscar esses versos?

―Não sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer, conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que é de teu pae?

―Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, está para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de meu pae.

―Pois vae, que eu faço-te companhia.

E Angelo seguiu-a á cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a escolher hortaliça, elle a dar de comer aos coelhos e ás gallinhas, se entretiveram a conversar.

Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas que o tinham commovido; typos e situações de romances, que se lhe haviam gravado na memoria; invenções da arte moderna, versos, anecdotas, contos.

Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.

Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair.

―Onde é que vae?

―Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.

―E ainda o não viu?

―Ainda não. A minha primeira visita foi esta.

―Então vá, que elle deve estar morto por o vêr. Ah!... já sei a pessoa a quem vae pedir os versos!

―Quem te disse que Augusto os fazia?

―Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar para aquelles sitios.

―E leste-os?

―Não, que não quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na capella? Então não adivinhei?

―Não sei. Adeus.

―Diga.

―E chamavas-me curioso!

E Angelo saiu apressadamente.

Momentos depois estava com Augusto.

A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos amigos.

Angelo fez a narração dos episodios da sua vida de collegio; das difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto, que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre algumas dúvidas que tinha, e esclarecia ás vezes tambem, graças á sua poderosa penetração e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia deixado no espirito do seu antigo discipulo.

A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo.

Augusto inclinára-se aos estudos historicos, inclinação em que o herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle genero.

Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manhã, até que por fim Angelo disse a Augusto:

―Ah! é verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.

―Qual é?

―Sabe que está para breve o dia dos Reis?

―Sim.

―E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que o Herodes faz tremer meio mundo?

―Bem sei―respondeu Augusto, sorrindo.

―Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas se soubesse os versos que lhe deram para recitar!

E Angelo reproduziu, como pôde, as quadras do monologo da Fama no auto dos Reis.

De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto.

―Eu já conhecia isso. É o costume―disse elle no fim.

―Mas não lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar melhor do que isto?

―E então que quer que eu lhe faça?

―Outros versos para o logar d'estes.

―Outros!... Eu?...―perguntou Augusto.

―Por que não?

―Que lembrança!

―Não me venha negar que os faz.

―Versos?

―Sim.

―Quer dizer que os leio.

―E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me então quem é que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me dirigir a elle.

―Então houve quem escrevesse versos na parede da capella?―perguntou Augusto, sorrindo.

―Não que eu visse; mas já duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas de ambas recaíram no mesmo homem.

―Quem foram essas pessoas?

―De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.

―Ah!

―A outra foi Lena.

―Le... A sr.

a

D. Magdalena?

―É verdade, minha irmã. E estranhou, com razão, que eu o não soubesse.

―E como o soube ella?

―Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.

Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o preoccupava.

Angelo continuou falando, sem que fôsse escutado; a final concluiu, dizendo:

―Então quer falar ao poeta da Ermida para que me dê o que lhe peço?

―Poesia não lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o satisfazem...

―Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, até a achar. Desde já lh'os agradeço.

―A elle?

―A ambos―respondeu Angelo, rindo.―E agora diga-me, Augusto: Ainda está resolvido a viver aqui sempre enterrado? Não pensa em mudar de vida?

―Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me offerecia... não tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do crepe.

―Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto não terá amigos que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae já ...

―Que quer? Não me posso vencer até pedir ou acceitar de outrem auxilios, quando Deus m'os não tem recusado ainda; nem sei até se esses destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles que nasceram affeiçoadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer canto escuso e obscuro, e lá mesmo dão flôr. Porque é isto não sei, mas...

―Sei eu―disse uma voz da parte de fóra da janella, junto da qual se passára o dialogo...

Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no vão da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria.

―Ah! o tio Vicente!―exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro.

O herbanario encostou-se, ainda de fóra, ao peitoril da janella, ficando assim com meio corpo para dentro da sala.

―Viva o nosso doutor―disse elle, sorrindo, a Angelo.―Por emquanto ainda esse coraçãozito está como era. Não esqueceu os seus amigos da aldeia.

―Está como sempre estará―respondeu Angelo.

―Sempre!―repetiu o velho.―Sempre e nunca são duas palavras de terrivel significação... Mas emfim... de bom metal é o coração, assim o não enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...

E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:

―Com que dizias tu que não sabes porque algumas plantas vivem de pouca luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro? É porque vivem muito pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra pelas raizes. Lá diz aquelle livro da

Historia Natural

que eu tenho. Umas prendem-se pouco ao chão; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar para poderem viver; outras porém, profundam tanto a terra, com tantas raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e não desdobram muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como outras ha homens no mundo. Tu és dos que deixam ganhar raizes ao coração e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros procuram? Mas é preciso cautela, rapaz! Ha corações como a hera, que onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem é assim deve dirigir com prudencia as suas inclinações. Se para mau lado dobra, se se encosta a arvore de preço... mal d'elle! que o separarão com fôrça, fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam.

As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao ouvil-as.

―Que está ahi a dizer, tio Vicente!―disse Augusto, sem ousar fitar o velho.

―Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos dão, vê longe e fundo, rapaz... É verdade que... ás vezes... o arrojo dos mocos é tambem guia feliz... Anda lá com a tua estrella, anda. Ao que já vejo, não sei se te possa chamar louco... como ao principio não duvidei fazel-o. É certo que é pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos.

―Os meus castellos! Que castellos faço eu?

―Não hei de ser eu que t'os mostre... Só te quero avisar que não ponhas grande fé em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida?

―No monte da ermida?

―Não viste por lá no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia é sempre de receiar. O que n'aquella manhã se passou, o que então vi...

―Que viu?... Que se passou?

O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal expressão, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou:

―Nada; o que todos os dias acontece. O céo azul fez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de chuva. Pois não te lembras?... E tudo devido a uma mudança... de vento... a uns ares que vinham do sul...

Augusto não entendia ou fingia não entender estes mysteriosos dizeres do herbanario. Angelo estava distrahido devéras.

O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:

―Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?

―Esteve lá hontem.

―É amigo das creanças?

―Parece-o.

―Conta muitas historias ás senhoras?

―Entretem-as bastante.

―E ao... e a teu pae? Ouve-o com attenção?

―Conversaram muito toda a noite.

O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada resposta obtida, abanava pausadamente a cabeça com certo ar meditativo.

Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um olhar entre curioso e timido.

O herbanario proseguiu:

―Emfim... A desconfiança é um achaque de velhice e nem sempre os mais felizes são os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem ainda a graça da sua protecção.

―O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo.

―Primo?!―repetiu o velho, admirado.

―Primo lhe chamamos nós, porque a tia Victoria teima que, sendo elle sobrinho da tia Dorothéa, é nosso primo tambem.

―Ah? Já ahi vamos? E Lena?...

―Lena, Christe, todos lhe chamam por lá assim.

O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis, terminando por estas:

―E, como no Egypto, é o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas Deus que vele, Deus que vele. E eu não me demoro mais, que vou ainda d'aqui aos pardieiros de Cernuche.

―Á caça dos sapos, tio Vicente?―perguntou Angelo, gracejando.

―Não, que não é agora o tempo―respondeu, sisudo, o velho.

―Dos sapos! Galante caça, na verdade!―continuou Angelo no mesmo tom.

―Galante não será ella, pequeno,―respondeu o velho;―mas abençoada a chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que não ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes sêcca ao ar livre.

―E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caça toupeiras?

―Em seu tempo. Oh! a toupeira é animal de abençoadas virtudes! Basta que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoço, cura a mais desesperada dor de dentes.

―Não deve ser facil operação a de tirar os dentes ás toupeiras―tornou Angelo.

O herbanario continuou:

―A quinta essencia das toupeiras é milagrosa contra cancros e herpes.

―A quinta essencia das toupeiras!―repetiu Angelo, rindo.

―Não rias, creança―acudiu severamente o herbanario.―Que não é bonito rir do que os homens doutos asseguram. Eu já o experimentei, logo que o li n'aquelle grande livro da

Polyantheia

, livro como se não faz hoje outro.

―E como é que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente?

―Tomam-se as toupeiras e queimam-se até as fazer em cinzas. Mistura-se a estas cinzas o sumo de celidonia maior, até haver quatro dedos de sumo acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo e paciencia com creanças.

―Espere, espere, tio Vicente... Não vá embora... Então depois de enterrar tudo isso, que se faz?

―Até logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com menos vontade de rir.

―E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeço ás vezes de um somno tão pesado que me não deixa estudar.

O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu:

―E julgas que não sei de remedio para isso? Experimenta e verás. Mette um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche é uma legua.

E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e sobraçando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes.

Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do velho, riso em que não entrava, porém, o menor laivo de malignidade; porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes merecia, pois sempre do coração o achavam votado a seu favor.

O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, até ás horas do jantar.

XIV

Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias que vão no seio das familias, e pela phant Eu não sei se esta historia terá leitor tão mal aventurado, que não possua recordações e saudades associadas á noite de Natal, áquella festiva e abençoada noite, em que as ruas e os logares publicos se despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que não saiba o que é a festa das consoadas em familia, esse que não leia este capitulo, que n'elle não encontrará prazer. Se alguns as gosaram já n'outros tempos, porém hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias, olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias que vão no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou, que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive assim.

É certo que não ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae direita ao coração, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez; alegre d'esta alegria candida a que o homem é sujeito do berço á velhice, a qual respeitam os estos das paixões, na idade d'ellas, e o gêlo do egoismo, no declinar da vida.

Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de vinte e quatro de dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste a luz, o calor, o conchêgo dos lares, e mais intimos se estreitarão os circulos da familia em roda da ceia patriarchal.

E vós todos, a quem uma moda tôla não constrangeu ainda a abandonar os habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses costumes nacionaes, que não resultará d'ahi desdouro para o vosso nome ou brazão. A roda da civilisação, a que applicaes hombros com tanto denodo, não se cravará por isso.―Podeis, elegantes meninas, cantar lôas sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que aprendestes no collegio; não córeis de collaborar, por excepção, esta noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes tendes no toucador para as abluções purificatorias. Homens graves, a republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e da Europa não periclitará desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a vossa attenção; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem sublimados.―Entrae com as creanças em jogos pueris e faceis, que não destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitações do

boston

e do

whist

.

A familia do Mosteiro era fiel ás classicas usanças d'esta noite tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam ser coisa falada, graças ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamação por toda a assembleia presente.

D. Dorothéa veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e de Maria de Jesus.

Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovação das creanças.

D. Dorothéa viu-se litteralmente enlaçada em braços infantis, que lhe tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaçavam asphyxial-a.

Tudo isto dava motivo a exclamações e risos, que inauguraram um estado de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite.

A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro é indescriptivel. Na cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido.

Aqui eram as creanças jogando, a pinhões, o «par ou pernão» e o «rapa», jogos popularissimos e de occasião, que, de tão conhecidos, dispensam o trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como é de prever, não se executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se passava na sala, ralhar com os criados á cozinha.

No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armára-se o presepe, deante do qual ardiam seis vélas de cêra em castiçaes de prata maciça.

As duas velhas senhoras, D. Dorothéa e D. Victoria, encetaram logo no principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada, a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e Avé-Marias, a que respondia, em côro, a parte feminina, da familia, as creanças e as criadas.

Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trémula e quebrada pela idade, entoava em singela cantilena coplas como esta:

Ó infante suavissimo, Vinde, vinde já ao mundo Livrar-nos do captiveiro D'este jazigo profundo.

E seguia-se um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.

Á sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o para por si proprio se poder informar.

E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introducção na sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorothéa, que, de embebidas que estavam nas suas orações, nem por elles deram.

O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas senhoras, e quando após um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorothéa, se devia seguir a resposta do côro feminino, este emmudecido, com a chegada dos dois, a qual desafiára risos a custo suffocados, foi substituido por um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras.

O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanças; D. Victoria teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorothéa, muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de todas estas tarefas.

Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros sómente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso realisára na confecção do presepe, onde estavam representados todos os episodios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova de profunda indifferença artistica passar por elle sem um exame, embora fugaz.

Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de leguas em redor. Havia empenhos para o vêr no tempo do Natal, e se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vêr-se.

Consistia elle n'uma espécie de santuario de pau preto, no meio do qual havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel, com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino Deus, não sobre umas palhas, como a tradição refere, mas graças aos impulsos do compadecido coração de D. Victoria, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de lençoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim bordado, e colchão e travesseiro da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. José, de proporções quasi iguaes ás do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios porém eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo de gallegos dançando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um

pic-nic

, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de cano;―outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar abaixo.

Não esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os muros de Jerusalem. Elles lá estavam coroados de ameias e de milicianos fardados á ingleza e armados de lanças e arcabuz. Eram gigantes aquelles guerreiros, pois, não obstante estar a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os additamentos feitos pela devoção de D. Victoria ao presepe, contava-se o de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito admirado de se vêr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do céo por entre nuvens de algodão e estrellas de ouropel. Era um prodigio!

Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime admiração faria cêdo ou tarde justiça; tive porém de abandonar esta lisonjeira idéa, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais justificadamente populares da nação vizinha. Das paginas de um delicioso quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a Andaluzia se ufana, conheci eu serem não sómente nacionaes, mas peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo.

Em todo o caso era digno da menção que d'elle fizemos o presepe do Mosteiro.

Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o serviço, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar lôas deante do presepe. D. Dorothéa cêdo tomou com Magdalena e Christina o mesmo caminho.

O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles entraram em jogos, como se fôssem creanças tambem.

O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e sério das salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era sómente o homem da familia; pueril, travesso, alegre, folgazão.

―Meu caro,―dissera elle a Henrique no principio da noite―vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a menor discussão séria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o contrario seria uma profanação, que attrahiria sobre nossas cabeças as justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis misturados com a familia.

―Apoiado,―respondeu Henrique;―acceito e comprometto-me a cumprir a proposta.

Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel. Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, tão frio e pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da familia, e ao proprio conselheiro parecia já impossivel que ainda fôssem tão recentes as suas relações mais intimas com aquelle rapaz.

―Animo, sr. conselheiro,―dizia-lhe Henrique, no momento em que elles ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.―Coragem, que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura celebre.

O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes desviados, as cortinas soltas.

Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique:

―Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal d'esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a acompanhar-me lá.

―Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso com as senhoras.

―N'esse caso é tempo.

E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha.

Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente, annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.

A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as grelhas monasticas.

Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamações, de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria ralhava, e a sr.

a

de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus desdenhava do serviço das collegas, e Magdalena e Christina riam de todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava.

Não se imagina!

A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e exclamações, as quaes ainda assim eram subjugadas pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o conselheiro:

―Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vão lá para dentro, vão. Não venham atrapalhar-nos mais ainda do que estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!...

―Não se afflija, mana. Nós não podiamos resignar-nos a ficar alheios á tarefa principal do dia. E até porque é necessario dar andamento a isto para chegarmos a tempo da missa do gallo.

―Pois querem ir á missa do gallo?

―Está de vêr que sim.

―Eu tambem vou―disse Christina.

―E eu―acudiu Magdalena.

―Mais um, que irá tambem―disse Henrique.

―E eu, e eu―accrescentaram differentes vozes.

―Ai, minhas encommendas!―suspirou D. Victoria.―Então por que não disseram isso logo? Agora como ha de ser?

E saiu em direcção á sala da ceia a dispôr as coisas.

É preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illusão de que era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto dormia esta aliás excellente senhora.

―Mãos á obra, sr. Henrique!―bradou o conselheiro, insistindo na resolução com que viera.

―Prompto―respondeu Henrique.

―Então? então?... Que vão fazer?―perguntava D. Victoria, afflicta, voltando á cozinha.

―Querem vêr que preparos?!―dizia D. Dorothéa, sorrindo e olhando com curiosidade para o que faziam os dois.

―Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia―dizia Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena e Christina.

―É verdade que sim,―acudiu Magdalena―e eu exijo o cumprimento da promessa.

―Vamos lá, sr. Henrique,―tornou o conselheiro―acceite-me alguns preceitos da pratica. A regra é fazer tudo o mais indigesto possivel; porque essa qualidade é o caracteristico dos manjares d'esta noite.

―N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com os seus succos digestivos.

―Eu já escolhi tarefa―disse o conselheiro, tirando das mãos de Christina a colhér com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho quente, esse

punch

nacional, que n'esta noite seria uma falta imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete.

Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cêdo principiou a desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral.

Angelo dispensou a tia Dorothéa do trabalho da preparação dos mexidos.

Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas.

―Peço trabalho, prima Magdalena.

―Não ha falta de braços n'esta repartição, primo Henrique. Vá a outra porta.

―Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fôrças.

―Esta? Como se engana! Não sabe que as rabanadas são a essencia da ceia de Natal? E logo havia de confiar-lh'as?

―Ah! não ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim, já no tempo da peregrinação dos hebreus, Moysés lhes ensinava a cozinhar d'isto.

Magdalena abanou a cabeça em signal de reprehensão.

―Perdôe ás pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua elegancia é implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez seria de melhor tom, bem sei. Até n'isso!

―Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me que a coadjuve, prima.

―Não pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.

―Isso equivale a recusar-me o fôro de familia, que tão humildemente reclamo.

―Justamente―respondeu Magdalena.―Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz mal em não reclamar esse fôro de Christina, que talvez encontrasse mais disposta a conceder-lh'o.

―Mas, se me não engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos.

―O de primos? Esse sim; mas não tem os privilegios, que lhe quer dar.

―Que privilegios são?

―Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo.

―Parece-lhe, priminha, que será muito exigir o que eu peço?―perguntou Henrique a Christina, que principiára a escutal-os.

―Não ouvi―respondeu esta, córando e sorrindo, como sempre que lhe falava Henrique.

―Escusado é consultar Christina―acudiu a morgadinha―porque em muitas coisas pensa ella em opposição commigo. E n'isto...

―E n'isto...

―N'isto de attender a requerimentos, é talvez mais condescendente.

―Ao que estou vendo―disse o conselheiro jovialmente―grandes coisas se tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade entre Lena e o sr. de Souzellas, que me dá sérias inquietações.

―E eu julgo que não. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!...―disse D. Dorothéa, com toda a indiscreção da sua ingenuidade.

Magdalena procurou acudir a tempo á corrente das revelações, a que viu disposta a boa senhora.

Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digressão pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava na mesa.

O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se trabalhos, quasi completos, ultimaram-se á pressa outros, e a companhia dirigiu-se para o corredor.

Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo suster a corrente, que ameaçava invadir a sala, que ella ainda não dera por prompta. Já não era tempo. O conselheiro, tomando duas creanças ao collo, rompia a marcha, e atraz d'elle até a pacifica D. Dorothéa clamava insubordinada que não recuaria um passo.

E falando e rindo assim entraram na sala.

Estava offuscante de luzes, esplendida de louças e baixellas, enfeitada de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias.

Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confusão e incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infracções d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudésse perigar a ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caía sôbre a cabeça dos criados uma enfiada de recriminações, que elles por habito já soffriam com exemplar paciencia.

Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se á ceia.

Ceia de Natal! abençoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas mesmas disposições de animo em que ordenava Christo estivessem os que fôssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com tão pouca vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos eméritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados, outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem da França e da Allemanha; cerra as fornalhas ás iguarias exoticas e furta-te ás mãos da extranha geração de Vateis, que aspiram a dominar pelos paladares o espirito nacional.

Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeições, mas respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo facto de que quasi não é feita para ser comida.

Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigações do conselheiro, das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorothéa sobre a innocuidade dos guisados, os pratos corriam á roda da mesa quasi intactos e intactos voltavam á cozinha d'onde sairam.

Mas se se comia pouco―e de facto, á excepção de Henrique, do conselheiro e das creanças, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli para ceiar―mas, diziamos nós, se se comia pouco, em compensação falava-se muito.

O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar constante a animação. Tudo desafiava risos, o dito de uma creança, a anecdota contada por Henrique, as distracções de D. Victoria, as canduras de D. Dorothéa, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as allusões da morgadinha a Christina, a confusão d'esta, as maliciosas insinuações de Angelo.

Assim procedeu o repasto nocturno até á altura das saudações e dos

toasts

. N'esta parte, justo é confessar que Henrique e o conselheiro fôram menos abstinentes. Era difficil resistir á preciosidade dos vinhos.

Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro, voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propôr tambem um brinde.

Angelo levantou-se então para brindar Augusto.

O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.

―Ah! o sr. Augusto―disse Henrique, antes de beber e com certo tom de ironia.―Conheço; é uma ave rara d'estas immediações, que tem brios de cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.

―Brios de cavalleiro?―disse Angelo, com vivacidade.―Inda isso não é tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.

―Pois dê-se-lhe tambem alma de heroe, e se fôr preciso até consciencia de santo. Vá á saude da phenix!

E bebeu.

Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:

―O que vejo é que é perigoso falar com a mais ligeira irreverencia d'esta personagem; corre-se o risco de vêr voltar contra o impio, que tanto ousa, os poderes conspirados do céo e da terra. Bem; prometto acatar essa preciosidade.

―E creia―disse-lhe o conselheiro―que lhe é merecedor de toda a consideração. Augusto é um d'estes caracteres excepcionaes que vivem á sombra de uma modestia impenetravel e á sombra d'ella muitas vezes morrem. É necessario ter a vista muita exercitada n'estas explorações de almas modestas, para descobrir uma assim.

―Felizmente para os myopes como eu―proseguiu Henrique―ellas fazem ás vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem á luz. Não é verdade, prima Magdalena?

―Que admira;―respondeu Magdalena―bem occulto está o fogo na pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.

―Pobre rapaz;―notou a sr.

a

de Alvapenha―aquillo nem parece d'este tempo. O que eu não sei, primo Manuel, é porque elle se não resolveu a tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!

―Não seja isso a dúvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra qualquer carreira, não lhe faltarão recursos para seguil-a até o fim. Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio singular aquelle rapaz!

―É uma phenix―insistiu Henrique, ironicamente.―Vejo que não é susceptivel de discussão, impõe-se á gente como um axioma. Eu tenho habitos de livre pensador, mas... forçar-me-hei a incluir no meu credo esse dogma.

―Perdão―replicou Angelo.―Um axioma não se demonstra, e a boa alma de Augusto está todos os dias a demonstrar-se por acções generosas.

―Por favor!! Dêem como não ditas as minhas palavras! Arrependo-me da minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a penitenciar-me na sua presença.

―E é certo que nos falta aqui Augusto. Como te não lembraste d'elle, Angelo?

―Não viria. N'esta noite não deixaria o tio Vicente.

―Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.

―É do herbanario que falam?―perguntou Henrique.

―Justamente.

―Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos inviolaveis; não é verdade, prima?

―Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que é justo considerar-se uma especie de inviolabilidade.

A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a desviar do ponto principal da questão, dizendo:

―Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de perturbar-lh'a. Além de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa soberania, que deve lisonjeal-o.

―E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em coisas de doenças e de remedios, menino,―disse D. Dorothéa, que era uma das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.

―É na verdade um homem singular!―disse o conselheiro.―D'antes, na noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem por commensal, que ainda é parente arredado da casa. Ha annos porém deu em tomar a peito o meu procedimento politico e em prégar-me sermões e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignação. Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminações e eu achava-me com maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e o homem saiu de minha casa offendido e protestando não voltar mais a ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. Não houve de quê. Havia-o ferido no seu orgulho, e é intolerante n'estas condições.

―Sei-o já por experiencia;―disse Henrique―que n'uma unica entrevista que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasião de lhe conhecer a irritabilidade.

―Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa entrevista não demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades de que o accusa.

―Agora―continuou o conselheiro―vão consideravelmente exacerbar-se os despeites do herbanario contra mim.

―Porquê?―perguntou Magdalena.

―Porquê?... por causa do traçado que se adoptou para a estrada.

―Então?―disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.

―A casa e o quintal do herbanario são os primeiros cortados.

―Não pode ser!―exclamou Magdalena, com evidente expressão de susto.

Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.

Christina não exprimiu menos apprehensiva tristeza.

―É inevitavel. Os dois primeiros traçados tinham certas durezas. O primeiro era uma luva lançada a uma influencia eleitoral, poderosissima; o brazileiro Seabra.

―Ah!―disse Magdalena, com certa amargura na expressão e no olhar.

O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se não lia menos intenso desgosto.

―Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem d'essas exigencias absolutas.

Magdalena respondeu:

―Julguei que era a da consciencia, meu pae.

―A consciencia diz-me que ha interesses superiores ás contemplações com as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira politica ceder ao coração é morrer ou ser vencido. O sentimentalismo exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto ás vezes a um sacrificio individual, que, para o evitar, não duvida prejudicar maiores e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos. É muito tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua casa; porém, mais respeitavel é o bem-estar e a conveniencia de uma localidade.

―E é tão necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que se quer obrigar o herbanario?―perguntou Angelo, e Magdalena secundou com o olhar a pergunta do irmão.

―Eu te digo, Angelo―respondeu o conselheiro, levemente despeitado.―Eu tinha a vaidade de me suppôr ainda prestavel para esta gente, que me tem elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em familia, não vejo ainda quem dê garantias de desempenhar o mandato, muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadversão d'este povo, e elles, á falta de outros, acceitariam ámanhã qualquer nome inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se propunha ser representante. Mas perdôa-me, Lena, talvez isto te esteja parecendo um censuravel excesso de vaidade.

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