Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 4)
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―Mas como soube que eu?...
―Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem em recolher-se... Ouve?
E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.
―O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.
―O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros―notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio.
―Pois sabe que Christina vem?
―Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco hospitaleiro.―Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a cozinha está pouco habitavel.
Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de Souzellas.
―Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
―Pois não diz que sabe tudo?
―Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia de quem as fórma, repugne acceitar.
―Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?
―Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas doenças.
―De duas?
―Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.
―Então?
―A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia.
―Estou curado d'isso.
―Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era doença.
―Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
―Ah! e experimentou a receita?
―Experimentei e curei-me.
―Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são perigosas as recaidas.
―Pois teme que eu recaia?
―Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum accidente.
―É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios que prescreve.
―Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
―Confesso que algumas...
―E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.
―Desde o primeiro dia? Pois Christina...
―Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
―Querido anjo!
―Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua, timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem e mais fé no futuro.
Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para Magdalena:
―Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?
―E quem lhe disse que as tinha?
―Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a observam.
―Ah! Então leu?
―Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado n'ella. Cego, como eu fui.
―Não leria?―perguntou Magdalena, sorrindo.―Está certo d'isso?
―E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses.
Magdalena tornou, mudando de tom:
―É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
―E por que demora o tratamento?
―Pois parece-lhe que será urgente o caso?
―Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do que....
―Silencio!―disse a morgadinha, escutando.―Pareceu-me ouvir...
N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo em voz baixa:
―Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
―Então depressa―disse Magdalena.―Abra-nos o côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do côro.
Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem Christina e Torquato.
Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
Tudo ficou depois em silencio.
Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a devoção promettida.
Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim!
Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
―Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
―Não peça a Deus o que está na sua mão―respondeu-lhe em voz baixa Magdalena.
―Que diz?
―Está ou não sinceramente apaixonado?
―Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
―Crê na pureza d'aquelle coração?
―Como na dos anjos.
―Está convencido de que o pode salvar, ella?
―Não ha crédo que professe com mais fé.
―Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
―E consente?
A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
―Aqui tem o caminho―disse ella.―Siga-me. E, servindo-se da lanterna de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns passos, parou junto de um reposteiro.
―Agora faça o que lhe dictar o coração―disse ella para Henrique.
Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava por detraz d'ella, não o viu chegar.
Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
―Não tenha receio, Christina. Sou eu.
Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar explicações. Henrique accrescentou:
―Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha alma.
E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem ousára retirar das suas.
―Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de mãe, de irmã, e de...
―Henrique!...―murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada creança.
―É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
Christina tremia sem poder responder.
Magdalena entrou por sua vez na capella.
―Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique―disse ella.
Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e inesperadas apparições, correu para a prima.
―Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
―Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito terminantemente, a tua mão.
Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
―Não responderam os labios, primo,―continuou a morgadinha―mas falou o coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
―E disse?...
―Que havia de dizer? Que sim.
E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado.
Suppôz que almas penadas andavam na capella.
O bom do homem não ousava approximar-se.
Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
―Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita intimidade.
―Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!―disse Henrique.―Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
―É verdade, como foi que vieram aqui?―perguntou Christina, já mais desenleiada.―Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O que merecia!...
―Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
―N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a indiscreção―disse Magdalena.
―Que é?―tornou a prima.
―É a discreção.
―Então por quê?
―Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que a verdade.
―Eu...―ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o interrompeu.
―Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
―N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
―Que hei de eu dizer?
―Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
―Ora, já o sabem.
―Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
―Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
―Que diz, primo Henrique?
―Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
―Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida por um sentimento de piedade e de...
―Lena!
―Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
Christina poz-se a rir.
―Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
―Eu?!
Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
―Se eu o soubesse!...
―Eu... eu não disse... eu... só disse...
Henrique tomou a palavra.
―Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
―Eu? Soube-o tambem do Torquato.
―Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
―Isso é que não. Eu não disse á sr.
a
D. Magdalena... Ella é que...
―Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o segredo.
―Como?
―O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
―Eu a esse não disse.
―Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
―Ora, ora...
―O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo.
―Eu não disse...
―E depois a prima...
―Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final falou.
―Mas sabia tambem que eu vinha?―perguntou Henrique.
―Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de receber o primo em minha casa.
―E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
―Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
―São mesmo coisas tuas―disse Christina, rindo.
―Mas eu não disse nada―insistiu Torquato.
―Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?―perguntou Henrique.―Que imaginava elle a final?
-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo Henrique...
―Ah! percebo agora―disse Henrique, rindo.―O velho é ciumento por procuração.
Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, sorriu com elles.
O Torquato foi o unico que nada percebeu.
Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de voltarem a casa.
―Choverá?―perguntou Brizida.
―Julgo que não―respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o firmamento.
Henrique acompanhou-a.
―A noite está serena―disse ella.―São horas de voltarmos.
―Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas―disse Henrique, ―Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas―disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:―Mas que agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
―Vamos, vamos,―respondeu Magdalena―o dia d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque...
N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
―Que foi?―perguntou Henrique, que o percebeu.
―Nada―respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
―Viu a alma da morgada?―perguntou jovialmente Henrique, vendo-a preoccupada.
―Não―respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.―Pode porém haver apparições peores.
―Que é, Lena? Que viste tu?―perguntou Christina, assustada.
―Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua quasi desolação.
XXIX
No dia seguinte, pela manhã, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada do conselheiro e de Angelo. A impressão profunda que a este ultimo causára a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D. Dorothéa apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro; Henrique acompanhou-a e de caminho pôl-a ao facto do estado do seu coração, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mão de Christina.
D. Dorothéa ficou a principio admirada. Ainda se não desacostumára de considerar Christina como uma creanca. Havia tão pouco tempo que usava ainda vestidos curtos!
Reflectindo porém, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.
Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, não se fartou de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as habituaes prolixidades da boa senhora não conseguiram enfastial-o. Estava devéras apaixonado!
Chegaram ao Mosteiro.
O conselheiro recebeu-os com ar de satisfação e apparente tranquillidade de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o que quer que era forçado a revelar certa preoccupação interior.
É que, desde que chegára, tinha sondado melhor o animo do publico da terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.
Não lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias realisavam-se as eleições. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens politicas, com que contava, falharam-lhe, e até nem o visitaram. As auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o administrador até o cabo de policia.
Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro para conversar em assumptos alheios á questão que o interessava, para sorrir e prestar attenção ao que se dizia.
De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento, escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente não podia socegar.
Foi na occasião em que elle consultava mais uma vez a lista dos recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorothéa, e em nome de Henrique, o pedido da mão de Christina. D. Victoria trazia bem visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causára. Era muito amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais que tudo a lisonjeára, fôra a preferencia dada por Henrique a sua filha sobre a morgadinha.
―Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique―dizia ella.―Estou mesmo muito arrenegada comsigo.
―Por quê, minha senhora?―perguntou Henrique, sorrindo.
―Pois então isso é coisa que se faça? Já precisa de embaixadores para se dirigir a mim?
―Perdão, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v. ex.
a
para fazer todas as reflexões que a proposta lhe suggerisse e discutil-a á vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.
a
ás vezes, sendo eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...
―Ai, eu havia de pôr muitas dúvidas! Na verdade um rapaz de tão má nota! Ora sempre tem coisas!
―Visto isso, posso esperar?
―Da minha parte uma guerra de morte―disse D. Victoria, não resistindo a dar um abraço a Henrique, já com familiaridade de mãe; abraço que Henrique retribuiu com affecto.
O conselheiro não dava attenção á scena.
―Então, mano!―bradou-lhe D. Victoria.―Deixe lá essas politicas que temos negocios sérios em casa.
―Sim?―disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.―Então de que se trata?
―De um negocio importante, em que é preciso que seja ouvido.
―Ah! Então é um caso de consciencia?
―E não o diga a rir, que é. Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de me fazer um pedido... Isto é, a prima Dorothéa foi que m'o fez.
―Mas por ordem d'elle―acudiu esta.
―Pois sim, o que era escusado.
―Mas então que pede de nós este caro sr. Henrique?
―Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.
O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. Já, por mais de uma vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade, e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.
Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz tiral-o quanto antes da illusão e disse:
―Quem mais razão tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a amizade de Christina.
―Ah!―disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.―Então quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?
―É apenas uma restituição que peço, sr. conselheiro, porque não me posso resignar a viver sem coração.
―Faz madrigal? Está então apaixonado devéras, já vejo―disse o conselheiro.―Pela minha parte folgo de o vêr assim associado á minha familia, por tão bom caminho. Mas onde está a thaumaturga, que fez o milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa a rir-se do casamento?
―Por piedade, não me recorde esses peccados deante da prima Magdalena, que é tão rigorosa nos castigos!
―Diga antes, que sou tão excessiva nas recompensas.
―Mas o mano tem razão―disse D. Victoria.―Onde está a Christe? Admira-me não a vêr aqui!
―Admirar, não me admiro eu―tornou o conselheiro.―É provavel que soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso tribunal.
Henrique e Magdalena sorriram.
―Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S. Gonçalo. Deus queira que te não queimes ainda no fogo ao ateares d'estes fachos.
―Eu vou buscar a Christe―disse a morgadinha, rindo das palavras do pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direcção que elle lhe deu.
O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas, emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorothéa tentava distrahir Angelo, contando-lhe várias historias de creanças, que elle mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado á intelligencia d'elle.
Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual já vinha com o rubor nas faces e com os olhos no chão.
―Aqui está a accusada―disse a morgadinha ao entrar.
O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse
jovialmente
para a sobrinha:
―Ora venha cá, venha cá, que temos muito que falar.
E passando-lhe a mão por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o, continuou:
―Então assim se trama uma conspiração ás caladas? Surprehender a gente com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de bonecas, e já um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, é energia. Nunca o esperei. Ora dê cá um beijo, emquanto não tenho quem me peça explicações por os que lhe roubar.
E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces tingidas pelo pejo e pela alegria.
Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:
―São os penultimos.
―Os penultimos?―disse D. Victoria, rindo.―Ora essa! Então para quando ficam os ultimos?
―Para quando a vir com a grinalda de noiva.
―O que eu nunca esperei é que fôsse a nossa Christe que désse o exemplo á prima. Não tens vergonha, Lena―disse D. Dorothéa para a morgadinha, em quem esta reflexão fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manhã.
O conselheiro e Henrique sorriram tambem.
―Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia―disse Henrique com intenção.
―Não prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo que se devem decidir pelo coração sómente.
―E Deus me livre de o não consultar. Seria abjurar os meus proprios actos.
―O
sómente
é que veio de mais, filha―disse o conselheiro.―Attende-se ao coração, embora. Mas só ao coração? Isso era bom se vivessemos em um mundo de corações.
A chegada de novas personagens desviou a direcção da conversa e modificou a scena.
Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se. Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o latinista era de suspeitosa natureza.
Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que n'estas épocas não comia, não dormia, não respirava, por assim dizer, senão eleições, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.
―Então que novas temos da campanha, meus senhores?―perguntou o conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando um tom de confiança que não sentia.
―Más, sr. conselheiro,―respondeu o Tapadas―muito más. Vejo isto muito feio.
―Ora a coisa ainda não ha de ser tão má como diz.
―Nada, nada; não me agrada. V. ex.
a
descuidou-se. Tenha paciencia, mas eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas são. É preciso não as desacompanhar. V. ex.
a
devia vir ha mais tempo.
O Pertunhas acudiu:
―Deixe lá, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os serviços que fez á terra...
―Ora com o que vmc.
ê
vem!―replicou o Tapadas, com modo azedo.―Então não sabe como é esta gente? Então não os ouve ahi berrar já contra as estradas, quando até agora berravam por não as terem?
―Meia duzia de garotos―tornou o Pertunhas.
―Não, senhor, não é assim; não estejamos a enganar-nos. Os que não dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal.
―Então decididamente o Seabra?...―perguntou o conselheiro.
―Esse é o chefe de todos elles―disse um merceeiro.―Á porta da minha loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traçado da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro louco, sem utilidade para o povo.
O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:
―Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este traçado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o velhaco.
Henrique sorriu, encolhendo os hombros.
―Arremedos do que se faz em terras maiores―disse elle.―Não extranho.
―E tem razão―respondeu o conselheiro.
―Mas, a final―continuou o conselheiro―o homem não tinha na freguezia grande influencia. Como é que...?
―Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho por ahi a toda a gente, e depois os padres estão bem com elle e de mal com v. ex.
a
.
―Mas como se lhe desenfreou tão de repente esse odio contra mim? Deixámo-nos em janeiro nas melhores disposições um para com outro...
―Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao ministro...―disse o Tapadas, com maneiras de quem não dera grande importancia ao objecto a que se referia.
O conselheiro mudou logo de assumpto.
―E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande commetti, para me terem esse odio?
―Dizem que v. ex.
a
é mação―respondeu um lavrador.
―O diacho da questão do cemiterio...―acudiu o Tapadas.
―Isso acalmou já.
―Não acalmou, não senhor. O povo não está contente. É certo que lhe passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella, mas...
―Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha filha!
―É melhor não falar n'isso―aconselhou prudentemente o Tapadas.―O que lá vae, lá vae. Os homens estão meio arrependidos, e até o missionario perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. Até me dizem que por causa d'isso o padre já se retirou da aldeia. O que era bom era vêr até se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora ainda arranjar alguns votos―accrescentou o Tapadas, disposto a servir-se da dôr de um pae como arma eleitoral.
E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambições de cada uma; ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em outros, para este o emprego de um afilhado, áquelle o bom exito de uma demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma hypotheca, e a alguns até nua e descaradamente o dinheiro. N'esta empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o que estava fazendo alli.
Entre os discutidos foi o sr. Joãozinho das Perdizes um dos principaes.
―Então sempre é certo que me roeu a corda esse basbaque?―perguntou, ao falar-se n'elle, o conselheiro.
―É dos mais assanhados―responderam-lhe.
―Mas quem diabo lhe virou a cabeça? Um velhaco a quem tantas vezes tenho tirado de apuros!
―Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos cemiterios...―disse o Pertunhas.
―Deixe lá, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O morgado está muitas vezes com a corda na garganta―explicou malignamente o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da politica, não achava explicações tão plausiveis como a corrupção.
―E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario―insistiu o tendeiro.
―Ora adeus!―disse o Tapadas.―Bem me fio eu n'essas compaixões. Quem não os conhecer...
―E que tem o tôlo com os negocios do herbanario?―insistiu o conselheiro, de mau humor.
―Então? Deu-lhe para alli.
―Qual historia! Para mim é que vem com isso?!―teimava o sceptico Tapadas.
―Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na taberna com este senhor―disse o Pertunhas, designando Henrique.
―Sinto, sr. conselheiro―disse este―se de alguma maneira concorri...
―De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram. Á ultima hora é capaz de mudar de tenção. E por causa d'elle é que ficou despachado professor um pateta em vez de Augusto.
Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com despeito:
―Mas até certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter de certos homens. Ha vinganças tão torpes e mesquinhas, que nenhum aggravo as justifica.
Henrique procurou defender Augusto; achou porém o conselheiro obstinado na sua crença.
Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da intriga.
―Embora o fôsse―respondeu o conselheiro―mas que tem isso? O Seabra não veio a minha casa, não suspeitava da existencia de tal carta. Alguem houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e já é ser muito indulgente suppôr que fôram só cegueiras de vingança e não a sordidez da cubiça quem o moveu a essa infamia.
Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou pela innocencia d'elle.
O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercação travada entre Pertunhas e o Tapadas.
Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:
―Olá, ó sr. Pertunhas, é melhor parolar menos e fazer coisa que se veja; ou deixa só as obras para o seu amigo Seabra?
D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercação virulenta, que o conselheiro teve de apaziguar.
A conferencia durou até ás horas do jantar.
XXX
Chegára o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a batalha eleitoral.
A azáfama politica activára-se n'estes ultimos dias consideravelmente. De parte a parte tinham-se posto em campo todos os influentes e em exercicio todas as armas. Promessas, alliciações, pressão de auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, ameaças mais ou menos declaradas; de tudo se lançava mão.
Ás vezes até o calor das discussões degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se depois, de um lado contr Ás vezes até o calor das discussões degenerava em pugnas menos pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razões mais convincentes, haviam já sido invocados a pleitear ambas as causas, berrando-se depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do governo, do outro, contra os manejos sediciosos e anarchicos da opposição.
Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os padres que arvorando a cruz e o estandarte, prégavam a cruzada contra o conselheiro e instavam com o povo para que não elegesse para representante um atheu e um pedreiro-livre; em outras eram os agentes do brazileiro e os da auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos populares, resgatando penhores, levantando hypothecas, remindo dividas, empregando afilhados, e conquistando assim para o seu partido.
O conselheiro e os seus parciaes não desprezavam tambem nenhum d'estes mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater as do brazileiro Seabra.
Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha. Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores dos dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas, assignando-se: o
Amigo da verdade
; o
Epaminondas
; o
Vígilante
; a
Sentinella
; o
Alerta
, etc., e pondo ao soalheiro as máculas da vida privada uns dos outros, e todas as bisbilhotices da terra, correspondencias que, felizmente para crédito da humanidade, por ninguem mais, além dos interessados e dos que já os conheciam, eram lidas.
O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta secção periodistica. Os seus communicados eram estirados, compactos, obscuros e enrevezados tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se em minuciosos incidentes; em labyrinthos de orações secundarias, d'onde a grammatica da principal saía frequentemente maltratada, deixando ficar por lá o sujeito, o verbo ou qualquer complemento necessario. Mas o brazileiro imaginava que o paiz inteiro aguardava com ancia os seus escriptos. Era frequente abrir uma resposta a alguma zargunchada de um seu adversario, por estas palavras: «Os leitores hão de ter notado o meu silencio, depois das calumniosas asserções...» Os leitores não tinham notado nada.
Finalmente a aldeia achava-se em plena fermentação politica.
Eu tenho a fraqueza de a não amar debaixo d'aquelle aspecto.
A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado é o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos são os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipathica se torna. Se a politica do nosso paiz é já pequena, como elle, e degenera em desavença de senhoras vizinhas, que fará das terras pequenas d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos partidos estão os mexericos e as vaidadesinhas que brotam como tortulhos á sombra das arvores do campanario?!
Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos!
Henrique de Souzellas não ficára indifferente ao movimento politico da aldeia. Pegára-se-lhe a febre eleitoral. Impedido de votar, auxiliava, porém, os parciaes do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um dia lembrou um
meeting
. O conselheiro poz-se a rir.
―Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que está tratando? Um
meeting
, para quê? Não se esqueça de ir domingo á igreja e lá se desenganará por os seus olhos. O espectaculo não é muito para alegrar, porque mostra como em geral o nosso paiz está ainda pouco educado no regimen constitucional. Mas em todo o caso é instructivo.
Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em relação ao tempo em que principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com que já se podia contar.
A eleição, porém, estava muito arriscada ainda. O sr. Joãozinho das Perdizes devia decidir a contenda. Para onde se inclinasse o morgado, com todo o peso dos seus comparochianos, desceria o prato da balança.
Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, não se descuidava de o manter nas disposições hostis contra o conselheiro. A todo o momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma lição ao conselheiro, com quem Henrique estava ligado. Depois disse-lhe que o conselheiro se gabava de ter dinheiro para comprar o morgado e toda a freguezia.
O morgado, sob estas e analogas instigações, praguejava e jurava despejar na urna ministerial o suffragio da sua freguezia.
Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa feição.
Logo pela manhã do domingo, marcado para a grande solemnidade civil, o adro da igreja parochial apresentava uma animação fóra do costume. Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se com desconfiança, ou correspondendo-se por signaes de intelligencia, conforme pertenciam á mesma ou a opposta parcialidade. Os agentes eleitoraes, os influentes dos dois campos acercavam-se d'este, apertavam a mão áquelle, segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam com um terceiro, e, sempre que era possivel, distribuiam listas ao maior numero.
O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as mãos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por entre os grupos, recommendava ordem e respeito ás auctoridades, e dava de olho aos cabos, seus subordinados, para que se não esquecessem de cumprir as instrucções recebidas, votando no candidato ministerial.
Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a constituição da mesa. O parocho, o administrador e o regedor foram occupar o seu logar. Ficou presidente o brazileiro, e o resto da mesa formou-se d'entre as duas parcialidades.
Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as probabilidades da victoria.
N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios do brazileiro, dizia-se:
―Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; verão!
―Só a freguezia de Pinchões enche-nos ahi a urna.
―E estará bem seguro o morgado?
―O sr. Joãozinho!? Ora! Está de ferro e fogo contra o conselheiro.
―Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram na taberna, e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!...
―Não é só por isso. Elle já estava do nosso lado, desde que soube tinham deitado abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava succumbido de todo.
―É verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro d'esta vez.
―Quem? O Vicente? Esse sim. Então não sabes que o pobre velho já se não levanta da cama?
―Ai, não?
―Andava já muito fraco e doente; mas ha tres dias, sobretudo, tem ido de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi dizer, aquillo está por pouco tempo: nem deita a semana fóra.
―Coitado!
―Ahi vem quem ainda hoje o viu. Não é verdade, sr. Pertunhas?
―O quê, meus amigos, o quê? o que é que é verdade? o que é que dizem?―perguntou o mestre de latim, esfregando sempre as mãos.
―Não é verdade que o Vicente herbanario está a ajustar contas?
―Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o coração! Sempre eu digo que uma crueldade assim, como a do conselheiro!
―Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, só por causa do mal que fez áquelle santo velho.
―E com razão.
―E então para quê? senhores, para quê?―continuava Pertunhas.―Para fazer uma estrada em que se gastam rios de dinheiro, e que a final não presta! Pois eu passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer, por a casa do Augusto, que é onde vive agora o Vicente. O rapaz estava á porta. Então, sr. Augusto, disse-lhe eu, á urna! vamos á urna! Elle encolheu os hombros como quem diz: «bem me importa a mim com isso.»
―Ahi está outro, que tambem não é pelo conselheiro.
―Por que não? Pois não é elle todo do Mosteiro?
―Foi, foi―replicou o Pertunhas.―Então vmc.
ê
não sabe que o conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de lhe arranjar a demissão, inda por cima o poz fóra de casa, porque pelos modos o rapaz... fez publicar umas certas cartas... que compromettiam o homem? A falar verdade, tambem não foi bonito.
―Fez elle muito bem.
―Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi então que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem vossês, outro tanto de magro e outro tanto de velho... Mettia dó! Poz-se a perguntar-me muitas coisas, o que havia, o que não havia, por quem estava este, por quem estava aquelle... Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que fizesse, já não podia vencer; que não arranjaria os votos precisos para cobrir a freguezia de Pinchões. O velho ficou admirado quando eu lhe disse que o sr. Joãozinho era dos nossos. E lá o deixei a remoer a noticia. Ao menos resta-me a consolação de lhe ter adoçado com ella os ultimos momentos.
N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter com um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer não sei que eleitor recalcitrante.
―Ahi anda este―disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.―Era bem feito que lhe dessem outra lição, como a da taberna do Canada.
―Ordem, ordem e prudencia!―disse o Pertunhas.―É preciso manter a liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes!
―Mas que tem este senhor com as nossas eleições?
―Quem o manda metter-se cá n'estas coisas?
―Ora é boa! Então não sabem que elle casa no Mosteiro?―disse o Pertunhas, que andava sempre informado das vidas alheias.
―Sim?!
―É verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o Augusto, veio a nós o José Barbeiro, que nos deu essa novidade, que lh'a dissera o Manoel da Quinta, que a ouvira á Gertrudes, criada do Mosteiro.
―Casa com a morgadinha, já se sabe?
―Pois vêdes! não que a bolada convida! A mim logo me farejou isso, quando vi chegar esse figurão cá á terra. Mas querem vossês saber uma coisa engraçada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor não gostou da novidade.
―Não? Então por quê?!
―Vi-o fazer-se de mil côres quando a ouviu... Pois ter-se-lhe-ha mettido na cabeça... Hein?!
―Tinha graça. Mas olha o milagre!...
―Ah! ah!... Este mundo é muito divertido!
N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a olhar para todos os lados, como procurando alguem.
―Que temos nós lá, ó sr. Luiz?―perguntou-lhe o Pertunhas.
―Onde diabo estão os de Pinchões?―perguntou o interpellado.
-Inda não vieram.
―Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles não apparecem. O morgado é homem para se esquecer a catar os cães.
―Mas vamos nós principiando, e no emtanto elles virão―disse o Pertunhas, que fôra nomeado para revezador do secretario da mesa.
―Mas a primeira freguezia que vota é justamente a d'elle. O sr. Seabra está como uma bicha!
E, dizendo isto, o homem voltou para dentro.
A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do beaterio, que pela voz dos padres chamava áquillo artes do demonio, ia principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais tarde, de proposito para não formar parte da mesa, requereu, com o relogio na mão, que se abrisse a urna aos eleitores, visto ser a hora marcada no edital.
Este requerimento, simples e justo como era, suscitou discussão.
O brazileiro allegou que, sendo os de Pinchões os primeiros a votar, em virtude do artigo 62.º do decreto eleitoral, que manda votar primeiro a freguezia mais distante, e não estando na assembléa ninguem d'aquella freguezia, convinha esperar.
O conselheiro insistiu, dizendo que a lei não mandava esperar por os eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que portanto votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas horas de espera, votariam os ausentes que depois viessem.
Esta questão não se resolveu de prompto. Trocados alguns alvitres, lida a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados os recenseamentos e mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao administrador, e ao parocho, é que se approvou a proposta do conselheiro e principiou a chamada.
A freguezia de Pinchões faltou em pêso.
O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a lista dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os adversarios, e sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em principiar a votação julgou descobrir cavillação. Na urna não tinha entrado uma só lista. Pregoou-se o ultimo nome dos eleitores de Pinchões. Ninguem ainda!
Passou-se a outra freguezia.
O brazileiro já não estava em si.
Os primeiros votos recolhidos mal os pôde introduzir na urna, de trémulo e sobresaltado que estava.
O homem suppunha que lhe tinha sido roubada á ultima hora uma freguezia inteira. Não estava muito longe de acreditar que os agentes do conselheiro a haviam arrasado completamente.
A freguezia que se seguia na votação era uma das que se conservavam fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a indisposição do Seabra.
A votação ia, porém, correndo, interrompida apenas por algumas questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e sobre a regularidade d'esta ou d'aquella lista, graças aos futeis pretextos de que os contendores lançavam mão para disputarem, voto a voto, o suffragio popular.
Ia adeantada a votação, quando correu na igreja uma voz, que veio infundir alento no animo desfallecido do brazileiro.
-Veem ahi os de Pinchões!... Ahi estão os de Pinchões... Ahi vem o sr. Joãozinho e toda a sua gente!―dizia-se de toda a parte.
Esta nova passou de bôca em bôca, a ponto de produzir um sussurro na assembléa.
Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados.
Chegára de facto alli o sr. Joãozinho das Perdizes, á frente da sua
freguezia
.
Leitor, se tens, como eu, esperança e sincera fé no systema representativo, perdôa-me o obrigar-te a assistir a uma scena que faz subir a côr ao rosto de quem, como nós, abençôa os sacrificios por cujo preço nossos paes nos compraram a nobre regalia de intervir, como povo, na governação do Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa tutela de um homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos, contra os quaes o instincto e a razão igualmente se revoltam. A scena, porém, humilhante como é, não envolve a minima censura á excellencia do systema; mas apenas aos que nos quarenta annos que elle quasi tem de vida entre nós, não souberam ou não quizeram ainda fazer comprehender ao povo toda a grandeza da augusta missão que lhe cabe executar.
Depois das nossas luctas civis, já muitas creanças se fizeram homens; se a escola fôsse entre nós o que devia ser, já haveria sobra de eleitores com perfeita consciencia dos seus direitos civis.
O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, sómente devem impellir os homens de intenções sinceras e puras a applicar os esforços de intelligencia e de acção para ministrar com a educação a moralidade, e para acordar a consciencia d'esta entidade social.
Era o sr. Joãozinho das Perdizes á frente da sua freguezia, disse eu.
E é justamente este o espectaculo humilhante de que falava.
Tendes visto um guardador de cabras á frente do seu rebanho, conduzindo com acenos e assobios todas as barbudas cabeças d'aquelle regimento quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da scena que se presenciava agora no adro da igreja matriz.
O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mãos o sceptro da sua soberania, não era menos docil do que os irracionaes que recordamos.
O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava; quando podia dispôr dos destinos dos seus senhores, era quando mais vergava a cabeça sob o pêso que estes lhe assentavam.
Não é similhante esta fôrça inconsciente do povo á do boi robusto e válido, que uma creança dirige e subjuga? Forte como elle, como elle docil, como elle laborioso, como elle util, não vê que a mesma fôrça que emprega no trabalho lhe poderia servir para repellir o jugo. Ou quando o vê, é quando o desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas tremendas.
Mas o povo de Pinchões, o povo do sr. Joãozinho, estava muito longe d'esses excessos.
O morgado vinha, como já disse, á frente.
A barba por fazer, as melenas despenteadas, o lenço do pescoço sôlto, sem botões o collarinho da camisa, com as mãos mettidas no cós das ceroulas, o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas até o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bôca, o palito atraz da orelha, o chapéo sobre o occiput, dois galgos adeante de si, e o inseparavel Cosme quasi
à latere
. Entrou no adro com ares triumphantes, sorrindo e piscando os olhos para os seus amigos e partidarios, como para lhes fazer notar a numerosa procissão que o seguia e a docilidade dos membros d'ella.
Atraz vinham os eleitores de Pinchões, velhos e moços, ricos e pobres, mas todos com o olhar timido e estupido, todos com movimentos enleados, todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com elle; a direcção que tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo, segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se praguejava, tudo ficava sério. O cortejo parou á porta da igreja.
O morgado passou revista á sua tropa, á qual deu instrucções.
Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braços estendidos e a cabeça baixa, não ousavam fazer um movimento, e conservaram-se enfileirados até nova ordem do sr. Joãozinho.
Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem.
No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel almaço dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de um homem que elles nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um d'elles, chamado pela voz do escrutinador eleitoral, responderia: «presente»; approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um pêso que o opprimia.
Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto que acabavam de executar, não saberiam dizel-o; se lhes perguntassem o nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das suas liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a resignação do direito de votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem que n'aquelle dia estavam nas suas mãos e dos seus pares os destinos do paiz, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiança propria dos ignorantes.
Innocente povo!
Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cómmodo degrau.
Quando disseram ao sr. Joãozinho que já tinha passado a sua vez de votar, o homem rompeu pela igreja dentro, berrando, bracejando, ameaçando céos e terra, sem attender a quantos lhe clamavam que tinha de se proceder a nova chamada, e que portanto socegasse.
O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justiças.
Custou a serenar o morgado, e não o fez senão depois de duas pragas contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas que razões politicas fizeram engulir ao brazileiro, sem nem sequer lhe tirarem dos labios o sorriso com que saudára a vinda do morgado.
Caindo em si, o sr. Joãozinho deu ordem á sua gente para que entrasse para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos lados d'ella, promptos á primeira voz.
A chamada proseguia, e a votação não ia já muito favoravel ao conselheiro, a julgar pelos indicios, que não escapam aos olhos amestrados dos mirones.
O brazileiro exultava comsigo mesmo,
principalmente
quando, por sobre as cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas.
O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro.
Era caso desesperado.
Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a nossa narração.
Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre os quaes o Zé P'reira.
Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.
O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que era contra a expressa determinação do artigo 61.º, § unico, da lei eleitoral.
Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé P'reira. Era uma nódoa de vinho.
Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.º.
A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a maior candura:
―Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que vocemecê me deu.
O proprio conselheiro desatou a rir.
O brazileiro resmungou:
―Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?
-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir―disse o Tapadas, e accrescentou:―ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.
Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista caiu na urna.
Estava a findar a primeira chamada.
Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.
A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.
Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do herbanario, cuja inicial era um V.
Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição inevitavelmente.
O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.
O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.
―Vicente Rodrigues da Fragosa―disse elle, preparando-se já para voltar o caderno.
―Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe―disseram alguns.
E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:
―Presente.
Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.
Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.
Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.
Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido, segurando a lista que vinha lançar na urna.
Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito, senão com supersticioso terror.
Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.
O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.
Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.
Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.
O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao encontro, dizendo commovido:
―Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...
O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.
―Arreda-te!―disse com severidade―deixa-me, serpente, que mordes a mão do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia, quando estiver a expirar!
O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas palavras.
―Ó tio Vicente!...―exclamou, ajuntando as mãos―pois eu que lhe fiz?
―Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso: eu não o quero para mim.
E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:
―Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.
Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.
―Manoel,―disse-lhe o velho em voz sumida―não me cegava tanto o resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.
―E sel-o-has sempre, Vicente.
―Sempre que o seja... por pouco tempo será―respondeu o velho, sorrindo tristemente.
―Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?
―Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e outros mais.
A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na garganta.
―Já não posso...―murmurou elle.―Queria dizer-te...
E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:
―Era... d'este... Elle é... elle está...
Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.
Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras morto, quando o fôram a erguer.
O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o. Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.
Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.
Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.
Ia principiar a segunda chamada.
O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.
O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, acharam-se sós junto do cadaver.
A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em que o conselheiro esteve só com Augusto.
N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao resentimento.
―Augusto―disse elle a meia voz―a morte não deixou este infeliz completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.
E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.
Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:
―A mão que v. ex.
a
me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso. Desde que uma vez v. ex.
a
formulou a accusação e se fez juiz, prefiro, a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico mais em paz com o meu orgulho.
A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.
Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.
Augusto acompanhou a casa o herbanario.
O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco disposto a permanecer alli.
―Fique se quizer―disse elle para Henrique.―Não estou em estado de receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande novidade. Adeus.
E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.
Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias circumstancias que a acompanharam.
Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.
A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das suas previsões, infelizmente realisadas.
Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira, o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que se lhe preparava na urna.
Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.
Assim, por exemplo, dizia elle á filha:
―Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer; a vida politica ia-me cançando já.
Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal simulada satisfação!
Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia já.
Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de votos.
Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.
Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas.
O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da certeza.
É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os ramos cortados?
O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.
Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando viesse, feril-o-ia como imprevista.
Sempre assim succede.
No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.
O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.
Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo bateram precipitados.
A causa estava, emfim, decidida.
A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?
O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um sorriso amargo, disse para a familia:
―Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!
―Quem sabe, mano? Ás vezes...
Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:
―Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!
―A correr?!―disse o conselheiro, em quem esta simples noticia infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.
As senhoras seguiram-n'o alli.
O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.
―Parece o Domingos, o criado do Tapadas...―disse o conselheiro, affirmando-se.
―Mas que pressa elle traz!―notou D. Victoria.
―Já nos viu―disse Angelo.
―Lá acenou com o chapéo―exclamaram todos.
―Que quer elle dizer com aquelles signaes?―tornou o conselheiro, nervoso.
―Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.
―Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É boa!―disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer que lhe descubram uma esperança.
Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.
Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir alli. Mal se respirava.
―Eil-o―disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle appareceu.
―Viva! sr. conselheiro, viva!―bradou elle de lá, apesar de esfalfado.
O conselheiro teve quasi uma vertigem.
―Elle que diz?... Como pode...
Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com frenetico enthusiasmo.
Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a commoção que esta produz, se se realisa.
O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:
―Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...
Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez a sair d'ella.
Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.
O conselheiro interrogou o.
―Então que dizes tu? Que vivas são esses?
―Digo que vencemos―respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na primeira pessoa do plural.
―Estás a sonhar?
-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.
ê
... tinha v. s.
a
mais cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola...
―Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!
―Cento e cinco!
―Estás bem certo no que te disse teu amo?
―Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.
O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel aquillo que lhe annunciavam.
Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do facto.
Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!
O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram estrondosas.
A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.
O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.
Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.
―Que quer dizer isto?―perguntou o conselheiro, abraçando-os.
―Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem menos―respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.
―Cento e trinta e cinco―repetiu o Pertunhas.
―Mas d'onde vieram!
―Ora essa é boa! De Pinchões.
―De Pinchões―repetiu o Pertunhas.
―Como?... Pois o morgado?...
―Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!
―É verdade... votou... comnosco―dizia mestre Pertunhas.
―Mas não se viu ainda ha pouco...
―Que estavam com metralha inimiga?―concluiu o Tapadas.―Que tem lá isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.
―Mas explica-me isso, Tapadas.
―Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda. Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles, pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!
E o Tapadas terminou com outra gargalhada.
O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo:
―Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.
E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que estavam proximos:
―Este Tapadas tem cada graça!
Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito calculam.
As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as suas demonstrações de alegria.
O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e das festas populares que se faziam no pateo.
XXXI
A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, não só pela qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio das quaes o facto succedêra.
O resultado da eleição, comquanto momentoso, não distraía do assumpto as attenções; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se naturalmente nas conversas e discussões, e um chamava o outro.
O herbanario não fôra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito tempo que fizera as suas disposições e por ellas legára a Augusto tudo quanto possuia, isto é, alguns livros, entre os quaes a
Polyanthea
, e o preço, quasi intacto, que recebêra pela casa expropriada.
Logo que estas disposições fôram sabidas, não faltou quem achasse n'ellas a explicação da amizade desvelada com que Augusto sempre tratára o velho, e do piedoso acatamento com que o recebêra em casa, assim que da sua o expelliram.
Nós que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos.
É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem no desinteresse dos outros!
Não ha explicação mais difficil de ser recebida do que a que se fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.
É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim desconfiarmos do proximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exacta e infallivel sciencia do coração humano só se adquire pelo estudo do proprio coração: esse é o unico que nos está bem patente. É por isso que as melhores almas são de ordinario as mais crentes.
Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra todas as apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado o coração como suppõe o dos outros.
O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi muito concorrido.
Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinação do fallecido, em campa rasa, e não no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro desejára.
Tudo se passou sem o menor signal de opposição.
Não se explicam bem estas versatilidades da opinião publica. Uma medida que hoje ateia uma revolução, ámanhã executa-se no meio do indifferentismo geral, e sem apostolado prévio, sem providencias repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia das leis naturaes.
O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do herbanario, e receberam as visitas de pêsames, que em parte eram tambem de parabens pelo exito do suffragio popular.
Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na igreja matriz as badaladas das Avé-Marias, Augusto entrou no cemiterio, já deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de pouco, como o denunciava a terra revolvida.
Elle, cujo coração era decerto o que a morte do herbanario mais dolorosamente ferira, não recebêra pêsames de ninguem. Passára a tarde só com o seu pensamento, o qual, como o leitor prevê, lhe não devia ser muito jovial companheiro.
Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostração de animo, que lhe quebrára as fôrças.
Que era feito d'aquella energia, com que se revoltára contra as perseguições da sorte, e que lhe animára os primeiros passos para obter a justificação devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe perdão; vimol-o recusar o auxilio que este já lhe offerecia, e considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da sua innocencia.
Que é feito d'essa energia?
O que é feito d'ella? leitor, talvez o teu coração te possa responder por mim, se és uma d'essas victimas, para quem a sorte parece personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios lentos.
Quando, uns após outros, se repetem os golpes da adversidade, quando todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldição de Deus, é raro encontrar-se têmpera de alma tão rija que resista e não ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta com um poder superior.
A razão mais clara deixa-se tomar então da cegueira do fatalismo, e eivado d'esta grave doença dissipa-se a fortaleza do espirito, como se extinguem as fôrças do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.
Então encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que é tão sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gôso em succumbir sem lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema infelicidade.
Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provações da vida: a miseria em perspectiva, a ingratidão, o insulto que avilta, a calumnia que ennodôa, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade o insulto e a calumnia: sorrira á miseria e á ingratidão, e dera á amizade as consolações que a amizade lhe inspirára.
Mas não desfallecêra com tudo isto.
Maior provação lhe estava reservada, porque ha maiores provações para a alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia, dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia querida, que havia muito concebêra, que comsigo vivia, que para si guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vêl-a-heis desnorteada, perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir.
Se resiste e sobrevive, se não desfallece, nem vacilla, é porque é de essencia mais elevada do que a humana.
Ás vezes aquella ideia era tão irrealisavel, aquelle sonho tão chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e julgou que o estava.
Mas illudira-se. Se nos dermos de coração a uma chimera, se ella, nas fórmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos têl-a por o que verdadeiramente é; ha sempre um ou outro momento em que a acreditamos realisavel e até realisada.
E, ao convencermo-nos devéras da sua impossibilidade, sentimos a dor profunda que nos causa a perda de um objecto querido.
Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes vestiam a fórma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feição da realidade aos nossos olhos namorados.
E ao revelar-se como impossivel, destróe o coração que o abraça, como Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua gloria de deus.
Qual fôsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto, sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixão dizia elle conhecel-a. Não tinha outra aspiração além de existir, era como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar, em que na mesma adoração se acha o premio do culto, em que o deixar-se adorar é o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle.
De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto.
Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique, sentiu quasi aversão para elle? por que foi que, amavel e bondoso para com todos, só para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas de infortunio o não tinham lançado ainda? Porque a verdade era que foi este o golpe que o venceu.
Por quê? porque amava Magdalena, porque este amor não tinha nada excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que não passára de um sonho, não se sentia de animo para fitar a realidade; porque era aquella a luz da sua alma, e ao vêl-a apagar, vacillou nas trevas e parou. Desde que não avistava um alvo, não havia para elle retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que não valia mais do que a quietação.
Esta fôra a causa do desalento de Augusto, que só então conheceu que se illudira com o estado do seu coração, que o que em si se passava era o verdadeiro amor.
Desde que teve de renunciar a elle, não fez mais um esforço para justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente á condemnação do mundo. Já nem lhe importava justificar-se para com Magdalena; era quasi uma vingança, que tirava d'aquella por quem soffria, obrigal-a a ser injusta.
E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto!
O herbanario fôra victima da mesma illusão de Augusto, e concorrêra involuntariamente para o levar a este estado moral.
Das explicações dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como das meias palavras e meias revelações de Torquato, o herbanario acreditára que a morgadinha combinára imprudentemente com Henrique uma visita nocturna á quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitára sempre da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vêr n'aquillo a confirmação das suas suspeitas, e encontrando Magdalena, reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz.
Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dúvida, se deveria ou não revelar tudo a Augusto.
A noite cerrou de todo e deslizou com a lentidão de uma noite de inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte passou-o na mesma indecisão. Mas a inquietação do herbanario crescia; desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja confiança em Henrique a podia perder.
O herbanario continuava a desconfiar de Henrique.
Chegára a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das meninas de visitar á meia noite, por causa de Henrique, a casa dos Cannaviaes. O velho não pôde mais tempo conter-se e disse a Augusto, depois de muito luctar comsigo:
―Não devo calar-me. É preciso coragem, meu filho. Arranca do coração a loucura que lá tens ainda, embora o deixes em sangue, ou estás perdido.
Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto.
O velho proseguiu:
―Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que vires te não curar, se é sem remedio esse mal, ao menos sê generoso, e acode e salva, se fôr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem.
E após estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite, recommendando-lhe que fôsse preparado para receber uma grande dor.
Augusto seguiu as indicações do herbanario, e foi.
Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da piedosa devoção de Christina, a vimos chegar á janella dos Cannaviaes.
A morgadinha reconhecêra Augusto através das sombras nocturnas, e tivera um presentimento do que significava a presença d'elle n'aquelle logar e n'aquella occasião.
Por concentrada e discreta que fôsse a paixão de Augusto, não era um mysterio para Magdalena.
A extranhar alguem esta penetração de vista não será decerto nenhuma das minhas leitoras.
Magdalena adivinhára havia muito Augusto, e não lhe fôra difficil explicar até a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhêra Henrique.
Por isso, ao vêl-o alli, previu que pesava sôbre ella uma suspeita, que era victima de uma illusão, e que as apparencias a podiam condemnar.
De feito Augusto chegára tarde aos Cannaviaes, porque só tarde o herbanario vencêra a hesitação que experimentára ao dizer-lhe que fôsse. Por isso só pôde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique no curto dialogo, que entre os dois se trocára, quando vieram examinar á janella o estado da noite.
As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira cruel para o seu coração. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer vêr nem ouvir, retirou-se como um louco.
Foi n'essa occasião que Magdalena o viu.
Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava, viu-o pallido, e com uma expressão singular no rosto.
―Então?―interrogou-o anciosamente o velho.
―Tinha razão, tio Vicente. Tem sido uma longa e má loucura a minha. Verei se me curo d'ella.
E, sentando-se, encostou a cabeça ás mãos e permaneceu silencioso.
O velho não lhe perguntou o que se tinha passado.
D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostração de animo em Augusto.
A doença do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o unico motivo de uma fôrça ficticia que ainda o sustentava. Os seus desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes.
A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do cirurgião que tratava do herbanario.
Falador por indole e por cálculo profissional, o facultativo contava á cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a morgadinha.
Um equivoco dizer do Torquato, na presença dos criados do mosteiro, uma das meias discreções do velho, mais perigosas do que a propria indiscreção originára esta versão.
Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel.
No dia das eleições, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O cirurgião prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral. Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle se manifestára o sr. Joãozinho das Perdizes.
O herbanario escutou-o com admiração e sobresalto.
Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma predilecção que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem só teem recebido desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais motivos ha para a esfriar.
Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.
Foi então que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se do leito, e, apoiado no braço de Augusto, que em vão tentou dissuadil-o, se dirigiu á igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores.
Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o alento a Augusto. Facil é, pois, de conceber qual o estado do seu espirito ao entrar no cemiterio.
Oração ou meditação, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade, que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais solemne faziam.
Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do tumulo da filha.
Não era o Cancella já o mesmo robusto e alegre aldeão que vimos, dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fôrças para o trabalho, nem coração para alegrias.
Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que se movia alli.
―Ah! logo vi que era o sr. Augusto―disse o pobre homem, estendendo a mão, que Augusto apertou com affecto.―Só nós temos amigos aqui.
―É verdade, Cancella. Ou só nós, fóra d'aqui, não temos outros, pelos quaes esqueçamos estes, que ahi dormem.
―Eu decerto que não! Está-me toda a alegria, está-me todo o coração debaixo d'aquella pedra―disse o Herodes, apontando para o tumulo da filha.―Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar?
―Ha quem aos vinte já não tenha coragem para principiar outra!
O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras.
―Fala de si, sr. Augusto?... Não tem razão. Que são as suas dores ao lado da minha? Se ainda não experimentou o amor e as alegrias de pae, como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao coração?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o têl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razão, que era seu amigo e quasi um pae para si... mas não é sem remedio a sua saudade, verá... A minha porém...
Augusto sorriu amargamente.
―Tu sabes lá, homem, o que eu tenho no coração?
N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de acclamações e applausos. Eram os clamores dos grupos populares, celebrando a victoria do conselheiro.
Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais.
―Uns riem, emquanto outros choram―disse o Cancella.―Ha alegria acolá.
E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli.
―Ha...―respondeu Augusto, pensativo.―Somos de mais n'esta terra, meu pobre Cancella; nós, os infelizes.
―Por isso parto ámanhã.
―Partes?
―Se eu não posso viver aqui! Se tudo isto me está falando na filha!... A cada passo estou á espera de vêl-a... É como se a todo o instante me morresse. Vou para a cidade; dizem que estão engajando por lá trabalhadores para o Brazil... Quero vêr se o trabalho me mata, antes que o desgôsto me não tente a morrer de outra sorte.
―E dizes que partes ámanhã?
―De madrugada. Já tenho tudo prompto.
Augusto reflectiu por algum tempo.
―Far-te-hei companhia.
O Herodes olhou-o, admirado.
―O sr. Augusto?! Pois quer?...
―Quero que me batas á porta, quando passares.
―Mas que tenções são as suas, sr. Augusto?
―As mesmas talvez que as tuas. Não dizes,que queres vêr se o trabalho te mata? Por que não hei de eu tentar o mesmo tambem?
―Mas... não lhe morreu uma filha.
―E cuidas tu que só um amor de filha nos pode prender á vida? que só a morte de uma creança nos pode ferir no coração?...
O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois disse, com hesitação ainda:
―Não é por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr. Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem. Bem vê que eu sou infeliz e... havia de entendel-o...
Augusto apertou-lhe a mão, commovido.
―Pobre amigo! Não, não me entenderias; porque não basta ser infeliz para me entender. É necessario ter sido louco como eu fui.
―Louco?!...
―Sim, louco, meu bom Cancella, louco. Não te lembras d'aquelle desgraçado do Pé do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou tão triste até morrer, que parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos instantes de felicidade que sentiu na vida.
O Herodes já não comprehendia Augusto, o que lhe fez crêr que o não entenderia se elle o tomasse por confidente.
Augusto mudou de tom, dizendo-lhe:
―Promettes passar por minha casa esta madrugada?
―Pois sempre quer?...
―Se não partir comtigo, partirei só.
―N'esse caso...
―Espero-te. Aonde vaes agora?
―Ao Mosteiro.
―Ah!... vaes ao Mosteiro?...
―Vou despedir-me d'aquella santa familia, que tão bem me tratou da filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se não consolou tambem da morte da minha pobre Linda.
―Angelo?... É um nobre coração... Espera... Não quero partir sem lhe dirigir algumas palavras... Devo-lh'as.
―Só a elle?
―Só elle m'as agradecerá.
E Augusto approximou-se do tumulo da mãe de Magdalena, e á frouxa claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel estas palavras:
«Angelo.―Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua mãe e Ermelinda, duas imagens que serão sempre para o seu coração rodeadas de todo o prestigio da saudade. Ouça-me, que em nome d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem custo. Não o tornando talvez a vêr, Angelo, tinha um dever a cumprir para com a sua generosidade. Hão de ensinal-o a desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creança recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razão do adolescente talvez venha a ser mais docil. Não podendo justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a consciencia tranquilla. Não é por mim que faço este protesto, é para lhe evitar, se fôr possivel, a dúvida no caracter dos homens. Para um coração, como eu lhe conheço, deve ser um martyrio. Os mais que me condemnem; nem necessidade sinto já de me justificar. Parto com um desalentado como eu. O que vou procurar não sei. Tudo acceito com indifferença.―Seu amigo,
Augusto
.
Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a que deviam encontrar-se, separaram-se.
O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.
Não pôde, porém, chegar tão depressa ao Mosteiro como esperava; distrahiu-o no caminho o seu compadre Zé P'reira.
A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso Zé P'reira, estava cada vez mais transtornada.
A beatice azedára o animo da sr.
a
Catharina do Nascimento de S. João Baptista.
A saida precipitada do missionario, que não se sentiu seguro na terra depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle imaginava a cada passo esbarrar, rodeára aquelle santo varão do prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoção pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.
Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Zé P'reira, peor se tornou depois d'essa época.
A mulher passava todo o tempo em devoções na igreja. O marido, desconsolado, procurava lenitivo na taberna.
Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado habitual, e já menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos.
A miseria ameaçava invadir aquelle lar, até alli remediado.
Tudo isto exacerbára a acrimonia das discussões conjugaes.
Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal.
De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais ameaçadora.
Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais além do que a sua timidez habitual o permittira até alli, e a sr.
a
Catharina soube, pela primeira vez, que o osso de que ella era osso não tinha a brandura que lhe suspeitava.
Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhança. D'ahi por deante fôram frequentes iguaes espectaculos.
Na noite em que o Herodes o encontrou, o Zé P'reira, em completa embriaguez, acabára de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a fôrça da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates, jurando que nunca mais voltaria a elles.
O pobre do homem andava agora perdido nas ruas á procura d'ella, arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia dó. O Cancella condoeu-se d'elle, e dando-lhe o braço, para lhe firmar os passos cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher fugida.
E n'esta tarefa de reconciliação passou grande parte da noite, conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que não seria muito duradoura a paz.
E tinha razão o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia.