Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 3)
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―Eu digo―continuou D. Dorothéa―que já nos havia de fazer falta se saisse d'aqui; quando cá não está parece-me a casa morta.
―Deixe lá, senhora, que este já d'aqui não sae.
―Ora bem sabe vossê d'isso.
―Pois a senhora verá. Ora! Os passeios ao Mosteiro são muito bonitos.
Augusto ergueu-se, devéras resolvido a cortar a conversa por uma vez.
―Se me dá licença, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe, quanto antes, para um negocio de urgencia.
Depois de mais algumas reflexões, resignaram-se a deixal-o partir.
Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de Henrique, e bateu á porta d'este.
―Entre quem é―disse de dentro Henrique.
Augusto entrou.
O sobrinho de D. Dorothéa estava sentado junto da janella, lendo uma folha e fumando.
Ao vêr Augusto levantou-se.
A lembrança das scenas d'aquella manhã no Mosteiro, e a expressão de physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevêr a indole da entrevista que se ia seguir.
Evitando porém o menor indicio, que pudesse revelar a prevenção em que estava, disse naturalmente, estendendo a mão a Augusto:
―Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita?
Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:
―Assim estende a mão a um miseravel? Ou é tibieza de pundonor, ou excesso de magnanimidade!
Henrique retirou logo a mão e respondeu com orgulhoso desdem:
―Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para não me arvorar em superintendente de negocios que me não dizem respeito; é um sentido especial, que se chama delicadeza.
―É um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido―replicou Augusto no mesmo tom.―Nem sempre são tão observadas pelo senhor, essas delicadas abstenções, como agora. Sei-o por experiencia.
―Não o são desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde que a minha intervenção pode ser util a amigos.
―Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relação ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua intervenção.
―Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicações?
―Com o direito que me dá a consciencia, senhor!―respondeu energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de ironia.―Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e infamemente, como eu fui, de provocar uma accusação aberta e leal. Direito? É mais ainda do que direito, é dever. É um dever para com a moral, é um dever para com a consciencia, é um dever para com a memoria d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado.
―Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e não lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa que tem de responder por tudo isso? Por acaso será este o pretexto, para depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos necesssaria?
―Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame e vil. Não lh'o invejo. Da minha não é pretexto; é uma interrogação bem positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de ouvir os meus accusadores.
―E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia escolher uma hora mais cómmoda. Sabe que na Alvapenha se janta patriarchalmente ao meio dia.
―Não julgue que com essas ironias de mau gôsto, se esquivará a responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade.
―E tem meios para isso?
―Faço-lhe a justiça de acreditar que sim; creio que ainda não estará tão envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe infligir...
―É provavel que não risse, no caso que diz; mas tambem não falava, acredite. Ha, para interrogações d'essas, respostas mais adequadas e discretas. Não tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse que eu não queria dar-lhe todas as explicações que souber? Sente-se, conversemos placidamente, que é a melhor maneira de vêr claro nas coisas. Não fuma?
Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia:
―Está-me causando tedio e compaixão ao mesmo tempo, senhor. Deve ter já uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fôsse um criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento moral, devia a minha presença ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto, para o não deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que está, em que deve estar por fôrça, a só ideia de que pode calumniar um homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido. Para não comprehender isto, para não respeitar esse sagrado direito, que tem todo o accusado de se defender, é necessario estar corrompido até o fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, só se dá em quem duvída de si proprio, e a si proprio se não respeita, porque se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia, cujos amigos generosos não a receberam sem dor; e quando o calumniado lhe vem pedir explicações, porque se trata da sua unica riqueza, porque, sem familia e pobre, e ámanhã talvez na miseria, precisa de defender o unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante, para occultar talvez a cobardia, que não ousa repetir na face do accusado as insinuações que contra elle fez na ausencia. Se a consciencia lhe não exprobra esta infamia, teve razão ao dizer-me que me enganei procurando-o. A caracteres d'esses não se pede a explicação da calumnia; é a sua manifestação natural.
E terminando estas palavras, que a mais violenta paixão lhe dictára, Augusto caminhou para a porta do quarto.
Henrique deteve-o.
No espirito do leviano hospede de Alvapenha passára-se n'este curto intervallo de tempo uma profunda revolução moral.
Na voz, no gesto e na indignação de Augusto pareceu-lhe perceber vestigios de sinceridade, em que até alli não acreditára, e desde esse momento, além dos remorsos pelos desdens com que o recebêra, sentia viva a necessidade de uma reparação.
Magdalena tinha razão.
No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um não exgotado fundo de pundonor e de moralidade.
―Não saia―disse elle para Augusto, já sem a menor sombra de ironia.―Se para isso fôr necessario pedir-lhe perdão, pedir-lh'o-hei. Que mais quer?... Reconheço-lhe o direito que tem de ser escutado. Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu, que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me já movido a não lhes dar fé. É já um convencimento tão intimo como o que até agora tinha da sua culpa, confesso-o. Se na minha mão estiver esclarecer o mysterio, conte commigo. Fale.
Augusto fitava-o ainda com desconfiança.
Henrique percebeu-o e continuou:
―É justa a dúvida que lhe leio no olhar, mas, como sómente o meu procedimento futuro a pode desvanecer, peço-lhe que não deixe por isso de falar.
―Antes de mais nada: de que me accusam?―perguntou Augusto.
―Pois não sabe?!―exclamou Henrique, admirado.
―Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a conclusão em que fiquei, mal me deixou comprehender...
Henrique contou então tudo o que se passára no Mosteiro, e terminou dizendo:
―Já vê que eu não fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar. Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiança odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lançar aos hombros do culpado toda a responsabilidade da traição, era o natural empenho de todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu não o conhecia bastante para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por aquella occasião confirmaram, explicavam muito bem certas tentações de vingança... Nada mais natural do que suppôr...
Augusto cobriu o rosto com as mãos, murmurando:
―Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de...
Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreção da sua dor.
Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposições para com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expressão do pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo:
―D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto, advogados eloquentes.
Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador.
―Diz que...
―Que não deve temer da impressão produzida, por todas as provas d'este mundo, no animo de quem, através de tudo, acreditará sempre na sua innocencia.
―Refere-se a...
―Ao seu segredo, que ha muito o não é para mim. Veja como eu estou virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro, digamos assim.
―Mas...
―Vamos, vamos... eu sei que é discreto; nem esta era occasião para entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... Não sei como é que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e com o tempo... porque francamente lhe declaro que me é necessario algum tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de... paixão... porém, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo... sem a menor prevenção.
E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom:
―Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes inimigos aqui na terra para o enredarem assim! É preciso esclarecer isto.
―Inimigos?!... Não os conheço, nem vejo motivos...―disse Augusto, pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso, fez um gesto que Henrique percebeu.
―Que é?―perguntou este logo.―Descobriu?... Diga... Uma suspeita é já um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei a seguil-o.
―Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi. É isso...
E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.
―E ainda agora se lembra d'elle?―exclamou Henrique, ao ouvil-o―e inda hesita?! O senhor é de uma boa fé!... Temos o fio!
―Mas como pôde elle...?
―Isso depois; o mais virá a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse senhor... E agora me lembra; elle é um dos oradores do club do Canada... Sondarei esse antro tenebroso... Eu já devia suppor que andava aqui miseria politica... Estou a achar razão áquella adoravel Magdalena... Perdão... inda não perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o consiga, serei seu amigo sem restricções. Até lá, porém, não será isso motivo para de corpo e alma me não dedicar á sua causa... Eu posso ter todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria; e, fôsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que procuraria desfazel-a.
―Agradeço-lhe essas palavras, que acredito são sinceras; não posso, porém, acceitar a intervenção que me offerece. Eu sou que devo justificar-me. Está empenhada n'isso a minha dignidade.
―Como queira. Em todo o caso espero que uma má prevenção o não constranja a não recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder servir. Agora peço-lhe perdão, se alguma vez o offendi de mais; mas vamos lá, o senhor tambem não está de todo isento de culpa... E quanto ao pretexto... adiado mais uma vez, não lhe parece?
Augusto não podia fechar-se áquelle caracter, que se lhe estava mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu, sorrindo:
―Adiado para sempre.
E estenderam as mãos um ao outro, apertando-as já sem o menor resentimento.
Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender.
―É notavel;―pensava comsigo Henrique―estou sympathisando á ultima hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixão por Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e que não fôsse paixão o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista tão apurada para estas discriminações!
XXIV
O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes; porém, graças ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevêra a favor do prêso, e apesar da perseguição que lhe moviam os padres, contava-se que elle fôsse sôlto, e era esperado na aldeia dentro em poucos dias.
Magdalena não se descuidára de mandar todos os dias ao pobre homem noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado sérios cuidados á medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo de convalescença.
Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber por quê, ella propria não sentia as esperanças que dava.
Ha espiritos tão instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, á maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximação do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feição assustadora.
Já os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de saude principia a tingir as faces, até então pallidas, e elles sentem-se ainda estremecer de secretas apprehensões.
Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feições da pequena Ermelinda.
A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de vida principiára já a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de terror e pela doença; ás vezes até um sorriso, ainda que melancolico, distendia-lhe os labios desmaiados, e só de quando em quando raras nuvens de tristeza, evocadas por uma recordação penosa, parecia assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar n'ella.
O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado pulso da creança, assegurára que ella estava já livre da febre; e apesar d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a dar-lhe a boa nova.
E é certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehensões da morgadinha.
Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordára mais tranquilla e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os indicios do mal profundo.
Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores, gritos angustiosissimos, contracções espasmodicas, que parecia despedaçarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostração extrema, uma quasi completa insensibilidade de funesta significação.
Magdalena, assustada, tomou nos braços a debil e emmagrecida creança, e trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, já quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.
Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de inverno, um pouco de calor para fundir os gêlos da morte, que principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creança; ao clarão levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas para aquellas faces morbidamente pallidas; á amenidade da paizagem, um reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagára.
Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol já vacillante, com a expressão, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.
Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes lagrimas.
A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.
―Que tens tu, minha filha?―disse-lhe com meiguice, afagando-a.
Ermelinda não respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma expressão de affecto e de tristeza.
A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.
A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a como d'antes. E durou, e durou este olhar até que pareceu a Magdalena haver n'elle não sei que estranha fixidez, que a inquietou.
Palpou as mãos da creança; estavam frias; o coração, parado; chamou-a pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas feições... estava morta.
Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella, arrebatasse nas azas para o throno de Deus.
A morte de uma creança como Ermelinda é um facto de ordinario indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz que emmudece nos festivos córos da infancia; algumas sentidas lagrimas de mãe sobre um berço vazio; algumas flores sobre um tumulo; e á superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibração que a rosa desfolhada imprime á agua tranquilla do lago... eis tudo.
A multidão segue no delirio das festas, na lucta das paixões, na febre da ambição e das glorias, e o perfume da flor pendida não lhe affecta os sentidos embriagados.
Ás vezes, porém, não succede assim, e assim não devia succeder com Ermelinda.
As paixões humanas, que ante o cadaver de uma creança, coroada de flores candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como deante de uma visão do Céo, tomam-n'o ás vezes por estimulo para mais furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedição e a vingança.
Desde que fôra publicada a portaria, prohibindo expressamente os enterramentos na igreja, medida tão adversa ao espirito do povo, não tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pôr a medida em execução.
A ira popular, exacerbada de contínuo pelas secretas instigações de alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas não rompêra em explosão por falta de pretexto.
Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia á formação de magotes nas encruzilhadas e nos largos.
Quando porém se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a effervescencia dos animos. Era chegado o momento.
A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz que ella fôsse sepultada no mausoléo da casa do Mosteiro. Cumprindo assim a lei, prestava-se tambem culto á affeição que todos sentiam pela creança, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irmã.
Sabendo-se d'esta resolução, rebentou a indignação popular.
No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada extraordinario ajuntamento.
O brazileiro, o sr. Joãozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas, alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joãozinho, falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.
O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraiçoar, achava-se agora muito abalado, porque na questão dos cemiterios era intolerante, não podendo levar á paciencia que quizessem enterrar um homem, como elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.
O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joãozinho, não se cançava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.
Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratidão do morgado para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do coração do conselheiro, que privára cruelmente o pobre velho da sua propriedade, golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha interesse em que não fôsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma grande porção dos proprios bens.
Ouvindo estas coisas, o sr. Joãozinho, que tinha mais de grosseiro e bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.
Outras vezes era no tópico do cemiterio que ardilosamente o espirito tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de Pinchões iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o que dava logar a novas punhadas, novas irritações e a novas pragas do sr. Joãozinho.
No dia que dissemos, multiplicára o morgado, mais que de costume, as suas libações de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio fechados, ouvia com irritação os commentarios dos circumstantes e distribuia com profusão pragas e murros.
―Com os diabos!―berrava elle, acabando de despejar um copo de quartilho.―Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir á igreja e obrigal-os a enterrar lá a pequena.
―Isso não se faz assim com essa facilidade e arreganhos―disse velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.
―Eu lhe diria se se fazia ou não, se se tratasse de coisa que me dissesse respeito!... Mas, lá com a filha do Cancella... não tenho eu nada... lá se avenham.
―A questão não é ser filha do Cancella ou deixar de ser;―tornava o brazileiro―a questão é do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os outros.
―Menos eu―exclamou o morgado.
―Se Deus quizer tambem vmc. se ha de lá enterrar.
―Diabos me levem se...
―Pelos modos―disse um padre do lado―elles enterram a rapariga no tumulo da familia do conselheiro.
―Pois vêdes; se elles são todos da mesma confraria!―ponderou o Pertunhas.
―E se não, é vêr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Então julgam que aquillo não foi combinação?―disse o padre.
―Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe bater―accrescentou um lavrador.
―A mim me disseram que trinta.
―Sempre uma pouca vergonha como aquella!
―E verão que não lhe succede mal.
―Pois não, não; elle está alli, está na rua.
―Diz-se que o soltam á fiança.
―Não pode ser; aquelle crime não tem fiança―ponderou um fazendeiro, que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justiça.
―Ora adeus! com o que vossê vem! Querendo elles...
―Aquillo parece uma seita.
―E ainda ahi está? Pois já se sabe que elles são pedreiros-livres.
―E o tal lisboeta?
―Esse, então, é que é d'aquelles!
O sr. Joãozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.
―Ah! é do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caçoar com o missionario? Sempre vossês são uns homens de lama, tambem! Ó Cosme―continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao lado d'elle―olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?
O valentão sorriu modestamente, encolhendo os hombros.
―Pois, senhores―proseguiu o brazileiro, que não queria deixar arrefecer o enthusiasmo e a irritação do publico―hoje decide-se a coisa... D'aqui a uma hora está enterrada a pequena e depois... o uso faz lei.
―Isso é que é verdade―secundou o Pertunhas.
―Faz lei emquanto eu me não lembrar de ir desenterral-a―respondeu, cada vez mais azedado, o sr. Joãozinho
―Não; isso lá mais devagar―acudiu o brazileiro―vossemecê bem sabe que, estando ella no mausoléo do conselheiro...
―Importa-me cá o mausoléo? O senhor está a ler. Eu com um empurrão arrumo aquella platafórma a terra. Ó Cosme, olha nós, hein?
O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.
―Ahi está quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de vontade, que não deixasse fazer o enterro―disse o padre.
―Era bem feito, para elles saberem tambem que se não brinca assim com o povo.
―Lá isso era!―repetiram algumas vozes.
―Eu por mim... se alguem fôr...―aventurou um.
―E eu, eu―ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.
―Deixem-se de contos,―continuou o padre―elles fazem o que querem, porque sabem que não ha um homem de coragem, que se ponha á frente do povo...
―Lá isso é que é verdade.
―Já não ha homens para as occasiões.
O morgado das Perdizes, que tinha presumpções de valente, e se gabava de ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e protestou dizendo:
―Então julgam vossês que eu, se me der para ahi, não vou ao cemiterio, eu só, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?
―Isso não se faz com essa facilidade―disse o brazileiro impertinentemente.
―A quanto aposta vossê?―bradou, cada vez mais afogueado, o sr. Joãozinho.
―Ora vamos―continuava o brazileiro com os mesmos modos―não que a auctoridade...
―A auctoridade! Para mim é que elles veem! Olha o regedor! O regedor commigo! E os cabos? Ó Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?
O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:
―Se queres tentar...
―Com mil demonios!―disse o morgado, exgotando mais um copo―vamos a isto! anda d'ahi, ó Cosme!
O Cosme levantou-se.
―Nada de imprudencias―aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a significação contraria ao pensamento que exprimia.
―Quem tiver mêdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se ha ou não ha um homem para as occasiões.
E estavam no meio da sala o sr. Joãozinho e os seus arrojados camaradas, e o brazileiro já conferenciava com o padre, que lhe respondia com signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por não habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou geral extranheza.
Era Henrique de Souzellas.
Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.
Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.
Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercações e das pragas que iam lá dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vêr se encontrava vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.
Apeou-se, prendeu o cavallo ao peão da porta e entrou.
Ao entrar, percebeu que havia causado sensação a sua presença, e até, pela expressão com que o fitavam, suspeitou que talvez não fôsse demasiado prudente o passo que dera.
Era tarde, porém, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor manifestação de receio.
Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.
O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente do que desejava o recem-chegado.
Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e não obstante estar firmemente resolvido a não lhe tocar.
O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da sêde.
Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se lançasse uma pedra de gêlo.
Reinava, porém, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e que ameaçava degenerar em maior tormenta.
O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para não ser visto; o sr. Joãozinho olhou para Henrique, como se o não conhecesse, e conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no recem-chegado olhares sombrios e ameaçadores.
Henrique, ainda que interiormente não tranquillo, sustentava-os sem desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.
―É preciso ensinar estes espiões―dizia uma voz audivelmente.
―Que quererá d'aqui este figurão?―perguntava outro.
―Era bem feito que lhe ensinassem a não se metter com a nossa vida...
O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braços sobre a mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe já algum tanto a voz nas fauces:
―Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar, sempre lhe dou uma lição, que lhe ha de lembrar toda a vida! Não, que isto aqui não é Lisboa! Eu não admitto que se olhe para mim com falta de respeito... Já disse! Eu não gosto de repetir as coisas... Tenho dicto! O senhor não ouve?
Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.
―Ó senhor lá... Faz favor de não olhar para mim d'essa maneira?
Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.
―Vossê ri-se!... Elle riu-se, ó Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!
E o sr. Joãozinho executou um movimento para levantar-se.
O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.
Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.
―Então! então! isso o que é?
―Quero perguntar áquelle senhor de que é que se ri―bradava o morgado, furioso.
―Para isso não se incommode―respondeu Henrique―eu mesmo d'aqui lhe respondo. Rio-me da ridicula figura que está fazendo.
―Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me... Ó Cosme!...
E o morgado barafustava entre os braços debeis que o retinham. No povo principiou a subir a maré das murmurações contra Henrique.
―O senhor vem para aqui armar desordens?
―É para espiar?
―Depois queixe-se...
―Não se metta com a gente.
O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mãos que o retinham, conseguiu, graças aos seus musculos robustos, sacudir de si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por prevenção se collocou a pé.
O sr. Joãozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para elle:
―O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para mim... Quero vêr agora se ainda se ri.
―Por que não? Se cada vez está mais ridiculo!
O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a Henrique.
Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante de si, despejou-o todo sobre aquella figura já avinhada, dizendo motejadoramente:
―Ahi tem; é isso provavelmente que vem buscar.
O rosto, as mãos e a camisa do sr. Joãozinho ficaram litteralmente tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mão á faxa da cinta, como a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.
O morgado torcia-se e espumava sob a constricção de Henrique, e já congestionado e rouco bradou:
―Ó Cosme!... Ó Cosme!... Mata esse maldito!...
A phalange do sr. Joãozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zangão.
O braço diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crédito do estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que infallivelmente lhe seria fatal.
A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.
Henrique estava incólume, e o morgado sôlto.
Mas o perigo não passara para Henrique. O morgado preparava-se com os seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre bradarem:
―Já está a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto é tempo!
E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e tão convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:
―Deixa o homem para outra vez, João, deixa-o e vamos a elles ao cemiterio!
―Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.
―E queime-se a papelada da camara!
―E mate-se o escrivão de fazenda!
―E quebrem-se os vidros do Mosteiro!
―E pegue-se fogo á casa!
Eram de bastante fôrça estes argumentos para convencer o sr. Joãozinho.
―Pois vá lá, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio! Atiremos a terra com o tal mausoléo!
E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto, percebeu do que se tratava, e prevendo sérios riscos para as senhoras do Mosteiro, desembaraçou-se dos braços do Canada, que teimava em segural-o e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no ar, caiu sobre a cabeça do cavallo. O animal, atordoado por a pancada, partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique, acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.
Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se pacificamente aos lares.
O sino da igreja continuava a repicar.
XXV
Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia por aquella tarde de inverno!
Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de toda a estação, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes. No centro d'este espaço elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os ramos flexiveis de um salgueiro chorão, e nos cantos principiavam a erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes ponteagudos. Para além do muro, que circumdava este terreno, estendia-se um vasto pinheiral, através de cujos troncos, confusamente cruzados, se podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli, a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados álamos do adro, agitados pelo vento, ainda chegava áquella estancia mortuaria.
A tarde tinha um d'estes aspectos ameaçadores, que deixam presentir a tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em quando, por uma subita viração, que faz revolutear na estrada as folhas sêccas como em espiraes phantasticas. O céo pintára-se do colorido melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciação tão fielmente se vê reproduzido. Estava quasi todo coberto; só muito para o occidente uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul recebia, do contraste das côres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado. As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o aspecto rôxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda, apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.
Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme, cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em quando cruzava os ares uma ave de vôo rapido, soltando pios angustiosos.
Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.
Estava já aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a infeliz creança.
Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.
As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.
Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.
Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára adoentada.
Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.
Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda devia ser sepultada.
O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, que as nuvens não toldavam.
A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior intensidade.
A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os combatia e censurava.
Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa inclinação que lhe era habitual em vida.
As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.
Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais formoso.
A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que morrem.
Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda da sepultura.
O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.
As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma
coisa por
entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.
Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.
Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o
factotum
Cosme.
Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:
―Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
―Esperem! Isso não vae assim!
―Não façam a festa sem nós!
―Fóra com os do cemiterio!
―Morram os pedreiros-livres!
―Para a igreja!
―Enterre-se na igreja!
―Olá, sr. abbade, espere por nós!
―Aqui vamos para abençoar a cova!
E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.
A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.
O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
―Que querem d'aqui?―perguntou elle, fitando-os―com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
―Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio―respondeu o sr. Joãozinho.
―É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!―confirmaram differentes vozes.
―Por quê?―continuou o padre―julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
―Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
―Eu não lhes reconheço o direito de querer.
―Ora o padre mestre tem vagares!―disse o façanhudo Cosme―e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d'ahi.
E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.
―A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!―exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.
Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares, que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres.
A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
―Viva o missionario!
―Viva o santo!
―Abaixo os pedreiros-livres!
E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
―Abaixo os maçonicos!
―Morram os jacobinos!
―Viva a santa religião!
Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.
A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento popular.
Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
―Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo estas pedras―bradou elle, apontando para o tumulo da familia do conselheiro.
―É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
―São invenções dos pedreiros-livres!
―É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
―Abaixo! Abaixo!
O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
Magdalena collocou-se deante d'elle.
Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da indignação.
―Afaste-se, senhor!―bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.
O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e ficou enleado.
Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca humana.
Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
―Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
―Ah! ah! Faz-se fidalga!―disse o sr. Joãozinho, despeitado.―Pois não anda bem.
O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de escutal-o, bradou:
―Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
―Abaixo!...―repetiram muitas vozes.
―Pois vá abaixo!―repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o machado.
―Para traz!―exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
O sr. Joãozinho sorriu.
―Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!―e soltou, ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
―Abaixo, abaixo!―repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda que fôsse á custa da propria vida.
Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a palavra «piedade».
O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
―Mau! se temos chôro, nada feito.
Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de profanação.
O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
Imitaram-n'o muitos.
Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da violencia.
Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns baixaram-n'os, como arrependidos.
O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a scena.
Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
―Tirem essa mulher d'ahi.
Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo popular.
Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.
Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.
Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no logar do motim.
Era tempo.
A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas luctas em que elle toma parte.
―Que é isto aqui?―disse o homem, rompendo com os braços potentes a onda que se lhe antolhava.
Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até ao meio do circulo.
Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
―O Herodes... É o Herodes!...―diziam, afastando-se.
Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o atormentara.
O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as ultimas noticias recebidas.
Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a acudir-lhe.
Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos cruzadas da creança.
Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
―Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.
―Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr assim!
E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
O Cancella continuava:
―Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
―Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha filha não me perdoou?
Magdalena respondeu a custo:
―Que tinha ella a perdoar-lhe?
―Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
E outra vez a estreitava nos braços.
Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com voz alterada:
―Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de minha filha morta?
―Queremos que elles a enterrem na igreja―responderam, já tibiamente, algumas vozes.
―Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
―Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha pobre filha!
E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez aquella de que mal podia separar-se.
Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.
Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
―A falar verdade―dizia um―este pobre homem tem alguma razão. Isto de metter scismas ás creanças!...
―E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
―Tambem é de mais.
―Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro os convocára.
Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de joelhos, suffocado em pranto.
As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita aquella idade, choraram tambem.
Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais desafogado pranto do que nunca.
A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. Responderam-lhe as creancas!
Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.
XXVI
Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa agitação.
Momentos antes havia sido para lá transportado, quasi sem accôrdo, Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregára de trazer da taberna, onde o Canada o recolhera, até o Mosteiro, sobre um carro de herva que vinha guiando.
Ao vêr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria perdeu totalmente a cabeça, e em vez de tomar as providencias que o caso pedia, deu em ralhar, em fazer exclamações, em andar de sala em sala, de corredor em corredor, sem tenção formada, sem methodo, sem direcção. Levava as mãos á cabeça, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa; mandava logo suspender a execução d'ella; impacientava-se; chamava a toda a pressa um criado e não sabia depois o que tinha para dizer-lhe; extranhava a tardança de outro que não mandára chamar, e sem dar a final expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse.
Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direcção; paravam embaraçados, ou corriam sem saber para onde, nem para quê, e sem adeantarem serviço.
As creanças concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de susto, andavam agarradas ás saias de D. Victoria, que nem sequer dava por ellas.
Christina foi a unica pessoa que conservou a presença de espirito n'aquella occasião.
Nada do que fazia era inutil: nem uma só ordem dava que pudesse dizer-se ociosa; graças ao methodo com que procedia ás instrucções que ordenava, a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o percebesse até.
Christina tambem, ao vêr chegar Henrique n'aquelle estado assustador, sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem sómente poderia descançar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade apparente, só trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu, tudo previu, tudo providenciou.
Sem uma exclamação, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexão affavel, que lhe era natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgião, enviou a Alvapenha parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento á impaciencia de sua mãe.
A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e sympathicas. Não era para o salão que se formára e educára o ingenuo e meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que já não conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura não derruba, cuja intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos, achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar, nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem.
Mulheres são estas nascidas para serem esposas e mães, o que é quasi o mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres.
A chegada de D. Dorothéa, que acudiu apressada logo que soube o que succedera ao sobrinho, não dispensou Christina d'estes cuidados, que voluntariamente tomára.
Comquanto a senhora de Alvapenha fôsse mais razoavel do que D. Victoria, e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias, em que esta se deixava arrebatar, não era tambem mulher para casos d'estes.
Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorothéa perdera ou embotára a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer imprevista occorrencia.
Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos já a lançava em sérios embaraços. Ella propria confessava que inda havia pouco tempo principiára a afazer-se á estada de Henrique em Alvapenha, e a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir.
É pois evidente que D. Dorothéa pouco mais podia fazer do que rezar, e para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relação á côrte celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem dizer todos os canaes por onde os differentes negocios poderão ser melhor conduzidos nas côrtes... terrestres... Conhecia a especialidade de cada santo e para cada um tinha uma fórmula de requerimento particular.
Christina não a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde, com as melhores intenções, mais embaraçava o serviço do que auxiliàva; usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio, onde ella encetou uma reza sem fim.
Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio, e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a realidade do que lhe diziam.
Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido, uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.
Magdalena dirigiu-se para lá.
Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que só a fecunda verbosidade feminina é capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais folego que os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma colhér que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo, fornecem-lhes thema para uma prédica de duas horas.
Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil fórmas e estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a custo daria para uma magra oração.
―Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde é que tu estavas. Faça favor de me dizer onde é que estava?
Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara e postura de réo.
―Eu... senhora...―ia elle a dizer.
―Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora é o que é. Um desafôro assim!... Eu só quero saber se vossemecê ganha soldada para andar lá por onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque elle não ha mais... Como o dinheiro se vae roubar á estrada... O que tu merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemecê apparece-me lá quando é muito do seu gôsto? Isto atura-se? A culpa tem quem eu sei... Tu cuidas que mandriar não é roubar?
―Mas...
―Cale-se! Ouça e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder. Ora toma-me cautela, senão vaes já, já pela porta fóra. Pouca vergonha! Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde é preciso e não apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas soldadas por ahi além, e, quando se quer o serviço feito, tem uma pessoa de o fazer por suas mãos!... Tu cuidas que isso não é peccado tambem? Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem é que lhe deu licença para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer?
―A sr.
a
Christininha...
―Eu não quero saber da sr.
a
Christininha, quero saber quem lhe deu licença para sair?
―Mas é o que eu estou dizendo á senhora.
―É muito padre-mestre. Ora não seja confiado, e veja como responde.
Emfim, este dialogo promettia ser eterno, não obstante a urgencia do serviço de que falava D. Victoria, serviço que ella propria adiava com este importuno sermão.
A entrada da morgadinha operou uma diversão. D. Victoria esqueceu-se do criado, o qual pôde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens urgentes para que fôra chamado.
D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella propria o soubera do moço do carro em que viera Henrique.
―Andam desaforados―concluiu ella.―Já nem attendem a uma pessoa de respeito. É porque não ha justiça n'esta terra. Estão para ahi uns patetas de umas auctoridades, que são outros que taes. Era preciso um exemplo. Ahi está quando eu, se fôsse rei, não tinha pena nenhuma: havia de os esquartejar e era bem feito!
Cumpre dizer que D. Victoria não era capaz de bater n'um gato.
A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.
Então é que trasbordou a indignação da tia.
―Tu que dizes, menina?... Tu estás a falar sério?... Pois elles?... Em nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E esses malvados ainda estão na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda saber... Não, isso não fica assim... D'aqui a pouco põem-nos o pé no pescoço. Nada, nada; para os malvados é que se fizeram as forcas... Ora deixa que... Isto aqui anda trama.
―Não falemos mais n'isso. Agora vou vêr o estado do ferido.
―Vae, e vê se encontras por ahi alguns criados. Eu não sei onde elles se metteram. Ha de ser preciso ir á botica, e muitas mais coisas, e não vejo nenhum!
Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.
Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direcção ao quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada.
―Que ha, Christe?―perguntou-lhe Magdalena.
―Que ha de haver, Lena?―respondeu Christina com tristeza, mas com serenidade ao mesmo tempo―uma desgraça, mas que Deus ha de permittir que não seja sem remedio.
―Como está elle?
―Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou. Os balanços do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe tenho dado, achou-se bem.
―E ainda não mandaram chamar o cirurgião?
―Já mandei, já veio, já o sangrou, já...
―Mas tua mãe não o sabe e ia mandar...
―Deixa-a lá, Lena. Deixa-a lá com os criados, que por ora não convem que venha. Elle precisa de socêgo. Já mandei sair d'aqui a tia Dorothéa, que não adeantava serviço. Queres vir vêl-o?
Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.
Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoção cerebral, que lhe produzira a quéda. A tendencia ao estado comatoso, que apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.
Voltára-lhe a razão e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem possibilidade de longa fixação em qualquer objecto. Sobretudo, o que n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferença morbida pelo seu estado e por tudo quanto o cercava.
Acceitou das mãos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma preparára, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo.
No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causára lhe avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de gratidão, sorriu-lhe, e, pousando a cabeça outra vez no travesseiro, fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.
Christina não ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel, desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar calar os irmãos ou os criados, ou desfazer alguma dúvida suscitada por os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confusão.
Magdalena, que se sentára a um canto da sala, quasi subjugada pelas muitas e violentas commoções d'aquelle dia, contemplava a actividade da prima e extranhava-a.
Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.
Apreciára-lhe até então os dotes de creança, a bondade do coração, os extremos de affecto que possuia; mas ainda a não tinha visto tomando assim tanto a sério a sua missão de mulher e desempenhando-se d'ella tão dignamente.
Esta ordem de reflexões conduzia naturalmente a outras o espirito da morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como que sob a protecção de uma timida e debil creança que, mais do que elle, parecia carecer de amparo, Magdalena não pôde reprimir um sorriso benigno e pensou:
―Sim; aquella cabeça estouvada pôde até hoje passar por este anjo sem o conhecer; mas é preciso não ter coração para que, ao erguer-se d'aquelle leito, não seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella para a adorar. E Henrique não é falto de coração. Lida, lida, minha boa Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz que tu vencesses com as mais abençoadas armas que concedeu á mulher. Confio em Deus que vencerás. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te pertencer todo o prazer.
E em harmonia com esta resolução, a morgadinha absteve-se de intervir no tratamento de Henrique.
XXVII
Foi opinião do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este correra sérios riscos durante a primeira semana, por não sei que complicação que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou o prático, não nos compete a nós decidir; acceitemos-lhe a opinião, como de legitima fonte, e não profundemos materia alheia ao nosso intento.
Ao fim dos oito dias, porém, começaram a manifestar-se melhoras evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar ás senhoras, que sempre o vinham consultar á saida com anciosa curiosidade, que «o homem estava salvo».
De facto, nos primeiros periodos da doença, Henrique caira, como já dissémos, n'um d'aquelles estados de indifferença para tudo e para todos, de que se não pode agourar nunca bem. Agora, porém, começava já a manifestar attenção para os cuidados de que era objecto, e a agradecer, com palavras de sincera gratidão, o tratamento affectuoso que recebia n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.
Esta fôra effectivamente sempre incançavel, solícita e carinhosa enfermeira.
Os cuidados de que o rodeava, como a um irmão, absorviam-lhe todos os instantes; prevêr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe allivio ás dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de cada momento, a preoccupacão permanente de todos os seus pensamentos.
Henrique costumára-se a vêr mover-se no seu quarto aquella meiga e delicada figura de mulher, creança de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar brando que o fitava com sympathia e meiguice; já se não sentia bem, longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas para a porta á espera de a vêr apparecer.
Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de Christina sobre o animo do rebelde, que até alli fôra insensivel, e exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da cabeceira do enfermo, por uma razão analoga á que obriga os pintores a deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a attenção se fixe no objecto principal.
Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina devia ser a figura principal.
N'este intento a morgadinha conservava ás visitas que vinha fazer a Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos da sua indole de mulher, e de mulher que tão bem comprehendia os deveres da sua missão, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que tão irresistivel influencia exercem no coração do homem que experimenta a ventura de ser objecto d'elles.
De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e crescia á custa de Magdalena.
Esta percebia-o e não cabia em si de contente com a descoberta. É necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um coração de mulher faça d'estas descobertas, com o intimo contentamento que Magdalena sentia. É tão natural defeito a vaidade! Não se exprime o prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida domestica, que punha em relêvo o predominio de Christina.
Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres placidos, de que tão pouco abundante era todo o seu passado.
Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e a propria tia Dorothéa, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o chá. Não era, porém, a presença de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena, que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena circumstancia, que fará sorrir um homem de sensibilidade embotada, emquanto o facto se não der com elle. Era que Christina, que em outra qualquer occasião cedia sempre a Magdalena a direcção dos trabalhos domesticos, alli dentro não resignava em ninguem essas funcções. Tomava naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a mãe, a prima e todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso, visitas.
Não se imaginam os encantos que Henrique achava áquillo. A elle proprio parecia já que de facto o prendiam a Christina laços mais intimos, laços mais de familia, do que ás outras senhoras. Era assim que qualquer pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a uma irmã; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra qualquer pessoa, e não o fazia sem as desculpas e cumprimentos do estylo, que para ella não usava já.
Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir á risca as dietas e as prescripções do facultativo, recusando-se obstinadamente a deixal-o lêr, e até ralhando-lhe ás vezes com severidade quasi maternal: apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de affecto.
O pobre rapaz, que não conhecera familia, que nunca vira do seu leito de doença, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma mãe, de uma irmã ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o com essas entonações carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a mão que nos estende a taça do mais amargo remedio; elle, que não sabia ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo apoio de uma debil mão de mulher, a que o amor dá fôrças extraordinarias, commovia-se até ás lagrimas agora, e quasi não pensava sem tristeza na convalescença, que havia de o privar d'aquelles cuidados affectuosos.
O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.
Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.
Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que se agitava no leito com a inquietação da febre, Christina, depois de lhe dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com a mais adoravel candura:
―Não sabe rezar?
Henrique sorriu, respondendo:
―Julgo que desapprendi já as orações que minha mãe me ensinou.
Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.
Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolação encontraria nas provações da vida um espirito que não soubesse recolher-se na oração.
Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:
―Quer-me ensinar a rezar, Christina?
Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a intenção d'aquellas palavras.
―Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fôr capaz a minha alma, as orações que me ensinar.
Christina respondeu-lhe gravemente:
―Reze, reze e verá como n'isso acha consolação. Vou emprestar-lhe o meu livro de orações, quer?
―Por que me não ha de antes ensinar, como minha mãe o fazia?
Christina ouviu com seriedade a proposta.
E o certo é que um dia, em que Henrique passára peor, Magdalena ouviu, na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece á Virgem, e o doente repetindo-a com docilidade de creança.
Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas modificações a que todos os caracteres estão sujeitos, quando se dão a actual-os dois elementos tão poderosos, como se davam em Henrique: a doença, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o coração ás doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e irresistivel de todas.
Não direi que fôsse com inteira fé que o doente orava; talvez que houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava ao orar assim. É certo, porém, que, desde então, frequentes vezes se lhe desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.
Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio, Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratidão, beijou-lhe, commovido, a mão, que ella ia a retirar.
―Que faz?―disse Christina, córando e afastando-a.
―Deixe-me beijar a mão piedosa que me prendeu á vida, á vida que só agora comecei a amar.
―Ora vamos―acudiu ella, com um meigo tom de reprehensão.
―Como não quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me salvar? Não costuma rezar ao seu anjo da guarda?
―Repare que eu não tenho azas de anjo.
―Mas vôa mais alto ao céo, quando desce assim a velar por um pobre doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa dedicação, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?
―Nenhuns titulos! que diz?―tornou Christina, com um sorriso adoravel.
―Pois quaes?
―Então não somos primos? disse ella, jovialmente.
E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava Henrique.
Estava já Henrique em convalescença, e o facultativo permittira-lhe alguns passeios pela quinta, mas ainda não a sua transferencia para Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era á sombra de umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhãs estavam serenas, Henrique ia para alli, com um livro que não fazia tenção de ler, e apoiando-se ao braço de Christina, que levava a costura para junto d'elle, para lhe fazer companhia.
D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendações.
―Por ahi não, Christe!... Olha que é muito humido... Dá antes a volta pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que hão de estar molhadas... Vê lá que não esteja frio... Olha se esses troncos estão molhados...
Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de uma manhã Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade affectuosa, que principiára a poder ter para com elle, desde que o vira fraco e doente e a carecer do seu auxilio e protecção.
―Que é isso! Por que está sempre triste, agora que vae melhor?
―Estou triste, porque estou melhor―respondeu Henrique.
―Que está a dizer?!
―A verdade. A poucos doentes terá succedido o que succede commigo. Este renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias, este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em nós, que tantos gósos dá aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como que estou presentindo já as saudades d'este tempo, que passei prostrado no leito da doença, Christina.
―Não diga isso.
―E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! Não sabe que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia que me fez experimentar? Com a saude vão voltar para mim os dias da solidão, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino, desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber, Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...
―E tenciona voltar?
A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma intima commoção. Ha d'estes effeitos. Ás vezes o olhar menos significativo, a palavra menos pensada, é pelo coração interpretada de maneira tal que elle proprio se sente estremecer.
―E queria que eu ficasse, Christina?―perguntou Henrique, sob o dominio d'essa impressão.
Christina não respondeu logo.
―Deixe-me acreditar que sim; é bastante generosa para isso, para não vêr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de irmã. Esta ideia será a minha consolação; deixe-me partir com ella.
―Partir?... mas... para que ha de partir?
―Então quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorothéa, cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidadãos?
―Pois não lhe custaria a ella mesma vêl-o partir! E depois... que vae fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que está doente, que é quasi a mesma coisa.
―E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?
―Por que havia de lh'a negar?
―Tempo virá em que outros me disputarão a menor porção de affecto que me conceder, Christina... e então... então é que eu ficarei mais só do que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.
―Anda só, por que quer... Não ha tanta gente por esse mundo?
―Então a menina não sabe que se está só mesmo em companhia? Quem está só é a alma. Ai, a alma está só quasi sempre!
―Por que quer.
―Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que não obteve a que desejava. Além de que, ha almas tão tristes, que intimidam outras. E a minha é d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer companhia á minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci, não hesitaria? Confesse.
Depois de um momento de silencio e hesitação, Christina respondeu:
―Se a companhia da minha fôsse bastante para desfazer essa tristeza...
―Concedia-m'a?
―E por que havia de negar-lh'a?
Henrique tornou-lhe a mão, apaixonado.
―Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras? Se o meu coração é tão ousado...
Christina, córando, retirou a mão de que Henrique se apoderou, e levantando-se, sobresaltada, disse:
―Julgo que são horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.
E fugiu, correndo em direcção de casa.
Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias durante a convalescença de Henrique. Reinava o idyllio e uma como perfumada atmosphera, que exercia profundas revoluções no caracter de Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em vão; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas metamorphoses analogas ás da vida de borboletas, da infancia, estado de chrysalida para a imaginação, passava á verdadeira juventude, ao periodo em que a imaginação ganha azas, em que o coração se completa.
Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, não havia razão possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a mudança para Alvapenha.
Já se não fez sem lagrimas a despedida.
Choraram as creanças, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu commovida; só Christina não se achava na sala em que se passou a scena.
Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.
Seria casual esta circumstancia?
Henrique não perguntára por Christina; dizia-lhe o coração que a encontraria alli.
―Volto á minha solidão, Christina―disse-lhe, commovido.―Não lh'o tinha eu dicto?
A pobre menina quiz sorrir, mas do esforço que para isso fez só lhe resultaram lagrimas.
―Não diga mais nada―disse Henrique, levando aos labios a mão que ella não retirou.―Essas lagrimas bastam-me.
Escusado é dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.
E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.
Christina ficou a chorar na varanda.
A morgadinha veio, sem ser sentida, abraçal-a, dizendo:
―Pago-te hoje o abraço que me déste no outro dia; mas eu escuso de te perguntar... «Pois tu amaval-o?»
―Ai, Lena!...―exclamou Christina, cada vez chorando mais.
―Faltava aos vossos amores este arremêdo de infelicidade, e imaginaram uma separação de duzentos passos para poderem representar a scena das despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!―dizia Magdalena, para consolal-a.
Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia. Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual taes mudanças notava n'elle, que chegou a aventar á ama a ideia de que a doença tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinião que D. Dorothéa levou muito a mal.
Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignação que lhe causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatéas que o traziam enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do coração, contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.
Depois teve Henrique uma visão.
Não se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha aqui que se pareça com as visões épicas; foi uma visão como muitas, que nós todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginação, esta fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A quem não terá de facto succedido vêr transformar-se pouco a pouco uma perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da visão exterior, enfraquecerem as impressões dos sentidos, e avultarem, tomarem fórma, realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa visão?
Estava Henrique á janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos já que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mêdas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural, resentindo-se, porém, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.
Pouco a pouco deixára Henrique de vêr a quinta como ella era.
Principiava a visão interior.
As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de cereaes os celleiros; alastrava-se de grão o chão das eiras; gemiam as noras e os lagares; soltavam-se ás prêsas os diques, e uma verdadeira rede liquida envolvia em suas malhas a vegetação dos campos; alvejavam as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as cantilenas aldeãs; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados, do sobrinho de D. Dorothéa. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir todos os trabalhos, a regular o serviço, verdadeiro patriarcha ao modo antigo; e ao seu lado, e em toda a parte, á sombra de uma arvore, á borda do tanque, debruçada no muro, por entre os silvados das sébes vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!
Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as qualidades boas e más da sociedade que frequentava, havia de ter uma visão como esta!
No quasi extase, em que a imaginação o lançára permanecia ainda, quando soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.
Apressou-se logo a receber a visita.
Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e das meninas.
O pobre homem era um dos que ficára com affeição a Henrique depois que estivera no Mosteiro.
Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle já em poucos encontrava, contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o bastante para o velho lhe querer bem.
―Diga ás senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incómmodo que estão tendo commigo. E vossê tambem, Torquato, na sua idade, estes passeios.
―Ai, não tem dúvida! Isto faz bem... É exercicio a final... Pois é verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe que eu já tenho os meus annos! Veja lá, se no tempo dos francezes eu era já homem feito... Inda me lembra...
Seguiu-se um episodio da época, e depois, sem transição sensivel:
―Mas lá emquanto ás senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado um cuidado!... Todas!... Até a Christininha!
―Sim? Tambem essa?
―Ora se tambem!... Pois a sr.
a
D. Victoria?
―Mas... mas... Christina... a sr.
a
D. Christina, então...
―Isso é um coração de pomba. Inda ha pouco, ao sair, já vinha no pateo, e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: «Olhe, ó Torquato, ha de reparar-lhe para a cara e vêr se tem ar mais triste.»
―Ella disse-lhe isso?
―É verdade. E eu lá lhe vou dizer que o encontrei alegre como...
―Não, não; não lhe diga isso, homem―atalhou Henrique.
―Então por quê?!
―Porque... porque... porque não é verdade... Então eu estou assim tão alegre como isso?
―Não digo que esteja, mas para a socegar...
―Diga que me achou com saude, mas triste. E não lhe disse ella mais nada?
―A sr.
a
D. Victoria...
―Falo de Christina.
―Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso é segredo.
―Diga, diga.
―Não é nada; é uma promessa que...
―Uma promessa? Que promessa?
―Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve muito mal, que nem o cirurgião dava nada por si, a Christinita prometteu rezar na capella dos Cannaviaes as estações da meia noite...
―As estações da meia noite?
―Sim; as estações rezadas á meia noite á Senhora que está na capella da casa dos Canaviaes; É tão milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que se lhe pedisse assim. Contava meu pae...
E vinha um caso comprovativo da tradição popular.
―Sim, lembra-me que já me falaram n'isso―disse Henrique, pensativo.
―É verdade. O peor é que é este seu criado quem tem de a acompanhar até á quinta, depois d'ámanhã á meia noite...
―Então depois de ámanhã á meia noite?
―Sim, mas não diga nada, que isto é segredo da pequena.
―Esteja descançado.
E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que Henrique não ligou attenção, aquelle retirou-se.
Ao ficar só, Henrique caiu em nova e profunda abstracção. Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para presenciar aquelle acto de fervorosa devoção de Christina, que supplicára por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crença, com a effusão do mais generoso affecto.
N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que conduziam á quinta, que elle ainda não visitára, e sobre como penetrar até á capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.
D. Dorothéa, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos precisos sem que suspeitassem das intenções com que elle lh'os pedia.
XXVIII
A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um dos mais êrmos e melancolicos logares da aldeia.
O tempo, cuja acção não contrastada se exercera livremente n'ellas, viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados, de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstição popular terminára a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue á natureza.
A defuncta morgada, que não se recolhera á aldeia senão depois de ter gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava n'esta pequena terra, onde passára o resto da vida, de uma fama de espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a opinião de que a sua alma andava ainda penando por cá.
Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relação aos annos da mocidade da morgada. A imaginação popular fazia a biographia d'aquella senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.
A morgada, que só renunciou ao mundo quando os espelhos começaram a falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza, passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da vida elegante ás práticas de devoção.
Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente os habitos de elegancia de que já fizera uma necessidade natural. Trajava sempre com distincção e esmero, e ao corrente das modas.
Tudo isto e as proprias devoções da morgada, acabaram por convencer o povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava remir á fôrça de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava á terra penando.
Já se vê que o logar era para apavorar as imaginações timidas, e de noite pouca gente da aldeia gostava de passar por lá.
Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cêdo do que a hora devida, e fazendo obra pelas informações da morgadinha, dirigiu-se para os Cannaviaes para escolher posição d'onde pudesse, sem ser visto, observar Christina, não tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria imperturbada na sua piedosa tarefa.
A noite fizera-se escura e ameaçava chuva.
Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, já um pouco habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a aldeia, examinando com attenção todos os objectos que lhe deviam servir de indicadores da estrada.
Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.
Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um lado um alto portão da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique achou ainda fechada.
O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver acertado.
Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escuridão a fazer receiar grandes aguaceiros.
Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se. N'este intento approximou-se do portão. Com grande espanto seu, achou-o aberto.
Já teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria habitada a quinta?
Estas tres explicações do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito, sem que elle soubesse qual adoptar.
Transpoz o portão e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.
A chuva caía com mais fôrça. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus de pedra, no tôpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente toldado.
Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de um corredor pareceu-lhe divisar luz.
Henrique parou indeciso.
―Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre perguntarei.
E bateu as palmas.
Ninguem lhe respondeu.
Bateu outra vez; o mesmo resultado.
Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco brilhavam ainda uns carvões candentes.
―Parece uma historia de fadas!―pensava Henrique.―Dar-se-ha que a alma da morgada goste ainda das commodidades?
Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:
―Procurava alguem, o senhor?
―Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes.
―A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
―Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui ninguem.
―E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.
a
morgada.
―A sr.
a
morgada?―perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar da resposta e de tudo que via.
―Sim, senhor; a sr.
a
morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.
―Ah! A sr.
a
morgada esperava-me?
―É verdade―disse a mulher, sorrindo.―Adivinhou que o senhor vinha aqui. E o que é que ella não adivinha?
Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.
―Então é a sr.
a
morgada em pessoa que...
―Que o convida para tomar uma chavena de chá―disse uma voz por traz d'elle.
Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras, que de tantos encantos a revestia.
Henrique exclamou, admirado:
―A prima Magdalena!
―A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.