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A Morgadinha dos Cannaviaes

Volume 1 — A MORGADINHA DOS CANNAVIAES (continued 2)

Reading edition

O povo inteiro applaudiu o artista.

E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam já fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro. O povo dispersou pacificamente.

XX

Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.

O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe é impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal pode fazer ideia da sensação que produz no habitante de uma aldeia, villa ou cidade pequena, a presença de uma cara estranha.

Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta curiosidade instiga-o a decifrar a significação d'aquelle apparecimento.

Isto aconteceu com o Cancella.

Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, não tirou mais os olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos chapéos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.

―Passaros de arribação...―pensava o Herodes comsigo―que vento traria isto para aqui?

E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.

Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:

―Olá, ó amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos alojemos?

―Por pouco ou por muito tempo, meu amo?

―Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.

―Ah! então v. sr.

as

são engenheiros?

―Julgo que sim.

―Então, visto isso, as estradas sempre vão principiar?

―Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que não.

―Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, não tem nada que saber; os meus amos vão por ahi sempre a direito, e lá adeante, chegando ao pé de uma oliveira, tomam á sua mão esquerda por um caminho estreito, que tem uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam á direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, até chegarem á eira; ahi tomam por um outro atalho, que está ao lado e vão dar a um larguinho... Depois não tem que saber, deitam pela rua em frente e perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.

Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a explicação.

Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os engenheiros.

―Se v. s.

as

querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.

Acceitaram contentes, e cêdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.

―Grande novidade!―ficou dizendo o Cancella comsigo―sim, senhor; com que vão principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fôsse nos meus dias. Então... querem vêr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vêr... O pobre homem estala de paixão, se isso assim é; isso é com certeza... Pois, senhores... isto de estradas... é bom, é; pois não é? Sempre é outro arranjo para quem tem de ir á cidade...

Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe ainda, divisou affixado á porta da igreja um edital. Outra circumstancia que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabeça, porém que nas aldeias toma as proporções de um grande successo.

―Ui! Temos novidade―disse o Herodes ao vêl-o.―Edital á porta da igreja!―e approximou-se para ler.

Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim já construido. Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposição e motim.

―Bom, mais outra!―dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.―Grandes coisas se passaram cá na terra, emquanto eu andei por fóra! O peor é que não sei se a coisa irá assim ás mãos lavadas; ao que já ouço por ahi rosnar!... É o diabo!... Eu digo, não sei se é do costume em que uma pessoa se põe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim á chuva e ao sol... Mas é do costume, é... Bem sente lá uma pessoa o frio depois de morta.

E fazendo estas reflexões proseguiu no seu caminho.

Passou por uma pequena capella, erecta á borda de um pinheiral, sob a invocação da Virgem da Esperança, e reteve-se a fazer oração. Áquella imagem costumava encommendar a filha, sempre que saía da aldeia, e no regresso pagava-lhe em fervorosas orações a protecção obtida, e separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porém, ficou triste e sobresaltado. Porquê?

É que se lembrára de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e estremecia agora na incerteza de como a iria achar.

Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes, tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros da casa parou irresoluto.

Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para nós um mesmo aspecto. Ha occasiões em que as casas, as arvores, os muros, as portas, se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos, que nos enchem de sombras o coração; outras em que umas apparencias de sorrisos lhes dão uns ares de festa que alegram e convidam.

Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.

Seria o effeito das tintas desmaiadas, que dá aos objectos o sol crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe estavam confrangendo o coração? Mas como lhe acudiram tão de subito esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia tão despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em que, voltando tambem de fóra, viera encontrar quasi morta a mulher, que chorava ainda, a mãe de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte obscura da vida moral, da qual ainda a analyse não conseguiu devassar as sombras.

Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os pés nos primeiros degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, não tivera coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.

Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que encontrou aberta.

Logo ao entrar, recuou espantado e não reprimiu uma exclamação de surpreza.

Fôra a causa o achar novidades na primeira sala.

Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que não deixára alli ao partir. E ninguem a recebel-o.

―Crédo!―disse o Cancella, desgostoso.―Para longe o agouro! Cruzes negras á chegada! São coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me scisma em casa e na cabeça da rapariga, e se não lhe acudo...―Ermelinda!―exclamou, chamando por a filha.

Como não recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.

Á entrada do corredor descobriu uma pequena pia de louça cheia de agua benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.

―Mau!―disse o Herodes, cada vez mais descontente.―Vou vendo que a minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus... Ermelinda!

E correu toda a casa, que não tinha muito que correr, e explorou o quintal, e sem achar a filha; já inquieto, chegou a um quarto mais retirado, o unico que ainda não revistára. A porta estava fechada por dentro, porém a péquena cravelha fraca resistencia oppoz á pressão que na porta exerceu o Herodes.

Franqueando assim a passagem, parou no limiar.

Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um canto escuro do quarto.

―És tu, Linda? Estás ahi?―perguntou o Cancella, affirmando-se n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,

―Meu pae... respondeu com voz fraca.

―Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te cá, rapariga, quero-te abraçar e beijar... Então que é isso?... Tens hoje tão pouca pressa de abraçar teu pae?... D'antes, até ao caminho me vinhas esperar... Vem cá, minha filha, vem cá... Se soubesses como me consola...

E estendia os braços para a filha, que lhe viera emfim ao encontro. Quando, porém, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e principiou a

examinal-a

com inquieta anciedade. Depois, como se lhe não bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer não sei que suspeitas assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixão e de espanto, bradando emfim, com voz consternada:

―Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!

A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.

―Meu Deus! Isto que é, meu Deus?―exclamava, mais assustado, o pae.―Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?

E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação d'aquelle doloroso mysterio.

Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais commovido:

―Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim? Fala!

E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.

Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto.

Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.

Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.

É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.

Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta descoberta lançou o coração d'aquelle.

Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.

Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de ambos.

A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do Cancella.

Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe amontoavam no coração:

―Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É com este desamor?! e com esta ingratidão?!

―Meu pae! meu pae!―implorava Ermelinda, suffocada pelo pranto.―Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A vaidade é um peccado grande.

―Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? Fala!...

―Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!

―Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?

―O missionario...―ia a dizer Ermelinda.

O pae não a deixou proseguir.

―Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus...

―Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.

―Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus, e eu não o reconheço nem adoro!

Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.

―Por amor de Deus―murmurava ella, com a voz chorosa e quasi sumida―por alma de minha mãe!...

―Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora!

E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e valente, chorava, porque tinha um coração de pae.

Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.

―Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!―dizia ella.―Se soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da minha alma, porque...

―E foi tua madrinha que t'os cortou?

―Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.

E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do Cancella.

―Querem matar-me a filha―bradava elle.―Ó meu Deus! pois não é isto um grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem traz assim o desespero ao coração de um pae.

E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia oração, quasi extatica, quando o pae entrou.

―Coração de Maria!―disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para si.―Coração de mãe, e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres―continuou allucinado, voltando-se para a imagem―e se não podes ser adorada senão assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!

E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços no pavimento.

Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.

Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua benta, bradando:

―Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.

Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a levou de rastos á outra sala.

Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo despedaçava ou rasgava.

N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver.

Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.

Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella cortou-lhe a fala na garganta.

Era de facto um olhar selvagem e sinistro.

A sr.

a

Catharina parou.

―Que vem fazer aqui, mulher?―dizia-lhe o Cancella com voz cavada.

―Eu...

―Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares, onde metteu a tristeza?

E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava outro.

Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.

―Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.

A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:

―Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!

Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.

Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.

A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia.

―Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto. Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella precisa.

E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.

Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára de falar.

Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.

Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. Ermelinda tinha aberto os olhos.

Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o aspecto d'elle lhe causasse terror.

―Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com maior consternação na voz e no olhar.

Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer convulsivamente e n'uma anciedade extrema.

―Deixe a pequena!―disse a beata―não vê que lhe faz mêdo? E com razão, pobre creança! depois do que viu!

―Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?―repetiu timidamente o pae.―Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...

Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:

―Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que desgraçado que eu sou!...

A scena era bastante commovente, para que se não sentissem impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.

Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do infeliz, em quem entrára o desespero no coração.

Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.

Ouviram-se perfeitamente estas palavras:

Vinde, vinde, ó missionarios, Com a palavra de Deus Libertar-nos do peccado, Encaminhar-nos aos céos.

O Cancella ergueu a cabeça e poz-se a escutar.

As vozes continuaram:

Minha alma por vós anceia, Ó ministros do Senhor! E o meu peito em chammas arde, Em chammas do vosso amor.

O Cancella principiou a abanar a cabeça, e os olhos animaram-se-lhe de um fulgor extranho.

O côro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua, em que se passavam estas scenas, um singular cortejo.

O missionario, que nós já conhecemos, por o termos visto em pleno exercicio de suas funcções predicatorias, vinha seguido por uma cohorte de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanças.

Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procissão da casa do Cancella.

Este já estava em pé no meio da rua, á espera d'ella.

O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho, aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe apresentava escuro como um phantasma, e não conjecturou bem do que via. Por isso parou tambem, olhando para elle. O côro suspendeu-se.

O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:

―Sabe quem sou?

O padre fez um signal negativo com a cabeça.

―Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus.

O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem procurava uma saída para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razão que um homem que não ouve Deus não estaria muito disposto a escutal-o, a elle, humilde creatura.

―Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou; perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creança sem culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o coração, e depois... depois matal-o.

O padre enfiou; ia a abrir a bôca para falar, mas viu caminhar para elle o Cancella, viu no ar aquella mão musculosa e larga, e, calculando a violencia do embate pelo volume do braço, julgou-se de antemão esmagado, e só pôde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as feições, e suspender a respiração, aguardando n'esta postura o golpe, que não podia evitar.

Este de facto não foi suave. A mão do Cancella caíu em parte sobre o cabeção, em parte sobre o pescoço do padre, e com tal fôrça, que este foi constrangido a ajoelhar.

―Anda, meu impostor do inferno!

E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo á primeira posição. O chapéo rolou a alguns passos de distancia.

―Anda, meu envenenador de almas!

Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o caminho do chapéo.

―Anda, meu calumniador de Deus!

E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em pé, e após, dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mãos, deixou-o ir á mercê da fôrça transmittida.

O padre estendeu os braços instinctivamente para se amparar na quéda provavel, e, pé aqui, pé acolá, a passos descommunaes, escapou miraculosamente de cair, porém não conseguiu parar senão a muitos metros de distancia.

Escusado é dizer que esta scena não correu entre o silencio dos espectadores. Mal o Cancella levantou a mão sobre a cabeça do padre, as beatas ergueram um alarido de atroar céo e terra.

―Aqui d'El-rei!

―Aqui d'El-rei sobre o Herodes!

―Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. José!

―Quem acode ao sr. fr. José?!

―Ai, que matam o santinho do missionario!

E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiçadas mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porém, a intervir mais activamente.

A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito.

Este, porém, não oppoz resistencia.

Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.

Assim deixou-se levar em prisão, acompanhado das imprecações das beatas e dos gritos de indignação dos homens.

As devotas mulheres correram para o missionario.

Umas levavam-lhe o chapéo, outras os oculos, outras o capote.

―Magoou-se, sr. fr. José?

―Doe-lhe alguma coisa?

Mas o padre não se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a cabeça negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda a mão espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a cabeça.

Quando o Cancella chegou a casa do regedor, já a multidão engrossára e em altos gritos pedia o castigo do criminoso.

O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multidão. In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi tão feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando ás turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de ser punido com todo o rigor das leis.

XXI

O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi assumpto das conversações geraes de toda a aldeia. Era com indignação que se commentava a façanha. Dizia-se que o Cancella fôra apenas o instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do padre, pela occorrencia da tarde do sermão.

Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual havia muito suspiravam.

O missionario e os seus ardentes sequazes fôram dos mais acerbos propugnadores d'estas ideias, que reforçavam com muitas accusações, de hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do conselheiro.

A politica viu n'isto uma arma favoravel para combater o adversario, e não a desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio, manifestamente devida á iniciativa do pae de Magdalena, e impopularissima na aldeia, augmentar a irritação dos animos e servir de thema a uma violenta diatribe do missionario contra a impiedade da época, que nem aos fieis concedia a santa consolação de repousar á sombra dos templos.

Tudo isto começou pois a fomentar uma reacção contra o conselheiro, a qual ameaçava o resultado da sua candidatura.

Não pequena parte n'esta guerra surda, que principiára a lavrar, tomava o seu companheiro de infancia e particular amigo o brazileiro Seabra.

Nunca elle sentira entranhada no coração metade da bem-querença que apparentemente ostentava para com o conselheiro: mas depois de uma conferencia que tivera com mestre Pertunhas tornára-se mais manifesta a sua hostilidade e menos observadora de etiquetas e rebuços.

Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos bens da Igreja.

Foi tambem o brazileiro quem trouxe á flor de agua os antigos excessos demagogicos, que caracterisaram o principio de carreira politica do conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, a substancia dos exaltados discursos que elle proferira nas camaras, advogando ideias cuja só exposição ferira de pavor a imaginação dos povos.

Finalmente, até o principio dos trabalhos para as estradas, cujo protrahido adiamento fôra até aquelle tempo um capitulo de accusação contra o pae de Magdalena, servia agora de arma á opposição.

O brazileiro, em attenção a quem se adoptára o traçado que ia ser posto em execução, era o que provava á saciedade com grande exhibição de cifras e de razões economicas, ser esse traçado, sobre dispendioso, irracional.

E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio conselheiro, quando este os allegava para vêr se conseguia demovel-o do empenho que mostrava em que o traçado em questão fôsse preferido aos outros. Tal era o estado das coisas publicas na terra no dia em que principiaram os primeiros trabalhos de campo.

Tinham-se passado alguns dias depois da prisão do Herodes.

A aldeia vira-se invadida por um bando de sêres desconhecidos, que vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma população habituada a considerar como occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros ou das cancellas de qualquer proprietario da localidade.

A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou maiores mudanças na vida moral da aldeia do que nas condições physicas d'ella as bandeirolas, os niveladores, as enxadas, as pás, alviões, picaretas, carros de mão e padiolas, de que era armada essa cohorte.

Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior actividade tinham começado os trabalhos. Era como já dissemos, na casa do herbanario. Pela demolição d'ella, e do quintal que a rodeava, principiaram as obras.

O velho Vicente assignára dias antes o auto de expropriação e recebera o preço da venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, não lhe foi muito regateado.

Elle, porém, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por as arvores nada quiz; não podia resignar-se a vendel-as. Podia vêl-as cair, como amigos sacrificados no cadafalso, mas mercadejar-lhes com os restos, isso não.

O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu á Fazenda Nacional de compensação ao excessivo preço por que fôram expropriados os bens de que o brazileiro se apossára, com o patriotico intuito de promover os seus melhoramentos particulares, preço que por empenho do conselheiro não foi litigado.

Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram resistir, mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido á cohorte de operarios melhor armados do que elles, em parte cedendo ás imperiosas ordens do herbanario, que, ao sair pela ultima vez da casa, onde envelhecera, lhes disse, com voz irritada e severa:

―Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes vós, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz!

Os instigadores das massas conheceram que não era aquella a occasião nem aquelle o pretexto proprio para os seus projectos, e adiaram, em vista d'isso, a empresa prudentemente.

Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.

Na baixa em que ficava a habitação do herbanario, ia uma azafama extraordinaria.

O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de destruição; desconjuntavam-se as pedras dos muros, desfazia-se em pó a argamassa secular, caíam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos das arvores, alastrava-se de tijolo e caliça a verdura dos taboleiros, e cêdo, de toda aquella vivenda tão amena e virente, só restavam ruinas.

Numerosos grupos de já pacificados espectadores seguiam com curiosidade as operações de devastação; mas, longe d'alli, a maior distancia do que os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que elle orvalhava de lagrimas, o unico coração que elle devéras apertava de dor.

O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se divisava toda a scena. Com a cabeça pousada na mão e o braço apoiado sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, que d'alli via vacillar e cair, como se fôsse um amigo que o precedesse no tumulo. Parecia ter fugido para longe, para pelo menos não lhes ouvir o estertor da agonia.

Ao lado do velho estava Augusto.

Não era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da demolição.

Mais do que uma vez tentára arrancar o herbanario d'aquelle sitio. O velho, porém, resistiu; queria estar alli até vêr cair a ultima arvore.

Ao pinheiral d'onde assistia á scena, chegava em confusão o alarido dos trabalhadores, o rumor do manobrar dos instrumentos, e até o da quéda das arvores cortadas.

O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore, recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava ligada.

―Lá vae aquella faia!―dizia elle, com intensa melancolia―pobre velha! Era á tua sombra que meu pae me ensinava a ler! Encostava-se áquelle tronco sobre a grossa raiz que elle tem á flor da terra e pegando em mim ao collo, guiava-me nas primeiras lições! E viver eu para te vêr cair!

E, ao perceber-lhe balançar as sumidades, o velho fechou os olhos instinctivamente. Cêdo ouviu um estrondo... Quando os abriu, estava por terra a faia.

―Agora é a tua vez, pobre carvalho!―dizia algum tempo depois―muito queria minha mãe áquella arvore! Por suas mãos a plantou bem tenra. Nunca me sentei áquella sombra, que me não lembrasse da santa mulher! Parecia que eram vozes tuas, que m'a recordavam, infeliz! Barbaros! Olha com que desamor a decepam! Perdôa-me, meu velho amigo, mas bem vês que te não posso valer.

E o carvalho caíu.

―Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto cubiçavam as creanças, que pela ultima vez o fazias!... Adeus, pobre amiga, adeus.

E caía a cerdeira tambem.

E caíam, uma após outra, todas as arvores do quintal, os limoeiros, as nogueiras, os salgueiros e toda a familia vegetal do velho Vicente, que sentia ir-se-lhe com ella a alma. Memorias de infancia, sonhos de juventude, e reminiscencias de velho, como aves invisiveis, occultas nas copas d'aquellas arvores, surgiam agora, espavoridas e desnorteadas, a procurar o refugio que não encontravam fóra dalli.

Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram dolorosamente feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena casa, onde elle envelhecêra e contava morrer, e ao patentear-se indiscretamente aos olhos irreverentes e curiosos do povo aquelle recatado asylo.

A demolição proseguia com ardor e actividade. Em pouco tempo, só restavam da casa os muros, meio derrocados; e, no quintal, a serra e o machado principiavam a exercer no tronco da ultima arvore a sua obra destruidora. Era o castanheiro da entrada, gigante de outro seculo, que desafiára os raios de muitos invernos successivos.

A exaltação do herbanario cresceu n'aquelle momento. Ergueu-se, pallido e trémulo, apoiou-se no hombro de Augusto, murmurando:

―Tambem o castanheiro! Já era arvore quando eu nasci! Como elles se encarniçam contra elle! Mas não te parece, Augusto, que não soffre muito o castanheiro?... Sabes? É que elle já não agradeceria a vida, porque tinha de viver assim desamparado dos seus outros companheiros, que vê caídos no chão... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao lado d'elles... É como eu.

O castanheiro principiou a oscillar.

―Repara―disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o braço de Augusto.―Elle já treme! Não vês!... Lá lhe deitam a corda... Vae cair!... Parece-me que estou a sentir aquelle estalar de fibras...

E a arvore caíu com fragor no chão, que por tanto tempo cobrira de sombras.

Estava ultimada a obra.

O herbanario encostou a cabeça ao hombro de Augusto e rompeu em soluços.

―Então, tio Vicente, tenha animo―dizia-lhe Augusto, igualmente commovido.

―Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para acolá e não ver em pé uma só das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um sonho isto, um sonho de afflicção! Sinto-me tão só no mundo! Ai! se a morte me ferisse agora!

A dor, a saudade e o desalento davam uma uncção de poesia elegiaca á figura, ao gesto e ás palavras do velho, que desvanecia tudo o que n'elle pudésse haver, nas situações ordinarias da vida, capaz de desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente.

Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos materiaes, lagrima que não importa uma ironia á civilisação. Exalte-se embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as povoações e os êrmos; mas não seja isso motivo para condemnar a compaixão pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada á beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de redempção, o vencido, desde que cáe, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima de saudade. Não tenteis a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos áridos que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida á vossa alma sêcca e esteril. Quem devéras confia nos destinos da humanidade não tem mêdo das lagrimas. Pode-se triumphar com ellas nos olhos.

Passado algum tempo, e quando já as sombras da noite se condensavam nos valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o velho disse para Augusto:

―Agora que não tenho casa, dá-me por alguns dias o abrigo da tua.

―Por alguns dias?―repetiu Augusto, admirado.―Pois quer deixar-me depois!

―Quero. Vou com ellas.

E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas.

Atravessaram a aldeia á hora a que vibravam nos ares os sons melancolicos das Avé-Marias.

Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois.

―Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!―disse o herbanario, ao transpor o limiar.―Má companhia te fará a minha velhice.

―Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua presença podia desalentar quem na mocidade é mais fraco e desalentado do que ninguem o pode ser na velhice.

―Custou-me muito este golpe de hoje! Não contava com elle! Desde hontem envelheci muitos annos. Podes crêl-o.

Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de fóra da porta:

―Dão licença?

E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes sorrisos.

O herbanario e Augusto não reprimiram um gesto de impaciencia.

O homem entrou.

―Ora Deus seja aqui! Tão grande é o dia como a romaria, sr. Augusto! Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que tinha ido de manhã para casa do tio Vicente; vou lá... estava um mundo de gente no sitio... Mas qual sr. Augusto, nem tio Vicente! Então com que escorraçaram-n'o do seu ninho?... Pobre homem! A falar verdade, n'essa idade! Já sei que vem para casa do nosso Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda bem que o temos por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que tambem fizeram-n'a fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa assim!... Coisas cá do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheirão na tal estrada! E já por ahi se rosnam coisas! Emfim, politicos! politicos! Todos são os mesmos... Vae por ahi uma poeira dos meus peccados com a ordem a respeito do cemiterio; e com a historia do Herodes! Sabem que elle esteve hontem para matar o missionario?... E valha a verdade, dizem que por ordem de alguem do Mosteiro... Que eu não acredito, mas emfim, aquella historia no sermão do outro dia... E o tal sr. Henrique, que é unha e carne com elles... Elle será muito boa pessoa, mas não me calha... Lá feliz, isso como não sei de outro, com dinheiro e sem cuidados! E sempre se faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi dizer que sim.

O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente impassibilidade d'este não illudiu o velho.

O Pertunhas não se exgotára ainda:

―Ora agora, quem anda fulo é o brazileiro, o Seabra. Pelos modos, eu não sei o que ahi houve; o conselheiro não o tratou muito bem, dizem, n'uma carta que escreveu ao ministro, ou creatura do ministro. Umas historias muito complicadas, que eu não entendo, mas que promettem dar de si... Veremos em que ficam as eleições este anno... O conselheiro bem pode trabalhar, senão... Elle cuidava que era só apresentar-se, e emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. Joãozinho das Perdizes? Será fiel esse? Já me disseram tambem que...

―Ó sr. Pertunhas,―atalhou o herbanario, enfastiado―antes queremos não saber. Importa-nos pouco a politica.

―Estão como eu... Isto tambem não é politica, mas emfim... Pelo que vejo estão cançados? Eu tambem não os maço mais... E antes que me esqueça, ha muitas horas que estou de posse de uma carta para vossemecê, tio Vicente. É de Lisboa, veio por o correio de hoje. Não lh'a mandei a casa, porque... não sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como o vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso...

O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando para o sobrescripto, disse com indifferença:

―É do Manoel.

E abriu-a lentamente.

O mestre de latim deixou-se ficar, na esperança de ouvir novidades.

A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio de indignação e de colera:

―Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos amigos, com a justiça das causas e com a voz da propria consciencia, do que com os caprichos e interesses dos poderosos com quem vive!

―Mas que é?―perguntou Augusto, sem atinar com a significação d'aquellas palavras.

―Lê.

E passou a carta para as mãos de Augusto.

O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira obrigado a ceder, na questão do despacho de Augusto, a fortes influencias que se empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que mais tarde lhe explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle, talvez fôsse isto até uma vantagem; que o logar que pedia era a sua annullação perpetua, e que elle, conselheiro, havia de luctar contra a grande modestia do rapaz, trazendo-lhe á luz os merecimentos reaes, dando-lhe melhor collocação, e que esperava ainda empregal-o na capital.

Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia.

Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios:

―Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui.

―A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria despachar, e breve; e quebrou-a como um pêrro! Oh! o que fizeram d'aquelle homem!

―Quê?! Pois é possivel?―perguntou, exaggerando a sua consternação e espanto, o officioso Pertunhas.―É possível que o sr. Augusto não fôsse despachado?!

E dizendo isto, passou a desfiar uma série de consolações, qual d'ellas mais tôla e sem cabimento.

Até que emfim, tendo já novidades para contar, e almejando communical-as aos frequentadores da taberna do Canada, onde devia estar reunida grande e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a pretexto de não ser mais tempo incómmodo, e deixou-os outra vez sós.

―Estão-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! todas as amarguras! todos os desesperos!...―disse o herbanario momentos depois.―É para se odiar o mundo e os homens vêr um, que conhecemos generoso e innocente, contaminado tambem!... Pobre Augusto! Não basta que sejam modestos os teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.

Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo:

―Por que te não fazes politico? Por que não vaes tambem para a taberna do Canada dizer tolices sobre a governança do paiz? Talvez levasses comtigo alguns tôlos, e tinhas n'isso uma recommendação poderosa. Olha para aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um influente... Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer?

―Ficar―respondeu Augusto, com firmeza.

O herbanario fixou-o com um olhar penetrante.

―Ainda?... Mas... não te vae ser suave agora a vida, rapaz. Para se viver não basta uma... uma loucura. Repara bem. Se quizeres... O Manoel é leviano, mas creio que ainda não perverso; eu lhe escreverei... talvez que em Lisboa...

―Não lhe escreva. Sabe que não partiria para Lisboa...

―Mas... repara!... Estás muito novo, Augusto... Tens um longo futuro deante de ti. E, ficando, o que te espera?...

―A morte que fôsse, a morte de miseria e de fome, ficava. Mas resta-me ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o.

O herbanario baixou a cabeça, pensativo.

Soaram n'isto á porta da sala duas pancadas lentas.

O herbanario fez um gesto de enfado.

―Não abras sem eu sair,―disse elle a Augusto, que se erguera―não estou de animo para aturar importunos.

E passou para uma sala contigua.

Augusto foi abrir ao novo visitante.

Achou-se na presença do brazileiro Seabra.

A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro.

Augusto offereceu-lhe cadeira Augusto offereceu-lhe cadeira para se sentar, sem inquirir do motivo de tão inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou:

―Acabo agora mesmo de saber da injustiça que lhe fizeram. Senti-a como se fôra propria, e venho aqui declarar-lh'o.

Augusto curvou-se, em signal de agradecimento.

―Mas então que quer?―proseguiu o homem.―Hoje em dia é tudo assim. Padrinhos e mais padrinhos, e o mais são historias. Estamos n'uma época de corrupção e de immoralidades, e ninguem sabe onde isto irá parar.

Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu:

―Tôlo é quem não faz como os mais. O mundo está para os velhacos.

Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo:

―Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias não pode receber as offensas e ficar-se com ellas assim. O perdão evangelico é muito bonito, mas não é para homens. Não lhe parece? Eu por mim não gósto de genios de lama. Falemos como amigos. Nós ambos somos victimas de um mesmo homem. O sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se apregoava seu protector. Ahi temos a protecção que elle lhe deu. Eu tambem lhe devo finezas.

―V. s.

a

?―perguntou Augusto, que não podia saber o que lhe queria no fim de tudo o brazileiro.

―Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi.

E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu principio á exposição dos seus aggravos:

―O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me visconde por fôrça. Coisas de que eu me estou rindo... Mas... emfim, para me livrar d'aquelle importuno, disse-lhe que... fizesse lá o que quizesse... Pois, senhores, não teve o petulante o atrevimento de escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da opposição, mantem aturada correspondencia; não teve a audacia de lhe dizer que eu andava sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, pois promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao Estado, visto que com tão pouco me contentava, e outras coisas n'este gôsto? O petulante!...

Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam, luctava para se conservar sério perante aquella indignação do sr. Seabra.

―Mas tem a certeza d'isso?―perguntou elle.―Ás vezes são calumnias...

―Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro não, mas do secretario, que é o mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse á mão... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; mas era de parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo quanto eu pudésse dar, porque... porque... por umas tolices de que eu me lembrei a tempo... Ora ahi tem como elles são!... Que venham para cá com os seus melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se hão de arrepender.

―Mas... talvez haja equivoco.

―Equivoco? Ora essa! Pois eu não li a carta? Ella ha de apparecer em publico; oh! se ha de! Isto é, não a parte que me diz respeito, porque... porque emfim são negocios particulares, que não interessam a terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, umas promessas do ministro, que põem a calva á mostra a este Catão, que nos anda aqui a prégar liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com muita vontade.

―Acaso tenciona?...

―Se tenciono?! Pudéra não! Eu lhe afianço que o homem ha de saber com quem se metteu. Deixe vir as eleições, deixe-as vir. Já ha de achar o caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto eu... A lição ha de leval-a breve.

―Vão guerrear a eleição do conselheiro?

―Faço essa tenção.

―E quem lhe oppõem?

―O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa.

―Que nem o circulo conhece?

―Que importa? É uma lição. Aqui não ha politica nem meia politica. Eu não morro pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro. Mas é preciso aproveitar tudo. E assim temos por nós a auctoridade, além dos padres.

Augusto não se sentia com disposições para discutir esta questão politica; por isso nada mais lhe replicou.

O Seabra proseguiu:

―O que eu quero saber é se o amigo quer entrar na nossa alliança e acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A vingança é o prazer dos deuses, e visto que foi tambem offendido...

―Não, senhor, não acceito―acudiu com vivacidade Augusto.

―Escute. Deixe-me concluir. Não sabe do que falo. Pouco se exige. A coisa é esta: na carta a que me referi, e que por acaso me chegou ás mãos, fala-se n'uma outra, ou em outras anteriores, em que se tratava, mais por miudo, de uma curiosa transacção politica que n'esta se revela claro. O conselheiro é pouco acautelado; haja vista ao extravio d'esta, e por isso...

Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se não pudésse comprehender onde elle queria chegar.

O Seabra proseguiu:

―Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... sim, porque julgo que continúa a ensinar os pequenos, e, já se sabe... como mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais como a D. Victoria é... um tanto descuidada, como todos nós sabemos... Não sei se me percebe?... Dizia eu... sim, que se ás vezes, por acaso,

encontrasse

coisa que valesse...

Augusto levantou-se, indignado.

―Sr. Seabra!―exclamou, cheio de cólera.

―Valha-me Deus, eu não quero dizer... Não me entendeu... Bem vê que se o senhor devesse obrigações ao conselheiro, eu não ousava... Mas...

―Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se não insistir...

―Entendamo-nos. O senhor está no principio da vida. Precisa do auxilio de alguem. Offerece-se-lhe occasião para fazer serviços ao governo, que é finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para isso? Quasi nada... O senhor sabe perfeitamente que se não trata aqui de desgraçar ninguem, de levar ninguem á forca.

―Visto que v. s.

a

insiste, sou obrigado a retirar-me.

―Espere, sr. Augusto―acudiu o brazileiro, segurando-o.―Repare no que faz. Não seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns sacrificios, se vir que nas suas circumstancias...

―Visto que v. s.

a

não se cala, nem quer que eu me retire, ouça então o que tenho para lhe dizer. A sua proposta seria para mim o maior dos insultos, se não fôsse tal a baixeza d'ella, que até despe de toda a imputação a pessoa que a faz. Os homens, faltos de sentimentos de honra, não offendem, quando insultam; não se lhes pode pedir razão da infamia, porque não a conhecem como tal; identificaram-se com ella. Por isso, só me resta um partido, é convidal-o a sair.

O brazileiro fôra erguendo-se á medida que Augusto falava. Estava espantado por vêr que um rapaz, sem um vintem de seu, ousasse falar com tal irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crédito em tantos bancos! A ordem do mundo estava perturbada!

―Ora esta!―disse elle no fim.―Então o senhor ordena-me?...

―Que saia!―respondeu Augusto, indicando-lhe a porta.

O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do que ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra vez, e, no limiar, parou para dizer:

―Veja lá o que faz! Eu só lhe digo que me não convem dar a minhas filhas um mestre de soberbas.

―Decerto que lhe não poderá convir a educação que eu désse a suas filhas; é natural não querer educar consciencias que sejam juizes da sua corrupção. Deixe-as ignorantes, para não ser castigado pelo desprezo d'ellas.

―Quer então dizer...

―Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra.

O brazileiro saiu, bufando.

Augusto, que ficára só, sentiu-se apertar nos braços de alguem que entrou, sem elle sentir.

Era o herbanario.

―É assim, é assim que te vingas de todos, rapaz! Esmaga-m'os com a tua nobreza!

Augusto sorriu-se tristemente.

―O peor é, meu amigo―disse elle―que é a segunda subtracção que hoje se opéra no meu orçamento, e... a nobreza não nutre!

―Mas consola!―replicou o velho.

XXII

Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu atraz de si correr o reposteiro da entrada.

Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.

―Retiro-me, se sou importuno―disse a pessoa que entrára, e que ficára no limiar da porta.

Magdalena voltou-se então e reconheceu Henrique de Souzellas.

―Ah! é o primo Henrique? Pode entrar.

―Eu sei? Ha correspondencias tão delicadas, que demandam a applicação de todas as nossas faculdades, e a presença de um importuno...

―Mas não se dá agora esse caso; nem quanto á delicadeza da correspondencia, nem quanto á importunidade do visitante.

―Então utiliso-me da concessão.

―Occupava-me a escrever áquelle pobre Cancella, para o tranquillisar em relação á filha. Pobre homem! Ainda se lhe não pôde obter fiança, apesar de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que está? Quem ha de dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de tão delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu... É um modelo para seguir.

―E como vae a pequena?

―Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber áquelle pobre homem esperanças, que eu mesma não tenho.

―Que disse o cirurgião?

―Nada animador.

―Como capitulou a molestia?

―Não sei quê de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doença que lhes ameaça roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a, é a questão que me interessa. Tudo o mais me é indifferente. N'uma pessoa doente vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos peço que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas não quero saber o que é. Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia e a morte.

―Á maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura, prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que está sendo muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. É voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras d'aquella bem empregada sóva são-nos tambem concedidas inteiras. Imagine o clamor que por ahi vae!

―Deixe clamar―respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.

―Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me, quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia não sou muito bem tratado.

―É bom acautelar-se. Não os irrite. Viu que não era prudente.

―Não receie. Esta gente a final é cobarde.

―Tanto peor. O inimigo cobarde é mais para temer. Bem sabe. Foi uma desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermão do missionario.

―Parece-lhe? Eu não estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.

―Vamos, primo Henrique; confessemos que a situação não foi das mais agradaveis.

―Sinto-a, principalmente por o incómmodo que tiveram as senhoras e talvez por esse episodio dar vigor á opposição, que alguem por ahi se interessa em organisar contra o sr. conselheiro.

―Ah! pois trata-se d'isso?

―Se se trata?! E muito sériamente. A portaria a respeito do cemiterio, a historia do sermão, e agora o episodio do Cancella, teem feito um grande mal.

―Oh! se meu pae perdia!...

―Não entendo essa exclamação, prima Magdalena. Ia jurar que era a expressão de um desejo.

―E por que não? Se isso fôsse motivo para meu pae abandonar de uma vez para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.

―Conhece pouco ainda o coração humano, prima. Seu pae está votado á politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia, aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as politicas, a politica local.

A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique dizia.

Henrique proseguiu:

―Está organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O brazileiro capitaneia a phalange, os padres são os tribunos e a propaganda estende-se assustadoramente. É preciso olhar por isto e sobretudo não perder de vista o sr. Joãozinho das Perdizes, cujo voto seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia inteira. É de suppor que o requestem muito e... o homem é fragil. Já vê, prima, que eu tomo muito a sério os preceitos hygienicos, que me deu o meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a interessar-me pelas questões locaes, como se aqui estivesse, ha annos.

―E é um bom indicio de cura, pode crer.

―E ainda tem empenho de me curar?

―Empenho, todo; esperança é que menos.

―Ó meu Deus! que sinceridade de medico tão cruel! Seja; escutarei a sentença com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que não falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente, foi n'uma occasião bem critica. Julgo que o meu procedimento de então até hoje lhe terá feito conceber do meu caracter um não muito desfavoravel conceito. Bem vê que não abusei...

―De quê?―perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de altivez.―É certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreção, no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos é assim que eu interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.

―Seja contricção, visto que assim o quer. Mas não lhe merecerá ella alguma misericordia para com o peccádor?

―Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella só me obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado delicadas, com que me mortifica.

―Está sendo tão amavel!...

―Perdôe, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.

―Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima Magdalena.

―Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia do mal, inda não desisti de cural-o.

―Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?

―Ha já agora uma unica maneira de o salvar.

―E é?...

―Apaixonal-o.

―Ah! n'esse caso estou salvo!―exclamou Henrique, n'um impeto, que não pôde passar sem um sorriso da morgadinha.

―Ouça. É preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixão, sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.

―E como hei de escolher?

-De modo que lisonjeie a opinião que o primo tem de si proprio.

―A opinião que eu tenho de mim! Se pudésse ser mais clara...

―De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma missão heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa indole, que se lhe não pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da inutilidade, da insignificancia da sua existencia. Não se resigna ao papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma inconsideração de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter igualmente forte, que, em constante opposicão, pretendesse provar-lhe que prescindia da sua protecção, grandes desgostos e amarguras o esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres nervosamente delicados, que tremem ao verem-se sós, cheios de poeticas superstições, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao braço, como se n'elle encontrasse a coragem que não sente em si, e que, ao mesmo tempo, domine pela fraqueza e pela doçura, domine sem consciencia do imperio que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes é que deve procurar para salvar-se; só d'elle pode esperar a realisação da vaga ideia de felicidade, que todos concebem na vida.

―E se essa theoria engenhosa fôsse verdadeira, parece-lhe que poderia encontrar á mão o tal anjo salvador, que precisa do meu braço para se apoiar?

―Julgo que pode, e que já o teria encontrado, se pensasse sériamente nas necessidades do seu coração.

Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas do correio.

―Trégoas á nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu pae―disse Magdalena, examinando a carta recebida.

―Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que chegaram.

E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas de Lisboa.

Não tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a leitura, exclamando:

―Ó meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?

Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.

Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoção a carta do conselheiro.

―Ha alguma má nova?―perguntou Henrique, ferido por aquella expressão.

Antes, porém, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura até o fim.

Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria n'ella os signaes de uma funda agitação. Ao findar a leitura, passou a mão pela fronte como para desviar uma ideia amarga.

―Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a perturbar?―perguntou Henrique, já assustado tambem.

―Não sei bem; não posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.

―Mas a final o que se diz ahi?

―Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por certo doloroso.

Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mãos.

N'esta carta queixava-se o conselheiro á filha de ter sido victima de um abuso de confiança commettido por alguem, que elle ainda não sabia dizer quem fôsse. N'um periodico de Lisboa fôra publicada por aquelles dias uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por não menor personagem politica do que o secretario intimo do ministro.

O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritação que transparecia em todos os periodos, da que escrevêra á filha. O periodico que, para fins politicos, fizera a publicação, havia occultado os nomes, porém muitas circumstancias referidas tornavam inutil a discreção; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia, recebêra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiança que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como por hábito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia á filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta não era para todos comprehendel-o, e portanto não se limitasse a indagar entre os da baixa classe. «A vingança, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa, como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma allusão―a vingança, bem ou mal fundada, obriga ás vezes os mais nobres caracteres a uma acção baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar offendidos, é natural encontrar o criminoso.»

―Esclareça-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.―De que se trata aqui?

―Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; é necessario descobrir o traidor por cautela. Além de que, para todos os que, como eu, teem entrada n'esta casa, é isto um mysterio em que a nossa honra está empenhada, porque v. ex.

as

teem direito a alimentar suspeitas.

―Por amor de Deus!―acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.―Não pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu até aqui não conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.

―Seja envenenamento, muito embora, mas é um envenenamento salvador, prima, como o da vaccina; é um preservativo de traição.

―Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido occulto! nos gestos uma expressão denunciadora! nos affectos uma intenção egoista! Oh! isto é horrivel! Mas... que carta é essa, meu Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que não deva vêr a luz do dia? Meu pae!... Ha por fôrça illusão n'isto! Meu pae não tem crimes; meu pae não tem acções que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos as portas da sua casa sem receiar-se de indiscreções. Pois não é assim?

―Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem criminosos...

―A politica! Sim, é isso! Eu devia prevêr que essa palavra viria para explicar este mysterio! Por politica é-se cruel, por politica sacrifica-se um amigo, por politica força-se a consciencia, e depois... ella justifica tudo. Que obras são as obras politicas que precisam da sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma nação, pois para se tratar dos interesses de um povo, é sempre necessario o disfarce, a dissimulação, o mysterio?

―Quando se não pode contar com a boa fé dos outros, perde sempre quem fôr escrupulosamente fiel á sua.

―Mais valeria então abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh! ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vêr... quero saber que carta é esta.

Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que não costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe já feito suspeitar que era esse o que publicava a carta em questão. Não fazendo do conselheiro tão subido e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso coração de filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas máculas frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que fôsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. Não o conseguiu, porém. Magdalena, com aquella firmeza de resolução que energicamente se lhe revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mão para receber os periodicos:

―Deixe-me vêr, primo Henrique. Não é possivel que de meu pae se diga ahi alguma coisa que não devam ler os olhos de uma filha.

E quasi arrebatou das mãos de Henrique a folha, justamente aquella de que elle mais receiava.

E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.

Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de Magdalena.

Viu-a tornar-se de repente mais attenta á leitura; os olhos, que até alli vagueavam por diversas secções do periodico, fixaram-se n'um ponto; contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; córou e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoção profunda:

―Ó meu Deus! E não ter um coração, como o d'elle, a fôrça precisa para fugir d'estes enredos! Isto é de enlouquecer!...

Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e examinou-a.

Tinha conjecturado bem.

O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem tão perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia. Para Henrique, em quem havia muito se inoculára o scepticismo da época, impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que lhe apparecessem, não tinha o facto de que se tratava grande significação nem gravidade. O caso era o seguinte:

Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questão politica; uma d'estas questões que servem para estremar os campos e descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas é já trahir os principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avançadas ideias liberaes, tinha de antemão traçado por elle o caminho a seguir n'esta conjunctura, o circulo, fóra do qual não poderia combater sem apostasia; mas, como já atraz dissemos, o conselheiro não era já o homem que fôra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a fé nas utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer pequena vantagem positiva que pudésse obter, se não para si, para a localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificára-a, sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem não sei se parlamentar, se chama conveniencias politicas.

Déra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no conselheiro.

Comquanto membro da opposicão, e dos mais temidos pela sua eloquencia, variados conhecimentos e vigor de discussão, não era elle de tão espinhosa moral que não tivesse amigos no seio da maioria, sendo até o proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discussão, de que falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os adversarios de importancia, não duvidou entrar em ajustes com o conselheiro. Este, que já não era homem para repellir com indignação taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das contingencias. Entenderam-se.

Chegada a época da discussão, o conselheiro, que sempre se mostrou ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma opposicão vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o á provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a questão.

Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que contava, e alentando-os de longe á lucta. No entretanto, a questão foi apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se sós a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a discussão; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, só pôde protestar nos circulos politicos contra o resultado da votação e expender as razões que deveriam fazer repellir a medida.

Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia; e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fôra o preço d'ella.

Tudo isto trazia agora á luz a carta desencaminhada, que era do secretario do ministro, e que no seu conteúdo deixava vêr claramente as condições do pacto.

Esta publicação causou profunda sensação em Lisboa. A importancia politica do conselheiro soffreu com isso.

Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.

Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam.

Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.

Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.

A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de familia.

É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para os actos domesticos.

Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.

Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e penosa impressão que lhe ficára da leitura.

Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom já apparentemente sereno:

―Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas não se pronuncia claramente.

N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de manhã os fogões da casa.

Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.

―Aqui entre nós―dizia Henrique―vejamos em quem se pode, com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta o Mosteiro...

E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para elle com um gesto espantado:

―Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.

as

livres para me instaurarem processo.

―Ora essa, primo Henrique!―exclamou D. Victoria.―Era o que faltava! Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.

Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este episodio.

Henrique proseguiu:

―Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações, porém...

Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, antes de enuncial-a.

―Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.

―Diga, primo, diga―acudiu logo D. Victoria.

―A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores velhas...

―Então julga que foi o Vicente?―perguntou D. Victoria.―Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.

―Não digo que fôsse elle, minha senhora―disse Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse lendo o pensamento.

―Então?―insistia D. Victoria.

―Mas―proseguiu Henrique―o velho exerce certa fascinação na gente da terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte.

―Faz bem em o abandonar, primo Henrique―disse Magdalena, com severidade.―Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar.

―Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.

D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:

―Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.

Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.

Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.

A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.

―Muito bons dias, sr. Augusto,―disse D. Victoria affavelmente―então são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!

―Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte das minhas obrigações―disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e Henrique.

―Como?

―Pois v. ex.

a

não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu logar?

―Que me diz?

Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.

D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O gesto de Henrique tinha uma expressão particular.

―Recebi ha dias a participação official―continuou placidamente Augusto.

―Mas―proseguiu D. Victoria―o mano tinha aqui dito que o seu despacho estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos...

Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.

―Bem vê v. ex.

a

―disse Augusto, com leve tom de amargura―que ás vezes ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.

Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.

A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe manifestou na contracção da fronte.

―V. ex.

a

dá-me licença que principie os meus trabalhos?―disse Augusto.

―Ai, quando quizer―respondeu D. Victoria.―Os pequenos estão na sala verde.

Augusto saiu.

D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.

―Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um homem―dizia ella.―Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.

E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do filho.

―Não vejo ...―disse ella, remexendo os papeis.―Isto que é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.

Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.

―Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não entendo, mas hão de estar bons.

E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma attenção.

―Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a leio... Quer vêr?

Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos filhos.

Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.

Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a impressionou:

―Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças não a comprehenderiam bem.

Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a ler.

Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim.

Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.

D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.

―Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?

―É que ha momentos, minha tia,―respondeu Magdalena, fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas―em que eu não sei como se resiste á loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que protege os bons.

E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos soluços.

D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que ella não podia comprehender.

Henrique respondeu simplesmente:

―Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.

D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da resposta.

―Mas... n'esse caso... visto isso...

―Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de verdade.

D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:

―Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...

―Eu retiro-me―disse Henrique, pegando no chapéo para sair.

―Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...

―Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.

a

e elle, e, se me é licito um conselho, bom será que não seja demasiado violenta.

Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.

Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?

Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que commettemos um mal, formulando uma accusação.

Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.

D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.

Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que lhe esquecêra na sala.

―Que procura?―disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.

―Uma pasta que deixei aqui!

―Será esta?―disse D. Victoria, mostrando-a.

―É essa mesma―respondeu Augusto, indo para buscal-a.

―Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. Augusto?―perguntou D. Victoria, retendo a pasta.

―Muito bem, minha senhora.

―Já entenderam esta carta?

Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.

―É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.

a

me deu.

―Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que fez, para se mandar pagar.

D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito.

Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia comprehender aquellas singulares palavras.

―Diz v. ex.

a

que...

Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:

―Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.

Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia nem o que queria dizer tudo aquillo.

―Mas, por amor de Deus, minha senhora,―disse elle, já sobresaltado―que quer dizer tudo isto?

―Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em esconder as provas da sua villeza.

―Minha senhora!―exclamou Augusto, fazendo-se pallido.

―Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a carta.

―Oh, meu Deus! pois suspeita-se...

E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.

Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:

―Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o mundo...

Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e scintillou-lhe o olhar de cólera:

―Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame, uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...

―Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos―disse D. Victoria, interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.

Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:

―Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia tão cêdo.

D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.

É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, commovida.

Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios.

Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.

―Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não succumbir;―exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o rubor da exaltação―obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.

Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.

Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.

―Espere,―disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda melancolia―não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente.

Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.

Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a estender-lhe a mão.

Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.

―Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!―exclamou elle―precisava d'essas palavras para não enlouquecer.

―Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente.

―E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa generosa confiança. Juro-lh'o.

As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando Christina entrou na sala.

Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos dois.

Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.

Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando correr livremente o pranto.

Christina correu a abraçal-a.

―Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?―exclamou Christina.

E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel ingenuidade:

―Pois tu... amaval-o?

Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.

E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.

XXIII

Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do Mosteiro, ainda sem plano formado, sem tenção definida, mas comprehendendo vagamente a necessidade de abraçar uma resolução qualquer.

As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltára, tinham-lhe feito conceber a suspeita de que Henrique não fôra alheio á calumnia que pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga não ia longe, e justo é confessar que não era destituida de plausibilidade a ideia.

A especie de aversão reciproca que, desde o primeiro encontro, os dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que ficára pendente entre elles uma provocação, só á espera de pretexto, concorriam para dar vigor a esta supposição.

Por isso, depois de por muito tempo percorrer á tôa os caminhos dos campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente para Alvapenha.

Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que occasionaram a sua accusação. Mal poderia até dizer de que era accusado. Percebeu que se tratava de um abuso de confiança, de uma infamia, mas a impressão recebida fôra tal que não o deixára investigar os pormenores do facto. Previa em tudo isto uma traição, e, para a esclarecer, dirigiu-se á unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella partisse.

Quando chegou a Alvapenha já tinha alli passado a hora de jantar.

Henrique retirára-se para o quarto, D. Dorothéa e Maria de Jesus, aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das suas longas orações quotidianas.

Quando Augusto bateu á porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que D. Dorothéa dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia no mesmo idioma.

―

Turris e burris, fedilisarca, espeque da justiça, Joannes asellis

―dizia D. Dorothéa.

―

Orá pér nós

―respondia invariavelmente a criada.

A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala.

Poucas situações se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a de Augusto n'aquelle momento.

Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixões, trazer no coração uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na presença de duas indoles essencialmente pacificas, de dois corações a que a paixão nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a dúvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade, é um martyrio cruel.

Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.

―Ditosos olhos que o vêem!―disse D. Dorothéa, arredando deante de si a dobadoura, para mais á vontade contemplar o recem-chegado.―Não sei, que mal lhe fizeram n'esta casa!

―As minhas occupações...―balbuciou Augusto, sem saber o que dizia.

Maria de Jesus veio de reforço á ama.

―Isso! fale-nos nas suas occupações, nem que se não soubesse cá que todos os dias dá o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas quintas-feiras e domingos...

Augusto não respondeu.

―Pois olhe que todos aqui lhe querem bem―disse D. Dorothéa.

―Assim o creio, minha senhora.

―Eu fui muito amiga de sua mãe, que era uma santa creatura. Inda me parece que a estou a vêr ahi sentada, com aquella capa rôxa que trazia. A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era não morrer antes de o vêr padre; queria pelo menos uma vez commungar das suas mãos... Coitada!... Não lhe concedeu isso o Senhor, que bem cêdo a chamou a si.

E continuou para Augusto:

―Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui do legado que ella deixára, eu disse logo: «Ora a alma tem ella no Céo por isto, quando por mais não seja». Porque, emfim... só quem não conheceu sua mãe é que não diria outro tanto. Verdade é que elle não chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o que lhe não convem. E eu digo, a vida de sacerdote é muito bonita, isso é, mas... não havendo inclinação...

Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha.

―O sr. Henrique de Souzellas está em casa?―perguntou elle, logo que pôde.―Desejava muito falar-lhe.

―Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle deve estar no quarto... Ha de estar a ler. Não tem outra vida aquelle rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: «Henriquinho, olha que isso faz-te mal...» É o mesmo que nada. Só ler, ler, ler, que é uma coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios... Agora, tirando lá as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. Lá ao Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae.

―É que os ares são por alli muito saudaveis―disse maliciosamênte Maria de Jesus.

―Adeus! ahi vem vossê com as suas coisas. E então que tem? Pois está claro que um rapaz, como elle, dá-se com a gente nova.

―Pois sim, senhora, eu não digo...

―E as raparigas de lá já não estão bem sem elle... Ora eu confesso, quando elle está de maré, é um gôsto ouvil-o. Sempre ás vezes tem coisas que fazem rir as pedras.

―E pondo-se a contar historias? Ih! isso então é que é! Eu não sei onde elle as vae buscar!―accrescentou a criada.

―Com esta―continuou D. Dorothéa, apontando para Maria de Jesus―é ás vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. É perdido em pouca gente. Elle põe-se lá a inventar patranhas, e ella a tôla, que sabe já como elle é, ouve tudo muito séria e fiada, e no fim então é que são os escarcéos. Emfim, uma coisa é dizer, outra é vêr!

E D. Dorothéa ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha não sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir.

Augusto forçava-se a sorrir áquellas narrações das duas velhas, a que elle mal attendia.

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