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Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

XIII

Reading edition

De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.

É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.

Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu, germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens. Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o effeito produzido.

Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza, incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J. Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o outro material publico[37]. Isto era claramente{36} deixá-los na impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os Talabrigenses podiam já esperar (pratter spem), restituiu-lhes a cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec. II, antes de Christo (138 a. C).

Feito isto, o conquistador regressou a Roma.

Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é, com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da conquista, não deixa de ser elucidativa.

Quando li este trecho de Appiano (Appiani Alexandrini Rom. Historiarum quae supersunt. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem tumidos de calor.

Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).

Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?

Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.

Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso mais provavel do verso susodito de Vergilio:

Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!

Março de 1907.

P. S. No mappa do Ortelius, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo nova Lancobriga, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver O Arch. Port., XII, 42).

[1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de civitas aeminiensis.

[2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab Olisipone Bracaram Augustam) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza Talabriga em Aveiro e Langobriga na Feira. Em todo o caso, não podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que ha erro nos Codices (Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a Astorga, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).

[3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como o prova a moderna Vouga e Vauga dos documentos em baixo latim anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. Religiões de Lusitania, II, 28.

[4] Nas Noticias Archeologicas de Portugal, de Hübner, trad. do Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed. de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição briga a brica de Wesseling, ed. dos Vetera romanorum Itineraria, MDCCXXXV.

[5] Não pude haver á mão as Memorias d'este mesmo senhor.

[6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre «Les Celtes en Espagne» (Revue Celtique, XIV, § 8) diz, de passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que escreveu C. Muller em uma nota da Cl. Ptolemaei Geographia (I, 137) a respeito de Talabriga: Oppidum haud longe a Vouga, fluvio circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non licet. Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão. Veja-se Sousa a O. de Vagos.

[7] Por partes temos:

De Gaia á Feira 21:900 metros

Da Feira a Oliveira de Azemeis 10:900 metros

De Oliveira de Azemeis a Albergaria 18:000 metros

De Albergaria ao rio Vouga 6:800 metros

Do rio Vouga a Agueda 9:000 metros

De Agueda á Mealhada 22:000 metros

Da Mealhada a Coimbra 16:500 metros

105:100 metros

[8] Escreveu o autor do Portugal Antigo e Moderno que a via romana seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso, porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115 kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea (45:800 metros e 59:000 metros).

[9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.

[10] É força porém attentar na exigua differença que no caso presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que, acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale, delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via militar. Veja-se o diagramma.

[11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.

[12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga (Cit. Oppida restituta, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de Vacua não ser mansio do caminho romano. Havia um codice de Plinio que nomeava Talabriga e Vacca e uma cosmographia antiga que refere Vacca (sic) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido pelos AA.

Jorge Cardoso, no Agiologio, II, 65, quer que Vacua tenha sido em Viseu. Peor!

[13] Nos Port. Mon. Hist., «Diplom. & Chart.», vem um documento (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se lê:.... Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliam (silvam) que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum.... Trata-se de arredores de Ilhavo.

[14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46, 57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra incomparavelmente melhor?

[15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na Revue des Études Anciennes (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a caminhos de epocas prehistoricas, diz: Et il résulte bien.... que beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années.

[16] Para os leitores habituaes do Archeologo Português, seria ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla em castros com supposta referencia á epoca romana, não se trata dos castra, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg) fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha: nunca vi ruinas de nenhum d'estes castra, nem me consta que as haja verificadas no pais. E comtudo os castros, ou crastos no fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas muito differentes. Estes castros são apenas uns montes com vestigios de habitação ante-romana e quasi sempre de obras de fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros, cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país. Os castros devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos documentos da idade media. É que no singular castrum significou secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI da Eneida, onde se lê (vv. 771 a 776):

Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires! At qui umbrata gerunt civili tempora quercu, Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam, Hi Collatinas imponent montibus arces, 775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque: Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.

(Oevres de Virgile, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).

(Trad.) Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas, Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora (antigas povoações do Lacio): estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na terra sem nome.

Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a denominação de castro ou crasto.

Na Revue des Études Anciennes (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra castrum se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de entre todas extraio a seguinte de Isidoro (Origines, XV, 2, 13): Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm. Com referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido Portumcale castrum, de Idacio.

Mas a par d'aquella, outras se formaram, como castello, cristêlo, crastêlo e castrêlo. Castellum (cfr. cit. Rev. des Ét. Anc.) na lingua latina, era um deminutivo de castrum e applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio & Daremberg, s. v. Castellum). Depois, é explicavel que a linguagem popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as designações de cividade, mais ou menos pura, cidadêlhe, coroa e outras ainda. Os autores antigos usam o termo oppidum applicado a alguns d'estes centros de população (oppidum Aeminium). E ainda se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo, o termo de origem celtica briga, que tambem quer dizer castello, altura fortificada (Talabriga).

Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico e uma directriz frequentada.

[17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de Vaca (sic) fôra assolada pelos mouros. Os Leitores conhecem estes mouros... (Arch. Port., VII, 191).

[18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a castros, mas não pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até se me deparou a fórma rara crésto (cresto ualanes, doc. DXLIX do anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.

[19] Na fé de Nascimento Silveira (Mappa breve da Lusitania, p. 226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem entendeu.

[20] Nos Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um documento que diz: Cesari... subtus monte castro calbo... Cf. o n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um Monte Calvo que vejo perto de Romariz. Cesári (gen. de Cesarius, -ii) deu Cesár, como Severi (Port. Mon. Hist., «Dipl. et Ch.», passim, e Arch. Port., II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.

[21] Virá de Calambria? pergunta A. Herculano (Historia de Portugal, III, 423). Cfr. Arch. Port., art. do Sr. A. Cortesão, IX, 232. Teremos aqui alguma Calambriga? Um thesouro de 16 argolas de ouro é de lá. (Arch. Port., II, 87).

[22] Eu não me occupo especialmente da Langobriga do Itinerario, mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa de terreno vagamente indicada pela curva LL. um pouco ao norte da Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a actual Longroiva, cuja fórma medieval era Langobria, (Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141, parece que é a algum dos castros de Obil ou do Monte do Murado que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000 metros para leste da lagoa.

Para longo- e lango- como para brica e briga, não encontram difficuldade os celtistas. (Élém. celt. dans les noms de personnes des inscr. d'Esp., por A. Carnoy. Luvaina 1907).

[23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu, collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação d'aquella natureza.

Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.

Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.

[24] ... por ser tam grande como todos sabẽ, de ~q á prouerbio no pouo. (Ibid. p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!

[25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La geografia árabe de Portugal» in Revista Archeologica e Historica, I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas jornadas a Braga e outras duas a Tuy.

Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... à vol d'oiseau!

[26] Nos Port. Mon. Hist., «Diplom. de Chart.», apparecem mais documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por exemplo:

N.º 67 do anno 953:... et inde per carraria mourisca... (Isto era nas vizinhanças de Villa do Conde).

N.º 614 do anno 1083:... et inde per via maurisca:... (territorio de Arouca).

Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas, como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em fórma, por serem invios os territorios.

Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o fallar do povo.

É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (Arch. Port., III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se Hist. de Portugal, por A. Herculano, III, 421). Em França não se dava isto. Ruy de Pina na Chronica do sr. rey D. Affonso V (p. 569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey a estrada romam, que vay a Avinham».

[27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o termo strada, strata; algumas vezes adjectivada strata ueredaria (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a alia carrale (id.); estrata de uereda (id. n.º 13); in estrada qui discurrit via de uereda (id. n.º 24) ou strata maiore (id. n.os 563, 378 e 549). Tambem se encontra a expressão carreira antiqua (id. n.os 620 e 639), karraria antiqua (id. n.os 888), carraria antiqua (n.os 639 e 287), carera antiqua (id. n.os 366). Via de strada e strada de uiminaria lêem-se no doc. n.º 817 (ob. cit.) Ainda hoje se póde dizer caminho de estrada. Carreira é termo agora quasi só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana; certamente carreira inclue a ideia de carro, como carrale. Outra denominação que encontrei foi a de via publica (ob. cit., n.º 676), que parece corresponder a caminho publico.

Karraria antiqua era certamente uma estrada carreteira antiga já naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde concluir que essa estrada fosse via militar romana. Assim o doc. n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no concelho do Valdevêz (uilla Palatiolo), onde nunca passou via militar e onde a carreira antiqua poderia bem attingir a epoca romana.

Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr. Gama Barros, A administração Publica em Portugal, entre os que pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.

[28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na Portugalia, II, 216 (As povoas maritimas do norte de Portugal). Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».

[29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em A arte e a natureza em Portugal, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.

[30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria documentar a excepção.

Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese pura. E depois, lá temos o distinctivo briga. O nome da cidade comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, Ossonoba e Balsa, não demoravam em outeiros. (Vide Religiões da Lusitana II, 85).

[31] Portugalia, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.

[32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à Espinho». Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue), por Paul Choffat, 1895, p. 1.

[33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello, publicado no Arch. Port., II, 301, teve em resposta o silencio. Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados (Arch. Port., VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em Setubal, no Algarve (Portugalia, I e II. passim), e eu mostro que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que não posso precisar. Num mappa que illustra o Hisp. & Port., Itinerarium de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.

[34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm (silvam) que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum...

[35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do sec. XVII, assinada por N. Sanson. christ. Gall. regis geografo (Hispaniae antiquae tabulae, 1641). O mappa de Portugal antigo individúa, na região que andei estudando, Conimbrica em Condeixa, Aeminium na margem norte do Mondego; Talabriga ao N. do Vouga, um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 milliaria da foz do Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e, seguindo no mesmo rumo, Langobriga. É na Bibliotheca Nacional, um grosso volume in-folio, recentemente encadernado com o dístico—Mappas—e sem frontispicio.

[36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta região.

[37] ... pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis. Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica, e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a invasão romana.

Carta da região de Entre-Mondego-e-Douro
Carta da região de Entre-Mondego-e-Douro
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