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Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

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Reading edition

Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a. C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.

O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por parte dos arabistas.

Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de Geographia Nubiensis, que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert (Géographie d'Edrisi, Paris 1840).

Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um por terra, outro por mar.

Caminho por terra

Ed de 1619 (trad. lat)

«Iter autem terrestre a Colimria ad S. Jacobum est hujusmodi: a Colimbria ad oppidum Aba stationis habetur intervallum. Ab Aba ad oppidum Vatira statio. Ab hoc ad primos terminos regionum Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae spatio diei, ibique conspicitur oppidum Bonacar ad ripam fluminis Durii, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca LX M. P. duae videlicet stationes. A castello Abraca ad castellum Tui stationes duae».

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O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as stationes, expressão que se referia a pousada dos viandantes. As stationes justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos. Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.

Ed. de 1840 (trad. fr.)

«O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como segue: de Coimbra a Abah (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De Abah a Uetaria (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a Buna-Car, aldeiasinha nas margens do Douro, que é o rio de Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao rio Minho ou antes ao forte Abraça (insua de Caminha) (?) 60 milhas ou duas jornadas. Depois Tuia (Tuy) cidade pouco notavel, mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)

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No texto francês, ao vocabulo statio corresponde journée, que eu traduzi por jornada (de um dia).

Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para{26} o meu fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.

Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... Ribadavia!

A primeira estação ao deixar Coimbra é Aba (ed. 1619) ou Abah (ed. 1840). Poderá corresponder a Agueda? Jaubert desejaria falar em Riba-d'Agueda! É provavel.

A segunda estação foi interpretada por Vatira (ed. 1610) e Uetaria (ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.

Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia, ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal, chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o tradicional caminho que entesta na foz do Douro.

Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava Bona ou Buna-car, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de Bona-car ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p. 227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto creio que Buna-car era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se atravessava em barcos[25].

Descrevendo o mesmo caminho por mar, isto é, a viagem de Coimbra a Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de nahr-Budhu (rio Vadeo, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga, rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa. Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com segurança.

Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem{27} estes dois ponto; duvidosos, localização muito verosimil de Aba ou Abah em Agueda e incerta de Vatira ou Ueturia, o testemunho do geographo arabe apenas serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.

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