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Paginas Archeologicas III - Situação conjectural de Talabriga

XI

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Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana ab Aeminio ad Calem, o testemunho de Viterbo (Elucidario, s. v. Estrada mourisca) devia ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148, Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S. Felix subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo.

Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis, Albergaria, Vouga, etc.

Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada mourisca descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por Albergaria e por Vouga.

Que Viterbo lhe chamasse mourisca não é de espantar; era a voz popular que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].

Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que{28} não podia ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror das suas algaras.

Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e tão profundas transformações sociaes.

Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha ainda o logar de Mourisca, á margem da estrada, e que o nome lhe veio d'esta. Traduzindo mourisco em romano, póde ser acertada a supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. Estrada.

Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da estrada real; chama-se elle Fundo da rua. Tal rua não é outra senão a via romana. Esta explicação affere pela que dá o Corpus (II. p. 363) com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma estrada romana (oppido quod a via romana nomen duxit). A 3:500 para O. da Feira ha um sitio chamado Rua Nova. Aqui é que só a inspecção dos logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.

Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora (Annales de l'Espagne et du Portugal, Alvares de Colmenar, Amsterdam 1741, p. 253).

Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.{29}

Nos Port. Mon. Hist. não se encontram referencias mais claras do que esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da epoca romana, considerada como tal[27].

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