XII
Reading edition
Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.
Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um problema technico e administrativo extremamente complicado para os governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a barra do Vouga.
É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam{30} a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (Os portos maritimos de Portugal, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos antigos navios.
Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações, como aliás se tem escrito.
O mais explicito é Estrabão (Geographia, liv. III, III), que vertido a latim, diz: Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas, parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo fluens cursu, etc. O geographo grego iguala o Mondego (Muliadas) rio de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (itidem) estuario de diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o contraste é frisante com a importancia do Douro, longo fluens cursu. Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?
Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio da natural directriz ab Aeminio Calem. E para um porto de tamanho trafego, era pouco um simples vicus.
Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?
Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações. Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.
Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.{31}
Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á noticia de Estrabão?
Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?
Que, posteriormente a Estrabão, as parvae navigationes crescessem em numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a fervilhar nas planicies.
E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da importancia das salgas (Geographie de Strabon, por Am. Tardieu, 1886; III-IV-2). Mas então já a via militar ab Aeminio ad Calem lá estaria antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo do commercio externo, num porto afastado da linha natural de communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.
Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo arabico Edrisi (Géographie d'Edrisi, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris 1840 II, 227).{32}
O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A. Jaubert representa na graphia francêsa por Boudhou (ou==u); e assim conforme o texto arabico vemos que o nahr-Budhu é um rio consideravel onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a 70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população occupada no trafego maritimo.
A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á questão posta.
Há porém, uma cousa que não posso omittir.
É o documento n.º LXXVI dos Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chartae», onde se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é alauario, o que só por si desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde hoje é Aveiro (assim tambem Talabario e Táveiro. Doc. CXXVIII).
O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada{33} pelo mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio (Portugalia, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.
Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades de Vagos, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio, que infelizmente não foi estudado. Na Esgueira, achara-se outro.
Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é acrescentar que a ponte foi logo capitulada de romana, nada menos.
Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.
D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide Theatrum orbis terrarum, já citado a pag. 132).
Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (Monarchia Lusitana, II. V. p. 130) diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e pescarias, era cidade florescente[35].
O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto consentia a arqueação das caravelas.{34}
D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. Os portos maritimos de Portugal, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).
O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga cidade de Vacua[36], onde depois foi a villa de Vouga e agora mero cabeço de Vouga (Arch. Port., VII, 191), que aliás tende a desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho Leal, Port, Ant. e Mod., s. v. Vouga).
Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (Annales de l'Espagne et du Portugal, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8 ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.
Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (Port. Mon. Hist., «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (Arch. Port., IV, 144).
O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do sec. XVIII, transmittida pelas Memorias Parochiaes, segundo as quaes o braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo para caravelas e agora é vadeavel (Arch. Port., IV, 329).
Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente, tem-se açoreado (Arch. Port., V, 297).
Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso{35} do que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das minas.