O CRIME DO PADRE AMARO (continued 9)
Reading edition
Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé.
A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante as oito horas de dôres a rapariga mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de resto, e sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá.
O bom abbade Ferrão baixava castamente os olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até á morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, o Estado não o perde de vista... E ahi começa o desgraçado a sua jornada do berço á sepultura, entre um padre e um cabo de policia!
O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controversia.
—A Igreja, continuava o doutor com serenidade, começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer a consciencia da vida, por lhe impôr uma religião...
O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo:
—Ó doutor, ainda que não seja senão por caridade com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina a pena d'excommunhão contra todo o que disser que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a aceitação da razão.
—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo e outros collegas...
—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade já escandalisado.
—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O Concilio de Trento e a Convenção foram as duas mais prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem presenciado...
O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina e os assassinos do bom rei Luiz XVI.
Mas o doutor proseguiu:
—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem o seu ataque de lombrigas...
—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados—como significando «anda, anda, enterra bem essa alma no abysmo de fogo e pez»!
—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros symptomas de razão, continuava o doutor, quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir dos animaes, uma noção de si mesmo e do universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato de seis annos que não sabe ainda o
b-a-bá
tem uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco não hesita um momento para dizer como se fez o universo e os seus systemas planetarios; como appareceu na terra a creação; como se succederam as raças; como passaram as revoluções geologicas do globo; como se formaram as linguas; como se inventou a escripta... Sabe tudo: possue completa e immutavel a regra para dirigir todas as acções e formar todos os juizos; tem mesmo a certeza de todos os mysterios; ainda que seja myope como uma toupeira vê o que se passa na profundidade dos céos e no interior do globo; conhece, como se não tivesse feito senão assistir a esse espectaculo, o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não ha problema que não decida... E quando a Igreja tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto é: para que?
A indignação tinha emmudecido o abbade.
—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o
res scibilis
, está no Catecismo: é metter-lh'o na memoria, e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é Deus mesmo.
O abbade pulou.
—Isso não é discutir, exclamou, isso não é discutir!... Isso são chalaças á Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais d'alto...
—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...
Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe sempre encolhida de terror.
—Senhor doutor, disse ella no silencio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
—E então? A criança levaram-n'a, não?
—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia.
—Bem, acabou-se...
Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem ámanhã... Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta. Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá licença... Que durma, que socegue.
A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não recomeçou: diante d'aquella mãi que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formação das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido. Mas o doutor não tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da situação do padre na sociedade...
O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre n'aquella historia infeliz.
O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou contra a preparação e educação ecclesiastica.
—Ahi tem o abbade uma educação dominada inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas solicitações da natureza, e resistencia aos mais elevados movimentos da razão. Preparar um padre é crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada existencia n'uma batalha desesperada contra os dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia e a força da Razão!
—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado o abbade.
—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a educação d'um sacerdote?
Primò
: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto é, para a suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes.
Secundò
: em evitar todo o conhecimento e toda a idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto é, a suppressão forçada do espirito d'indagação e d'exame, portanto de toda a sciencia real e humana...
O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa indignação:
—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia?
—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos, o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as producções do espirito humano eram inuteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
O abbade passeava pela sala, indo contra um e outro movel como um boi espicaçado, apertando as mãos na cabeça na desolação d'aquellas blasphemias; não se conteve, gritou:
—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me cahir em peccado mortal... Mas isso não é discutir... Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista...
Lançou-se então com calor n'uma dissertação sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos padres...
—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle diz dos estudos dos auctores profanos, que são a melhor preparação para os estudos sagrados! Leia a
Historia dos mosteiros na meia idade
! Era lá que estava a sciencia, a philosophia...
—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! Por philosophia meia duzia de concepções d'um espirito mythologico, em que o mysticismo é posto em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos... Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo, estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda tentou supprimil-as pela perseguição, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as, refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar as mãos na cabeça... Estranha ao espirito moderno, hostil nos seus principios e nos seus methodos ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos humanos... O senhor não é capaz de negar isto! Veja o
Syllabus
no seu canon terceiro excommungando a Razão... No seu canon decimo terceiro...
A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia:
—A pequena está a choramingar, diz que quer a criança.
—Mau, mau! disse o doutor.
E depois d'um momento:
—Que tal aspecto tem ella? Está córada? Está inquieta?
—Não senhor, está bem. Só a choramingar, a fallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força...
—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella adormece...
A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado:
—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o affligir-se?
—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja hoje é uma intrusa, abbade!
O abbade tornou a levar as mãos á cabeça.
—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia...
Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu frasco na mão. A Igreja fôra a Nação; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu triste pão diario do ministro da justiça, e pedia esmola á porta das capellas. Recrutára-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia. Fôra a depositaria da tradição nacional, do ideal collectivo da patria; e hoje, sem communicação com o pensamento nacional (se é que o ha) era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo de lá a lei e o espirito...
—Pois se está assim tão prostrada, mais uma razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se escarlate.
Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta.
—Que temos mais?
—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça. Diz que sente faíscas diante dos olhos...
O doutor então immediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela sala ruminando toda uma argumentação erriçada de textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o doutor não voltou.
Então aquelle silencio da casa, onde só o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do terraço; não vinha de lá nem rumor nem luz. Recomeçou o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudor sacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em pontas de pés, córando na escuridão d'aquella audacia, foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de latão. E emfim o doutor appareceu.
A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha sem gravata, com o collarinho espedaçado; os botões do collete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para traz, estavam todos manchados de sangue.
—Alguma coisa, doutor?
O doutor não respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada d'um calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas lembrando-lhe a pergunta anciosa do abbade:
—Tem convulsões, disse.
O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, muito digno:
—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... É uma alma christã em agonia, e eu estou aqui.
—Certamente, certamente...
O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relogio de parede, enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau d'uma coruja pensativa, um movel de castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. O abbade a cada momento ia até ao meio do corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta; outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga que, além no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada devia passar-lhe a visão do peccado: diante dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel: e na escuridão em que ia penetrando, sentia já o halito ardente da aproximação de Satanaz. Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava fervorosamente por ella.
Mas depois pensava no outro que fôra uma metade do seu peccado, e que agora na cidade, estirado na cama, resonava tranquillamente. E rezava então tambem por elle.
Tinha sobre o Breviario um pequeno
crucifixo
. E contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão! Philosophias, idéas, glorias profanas, gerações e imperios passam: são como os suspiros ephemeros do esforço humano: só ella permanece e permanecerá, a cruz—esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos vencidos, força maior da humanidade:
crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus
...
Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janella, sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada d'ar fresco.
—Como vai ella? perguntou o abbade.
—Mal, disse o doutor sahindo.
O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a oração de S. Fulgencio:
—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe depois a misericordia...
E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á beira da mesa.
A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.
—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade.
—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle somno, que é o somno da morte...
E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solidão, disse muito excitada:
—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor tem um genio!... Mas sangrar a rapariga n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se sangra ninguem em semelhante momento. Nunca, nunca!
—O senhor doutor é homem de muita sciencia...
—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia... Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor abbade... Sangrar em convulsões! Até causa horror!...
Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio...
Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu mólho de guardanapos.
O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as tres... O abbade, agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas sobre o Breviario:
—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquelle leito d'agonia...
Foi então Gertrudes que appareceu commovida. O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço para pôr a egoa ao
cabriolet
.
—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei é que n'isto tudo anda um peccado e um crime!...
O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.
O doutor então entrou com o seu estojo na mão:
—Se quizer, abbade, póde ir, disse.
Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos, e retendo-a por timidez: emfim, não se conteve, e n'um tom de medo:
—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor?
—Não.
—É que nós, doutor, não devemos aproximar-nos d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um caso extremo...
—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse o doutor, vestindo já o seu grande casacão.
O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote pôr diante do medico racionalista a certeza da eternidade mystica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:
—É n'este instante que se sente o terror de Deus, o vão do orgulho humano...
O doutor não respondeu, occupado a afivelar o seu estojo.
O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor, voltou ainda, e fallando com inquietação:
—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos soccorros da religião, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graça especial... A presença do medico então póde ser util...
—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a presença da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia da Graça.
Desceu, a vêr se estava prompto o
cabriolet
.
Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. Amelia estava immovel, com os braços hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura escura—e a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a face rigida.
E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão, o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia:
—
Jesu, Jesu, Jesu!
Lembra-te da graça de Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te no seio do Senhor!
Jesu, Jesu, Jesu!
Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o
Miserere
. O doutor que ficára á porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de pés o corredor, e desceu á rua, onde o moço segurava a egoa atrellada.
—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de somno.
O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento o
cabriolet
rodava surdamente pela estrada, sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão da noite com o clarão vermelho das suas duas lanternas.
XXV
Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre Amaro esperava a Dionysia em casa, postado á janella, com os olhos cravados na esquina da rua, sem reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionysia não apparecia: e elle teve de partir para a Sé, amargurado e doente, a baptisar o filho do Guedes.
Foi uma pesada tortura para elle vêr aquella gente alegre que punha na gravidade da Sé, mais sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um rumor mal contido de regosijo domestico e de festa paterna; o papá Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho compenetrado com uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala, e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com pompa um montão de rendas engommadas e de laçarotes azues onde mal se percebiam duas bochechinhas trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando á pressa as ceremonias: soprando em cruz sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio que já habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a bôca para que elle se desgostasse para sempre do sabor amargo do peccado e tomasse gosto a nutrir-se só da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para que elle não escutasse jámais as solicitações da carne e jámais respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na mão, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins rosnados á pressa, só se occupavam do pequeno, n'um receio que elle não respondesse com algum desacato impudente ás tremendas exhortações que lhe fazia a Igreja sua Mãi.
Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do pequerrucho que elle, alli em plena Sé, renunciasse para sempre a Satanaz, ás suas pompas e ás suas obras. O sacristão Mathias, que dava em latim as respostas rituaes, renunciou por elle—emquanto o pobre pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a familia, das velhas devotas que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuição de patacos. Mas foi toda uma atrapalhação para fazer as unções: a parteira commovida não atinava a desapertar os laçarotes do chambre, para pôr a nú os hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz ajudal-a: mas deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido d'uma senhora, uma visinha dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva.
—Franciscus, credis?—perguntava Amaro.
O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de Francisco:
—Credo.
—Franciscus, vis baptisari?
O Mathias:
—Volo.
Então a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda como um melão tenro: a criança agora perneava n'uma perrice.
—Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et Espiritus Sancti...
Emfim, acabára! Amaro correu á sacristia a desvestir-se—emquanto a parteira grave, o papá Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas devotas e os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados sob os guardachuvas, chapinhando a lama, lá iam levando em triumpho Francisco, o novo christão.
Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento que ia encontrar a Dionysia.
Lá estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada, enxovalhada da lucta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu começou a choramingar.
—Que é, Dionysia?
Ella rompeu em soluços, sem responder.
—Morta! exclamou Amaro.
—Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou emfim a matrona.
Amaro tombou para os pés da cama como morto tambem.
A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face d'agua, de vinagre. Elle recuperou-se um pouco, muito pallido: afastou-as com a mão, sem fallar; e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, n'um chôro desesperado,—emquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo á cozinha.
—Parece que tinha muita amizade á menina, começou a Escolastica, fallando baixo como na casa d'um moribundo.
—Costume d'ir por lá. Foi hospede tanto tempo... Ai, eram como irmãos...—disse a Dionysia, ainda chorosa.
Fallaram então de doenças de coração—porque a Dionysia contára á Escolastica que a pobre menina tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A Escolastica tambem soffria do coração; mas n'ella eram flatos, dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz tambem!
—Vossemecê toma uma gotinha de café, snr.
a
Dionysia?
—Olhe, a fallar a verdade, snr.
a
Escolastica, tomava uma gotinha de geropiga...
A Escolastica correu á taberna ao fim da rua, trouxe a geropiga n'um copo de quartilho debaixo do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas no café, outra escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que n'este mundo tudo eram sustos e lagrimas.
Deram onze horas: e a Escolastica pensava em levar um caldo ao senhor parocho, quando elle chamou de dentro. Estava de chapéo alto, com o casaco abotoado, os olhos vermelhos como carvões...
—Escolastica, vá a correr ao Cruz que me mande um cavallo... Mas depressa.
Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé d'ella, quasi contra os joelhos da mulher, com a face rigida e livida como um marmore, escutou em silencio a historia da noite—as convulsões de repente, tão fortes que ella, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia tão rôxa como a tunica d'uma imagem...
Mas o moço do Cruz chegára com o cavallo. Amaro tirou d'uma gaveta, d'entre roupa branca, um pequeno crucifixo, deu-o á Dionysia que ia voltar á Ricoça para ajudar a amortalhar a menina.
—Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o ella dado...
Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de dezembro fazia brilhar a relva, as pedras molhadas.
Quando chegou ao pé do poço entulhado, d'onde se avistava a casa de Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho d'ovelhas que tomava o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra ao hombro e a borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos—aquellas paizagens afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna rindo estupidamente dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da residencia, vendo fóra sem cessar cahir a neve... E veio-lhe um desejo ancioso d'essas solidões da serra, d'essa existencia de lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado lá com a sua paixão.
A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar os gallos. Ninguem respondeu. Seguiu então pelo caminho da aldeia, levando a egoa pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa fazia meia sentada á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas n'uma bisca renhida; e um rapazola d'uma amarellidão de sezões, com um lenço amarrado na cabeça, olhava-lhes o jogo tristemente.
A mulher tinha justamente visto passar a snr.
a
Carlota, que até parára a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao adro. Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu de traz da sombra das pipas.
—Corre, vai á Michaela, dize à snr.
a
Carlota que está aqui um senhor da cidade.
Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado n'uma pedra, com o seu cavallo pela redea. Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr o ouvido á fechadura, na esperança d'ouvir um chôro, uma rabuje de criança. Dentro pesava um silencio de caverna abandonada. Mas tranquillisava-o a idéa que a Carlota teria levado a criança comsigo, para Michaela. Devia realmente ter perguntando á mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a sua janella em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo tão raro n'aquellas freguezias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha... Decerto, o pequerrucho devia ter tambem um berço aceado...
Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera alli, na mesa da cozinha, quatro libras em ouro, preço adiantado d'um anno de criação, e dissera cruelmente ao anão—«conto comsigo»! Pobre pequerruchinho!... Mas a Carlota comprehendera bem, á noite na Ricoça, que elle agora queria-o vivo, o seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o deixaria alli, não, sob o olho raiado de sangue do anão... Leval-o-hia essa noite á Joanna Carreira dos Poyaes...
Que as sinistras historias da Dionysia, a
tecedeira d'anjos
, eram uma legenda insensata. A criança estava muito regalada em casa de Michaela, chupando aquelle bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe então o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feirão, levar comsigo a Escolastica, educar lá a criança como sobrinho, revivendo n'elle largamente todas as emoções d'aquelle romance de dois annos; e alli passaria n'uma paz triste, na saudade de Amelia, até ir como o seu antecessor, o abbade Gustavo que tambem creára um sobrinho em Feirão, repousar para sempre no pequeno cemiterio, de verão sob as flôres silvestres, de inverno sob a neve branca.
Então a Carlota appareceu; e ficou attonita ao reconhecer Amaro, sem passar da cancella, com a testa franzida, a sua bella face muito grave.
—A criança? exclamou Amaro.
Depois d'um momento, ella respondeu, sem perturbação:
—Nem me falle n'isso, que me tem dado um desgosto... Hontem mesmo, duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se rôxo, e alli me morreu debaixo dos olhos...
—Mente! gritou Amaro. Quero vêr.
—Entre, senhor, se quer vêr.
—Mas que lhe disse eu hontem, mulher?
—Que quer, senhor? Morreu. Veja...
Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem cólera nem receio. Amaro entreviu n'um relance, ao pé da chaminé, um berço coberto com um saiote escarlate.
Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavallo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido justamente à aldeia para encommendar um caixãosinho decente... Como vira que era filho de pessoa de bem, não o quisera enterrar embrulhado n'um trapo. Mas emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel que désse algum dinheiro para a despeza... Uns dois mil reis que fossem.
Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por fim, metteu-lhe o dinheiro na mão. E ia trotando no carreiro, quando a sentiu ainda correndo, gritando
pst! pst!
A Carlota queria-lhe restituir o capote que elle emprestára na vespera: tinha feito muito bom serviço, que a criança chegára quente como um rojãosinho... Infelizmente...
Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente a ilharga da cavalgadura.
Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha agora uma idéa só: era deixar aquella cidade maldita, não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da Sé...
Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do paço, que lhe lembrou com inquietação o que o Libaninho dissera na vespera da indignação do senhor vigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade do padre Saldanha, o confidente do paço, que o introduziu logo na livraria de sua excellencia, tranquillisou-o. O senhor vigario geral foi muito amavel. Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho...
—É que tenho um grande desgosto, senhor vigario geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excellencia licença para lá ir, por uns dias...
O senhor vigario geral consternou-se com bondade.
—Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forçados da barca de Charonte.
Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat Et ferruginea subvectat corpora cymba.
Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei de a recommendar nas minhas orações...
E muito methodico, sua excellencia tomou uma nota a lapis.
Amaro, ao sahir do paço, foi direito á Sé. Fechou-se na sacristia, a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos, escreveu ao conego Dias:
«Meu caro padre-mestre.—Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua excellentissima irmã lá estará tratando do enterro... Eu, como comprehende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se Deus quizer que nos tornemos a vêr. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre parochia de pastores, acabar meus dias nas lagrimas, na meditação e na penitencia. Console como puder a desgraça da mãi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça.—Seu amigo do C.—
Amaro Vieira
.»
«P. S. A criança morreu tambem, já se enterrou.»
Fechou a carta com uma obreia preta; e depois d'arranjar os seus papeis, foi abrir o grande portão chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras chuvas já davam áquelle recanto da Sé o seu ar lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar, sob o silencio triste dos altos contrafortes, espreitou á vidraça da cozinha do tio Esguelhas: elle lá estava, sentado á chaminé, com o cachimbo na bôca, cuspilhando tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos vidros—e quando o sineiro abriu a porta, aquelle interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tótó, a escada que ia para o quarto, agitaram o parocho de tantas recordações e de saudades tão bruscas, que não pôde fallar um momento, com a garganta tomada de soluços.
—Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer...
E acrescentou com os beiços tremulos d'um chôro que ia romper:
—Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre Ameliasinha lá morreu de repente...
O sineiro emmudeceu, assombrado.
—Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, tio Esguelhas. Adeus...
—Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho com os olhos arrazados d'agua.
Amaro fugiu para casa, contendo-se para não soluçar alto pelas ruas. Disse logo á Escolastica que ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio Cruz devia mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a Chão de Maçãs.
—Eu não tenho senão o dinheiro que é necessario para a jornada. Mas o que ahi me fica em lençoes e toalhas é para vossê...
A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho, quiz beijar-lhe a mão por tanta generosidade: offereceu-se para fazer a mala...
—Eu mesmo a arranjo, Escolastica, não se incommode.
Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando, foi logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armarios. Mas Amaro d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma harpa e uma rebeca, em desafinação, tocavam a valsa dos
Dois mundos
.
—Dê um tostão a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhe que vão p'r'ó inferno... Que está aqui gente doente!
E até ás cinco horas a Escolastica não tornou a sentir rumor no quarto.
Quando o moço do Cruz veio com o cavallo, pensando que o senhor parocho adormecera, ella foi-lhe bater devagarinho á porta do quarto, choramingando já da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de capote aos hombros; no meio do quarto prompta e acorreada a mala de lona que devia ir á garupa da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar n'essa noite à snr.
a
D. Maria da Assumpção, ao padre Silverio e a Natario: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruido conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu muito commovido.
—Entre, tio Esguelhas, entre.
O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
—Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto isto, e pensei que...
E metteu na mão de Amaro um brinco d'ouro. Elle reconheceu-o logo: era d'Amelia. Muito tempo ella o procurára debalde; soltára-se decerto n'alguma manhã d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro então, suffocado, abraçou o tio Esguelhas.
—Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por cá de mim. Dê lembranças ao Mathias, tio Esguelhas...
O moço afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu, deixando a Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar ambos á porta.
Mas depois de ter passado os açudes, ao pé d'uma volta da estrada, teve de apear para compôr o estribo: e ia montar, quando appareceram dobrando o muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a fallar ao senhor parocho—admirando-se de o vêr alli, de maleta na garupa, com ares de jornada...
—É verdade, disse, vou para Lisboa!
O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade.—Mas quando o parocho fallou da irmã moribunda, affligiram-se com polidez; e o senhor administrador disse:
—Deve estar muito sentido, comprehendo... De mais a mais essa outra desgraça na casa d'aquellas senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha, morta assim de repente...
O antigo Bibi exclamou:
—O quê? A Ameliasinha, aquella bonita que morava na rua da Misericordia? Morreu?
O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu consternado.
O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionysia. Dizia-se que fôra um aneurisma.
—Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe se afflijo as suas crenças respeitaveis, que são as minhas de resto... Mas Deus commetteu um verdadeiro crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquelle picantesinho da virtude...
Então, n'um tom de pezames, todos lamentaram aquelle golpe que devia ter affectado tanto o senhor parocho.
Elle disse muito grave:
—Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem duvida, uma esposa modêlo... Senti-o muito.
Apertou silenciosamente as mãos em redor—e emquanto os cavalheiros recolhiam á cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, para a estação de Chão de Maçãs.
Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia sahiu da Ricoça. Era uma manhã aspera: o céo e os campos estavam afogados n'uma nevoa pardacenta; e cahia, muito miuda, uma chuva regelada. Era longe da quinta a capella dos Poyaes. O menino do côro adiante, de cruz alçada, apressava-se, chapinhando a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão, d'estola negra, abrigava-se, murmurando o
Exultabunt Domino
, sob o guardachuva que sustentava ao lado o sacristão com o hyssope; quatro trabalhadores da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva obliqua, levavam n'uma padiola o esquife que tinha dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guardachuva do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o valle triste dos Poyaes cavava-se, todo pardo na neblina, n'um grande silencio; e a voz enorme do vigario, mugindo o
Miserere
, rolava pela quebrada humida onde murmuravam os riachos muito cheios.
Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do caixão pararam derreados; e então um homem, que estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se dois criados de farda, com as calças muito arregaçadas e tochas na mão—dois lacaios que mandára o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas senhoras da Ricoça, amigas do abbade.
Então, vendo estas duas librés que vinham afidalgar o prestito, o menino do côro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já sem fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o sacristão bramiu um
Requiem
tremendo. E pelas lamas do íngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, emquanto às portas as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepellizes brancas e o caixão de galões d'ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guardachuvas abertos, sob a chuva triste.
A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do
Subvenite sancti
que o sacristão entoou em ronco.—Mas os dois criados de farda não entraram porque o senhor Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando, batendo os pés regelados. Dentro seguia o cantochão; depois era um ciciar d'orações que se amortecia: e de repente latins funebres lançados pela voz grossa do vigario.
Então os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do tio Seraphim. Dois moços de gado da quinta do Morgado, que bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo apparecer os dois criados de farda.
—Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavallo. Nós lá estamos, na massada do enterro... Boas tardes, snr. Seraphim.
Apertaram a mão ao Seraphim, que lhes mediu duas aguardentes—e informou-se se a defunta era a noiva do snr. Joãosinho. Tinham-lhe dito que morrera d'uma veia rebentada.
O baixito riu:
—Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo ventre...
—Obra do snr. Joãosinho? perguntou o Seraphim, arregalando o olho bréjeiro.
—Não me parece, disse o outro com importancia. O snr. Joãosinho estava em Lisboa... Obra d'algum cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de quem eu desconfio, snr. Seraphim?...
Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o sahimento já ia ao pé do cemiterio, e que não faltavam senão «aquelles senhores»! Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemiterio, ao ultimo versiculo do
Miserere
. João Eduardo agora levava uma vela na mão, ia logo atraz do caixão d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados de lagrimas fitos no velludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capella dobrava desoladamente. A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela terra molle, iam-se dirigindo para o canto do muro onde estava cavada de fresco a cova d'Amelia, negra e profunda entre a relva humida. O menino do côro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o abbade Ferrão, adiantando-se até á beira do buraco escuro, murmurou o
Deus cujus miseratione
... Então João Eduardo, muito pallido, vacillou de repente, e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arrancal-o d'ao pé da cova; mas elle resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se desesperadamente á manga do criado, vendo o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarellada que rolava, com um ranger de taboas mal pregadas.
—
Requiem aeternam donna ei, Domine!
—
Et lux perpetua luceat ei
, mugiu o sacristão.
O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: o abbade espalhou em cima uma pouca de terra em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope sobre o velludilho, a terra, a relva em redor:
—
Requiescat in pace
.
—
Amen
, responderam a voz cava do sacristão e a voz aguda do menino do côro.
—
Amen
, disseram todos n'um murmurio, que ciciou, se perdeu entre os cyprestes, as hervas, os tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia de dezembro.
XXVI
Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havaneza, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapeus, para a grade do balcão, onde n'uma taboleta suspensa se collavam os telegrammas da
Agencia Havas
; sujeitos de faces espantadas sahiam consternados, exclamando logo para algum amigo mais pacato que os esperára fóra:
—Tudo perdido! Tudo a arder!
Dentro, na multidão de grulhas que se apertava contra o balcão, questionava-se forte; e pelo passeio, no largo do Loreto, defronte ao pé do estanco, pelo Chiado até ao Magalhães, era, por aquelle dia já quente do começo de verão, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as palavras—
Communistas! Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional!
voltavam a cada momento, lançadas com furor, entre o ruido das tipoias e os pregões dos garotos gritando
supplementos
.
Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas annunciando os episodios successivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris: telegrammas despedidos de Versailles n'um terror dizendo os palacios que ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa nos pateos dos quarteis e entre os mausoleus dos cemiterios; a vingança que ia saciar-se até á escuridão dos esgotos; a fatal demencia que desvairava as fardas e as blusas; e a resistencia que tinha o furor de uma agonia com os methodos d'uma sciencia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela dynamite e pelo nitro-glycerina! Uma convulsão, um fim de mundo—que vinte, trinta palavras de repente mostravam, n'um relance, a um clarão de fogueira.
O Chiado lamentava com indignação aquella ruina de Paris. Recordavam-se com exclamações os edificios ardidos, o Hotel de Ville, «tão bonito», a rua Royale, «aquella riqueza». Havia individuos tão furiosos com o incendio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua: os que tinham estado em Paris um ou dois mezes abriam-se em invectivas, arrogando-se uma participação de parisiense na riqueza da cidade, escandalisados por a insurreição não ter respeitado monumentos em que elles tinham posto os seus olhos.
—Vejam vossês! exclamava um sujeito gordo. O palacio da Legião d'Honra destruido! Ainda não ha um mez que eu lá estive com minha mulher... Que infamia! Que patifaria!
Mas espalhára-se que o ministerio recebera outro telegramma mais desolador: toda a linha do
boulevard
da Bastilha á Magdalena ardia, e ainda a praça da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos até ao Arco do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado, n'uma demencia, todo aquelle systema de restaurantes, cafés-concertos, bailes publicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de furor. Tinham pois as chammas aniquilado aquella centralisação tão commoda da patuscada! Oh que infamia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais experientes? Onde se tornaria a vêr aquelle desfilar prodigioso d'uma volta de Bois, nos dias asperos e seccos d'inverno, quando as victorias das cocottes resplandeciam ao pé dos phaetons dos agentes da Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as bibliothecas e os museus: mas a saudade era sincera pela destruição dos cafés e pelo incendio dos lupanares. Era o fim de Paris, era o fim da França!
N'um grupo ao pé da Casa Havaneza os questionadores politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se começava a citar vagamente em Lisboa como um monstro sanguinolento; e as invectivas rompiam contra Proudhon. A maior parte imaginava que era elle que tinha incendiado. Mas o poeta estimado das
Flôres e Ais
acudiu dizendo «que, à parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estylista bastante ameno». Então o jogador França berrou:
—Qual estylo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe os ossos!
E rachava. Depois do cognac o França era uma fera.
Alguns moços porém, a quem o elemento dramatico da catastrophe revolvia o instincto romantico, applaudiam a heroicidade da Communa—Vermorel abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas que o trespassavam gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com um fanatismo de santo, dictando do seu leito d'agonia as violencias da resistencia...
—São grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.
Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se pallidas, vendo já as suas casas na Baixa a escorrer de petroleo e a mesma Casa Havaneza presa de chammas socialistas. Então era em todos os grupos um furor d'auctoridade e repressão: era necessario que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse na força dos seus principios conservadores e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes com tendas de capellistas fallavam da «canalha» com o desdem imponente d'um La Tremouille ou d'um Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o operario que quer viver como principe». Fallava-se com devoção na propriedade, no capital!
D'outro lado eram moços verbosos, localistas excitados que declamavam contra o velho mundo, a velha idéa, ameaçando-os d'alto, propondo-se a derruil-os em artigos tremendos.
E assim uma burguezia entorpecida esperava deter, com alguns policias, uma evolução social: e uma mocidade, envernizada de litteratura, decidia destruir n'um folhetim uma sociedade de dezoito seculos. Mas ninguem se mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando á França a restauração dos Bourbons.
Então um homem vestido de preto, que sahira do estanco e atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:
—Ó padre Amaro! ó maganão!
Voltou-se: era o conego Dias. Abraçaram-se com vehemencia, e para conversarem mais tranquillamente foram andando até ao largo de Camões, e alli pararam, junto á estatua:
—Então vossê quando chegou, padre-mestre?
Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa d'uma servidão na quinta, tinha appellado para a Relação, e vinha seguir de perto a questão na capital.
—E vossê, Amaro? Na ultima carta dizia-me que tinha vontade de sahir de Santo Thyrso.
Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas vagára Villa-Franca, e elle, para estar mais perto da capital, viera fallar com o senhor conde de Ribamar, o seu conde, que lá andava obtendo a transferencia. Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa!
—E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor?
—Não, coitada... Vossê sabe, ao principio tivemos um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia succeder como á Amelia. Mas não, era hydropesia... E alli o que ha é anasarca...
—Coitada, santa senhora! E o Natario?
—Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita lingua.
—E diga lá, padre-mestre, o Libaninho?
—Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego rindo.
O padre Amaro riu tambem: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
—Pois é verdade, disse emfim o conego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que não havia a duvidar... E ás dez horas da noite, na alameda! Já é imprudencia... Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o Mathias morreu, lá lhe demos o logar de sacristão, que é bem boa posta... Muito melhor que o que elle tinha no cartorio... E ha de cumprir com zelo!
—Ha de cumprir com zelo, concordou muito sério o padre Amaro. E a proposito, a D. Maria da Assumpção?
—Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
—Palavra?
—No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria, hein?
—É divino!
—As Gansosos na mesma, continuou o conego. Têm agora a sua criada, a Escolastica.
—E da besta do João Eduardo?
—Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está ainda nos Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João Eduardo diz que está tisico... que eu não sei, nunca mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferrão.
—Como vai elle, o Ferrão?
—Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia.
—E então?
O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
—Deveras, padre-mestre?
—Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui estão as novidades. E vossê está mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudança...
E pondo-se diante, galhofando:
—Ó Amaro, e vossê a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitencia...
O padre Amaro encolheu os hombros:
—Que quer vossê, padre-mestre?... N'aquelles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
—Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma pausa:—Ah! Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silencio, n'uma recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joanneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o
Adeus
e o
Descrido
cantados pelo Arthur Couceiro e acompanhados pela pobre Amelia, que agora lá dormia, no cemiterio dos Poyaes, sob as flôres silvestres...
—E que me diz vossê a estas coisas de França, Amaro? exclamou de repente o conego.
—Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira!
—Má brincadeira, rosnou o conego.
E o padre Amaro:
—E cá pelo nosso canto parece que começam tambem essas idéas...
O conego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de maçons, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitavel—o clero, a instrucção religiosa, a familia, o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eram necessarias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.
—Ahi ó que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam! Não fazem senão desacreditar-nos... Destroem no povo a veneração pelo sacerdocio...
—Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom profundo o conego.
Então junto d'elles passaram duas senhoras, uma já de cabellos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras batidas, os cotovêlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade,
pouff
enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.
—Caspitè! disse o conego baixo, tocando o cotovêlo do collega. Hein, seu padre Amaro?... Aquillo é que vossê queria confessar.
—Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o parocho rindo, já as não confesso senão casadas!
O conego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho e oculos d'ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol debaixo do braço.
Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor conego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um momento da estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro fallou dos ultimos telegrammas.
—Que diz vossa excellencia a estas coisas de França, senhor conde?
O estadista agitou as mãos, n'uma desolação que lhe assombreava a face:
—Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem me falle n'isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho estado doente.
Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se á dôr do estadista.
E então o conego:
—E qual pensa vossa excellencia que será o resultado?
O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso das idéas, disse:
—O resultado?... Não é difficil prevel-o. Quando se tem alguma experiencia da Historia e da Politica, o resultado de tudo isto vê-se distinctamente. Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias.
Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos do homem de governo.
—Suffocada a insurreição—continuou o senhor conde olhando a direito diante de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros historicos que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro, penetrava—suffocada a insurreição, dentro de tres mezes temos de novo o imperio... Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio, haviam de dizer, como eu, que a França é profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou talvez elle abdique, e a imperatriz tome a regencia na menoridade do principe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta talvez a solução mais prudente. Como consequencia immediata temos o Papa em Roma outra vez senhor do poder temporal... Eu, a fallar a verdade, e já o fiz saber, não approvo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a dizer o que approvo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da Europa... Seria um encargo superior á minha idade e ás minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiencia da Politica e da Historia me aponta como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz no throno de França, Pio Nono no throno de Roma, ahi temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois d'este exemplo da Communa não se torna a ouvir fallar de republica, nem de questão social, nem de povo, n'estes cem annos mais chegados!...
—Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o conego.
Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praça de Lisboa, em conversação intima com um estadista illustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma anciedade de conservador assustado:
—E crê vossa excellencia que essas idéas de republica, de materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quasi junto das grades que cercam a estatua de Luiz de Camões:
—Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possivel que haja ahi um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um marasmo, e que vamos cahindo no embrutecimento, e que isto assim não póde durar dez annos. etc. etc. Babuseiras!...
Tinha-se encostado quasi ás grades da estatua, e tomando uma attitude de confiança:
—A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto n'este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas senhorias, Portugal ha de manter com dignidade o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
—Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram com força os dois sacerdotes.
—Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do Loreto, que áquella hora, n'um fim de tarde serena concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a pallidez chlorotica d'uma degeneração de raça; n'alguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome historico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se n'um torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o symbolo de agriculturas atrazadas de seculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operarios havia como a personificação das industrias moribundas... E todo este mundo decrepito se movia lentamente, sob um céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente offerecendo o
Jornal das pequenas novidades
: e iam, n'um vagar madraço, entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam tres taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro de prostituição e de crime.
—Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem d'estado, os dois homens de religião, todos tres em linha, junto ás grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu paiz,—alli ao pé d'aquelle pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto e nobre, com os seus largos hombros de cavalleiro forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da antiga patria—patria para sempre passada, memoria quasi perdida!
Outubro 1878—Outubro 1879.