O CRIME DO PADRE AMARO (continued 6)
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Offertorio
... Depois elle mesmo, de pé, no segundo degrau do altar, de mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; um perfume d'incenso derramava-se, como uma annunciação celeste; ennevoava-se o sacrario sob os rolos alvos de fumo; e o parocho apparecia a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, adorava-o então!
A igreja tremia ao clamor do orgão em pleno; de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a força; em cima, alçando-se entre os braços dos rebecões, o mestre da capella, no fogo da execução, brandia desesperadamente a sua batuta feita d'um rolo de canto-chão.
Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito pallida.
Ao jantar, em casa do conego, a snr.
a
D. Josepha censurou-a repetidamente de «não dar palavra».
Não fallava, mas debaixo da mesa o seu pésinho não cessava de roçar, pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham accendido as velas; o conego abrira uma garrafa, não do seu famoso
duque
de 1815, mas do «1847», para acompanhar a travessa d'aletria, que enchia o centro da mesa, com as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, como explicára o conego, «uma galanteria da mana ao convidado». Amaro fizera logo uma saude com o 1847 «á digna dona da casa». Ella resplandecia, medonha no seu vestido de bareje verde. O que sentia é que o jantar fosse tão mau... Que aquella Gertrudes estáva-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarrão!
—Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o parocho.
—São favores do senhor parocho. É porque eu lhe acudi a tempo... Mais uma colhérzinha d'aletria, senhor parocho.
—Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.
—Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o conego.
Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um
ah
de satisfação, e repoltreando-se:
—Boa gota! Assim póde-se viver!
Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de flanella e o guardanapo atado ao pescoço.
—Boa gota! repetiu, d'este não provou hoje vossê nas galhetas...
—Credo, mano! exclamou D. Josepha com a boca cheia de fios d'aletria, muito escandalisada da irreverencia.
O conego encolheu os hombros com desprezo.
—O credo é p'r'á missa! Esta pretenção de se metter sempre em questões que não percebe! Pois fique sabendo que é d'uma grande importancia a questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessario que o vinho seja bom...
—Concorre para a dignidade do santo sacrificio, disse o parocho muito sério, fazendo uma caricia de joelho a Amelia.
—E não é só isso, disse o conego tomando logo o tom pedagogo. É que o vinho, quando não é bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas ganham um cheiro pessimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora ahi tem a senhora!
E deu um forte chupão ao calix. Mas estava fallador n'essa noite, e depois d'arrotar devagar, interpellou de novo D. Josepha, assombrada de tanta sciencia.
—E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora: o vinho, no divino sacrificio, deve ser branco ou tinto?
D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.
—Emende a menina, mugiu o conego de dedo em riste para Amelia.
Ella recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia...
—Emende o senhor parocho!
Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco...
—E porquê?
Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.
—E porque? continuava o conego, pedante e roncão.
Não sabia.
—Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando pela primeira vez consagrou, fel-o com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judéa n'esse tempo, como é notorio, não se fabricava vinho tinto... Repita-me a senhora a aletria, faça favor.
Então, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. N'essa manhã antes de se paramentar—justamente quando entrára o senhor conego na sacristia—acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande escandalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato usal-as no divino sacrificio...
—Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as a mim, acudiu D. Josepha. Dou-as á minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer o ferro...
Mas o conego (que positivamente estava n'aquella noite d'uma loquacidade copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:
—Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e collega, que commetteu hoje um erro de palmatoria.
Amaro pareceu inquieto.
—Que erro, padre-mestre?
—Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, já com os diaconos ao lado, quando fez a cortezia á imagem da sacristia, em logar de fazer a cortezia profunda, fez só a meia cortezia.
—Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica.
Facta reverentia cruci
, feita a reverencia á cruz: isto é, a reverencia simples, abaixar ligeiramente a cabeça...
E, para
exemplificar
, fez uma cortezia a D. Josepha que lhe sorriu toda, torcendo-se.
—Nego! exclamou formidavelmente o conego que em sua casa, á sua mesa, punha d'alto as suas opiniões. E nego com os meus auctores. Elles ahi vão!—E deixou-lhe cahir em cima, como penedos d'autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavonio.
Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude de controversia, contente de poder, diante d'Amelia, «enterrar» o conego, mestre de theologia moral e um colosso de liturgia pratica.
—Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...
—Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é meu!
—Castaldus é meu, padre-mestre!
E encarniçaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amelia com a cara franzida de riso:
—Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos!
Amaro continuava, com o gesto alto:
—E além d'isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre.
Primò
, a rubrica, como expuz.
Secundò
, o sacerdote, tendo na sacristia o barrete na
cabeça
, não deve fazer cortezia inteira, porque lhe póde cahir o barrete e temos desacato maior.
Tertiò
, seguir-se-hia um absurdo, porque então a cortezia antes da missa á cruz da sacristia seria maior que a que se faz depois da missa á cruz do altar!
—Mas a cortezia á cruz do altar... bradou o conego.
—É meia cortezia. Leia a rubrica:
Caput inclinat
. Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe porquê? Porque depois da missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto é meu!
E de pé, esfregou vivamente as mãos, triumphando.
O conego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi atordoado. E depois d'um momento:
—Vossê não deixa de ter razão... Eu foi para o ouvir... Faz-me honra cá o discipulo, acrescentou piscando o olho a Amelia. Pois é beber, é beber! E depois salta o cafésinho bem quente, mana Josepha!
Mas um forte repique á campainha sobresaltou-os.
—É a S. Joanneira, disse D. Josepha.
A Gertrudes entrou com um chale e uma manta de lã:
—Aqui está isto que vem de casa da menina Amelia. A senhora manda muitos recados, que não póde vir, que se achou incommodada.
—Então com quem hei de eu ir? disse logo Amelia, inquieta.
O conego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na mão:
—Em ultimo caso com este seu criado. E essa virtudesinha podia ir socegada...
—Tem coisas, mano! gritou a velha.
—Deixe lá, mana. O que passa pela boca d'um santo, santo fica.
O parocho approvou ruidosamente:
—Tem muita razão o senhor conego Dias! O que passa pela pela boca d'um santo, santo fica! Para que viva!
—Á sua!
E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controversia.
Mas Amelia ficára assustada.
—Jesus, que terá a mamã! Que será?
—Ora o que ha de ser! preguiça! disse-lhe o parocho, rindo.
—Não te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te eu levar, vamos todos levar-te...
—Vai a menina em charola, rosnou o conego descascando a sua pêra.
Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a mão pelo estomago:
—Pois olhem, disse, não me estou tambem a sentir bem...
—Que é? que é?
—Um ameaçosito da dôr. Passou, não vale nada.
D. Josepha, já assustada, não queria que elle comesse a pêra. Que a ultima vez que lhe dera fôra por causa da fructa...
Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pêra.
—Passou, passou, rosnava.
—Foi sympathia com a mamã, disse o parocho baixo a Amelia.
De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:
—Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro!
Alvoroçaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o pelo braço até ao quarto, gritando á criada que fosse buscar o doutor. Amelia correu á cozinha a aquecer uma flanella para lhe pôr no estomago. Mas não apparecia flanella. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, á procura do seu chale para sahir.
—Vá sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro.
A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros.
Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josepha de joelhos diante da commoda gemia orações a uma grande lithographia de Nossa Senhora das Dôres; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro.
—Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, não se trata agora de rezar. É necessario fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?
—Ai, senhor parocho, não ha nada, não ha nada, choramingou a velha. É uma dôr que vem e vai n'um momento. Não dá tempo p'ra nada! Um chá de tilia allivia-o ás vezes... Mas por desgraça hoje nem tilia tenho! Ai, Jesus!
Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a pouco voltava esbaforido com a Dionysia, que vinha offerecer a sua actividade e a sua experiencia.
Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de repente alliviado!
—Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. Rica tilia! É de muita caridade. Elle agora naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe sempre depois da dôr... Eu vou para ao pé d'elle, desculpem-me... Esta foi peor que as outras... São estas fructas mald...—Reteve a blasphemia, aterrada.—São as fructas de Nosso Senhor. É a sua divina vontade... Desculpem-me, sim?
Amelia e o parocho ficaram sós na sala. Os seus olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse então alto:
—Pobre padre-mestre! É uma dôr terrivel.
—Dá-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A mamã já andava com o presentimento. Ainda me tinha dito antes d'hontem: é o tempo da dôr do senhor conego, estou com mais cuidado...
O parocho suspirou, e baixinho:
—Eu é que não tenho quem pense nas minhas dôres...
Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos olhos humedecidos de ternura:
—Não diga isso...
As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josepha appareceu, encolhida no seu chale. O mano tinha adormecido. E ella estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aquelles abalos arrazavam-lhe a saude! Accendera duas velas a S. Joaquim e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por causa da dôr do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...
—Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o padre Amaro.
O alto relogio d'armario bateu então cavamente oito horas. Amelia fallou outra vez no cuidado em que estava pela mamã... Demais a mais ia-se a fazer tão tarde...
—E é que quando eu sahi estava a choviscar, disse Amaro.
Amelia correu á janella, inquieta. O lagedo defronte, debaixo do candieiro, reluzia muito molhado. O céo estava tenebroso.
—Jesus, vamos ter uma noite d'agua!
D. Josepha estava afflicta com o contratempo; mas a Amelia bem via, ella agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fôra ao doutor; naturalmente não o encontrára, andava a procural-o de casa em casa, quem sabe quando viria...
O parocho então lembrou que a Dionysia (que viera com elle e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a snr.
a
D. Amelia. Eram dois passos, não havia ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas até á esquina da Praça... Mas deviam apressar-se, que ia cahir agua!
D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para Amelia. Recommendou-lhe muito que contasse á mamã o que tinha succedido. Mas que não se affligisse ella, que o mano estava melhor...
—E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, dize-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dôr não deu tempo para nada!
—Sim, lá direi. Boa noite.
Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia então quiz esperar. Mas o parocho, apressado, puxou-a pelo braço:
—Não vale nada, não vale nada!
Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guardachuva, com a Dionysia ao lado, muito calada, de chale pela cabeça. Todas as janellas estavam apagadas; no silencio as goteiras cantavam d'enxurrão.
—Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a perder o vestido.
Estavam então na rua das Sousas.
—É que agora cae a cantaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor é entrar no pateo de minha casa e esperar um bocado...
—Não, não! acudiu Amelia.
—Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É um instante, é um aguaceiro. Para aquelle lado, vê, está a alliviar. Vai passar... É uma tolice... A mamã, se a visse apparecer debaixo d'uma carga d'agua, zangava-se, e com razão!
—Não, não!
Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e empurrando Amelia de leve:
—É um instante, vai passar, entre...
E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando as cordas d'agua que reluziam á luz do candieiro defronte. Amelia estava toda atarantada. A negrura do pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe delicioso estar assim n'aquella escuridão, ao pé d'elle, ignorada de todos... Insensivelmente attrahida, roçava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo, inquieta de ouvir a sua respiração tão agitada, de o sentir tão junto das saias. Percebia por traz, sem a vêr, a escada que levava ao quarto d'elle; e tinha um desejo immenso de lhe ir vêr acima os seus moveis, os seus arranjos... A presença da Dionysia, encolhida contra a porta e muito calada, embaraçava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para ella, receando que desapparecesse, se sumisse na negrura do pateo ou da noite...
Amaro então começou a bater com os pés no chão, a esfregar as mãos, arripiado.
—Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages estão regeladas... Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...
—Não, não! disse ella.
—Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... Vá, Dionysia, accenda luz em cima.
A matrona immediatamente galgou os degraus.
Elle então, muito baixo, tomando o braço d'Amelia:
—Porque não? Que pensas tu? É uma pieguice. É emquanto não passa o aguaceiro. Dize...
Ella não respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mão sobre o hombro, sobre o peito, apertando-lh'o, acariciando a sêda. Toda ella estremeceu. E foi-o emfim seguindo pela escada, como tonta, com as orelhas a arder, tropeçando a cada degrau na roda do vestido.
—Entra p'r'áhi, é o quarto, disse-lhe elle ao ouvido.
Correu á cozinha. Dionysia accendia a vela.
—Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina Amelia. É um caso muito sério... Volta d'aqui a meia hora. Toma.—Metteu-lhe tres placas na mão.
A Dionysia descalçou os sapatos, desceu em pontas de pés e fechou-se na loja do carvão.
Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia lá estava, immovel, toda pallida. O parocho fechou a porta—e foi para ella, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro.
Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia desceu logo, muito embrulhada na manta: ao abrirem a porta do pateo passavam na rua dois borrachos galrando: Amelia recuou rapidamente para o escuro. Mas Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:
—Está a barra livre, minha rica menina...
Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a rua da Misericordia. Já não chovia; havia estrellas; e uma frialdade sêcca annunciava o norte e o bom tempo.
XVII
Ao outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha á cabeceira que ia chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o velho paletot que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa outra manhã em Feirão em que acordára aterrado por ter na vespera, pela primeira vez depois de padre, peccado brutalmente sobre a palha da estrebaria da residencia com a Joanna Vaqueira. E não se atrevera a dizer missa com aquelle crime na alma, que o abafava com um peso de penedo. Considerára-se contaminado, immundo, maduro para o inferno, segundo todos os santos padres e o seraphico concilio de Trento. Tres vezes chegára á porta da igreja, tres vezes recuára assombrado. Tinha a certeza de que, se ousasse tocar na Eucharistia com aquellas mãos com que repanhára os saiotes da Vaqueira, a capella se aluiría sobre elle, ou ficaria paralysado vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada alta, a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montára a cavallo e trotára duas horas, pelos barreiros de D. João, para ir á Gralheira confessar-se ao bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de innocencia, de exagerações piedosas e de terrores noviços! Agora tinha aberto os olhos em redor á realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e monsenhores não peccavam sobre a palha da estrebaria, não—era em alcovas commodas, com a ceia ao lado. E as igrejas não se aluiam, e S. Miguel Vingador não abandonava por tão pouco os confortos do céo!
Não era isso o que o inquietava—o que o inquietava era a Dionysia, que elle ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a pedir-lhe agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella matrona introduzida, installada no seu segredo. Não duvidava decerto da sua discrição, era o seu
officio
; e algumas meias libras manteriam a sua fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquella velha concubina de auctoridades civis e militares, que rolára a sua massa de gordura por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam sob a batina de parocho. Preferiria que fosse o Silverio ou Natario que o tivesse visto na vespera, todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!... E o que o incommodava era a idéa de ser observado por aquelles olhinhos cynicos, que não se impressionavam nem com a austeridade das batinas nem com a respeitabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava igualmente a mesma miseria bestial da carne...
—Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.
Nós de dedos bateram discretamente à porta do quarto.
—Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a mesa, como absorvido, abysmado nos seus papeis.
A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre o lavatorio, tossiu, e fallando sobre as costas d'Amaro:
—Ó senhor parocho, olhe que isto assim não tem geito. Hontem iam vendo sahir daqui a pequena. É muito sério, menino... Para bem de todos é necessario segredo!
Não, não a podia impôr! A mulher estabelecia-se, à força, na sua confidencia. Aquellas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes, revelando uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem d'uma cumplicidade tão experiente.
Voltou-se na cadeira, muito vermelho.
—Iam vendo, hein?
—Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.
—É verdade.
—E na sua posição, senhor parocho, na posição da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse de morte!
Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar a
protecção
da Dionysia.
Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia libra na mão.
—Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ella.
—Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou elle recostado na cadeira, esperando os conselhos da matrona.
Ella disse muito naturalmente, sem affectação de mysterio ou de malicia:
—A mim parece-me que para vêr a pequena não ha como a casa do sineiro!
—A casa do sineiro!?
Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente disposição do sitio. Um dos quartos ao pé da sacristia, como elle sabia, dava para um pateo onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as trazeiras da casa do sineiro... A porta da cozinha do tio Esguelhas abria para o pateo: era sahir da sacristia, atravessal-o, e o senhor parocho estava no ninho!
—E ella?
—Ella entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, é um ermo. E se alguem visse, nada mais natural, era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que o plano póde-se aperfeiçoar...
—Sim, comprehendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto reflectindo.
—Eu conheço bem o sitio, senhor parocho, e creia o que lhe digo: para um senhor ecclesiastico que tem o seu arranjinho, não ha melhor que a casa do sineiro!
Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se:
—Ó tia Dionysia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que vossê aconselha a casa do sineiro, hein?
Ella então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquella idéa de noite, a malucar na cama. Pela manhã cedo fôra examinar o sitio, e reconhecera que estava a calhar.
Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; e voltando-se ainda, com um ultimo conselho:
—Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.
Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro.
O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por um
macambusio
. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, segundo a Regra, improprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo parocho José Migueis, em obediencia ao senhor bispo, conservára-o na Sé, argumentando que o trambolhão desastroso que motivára a amputação fôra na torre, n'uma occasião de festa, collaborando no culto:
ergo
estava claramente indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomára conta da parochia, o côxo valera-se da influencia da S. Joanneira e d'Amelia para conservar, como elle dizia, a
corda do sino
. Era além d'isso (e fôra a opinião da rua da Misericordia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, viuvo, tinha uma filha de quinze annos paralytica, desde pequena, das pernas. «O diabo embirrou com as pernas da familia», costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antonia, e que o pai chamava Tótó) o torturava com perrices, phrenesis, caprichos abominaveis. O doutor Gouvêa declarára-a
hysterica
: mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios, que a Tótó estava
possuida do Demonio
. Houvera mesmo o plano de a exorcismar: o senhor vigario geral, porém, sempre assustado com a imprensa, hesitára em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as aspersões simples de agua benta. De resto não se sabia a natureza do
endemoninhamento
da paralytica: a snr.
a
D. Maria da Assumpção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia sêccamente:
—Lá está.
Os intervallos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no casebre. Só atravessava o largo para ir á botica por algum remedio, ou comprar bolos á confeitaria da Thereza. Todo o dia aquelle recanto da Sé, o pateo, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietarias, a casa ao fundo com a sua janella de portada negra n'uma parede lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma sombra humida: e os meninos do côro, que ás vezes se arriscavam a ir pé-ante-pé, pelo pateo, espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado á lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.
Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor parocho. E Amaro, n'essa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo a muleta, ia já ruminando a sua historia—porque não podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, d'algum modo, que o desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar, em segredo e longe das opposições mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?
Ao vêl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns «bons dias» amaveis. Achou-lhe uma bella cara de saude! Tambem não admirava—porque, segundo todos os santos padres, a frequentação dos sinos, pela virtude particular que lhes communica a consagração, dão uma alegria e um bem-estar especiaes. Contou então com bonhomia ao tio Esguelhas e aos dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da senhora marqueza d'Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...
Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua senhoria.
—Não se riam, é verdade. E não me ficava mal... N'outros tempos eram clerigos d'ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos santos padres consideram-n'os um dos meios mais efficazes da piedade. Lá disse a glosa pondo o verso na bôca do sino:
Laudo Deum, populum voco, congrego clerum. Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...
O que quer dizer, como sabem:
Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas
.
Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas impertigava-se sobre a sua muleta áquellas palavras que lhe davam uma auctoridade e uma importancia imprevista.
O sacristão tinha-se aproximado com a casula rôxa. Mas Amaro não terminára a glorificação dos sinos;—explicou ainda a sua grande virtude em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sabios presumpçosos), não só porque communicam ao ar a unção que recebem da benção, mas porque dispersam os demonios que erram entre os vendavaes e os trovões. O santo concilio de Milão recommenda que se toquem os sinos sempre que haja tormenta...
—Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe que n'esses casos é melhor não se arriscar. Sempre é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio Mathias.
E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando com muita compostura:
-
Domine, quis dixisti jugum meum
... Aperte mais os cordões por traz, tio Mathias.
Suave est, et onus meum leve
...
Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja, na attitude da rubrica, d'olhos baixos e corpo direito; emquanto o Mathias, depois de ter tambem saudado com um raspão de pé o Christo da sacristia, se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.
Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no
Offertorio
e ao
Orate fratres
, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolencia que o ritual permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse por sua intenção particular;—e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao lado, abysmava-se então n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo ao
Benedicat
, depois de ter começado a benção voltado para o altar para recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, terminou-a, virando-se devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle só as Graças e Dons de Nosso Senhor!
—E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, vá-me esperar ao pateo que temos que conversar.
Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave que impressionou o sineiro.
—Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho fallar-lhe d'um caso sério... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...
—Oh, senhor parocho!
Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças... Tratava-se d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, para lhe provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe dizer o nome...
—É a Ameliasinha da S. Joanneira!
—Que me diz, senhor parocho?!
—Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinario...
Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensações que imaginava vêr na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostára-se da vida, com as desavenças que tivera com o noivo. Mas a mãi, que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, não queria consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas não, era vocação... Elle sabia-o... Infelizmente, quando havia opposição, a conducta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornaes impios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influencias do clero... As auctoridades, mais impias que os jornaes, punham obstaculos... Havia leis terriveis... Se soubessem que elle andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do tempo! Ora, elle necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferencias: para a experimentar, para conhecer as suas disposições, vêr bem se é para a Solidão que ella tem geito, ou para a Penitencia, ou para o serviço dos enfermos, ou para a Adoração Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a por dentro e por fóra.
—Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação d'um santo dever contrariado. Onde? Em casa da mãi não póde ser, já andam desconfiados. Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. Em minha casa, já vê, menina nova...
—Está claro.
—De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que vossê m'o ha de agradecer... pensei na sua casa...
—Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está tudo ás ordens!
—Bem vê, é no interesse d'aquella alma, é um regosijo para Nosso Senhor...
—E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!
O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não tivesse as commodidades...
—Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento de todos os confortos humanos. Comtanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da oração...
De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sitio retirado e casa socegada estava a preceito. Ficavam alli, elle e a menina, como os monges no deserto. Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle sahia a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam accommodar-se, porque o quartito da pobre Tótó era ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.
O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrára da paralytica!
—Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.
Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava agora todo interessado n'aquella conquista d'uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez lhe attrahisse a elle a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Tótó não embaraçava. Não se mexia da cama. O senhor parocho entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...
—E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.
Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por ellas a ponto de ter febre; outros dias passava-os n'um silencio medonho com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!
—Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre Amaro para mostrar interesse.
O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena, nunca quizera aprender. Era o que elle lhe dizia—se pudesses lêr já te não pesava tanto a vida! Mas então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...
Mas o parocho não o escutava, todo abysmado n'uma idéa que lhe alumiára a face d'um sorriso. Achára subitamente a explicação natural a dar á S. Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do sineiro: era a ensinar a lêr a paralytica! A educal-a! A abrir-lhe a alma ás bellezas dos livros santos, da historia dos martyres e da oração!...
—Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de jubilo. É em sua casa que se ha de fazer da rapariga uma santa. E d'isto—e a sua voz deu um grave profundo—um segredo inviolavel!
—Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.
—Conto comsigo! disse Amaro.
Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amelia, em que lhe explicava detalhadamente «o arranjinho que fizera para gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que o pretexto para ella vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da paralytica: elle mesmo o proporia á noite em casa da mamã. «Que n'isto, dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instrucção religiosa as trevas d'aquella alma. E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!»
Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente á mesa do almoço, com um contentamento pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, solidão da carne, tudo o que o consumira mezes e mezes, além na rua da Misericordia e alli na rua das Sousas, passára. Estava emfim installado á larga na felicidade! E recordava, abysmado n'um gozo mudo, com o garfo esquecido na mão, toda aquella meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse—como o lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Tambem elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho d'agua de colonia! Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escandalo entre os fieis, em nada prejudica a efficacia, a utilidade, a grandeza da religião. Todos os theologos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; o essencial é que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os sacramentos contêm; e comtanto que elles sejam dispensados segundo as formulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou peccador? O sacramento communica a mesma virtude. Não é pelos meritos do sacerdote que elles operam, mas pelos meritos de Jesus Christo. O que é baptisado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica igualmente bem lavado da macula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico concilio de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma e na sua salvação, com a indignidade do parocho. E se o parocho se arrepende á hora extrema, tambem se lhe não fecham as portas do céo. Logo em definitiva tudo acaba bem, e em paz geral...—E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu café.
A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito risonha, se o senhor parocho fallára ao tio Esguelhas...
—Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Não ha nada decidido... Roma não se construiu n'um dia.
—Ah! fez ella.
E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor parocho mentia como um hereje. Tambem, não se importava... Nunca gostára de arranjos com os senhores ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...
E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada a dizer-lhe—que emfim, ella tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor parocho tivesse arranjado criada...
—A snr.
a
D. Josepha Dias anda-me a tratar d'isso, Dionysia. Espero ter alguem ámanhã. Mas vossê appareça... Agora que somos amigos...
—Quando o senhor parocho quizer é chamar-me da janella para o quintal, disse ella do alto da escada. Para tudo que precisar. De tudo sei um bocadinho, até de desarranjos e de partos... E n'este ponto posso até dizer...
Mas o padre não a escutava: atirára com a porta de repellão, fugindo, indignado d'aquella utilidade torpe assim brutalmente offerecida.
Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. Joanneira da filha do sineiro.
Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa noite, emquanto na sala se galrava alto, aproximára-se do piano, onde Amelia, com os dedos preguiçosos, corria escalas, e abaixando-se para accender o cigarro á vela, murmurára:
—Leu?
—Optimo!
Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava contando uma catastrophe que lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra: uma mina de carvão que desabára, sepultando cento e vinte trabalhadores. As velhas arripiavam-se horrorisadas. A Gansoso então, gozando o effeito, accumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra esforçára-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes em baixo os gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...
—Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se na sua poltrona, gozando o calor da sala e a segurança dos tectos.
A snr.
a
D. Maria da Assumpção declarou que todas essas minas, essas machinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fabrica ao pé d'Alcobaça, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso Senhor não as via com bons olhos...
—É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. Tenho a certeza que foram inspirados pelo demonio! Não o digo a rir. Mas vejam aquelles uivos, aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!
O padre Amaro galhofou,—assegurando á snr.
a
D. Josepha que eram ricamente commodos para andar depressa! Mas, tornando-se logo sério, acrescentou:
—Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas invenções da sciencia moderna muito do demonio. E é por isso que a nossa santa Igreja as abençôa, primeiro com orações e depois com agua benta. Hão de saber que é o costume. Com agua benta para lhes fazer o exorcismo, expulsar o espirito inimigo: e com orações para as resgatar do peccado original que não só existe no homem, mas nas coisas que elle construe. É por isso que se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demonio não se possa servir d'ellas para seu uso.
D. Maria da Assumpção quiz immediatamente uma explicação. Como era a maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?
O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela Extrema-Unção, o demonio alli mesmo, zás, apoderava-se d'ellas!
—É de velhaco! rosnou o conego, com uma admiração secreta por aquella manha tão habil do Inimigo.
Mas D. Maria da Assumpção abanou-se langorosamente, com o rosto banhado n'um sorriso de beatitude:
—Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a nós é que não nos succedia isso... Que não nos pilhava desprevenidas!
Era verdade; e todas gozaram um momento aquella certeza deliciosa de estarem preparadas, de poderem lograr a malicia do Tentador!
O padre Amaro então tossiu como para preparar as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa, n'um tom de pratica:
—É necessario muita vigilancia para conservar de longe o demonio. Ainda hoje eu estava a pensar n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito de um caso bem triste que tenho lá ao pé da Sé... É a filhita do sineiro.
As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, n'uma curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a historia picante d'alguma façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma voz a que o silencio em redor dava solemnidade:
—Alli está aquella rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não sabe lêr, não tem devoções habituaes, não tem o costume da meditação; é por consequencia, para empregar a expressão de S. Clemente—
uma alma sem defeza
. O que succede? Que o demonio, que ronda constantemente e não perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são phrenesis, desesperos, furores sem razão... Emfim o pobre homem tem a vida estragada.
—E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assumpção, indignada d'aquella impudencia de Satanaz,
installando-se
n'um corpo, n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava dos contrafortes da Sé.
Amaro acudiu:
—Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme. Mas então? Se a rapariga não sabe lêr! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...
Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de hombros vergados, n'uma mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com effeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquella pobre creatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a agonia da immobilidade...
As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle caso triste d'abandono d'alma,—sobretudo pela dôr que elle parecia trazer ao senhor parocho.
A snr.
a
D. Maria da Assumpção, que percorria em imaginação o abundante arsenal da devoção, lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silencio das amigas exprimiu bem a insufficiencia d'aquella galeria devota.
—As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como as nossas!
—Todos têm direito á graça do Senhor, disse o conego gravemente, n'um sentimento d'imparcialidade, admittindo a igualdade das classes logo que não se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos do céo.
—P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a S. Joanneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino do céo!
—Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo a mão para deter aquella falsa interpretação da lei divina. Que o céo tambem é para os ricos. A senhora não comprehende o preceito.
Beati pauperes
, bemditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não serem bemditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que préga que os trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor do que vivem, vai d'encontro á expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excommungados que são! Ouf!
E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovêlo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lançar a sua idéa, como vinda d'uma inspiração divina, propôr que fosse Amelia levar uma educação devota á triste paralytica... E hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, exageradamente, abysmada n'uma treva d'agonia. Sentia toda a caridade que haveria em consolal-a, entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta acção redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita n'um puro espirito de fraternidade christã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental de bom rapaz por aquelle miseravel corpo pregado n'uma cama, sem nunca vêr o sol nem a rua... E alli estava embaraçado, n'aquella piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quasi de ter fallado ás senhoras da Tótó...
Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa:
—Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse aquelle livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me alma... Não és tu que o tens, Amelia?
—Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura.
Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfregão: a risca muita fina desapparecia na abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro ao lado punha um traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pelle da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia n'uma prega sobre o hombro, elevava-se amplamente sobre a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo da respiração igual... Era aquella a belleza que mais appetecia n'ella; imaginava-os d'uma côr de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham
encontrado
só a sêda fria... Mas na casa do sineiro seriam d'elle, sem obstaculo, sem vestidos, á disposição dos seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Tótó! Não hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratorio das velhas que discutiam agora a desapparição da
Vida dos Santos
:
—Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale á rapariga... Sabem a idéa que me veio? Era um de nós, o que estiver menos occupado, levar-lhe a palavra de Deus e educar aquella alma!—E acrescentou, sorrindo:—E a fallar a verdade, a pessoa mais desoccupada aqui de todos nós é a menina Amelia...
Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda n'uma revelação. Os olhos de todas accenderam-se n'uma excitação devota, á idéa d'aquella missão de caridade, que partia alli d'ellas, da rua da Misericordia... Extasiavam-se, no ante-gosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, n'uma assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o céo certamente prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.
—Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com o orgulho da boa acção... Olha que assim não t'aproveita!
Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso, deitada para as costas da cadeira, suffocando-se para se conter.
Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.
—É indecente, é indecente! gritava.
Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fôra uma idéa extravagante que tivera, que era nervoso...
—Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem razão em s'orgulhar. Que é uma honra p'r'á casa! Em se sabendo...
O parocho interrompeu com severidade:
—Mas não se deve saber, snr.
a
D. Maria da Assumpção! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vangloria?
D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á reprehensão. E Amaro, com gravidade:
—Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periodicos. Pois não é assim, padre-mestre?
O conego ergueu-se pesadamente:
—Vossê esta noite tem fallado com a lingua de ouro de S. Chrysostomo. Eu estou edificado; e não se me dava agora de vêr apparecer as torradas.
Foi então, emquanto a
Ruça
não trazia o chá, que se decidiu que Amelia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção,
iria em
segredo, para que a acção fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica, lêr-lhe a
Vida dos Santos
, ensinar-lhe rezas e insufflar-lhe a virtude.
—Emfim, resumiu a snr.
a
D. Maria da Assumpção voltando-se para Amelia, não te digo senão uma coisa: abichaste!
A
Ruça
entrou com o taboleiro, no meio dos risos que provocára a «tolice de D. Maria», como disse Amelia, que se fizera escarlate.—E foi assim que ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente, para gloria do Senhor e humilhação do Inimigo.
Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa das devotas, ás
Sete lições de Maria
. Na vespera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a pratica do senhor parocho. Amelia n'esses dias erguia-se cedo: tinha sempre alguma saia branca a engommar, algum laçarote a compôr; a mãi estranhava-lhe aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua de colonia de que ella se inundava; mas Amelia explicava que «era para inspirar á Tótó idéas de aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distrahidamente ás conversas da mãi, com uma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relogio: emfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ella, depois d'uma olhadella ao espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã.
Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando por traz da janella, exercia uma vigilancia incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, e abaixando o guardasol sobre o rosto, entrava emfim na Sé, sempre com o pé direito.
Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida n'uma luz fusca, amedrontava-a: parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma reprehensão ao seu peccado; imaginava que os olhos de vidro das imagens, as pupillas pintadas dos paineis se fixavam n'ella, com uma insistencia cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperança do prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma superstição, para dissipar o descontentamento dos santos, promettia dar-se n'essa manhã toda á Tótó, occupar-se caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar sequer no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Tótó, postar-se à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da sacristia de que ella conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.
Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de março; já tinham chegado as andorinhas; ouviam-n'as chilrear, n'aquelle silencio melancolico, esvoaçando entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, plantas dos logares humidos cobriam os cantos d'uma verdura escura. Amaro, ás vezes muito galante, ia procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava na vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam um momento á porta, apertando-se as mãos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim vêr a Tótó—e dar-lhe os bolos que o parocho lhe trazia no bolso da batina.
A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de tisica quasi não fazia saliencia enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses dias tinha vestido um chambre branco, os cabellos reluziam-lhe d'oleo; porque ultimamente, desde as visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer alguem», como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se não querer separar d'um espelho e d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que agora desprezava.
Amelia sentava-se um instante aos pés do catre, perguntando-lhe se estudára o A B C, obrigando-a a dizer aqui e além o nome d'uma letra. Depois queria que ella repetisse sem a errar a oração que lhe andava ensinando;—emquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mãos nos bolsos, enfastiado, embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro tão chupado que se lhe via a saliencia das maxillas. Não sentia agora nem compaixão nem caridade pela Tótó; detestava aquella demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem pesavam aquelles momentos em que, para não escandalisar muito Nosso Senhor, se resignava a fallar à paralytica. A Tótó parecia odial-a; respondia-lhe muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio rancoroso, voltada para a parede; um dia despedaçára o alphabeto; e encolhia-se toda encruada se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros ou conchegar-lhe a roupa...
Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a Amelia; ella punha logo diante da Tótó o livro com estampas da
Vida dos Santos
.
—Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este é S. Matheus, esta Santa Virginia... Adeus, eu vou lá a cima com o senhor parocho rezarmos para que Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não estragues o livro, que é peccado.
E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo o pescoço sôfregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com olhos chammejantes que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto, em cima, era muito baixo, sem forro, com um tecto de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que puzera sobre a parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas—a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...
—É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os deveres de freira, dizia elle, galhofando.
—Ensina, então! murmurava ella de braços abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso calido onde brilhava um branquinho dos dentes, n'um abandono que se offerecia.
Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabellos; às vezes mordia-lhe a orelha; ella dava um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, com medo da paralytica em baixo. O parocho depois fechava as portadas da janella e a porta muito perra que tinha d'empurrar com o joelho. Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias cahidas aos pés ficava um momento immovel, como uma fórma branca na escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ella então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirosinho triste.
Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O padre Amaro por isso pendurava o seu
cebolão
no prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar d'um gallo visinho.
—Devo ir, filho, murmurava toda cansada.
—Deixa lá... Estás sempre com a pressa...
Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão dôce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bolir alguma telha solta; ou um passaro, pousando, chilreava e ouviam-lhe o fremito das azas.
—Ai, são horas, dizia Amelia.
O padre queria detel-a; não se fartava de lhe beijar a orelhinha.
—Lambão! murmurava ella. Deixa-me!
Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janella, vinha ainda abraçar o pescoço de Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e ia emfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica sentir em baixo, saber que tinha acabado a conferencia.
Amaro não findava ainda de a beijocar: ella então, para acabar, fugia-lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na sacristia.
Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica, saber se gostára das estampas. Encontrava-a ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que entalava e prendia com as mãos para se
esconder
; outras vezes, sentada na cama, examinava Amelia com olhos em que se accendia uma curiosidade viciosa; chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, córando tambem; queixava-se então de ser tarde, recolhia a
Vida dos Santos
,—e sahia, amaldiçoando aquella creatura tão maliciosa na sua mudez.
Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a Amparo á janella. Ultimamente mesmo julgára prudente contar-lhe em segredo a sua caridade com a Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruçando-se toda na varanda:
—Então como vai a Tótó?
—Lá vai.
—Já lê?
—Já soletra.
—E a oração a Nossa Senhora?
—Já a diz.
—Ai, que devoção a tua, filha!
Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambem no segredo, deixava o balcão para vir á porta admirar Amelia.
—Vem da sua grande missão de caridade, hein? dizia, d'olho arregalado, balanceando-se na ponta das chinelas.
—Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...
—Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois vá, minha santa menina, recados á mamã.
Voltava-se então para dentro, para o praticante:
—Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de passar o seu tempo, como as outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o materialismo, e essas porcarias são capazes d'inspirar acções d'este jaez... Só a religião, meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de philosophos vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a philosophia, mas quando ella, por assim dizer, vai de mãos dadas com a religião... Sou homem de sciencia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras) se a philosophia se afasta da religião... (grave bem estas palavras) dentro de dez annos, snr. Augusto, está a philosophia enterrada!
E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos lentos, de mãos atraz das costas, ruminando o fim da philosophia.
XVIII
Foi aquelle o periodo mais feliz da vida de Amaro.
«Ando na graça de Deus», pensava elle ás vezes á noite, ao despir-se, quando por um habito ecclesiastico, fazendo o exame dos seus dias, via que elles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão regularmente gozados. Não houvera, nos ultimos dois mezes, nem attritos nem difficuldades no serviço da parochia; todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, andava d'um humor de santo. D. Josepha Dias arranjára-lhe muito barata uma cozinheira excellente, e que se chamava Escolastica. Na rua da Misericordia tinha a sua côrte admiradora e devota; cada semana, uma ou duas vezes, vinha áquella hora deliciosa e celeste na casa do tio Esguelhas; e para completar a harmonia até a estação ia tão linda, que já no Morenal começavam a abrir as rosas.
Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguem da sacristia suspeitava os seus
rendez-vous
com Amelia. Aquellas visitas á Tótó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe «as devoções da pequena»; e não a interrogavam com particularidades, pelo principio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras perguntava a Amelia—como ia a doente; ella assegurava que estava muito mudada, que começava a abrir os olhos á lei de Deus; então, muito discretamente, fallavam de coisas differentes. Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela efficacia da oração se tivesse tornado boa, admirar em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação do Inimigo.
Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como muito habil—dizer ás amigas que o senhor parocho ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que ella fazia á Tótó...
—Assim, se alguem te surprehendesse a entrar para a casa do tio Esguelhas, já não havia suspeitas.
—Não me parece necessario, disse elle. Deus está comnosco, filha, é claro. Não queiramos intrometter-nos nos seus planos. Elle vê mais longe que nós...
Ella concordou logo—como em tudo que sahia dos seus labios. Desde a primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ella abandonára-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pelle um cabellinho, não corria no seu cerebro uma idéa a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor parocho. Aquella possessão de todo o seu sêr não a invadira gradualmente; fôra completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ella. Parecia que os beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependencia inerte da sua pessoa. E não lh'o occultava; gozava em se humilhar, offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda escrava; queria que elle pensasse por ella e vivesse por ella; descarregára-se n'elle, com satisfação, d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre lhe pesára na vida; os seus juizos agora vinham-lhe formados do cerebro do parocho, tão naturalmente como se sahisse do coração d'elle o sangue que lhe corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor parocho dizia» era para ella uma razão toda sufficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos n'elle, n'uma obediencia animal: tinha só a curvar-se quando elle fallava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.
Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ella desforrava-o de todo um passado de dependencias—a casa do tio, o seminario, a sala branca do senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, á camara ecclesiastica, aos canones, á Regra que nem lhe permittia ter uma vontade propria nas suas relações com o sacristão. E agora, emfim, tinha alli aos seus pés aquelle corpo, aquella alma, aquelle sêr vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus,—era elle tambem agora o Deus d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ella ao menos, era bello, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois de ter estado um momento pensativa:
—Tu podias chegar a Papa!
—D'esta massa se fazem, respondeu elle com seriedade.
Ella acreditava-o—com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem d'ella, o levassem para longe de Leiria. Aquella paixão, em que estava abysmada e que a saturava, tornára-a estupida e obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia interesses, curiosidades alheias á sua pessoa. Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ella fallára, com algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras, offendeu-se como d'uma traição. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas accusações tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanaz!...
—Mas mato-te! Percebes? Mato-te!—exclamou, agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar accêso.
Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se ao seu imperio, perder-lhe a adoração muda e absoluta. Pensava ás vezes que ella se fatigaria, com o tempo, d'um homem que não lhe satisfazia as vaidades e os gostos de mulher, sempre mettido na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa aberta. Imaginava que as gravatas de côres, os bigodes bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme de lanceiros exercem sobre as mulheres uma fascinação decisiva. E se a ouvia fallar d'algum official do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade, eram ciumes desabridos...
—Góstas d'elle? Hein? É pelos trapos, pelo bigode?...
—Gósto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem!
Mas escusava de fallar da creatura, então! Era ter curiosidade, pôr o pensamento n'outro! D'essas faltas de vigilancia sobre a alma e a vontade é que se aproveitava o demonio!...
Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular—que a poderia attrahir, arrastar para fóra da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos complicados, toda a communicação com a cidade. Convenceu mesmo a mãi que a não deixasse ir só á Arcada e ás lojas. E não cessava de lhe representar os homens como monstros d'impiedade, cobertos de peccados como d'uma crosta, estupidos e falsos, votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quasi todos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe aterrada, mas curiosa:
—Como sabes tu?
—Não te posso dizer, respondia com uma reticencia, indicando que lhe fechava os labios o segredo da comfissão.
E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos com a glorificação do sacerdocio. Desenrolava-lhe com pompa a erudição dos seus antigos compendios, fazendo-lhe o elogio das funcções, da superioridade do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade, o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia, na Ethiopia, um simples padre tinha o privilegio de desthronar os reis, dispôr das corôas! Onde havia uma auctoridade igual á sua? Nem mesmo na côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos seraphins—porque a elles não fôra dado como ao padre o poder maravilhoso de perdoar os peccados! Mesmo a Virgem Maria, tinha ella um poder maior que elle, padre Amaro? Não: com todo o respeito devido à magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te, ó mãi amada!»—porque, se a Virgem tinha incarnado Deus no seu castissimo seio, fôra só uma vez, e o padre, no santo sacrificio da missa, incarnava Deus todos os dias! E isto não era argucia d'elle, todos os santos padres o admittiam...
—Hein, que te parece?
—Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida de voluptuosidade.
Então deslumbrava-a com citações venerandas: S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»; o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o padre é o embaixador que vem dar as ordens de Deus». E Santo Ambrosio que escreveu: «entre a dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior differença que a que existe entre o chumbo e o ouro»!
—E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te parece?
Ella atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes, como para tocar, possuir n'elle o «ouro de Santo Ambrosio», o «embaixador de Deus», tudo o que na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que excede em graça os archanjos!
Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua voz—que a faziam crêr na promessa que elle lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ella o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela mão para a acompanhar e desfazer todas as duvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que na sua sepultura, como succedera em França a uma rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade não se estraga nos abraços santos d'um padre...
Isto encantava-a. Áquella idéa da sua cova perfumada de rosas brancas, ficava toda pensativa, n'um antegosto de felicidades mysticas, com suspirinhos de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.
Amaro galhofava.
—A fallar da morte, com essas carnesinhas...
Engordára com effeito. Estava agora d'uma belleza ampla e toda igual. Perdera aquella expressão inquieta que lhe punha nos labios uma seccura e lhe afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa uma apparencia madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a agulha, o panno que ella costurava, toda a sua pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, o senhor parocho em mangas de camisa.
Passava os seus dias esperando as oito horas, em que elle apparecia regularmente com o conego. Mas os serões agora pezavam-lhe. Elle recommendára-lhe muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de obediencia, a ponto de nunca se sentar ao pé d'elle ao chá, e de nem mesmo lhe offerecer bolos. Odiava então a presença das velhas, a gralhada das vozes, as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel no mundo, excepto estar só com elle... Mas depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquelle rosto todo alterado, aquellas suffocações de delirio, aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade da morte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no cotovêlo, inquieto:
—Estás incommodada?
Ella abria os olhos espantados, como resurgindo de muito longe; e era realmente bella, cruzando os braços nús sobre o peito descoberto, dizendo lentamente com a cabeça que não...
XIX
Uma circumstancia inesperada veio estragar aquellas manhãs da casa do sineiro. Foi a extravagancia da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a rapariga sahia-lhes um monstro»!
Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida. Apenas ella se aproximava da cama, atirava a cabeça para debaixo dos cobertores, torcendo-se com phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia, impressionada com a idéa de que o diabo que habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella trazia da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados d'agua benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...
Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas, a sua ingratidão demoniaca para com a menina Amelia que vinha entretel-a, ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas a paralytica rompeu n'um chôro hysterico; depois, de repente, ficou immovel, hirta, esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca. Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; Amaro, por prudencia, recitou os exorcismos... E Amelia desde então resolveu «deixar a fera em paz». Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem orações a Sant'Anna.
Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a um instante. Não passavam da porta da alcova, perguntando-lhe d'alto «como ia». Nunca respondia. E elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo d'um a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e na batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, n'uma curiosidade avida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe arreganhava os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa, que os incommodava sobretudo. Amaro, que não acreditava muito em possessos e endemoninhados, via alli os symptomas de
loucura furiosa
. Os sustos d'Amelia augmentaram.—Felizmente que as pernas inertes cravavam a Tótó alli na enxerga! Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar no quarto e mordêl-os n'um accesso!
Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manhã, «depois d'aquelle espectaculo»; e decidiu então, d'ahi por diante, subir para o quarto sem fallar á Tótó.
Foi peor. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tótó debruçava-se para fóra do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um esforço ancioso para a seguir, para a vêr, com a face toda descomposta do desespero da sua immobilidade. E Amelia ao entrar no quarto sentia vir de baixo uma risadinha sêcca, ou um
ui!
prolongado e uivado que a gelava...
Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que Deus estabelecera alli, ao lado do seu amor com o parocho, um demonio implacavel para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarára peccado crêr em
pessoas possessas
...
—Mas para que ha rezas, então, e exorcismos?
—Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Emfim a sciencia é a sciencia...
Ella presentia que Amaro a enganava—e a Tótó estragava a sua felicidade. Emfim Amaro achou o meio de escaparem «á maldita rapariga»: era entrarem ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha para subir a escada, e a posição da cama da Tótó, na alcova, não lhe permittia vêl-os, quando elles cautelosamente passassem pé ante pé. Era facil, de resto, porque á hora do
rendez-vous
, entre as onze e o meio dia, nos dias de semana, a sacristia estava deserta.
Mas succedia que, quando elles entravam em pontas de pés e mordendo a respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus da escada. E então a voz da Tótó sahia da alcova, uma voz rouca e aspera, berrando:
—Passa fóra cão! passa fóra cão!
Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralytica. Amelia tremia, toda branca.
E a creatura uivava de dentro:
—Lá vão os cães! lá vão os cães!
Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquella voz d'um desolamento lugubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, perseguia-os:
—Estão a pegar-se os cães! estão a pegar-se os cães!
Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de terror. Jurava não voltar áquella casa maldita...
—Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos de vêr então? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?
—Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amelia, apertando as mãos.
—Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto... Emfim, que queres que lhe faça?
Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia de
rendez-vous
, começava a tremer á idéa d'aquella voz que lhe atroava sempre nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror ia-a despertando lentamente do adormecimento de todo o sêr, era que cahira nos braços do parocho. Interrogava-se agora: não andaria commettendo um peccado irremissivel? As affirmações de Amaro, assegurando-lhe o perdão do Senhor, já não a tranquillisavam. Ella bem via, quando a Tótó uivava, uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe no corpo um calefrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava—porque deixava assim o demonio atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e o escarneo?
Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava orações sem fim para Nossa Senhora das Dôres, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que era aquella perseguição da Tótó, e se era sua intenção divina mandar-lhe assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a sentia como outr'ora descer do céo ás suas orações, entrar-lhe na alma aquella tranquillidade suave como uma onda de leite que era uma visitação da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mãos, abandonada da graça. Promettia então não voltar a casa do sineiro;—mas quando o dia chegava, á idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a tentação; vestia-se, jurando que era a ultima vez; e ao toque das onze partia, com as orelhas a arder, o coração tremendo da voz da Tótó que ia ouvir, as entranhas abrazando-se no desejo do homem que a ia atirar para cima da enxerga.
Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos santos.
Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se á auctoridade sagrada da sua batina. Elle então, vendo-a chegar tão pallida e tão transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não, era uma tolice, se iam agora estragar o regalosinho d'aquellas manhãs, porque havia uma doida na casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir, aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe ás vezes os paramentos, os calices, as vestimentas, procurando interessal-a por um frontal novo ou por uma antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela familiaridade com que tocava nas reliquias, que era ainda o senhor parocho e não perdera o seu credito no céo.
Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa de Nossa Senhora, que havia dias chegára de presente d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a muito. Era de setim azul, representando um firmamento, com estrellas bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flammejava um coração d'ouro cercado de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo scintillar junto da janella os bordados espessos.
—Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a hontem na imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez...—E olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta estatura com a figura atarracada da imagem da Senhora:—A ti é que te havia de ficar bem. Deixa vêr...
Ella recuou:
—Não, credo, que peccado!
—Tolice! disse elle adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro de setim branco, d'uma alvura de nuvem matutina. Não está benzida... É como se viesse da modista.
—Não, não, dizia ella frouxamente, com os olhos já luzidios de desejo.
Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor do que elle o que era peccado, não? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuarios dos santos?
—Ora não seja tola. Deixe vêr.
Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto, assustada e immovel, com um sorriso cálido de gozo devoto.
—Oh filhinha, que linda que ficas!
Ella então, movendo-se com uma cautela solemne, chegou-se ao espelho da sacristia—um antigo espelho de reflexo esverdeado com um caixilho negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, n'aquella sêda azul celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrellas, com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contacto com os hombros da imagem penetrava-a d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a caricia do ether do paraiso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no céo...
Amaro babava-se para ella:
—Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!
Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de labios rubros, alumiado por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao orgão e um culto susurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fieis...
Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda—e estendendo os labios por sobre os d'ella, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfalleceu sobre o hombro do padre, descórada e morta de gozo.
Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as palpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
—Oh Amaro, que horror, que peccado!...
—Tolice! disse elle.
Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:
—Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda a queimasse.
Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas...
—Mas não está benzida... Não tem duvida...
Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, collocou-o no gavetão, sem uma palavra. Amelia olhava-o petrificada: e só os seus labios pallidos se moviam n'uma oração.
Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas d'irem a casa do sineiro—recuou, como diante do demonio que a chamasse.
—Hoje não! exclamou, implorando-o.
Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ella bem sabia que não era peccado, quando as coisas não estavam benzidas... Era ser muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora, ou um quarto d'hora!
Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.
—Então não queres?
Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:
—Hoje não!
Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos nas lages, como se passasse entre as ameaças cruzadas dos santos indignados.
No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor conego subir soprando forte, veio encontral-o á escada e fechou-se com elle na saleta.
Queria contar-lhe a afflicção que tivera de madrugada. A Amelia acordára de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no pescoço! que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz! e que as labaredas do inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Emfim um horror!... Viera encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como doida. D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a manhã apenas tocára n'uma colher de caldo.
—Pesadêlos, disse o conego. Indigestão!
—Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira, que parecia acabrunhada, sentada diante d'elle na borda d'uma cadeira. É outra coisa: são aquellas desgraçadas visitas á filha do sineiro!
E então desabafou, com a effusão labial de quem abre os diques a um descontentamento accumulado. Nunca quizera dizer nada, porque emfim reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquillo começára, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos moveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as janellas... Ás vezes tinha até medo de lhe vêr o olhar tão exquisito: quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cahir de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó tinha o demonio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido (Deus lhe falle n'alma), costumava dizer que n'este mundo as duas coisas que se pegavam mais ás mulheres eram tisicas e demonio no corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem lhe prejudicava a alma. Emfim, queria que uma pessoa de juizo, d'experiencia, fosse examinar a Tótó...
—N'uma palavra, disse o conego que escutára d'olhos cerrados aquella verbosidade repassada de lamuria, o que a senhora quer é que eu vá vêr a paralytica e saber á justa o que se passa...
—Era um allivio p'ra mim, riquinho!
Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das séstas, enterneceu o conego. Fez uma caricia ao pescoço gordo da sua velhota, prometteu com bondade ir estudar o caso...
—Ámanhã, que a Tótó está só, lembrou logo a S. Joanneira.
Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. Podia assim vêr como as duas se davam, se havia influencia do espirito maligno...
—Que isto que eu faço é d'agradecer... É por ser p'ra quem é... Que bem me bastam os meus achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.
A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca sonora.
—Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego philosophicamente.
No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus habitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo d'exercitar a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo de doenças e de todas as circumstancias humanas relacionadas com a morte. Mas, emfim, fiel á sua promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra prevenido que Amelia ia á Tótó, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e installou-se, com um olho no
Popular
e outro na porta, á espera que a rapariga
atravessasse
para a Sé. O amigo Carlos estava ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares sentado á escrivaninha, de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do largo; não passava ninguem; e só quebravam o silencio as martelladas nas obras do doutor Pereira. Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado longo tempo, com o
Popular
cahido nos joelhos, o medonho sacrificio que fazia pela sua velhota, ia cerrando as palpebras, já tomado da quebreira, n'aquelle repouso calado do meio dia proximo—quando entrou na botica um ecclesiastico.
—Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou o conego Dias despertando do seu quebranto.
—De fugida, collega, de fugida, disse o outro collocando cuidadadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados n'um barbante.
Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo ao praticante.
Tinha o cabello todo branco; devia passar já dos sessenta annos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magnificos a que uma saude de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava alli de visita ou infelizmente por motivo de doença.
—Não, estou aqui á espera... Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!
—Ah, fez o velho discretamente.—E emquanto tirava com methodo d'uma carteira atulhada de papeis a receita para o praticante, deu ao conego noticias da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego tinha a fazenda, a Ricoça. O abbade Ferrão passára de manhã diante da casa e ficára surprehendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias tinha algumas idéas d'ir lá passar o verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandára-lhe dar uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma apparencia, sobretudo n'uma casa que estava á beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poyaes, um parlapatão que imaginava que só elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda... Só para metter ferro áquelle atheu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?
O abbade estava justamente lamentando comsigo aquelle sentimento de vaidade n'um sacerdote; mas, por caridade christã, para não contrariar o collega, apressou-se a dizer:
—Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...
O conego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi á porta affirmar-se se era Amelia. Não era. E voltando, retomado agora da sua preoccupação, vendo que o praticante fôra dentro ao laboratorio, disse ao ouvido do Ferrão:
—Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada!
—Ah, fez o abbade, todo sério á idéa d'aquella responsabilidade.
—Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui perto...
O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar ao senhor vigario geral, fôra depois ao Silverio para lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli aviar uma receita para um velho da freguezia, e tinha d'estar de volta aos Poyaes ao toque das duas horas.
O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
O abbade então confessou ao caro collega que eram coisas que não gostava d'examinar. Aproximava-se sempre d'ellas com um espirito rebelde á crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuiam a imparcialidade.
—Mas emfim ha prodigios! disse o conego.—Apesar das suas proprias duvidas, não gostava d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, estava interessado. Repetiu com seccura:—Tenho alguma experiencia, e sei que ha prodigios.
—Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. Negar que Deus ou a Rainha do céo possa apparecer a uma creatura é contra a doutrina da Igreja... Negar que o demonio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á familia de Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos que são, conego Dias!
Calou-se um momento olhando o conego, que tapava o nariz com rapé em silencio—e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
—E depois não tem o collega notado que é uma coisa que só succede ás mulheres? É só a ellas, cuja
malicia
é tão grande que o proprio Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão contradictorio que os medicos não as comprehendem. É só a ellas que succedem prodigios!... O collega já ouviu de ter apparecido a nossa Santa Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um digno juiz de direito possuido do espirito maligno? Não. Isto faz reflectir... E eu concluo que é malicia n'ellas, illusão, imaginação, doença, etc... Não lhe parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo isso d'alto e com muita indifferença.
Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guardasol, fazendo para o largo:
—Pst, pst! Eh lá!
Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada d'aquelle encontro que a ia ainda retardar mais. E já o senhor parocho devia estar desesperado...
—De modo que, disse o conego á porta abrindo o seu guardasol, vossê, abbade, era lhe cheirando a prodigio...
—Suspeito logo escandalo.
O conego contemplou-o um momento, com respeito:
—Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudencia!
—Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, offendido com aquella injustiça feita á incomparavel sabedoria de Salomão.
—Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego da rua.
Tinha preparado uma historia habil para justificar a sua visita á paralytica; mas durante a sua conversação com o abbade ella escapára-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatorios da memoria; e foi sem transição que disse simplesmente a Amelia:
—Vamos lá, tambem quero ir vêr essa Tótó!
Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, já lá estava! Mas sua madrinha Nossa Senhora das Dôres, que ella invocou logo n'aquella afflicção, não a deixou enleada no embaraço.—E o conego, que caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:
—Viva, hoje é o dia das visitas á Tótó! O senhor parocho disse-me que tambem talvez hoje apparecesse por lá... Talvez lá esteja até.
—Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está bom. Faremos uma consulta á Tótó!
Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou sobre a Tótó. O senhor conego ia vêr... Era uma creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella não tinha querido contar em casa, mas a Tótó tomára-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de fallar de cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai, era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!
—O cheiro é desagradavel! rosnou o conego entrando.
Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tel-a arranjado. O pai, esse, um desleixado tambem...
—É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta da alcova—que agora, em obediencia ás ordens do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.
Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama, com a face accêsa n'uma curiosidade, áquella voz do conego que não conhecia.
—Ora viva lá a snr.
a
Tótó! disse elle da porta, sem se aproximar.
—Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, começando logo, com uma caridade desacostumada, a compôr a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!
Mas a Tótó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha á cabeceira, examinando muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho, tão differente do senhor parocho... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias á medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amelia, n'uma anciedade de perceber porque o trazia ella alli, aquelle velho obeso, e se ia tambem subir com elle para o quarto.
Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, e alli, diante do cónego, a Tótó, tomada do seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella foi à cozinha vigiar o pateo. Faria um signal da janella, apenas Amaro apparecesse.
E o conego, só na alcova da Tótó, preparando-se para começar as suas observações, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santissima Trindade,—quando ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz subtil como um sôpro:
—E o outro?
O conego não comprehendeu. Que fallasse alto! Que era?
—O outro, o que vem com ella!
O conego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
—Que outro?
—O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O que a belisca...
Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como n'um allivio repentino de todo o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para ascultar a Tótó. Ergueu-se por fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu d'espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tótó.
—Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou Amelia.
Elle respondeu, sem a olhar:
—Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita... Pois é andar, é andar... Adeus...
Sahiu, resmungando que tinha negocios,—e voltou immediatamente á botica.
—Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio sobre a cadeira.
O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava incommodado...
—Cansadote, disse.
Tomou o
Popular
de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia da administração do concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella, chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um
ah!
regalado, dizendo:
—Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além, inquieta, na perturbação que lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto que lhe sentia o halito forte.
—Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso. Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um fôlego:
—É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das orbitas:
—Mas quem é elle, como se chama? O teu pai que te disse?
—É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.
—E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena, dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua voz de tisica,—como ambos entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
—E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, toda pallida, os dentes cerrados.
—E olha, Tótósinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao conego selvagem.
—Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de cabeça.
—E vistel-os beliscarem-se?
—São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou vivamente a corôa.
—Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
—Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de furor. No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e rodando sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um habito de quarenta annos, não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para a sacristia—justamente quando o padre Amaro sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
—Que é isso, padre-mestre?
—O que é? exclamou o conego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a sua infamia!...