O CRIME DO PADRE AMARO (continued 3)
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Ruça
estivesse na fonte, outras combinações importunas; e elle, conego do cabido, na egoista velhice, quando precisava ter recato com a sua saude, via-se obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S. Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas. É verdade que tinha de dar a antiga mezada... Daria a mezada!
—Que diabo! ao menos está um homem á sua vontade, resumiu elle.
—Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou a snr.
a
D. Josepha despertando do quebranto em que ia cahindo, ao pé do lume.
—Estava cá a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...—disse o conego com um riso grosso.
A essa hora a
Ruça
chamava o padre Amaro para o chá: e elle subia devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joanneira muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amelia—que tendo-lhe sentido os passos na escada tomára rapidamente a costura e, com a cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço que abainhava para o conego.
—Muito boa noite, menina Amelia.
—Muito boa noite, senhor parocho.
Amelia costumava sempre ter um
olá!
ou um
ora viva!
muito amavel; aquella seccura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:
—Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe... Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui. Até já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...
Fallava com o rosto baixo—e não via Amelia erguer os olhos para elle, surprehendida e toda desconsolada.
N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da porta, abrindo os braços:
—Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá!
Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discussão theologica; depois fallaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,—o que era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostões por dia!
Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro, pela manhã, antes d'ir ao côro. O parocho fazia a barba á janella:
—Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?
—Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes, que vai mudado para o 5.
Aquella precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio á navalha:
—Tem mobilia?
—Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem tudo.
—Então...
—Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, vossê tem razão. Estive a pensar no caso... É melhor para vossê viver só. De modo que vista-se, e vamos vêr a casita.
Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a mobilia, como disse o conego, «podia passar a veteranos»; algumas lithographias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prégos negros; e o immundo major Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até sobre um poial da janella duas piugas quasi negras.
Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o conego ajustou-lhe uma criada, a snr.
a
Maria Vicencia, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o conego Dias) era a propria irmã da famosa Dionysia!
A Dionysia fôra outr'ora a
Dama das Camelias
, a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozára a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas que inspirára tinham sido para quasi todas as mães de familia de Leiria causa de lagrimas e de fanicos. Agora engommava para fóra, encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado o
infame
, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados publicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos—mas a que faltavam já os dois dentes de diante.
O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira da resolução d'Amaro. Foi um grande espanto para a excellente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratidão do senhor parocho.
O conego tossiu grosso e disse:
—Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto em cima, etc., está-me a arrazar a saude.
Deu outras razões de prudencia hygienica e acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoço:
—E o que é perder a conveniencia, não se afflija a senhora! Eu darei p'r'á panella como d'antes; e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça, hoje como-lhe cá as sopas.
Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava um
ai
triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde elle lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.
—Nunca mais! pensava. Nunca mais!
Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás, ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!
A S. Joanneira e o conego appareceram então á porta do quarto. O conego resplandecia; e a S. Joanneira disse, muito magoada:
—Já sei, já sei, seu ingrato!
—É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu sinto...
—Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, não se offenda com o que lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho...—E levou o lenço aos olhos.
—Tolices! exclamou o conego. Pois então elle não póde vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não vai para o Brazil, senhora!
—Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era tel-o de portas a dentro!
Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor... Fez-lhe então grandes recommendações sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quizesse, louças, lençoes...
—E veja lá não lhe esqueça alguma coisa, senhor parocho!
—Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...
E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora contra a resolução que tomára. A pequena evidentemente não tinha aberto bico! Para que sahiria então d'aquella casa tão barata, tão confortavel, tão amiga? E odiava o conego pelo seu zelo tão precipitado.
O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua pallidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao café o conego quiz a sua «dóse de musica»; e Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a canção querida:
Ai! adeos! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado! Sôa a hora, o momento fadado, É forçoso deixar-te e partir!
Então, áquella chorosa melodia repassada das tristezas da separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os dedos d'Amelia embrulhavam-se tambem no teclado; até a mesma S. Joanneira disse:
—Oh filha, toca outra coisa, credo!
Mas o conego erguendo-se pesadamente:
—Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou comsigo até a rua das Sousas...
Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas, depois d'um forte accesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.
—Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando a mão á S. Joanneira:—Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...
Calou-se, com um soluço na garganta.
A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.
—Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias!
—A gente é pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joanneira.
Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.
Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da Misericordia, muito bebedo, cantarolando o
Bemdito
,—levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bebedo tambem, mas trauteando o
Rei-chegou
.
Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente e um tedio tão negro da vida, que, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar alli a morrer!
Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatorio, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janella; tudo alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia sem cessar a chuva triste. Que existencia! E seria sempre assim!...
Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a, com o punho fechado, das commodidades que perdera, da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo? Ella, com as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixára-o emmalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar com estrondo a valsa do
Beijo
!
Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-a como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericordia o conego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór, á missa do domingo; dar a entender que a mãi era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, emquanto elle, á porta, de proposito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois prégaria um grande sermão, na quaresma, e ella ouviria dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem, o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades ecclesiasticas: e o que pensaria ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do orgão? E ella o que seria então? Uma magra creatura murcha, embrulhada n'um chale barato! E o snr. João Eduardo, o escolhido d'agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e invejando baixo! E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe até ao céo, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!—E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!
Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.
Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam—ella roçava-lhe talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu pé, o bocadinho da meia que vira quando ella saltava as lamas na quinta; e essa curiosidade inflammada subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo bellezas que suspeitava... O que elle gostava d'aquella maldita! E era impossivel obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericordia pedil-a á mãi, vir á Sé dizer-lhe: «Senhor parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob a protecção da Igreja e do Estado, aquelles braços e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra aquella infernal pêga da marqueza d'Alegros!...
Abominava então todo o mundo secular—por lhe ter perdido para sempre os privilegios: e, como o sacerdocio o excluia da participação nos prazeres humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação, na idéa da superioridade espiritual que elle lhe dava sobre os homens. Aquelle miseravel escrevente podia casar e possuir a rapariga—mas que era elle em comparação d'um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...—E repastava-se d'este sentimento, enchendo o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe bem depressa a desconsoladora idéa que esse dominio só era valido na região abstracta das almas; nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé—mas, apenas sahia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era isto que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do poder ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a auctoridade dos tempos em que a Igreja era a nação e o parocho dono temporal do rebanho. Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico d'abrir ou fechar as portas do céo? O que elle queria era o velho direito d'abrir ou fechar a porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a jurisdicção da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de castigos torturantes, aquelles que aspirassem a realisar felicidades—que lhe eram a elle interdictas: e pensando em João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder accender as fogueiras da Inquisição!—Assim aquelle inoffensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colerica d'uma paixão contrariada, ambições grandiosas de tyrannia catholica:—porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento mystico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o sub-diacono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não ha seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura á caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o céo estrellado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça como um abundante rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, á varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos restos d'um Torquemada.
A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericordia, quando Amelia, com o seu collar muito branco, lhe passava a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme, com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa das lavagens. Amaro, desgostoso e indifferente, não se queixava; comia mal, á pressa; mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo os pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala desabrigada.
Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na rua da Misericordia, apparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao parocho, repetia, invariavelmente:
—Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.
—Está claro... rosnava Amaro.
Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joanneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfidia.
—Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho.
O outro encolhia os hombros, com as mãos muito espalmadas ao pé das orelhas, n'uma expressão de malicia; mas não pronunciava um som, receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor conego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, phrases molles: um baptisado que havia; o que dissera o conego Campos; um frontal do altar que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito distante da panellinha ecclesiastica: não o interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão commentadas do senhor chantre, os roubos da Misericordia, as turras da camara ecclesiastica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente se deleitam os padres, e que têm a puerilidade d'uma caturrice e a tortuosidade d'uma conspiração.
—O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando.
—Sempre! respondia o coadjutor.
Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e sahia com um olhar de revez á Vicencia.
Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-n'o: deshabituado da leitura não comprehendia «o sentido». Ia olhar á vidraça: a noite estava tenebrosa, o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria aquella vida? Accendia o cigarro, e do lavatorio para a janella recomeçava os seus passeios, com as mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás vezes: e não tinha escrupulos: julgava que ter renunciado a Amelia era já uma penitencia, não necessitava cansar-se a lêr orações no livro; celebrára o «seu sacrificio»—sentia-se vagamente quite com o céo!
E continuava a viver só: o conego nunca vinha á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que só o entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago». E Amaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa da S. Joanneira. Escandalisára-se muito que ella não lhe tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira; attribuira «a desfeita» á hostilidade d'Amelia; e, mesmo para a não vêr, trocára com o padre Silveira a missa do meio-dia onde ella costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com aquelle novo sacrificio!
Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitação tão forte no coração que ficava como suffocada um momento. Depois os botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, quando já não era possível que elle viesse, a sua melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:
—Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça que não paro!
Atirava-se para a cama de bruços, murmurava n'uma agonia:
—Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque não vem elle, porque não vem elle?
Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora, toda a casa lhe pareceu deshabitada e lugubre! Quando vira no quarto d'elle os cabides sem a sua roupa, a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a travesseirinha onde elle dormia, apertou ao peito com delirio a ultima toalha a que elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu rosto presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.
Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de cuia á banda e
garibaldi
escarlate, que, de punho no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os hombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:
—Não lhe fez mal, não lhe fez mal...
O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parára a olhar, descontente d'aquella «falta d'ordem publica».
—Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.
—Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!
Mas a rapariga de
garibaldi
vermelha voltára-se—e Amelia aterrada reconheceu a Joanninha Gomes, sua amiga da mestra, que fôra amante do padre Abilio! O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partira para Pombal, depois para o Porto; de miseria em miseria voltára a Leiria, e ahi vivia n'alguma viella ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um regimento!—Que exemplo, santo Deus, que exemplo!
E tambem ella gostava d'um padre! Tambem ella, como outr'ora a Joanninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha! Onde a levava aquella paixão? Á sorte da Joanninha! A ser a
amiga do parocho
! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada por elle, com um filho nas entranhas, sem um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento que limpa n'um momento um céo ennevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas em que ella se ia perdendo. Decidiu aproveitar a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo de apressar o seu casamento com João Eduardo para se refugiar n'um dever dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por elle; começou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...
Mas pouco a pouco a
idéa má
que, atacada, se encolhera e se fingira morta,—principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, os seus olhos, a sua voz appareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto crescente. Que faria elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquella paixão ia-a envolvendo como uma atmosphera d'onde não podia sahir, que a seguia se ella fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas resequiam-se, morriam como debeis florinhas n'aquelle fogo que a percorria. Se ás vezes a lembrança de Joanninha ainda voltava, repellia-a com irritação; e acolhia alvoroçadamente todas as razões insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora só uma idéa:—atirar-lhe os braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o! Depois, se fosse necessario, morrer!
Começou então a impacientar-se com o amor de João Eduardo. Achava-o «palerma».
—Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada, á noite.
Não o supportava com os seus olhos voltados sempre para ella, a sua quinzena preta, as suas monotonas conversas sobre o governo civil.
E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lubricos; de dia vivia n'uma inquietação de ciumes, com melancolias lugubres, que a tornavam, como dizia a mãi, «uma môna, que até enraivece»!
O genio azedava-se-lhe.
—Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi.
—Não me sinto boa. Estou para ter alguma!
Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. E emfim uma manhã ficou de cama com febre. A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de jantar sorvendo com satisfação a sua pitada.
—Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira.
—Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura!
—Mas, senhor doutor...
—Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a por uma vez! repetia elle pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um rheumatismo teimoso encolhia.
Amelia emfim melhorou—com grande alegria de João Eduardo, que emquanto ella estivera doente vivera n'uma afflicção, lamentando não poder ser seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio uma lagrima triste sobre os papeis sellados do severo Nunes Ferral.
No domingo seguinte, á missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao pé da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia sustentar o calix com as mãos tremulas.
Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo
Dominus vobiscum
—a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia «que o senhor parocho estava tão amarello, que devia ter alguma dôr». Amelia não respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada n'um extase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a hostia, a sua cabeça bem feita curvando-se na adoração ritual; uma doçura corria-lhe na pelle quando a voz d'elle, apressada, dizia mais alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a direita estendida, disse para a igreja o
Benedicat vos
, ella, com os olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se elle fosse o proprio Deus a cuja benção as cabeças se curvavam ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam para os dourados do sacrario.
Á sahida da missa começára a chover; e Amelia e a mãi, á porta com outras senhoras, esperavam uma «aberta».
—Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.
—Estamos á espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S. Joanneira voltando-se. E immediatamente, muito reprehensiva:—E porque não tem apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos nós? Credo, até dá que fallar...
—Muito occupado, muito occupado... balbuciou o parocho.
—Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde crêr, tem-me causado desgosto... E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor parocho, tem sido ingratidão!
Amaro disse, córando:
—Pois acabou-se. Hoje á noite lá appareço, e estão as pazes feitas ...
Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para todos os pontos o céo carregado, como assustada do temporal.
Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva. E emquanto a S. Joanneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho:
—Até á noite, sim?—E mais baixo, olhando em redor, com medo:—Oh, vá! Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o eu!
Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e alli ficou saturado de felicidade, como um pardal muito farto n'um raio de sol muito quente: recordava o rosto d'Amelia, a redondeza dos seus hombros, a belleza dos encontros, as palavras que lhe dissera:—
Tenho estado como doida!
A certeza de que «a rapariga gostava d'elle» entrou-lhe então na alma com a violencia de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braços, desejando a posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar. Com que impaciencia desejava a noite! A tarde clareára; a cada momento tirava o seu «cebolão» de prata, indo olhar á janella, com irritação, a claridade do dia que se arrastava devagar no horisonte. Engraxou elle mesmo os seus sapatos, lustrou o cabello de banha. E antes de sahir rezou cuidadosamente o seu Breviario—porque, em presença d'aquelle amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos escandalisados o viessem perturbar: e não queria, com desleixos de devoção,
dar-lhes razão de queixa
.
Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe tão forte que teve de parar, suffocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha Misericordia, que ha tantas semanas não ouvia.
Que admiração quando elle appareceu na sala de jantar!
—Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que tinha morrido! Grande milagre!...
Estava a snr.
a
D. Maria da Assumpção, as Gansosos. Arredaram as cadeiras com enthusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.
—Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!
O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O snr. Arthur Couceiro improvisou-lhe um
fadinho
á viola:
Ora já cá temos o senhor parocho Nos chás da S. Joanneira. Isto já parece outra coisa, Volta a bella cavaqueira!
Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de riso:
—Ai, tem sido uma ingratidão d'elle!
—Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o conego. Uma casmurrice, digo eu!
Amelia não fallava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados para o padre Amaro—a quem tinham dado a poltrona do conego, e que se repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas pilherias com que contava os desleixos da Vicencia.
João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho album.
IX
Assim recomeçou a intimidade de Amaro na rua da Misericordia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça passando rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mãos molles apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da campainha sentia ás vezes um susto indefinido d'achar a mãi já desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre com o pé direito.
Encontrava já as Gansosos, a D. Josepha Dias; e o conego, que jantava agora muito com a S. Joanneira, e que áquella hora, estirado na poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:
—Ora viva o menino bonito!
Amaro ia sentar-se ao pé d'Amelia que costurava á mesa; o olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo que o seu amor crescera desde a vespera; e ás vezes mesmo, debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a «cavaqueira». Eram sempre os mesmos interessesinhos, as questões que iam na Misericordia, o que dissera o senhor chantre, o conego Campos que despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novaes...
—Mais amor do proximo! resmungava o conego mexendo-se na poltrona. E com um arrôto curto tornava a cerrar as palpebras.
Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amelia immediatamente abria a mesinha para a partida de
manilha
: os parceiros eram a Gansoso, D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia, que era
mestra
, sentava-se por detraz d'elle para o «guiar». Logo ás primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos.
—Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.
—Não! não! espere, deixe vêr, dizia ella, vermelha.
O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da agua de colonia que ella usava com exagero.
Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo, mordicando o bigode, contemplava-a com paixão; Amelia, para se desembaraçar d'aquelles dois olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim «que até era indecente, diante do parocho que era de ceremonia, estar assim a cocal-a toda a noite».
Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo:
—Ó snr. João Eduardo, vá conversar com a mamã, senão têmol-a aqui têmol-a a dormir.
E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joanneira, que, de lunetas na ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.
Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava então enthusiasmo em Leiria uma velha canção mexicana, a
Chiquita
. Amaro achava-a
de appetite
; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas Amelia começava com muita languidez tropical:
Quando sali de la Habana Valga-me Dios!...
Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, quando Amelia, com os dedos frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos, em movimentos dôces de cabeça, dizia toda voluptuosa, syllabando o hespanhol:
Si á tua ventana llega Una paloma, Trata-la com cariño, Que es mi persona.
E como a achava graciosa, creoula, quando ella gorgeava:
Ay chiquita que si, Ay chiquita que no-o-o-o!
Mas as velhas reclamavam-o para continuar a
manilha
, e elle ia sentar-se, cantarolando as ultimas notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos humidos de felicidade.
Ás sextas-feiras era a grande partida. A snr.
a
D. Maria da Assumpção apparecia sempre com o seu bello vestido de sêda preta: e como era rica e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor logar ao pé da mesa—que ella ia occupar, meneando pretenciosamente os quadris, com
ruge-ruges
de sêda. Antes do chá a S. Joanneira levava-a sempre ao seu quarto, onde guardava para ella uma garrafa de geropiga velha: e alli as duas amigas tagarellavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas. Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tisico, cantava o
fado
novo que compuzera, chamado o
Fado da Confissão
; eram quadras feitas para regalar aquella piedosa reunião de saias e de batinas:
Na capellinha do amor, No fundo da sacristia, Ao senhor padre Cupido Confessei-me n'outro dia...
Vinha depois a confissão de peccadinhos dôces, um acto de contrição de amor, uma penitencia terna:
Seis beijinhos de manhã, De tarde um abraço só... E p'ra acalmar dôces chammas Jejuar a pão de ló.
Aquella composição galante e devota fôra muito apreciada na sociedade ecclesiastica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e perguntára, referindo-se ao poeta:
—Quem é o habil Anacreonte?
E informado que era o escrevente da administração, fallou d'elle com tanto apreço á esposa do senhor governador civil, que Arthur obteve a gratificação de oito mil reis, que havia annos implorava.
Áquellas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua ultima pilheria era furtar beijos á snr.
a
D. Maria da Assumpção; a velha escandalisava-se muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar guloso. Depois o Libaninho desapparecia um momento, e entrava com uma saia d'Amelia vestida, uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma lubrica por João Eduardo—que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham ás vezes: formava-se então um grande
quino
. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no mesmo desejo intenso.
Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira mais apaixonado por Amelia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe dava aquelle amor—uns certos olhares d'ella, o arfar desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa despia-se depressa, porque gostava de pensar n'ella, ás escuras, atabafado nos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas successivas que ella lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e outra flôr, até que ficava como embriagado d'orgulho: era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o a elle, a elle padre, o eterno excluido dos sonhos femininos, o sêr melancollico e neutro que ronda como um sêr suspeito á beira do sentimento! Á sua paixão misturava-se então um reconhecimento por ella; e com as palpebras cerradas murmurava:
—Tão boa, coitadinha, tão boa!
Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciencias, Quanto tinha estado, durante tres horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,—ficava tão carregado de desejos que necessitava conter-se «para não fazer um disparate alli mesmo na sala, ao pé da mãi». Mas depois, em casa, só, torcia os braços de desespero: queria-a alli de repente, offerecendo-se ao seu desejo: fazia então combinações—escrever-lhe-hia, arranjariam uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas todos aquelles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho finorio da irmã do conego, as Gansosos tão mexeriqueiras! E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam como as muralhas successivas d'uma cidadella, voltavam as antigas lamentações: não ser livre! não poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a á mãi, possuil-a sem peccado, commodamente! Porque o tinham feito padre? Fôra «a velha pêga» da marqueza de Alegros! Elle não abdicára voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido para o sacerdocio como um boi para o curral!
Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas accusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ella aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animaes? Quem imagina que desde que um velho bispo diz—
serás casto
—a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina—
accedo
—dita a tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebellião formidavel do corpo? E quem inventou isso? Um concilio de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escólas, mirrados como pergaminhos, inuteis como eunucos! Que sabiam elles da Natureza e das suas tentações? Que viessem alli duas, tres horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se illude e se evita, menos o amor! E se elle é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas viellas obscenas!—Porque a carne é fraca!
A carne! Punha-se então a pensar nos tres inimigos da alma—
Mundo
,
Diabo
e
Carne
. E appareciam á sua imaginação em tres figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra d'olho de braza e pé de cabra; e o
mundo
, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavallos, palacetes)—de que lhe parecia uma personificação sufficiente o senhor conde de Ribamar! Mas que mal tinham elles feito á sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a unica consolação da sua existencia; e do mundo, do senhor conde, só recebera protecção, benevolencia, tocantes apertos de mão... E como poderia elle evitar as influencias da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos d'outr'ora, para os areaes do deserto e para a companhia das feras! Mas não lhe diziam os seus mestres no seminario que elle pertencia a uma Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção d'um serviço santo.—Não comprehendia, não comprehendia!
Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A Biblia está cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabeça coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que leva os bem esposados; e as arcas de sandalo onde vão os thesouros do dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camêlos! Os martyres no circo casam-se n'um beijo, sob o bafo dos leões, ás acclamações da plebe! Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do Bairro de David; mas lá tinha o seu logar de ternura e de abandono em Bethania, sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, emquanto os magros nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram á parte, elle olha defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao pé da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Gethesemani—e pousa a mão sobre os cabellos louros de Martha, que ama e fia a seus pés!
O seu amor era pois uma infracção canonica, não um peccado da alma: podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus: seria legitimo n'um sacerdocio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossivel que transportar a velha Sé para cima do monte do Castello.
Encolhia então os hombros, escarnecendo toda aquella vaga argumentação interior. «Philosophia e palhada»! Estava doido pela rapariga,—era o positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma... E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o mesmo!
Eram ás vezes tres horas da manhã, e ainda passeava no quarto, fallando só.
Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas, tinha visto na janella do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, tomára o habito triste de andar até tarde pelas ruas.
O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebêra a sympathia de Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educação e os habitos devotos da casa, attribuia aquellas attenções quasi humildes com Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilegios de confessor.
Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fôra inimigo de padres! achava-os um «perigo para a civilisação e para a liberdade»; suppunha-os intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando sempre para restabelecer «as trevas da meia idade»; odiava a confissão que julgava uma arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga—hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus poetico, revolucionario, amigo dos pobres, e «pelo sublime espirito de Deus que enche todo o Universo»! Só desde que amava Amelia é que ouvia missa, para agradar á S. Joanneira.
E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia d'aquella sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se confessasse aos padres «que arrancam ás confessadas os segredos d'alcova»!
Quando Amaro voltára a frequentar a rua da Misericordia, ficou contrariado. «Cá temos outra vez o marmanjo»! pensou. Mas que desgosto, quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade mais terna, que a presença d'elle lhe dava visivelmente uma animação singular, «e que havia uma especie de namoro»! Como ella se fazia vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé d'elle nas partidas de
quino
!
Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da Misericordia,—e emquanto a S. Joanneira tagarellava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:
—Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o senhor padre Amaro.
Ella ergueu os olhos muito espantados:
—Que maneiras?! Ora essa! então como quer que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui d'hospede...
—Pois sim, pois sim...
—Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar ao pé do homem.
João Eduardo, tranquillisado, raciocinou—que «não havia nada». Aquelles modos eram excessos de beaterio. Enthusiasmo pela padraria!
Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre considerára o escrevente um pouco tapado—e se elle percebêra, que fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do conego que era cortida em malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, d'ahi por diante, tomava uma attitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe fallava com a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos negros que lhe faziam correr estremeções nos nervos,—como uma ligeira camada de neve que se derrete a um sol muito forte a sua attitude fria desapparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão continua de paixão. Ás vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava alli; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melancolica.
Ella sentia de resto que as amigas da mãi envolviam a sua «inclinação» pelo parocho n'uma approvação muda e affavel. Elle era, como dizia o conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas exhalava-se uma admiração por elle que fazia ao desenvolvimento da paixão d'Amelia uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpção dizia-lhe ás vezes ao ouvido:
—Olha para elle! É d'inspirar fervor. É a honra do clero. Não ha outro!...
E todas ellas achavam João Eduardo «um presta-p'ra-nada»! Amelia então já não disfarçava a sua indifferença por elle: as chinelas que lhe andava a bordar tinham ha muito desapparecido do cesto do trabalho, e já não vinha á janella vel-o passar para o cartorio.
A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo—na alma, que, como elle dizia, lhe andava mais negra que a noite.
—A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. E á dôr da sua felicidade destruida juntava-se a afflicção pela honra d'ella ameaçada.
Uma tarde, tendo-a visto sahir da Sé, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:
—Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto não póde continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o parocho!
Ella mordeu o beiço, toda branca:
—O senhor está a insultar-me!—E queria seguir, indignada.
Elle reteve-a pela manga do casabeque:
—Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe... Tenho andado, que até se me parte o coração!—E perdeu a voz, de commovido.
—Não tem razão... Não tem razão... balbuciava ella.
—Jure-me então que não ha nada com o padre!
—Pela minha salvação!...
Não ha nada!
... Mas tambem lhe digo, se torna a fallar em tal, ou a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor escusa de nos voltar a casa.
—Oh, menina Amelia...
—Não podemos continuar aqui a fallar... Está alli já a D. Michaela a cocar...
Era uma velha, que levantára a cortina de cassa n'uma janella baixa, e espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida encostada sôfregamente á vidraça. Separaram-se então—e a velha desconsolada deixou cahir a cortina.
Amelia n'essa noite—emquanto as senhoras discutiam com algazarra os missionarios que então prégavam na Barrosa—disse baixo a Amaro, picando vivamente a costura:
—Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja tão chegado... Já houve quem reparasse.
Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpção; e, apesar da recommendação d'Amelia, os seus olhos não se despregavam d'ella, n'uma interrogação muda e anciosa, já assustado que as desconfianças da mãi ou a malicia das velhas «andassem armando escandalo». Depois do chá, no rumor das cadeiras que se accommodavam ao
quino
, perguntou-lhe rapidamente:
—Quem reparou?
—Ninguem. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.
Desde então cessaram as olhadellas dôces, os logares chegadinhos á mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo a certeza vaidosa da paixão que os inflammava. Era para Amelia delicioso—emquanto o padre Amaro afastado tagarellava com as senhoras—adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos castamente applicados ás chinelas do João Eduardo que muito astutamente recomeçára a bordar.
Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o parocho installado alli todas as noites, com a face próspera, a perna traçada, gozando a veneração das velhas. «A Ameliasinha, sim, agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: mas elle sabia que o parocho a desejava, a «cocava»; e apesar do juramento d'ella
pela sua salvação,
da certeza
que não havia nada
—temia que ella fosse lentamente penetrada por aquella admiração caturra das velhas, para quem o senhor parocho
era um anjo
: só se contentaria em arrancar Amelia (já empregado no governo civil) áquella casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar—e sahia todas as noites da rua da Misericordia mais apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem coragem para desistir. Era então que se punha a andar pelas ruas até tarde; ás vezes voltava ainda vêr as janellas fechadas da casa d'ella; ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio ramalhar das arvores sobre a agua negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que bocejava encostado ao
reste
. Um cheiro de mau petroleo suffocava. Sahia; e dirigia-se, devagar, á redacção da
Voz do Districto
.
X
O redactor da
Voz do Districto
, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente o
Rachitico
, por ter uma forte corcunda no hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente sujo; e a sua carita de femea, amarellada, d'olhos depravados, revelava vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: «Se vossê não fosse um rachitico, quebrava-lhe os ossos»—que, vendo na sua corcunda uma protecção sufficiente, ganhára um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tornava mais suspeito aos burguezes sérios: attribuia-se a sua voz rouca e acre «a fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimados terminavam em unhas muito compridas—porque tocava guitarra.
A
Voz do Districto
fôra creada por alguns homens, a quem chamavam em Leiria o
grupo da Maia
, particularmente hostis ao senhor governador civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do
grupo
, tinha encontrado em Agostinho, como elle dizia, o
homem que se precisa
: o que o
grupo
precisava era um patife com orthographia, sem escrupulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as allusões que elles traziam informemente á redacção, em apontamentos. Agostinho era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de habitação na redacção—um terceiro andar desmantelado n'uma viella ao pé da Praça.
Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, a
Correspondencia
de Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim litterario sob o titulo de
Palestras Leirienses
: era um moço muito honrado, a quem o snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente á mesma banca, a revêr as provas da sua prosa—prosa tão florida de imagens, que se murmurava na cidade, ao lêl-a: «
Que opulencia! Que opulencia, Jesus!
»
João Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho era «um trastesito»; não se atreveria a passear com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho fallar de Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado na redacção de dois jornaes, no theatro da rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras instituições. Estas visitas eram
segredos
!
Áquella hora da noite a sala da typographia no primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e João Eduardo encontrava em cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de pelles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados—ruminando, curvado, á luz d'um medonho candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto d'uma caverna. João Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto a velha guitarra de Agostinho repenicava o
fado corrido
. O jornalista no emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: «a coisa não lhe sahia catita»: e como nem o
fadinho
o inspirava, erguia-se, ia a um armario engulir um copinho de genebra que gargarejava nas fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, accendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:
Ora foi o fado tyranno Que me levou á má vida,
E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.
Na vida do negro fado Ai! Que me traz assim perdida...
Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque terminava por dizer, com odio:
—Que possilga de terra esta!
Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o seu quartilho na taberna do tio João, á Mouraria, com a Anna alfaiata ou com o Bigodinho—ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a morte da Sophia!
Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a João Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se—porque essas «producções», sendo ultimamente sempre «desandas ao clero», correspondiam ás suas preoccupações.
Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da Misericordia, o doutor Godinho se tornára muito hostil ao cabido e «á padraria». Sempre detestára padres; tinha uma má doença de figado, e como a Igreja o fazia pensar no cemiterio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrínas: mas, com o seu fraco litterario, cobria o vituperio de tão espessas camadas de rhetorica que, como dizia o conego Dias, «aquillo era ladrar, não era morder»!
Uma d'essas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo enthusiasmado com um artigo que compuzera de tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas á Victor Hugo»!
—Tu verás! Coisa de sensação!
Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, «
esse tão respeitavel chefe de familia
» e a sua eloquencia no tribunal que «
arrancára tantos desventurados ao cutelo da lei
», o artigo, tomando um tom roncante, apostrophava Christo:—«Quem te diria a ti (bradava Agostinho), ó immortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, á tua sombra, seria expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor Godinho,—a alma mais pura, o talento mais robusto...»—E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solemnes e sublimadas, arrastando caudas de adjectivos nobres.
Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se directamente a Roma:—«É no seculo XIX que vindes atirar á face de Leiria liberal os dictames do
Syllabus
! Pois bem. Quereis a guerra? Tel-a-heis!»
—Hein, João?! dizia. Está forte! Está philosophico!
E retomando a leitura:—«Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, comprehendei-o bem! e arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades publicas, gritaremos á face de Leiria, á face da Europa: Filhos do seculo XIX! ás armas! Ás armas pelo progresso!»
—Hein? Está de os enterrar!
João Eduardo, que ficára um momento calado, disse então, levantando as suas expressões em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:
—O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!
Uma phrase tão litteraria surprehendeu o jornalista: fitou João Eduardo, disse:
—Porque não escreves tu alguma coisa, tambem?
O escrevente respondeu, sorrindo:
—E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E eu tocava-lhes os pôdres. Eu é que os conheço!...
Agostinho instou logo com elle para que escrevesse a
desanda
.
—Vem a calhar, menino!
O doutor Godinho ainda na vespera lhe recommendára:—«Em tudo que cheirar a padre, para baixo! Havendo escandalo, conta-se! não havendo, inventa-se!»
E Agostinho acrescentou, com benevolencia:
—E não te dê cuidado o estylo, que eu cá o florearei!
—Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.
Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:
—E o artigo, homem? Traze-me o artigo.
Tinha avidez d'elle, porque sabendo como João Eduardo vivia na intimidade da «panellinha canonica da S. Joanneira» suppunha-o no segredo de infamias especiaes.
João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber...?
—Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha. É artigo da redacção. Quem diabo vai saber?
Succedeu na noite seguinte que João Eduardo surprehendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia—e ao outro dia appareceu de tarde na redacção com a pallidez d'uma noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escriptas n'uma letra de cartorio. Era o artigo, e intitulava-se:
Os modernos phariseus!
—Depois de algumas considerações, cheias de flôres, sobre Jesus e o Golgotha, o artigo de João Eduardo era, sob allusões tão diaphanas como teias d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a sua
dóse
, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.
—E quando sae? perguntou João Eduardo.
O Agostinho esfregou as mãos, reflectiu, disse:
—É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes proprios! Mas descansa, eu arranjarei.
Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho—que o achou «uma catilinaria atroz». Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: elle reconhecia em geral a necessidade da religião entre as massas; sua esposa, a bella D. Candida, era além d'isso d'inclinações devotas, e começava a dizer que aquella guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho não queria provocar odios desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christão o forçariam bem cedo a uma reconciliação,—«muito contra as suas opiniões, mas...»
Disse por isso a Agostinho sêccamente:
—Isto não póde ir como artigo da redacção, deve apparecer como communicado. Cumpra estas ordens.
E Agostinho declarou ao escrevente—que a coisa publicava-se como um
Communicado
, assignado:
Um liberal
. Sómente João Eduardo terminava o artigo exclamando:—
Álerta, mães de familia!
O Agostinho suggeriu que este final
álerta
podia dar logar á réplica jocosa—
Álerta está!
E depois de largas combinações decidiram-se por este fecho:—
Cuidado, sotainas negras!
No domingo seguinte appareceu o communicado assignado:
Um liberal
.
Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, á volta da Sé, estivera occupado em compôr laboriosamente uma carta a Amelia. Impaciente, como elle dizia, «com aquellas relações que não andavam nem desandavam, que era olhar e apertos de mão e d'alli não passava»—tinha-lhe dado uma noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera com boa letra, a tinta azul:—
Desejo encontral-a só, porque tenho muito que lhe fallar. Onde póde ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso affecto.
Ella não respondera:—E Amaro despeitado, descontente tambem por não a ter visto n'essa manhã á missa das nove, resolveu «pôr tudo a claro n'uma carta de sentimento»: e preparava os periodos sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, passeando pela casa, juncando o chão de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre o
Diccionario de synonymos
.
«Ameliasinha do meu coração: (escrevia elle) Não posso atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe fallar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na innocencia d'esta alma que tanto lhe quer e que não medita o peccado.
«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os pharoes da minha vida, e como a estrella do navegante) que tambem tu, minha Ameliasinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros numeros, e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o céo se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Porque não respondeste pois? Se pensas que o nosso affecto póde ser desagradavel aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior peccado commettes trazendo-me n'esta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrificio. Se eu visse que este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem amada filha, façamos o sacrificio a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu amor tambem é puro como a tua alma, que um dia se unirá á minha, entre os córos celestes, na bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois eu anceio por te exprimir todo o fogo que me abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos extases d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a offerta do coração do teu amante e pai espiritual
«Amaro».
Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ella bem dobrada no bolso da batina foi á rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda de Natario, discutindo.
—Quem está por cá?—perguntou á
Ruça
, que alumiava, encolhida no seu chale.
—As senhoras todas. Está o senhor padre Brito.
—Ólá! Bella sociedade!
Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu capote ainda pelos hombros, tirando alto o chapéo:
—Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.
Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle e exclamou:
—Então que lhe parece?
—O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados n'elle:—O que é? Alguma coisa de novo?
—Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. Não leu o
Districto
!?
Era papel em que elle não puzera os olhos, disse. Então as senhoras indignadas romperam:
—Ai! é um desafôro!
—Ai! é um escandalo, senhor parocho!
Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho com um sorrisinho sarcastico, soltando d'entre os dentes:
—Não leu! Não leu! Então que fez?
Amaro reparava, já aterrado, na pallidez d'Amelia, nos seus olhos muito vermelhos. E emfim o conego erguendo-se pesadamente:
—Amigo parocho, dão-nos uma desanda!...
—Ora essa! exclamou Amaro.
—Têsa!
O senhor conego, que trouxera o jornal, devia ler alto—lembraram.
—Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!
A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego Dias accommodou-se á mesa, desdobrou o jornal, pôz os oculos cuidadosamente, e, com o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura do
Communicado
na sua voz pachorrenta.
O principio não interessava: eram periodos enternecidos em que o
liberal
exprobrava aos phariseus a crucifixão de Jesus:—«Por que o matasteis? (exclamava elle). Respondei!» E os phariseus respondiam:—«Matamol-o porque elle era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma nova era», etc. O
liberal
então esboçava, a largos traços, a noite do Calvario:—«Eil-o pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua tunica jogada aos dados, a plebe infrene», etc. E, voltando a dirigir-se aos phariseus infelizes, o
liberal
gritava-lhes com ironia:—«Contemplai a vossa bella obra!» Depois, por uma gradação habil, o
liberal
descia de Jerusalem a Leiria:—«Mas pensam os leitores que os phariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemol-os nós; Leiria está cheia d'elles, e vamos apresental-os aos leitores...»
—Agora é que ellas começam, disse o conego olhando para todos em redor, por cima dos oculos.
Com effeito «ellas começavam»; era, n'uma fórma brutal, uma galeria de photographias ecclesiasticas: a primeira era a do padre Brito:—«Vêde-o, (exclamava o
liberal
) grosso como um touro, montado na sua egua castanha...»
—Até a côr da egua! murmurou com uma indignação piedosa a snr.
a
D. Maria da Assumpção.
«...Estupido como um melão, sem sequer saber latim...»
O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.
«...Especie de caceteiro», continuava o conego que lia aquellas phrases crueis com uma tranquillidade dôce, «desabrido de maneiras, mas que não desgosta de se dar á ternura, e, segundo dizem os bem informados, escolheu para Dulcinêa a propria e legitima esposa do seu regedor...»
O padre Brito não se dominou:
—Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo pesadamente na cadeira.
—Escute, homem! disse Natario.
—Qual escute! O que é, é que o racho!
Mas se elle não sabia quem era o
liberal
!
—Qual
liberal
! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor Godinho é que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!
A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas á côxa.
Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as injurias. A S. Joanneira com unção citou a bofetada que Jesus Christo supportou. Devia imitar Christo.
—Qual Christo, qual cabaça! gritou Brito apopletico.
Aquella impiedade creou um terror.
—Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irmã do conego recuando a cadeira.
O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:
—Nossa Senhora das Dôres, que até póde cahir um raio!
E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:
—Brito, realmente vossê excedeu-se.
—Pois se estão a puxar por mim!...
—Homem, ninguem puxou por vossê, disse severamente Amaro. E com um tom pedagogo:—Apenas lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, quando se diz a
blasphemia má
, o reverendo padre Scomelli recommenda confissão geral e dois dias de recolhimento a pão e agua.
O padre Brito resmungava.
—Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu uma grande falta, mas saberá pedir perdão a Deus, e a misericordia de Deus é infinita!
Houve uma pausa commovida em que se ouviu a snr.
a
D. Maria da Assumpção murmurar «que ficára sem pinga de sangue»; e o conego, que durante a catastrophe pousára os oculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou serenamente a leitura:
«...Conheceis um outro com cara de furão?...»
Olhares de lado fixaram o padre Natario.
«...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, não hesita; se puder prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido n'uma confusão porque é a vibora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado á jardinagem, porque cultiva com cuidado
duas rosas do seu canteiro
.»
—Homem, essa! exclamou Amaro.
—É para que vossê veja, disse Natario erguendo-se lívido. Que lhe parece? Vossê sabe que eu, quando fallo das minhas sobrinhas, costumo dizer
as duas rosas do meu canteiro
. É um gracejo. Pois senhores, até vem com isto!—E com um sorriso macilento, de fel:—mas ámanhã hei de saber quem é! Ólaré! Eu hei de saber quem é!
—Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S. Joanneira pacificadora.
—Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia rancorosa—obrigado! Cá recebi!
Mas a voz imperturbavel do conego retomára a leitura. Agora era o retrato d'elle, traçado com odio:
«...Conego bojudo e glutão, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que foi expulso da freguezia de Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um seminario e hoje mestre de immoralidade em Leiria...»
—Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.
O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:
—Vossê pensa que me dá isto cuidado? disse elle. Boa! Tenho que comer e que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!
—Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o seu bocadinho de brio!
—Ora, mana! replicou o conego Dias com um azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ninguem lhe pede a sua opinião!
—Nem preciso que m'a peçam! gritou ella impertigando-se. Sei-a dar muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu!
—Então! então!... disseram em roda, acalmando-a.
—Menos lingua, mana, menos lingua! disse o conego fechando os seus oculos. Olhe não lhe cáiam os dentes postiços!
—Seu malcriado!
Ia fallar, mas suffocou-se; e começou subitamente a soltar
ais
.
Recearam logo que lhe désse o
flato
: a S. Joanneira e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras brandas:
—Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escandalo! Nossa Senhora te valha!
Amelia mandava buscar agua de flôr de laranja.
—Deixe-a lá, rosnou o conego, deixe-a lá! Aquillo passa-lhe. São calores!
Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a snr.
a
D. Maria da Assumpção e a Gansoso surda, que iam tambem «socegar a D. Josepha, coitadita»! Os padres agora estavam sós; e o conego voltando-se para Amaro:—Ouça vossê, que é a sua vez—disse retomando o jornal.
—E verá que dóse! disse Natario.
O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:
«...Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, parochos por influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das familias de bem onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do seu sagrado ministerio para lançar na alma da innocente a semente de chammas criminosas!»
—Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.
«...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar a impolluta virgem? Queres arrastal-a aos lodaçaes do vicio? Que vens fazer aqui ao seio d'esta respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua prêsa como o milhafre em torno da innocente pomba? Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe seductoras phrases, para a desviares do caminho da honra; condemnas á desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira offerecer sua mão trabalhadora; e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa lascivia!...»
—Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.
«...Mas acautela-te, presbytero perverso!» E a voz do conego tinha tons cavos ao soltar aquellas apostrophes. «Já o archanjo levanta a espada da justiça. E sobre ti, e teus cumplices, já a opinião da illustrada Leiria fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho, para vos marcar na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios do
Syllabus
! Cuidado, sotainas negras!»
—D'escacha! fez o conego suado, dobrando a
Voz do Districto
.
O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de duas lagrimas de raiva: passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer:
—Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto é a calumnia das calumnias.
—Uma calumnia infame... rosnaram.
-E a mim o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos á auctoridade!
—É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é necessario fallar ao secretario geral...
—Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Auctoridade! O que é, é rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...
O conego, que meditava coçando o queixo, disse então:
—E vossê, Natario, é que deve ir ao secretario geral. Vossê tem lingua, tem logica.
—Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lh'as cantar, á auctoridade!
Amaro ficára junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o Libaninho murmurava:
—Ai, filhos, eu não é nada commigo, mas só de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...
Mas sentiram a voz da snr.
a
Joaquina Gansoso subindo a escada; e o conego immediatamente com uma voz prudente:
—Collegas, o melhor, diante das senhoras, é não se fallar mais n'isto. Bem basta o que basta.
D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que estava com uma forte dôr de cabeça, e despediu-se das senhoras.
—E sem tomar chá? acudiu a S. Joanneira.
—Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se no seu capote, não me estou a sentir bem. Boas noites... E vossê, Natario, appareça ámanhã pela Sé á uma hora.
Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e molle,—e sahiu com os hombros vergados.
A S. Joanneira notou, desconsolada:
—O senhor parocho ia muito pallido...
O conego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:
—Se ia pallido, ámanhã estará córado. E agora quero dizer uma coisa: esse aranzel do jornal é a calumnia das calumnias! Eu não sei quem o escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infamias. É pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e como já se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá. E o que lá vai, lá vai, não se falla mais na questão.
As faces em roda continuavam contristadas.—E então o conego acrescentou:
—Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguem, não ha necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te ao instrumento e repenica-me essa
Chiquita
!
O secretario geral, o snr. Gouvêa Ledesma, antigo jornalista, e, em annos mais expansivos, auctor do livro sentimental
Devaneios de um sonhador
, estava então dirigindo o districto na ausencia do governador civil.
Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representára de galan no theatro academico, em Coimbra, com muito applauso; e tomára a esse tempo o habito de passear á tarde na Sophia, com o ar fatal com que no palco arrepellava os cabellos, ou levava, nos transes d'amor, o lenço aos olhos. Depois em Lisboa arruinára um pequeno patrimonio com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, muita calça no Xafredo e perniciosas convivencias litterarias: aos trinta annos estava pobre, saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos na
Civilisação
: mas tornára-se tão popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafés por um cognome carinhoso—era o
Bibi
. Julgando então que conhecia a fundo a existencia, deixou crescer as suiças, começou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou na carreira administrativa; chamava agora á republica que tanto exaltára em Coimbra
uma absurda chimera
; e Bibi era um pilar das instituições.
Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia ás senhoras, nas
soirées
do deputado Novaes,—«que estava cansado da vida». Rosnava-se que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: e em verdade Bibi escrevêra a um amigo da capital:—«emquanto a conquistas, pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaesitos».
Levantava-se tarde; e n'essa manhã, de robe-de-chambre á mesa do almoço, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narração apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o criado,—um gallego que trouxera de Lisboa—veio dizer que «estava alli um cura».
—Um cura? Que entre para aqui!—E murmurou para sua satisfação pessoal:—O Estado não deve fazer esperar a Igreja.
Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natario que entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.
—Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena de chá, senhor cura? Soberba manhã, hein? Estava justamente pensando em v. s.
a
—isto é, estava pensando no clero em geral... Acabava de lêr as peregrinações que se estão fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da melhor roda... É realmente consolador vêr renascer a fé... Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: «no fim de tudo a fé é a mola real da sociedade». Tome uma chavena de chá... Ah! é um grande balsamo!...
—Não, obrigado, almocei já.
—Mas não! Quando digo um grande balsamo refiro-me á fé, não ao chá! Ah! ah! É boa, não?
E prolongou a sua risadinha com complacencia. Queria agradar a Natario, pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto—«que quem está mettido na politica deve ter por si a padraria».
—E depois, acrescentou, como eu dizia hontem em casa do Novaes, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois com a affluencia dos devotos está uma cidade... Grandes hoteis,
boulevards
, bellas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento economico, correndo parelhas com o renascimento religioso.
E deu com satisfação um puxãosinho grave ao collarinho.
—Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.
a
a respeito d'um communicado na
Voz do Districto
.
—Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, li! Uma famosa verrina... Mas litterariamente, como estylo e como imagens, que miseria!
—E que tenciona v. exc.
a
fazer, senhor secretario geral?
O snr. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou pasmado:
—Eu!?
Natario disse, distillando as palavras:
—A auctoridade tem o dever de proteger a religião do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.
a
em vista, eu não venho aqui em nome do clero...
E acrescentou com a mão sobre o peito:
—Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular, perguntar ao senhor secretario geral se se póde permittir que caracteres respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim diffamados...
—É certamente lamentavel que um jornal...
Natario interrompeu, impertigando o busto com indignação:
—Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario geral!
—Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas v. s.
a
decerto não quer que eu volte aos tempos dos corregedores-móres! Suspender o jornal! Mas a liberdade de imprensa é um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o permittem... Mesmo querelar pelo ministerio publico porque um periodico diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel! Tínhamos de querelar de toda imprensa de Portugal, com excepção da
Nação
e do
Bem Publico!
Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta annos de progresso, a propria idéa governamental? Mas nós não somos os Cabraes, meu caro senhor! Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que nós queremos é luz!
Natario tossiu devagarinho, disse:
—Perfeitamente. Mas então quando, pelas eleições, a auctoridade nos vier pedir o nosso auxilio, nós, vendo que não encontramos n'ella protecção, diremos simplesmente:
Non possumus
!
—E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão os senhores abbades, nós vamos trahir a civilisação?
E o antigo
Bibi
, tomando uma grande attitude, soltou esta phrase:
—Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãi!
—Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é opposição, observou então Natario; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe as manobras...
O secretario geral teve um sorriso:
—Meu caro senhor cura, v. s.
a
não está no segredo da politica. Entre o doutor Godinho e o governo civil não ha inimizade, ha apenas um arrufo... O doutor Godinho é uma intelligencia... Vai reconhecendo que o
grupo da Maia
não produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.
E, rebuçando-se todo n'um mysterio d'Estado, acrescentou:
—Coisas d'alta política, meu caro senhor.
Natario ergueu-se:
—De modo que...
—
Impossibilis est
, disse o secretario. De resto acredite, senhor cura, que como particular revolto-me contra o
Communicado
; mas como auctoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e póde dizel-o a todo o clero diocesano, a Igreja catholica não tem um filho mais fervente que eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma religião liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as minhas idéas; préguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no gremio... Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a poesia do christianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Sómente lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação!—E o antigo Bibi, contente da sua phrase, repetia:—Sim, lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação... O
Syllabus
é impossivel n'este seculo de electricidade, senhor cura! E a verdade é que nós não podemos querelar d'um jornal porque elle diz duas ou tres pilherias sobre o sacerdocio, nem nos convém, por altas razões de política, escandalisar o doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento.
—Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.
—Um criado de v. s.
a
Sinto que não tome uma chavena de chá... E como vai o nosso chantre?
—S. exc.
a
n'estes ultimos dias, segundo creio, tem tornado a soffrer de tonturas.
—Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... Tenha cuidado com o degrau!...
Natario correu á Sé, com um passo nervoso, resmungando alto de cólera. Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha as olheiras batidas e a face envelhecida.
—Então? disse elle, indo rapidamente ao encontro de Natario.
—Nada!
Amaro mordeu o beiço: e emquanto Natario lhe contava, excitado, a conversação com o secretario geral, «e como argumentára com elle, e como o homem tagarellára, tagarellára»,—a face do parocho cobria-se d'uma sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guardasol, a herva que crescia nas fendas do terraço.
—Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela auctoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre mim e o
liberal
, padre Amaro! Eu hei de saber quem é, padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...
No emtanto João Eduardo desde o domingo triumphava: o artigo fizera escandalo: tinham-se vendido oitenta numeros avulsos do jornal, e o Agostinho affirmára-lhe que na botica da Praça a opinião era «que o
liberal
conhecia a padraria a fundo e tinha cabeça»!
—És um genio, rapaz! disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazer-me outro!
João Eduardo gozava prodigiosamente «d'aquelle fallatorio que ia pela cidade».
Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não receasse escandalisar a S. Joanneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto—
fui eu, eu é que o escrevi!
—E já ruminava outro, mais terrivel, que se deveria intitular:
O diabo feito ermita
, ou
O sacerdocio de Leiria perante o seculo XIX
!
O doutor Godinho encontrára-o na Praça, e parára com condescendencia, para lhe dizer:
—A coisa tem feito barulho. Vossê é o diabo! E a piada ao padre Brito é bem jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor...
—V. exc.
a
não sabia?
—Não sabia, e saboreei. Vossê é o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa como um communicado. Vossê comprehende... Eu não me convém ter turras de mais com o clero... E depois lá minha esposa tem seus escrupulos... Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres tenham religião... Mas no meu fôro interior saboreei... Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleição passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o mez que vem tem vossê o seu emprego no governo civil.
—Oh, snr. doutor... v. exc.
a
...
—Qual historia! vossê é um benemerito!
João Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. O snr. Nunes Ferral sahira: o escrevente aparou devagar uma penna, começou a cópia d'uma procuração—e de repente, agarrando o chapéo, correu á rua da Misericordia.
A S. Joanneira costurava só á janella; Amelia fôra ao Morenal; e João Eduardo, logo da porta:
—Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá para o mez que vem tenho o meu emprego...
A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as mãos no regaço:
—Que me diz?...
—É verdade, é verdade...
E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.
—Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver d'accordo...
—Ai, João Eduardo! fez a S. Joanneira com um grande suspiro, que me tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...
João Eduardo presentiu que ella ia fallar do
Communicado
. Foi pôr o chapéo n'uma cadeira ao canto; e voltando á janella, com as mãos nos bolsos:
—Então porquê, porquê?
—Aquella pouca vergonha no
Districto!
Que diz vossê? Aquella calumnia! Ai! tenho-me feito velha!
João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciume, só para «enterrar» o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no branco dos olhos, sentia-se
quasi arrependido
. Disse ambíguamente:
—Eu li, é o diabo...
Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira para servir a sua paixão, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé d'ella:
—Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, mas... olhe que a Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, não via o mal, mas... a D. Augusta sabe o que é Leiria. Que linguas, hein!
A S. Joanneira então declarou que lhe ia fallar como a um filho: o artigo affligira-a, sobretudo por causa d'elle, João Eduardo. Porque emfim elle podia acreditar tambem, desfazer o casamento, e que desgosto! E ella podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mãi, que não havia entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que tinha aquelle genio communicativo! E o parocho tinha boas palavras, sempre muito delicado... Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro tinha maneiras que tocavam o coração...
—Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a cabeça baixa.
A S. Joanneira então poz a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e fitando-o:
—E olhe, não sei se me fica mal dizer-lh'o, mas a rapariga quer-lhe devéras, João Eduardo.
O coração do escrevente teve uma palpitação commovida.
—E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ella... E lá do artigo que me importa a mim!
Então a S. Joanneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma alegria para ella! Ella sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia outro na cidade de Leiria!
—Vossê sabe, quero-lhe como filho!
O escrevente enterneceu-se:
—Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...
E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada:
—snr.
a
D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...
Ella riu-se—e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa, filialmente.
—E falle á noite á Ameliasinha, disse ao sahir. Eu venho ámanhã, e felicidade não ha de faltar...
—Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joanneira retomando a sua costura, com um suspiro de muito allivio.
Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joanneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe:
—Esteve ahi o João Eduardo...
—Ah!...
—Ahi esteve a fallar, coitado...
Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã.
—Ahi esteve a queixar-se... continuou a mãi.
—Mas de quê? perguntou ella muito vermelha.
—Ora de quê! Que se fallava muito na cidade do artigo do
Districto
; que se perguntava a quem alludia o periodico com as
donzellas inexperientes
, e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia da S. Joanneira, da rua da Misericordia!» O pobre João diz que tem andado tão desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim...
—Mas que hei de eu fazer, minha mãi? exclamou Amelia com os olhos subitamente cheios de lagrimas áquellas palavras que cahiam sobre os seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.
—Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quizeres, filha. Eu bem sei que são calumnias! Mas tu sabes o que são linguas do mundo... O que te posso dizer é que o rapaz não acreditou no periodico. Que era isso que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o somno... Mas não, diz que não lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por que se faça o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda essa gente, era casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por elle, bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...
—Vai ter o emprego!?
—Pois foi o que elle me veio dizer tambem... Esteve com o doutor Godinho, diz que lá para o fim do mez está empregado... Emfim tu fazes o que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te d'um momento para o outro...
Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os pardaes—menos desassocegados, n'aquelle instante, que os seus pensamentos.
Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a
donzella inexperiente
a que alludia o
Communicado
era ella, Amelia, e torturava-a o vexame de vêr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ella pensava, mordendo o beiço n'uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas), aquillo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com risinhos perversos:—«Então a Ameliasita da S. Joanneira mettida com o parocho, hein?» Decerto o senhor chantre, tão severo em «coisas de mulheres,» reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns apertos de mão, ahi estava a sua reputação estragada, estragado o seu amor!
Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitavel Carlos julgou vêr uma seccura reprehensível; á volta encontrára o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada—esquecendo que o bom Marques era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
—Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia soluções devotas—entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé da mãi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fôra sempre bem infeliz!
A mãi não lhe fallára claramente sobre o
Communicado
; tivera apenas palavras ambíguas:
—É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua consciencia socegada, o mais historias...
Mas Amelia via-lhe bem o desgosto—na face envelhecida, nos tristes silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janella com a luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande fallatorio na cidade», de que a mãi, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. Josepha Dias—cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!
E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, n'aquella reunião de saias e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurára natural, agora, julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar—os Guedes, os Marques, os Vazes,—apparecia-lhe já monstruoso: assim as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e que á luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse voltado á rua da Misericordia.
No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas elle não vinha; e aquella ausencia, que a sua razão julgava prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma traição. Na quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:
—Que será feito do senhor parocho?
O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:
—Mais que fazer... E escusam de esperar por elle tão cedo!...
E Amelia, que ficára branca como a cal, teve immediatamente a certeza que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»—tratava de se descartar d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãi, escondeu o seu desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão estrondosas—que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
—Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma allusão n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a—sem se lembrar que tambem ella se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor! E fôra elle que a tentára com as suas palavrinhas dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração—e esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade—e a sua imaginação começou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa excitação, aquelle plano parecia-lhe muito pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer o cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fóra; e viveriam n'uma casinha—onde o que mais a attrahia era o leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a unica difficuldade que via em todo este plano radiante era fazer sahir de casa, às escondidas da mãi, o bahú com a sua roupa!—Mas quando acordou, essas resoluções morbidas, á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora tão impraticavel, e elle tão separado d'ella, como se entre a rua da Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se vingar do padre Amaro.
Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a publicação do
Communicado
não apparecera na rua da Misericordia. Tambem me volta as costas—pensou com amargura. Mas que lhe importava! No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as affeições—a que lhe enchia a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não sentir já o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade d'um cão—mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já não queria saber d'ella»! Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre Amaro...
Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardaes—depois de saber que João Eduardo, certo do emprego, viera fallar emfim á mãi,—pensava com satisfação no desespero do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse, com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decencia, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.
—Que lhe parece, minha mãi?—perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida e forçada.
—Eu ia pelo seguro, filha—foi a resposta da S. Joanneira.
—É sempre o melhor—murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepusculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons tempos com o senhor parocho».
N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S. Joanneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar o
abat-jour
verde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido tão estimado na pequena burguezia—não era feio e tinha um emprego; decerto o offerecimento da sua mão, apesar das infamias do jornal, não lhe parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois annos que o pobre João gostava d'ella... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava—o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.
Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no berço—porque seria um rapaz, chamar-se-hia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão da janella para occultar a vermelhidão do rosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa implacavelmente apoderára-se d'ella como um braço muito forte que a suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos—oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Então á janella, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.