O CRIME DO PADRE AMARO (continued 4)
Reading edition
Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente:
-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval, e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.
Ella não respondeu—mas a sua imaginação alvoroçou-se áquellas palavras. Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser indifferente, a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ella, dormir com ella, deu uma perturbação a todo o seu sêr.
E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe:
—Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a custar entrar em explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...
—Tambem acho, filha, escreve-lhe... A
Ruça
leva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:
«Snr. João Eduardo,
«A mamã cá me pôz ao facto da conversação que teve comsigo. E se a sua affeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus sentimentos. E a respeito d'enxoval e papeis, ámanhã se fallará, pois que o esperamos para o chá. A mamã está muito contente e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de Deus. A mamã recommenda-se e eu sou
a que muito lhe quer,
«Amelia Caminha».
Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante d'ella deram-lhe o desejo d'escrever ao padre Amaro. Mas o quê? Confessar-lhe o seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma tinta, com que aceitava por marido o
outro
?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar o seu desgosto—era humilhar-se! E, apesar de não ter motivo para lhe escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras
«Meu adorado Amaro...»
Deteve-se, considerando que não tinha por quem mandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!... Separarem-se porquê?—pensou. Depois de casada podia bem vêr o senhor padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, mas n'uma fórma tão honesta agora, que a não repellia: decerto, o senhor padre Amaro podia ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciencia; haveria então entre elles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dôces admoestações; todos os sabbados iria receber ao confessionario, na luz dos seus olhos e no som das suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquillo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.
Sentiu-se quasi satisfeita com a impressão, que não definia bem, d'uma existencia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria os encantos d'uma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por fim... E d'ahi a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na
sua
casa, com o
seu
marido, e que jogava a manilha com as velhas amigas, no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do senhor parocho.
Ao outro dia a
Ruça
levou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as duas senhoras, costurando á janella, fallaram do casamento. Amelia não se queria separar da mãi, e, como a casa tinha accommodações, os noivos viveriam no primeiro andar, e a S. Joanneira dormiria no quarto em cima; decerto o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a lua de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia áquellas perspectivas felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãi que, de luneta na ponta do nariz, a admirava babosa.
Ás Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a sua corôa, e deixou Amelia só «para se entender com o rapaz».—D'ahi a pouco, com effeito, João Eduardo bateu á campainha. Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado em agua de colonia. Quando chegou á porta da sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma d'Amelia destacava de pé, junto á claridade da vidraça. Elle pôz o chale-manta a um canto como costumava, e vindo para ella que ficára immovel, disse-lhe, esfregando muito as mãos:
—Lá recebi a cartinha, menina Amelia...
—Eu mandei-a pela
Ruça
logo pela manhã para o pilhar em casa, disse ella immediatamente com as faces a arder.
—Eu ia para o cartorio, até já ia na escada... Haviam de ser nove horas...
—Haviam de ser... disse ella.
Calaram-se, muito perturbados. Elle então tomou-lhe delicadamente os pulsos, e baixo:
—Então sempre quer?
—Quero, murmurou Amelia.
—E o mais depressa possivel, hein?
—Pois sim...
Elle suspirou, muito feliz.
—Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem! dizia. E as suas mãos, com pressões ternas, iam-se apoderando dos braços d'ella, dos pulsos aos cotovêlos.
—A mamã diz que podemos viver juntos, disse ella, esforçando-se por fallar tranquillamente.
—Está claro, e eu vou mandar fazer lençoes, acudiu elle, todo alterado.
Attrahiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os labios; ella teve um soluçosinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda languida.
—Oh, filha! murmurava o escrevente.
Mas os sapatos da mãi rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o aparador accender o candieiro.
A S. Joanneira parou á porta; e para dar a sua primeira approvação maternal, disse, com bonhomia:
—Então vossês estão aqui ás escuras, filhos?
Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro o casamento d'Amelia, uma manhã, na Sé. Fallou no «a proposito do enlace», e acrescentou:
—Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a pobre velha...
—Está claro, está claro...—murmurou Amaro que se fizera muito branco.
O conego pigarreou grosso, e ajuntou:
—E vossê agora appareça por lá, agora está tudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence á historia... O que lá vai, lá vai!
—Está claro, está claro...—rosnou Amaro. Traçou bruscamente a capa, sahiu da igreja.
Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas. Á esquina da viella das Sousas quasi esbarrou com Natario, que o agarrou logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:
—Ainda não sei nada!
—De quê?
—Do
liberal
, do
Communicado
. Mas trabalho, trabalho!
Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:
—Então ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... Que lhe parece?
—Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... É outro que tal!... Veja vossê esta corja: o doutor Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... Vá lá entendel-os! Isto é um paiz de biltres!
—Diz que grande alegrão na casa da S. Joanneira!—disse o parocho, com um azedume negro.
—Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é o
liberal
e escachal-o! Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, coça-se, e curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!—E, com uma contracção de rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro. disse por entre os dentes cerrados:—Eu, quando odeio, odeio bem!
Esteve um momento calado, gozando o sabôr do seu fel.
—Vossê se fôr á rua da Misericordia dê lá os parabens a essa gente...—E acrescentou com os olhinhos em Amaro:—O palerma do escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!
—Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.
Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera o
Communicado
, o padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preoccupára com as consequências—«consequencias fataes, santo Deus!»—que lhe podia trazer o escandalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era elle o
padre ajanotado
que o
liberal
apostrophava! Viveu dois dias aterrado, tremendo de vêr apparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz melliflua, a dizer-lhe «que sua excellencia o senhor chantre reclamava a sua presença»! Passava já o tempo preparando explicações, respostas habeis, lisonjas a sua excellencia.—Mas quando viu que, apesar da violencia do artigo, sua excellencia parecia disposto «a fazer a vista grossa», occupou-se então, mais tranquillo, dos interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O medo tornava-o astucioso; e decidiu não voltar algum tempo á rua da Misericordia.
—Deixar passar o aguaceiro, pensou.
Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o artigo estivesse esquecido, appareceria de novo em casa da S. Joanneira: deixaria vêr bem á rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D. Maria da Assumpção, pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse o padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam então entender-se, no segredo do confessionario: combinariam uma conducta discreta, encontros cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquelle amor assim conduzido, com prudenciasinha, não teria o perigo de apparecer uma manhã annunciado no periodico! E regosijava-se já da habilidade d'esta combinação, quando lhe vinha o grande choque—casava-se a rapariga!
Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e blasphemias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquella paixão? Ao escandalo. E assim, casada ella, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato—ella na sua familia, elle na sua parochia. Depois, quando se encontrassem, um comprimento amavel; e elle poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos ápartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excellencia e das picadinhas da consciencia! E a sua vida seria feliz.—Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ella! Tirado á sua existencia aquelle interesse das visitas à rua da Misericordia, os apertosinhos de mão, a esperança de delicias melhores—que lhe restava a elle? Vegetar, como um dos tortolhos nos cantos humidos do adro da Sé! E ella, ella que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe apparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por mez! Todos aquelles suspiros, aquellas mudanças de côr—chalaça! Mangára com o senhor parocho!...
O que a odiava!—menos que o outro porém, o outro que triumphava porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode, um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E a estas idéas dava patadas furiosas no soalho—que assustavam a Vicencia na cozinha.
Depois procurava socegar, retomar a direcção das suas faculdades, applical-as todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E voltava então o antigo desespero de não viver no tempo da inquisição, e com uma denuncia de irreligião ou de feiticeria, mandal-os ambos para um carcere. Ah! n'esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores liberaes, tinha de vêr aquelle miseravel escrevente a seis vintens por dia apoderar-se-lhe da rapariga—e elle, sacerdote instruido, que podia ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum valor—malditos fossem elles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão na prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos de fome, injuriando-se,—e elle a rir-se, elle a regalar-se!...
Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da Misericordia. A S. Joanneira estava em baixo na saleta com o conego Dias. E apenas viu Amaro:
—Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava a fallar em v. s.
a
! Já estranhava não o vermos, agora que ha alegria em casa.
—Já sei, já sei, murmurou Amaro pallido.
—Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. Deus os faça felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.
Amaro sorriu—escutando em cima o piano.
Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dos
Dois Mundos
; e João Eduardo, muito chegado a ella, voltava as folhas da musica.
—Quem entrou,
Ruça
? gritou ella sentindo os passos da rapariga nas escadas.
—O senhor padre Amaro.
Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto—e o coração batia-lhe tão forte, que ficou um momento com os dedos immoveis sobre o teclado.
—Não se precisava cá do senhor padre Amaro, rosnou João Eduardo por entre dentes.
Amelia mordeu o beiço. Teve odio ao escrevente: n'um instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto d'ella: pensou com deleite como depois de casada (já que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia n'aquelle momento escrupulos; e quasi desejava que o escrevente lhe visse no rosto a paixão que a revolvia.
—Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem me deixa os braços livres para tocar!
Terminou bruscamente a valsa dos
Dois Mundos
, começou a cantar o
Adeus
:
Ai! adeus! acabaram-se os dias Que ditosa vivi a teu lado!
A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente,—dirigindo o canto, através do soalho, ao coração do parocho, em baixo.
E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé, devorava todos os tons da voz d'ella—emquanto a S. Joanneira tagarellava, contando as peças de algodão que comprára para lençoes, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...
—Uma felicidade por ahi além, interrompeu o conego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem sós...
—Ah, lá n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me n'elle, que é homem de bem ás direitas.
Amaro, ao subir a escada, tremia—e, mal entrou na sala, o rosto d'Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vesperas do noivado a tivessem embellezado e a separação lh'a tornasse mais appetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:
—Os meus parabens... Os meus parabens...
Voltou as costas, e foi conversar com o conego que se enterrára na sua poltrona queixando-se d'enfastiamento e reclamando o chá.
Amelia ficára como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquelle modo do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a todo o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia «como se nada tivesse havido», o villão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,—sacudia-a da sua imaginação, do seu coração, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peçonha!... Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o escrevente; roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ella beliscou-o, elle deu um gritinho exagerado.—E a S. Joanneira contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitava já, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia folheando o velho album.
Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos rapidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e a
Ruça
appareceu dizendo «que era o senhor padre Natario, que não desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor conego».
—Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, arrancando-se com custo ao fundo confortavel da poltrona.
Amelia fechou logo o piano—e a S. Joanneira pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto da escada: fóra ventava forte, e para os lados da Praça afastava-se o toque de retreta.
Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da porta da saleta:
—Ó Amaro!
—Padre-Mestre?
—Venha cá, homem. E diga á senhora que póde vir tambem.
A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natario emfim descobrira o
liberal
!
A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, n'um velho painel muito escuro—que ultimamente o conego dera á S. Joanneira—destacava uma face livida de monge e um osso frontal de caveira.
O conego Dias accommodára-se ao canto do canapé, sorvendo reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou logo:
—Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quiz subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para nós. Estava a começar a dizer ao collega Dias... Tive lá em casa o padre Saldanha. Temol-as boas!
O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou:
—Coisa que nos toca?
Natario começou com solemnidade erguendo alto o braço:
—
Primo
: o collega Brito mudado da freguezia d'Amor para ao pé d'Alcobaça, para a serra, para o inferno...
—Que me diz!? exclamou a S. Joanneira.
—Obras do
liberal
, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar o
Communicado
do
Districto
, mas por fim sahiu-se! O pobre Brito lá vai esfogueteado!...
—Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa senhora.
—Ólá! interrompeu severamente o conego. Então, senhora, então! Isto aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, collega Natario.
—
Secundo
, continuou Natario: é o que eu ia dizer ao collega Dias... O senhor chantre, em vista do
Communicado
e d'outros ataques da imprensa, está decidido a «reformar os costumes do clero diocesano», palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam summamente os conciliabulos de ecclesiasticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim, palavras textuaes de sua excellencia—
está decidido a limpar as cavalhariças d'Augias
!...—o que quer dizer em bom portuguez, minha senhora, que vai andar tudo n'uma roda-viva.
Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:
—Que lhes parece esta á ultima hora, hein?
O conego ergueu-se pachorrentamente:
—Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguem... E a senhora não se fique ahi com essa cara de
Mater-dolorosa
, e mande servir o chá, que é o importante.
—Eu lá disse ao padre Saldanha...—começou Natario perorando.
Mas o conego interrompeu-o com força:
—O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós ás torradinhas, e lá em cima, diante dos rapazes, caluda.
O chá foi silencioso. O conego, a cada bocado de torrada, respirava affrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joanneira, depois de fallar da D. Maria da Assumpção que estava mal do catarrho, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casacão.
—E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando subitamente diante d'Amelia e do escrevente; que tomavam o chá sobre o piano.
—Um dia cedo, respondeu ella sorrindo.
Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu
cebolão
:
—São horas de me ir chegando á rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.
Mas a S. Joanneira não consentiu. Credo, estavam todos mônos como se estivessem de pêzames!... Que fizessem um quino para espairecer...—O conego porém, sahindo do seu torpor, disse com severidade:
—Está a senhora muito enganada, ninguem está môno. Não ha razões senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?
João Eduardo mexeu-se, sorriu:
—Eu cá por mim, senhor conego, não tenho razão senão para estar feliz.
—Pois está claro, disse o conego. E agora Deus lhes dê boas noites a todos, que eu vou
quinar
para valle de lençoes. E o Amaro tambem.
Amaro foi apertar silenciosamente a mão d'Amelia,—e os tres padres desceram calados.
Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O conego entrou a buscar o seu guardachuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes baixo:
—Eu, collegas, não quiz assustar ha pouco a pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses fallatorios... É o diabo!
—É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.
—É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.
Estavam de pé no meio da saleta. Fóra o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a
Chiquita
.
Amaro recordava outras noites felizes em que elle, triumphante e sem cuidados, fazia rir as senhoras,—e Amelia, gorgeando
Ai chiquita que si
, revirava-lhe olhares rendidos...
—Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho que comer e beber, não me importa... Mas é necessario manter a honra da classe!
—E não carece duvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e mais fallatorios, estala com certeza o raio...
—Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...
Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do escrevente.
Amaro rosnou com rancor:
—Grande galhofa, lá em cima!...
Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario d'uma chuva miudinha.
—Olha que noite! exclamou furioso.
Só o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:
—Pois meninos, não ha que vêr, estamos em calças pardas...
Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do piano, nos acompanhamentos da
Chiquita
. O conego soprava, agarrando fortemente o guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça cahida, n'um abatimento de derrota; e emquanto os tres padres, assim agachados sob o guardachuva do conego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!
XII
D'ahi a dias, os frequentadores da botica, na Praça, viram com espanto o padre Natario e o doutor Godinho conversando em harmonia, á porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor,—que era escutado com deferencia em questões de politica estrangeira—observou-os com attenção através da porta vidrada da pharmacia, e declarou com um tom profundo «que não se admiraria mais se visse Victor Manoel e Pio IX passearem de braço dado»!
O cirurgião da camara porém não estranhava aquelle «commercio d'amizade».—Segundo elle o ultimo artigo da
Voz do Districto
, evidentemente escripto pelo doutor Godinho, (era o seu estylo incisivo, cheio de logica, atulhado d'erudição!) mostrava que a gente da Maia se queria ir aproximando da gente da Misericordia. O doutor Godinho (na expressão do cirurgião da camara) fazia tagatés ao governo civil e ao clero diocesano: a ultima phrase do artigo era significativa—«não seremos nós que regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente a sua divina missão!»
A verdade era (como observou um individuo obeso, o amigo Pimenta) que, se não havia ainda paz, já havia negociações—porque na vespera elle vira, com aquelles seus olhos que a terra tinha de comer, o padre Natario sahindo de manhã muito cedo da redacção da
Voz do Districto
!
—Oh, amigo Pimenta, essa é fabricada!
O amigo Pimenta ergueu-se com magestade, deu um puxão grave ao cós das calças, e ia indignar-se—quando o recebedor acudiu:
—Não, não, o amigo Pimenta tem razão. A verdade é que eu n'outro dia vi o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natario. E que o Natario traz intriga na mão, isso é seguro! Eu gósto d'observar as pessoas... Pois senhores, o Natario, que nunca apparecia aqui na Arcada, agora vejo-o sempre ahi com o nariz pelas lojas... Depois a grande amizade com o padre Silverio... Hão de reparar que são ambos certos ahi na Praça ás Ave-Marias... E é negocio com a gente do doutor Godinho... O padre Silverio é o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam com as outras!
Era muito commentada, com effeito, a nova amizade do padre Natario com o padre Silverio. Havia cinco annos tinha occorrido na sacristia da Sé, entre os dois ecclesiasticos, uma questão escandalosa: Natario correra até de guardachuva erguido para o padre Silverio, quando o bom conego Sarmento, banhado em lagrimas, o reteve pela batina, gritando:—«Oh, collega, que é a perdição da religião»! Desde então Natario e Silverio não fallavam—com desgosto de Silverio, um bonacheirão, d'uma obesidade hydropica, que, segundo diziam as suas confessadas, «era todo affeição e perdão». Mas Natario, sêcco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando o snr. chantre Valladares começou a governar o bispado, chamou-os, e, depois de lhes lembrar com eloquencia a necessidade «de manter a paz na Igreja», de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e Pollux, empurrou Natario com uma brandura grave para os braços do padre Silverio—que o teve um momento sepultado na vastidão do peito e do estomago, murmurando todo commovido:
—Todos somos irmãos, todos somos irmãos!
Mas Natario, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como o papelão, as dobras que tomava, conservou com o padre Silverio um tom amuado: na Sé ou na rua, resvalando junto d'elle com um geito brusco do pescoço, rosnava apenas:
Senhor padre Silverio, ás ordens!
Havia porém duas semanas, uma tarde de chuva Natario fizera repentinamente uma visita ao padre Silverio—sob pretexto que «o pilhàra alli uma pancada d'agua, e que se vinha recolher um instante».
—E tambem, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dôr d'ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, está como doida, collega!
O bom Silverio, esquecendo decerto que ainda n'essa manhã vira as duas sobrinhas de Natario sãs e satisfeitas como dois pardaes, apressou-se a escrever a receita, todo feliz de utilisar os seus queridos estudos de medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:
—Ora que alegria, collega, vêl-o aqui de novo n'esta sua casa!
A reconciliação foi tão publica—que o cunhado do senhor barão de Via-Clara, bacharel de grandes dotes poeticos, lhe dedicou uma d'aquellas satyras que elle intitulava
Ferrões
, que iam manuscriptas de casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; e chamára a composição, tendo presente decerto a figura dos dois sacerdotes:
Famosa reconciliação do Macaco e da Baleia!
Era com effeito frequente, agora, vêr a pequena figura de Natario gesticulando e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento do padre Silverio.
Uma manhã mesmo os empregados da administração (que era então no largo da Sé) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam no terraço, ao tepido sol de maio. O senhor administrador,—que passáva as horas da repartição namorando com um binoculo, por traz da vidraça do seu gabinete, a esposa do Telles alfaiate—começára subitamente a dar gargalhadas á janella: o escrivão Borges correu logo, de penna na mão, á varanda, a vêr de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a fungar, chamou á pressa o Arthur Couceiro que estava copiando, para estudar á guitarra, uma canção da
Grinalda
: o amanuense Pires, severo e digno, aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de sêda, com horror ás correntes d'ar; e em grupo, d'olho arregalado, observavam os dois padres, que tinham parado á esquina da igreja. Natario parecia excitado: procurava decerto persuadir, abalar o padre Silverio; e em bicos de pés, plantado diante d'elle, agitava phreneticamente as mãos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do braço, arrastou-o ao comprido do terraço lageado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado, como attestando a perdição possivel d'elle, da Sé ao lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silverio, com os olhos muito abertos, parecia apavorado. E recomeçaram a passear. Mas Natario exaltava-se: dava recuões bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estomago de Silverio, batia patadas furiosas nas lages polidas; e de repente, de braços pendentes, mostrava-se acabrunhado. Então o bom Silverio fallou um momento com a mão espalmada sobre o peito; immediatamente, a face biliosa de Natario illuminou-se; pulou, bateu no hombro do collega palmadinhas de muito jubilo,—e os dois sacerdotes entraram na Sé, chegados e rindo baixinho.
—Que patuscos! disse o escrivão Borges, que detestava sotainas.
—Aquillo tudo é a respeito do jornal, disse Arthur Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lyrico. O Natario não socega emquanto não souber quem escreveu o
Communicado
; disse-o elle em casa da S. Joanneira... E a coisa pelo Silverio vai bem, que é o confessor da mulher do Godinho.
—Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o officio que compunha, remettendo para Alcobaça um preso—que ao fundo da saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e embrutecido, com uma face de fome e as mãos em ferros.
D'ahi a dias tinha havido na Sé o Officio de corpo presente pelo rico proprietario Moraes, que morrera d'um aneurisma, e a quem sua esposa (em penitencia decerto dos desgostos que lhe dera com a sua affeição desordenada por tenentes d'infanteria) estava fazendo, como se disse, «exequias de pessoa real».—Amaro desvestira-se, e na sacristia, á luz d'um velho candieiro de latão, escrevia assentos atrazados, quando a porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natario disse:
—Ó Amaro, vossê está ahi?
—Que temos?
O padre Natario fechou a porta, e atirando os braços para o ar:
—Grande novidade, é o escrevente!
—Que escrevente?
—O João Eduardo! É elle! É o
liberal
! Foi elle que escreveu o
Communicado
!
—Que me diz vossê!?—fez Amaro attonito.
—Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escripto pela letra d'elle. O que se chama
vêr
! Cinco tiras de papel!
Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natario.
—Custou! exclamou Natario. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever outro! O senhor João Eduardo! O nosso rico amigo senhor João Eduardo!
—Vossê está certo d'isso?
—Se estou certo!... Estou a dizer-lhe que vi, homem!
—E como soube vossê, Natario?
Natario dobrou-se; e com a cabeça enterrada nos hombros, arrastando as palavras:
—Ah, collega, lá isso... Os
comos
e os
porquês
... Vossê comprehende...
Sigillus magnus
!
E com uma voz aguda de triumpho, a largos passos pela sacristia:
—Mas ainda isto não é nada! O senhor Eduardo que nós viamos alli na casa da S. Joanneira, tão bom mocinho, é um patife antigo! É o intimo do Agostinho, o bandido da
Voz do Districto
! Está mettido na redacção até altas horas da noite... Uma orgia, vinhaça, mulheres... E gaba-se de ser atheu... Ha seis annos que se não confessa... Chama-nos a
canalha canonica
... É republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!
Amaro, escutando Natario, arrumava atarantadamente, com as mãos tremulas, papeis no gavetão da escrivaninha.
—E agora?... perguntou.
—Agora? exclamou Natario. Agora é esmagal-o!
Amaro fechou o gavetão, e muito nervoso, passando o lenço pelos labios seccos:
—Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com um homem d'esses... Um perdido!
Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No silencio, o velho relogio da sacristia punha o seu
tic-tac
plangente. Natario tirou da algibeira dos calções a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:
—Desmanchar-lhe o casamentosinho, hein?
—Vossê acha? perguntou sôffregamente Amaro.
—Caro collega, é uma questão de consciencia... Para mim era uma questão de dever! Não se póde deixar casar a pobre pequena com um bréjeiro, um pedreiro-livre, um atheu...
—Com effeito! com effeito! murmurava Amaro.
—Vem a calhar, hein? fez Natario; e sorveu com gozo a pitada.
Mas o sacristão entrou; eram as horas de fechar a igreja; vinha perguntar se suas senhorias se demoravam.
—Um instante, snr. Domingos.
E, emquanto o sacristão corria os pesados ferrolhos da porta interior do pateo, os dois padres muito chegados fallavam baixo.
—Vossê vai ter com a S. Joanneira, dizia Natario. Não, escute, é melhor que lhe falle o Dias; o Dias é que deve fallar á S. Joanneira. Vamos pelo seguro. Vossê falle á pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha fóra de casa!—E ao ouvido de Amaro:—Diga á rapariga que elle vive ahi de casa e pucarinho com uma desavergonhada!
—Homem! disse Amaro recuando, não sei se isso é verdade!
—Ha de ser. Elle é capaz de tudo. E depois é um meio de levar a pequena...
E foram descendo a igreja atraz do sacristão, que fazia tilintar o seu mólho de chaves, pigarreando grosso.
Nas capellas pendiam as armações de paninho negro agaloadas de prata; ao centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso murrão, estava a eça, com o largo pano de velludilho cobrindo o caixão do Moraes, recahindo em pregas franjadas; á cabeceira tinha uma larga corôa de perpetuas; e aos pés pendia, d'um grande laço de fita escarlate, o seu habito de cavalleiro de Christo.
O padre Natario então parou; e tomando o braço d'Amaro com satisfação:
—E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...
—O quê?
—Cortar-lhe os víveres!
—Cortar-lhe os víveres!?
—O pateta estava para ser empregado no governo civil, primeiro amanuense, hein? Pois vou-lhe desmanchar o arranjinho!... E o Nunes Ferral que é dos meus, homem de boas idéas, vai pôl-o fóra do cartorio... E que escreva então
Communicados
!
Amaro teve horror áquella intriga rancorosa:
—Deus me perdôe, Natario, mas isso é perder o rapaz...
—Emquanto o não vir por essas ruas a pedir um bocado de pão, não o largo, padre Amaro, não o largo!
—Oh, Natario! oh, collega! Isso é de pouca caridade... Isso não é de christão... E então aqui que Deus está a ouvil-o...
—Não lhe dê isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se assim, não é a resmungar Padre-nossos. Para impíos não ha caridade! A inquisição atacava-os pelo fogo, não me parece mau atacal-os pela fome. Tudo é permittido a quem serve uma causa santa... Que se não mettesse commigo!
Iam a sahir; mas Natario deitou um olhar para o caixão do morto, e apontando com o guarda-chuva:
—Quem está alli?
—O Moraes, disse Amaro.
—O gordo, picado das bexigas?
—Sim.
—Boa bêsta!
E depois d'um silencio:
—Foram os Officios do Moraes... Eu nem dei por isso, occupado cá na minha campanha... E a viuva fica rica. É generosa, é presenteadora... Quem a confessa é o Silverio, hein? Tem as melhores pechinchas de Leiria, aquelle elephante!
Sahíram. A botica do Carlos estava fechada, o céo muito escuro.
No largo, Natario parou:
—Resumindo: o Dias falla á S. Joanneira, e vossê falla á pequena. Eu por mim me entenderei com a gente do governo civil e com o Nunes Ferral. Encarreguem-se vossês do casamento, que eu me encarrego do emprego!—E batendo no hombro do parocho jovialmente:—É o que se póde dizer atacal-o pelo coração e pelo estomago! E adeusinho, que as pequenas estão á espera para a ceia! Coitadita, a Rosa tem estado com um defluxo!... É fraquita, aquella rapariga, dá-me muito cuidado... Que eu em a vendo murcha até perco logo o somno. Que quer vossê? Quando se tem bom coração...—Até ámanhã, Amaro.
—Até ámanhã, Natario.
E os dois padres separaram-se, quando davam nove horas na Sé.
Amaro entrou em casa ainda um pouco tremulo, mas muito decidido, muito feliz: tinha um dever delicioso a cumprir! E dizia alto, com passos graves pela casa, para se compenetrar bem d'essa responsabilidade estimada:
—É do meu dever! É do meu dever!
Como christão, como parocho, como amigo da S. Joanneira o
seu dever
era procurar Amelia, e, com simplicidade, sem paixão interessada, contar-lhe que fôra João Eduardo, o seu noivo, que escrevera o
Communicado
.
Foi elle! Diffamou os íntimos da casa, sacerdotes de sciencia e de posição; desacreditou-a a ella; passa as noites em deboche na possilga do Agostinho; insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligião; ha seis annos que se não confessa! Como diz o collega Natario, é uma fera! Pobre menina! Não, não podia casar com um homem que lhe impediria a
vida perfeita
, lhe achincalharia as boas crenças! Não a deixaria rezar, nem jejuar, nem procurar no confessor a direcção salutar, e, como diz o santo padre Chrysostomo, «amadureceria a sua alma para o inferno»! Elle não era seu pai, nem seu tutor; mas era parocho, era pastor:—e se a não subtrahisse áquelle destino heretico pelos seus conselhos graves, pela influencia da mãi e das amigas,—seria como aquelle que tem a guarda d'um rebanho n'uma herdade, e abre indignamente a cancella ao lobo! Não, a Ameliasinha não havia de casar com o
atheu
!
E o seu coração então batia forte sob a effusão d'aquella esperança. Não, o outro não a possuiria! Quando viesse a apoderar-se legalmente d'aquella cinta, d'aquelles peitos, d'aquelles olhos, d'aquella Ameliasinha,—elle, parocho, lá estava para lhe dizer alto:
Para traz, seu canalha! isto aqui é de Deus!
E tomaria então bem cuidado em guiar a pequena á salvação! Agora o
Communicado
estava esquecido, o senhor chantre tranquillisado: d'ahi a dias poderia voltar sem susto á rua da Misericordia, recomeçar os deliciosos serões—apoderar-se de novo d'aquella alma, formal-a para o paraiso...
E aquillo, Jesus! não era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito rectos, muito puros: aquillo era um trabalho santo para a arrancar ao inferno: elle não a queria para si, queria-a para Deus!...
Casualmente
, sim, os seus interesses de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. Mas se ella fosse vesga e feia e tola, elle iria igualmente à rua da Misericordia, em serviço do céo, desmascarar o snr. João Eduardo, diffamador e atheu!
E, socegado por esta argumentação, deitou-se tranquillamente.
Mas toda a noite sonhou com Amelia. Tinha fugido com ella: e ia-a levando por uma estrada que conduzia ao céo! O diabo perseguia-o; elle via-o, com as feições de João Eduardo, soprando e rasgando com os cornos os delicados seios das nuvens. E elle escondia Amelia no seu capote de padre, devorando-a por baixo de beijos! Mas a estrada do céo não findava.—«Onde é a porta do paraiso?» perguntava elle a anjos de cabelleiras d'ouro que passavam, n'um dôce rumor de azas, levando almas nos braços. E todos lhe respondiam:—«Na rua da Misericordia, na rua da Misericordia numero nove!» Amaro sentia-se perdido: um vasto ether côr de leite, penetravel e macio como uma pennugem d'ave, envolvia-o, e elle procurava debalde uma taboleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto d'elle um globo reluzente d'onde sahia o rumor d'uma creação; ou um esquadrão d'archanjos, com couraças de diamantes, erguendo alto espadas de fogo, galopavam n'um rhythmo nobre...
Amelia tinha fome, tinha frio. «Paciencia, paciencia, meu amor!» dizia-lhe elle. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que tinha na mão uma palma verde. «Onde está Deus, nosso pai?» perguntou-lhe Amaro, com Amelia conchegada ao peito. A figura disse:—«Eu fui um confessor, e sou um santo: os seculos passam, e immutavelmente, sempiternamente sustento na mão esta palma e banha-me um extase igual! Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensação sacode o meu sêr para sempre immaculado; e immobilisado na bemaventurança, sinto a monotonia do céo pesar-me como uma capa de bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos nas torpezas differentes da terra—ou bracejar, sob as variedades da dôr, nas chammas do purgatorio!»
Amaro murmurou: «Bem fazemos nós em peccar!»—Mas Amelia desfallecia fatigada. «Durmamos, meu amor!» E, deitados, viam estrellas fluctuando n'uma poeirada como o joio sacudido vivamente do crivo. Então nuvens começaram a dispôr-se em torno d'elles, em pregas de cortinados, dando um perfume de
sachets
; Amaro pousou a sua mão sobre o peito d'Amelia: um enleio muito dôce enervava-os: enlaçaram-se, os seus labios pegavam-se humidos e quentes:—«Oh, Ameliasinha!» murmurava elle.—«Amo-te, Amaro, amo-te!» suspirava ella.—Mas de repente as nuvens afastaram-se como os cortinados d'um leito; e Amaro viu diante o diabo que os alcançara, e que, com as garras na cinta, esgaçava a boca n'uma risada muda. Com elle estava outro personagem: era velho como a substancia; nos anneis dos seus cabellos vegetavam florestas; a sua pupilla tinha a vastidão azul d'um oceano; e nos dedos abertos, com que cofiava a barba infindavel, caminhavam, como em estradas, filas de raças humanas.—«Aqui estão os dois sujeitos», dizia-lhe o diabo retorcendo a cauda.—E por traz Amaro via agglomerarem-se legiões de santos e de santas. Reconheceu S. Sebastião com as suas settas cravadas; Santa Cecilia trazendo na mão o seu orgão; por entre elles sentia balarem os rebanhos de S. João; e no meio erguia-se o bom gigante S. Christovão apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro não se podia desenlaçar de Amelia, que chorava muito baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente collados; e Amaro, afflicto, via que as saias d'ella levantadas descobriam os seus joelhos brancos.—«Aqui estão os dois sujeitos», dizia o diabo ao velho personagem, «e repare o meu prezado amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena tem bonitas pernas!» Santos vetustos alçaram-se sôfregamente em bicos de pés, estendendo pescoços onde se viam cicatrizes de martyrios: e as onze mil virgens bateram o vôo como pombas espavoridas! Então o personagem, esfregando as mãos d'onde se esfarelavam universos, disse grave: «Fico inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor parocho, vai-se á rua da Misericordia, arruina-se a felicidade do snr. João Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliasinha á mamã, e vem-se saciar concupiscencias reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou velho—está rouca esta voz que outr'ora tão sabiamente discursava pelos valles. Mas pensa que me assombra o senhor conde de Ribamar, seu protector, apesar de ser um pilar da Igreja e uma columna da Ordem? Pharaó era um grande rei—e eu afoguei-o, e os seus principes captivos, os seus thesouros, os seus carros de guerra, e as manadas dos seus escravos! Eu cá sou assim! E se os senhores ecclesiasticos continuarem a escandalisar Leiria—eu ainda sei queimar uma cidade como um papel inutil, e ainda me resta agua para diluvios!» E voltando-se para dois anjos armados de espadas e lanças, o personagem bradou: «Chumbem uma grilheta aos pés do padre, e levem-no ao abysmo numero sete!» E o diabo gania: «Ahi estão as consequencias, senhor padre Amaro!» Elle sentiu-se arrebatado de sobre o seio d'Amelia por mãos de braza; e ia luctar, bradar contra o juiz que o julgava—quando um sol prodigioso que vinha nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, com um grito, reconheceu o Padre Eterno!
Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janella.
N'essa noite João Eduardo, indo da Praça para casa da S. Joanneira, ficou assombrado, ao vêr apparecer á outra boca da rua, do lado da Sé, o Santissimo em procissão.
E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de mantéo pela cabeça, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o pallio os dourados da estola do parocho reluziam; uma campainha tocava adiante, ás vidraças appareciam luzes;—e na noite escura o sino da Sé repicava, sem descontinuar.
João Eduardo correu aterrado—e soube logo que era a extrema-unção á entrevada.
Tinham posto na escada um candieiro de petroleo sobre uma cadeira. Os serventes encostaram á parede da rua os varaes do pallio, e o parocho entrou. João Eduardo, muito nervoso, subiu tambem: ia pensando que a morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o a presença do parocho e a influencia que elle adquiria n'aquelle momento; e foi quasi quezilado que perguntou á
Ruça
na saleta:
—Então como foi isto?
—Foi a pobre de Christo que esta tarde começou a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava a acabar, e a senhora mandou pelos sacramentos.
João Eduardo, então, julgou delicado ir assistir «á ceremonia».
O quarto da velha era junto á cozinha, e tinha n'aquelle momento uma solemnidade lugubre.
Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um prato com cinco bolinhas de algodão entre duas velas de cera. A cabeça da entrevada, toda branca, a sua face côr de cera mal se distinguiam do linho do travesseiro; tinha os olhos estupidamente dilatados; e ia apanhando incessantemente com um gesto lento a dobra do lençol bordado.
A S. Joanneira e Amelia rezavam ajoelhadas á beira da cama: a snr.
a
D. Maria da Assumpção (que casualmente entrára, ao voltar da fazenda) ficára á porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares, murmurando Salve-Rainhas. João Eduardo, sem ruido, dobrou o joelho junto d'ella.
O padre Amaro, curvado quasi ao ouvido da entrevada, exhortava-a a que se abandonasse á Misericordia divina; mas, vendo que ella não comprehendia, ajoelhou, recitou rapidamente o
Misereatur
; e no silencio, a sua voz erguendo-se nas syllabas latinas mais agudas, dava uma sensação de enterro que enternecia, fazia soluçar as duas senhoras. Depois ergueu-se, molhou o dedo nos santos oleos: murmurando as expressões penitentes do ritual ungiu os olhos, o peito, a boca, as mãos—que ha dez annos só se moviam para chegar a escarradeira, e as plantas dos pés que ha dez annos só se applicavam a buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas de algodão humidas de oleo, ajoelhou-se, ficou immovel, com os olhos postos no Breviario.
João Eduardo voltou em pontas de pés á sala, sentou-se no mocho do piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas. Amelia não tornaria a tocar... E uma melancolia amolleceu-o, vendo no dôce progresso do seu amor aquella brusca interrupção da morte e dos seus ceremoniaes.
A snr.
a
D. Maria entrou então, toda transtornada d'aquella scena—e seguida d'Amelia que trazia os olhos muito vermelhos.
—Ah! ainda bem que aqui está, João Eduardo! disse logo a velha. Que quero que me faça um favor, que é acompanhar-me a casa... Estou toda a tremer... Estava desprevenida, e com perdão de Deus seja dito, não posso ver gente na agonia... Que ella, coitadinha, vai-se como um passarinho... E peccados não os tem... Olhe, vamos pela Praça que é mais perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas não posso ficar... É que me dava a dôr... Ai, que desgosto!... Que para ella até é melhor... Pois olhem, sinto-me a desfallecer...
Foi mesmo necessario que Amelia a levasse a baixo, ao quarto da S. Joanneira, a reconfortal-a caridosamente com um calix de geropiga.
—Ameliasinha, disse então João Eduardo, se eu sou cá necessario para alguma coisa...
—Não, obrigada. Ella está por instantes, coitadinha.
—Não te esqueças, filha, recommendou descendo a snr.
a
D. Maria da Assumpção, põe-lhe as duas velas bentas á cabeceira... Allivia muito na agonia... E se tiver muitos arrancos, põe outras duas apagadas, em cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto!
Á porta, mal viu o pallio, os homens com as tochas, apoderou-se do braço de João Eduardo, collou-se toda a elle com terror—um pouco tambem, com o accesso de ternura que lhe dava sempre a geropiga.
Amaro promettera voltar mais tarde, para «as acompanhar, como amigo, n'aquelle transe». E o conego (que chegára, quando a procissão com o pallio dobrava a esquina para o lado da Sé), informado d'esta delicadeza do senhor parocho, declarou logo que visto que o collega Amaro vinha fazer a noitada, elle ia descansar o corpo porque, Deus bem o sabia, aquellas commoções arrazavam-lhe a saude.
—E a senhora não havia de querer que eu apanhasse alguma e me visse nos mesmos assados...
—Credo, senhor conego! exclamou a S. Joanneira, nem diga isso!...—E começou a choramingar, muito abalada.
—Pois então boas noites, disse o conego, e nada de affligir. Olhe, a pobre creatura, alegria não a tinha: e como não tem peccados não lhe importa achar-se na presença de Deus. Tudo bem considerado, senhora, é uma pechincha! E adeusinho, que me não estou a sentir bem...
Tambem a S. Joanneira não se sentia bem. O choque, logo depois de jantar, dera-lhe ameaças de enxaqueca:—e quando Amaro voltou, ás onze, Amelia que fôra abrir a porta, disse-lhe, ao subir á sala de jantar:
—O senhor parocho desculpe... A mamã veio-lhe a enxaqueca, coitada... Estava que nem via... Deitou-se, pôz agua sedativa e adormeceu...
—Ah! Deixal-a dormir!
Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabeça virada para a parede; dos seus beiços abertos sahia um gemido muito debil e continuo. Sobre a mesa agora, uma grossa vela benta, de murrão negro, erguia uma luz triste; e ao canto, transida de medo, a
Ruça
, segundo as recommendações da S. Joanneira, ia rezando a corôa.
—O senhor doutor, disse Amelia baixo, diz que morre sem o sentir... Diz que ha de gemer, gemer, e de repente acabar como um passarinho...
—Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente o padre Amaro.
Voltaram á sala de jantar. Toda a casa estava silenciosa: fóra ventava forte. Havia muitas semanas que não se encontravam assim sós. Muito embaraçado, Amaro aproximou-se da janella: Amelia encostou-se ao aparador.
—Vamos ter uma noite d'agua, disse o parocho.
—E está frio, disse ella, encolhendo-se no chale. Eu tenho estado passada de medo...
—Nunca viu morrer ninguem?
—Nunca.
Calaram-se—elle immovel ao pé da janella, ella encostada ao aparador, de olhos baixos.
—Pois está frio, disse Amaro, com a voz alterada da perturbação que lhe ia dando a presença d'ella áquella hora da noite.
—Na cozinha está a brazeira accêsa, disse Amelia. É melhor irmos para lá.
—É melhor.
Foram. Amelia levou o candieiro de latão: e Amaro, indo remexer com as tenazes o brazido vermelho, disse:
—Ha que tempo que eu não entro aqui na cozinha!... Ainda tem os vasos com os raminhos fóra da janella?
—Ainda, e um craveiro...
Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da brazeira.—Amelia, inclinada para o lume, sentia os olhos do padre Amaro devora-la silenciosamente. Elle ia fallar-lhe, decerto! Tinha as mãos a tremer; não ousava mover-se, erguer as palpebras, com medo que lhe rompessem as lagrimas; mas anciava pelas suas palavras, ou amargas ou dôces...
Ellas vieram emfim, muito graves.
—Menina Amelia, disse, eu não esperava poder assim fallar-lhe a sós. Mas as coisas arranjaram-se... É decerto a vontade de Nosso Senhor! E depois, como as suas maneiras mudaram tanto...
Ella voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho tremulo:
—Mas bem sabe porquê! exclamou quasi chorando.
—Sei. Se não fosse aquelle infame
Communicado
, e as calumnias... nada se tinha passado, e a nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem... É justamente a esse respeito que eu lhe quero fallar.
Chegou a cadeira mais para junto d'ella, e muito suave, muito tranquillo:
—Lembra-se d'esse artigo em que todos os amigos da casa eram insultados? em que eu era arrastado pela rua da amargura? em que a menina mesma, a sua honra era offendida?... Lembra-se, hein? Sabe quem o escreveu?
—Quem? perguntou Amelia toda surprehendida.
—O snr. João Eduardo! disse o parocho muito tranquillamente, cruzando os braços diante d'ella.
—Não póde ser!
Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho pelas saias para a fazer sentar; e a sua voz continuou paciente e suave:
—Ouça. Sente-se. Foi elle que o escreveu. Soube hontem tudo. O Natario viu o original escripto pela letra d'elle. Foi elle que descobriu. Por meios dignos decerto... e porque era a vontade de Deus que a verdade apparecesse. Agora escute. A menina não conhece esse homem.—Então, baixo, contou-lhe o que sabia de João Eduardo, por Natario; as suas noitadas com o Agostinho, as suas injurias contra os padres, a sua irreligião...
—Pergunte-lhe se elle se confessa ha seis annos, e peça-lhe os bilhetes da confissão!
Ella murmurava, com as mãos cahidas no regaço:
—Jesus... Jesus!...
—Eu então entendi que como intimo da casa, como parocho, como christão, como seu amigo, menina Amelia... porque acredite que lhe quero... emfim, entendi que era o meu dever avisal-a! Se eu fosse seu irmão, dizia-lhe simplesmente: «Amelia, esse homem fóra de casa!» Não o sou, infelizmente. Mas venho, com dedicação d'alma, dizer-lhe: «O homem com quem quer casar surprehendeu a sua boa fé e de sua mamã; vem aqui, sim senhor, com apparencias de bom moço, e no fundo é...»
Ergueu-se, como ferido d'uma indignação irreprimivel:
—Menina Amelia, é o homem que escreveu esse
Communicado!
que fez ir o pobre Brito para a serra de Alcobaça! que me chamou a mim
seductor!
que chamou devasso ao senhor conego Dias!
Devasso!
Que lançou veneno nas relações de sua mamã com o conego! e que a accusou á menina, em bom portuguez, de se deixar seduzir! Diga, quer casar com esse homem?
Ella não respondeu, com os olhos cravados no lume, duas lagrimas mudas sobre as faces.
Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao pé d'ella, com a voz abrandada, gestos muito amigos:
—Mas supponhamos que não era elle o auctor do
Communicado
, que não tinha insultado em letra redonda a sua mamã, o senhor conego, os seus amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse com elle! Ou teria de condescender com as opiniões do homem, abandonar as suas devoções, romper com os amigos de sua mãi, não pôr os pés na igreja, dar escandalo a toda a gente honesta, ou teria de se pôr em opposição com elle, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questão! Por jejuar á sexta-feira, por ir á exposição do Santíssimo, por cumprir o domingo... Se se quizesse confessar, que desavenças! Um horror! E sujeitar-se a ouvil-o escarnecer os mysterios da fé! Ainda me lembro, na primeira noite que aqui passei, com que desacato elle fallou da santa da Arregassa!... E ainda me lembro uma noite que o padre Natario aqui fallava dos soffrimentos do nosso santo padre Pio IX, que seria preso, se os liberaes entrassem em Roma... Como elle tinha risinhos de escarneo, como disse que eram exagerações!... Como se não fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberaes veriamos o chefe da Igreja, o vigario de Christo, dormir n'um calabouço em cima d'umas poucas de palhas! São as opiniões d'elle, que elle apregôa por toda a parte! O padre Natario diz que elle e o Agostinho estavam no café ao pé do Terreiro a dizer que o baptismo era um abuso, porque cada um devia escolher a religião que quizesse, e não ser forçado, de pequeno, a ser christão! Hein, que lhe parece? Como seu amigo lh'o digo... Para bem de sua alma antes a queria vêr morta do que ligada a esse homem! Case com elle, e perde para sempre a graça de Deus!
Amelia levou as mãos ás fontes, e deixando-se cahir para as costas da cadeira, murmurou, muito desgraçada:
—Oh, meu Deus, meu Deus!
Amaro então sentou-se ao pé d'ella, tocando-lhe quasi o vestido com o joelho, pondo na voz uma bondade paternal:
—E depois, minha filha, pensa que um homem assim póde ter bom coração, apreciar a sua virtude, querer-lhe como um marido christão? Quem não tem religião não tem moral. Quem não crê não ama, diz um dos nossos santos padres. Depois de lhe passar o fogacho da paixão, começaria a ser duro comsigo, mal humorado, voltaria a frequentar o Agostinho e as mulheres da vida, e maltrata-la-hia talvez... E que susto constante para si! Quem não respeita a religião não tem escrupulos: mente, rouba, calumnia... Veja o
Communicado
. Vir aqui apertar a mão ao senhor conego, e ir para o jornal chamar-lhe devasso! Que remorsos não sentiria a menina, mais tarde, á hora da morte! É muito bom emquanto se tem saude e se é nova; mas quando chegasse a sua ultima hora, quando se achasse, como aquella pobre creatura que está alli, nos ultimos arrancos, que terror não sentiria de ter de apparecer diante de Jesus Christo, depois de ter vivido em peccado ao lado d'esse homem! Quem sabe se elle não recusaria que lhe dessem a extrema-unção! Morrer sem sacramentos, morrer como um animal!...
—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro nervoso.
—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. Não ha banhos publicados... Diga-lhe que não quer casar, que sabe tudo, que o odeia...
Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. E subitamente, com voz d'um ardor brusco:
—Não se importa com elle, não é verdade?
Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida sobre o peito:
—Não.
—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta d'outro?
Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.
—Gosta? diga, diga!
Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para elle os olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.
—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, n'um terror, a voz da
Ruça
, dentro.
Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou encostar-se á porta da cozinha um momento, com as pernas vergadas, a mão sobre o coração. Recuperou-se, desceu a acordar a mãe.
Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no chão; uma respiração accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o parocho precipitava as suas orações. Subitamente o som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e baços. Expirára.
O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, recordando o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...
—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive tão mal, que não se tirou de ao pé de mim, noite e dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha alma, Deus da minha alma!
Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, olhava entorpecida a noite negra.
Bateram então á campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da porta aberta; emfim balbuciou:
—Eu vinha saber se havia novidade...
—A pobre senhora expirou agora mesmo...
—Ah!
Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse João Eduardo.
—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar.
João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando—mas vendo o parocho abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua:
—Bem, boa noite, disse.
—Boa noite.
O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o Breviario.
Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho do Porto que achára no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janellas. Como a noite estava escura não pôde distinguir «o passeante».—Era João Eduardo que rondava a casa, furioso.
XIII
Ao outro dia cedo, a snr.
a
D. Josepha Dias que entrára, havia pouco, da missa, ficou muito surprehendida, ouvindo a criada que lavava as escadas dizer de baixo:
—Está aqui o senhor padre Amaro, snr.
a
D. Josepha!
O parocho ultimamente raras vezes vinha a casa do conego; e D. Josepha gritou logo lisonjeada e já curiosa:
—Que suba para aqui, não é de ceremonia! É como de familia. Que suba!
Estava na sala de jantar, arranjando n'uma travessa ladrilhos de marmelada, com um vestido de hareje preto esgaçado na ilharga e arqueado em redor dos tornozelos por uma
crinoline
d'um só arco; trazia n'essa manhã oculos azues; e foi logo ao patamar, arrastando os seus medonhos chinelos d'ourêlo, e preparando, por debaixo do lenço preto repuxado sobre a testa, um ar agradavel para o senhor parocho.
—Ora ditosos olhos! exclamou. Eu entrei ha bocadinho, e já cá tenho a primeira missinha. Fui hoje á capella de Nossa Senhora do Rosario... Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude que me fez hoje, senhor parocho! Sente-se. Ahi não, que lhe vem ar da porta... E então a pobre entrevada lá se foi... Conte lá, senhor parocho...
O parocho teve de descrever a agonia da entrevada, a dôr da S. Joanneira; como depois de morta a face da velha parecera remoçar; o que as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...
—Aqui para nós, D. Josepha, é um grande allivio para a S. Joanneira...—E de repente, puxando-se para a beira da cadeira, assentando as mãos nos joelhos:—E que me diz á do senhor João Eduardo? Já sabe? Foi elle que escreveu o artigo!
A velha exclamou, levando as mãos á cabeça:
—Ai! nem me falle n'isso, senhor parocho! Nem me falle n'isso, que até tenho estado doente!
—Ah, já sabe?
—E mais que sei, senhor parocho! O senhor padre Natario, devo-lhe esse favor, esteve aqui hontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma perdida!
—E sabe que é o intimo do Agostinho, que são bebedeiras na redacção até de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a religião...
—Ai, por quem é, senhor parocho, nem me diga, nem me diga! Que hontem, quando o senhor padre Natario esteve ahi, até tive escrupulos d'ouvir tanto peccado... Que lhe devo esse favor, ao senhor padre Natario, logo que soube veio-me contar... É de muito delicado... E olhe, senhor parocho, a mim sempre me quiz parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o disse, nunca o disse! Que lá isso, esta boquinha nunca se pôz em vidas alheias... Mas tinha cá dentro um palpite. Elle ia á missa, cumpria o jejum; mas eu cá tinha a desconfiança que aquillo era para enganar a S. Joanneira e a pequena. Agora se vê! Eu foi creatura que nunca me cahiu em graça! Nunca, senhor parocho!—E de repente, com os olhinhos luzidios d'uma alegria perversa:—E agora, já se sabe, o casamento desmancha-se?
O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:
—Elle, minha senhora, seria notorio que uma rapariga de bons principios fosse casar com um pedreiro-livre, que não se confessa ha seis annos!
—Credo, senhor parocho! antes vêl-a morta! É necessario dizer tudo á rapariga...
O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao pé d'ella:
—Pois foi justamente para isso que eu a vim procurar, minha senhora. Eu hontem já fallei com a pequena... Mas comprehende, no meio d'aquelle desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, não pude insistir muito. Emfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos, expuz-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. Fiz o que pude, minha senhora, como amigo e como parocho. E como era o meu dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como christã e como senhora, tinha obrigação de romper com o escrevente.
—E ella?
O padre Amaro fez uma visagem descontente:
—Não disse que
sim
nem que
não
. Pôz-se a fazer biquinho, a choramingar. É verdade que estava muito alterada com a morte em casa. Que a rapariga não morre por elle, isso é claro; mas quer casar, tem medo que a mãi morra, que se veja só... Emfim sabe o que são raparigas! Que as minhas palavras fizeram-lhe effeito, ficou muito indignada, etc... Mas emfim, eu pensei que o melhor era a senhora fallar-lhe. A senhora é a amiga da casa, é madrinha, conheceu-a de pequena... Estou certo que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrança... Tudo isto são considerações...
—Ai, fica por minha conta, senhor parocho! exclamou a velha; hei de lh'as cantar!...
—A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós, precisa quem a confesse! Ella confessa-se ao padre Silverio; mas, sem querer dizer mal, o padre Silverio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita virtude; mas o que se chama
geito
não tem. Para elle a confissão é a
desobriga
. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta, nem mata, nem deseja a mulher do seu proximo! A confissão assim não lhe aproveita: o que ella precisa é um confessor
têso
, que lhe diga—
para alli!
e sem réplica. A rapariga é um espirito fraco; como a maior parte das mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a governe com uma vara de ferro, a quem ella obedeça, a quem conte tudo, de quem tenha medo... É como deve ser um confessor.
—O senhor parocho é que lhe servia...
Amaro sorriu modestamente:
—Não digo que não. Havia de aconselhal-a bem; sou amigo da mãi, acho que ella é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que converso com ella, todos os conselhos que posso, em tudo, dou-lh'os... Mas a senhora comprehende, ha coisas em que se não póde estar a fallar na sala, com gente á volta... Só se está á vontade no confessionario. E é o que me falta, são as occasiões de lhe fallar só. Mas emfim eu não posso ir dizer-lhe: «a menina agora ha de se confessar commigo»! Eu n'isso sou muito escrupuloso...
—Mas digo-lh'o eu, senhor parocho! Ah, digo-lh'o eu!...
—Ora isso é que era um grande favor! Era um bem que fazia áquella alma! Porque se a rapariga me entrega a direcção da sua alma, então podemos dizer que lhe acabaram as difficuldades, e temol-a no caminho da graça... E quando lhe vai fallar, D. Josepha?
D. Josepha, «como julgava peccado adiar», estava decidida a fallar-lhe essa mesma noite.
—Não me parece, D. Josepha. Hoje é noite de pezames... O escrevente naturalmente está lá...
—Credo, senhor parocho! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar a noite debaixo das mesmas telhas com o hereje?
—Tem de ser. Emfim o rapaz por ora é considerado da familia... Além d'isso, D. Josepha, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas da maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho da nossa virtude. Arriscamo-nos a perder-lhe todos os fructos. E é um acto de humildade, que agrada muito a Deus, o misturar-nos ás vezes com os maus; é como quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador d'enxada... É como se dissessemos: «eu sou-te superior em virtude, mas comparado com o que devia ser para entrar na gloria, quem sabe se não sou tão peccador como tu!...» E esta humilhação da alma é a melhor offerta que podemos fazer a Jesus.
D. Josepha escutava-o, babosa; e n'uma admiração:
—Ai, senhor parocho, que até dá virtude ouvil-o!
Amaro curvou-se:
—Deus ás vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras... Pois minha senhora, eu não quero massar mais. Ficamos entendidos. A senhora falla á pequena ámanhã; e se, como é de crêr, ella consentir em escutar os meus conselhos, traz-m'a á Sé no sabbado, ás oito horas. E falle-lhe têso, D. Josepha!
—Deixe-a commigo, senhor parocho!... Então não quer provar da minha marmelada?
—Provarei, disse Amaro tomando um ladrilho em que cravou os dentes com dignidade.
—É dos marmelos da D. Maria. Sahiu-me melhor que a das Gangosinhos...
—Pois adeus, D. Josepha... Ah, é verdade, que diz o nosso conego d'este caso do escrevente?
—O mano?...
N'este momento a campainha em baixo repicou com furor.
—Ha de ser elle, disse logo D. Josepha. E vem zangado!
Vinha, com effeito, da fazenda—furioso com o caseiro, o regedor, o governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma porção de cebolinho; e, abafado de cólera, alliviava-se repetindo com gozo o nome do Inimigo.
—Credo, mano, que até lhe fica mal!—exclamou D. Josepha tomada d'escrupulos.
—Ora mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo
co'os diabos!
e repito
co'os diabos
! Mas eu lá disse ao caseiro, que se sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faça fogo!
—Ha uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.
—Ha uma falta de respeito por tudo! exclamou o conego. Um cebolinho que dava saude só olhar para elle! Pois senhores, lá vai! Isto é o que eu chamo um sacrilegio!... Um desaforado sacrilegio!—acrescentou convictamente; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho d'um conego, parecia-lhe um acto tão negro d'impiedade como se tivessem sido furtados os vasos santos da Sé.
—Falta de temor a Deus, falta de religião, observou D. Josepha.
—Qual falta de religião! replicou o conego exasperado. Falta de cabos de policia, é o que é!—E voltando-se para Amaro:—Hoje é o enterro da velha, hein? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá dentro uma volta lavada e os sapatos de fivela!
O padre Amaro então, retomado pela sua preoccupação:
—Estavamos cá a fallar do caso do João Eduardo: o
Communicado
!
—Isso é outra maroteira que tal! fez logo o conego. Vejam essa, tambem! Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha!—E ficou de braços cruzados, com os olhos arregalados, como contemplando uma legião de monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudencia contra as reputações, os principios da Igreja, a honra das familias e o cebolinho do clero.
Ao sahir, o padre Amaro renovou ainda as suas recommendações a D. Josepha, que o acompanhára ao patamar:
—Então hoje, noite de pezames, não se faz nada. Ámanhã falla á rapariga, e lá para o fim da semana leva-m'a á Sé. Bem. E convença a rapariga, D. Josepha, trate de salvar aquella alma! Olhe que Deus tem os olhos em si. Falle-lhe têso, falle-lhe têso!... E o nosso conego que se entenda com a S. Joanneira.
—Póde ir descansado, senhor parocho. Sou madrinha, e, quer ella queira quer não, hei de pôl-a no caminho da salvação...
—Amen, disse o padre Amaro.
N'essa noite, com effeito, D. Josepha «não fez nada». Eram os pezames na rua da Misericordia. Estavam em baixo, na saleta, alumiada lugubremente por uma só vela com um
abat-jour
verde-escuro. A S. Joanneira e Amelia, de luto, occupavam tristemente o canapé ao centro; e em redor, nas fileiras de cadeiras apoiadas á parede, as amigas, cobertas de negro pesado, conservavam-se funebremente immoveis, de faces contristadas, n'um torpôr mudo: ás vezes duas vozes ciciavam, ou d'um canto, na sombra, sahia um suspiro: depois o Libaninho, ou Arthur Couceiro, ia em bicos de pés espevitar o murrão da véla: a snr.
a
D. Maria da Assumpção expectorava o seu catarrho com um som choroso: e no silencio ouviam tamancos bater o lagedo da rua, ou os quartos d'hora no relogio da Misericordia.
A intervallos a
Ruça
, toda de negro, entrava com o taboleiro de dôces e copos de chasada; levantava-se então o
abat-jour
; e as velhas, que já iam cerrando as palpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo os lenços aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnação.
João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, ao pé da Gansoso surda que dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o olhar d'Amelia, que não se movia, com o rosto sobre o peito, as mãos no regaço, torcendo e destorcendo o seu lenço de cambraiela. O padre Amaro e o conego Dias vieram ás nove horas: o parocho com passos graves foi dizer á S. Joanneira:
—Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua excellentissima mana está a esta hora gozando a companhia de Jesus Christo.
Houve em redor uma murmuração de soluços; e como não restavam cadeiras, os dois ecclesiasticos sentaram-se aos dois cantos do canapé, tendo no meio a S. Joanneira e Amelia em lagrimas. Eram assim reconhecidos pessoas de familia; a snr.
a
D. Maria da Assumpção notou baixinho a D. Joaquina Gansoso:
—Ai, até dá gosto vêl-os assim todos quatro!
E até ás dez horas a noite de pezames continuou soturna e somnolenta, perturbada apenas pela tosse constante de João Eduardo que estava constipado, e que—na opinião da snr.
a
D. Josepha Dias que o disse a todos, depois—«tossia só para fazer troça e para achincalhar o respeito aos mortos».
D'ahi a dois dias, ás oito horas da manhã, a snr.
a
D. Josepha Dias e Amelia entraram na Sé—depois de terem fallado no terraço á Amparo, mulher do boticario, que tinha uma criança com sarampo, e, apesar de não ser coisa de cuidado, «viera á cautela fazer uma promessa».
O dia estava ennevoado, a igreja tinha uma luz parda. Amelia, pallida sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dôres, deixou-se cahir de joelhos, e ficou immovel, com o rosto sobre o livro de missa. A snr.
a
D. Josepha Dias, com passos fôfos, depois de se ter prostrado diante da capella do Santíssimo e do altar-mór, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro lá passeava, com os hombros vergados, as mãos atraz das costas:
—Então? perguntou logo, erguendo para D. Josepha a sua face muito barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.
—Está alli, disse a velha baixinho, n'uma expressão de triumpho. Fui eu mesmo buscal-a! Ai, fallei-lhe têso, senhor parocho, não lh'as poupei! Agora é comsigo!
—Obrigado, obrigado, D. Josepha! disse o padre, apertando-lhe as mãos ambas com força. Deus ha de lh'o levar em conta.
Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o lenço, a carteira dos papeis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu á igreja. Amelia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro immovel contra o pilar branco.
—Pst, fez-lhe D. Josepha.
Ella ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as mãos as pregas da mantilha em roda do pescoço.
—Aqui lh'a deixo, senhor parocho, disse a velha. Vou á Amparo da botica, e venho depois por ella... Ora vai, filha, vai, Deus t'alumie essa alma!
E sahiu, com mesuras a todos os altares.
O Carlos da botica—que era inquilino do conego e um pouco ronceiro na renda—desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josepha appareceu á porta, e conduziu-a logo acima, á sala de cortinas de cassa, onde a Amparo costurava á janella.
—Ai, não se prenda, snr. Carlos, dizia-lhe a velha. Não largue os seus afazeres. Eu deixei a afilhada na Sé, e venho aqui descansar um bocadinho.
—Então, se me dá licença... E como vai o nosso conego?
—Não tornou a ter a dôr. Mas tem soffrido de tonturas.
—Começos da primavera, disse o Carlos que retomára o seu ar magestoso, de pé no meio da sala, com os dedos nas aberturas do collete. Tambem eu me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas sanguíneas, soffremos sempre d'isto que se póde chamar o renascimento da seiva... Ha uma abundancia d'humores no sangue, que, não sendo eliminados pelos canaes proprios, vão, por assim dizer, abrir caminho, aqui e além, pelo corpo, sob a fórma de furunculo, espinha, nascida, ás vezes em logares bem incommodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por assim dizer, d'um cortejo... Perdão, sinto o praticante a palrar... Se me dá licença... Respeitos ao nosso conego. Que use a magnesia de James!
D. Josepha então quiz vêr a menina com o sarampo. Mas não passou da porta do quarto, recommendando á pequena, que arregalava uns olhos de febre, muito abafada na roupa, «não se descuidasse das suas oraçõesinhas de manhã e á noite». Aconselhou á Amparo alguns remedios, que eram milagrosos no sarampo; mas se a promessa fôra feita com fé, a menina podia-se considerar curada... Ai, todos os dias dava graças a Deus de se não ter casado! Que filhos eram só para trabalho e canceiras; e com as quezilias que traziam e o tempo que tomavam, eram até causa d'uma mulher se descuidar das suas praticas e metter a alma no inferno...
—Tem razão, D. Josepha, disse a Amparo, é um castigo... E eu com cinco! Ás vezes fazem-me tão doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me a chorar só commigo...
Tinham voltado para junto da janella, e gozaram muito, espreitando o senhor administrador do concelho, que, por traz da vidraça da repartição, namorava de binoculo a do Telles alfaiate.—Aí, era um escandalo! Que nunca houvera em Leiria auctoridades assim! O secretario geral em um desafôro com a Novaes... Que se podia esperar de homens sem religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josepha, estava predestinada a parecer como Gomorrha pelo fogo do céo?—A Amparo cosia com a cabeça baixa, envergonhada talvez diante d'aquella indignação piedosa, dos desejos culpados que a roiam de vêr o Passeio Publico e de ouvir os cantores em S. Carlos.
Mas bem depressa a snr.
a
D. Josepha começou a fallar do escrevente. A Amparo não sabia nada; e a velha teve a satisfação de contar prolixamente, «tim-tim por tim-tim», a historia do
Communicado
, o desgosto na rua da Misericordia, e a campanha de Natario para descobrir o
liberal
. Alargou-se principalmente sobre o caracter de João Eduardo, a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de christã aniquilar o atheu, deu mesmo a entender que alguns roubos, ultimamente commettidos em Leiria, eram «obra de João Eduardo».
A Amparo declarou-se «banzada». O casamento então, com a Ameliasinha...
—Isso pertence á historia, declarou com jubilo D. Josepha Dias. Vão pôl-o fóra de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em não ir parar ao banco dos réos... Que a mim o deve, e á prudencia do mano e do senhor padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!
—Mas a pequena gostava d'elle, ao que parece.
D. Josepha indignou-se. Credo, a Amelia era uma rapariga de juízo, de muita virtude! Apenas conheceu os desafôros, foi a primeira a dizer que não, e que não! Ai! detestava-o...—E D. Josepha, baixando a voz em confidencia, contou «que era positivo que elle vivia com uma desgraçada para os lados do quartel».
—Disse-m'o o senhor padre Natario, affirmou. E aquillo é homem que da sua boca nunca sae senão a verdade pura... Foi muito delicado commigo, devo-lhe esse favor. Apenas soube, veio-m'o logo dizer a casa, pedir-me conselhos... Emfim, muito attencioso.
Mas o Carlos appareceu de novo. Tinha a botica desembaraçada um momento (que não o tinham deixado respirar toda a manhã!) e vinha fazer companhia ás senhoras.
—Então já sabe, snr. Carlos, exclamou logo D. Josepha, o caso do
Communicado
e do João Eduardo?
O pharmaceutico arregalou os seus olhos redondos. Que relação havia entre um artigo tão indigno e esse mancebo que lhe parecia honesto?
—Honesto!? ganiu a snr.
a
D. Josepha Dias. Foi elle que o escreveu, snr. Carlos!
E vendo o Carlos morder o beiço de surpreza, D. Josepha, enthusiasmada, repetiu a historia da «maroteira».
—Que lhe parece, snr. Carlos, que lhe parece?
O pharmaceutico deu a sua opinião, n'uma voz vagarosa, sobrecarregada da auctoridade d'um vasto entendimento:
—N'esse caso digo, e todas as pessoas de bem o dirão commigo, é uma vergonha para Leiria. Eu já tinha observado, quando li o
Communicado
: a religião é a base da sociedade, e minal-a é, por assim dizer, querer aluir o edificio... É uma desgraça que haja na cidade d'esses sectarios do materialismo e da republica, que, como é sabido, querem destruir tudo o que existe: proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a promiscuidade de cães e cadellas... (Desculpem exprimir-me assim, mas a sciencia é a sciencia). Querem ter o direito de entrar em minha casa, levar-me as pratas e o suor do meu rosto; não admittem que haja auctoridades, e se os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada hostia...
D. Josepha encolheu-se com um gritinho, muito arripiada.
—E ousa esta seita fallar em liberdade! Eu tambem sou liberal... Que, francamente o digo, eu não sou fanatico... Nem pelo facto d'um homem pertencer ao sacerdocio, o julgo um santo, não... Por exemplo, sempre embirrei com o parocho Migueis... Era uma giboia! Desculpe-me a senhora, mas era uma giboia. Disse-lh'o na cara, porque a lei das rolhas já lá vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente para não haver lei das rolhas... Disse-lh'o na cara: «v. s.
a
é uma giboia!» Mas, emfim, quando um homem veste uma batina deve ser respeitado... E o
Communicado
, repito, é um vergonha para Leiria... E tambem lhe digo, com esses atheus, esses republicanos, não deve haver consideração!... Eu sou homem pacifico, aqui a Amparosinho conhece-me bem; pois se eu tivesse d'aviar uma receita para um republicano declarado, não tinha duvida, em logar de lhe dar uma d'essas composições beneficas que são o orgulho de nossa sciencia, de lhe mandar uma dóse d'acido prussico... Não, não direi que lhe mandasse acido prussico... mas se estivesse no banco dos jurados havia de lhe fazer cahir em cima todo o peso da lei!
E balançou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lançando um grande gesto em redor, como se esperasse os applausos d'um conselho de districto ou d'uma municipalidade em sessão.
Mas na Sé bateram então devagar as onze; e D. Josepha embrulhou-se á pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia d'estar farta d'esperar.
O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como um mimo que remettia ao seu senhorio):
—Repita ao nosso conego quaes são as minhas opiniões... Que n'essa questão do
Communicado
e d'ataques ao clero, estou d'alma e coração com suas senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo vai-se a embrulhar.
Quando D. Josepha entrou na igreja, Amelia estava ainda no confessionario. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mãos sobre a face, abysmou-se n'uma devoção á Senhora do Rosario. A igreja ficou n'uma immobilidade e n'um silencio. Depois D. Josepha, voltando-se para o confessionario, espreitou por entre os dedos; Amelia conservava-se immovel, com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido negro espalhada em redor; e D. Josepha recahiu na sua reza. Uma chuva fina fustigava agora os vidros d'uma janella ao lado. Emfim houve no confessionario um rangido da madeira, um frou-frou de vestidos nas lages,—e D. Josepha, voltando-se, viu de pé diante d'ella Amelia com a face escarlate e o olhar reluzindo muito.
—Está ha muito tempo á espera, madrinha!
—Um bocadinho. Estás promptinha, hein?
Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras sahiram da Sé. Ainda cahia uma chuva fina; mas o snr. Arthur Couceiro, que passava no largo com officios para o governo civil, foi leval-as á rua da Misericordia debaixo do seu guardachuva.
XIV
João Eduardo, á noitinha, ia sahir de casa para a rua da Misericordia, levando debaixo do braço um rolo de amostras de papel de parede para Amelia escolher, quando á porta encontrou a
Ruça
que ia puxar a campainha.
—Que é,
Ruça
?
—As senhoras foram passar a noite fóra de casa, e aqui está esta carta que manda a menina.
João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o coração, e seguia com o olhar pasmado a
Ruça
, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do candieiro, defronte, abriu a carta:
«Snr. João Eduardo.
«O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuasão que era v. s.
a
uma pessoa de bem e que me poderia fazer feliz; mas como se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu o artigo do
Districto
, e calumniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes não me dão garantia de felicidade na vida de casada, deve desde hoje considerar tudo acabado entre nós, pois não ha banhos publicados nem despezas feitas. E eu espero, bem como a mamã, que o senhor seja bastante delicado para não nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe communico por ordem da mamã, e sou
«criada de v. s.a «Amelia Caminha».
João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a claridade do candieiro, immovel como uma pedra, com o seu rolo de papeis pintados debaixo do braço. Machinalmente voltou a casa. As mãos tremiam-lhe tanto, que mal podia accender o candieiro. De pé, junto da mesa, releu a carta. Depois ficou alli, fatigando a vista contra a chamma da torcida, com uma sensação arrefecedora de Immobilidade e de Silencio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse emmudecido e parado. Pensou onde teriam
ellas
ido passar a noite. Lembranças de serões felizes na rua da Misericordia atravessaram-lhe devagar na memoria: Amelia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre o cabello muito preto e o collar muito branco o seu pescoço tinha uma pallidez que a luz amaciava... Então a idéa de que a perdera para sempre varou-lhe o coração com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as mãos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resoluções bruscas relampejavam-lhe um momento no espirito, esvaiam-se. Queria escrever-lhe! tiral-a por justiça! ir para o Brazil! saber quem descobrira que elle era o auctor do artigo!—E como isto era o mais practicavel áquella hora, correu á redacção da
Voz do Districto
.
Agostinho, estirado no canapé, com a véla ao pé sobre uma cadeira, saboreava os jornaes de Lisboa. A face decomposta de João Eduardo assustou-o.
—Que é?
—É que me perdeste, maroto!
E d'um só fôlego accusou furiosamente o corcunda de o ter trahido.
Agostinho erguera-se devagar, procurando imperturbavel a bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta.
—Homem, disse, nada d'espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra d'honra que não disse a ninguem do
Communicado
. É verdade que ninguem me perguntou...
—Mas quem foi, então? gritou o escrevente.
Agostinho enterrou a cabeça nos hombros.
—Eu o que sei é que os padres andavam n'uma azafama para saber quem era. O Natario esteve ahi uma manhã, por causa do annuncio de uma viuva que recorre á caridade publica, mas do
Communicado
não se disse nem palavra... O doutor Godinho é que sabia, entende-te com elle! Mas então fizeram-te alguma?
—Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente.
Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e sahiu arremessando a porta. Passeou na Praça; foi ao acaso pelas ruas; depois, attrahido pela obscuridade, á estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intoleravel palpitação surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir n'um silencio universal; por vezes a idéa da sua desgraça rasgava-lhe subitamente o coração, e então imaginava vêr toda a paizagem oscillar e o chão da estrada afigurava-se-lhe molle como um lamaçal. Voltou pela Sé quando batiam onze horas; e achou-se na rua da Misericordia, com o olhar cravado para a janella da sala de jantar, onde havia ainda luz; a vidraça do quarto d'Amelia alumiou-se tambem; ella ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um desejo furioso da sua belleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para casa: uma fadiga intoleravel prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade indefinida, profunda, foi-o amollecendo, e chorou muito tempo, enternecendo-se mais com o som dos seus proprios soluços,—até que ficou adormecido, de bruços, n'uma massa inerte.
Ao outro dia, cedo, Amelia vinha da rua da Misericordia para a Praça, quando ao pé do Arco João Eduardo lhe sahiu d'emboscada.
—Quero-lhe fallar, menina Amelia.
Ella recuou assustada, disse a tremer:
—Não tem que me fallar...
Mas elle plantára-se diante d'ella, muito decidido, com os olhos vermelhos como carvões:
—Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, fui eu que o escrevi, foi uma desgraça; mas a menina tinha-me ralado de ciumes... Mas o que a menina diz de maus costumes é uma calumnia. Eu sempre fui um homem de bem...
—O senhor padre Amaro é que o conhece! Faz favor de me deixar passar...
Ao nome do parocho, João Eduardo fez-se livido de raiva:
—Ah! é o senhor padre Amaro! É o maroto do padre! Pois veremos! Ouça...
—Faz favor de me deixar passar! disse ella irritada, tão alto, que um sujeito gordo de chale-manta parou olhando.
João Eduardo recuou, tirando o chapéo; e ella, immediatamente, refugiou-se na loja do Fernandes.
Então, n'um desespero, correu a casa do doutor Godinho. Já na vespera, por entre os seus-accessos de chôro, sentindo-se tão abandonado, se lembrára do doutor Godinho. Fôra outr'ora seu escrevente; e como por pedido d'elle entrára no cartorio do Nunes Ferral, e por sua influencia ia ser accommodado no governo civil, julgava-o uma Providencia prodiga e inesgotavel! Demais, desde que escrevera o
Communicado
considerava-se da redacção da
Voz do Districto
, do grupo da Maia; agora, que era atacado pelos padres, devia claramente ir acolher-se á forte protecção do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reacção, o «Cavour de Leiria», como dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, auctor dos
Ferrões
.—E João Eduardo, dirigindo-se ao casarão amarello, ao pé do Terreiro onde o doutor vivia, ia n'um alvoroço d'esperanças, contente com se refugiar, como um cão escorraçado, entre as pernas d'aquelle colosso.
O doutor Godinho descera já ao escriptorio, e repoltreado na sua poltrona abbacial de prégos amarellos, com os olhos no tecto de carvalho escuro, acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu com magestade os «bons dias» de João Eduardo.
—Então que temos, amigo?
As altas estantes d'in-folios graves, as resmas d'autos, o apparatoso painel representando o marquez de Pombal, de pé n'um terraço sobre o Tejo, expulsando com o dedo a esquadra ingleza—acanharam como sempre João Eduardo; e foi com voz embaraçada que disse vinha alli para que sua excellencia lhe désse remedio n'uma desgraça que lhe succedia.
—Desordens, bordoada?
—Não, senhor, negocios de familia.
Contou então, prolixamente, a sua historia desde a publicação do
Communicado
: leu muito commovido, a carta d'Amelia; descreveu a scena ao pé do Arco... Alli estava agora, escorraçado da rua da Misericordia por obras do senhor parocho! E parecia-lhe a elle, apesar de não ser formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia n'uma familia, desinquietava uma menina simples, a levava por intrigas a romper com o noivo e ficava de portas a dentro senhor d'ella—devia haver leis!
—Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver leis!
O doutor Godinho parecia contrariado.
—Leis!? exclamou traçando vivamente a perna. Que leis quer vossê que haja? Quer querelar do parocho?... Porque? Elle bateu-lhe? roubou-lhe o relogio? insultou-o pela imprensa? Não. Então?...
—Oh, senhor doutor! mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem de maus costumes, senhor doutor! Calumniou-me!
—Tem testemunhas?
—Não, senhor.
—Então?
E o doutor Godinho, assentando os cotovêlos sobre a banca, declarou que como advogado não tinha nada a fazer. Os tribunaes não tomavam conhecimento d'essas questões, d'esses dramas moraes por assim dizer, que se passavam nas alcovas domesticas... Como homem, como particular, como Alipio de Vasconcellos Godinho tambem não podia intervir porque não conhecia o senhor padre Amaro, nem essas senhoras da rua da Misericordia... Lamentava o facto, porque emfim fôra novo, sentira a poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses transes do coração... E ahi está tudo o que elle podia fazer—lamentar! Tambem para que tinha elle dado a sua affeição a uma beata?...
João Eduardo interrompeu-o:
—A culpa não é d'ella, senhor doutor! A culpa é do padre que a anda a desencaminhar! A culpa é d'essa canalha do cabido!
O doutor Godinho estendeu com severidade a mão, e aconselhou o snr. João Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asserções! Nada provava que o senhor parocho possuisse n'essa casa outra influencia que não fosse a d'um habil director espiritual... E recommendava ao snr. João Eduardo, com a auctoridade que lhe davam os annos e a sua posição no paiz, que não fosse espalhar, por despeito, accusações que só serviam para destruir o prestigio do sacerdocio, indispensavel n'uma sociedade bem constituida!—Sem elle, tudo seria anarchia e orgia!
E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava n'essa manhã com «o dom da palavra».
Mas a face consternada do escrevente, que não se movia, de pé junto á banca, impacientava-o; e disse com seccura, puxando para diante de si um volume d'autos:
—Emfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, eu não lhe posso dar remedio.
João Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:
—Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim... Porque emfim eu fui uma victima... Tudo isto vem de se saber que eu escrevi o
Communicado
. E tinha-se combinado que havia de ser segredo. O Agostinho não o disse, só o senhor doutor o sabia...
O doutor pulou de indignação na sua cadeira abbacial:
—Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o disse? Não disse... Isto é, disse; disse-o a minha mulher, porque n'uma familia bem constituida não deve haver segredos entre esposo e esposa. Ella perguntou-me, disse-lh'o... Mas supponhamos que fui eu que o espalhei pelas ruas. De duas uma: ou o
Communicado
era uma calumnia, e então sou eu que devo accusal-o de ter polluido um jornal honrado com um acervo de diffamaçães; ou era verdade, e então que homem é o senhor que se envergonha das verdades que solta, e que não se atreve a manter á luz do dia as opiniões que redigiu na escuridão da noite?
Duas lagrimas ennevoaram os olhos de João Eduardo. Então, diante d'aquella expressão esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma argumentação tão logica e tão poderosa, o doutor Godinho abrandou:
—Bem, não nos zanguemos, disse. Não se falla mais era pontos d'honra... O que póde acreditar é que lamento o seu desgosto.
Deu-lhe conselhos de uma solicitude paternal. Que não succumbisse; havia mais meninas em Leiria e meninas de bons principios que não viviam sob a direcção da sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que elle, doutor Godinho—e era elle!—tambem tivera em moço desgostos do coração. Que evitasse o dominio das paixões que lhe seria prejudicial na carreira publica. E que se o não fizesse por seu interesse proprio, o fizesse ao menos em attenção a elle, doutor Godinho!
João Eduardo sahiu do escriptorio, indignado, julgando-se «trahido» pelo doutor.
—Isto succede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre diabo, não dou votos nas eleições, não vou ás
soirées
do Novaes, não subscrevo para o club. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de reis!...
Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e da religião que os justifica. Voltou muito decidido ao escriptorio, e entreabrindo a porta:
—Vossa excellencia ao menos agora dá licença que eu desabafe no jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar n'essa canalha...
Esta audacia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braços:
—O snr. João Eduardo está realmente a abusar! Pois o senhor vem-me pedir que transforme um jornal d'idéas n'um jornal de diffamações!? Vá, não se prenda! Peça-me que insulte os principios da religião, que achincalhe o Redemptor, que repita as babuseiras de Renan, que ataque as leis fundamentaes do Estado, que injurie o rei, que vitupere a instituição da familia! O senhor está ebrio!
—Oh, senhor doutor!
—O senhor está ebrio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que vai por um declive! É por esse caminho que se chega a perder o respeito da auctoridade, da lei, das coisas santas e do lar. É por esse caminho que se vai ao crime! Escusa d'arregalar os olhos... Ao crime, digo-lh'o eu! Tenho a experiencia de vinte annos de fôro. Homem, detenha-se! refreie essas paixões! Safa! Que idade tem o senhor?
—Vinte e seis annos.
—Pois não ha desculpa para um homem de vinte e seis annos ter essas idéas subversivas. Adeus, feche a porta. E escute: escusa de pensar em mandar outro
Communicado
para outro qualquer jornal. Não lh'o consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer espalhafato... Escusa de negar, estou-lh'o a lêr nos olhos. Pois não lh'o consinto! É para seu bem, para lhe poupar uma má acção social!
Tomou uma grande attitude na poltrona, repetiu com força:
—Uma pessima acção social! Aonde nos querem os senhores levar com os seus materialismos, os seus atheismos?! Quando tiverem dado cabo da religião de nossos paes, que têm os senhores para a substituir?! Que têm?! Mostre lá!
A expressão embaraçada de João Eduardo (que não tinha alli, para a mostrar, uma religião que substituisse a de nossos paes) fez triumphar o doutor.
—Não têm nada! Têm lama, quando muito têm palavriado! Mas emquanto eu fôr vivo, pelo menos em Leiria, ha de ser respeitada a Fé e o principio da Ordem! Podem pôr a Europa a fogo e sangue, em Leiria não hão de erguer cabeça. Em Leiria estou eu álerta, e juro que lhes hei de ser funesto!