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O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

O CRIME DO PADRE AMARO (continued 7)

Reading edition

E emmudeceu, suffocado de cólera.

Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:

—Que está vossê a dizer, padre-mestre?

O conego tomára fôlego:

—Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra!

O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente d'um gracejo:

—Que rapariga!? O senhor está a brincar...

Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.

—Homem, eu vi! berrou o conego.

O parocho, subitamente aterrado, recuou:

—Viu!?

Imaginára n'um relance uma traição, o conego escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas...

—Não vi, mas é como se visse!—continuou o conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá. Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma ignominia !

O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistencia de desespero.

—Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?

O conego pulou.

—O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor vigario geral!

O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:

—Ah, seu maroto!

—Que é lá? que é lá? exclamou o conego de guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as mãos?

O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade forçada:

—Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira...

—Mente! mugiu o conego.

—Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar o collete. Até o senhor me perguntou «

quem está ahi?

» Vi, como estou a vêl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á face de todo o clero! Ora ahi tem!

O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito murcho:

—Que traste que vossê me sae!

O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do silencio do conego, disse com bonhomia:

—Traste porquê? Diga-me lá! Traste porquê? Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a Tótó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escóla e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!

O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:

—Mas vossê, homem, no começo da carreira!

—E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!

Então riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram.

O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena de casa. Se fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi viesse a saber estourava de desgosto.

—Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja agora traição!

O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre sepultado no seu coração.

Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mão.

Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.

E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho d'entendedor:

—Pois seu velhaco, tem dedo!

—Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por brincadeira...

—Homem! disse o conego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor d'este mundo.

—É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor d'este mundo.

Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes, a idéa de que correspondera ingratamente á confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação do conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia, o cavalheiro respeitavel, o cabeça—era o conego. A S. Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, tratava o Dias de

seu caro sogro

.

Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do conego, passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica galopante, questão de semanas, caso decidido...

—É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é trás... trás...—Era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho com uma fouçada aqui, outra além.

As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Tótó estava bem prostrada de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um rostinho triste:

—Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar com a morte...

Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a vontade de Deus?...

E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as sáias.

Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em que ella pretendia descobrir avisos de desgraças...

Perguntava-lhe ás vezes:

—Se eu morresse, tinhas muita pena?

Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?

—É que não imaginas, dizia ella, trago o coração negro como a noite.

Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. Ás vezes durante serões inteiros não descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o

abat-jour

verde do candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.

—Ó rapariga, deixa esse

abat-jour

em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.

Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a sáia branca que havia semanas andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.

—Não é nada, minha mãi, é nervoso, passa...

O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a tomavam—a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de visões.

—É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mãi ao conego, é uma rapariga que necessita casar...

O conego pigarreava grosso.

—Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...

Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga (como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra vêr a Tótó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha, o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um bom dote.

—Seu maganão, tem dedo!—dizia sempre o conego quando estava só com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!

Amaro entufava-se:

—Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.

Era este um dos

grandes

gozos d'Amaro—ouvir gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero «a flôr das devotas». Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella em que se ajanotasse nos domingos, á missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.

Mas Amelia, agora, já não tinha aquella necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor parocho. Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lançára o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo, fazia-se um amanhecimento de razão.—O que era ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome—de todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas. Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para receber com agrado as suas orações, como ramos congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E comprehendia bem que para ella não havia esperança—e que alguma coisa medonha se preparava lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?

Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma idéa do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma coragem colerica; era com um brutal desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu corpo.—Os terrores vinham depois, só no seu quarto. Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.

—Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.

—Passei mal a noite... Nervoso.

—Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.

Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario? Se tinha feito a oração mental?...

—Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? Ora a tolice!

—É que é necessario estar bem com Deus, murmurava ella.

Era com effeito a sua preoccupação, agora, que Amaro

fosse um bom padre

. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a influencia do parocho na côrte de Deus: e temia que elle por negligencia de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar santo e favorito do céo, para colher os proveitos da sua protecção mystica.

Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». Detestava-as, por as achar frivolas—e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da casa do sineiro...

—Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sêccamente. Fecha a porta, se queres.

Ella obedecia,—e então aos primeiros beijos na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de paixão.

E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a sério, e gozar emquanto era novo!

E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras—como uma d'estas salas onde tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle d'uma almofada.

Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma: toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora, embaraços de dinheiro, porque a snr.

a

D. Maria da Assumpção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes que vira passar n'um

char-á-banc

para ir visitar a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes eram herejes.

—São baptisados como nós, observára D. Joaquina Gansoso.

—Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. Não é o nosso rico baptismo, não lhes vale.

O conego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a snr.

a

D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu canon IV, sessão VII, lá determinára «que aquelle que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, não é o verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...

A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção pelas almas do purgatorio—que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostões cada uma.

Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um embrulhosinho na mão. Era algum presente para Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de côres, um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas provas da affeição do senhor parocho; e era então no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo «trás... trás...»

XX

—O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio, e correu acima contar a D. Josepha que o senhor parocho viera procurar o senhor conego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha succedido alguma desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio, fechou-a de repellão, e sem mesmo dar os bons dias ao collega, exclamou:

—A rapariga está gravida!

O conego, que estava escrevendo, cahiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:

—Que me diz vossê!?

—Gravida!

E no silencio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do parocho da janella para a estante.

—Está vossê certo d'isso? perguntou emfim o conego com pavor.

—Certissimo! A mulher já ha dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Ha todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre?

—Olha que espiga! ponderou o conego atordoado.

—Imagine vossê o escandalo! A mãi, a visinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!

O conego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço cahido como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade extincta para sempre...

—Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa vossê? Veja se tem alguma idéa... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!

—Ahi estão as consequencias, meu caro collega.

—Vá p'r'ó inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está feita!

—Mas então que quer vossê? disse o conego. Não quer decerto que se dê uma droga á rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os hombros, impaciente com aquella idéa insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...

—Mas então que quer vossê? repetia o conego n'um tom cavo, arrancando as palavras do abysmo do thorax.

—Que quero!? quero que não haja escandalo! Que hei de eu querer?

—De quantos mezes está ella?

—De quantos mezes? Está d'agora, está d'um mez...

—Então é casal-a! exclamou o conego com explosão. Então é casal-a com o escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

—C'os diabos, tem vossê razão! É de mestre!

O conego affirmou gravemente com a cabeça que era «de mestre».

—Casal-a já! Emquanto é tempo!

Pater est quem nuptiæ demonstrant

... Quem é marido é que é pai.

Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos azues, a touca negra de D. Josepha. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e collára o ouvido á fechadura do escriptorio; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruido de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, «a dar os bons dias ao senhor parocho».

Mas debalde, por detraz dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam anciosamente o carão espesso do mano e a face pallida d'Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como duas janellas fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente do rheumatico do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretario geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou que tinha n'esse dia uma famosa orelheira para o jantar—e a snr.

a

D. Josepha, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detraz do reposteiro ao conego:

—Então até á noite em casa da S. Joanneira, padre-mestre, hein?

—Até á noite.

E o conego, muito grave, continuou a escrever. D. Josepha então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em torno da banca do mano:

—Ha novidade?

—Grande novidade, mana! disse-lhe o conego, sacudindo os bicos da penna. Morreu o senhor D. João VI!

—Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.

Foi á noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira, emquanto Amelia em cima, com a morte n'alma, martellava a

Valsa dos dois mundos

, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano:—antes de tudo era

necessario

achar João Eduardo, que desapparecera de Leiria; a Dionysia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente, porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia... Só quatro palavras simples: que soubera que elle fôra victima d'uma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que

viesse

vêl-a... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provavel (o conego affirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravasinha do padre Silverio...

—Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta o escrevente, que dirá elle a esta revolução?

—Homem, exclamou o conego com uma grande palmada na côxa, que me tinha esquecido! Pois vossê não sabe o que aconteceu ao pobre Natario?...

Amaro não sabia.

—Quebrou uma perna! Cahiu da egoa!

—Quando?

—Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lh'o disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lh'a. E têsa! Tem p'ra pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima sabem nada.

Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amelia fechou o piano. Todos lembraram logo remedios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de offerecimentos—ligaduras, fios, um unguento das freiras d'Alcobaça, meia garrafinha d'um licôr dos monges do deserto d'ao pé de Cordova... Era necessario tambem assegurar a intervenção do céo: e cada uma se promptificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade: D. Maria da Assumpção, que ultimamente praticava com Santo Eleuterio, offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se d'interessar Nossa Senhora da Visitação; D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim...

—E lá a menina? perguntou o conego a Amelia.

—Eu?...

E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua alma, pensando que ella, com os seus peccados e os seus delírios, perdera a util amizade de Nossa Senhora das Dôres.—E não poder ella tambem concorrer com a sua influencia no céo para restabelecer a perna de Natario, foi uma das amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que amava o padre Amaro.

Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro participou a Amelia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o conego sabia tudo...

—Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a socegar. Além d'isso elle e tua mãi têm culpas em cartorio... Tudo fica em familia...

Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já das lagrimas afflictas que ella ia chorar:

—E agora escuta, filha. Não te afflijas com o que te vou dizer, mas é necessario, é a nossa salvação...

Ás primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amelia indignou-se com espalhafato.

—Nunca, antes morrer!

O quê? Elle punha-a n'aquelle estado e agora queria descartar-se d'ella e passal-a a outro? Era ella porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fóra de casa o homem, havia de humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe nos braços?... Ah, não! Tambem ella tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brazil!

Enterneceu-se então. Ah, elle já não a amava, estava farto d'ella! Ah, que desgraçada, que desgraçada que era!—Atirou-se de bruços para a cama e rompeu n'um chôro estridente.

—Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.

—Não me importa! Que ouçam! P'r'á rua vou eu gritar que estou n'este estado, que foi o senhor padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

—Tu estás fóra de ti, filha... Dize lá, posso eu casar comtigo? Não! Bem, então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em casa, vê o escandalo!... Por ti, estás perdida, perdida p'ra sempre! E eu, se se souber, que me succede? Perdido tambem, suspenso, mettido em processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de fome?

Enterneceu-se tambem áquella idéa das privações e das miserias do padre interdicto.—Ah, era ella, era ella que o não amava, e que depois d'elle ter sido tão carinhoso e tão delicado, lhe queria pagar com o escandalo e com a desgraça...

—Não, não! exclamou Amelia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo

enternecimento

,—ella molhando de pranto o hombro do parocho, elle mordendo o beiço com os olhos todos turvos d'agua.

Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando as lagrimas:

—Não, filha, é uma desgraça que nos succede, mas tem de ser. Se tu soffres, imagina eu! Vêr-te casada, a viver com outro... Nem fallemos n'isso... Mas então, é a fatalidade, é Deus que a manda!

Ella ficára aniquilada, á beira do leito, tomada ainda de grandes soluços. Tinha chegado emfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ella sentia preparar-se ha tempos no fundo dos céos, como uma tormenta complicada. Ahi estava, agora, peor que os fogos do Purgatorio! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com o excommungado! Como poderia ella nunca reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os canones, o Papa, toda a terra, todo céo consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai d'outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais!

—E como posso eu casar com elle, Amaro, se o homem está excommungado?!

Amaro então apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando os argumentos. Era necessario não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excommungado não estava... Natario e o conego tinham interpretado mal os canones e as bullas... Bater n'um sacerdote que não estava revestido não era motivo d'excommunhão

ipso facto

, segundo certos auctores... Elle, Amaro, era d'essa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excommunhão.

—Tu comprehendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como sabes,

nós atamos e desatamos

. O moço foi excommungado?... Bem, levantamos-lhe a excommunhão... Fica tão limpo como d'antes. Não, isso não te dê cuidado.

—Mas de que havemos de viver, se elle perdeu o emprego?

—Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lh'o o padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ella não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lagrimas persistentes ao comprido das faces.

—Dize cá, tua mãi não desconfia de nada?

—Não, por ora não se percebe, respondeu ella com um grande ai.

Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando para sahir; elle de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhãs d'outr'ora, quando só havia alli beijos e risadinhas abafadas; tudo mudára agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de verão, ameaçando chuva.

—Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella, compondo ao espelho o cabello.

—Não. Vaes-te?

—A mamã está á minha espera...

Deram um beijo triste, e ella sahiu.

No emtanto a Dionysia farejava pela cidade na pista de João Eduardo. A sua actividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o conego Dias, o ricaço, estava interessado na «pesquiza». E todos os dias, á noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo portão d'Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia que o escrevente estivera ao principio em Alcobaça com um primo boticario; depois fôra para Lisboa; ahi, com uma carta de recommendação do doutor Gouvêa, empregára-se no cartorio d'um procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera de apoplexia; e desde então o rasto de João Eduardo perdia-se no vago, no cahos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada e os passos: era o typographo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo, depois d'uma questão com o Agostinho, deixára o

Districto

e desapparecera. Ninguem sabia para onde fôra; por desgraça, a mãi do typographo não a podia informar—porque morrera tambem.

—Oh, senhores! dizia o conego quando o padre Amaro lhe ia levar estes fios d'informação. Oh, senhores! mas então n'essa historia toda a gente morre! Isso é uma hecatombe!

—Vossê graceja, padre-mestre, mas é sério. Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro. É uma fatalidade!

Então, afflicto já, vendo passar os dias, escreveu á tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a vêr se por lá apparecera «um tal João Eduardo Barbosa...» Recebeu uma carta da tia em garatujas de tres paginas, queixando-se do Joãosinho, do seu Joãosinho, que lhe fizera a vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que não lhe paravam hospedes em casa. Mas estava agora mais tranquilla: o pobre Joãosinho havia dias jurára-lhe pela alma da mamã que d'ahi por diante não beberia senão gazosa. Emquanto ao tal João Eduardo perguntára na visinhança e ao snr. Palma do ministerio das obras publicas, que conhecia toda a gente, mas nada averiguára. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja de quinquilherias no bairro... E se fosse o negocio com elle bem ia, que era um homem de bem...

—Lérias! lérias! interrompeu o conego impaciente.

Resolveu-se elle então a escrever. E instado pelo padre Amaro (que não cessava de lhe representar o que a S. Joanneira e elle mesmo, conego Dias, soffreria com o escandalo) chegou a auctorisar ao seu amigo da capital as despezas necessarias para empregar a policia. A resposta demorou-se, mas veio emfim, promettedora e magnifica! O habil policia Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe sabia ainda a morada, avistára-o apenas n'um café; mas em dois ou tres dias o amigo Mendes promettia informações precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande quando, d'ahi a dias, o amigo do conego escreveu que o indivíduo, que o habil policia Mendes tomára por João Eduardo, n'um café da Baixa, sobre signaes incompletos, era um moço de Santo Thyrso que estava na capital a fazer concurso para delegado... E havia tres libras e dezesete tostões de despeza.

—Dezesete demonios! rugiu o conego, voltando para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocillou, e sou eu que estou aqui a arrasar a minha saude com estas andadas, e a fazer desembolsos d'esta ordem!

Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os hombros á injuria.

Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A Dionysia lá andava no faro!

Amelia recebia estas noticias com desconsolação. Depois das primeiras lagrimas, a irremediavel necessidade impuzera-se-lhe, muito forte. Por fim que lhe restava? D'ahi a dois ou tres mezes, com aquelle seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do tio Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos inglezes, ou como a Joanninha Gomes, que fôra a amiga do padre Abilio, levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, tinha de casar...

Depois vir-lhe-hia um menino ao fim dos sete mezes (era tão frequente!), legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um engeitado...

Desde que o senhor parocho lhe affirmára, em juramento, que o escrevente

não estava realmente excommungado

, que com algumas orações se lhe levantaria a excommunhão, os seus escrupulos devotos esmoreciam como brazas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ella só podia descobrir a incitação do ciume e do amor: fôra n'um despeito de namorado que escrevera o

Communicado

, fôra n'um furor de paixão trahida que espancára o senhor parocho... Ah! não lhe perdoava esta brutalidade! Mas que castigado fôra! Sem emprego, sem casa, sem mulher, tão perdido na miseria anonyma de Lisboa que nem a policia o achava! E tudo por ella. Pobre rapaz! No fim não era feio... Fallavam da sua impiedade; mas vira-o sempre muito attento á missa, rezava todas as noites uma oração especial a S. João que ella lhe dera impressa n'um cartão bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada... Porque não seria feliz, por fim? Elle não era rapaz de botequins, nem de vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impôr os seus gostos e as suas devoções. E seria agradavel sahir aos domingos de manhã para a missa, arranjada, de marido ao lado, comprimentada de todos, podendo, á face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos que désse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o céo e Nossa Senhora se não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter outra vez no céo aquella amiga, a sua querida Nossa Senhora, amavel e confidente, sempre prompta a curar-lhe as dôres, a livral-a de infortunios, occupada a preparar-lhe no paraiso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a Tótó, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

—Então, ha alguma novidade?

Elle franzia a testa, rosnava:

—A Dionysia lá anda... Porquê, tens muita pressa?

—Tenho muita pressa, tenho, respondia ella muito séria, que a vergonha é para mim.

Elle calava-se; e havia tanto odio como amor nos beijos que lhe dava—áquella mulher que se resignava assim tão facilmente a ir dormir com outro!

Tinha ciumes d'ella—que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira conformar-se áquelle casamento odioso! Agora, que ella já não chorava, começava a enfurecer-se da falta das suas lagrimas; e secretamente desesperava-se d'ella não preferir a vergonha com elle á rehabilitação com o outro. Não lhe custaria tanto se ella continuasse a barafustar, a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova séria de amor, em que a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquella aceitação do escrevente agora, sem repugnancia e sem gestos d'horror, indignava-o como uma traição. Viera a suspeitar que a ella no fundo não lhe

desagradava a mudança

. João Eduardo por fim era um homem; tinha a força dos vinte e seis annos, os attractivos d'um bello bigode. Ella teria nos braços d'elle o mesmo delirio que tinha nos seus... Se o escrevente fosse um velho consumido de rheumatismo, ella não mostraria a mesma resignação. Então, por vingança do padre, para «lhe desmanchar o arranjo», desejava que João Eduardo não apparecesse: e muitas vezes, quando a Dionysia lhe vinha dar conta dos passos, dizia-lhe com um mau sorriso:

—Não se canse. O homem não apparece. Deixe lá... Não vale a pena ganhar dôr de peito...

Mas a Dionysia tinha o peito forte—e uma noite veio, triumphante, dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira emfim o Gustavo, o typographo, entrar para a casa de pasto do tio Osorio. Ao outro dia ia-lhe fallar, e havia de se saber tudo...

Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquelle casamento, por que anciára no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catastrophe da sua vida.

Perdia Amelia para sempre!... Aquelle homem que elle expulsára, que elle supprimira, alli lhe vinha, por uma d'estas peripecias malignas em que a Providencia se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idéa que elle ia tel-a nos braços, que ella lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a elle, que balbuciaria

oh, João!

—como agora murmurava

oh, Amaro!

—enfurecia-o. E não podia evitar o casamento; todos o queriam, ella, o conego, até a Dionysia com o seu zêlo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixões fortes d'um corpo são? Tinha de dizer adeus á rapariga,—vêl-a partir de braço dado com o

outro

, com o marido, irem ambos para casa brincar com o filho, um filho que era seu! E elle assistiria á destruição da sua alegria de braços cruzados, esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só, eternamente só, e a relêr o Breviario!... Ah! se fosse no tempo em que se supprimia um homem com uma denuncia d'heresia!... Que o mundo recuasse duzentos annos, e o snr. João Eduardo havia de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amelia...

E esta idéa absurda, na exaltação da febre em que estava, apoderou-se tão fortemente da sua imaginação que toda a noite a sonhou—n'um sonho vivido, que muitas vezes depois contou rindo ás senhoras. Era uma rua estreita batida d'um sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma populaça apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas, accêsos n'um furor santo. E pela calçada, a procissão do auto-de-fé movia-se devagar, n'um vasto ruido, sob o tremendo dobre a finados de todos os sinos visinhos. Adiante os flagellantes semi-nus, de capuz branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o

Miserere

, com as costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos côr de fogo, tendo ao peito um rotulo em que estava escripto—

POR HEREJE

; por traz um medonho servente do Santo Officio espicaçava furiosamente o jumento; e ao pé um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. E elle, Amaro, caminhava ao lado cantando o

Requiem

, de Breviario aberto n'uma mão, com a outra abençoando as velhas, as amigas da rua da Misericordia que se agachavam para lhe beijar a alva. Ás vezes voltava-se para gozar aquella pompa lugubre, e via então a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um personagem pansudo e apopletico, além uma face de mystico com um bigode feroz e dois olhos chammejantes; cada um levava uma tocha accêsa, e na outra mão sustentava o chapéo cuja pluma negra varria o chão. Os capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o prestito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o clamor do canto-chão, os gritos dos fanaticos, o dobrar aterrador dos sinos, o tlim-tlim das armas, n'um terror que enchia toda a cidade,—aproximando-se da platafórma de tijolo onde já fumegavam as pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois d'aquella gloria ecclesiastica do sonho, quando a criada o veio acordar cedo com agua quente para a barba.

Era pois n'esse dia que se ia saber do snr. João Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amelia ás onze horas; e foi a primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

—O homem appareceu... Pelo menos appareceu o amigo intimo, o typographo, que sabe onde a bêsta pára...

Amelia, que estava n'um dia de desalento e terror, exclamou:

—Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

—Então agrada-te, hein?

—Se te parece, n'este susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado, d'impaciencia. Susto! Não estava má hypocrisia! Susto de quê? Com uma mãi que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não lhe agradava aquelle divertimento pela manhã, de fugida... Queria a coisa commodamente, em casa. Imaginava a menina que o illudia a elle, um homem de trinta annos e quatro annos de experiencia de confissão? Via bem através d'ella... Era como as outras, queria mudar d'homem.

Ella não respondia, muito pallida. E Amaro, furioso com o seu silencio:

—Calas-te, está claro... Que has de tu dizer? Se é a verdade pura!... Depois dos meus sacrificios... Depois do que tenho soffrido por ti... Apparece-te o outro, larga para o outro!

Ella ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

—Foste tu que quizeste, Amaro!

—Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causa! Está claro que quiz!...—E olhando-a d'alto, fazendo-lhe sentir um desprezo d'alma muito recta:—Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ella, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sahir.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

—P'ra onde vaes? Olha bem p'ra mim. És uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por dormir com o outro...

—Pois acabou-se, estou! disse ella.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

—Não me mates! gritou ella. É o teu filho!

Elle ficou diante d'ella, enleado e tremulo: áquella palavra, áquella idéa do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu sêr: e arremessando-se sobre ella, n'um abraço que a esmagava, como querendo sepultal-a no peito, absorvel-a toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabellos:

—Perdôa, murmurava, perdôa, minha Ameliasinha! Perdôa, que estou doido!

Ella soluçava, n'um pranto nervoso;—e toda a manhã foi no quarto do sineiro um delirio d'amor a que aquelle sentimento da maternidade, ligando-os como um sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento incessante de desejo, que os lançava cada vez mais ávidos nos braços um do outro.

Esqueceram as horas; e Amelia só se decidiu a saltar do leito quando ouviram em baixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Emquanto ella se arranjava á pressa diante do bocado d'espelho que ornava a parede, Amaro diante d'ella contemplava-a com melancolia, vendo-a a passar o pente nos cabellos—nos cabellos que elle dentro em breve não tornaria a vêr pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe enternecido:

—Estão a acabar os nossos bons dias, Amelia. És tu que queres... Has de te lembrar algumas vezes d'estas boas manhãs...

—Não digas isso! fez ella com os olhos arrazados d'agua.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe:

—Hei de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mãos sôfregamente:

—Juras?

—Juro.

—Pela hostia sagrada?

—Juro pela hostia sagrada, juro por Nossa Senhora!

—Sempre que tenhas occasião?

—Sempre!

—Oh, Ameliasinha! oh, filha! não te trocava por uma rainha!

Ella desceu. O parocho, dando uma arranjadella ao leito, ouvia-a em baixo fallar tranquillamente com o tio Esguelhas; e dizia comsigo que era uma grande rapariga, capaz d'enganar o diabo, e que havia de fazer andar n'uma roda viva o pateta do escrevente.

Aquelle «pacto», como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre elles tão irrevogavel que já lhe discutiam tranquillamente os detalhes. O casamento com o escrevente consideravam-no como uma d'estas necessidades que a sociedade impõe e que suffoca as almas independentes, mas a que a natureza se subtrae pela menor fenda, como um gaz irreductivel. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro marido d'Amelia era o senhor parocho; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a obediencia intima, a vontade; o outro teria quando muito o

cadaver

... Já ás vezes mesmo tramavam o plano habil das correspondencias secretas, dos logares occultos de

rendez-vous

...

Amelia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da paixão. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar «tudo branco como a neve», os seus transes tinham desapparecido, o mesmo terror da vingança do céo calmára-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro fôra como a chicotada que esperta um cavallo que preguiça e se atraza: e a sua paixão, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo levando no impeto d'uma carreira fogosa.

Amaro, esse regosijava-se. Ainda ás vezes, decerto, a idéa d'aquelle homem, de dia e de noite com ella, importunava-o... Mas, no fundo, que compensações! Todos os perigos desappareciam magicamente, e as sensações requintavam. Findavam para elle aquellas atrozes responsabilidades da seducção, e ficava-lhe a mulher mais appetitosa.

Instava agora com a Dionysia para que acabasse emfim aquella fastidiosa campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela multiplicidade d'esforços, não podia descobrir o typographo—aquelle famoso Gustavo que possuia, como os anões de romance de cavallaria, o segredo da torre maravilhosa onde vive o principe encantado.

—Oh, senhor! dizia o conego, isso até já cheira mal! Ha quasi dois mezes á busca d'um patife!... Homem, escreventes não faltam. Arranje-se outro!

Mas emfim, uma noite em que elle entrára a descansar em casa do parocho, a Dionysia appareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os dois padres tomavam o seu café:

—Até que emfim!

—Então, Dionysia?

A mulher, porém, não se apressou: sentou-se mesmo, com licença dos senhores, porque vinha derreada... Não, o senhor conego não imaginava os passos que se vira obrigada a dar... O maldito typographo lembrava-lhe a historia, que lhe contavam em pequena, d'um veado que estava sempre á vista e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Uma perseguição assim!... Mas, finalmente apanhára-o... E tocadito, por signal.

—Acabe, mulher! berrou o conego.

—Pois aqui está, disse ella. Nada!

Os dois sacerdotes olharam-na mystificados.

—Nada quê, creatura?

—Nada. O homem foi p'r'ó Brazil!

O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe dava a morada, para o lado do Poço do Borratem, annunciava-lhe a resolução de ir para o Brazil; na segunda dizia-lhe que mudára de casa, sem lhe indicar a nova

adresse

, e declarava que pelo proximo paquete embarcava para o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com que esperanças. Tudo era vago e mysterioso. Desde então, havia um mez, o rapaz não tornára a escrever, d'onde o typographo concluia que ia a essa hora nos altos mares...—«Mas havemos de vingal-o!» tinha elle dito a Dionysia.

O conego remexia pausadamente o seu café, embatocado.

—E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito branco.

—Acho-a boa.

—Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente Amaro.

—Amen, respondeu gravemente o conego.

XXI

Que lagrimas quando Amelia soube a noticia! A sua honra, a paz da sua vida, tantas felicidades combinadas, tudo perdido e sumido nas brumas do mar, a caminho para o Brazil!

Foram as semanas peores da sua vida. Ia para o parocho, banhada em lagrimas, perguntando-lhe todos os dias o que havia de fazer.

Amaro, succumbido, sem idéa, ia para o padre-mestre.

—Fez-se tudo o que se pôde, dizia o conego desolado. É aguentar. Não se mettesse n'ellas!

E Amaro voltava para Amelia com consolações muito murchas:

—Tudo se ha de arranjar, é esperar em Deus!

Era bom o momento para contar com Deus, quando Elle, indignado, a acabrunhava de miserias! E aquella indecisão, n'um homem e n'um padre, que devia ter a habilidade e a força de a salvar, desesperavam-na; a sua ternura por elle sumia-se como a agua que a areia absorve; e ficava um sentimento confuso em que sob o desejo persistente já transluzia o odio.

Espaçava agora de semana a semana os encontros na casa do sineiro. Amaro não se queixava; aquellas boas manhãs do quarto do tio Esguelhas, eram sempre estragadas com queixumes; cada beijo tinha um rastro de soluços; e aquillo enervava-o tanto, que lhe vinham desejos de se atirar tambem de bruços para a enxerga e chorar toda a sua amargura.

No fundo accusava-a de exagerar os seus embaraços, de lhe communicar um terror desproporcionado. Outra mulher, de melhor senso, não faria semelhante espalhafato... Mas quê, uma beata hysterica, toda nervos, toda medo, toda exaltação!... Ah, não havia duvida, fôra «uma famosa asneira»!

Tambem Amelia pensava que fôra «uma asneira». E não ter nunca imaginado que aquillo lhe poderia succeder! Qual! Como mulher, correra para o amor, toda tonta, certa que escaparia, ella,—e agora que sentia nas entranhas o filho, eram as lagrimas e os espantos e as queixas! A sua vida era lugubre: de dia tinha de se conter diante da mãi, applicar-se á sua costura, conversar, affectar felicidade... Era de noite que a imaginação desencadeada a torturava com uma incessante phantasmagoria de castigos, d'este e do outro mundo, miserias, abandonos, desprezo da gente honrada e chammas do purgatorio...

Foi então que um acontecimento inesperado veio fazer diversão áquella anciedade que se ia tornando um habito morbido do seu espirito. Uma noite a criada do conego appareceu, esfalfada de correr, a dizer que a snr.

a

D. Josepha estava á morte.

Na vespera a excellente senhora sentira-se doente com uma pontada no lado, mas insistira em ir á Senhora da Incarnação rezar a sua corôa; voltou transida, com uma dôr maior e uma ponta de febre; e n'essa tarde, quando o doutor Gouvêa foi chamado, tinha-se declarado uma pneumonia aguda.

A S. Joaneira correu logo a installar-se lá como enfermeira. E então, durante semanas, na tranquilla casa do conego, foi um alvoroço de dedicações afflictas: as amigas, quando se não espalhavam pelas igrejas a fazer promessas e a implorar os seus santos devotos, estavam lá em permanencia, sahindo e entrando no quarto da doente com passos de phantasmas, accendendo aqui e além lamparinas ás imagens, torturando o doutor Gouvêa com perguntas piegas. Á noite na sala, com o candieiro a meia luz, era pelos cantos um cochichar de vozes lugubres; e ao chá, entre cada mastigadella de torrada, havia suspiros, lagrimas furtivamente limpadas...

O conego lá estava a um canto, aniquilado, succumbido com aquella brusca apparição da doença e do seu scenario melancolico—as garrafadas de botica enchendo as mesas, as entradas solemnes do medico, as faces compungidas que vem saber se ha melhoras, o halito febril espalhado em toda a casa, o timbre funerario que toma o relogio de parede no abafamento de todo o ruido, as toalhas sujas que ficam dias no logar em que cahiram, o anoitecer de cada dia com a sua ameaça de treva eterna... De resto, um pezar sincero prostrava-o; havia cincoenta annos que vivia com a mana e era animado por ella; o longo habito tornára-lh'a cara; e as suas caturrices, as suas toucas negras, o seu espalhafato pela casa faziam como uma parte mesma de seu sêr... Além d'isso, quem sabe se a morte, entrando-lhe em casa, para poupar passos, o não levaria tambem!...

Para Amelia aquelle tempo foi um allivio; ao menos ninguem pensava, ninguem reparava n'ella; nem a sua face triste e os vestigios de lagrimas pareceriam estranhos, n'aquelle perigo em que estava a madrinha. Demais os serviços de enfermeira occupavam-n'a: como era a mais forte e a mais nova, agora que a S. Joaneira estava estafada de vigilias, era ella que passava as longas noites á beira de D. Josepha: e não havia então desvelos que não tivesse, para abrandar Nossa Senhora e o céo com aquella caridade pela doente, para merecer igual piedade quando o seu dia viesse de estar tambem prostrada n'um leito... Vinha-lhe agora, sob a impressão funebre que se exhalava da casa, o presentimento repetido que morreria de parto; ás vezes só, embrulhada no seu chale aos pés da doente, ouvindo-lhe o gemer monotono, enternecia-se sobre a sua propria morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os olhos de lagrimas, n'uma saudade vaga de si mesma, da sua mocidade e dos seus amores... Ia então ajoelhar-se junto da commoda onde uma lamparina bruxoleava diante d'um Christo projectando sobre o papel claro da parede a sua sombra disforme que se quebrava no tecto; e alli ficava rezando, pedindo a Nossa Senhora que não lhe recusasse o paraiso... Mas a velha mexia-se com um ai doloroso; ia então aconchegar-lhe a roupa, fallar-lhe baixo. Vinha depois á sala vêr no relogio se era o momento do remedio; e estremecia ás vezes, sentindo vir do quarto proximo um pio de flautim ou um som rouco de trombone; era o conego a resonar.

Emfim, uma manhã, o doutor Gouvêa declarou D. Josepha livre de perigo. Foi um vivo regosijo para as senhoras—certa, cada uma, que aquillo era devido á intervenção particular do seu santo devoto. E d'ahi a duas semanas houve uma festa na casa, quando D. Josepha, pela primeira vez, amparada nos braços de todas as amigas, deu dois passos tremulos no quarto. Pobre D. Josepha, o que d'ella fizera a doença! Aquella vozinha irritada, em que as palavras eram despedidas como settas envenenadas, assemelhava-se agora apenas a um som expirante, quando, n'um esforço ancioso da vontade, pedia a escarradeira ou o xarope. Aquelle olhar sempre álerta, escrutador e maligno, estava hoje como refugiado no fundo das orbitas, assustado da luz, das sombras e dos contornos das coisas. E o seu corpo, tão têso outr'ora, d'uma seccura de ramo de sarmento, agora ao cahir no fundo da poltrona, sob a trapalhada dos agasalhos, parecia um trapo tambem.

Mas emfim o doutor Gouvêa, apesar d'annunciar uma convalescença longa e delicada, dissera rindo ao conego, diante das amigas (depois de ter visto D. Josepha manifestar o seu primeiro desejo, o desejo de se chegar á janella), que com muita cautela, tonicos, e as orações de todas aquellas boas senhoras—a mana estava ainda para amores...

—Ai, doutor, exclamou D. Maria, as nossas orações não lhe hão de faltar...

—E eu não lhe hei de faltar com os tonicos, disse o doutor. De modo que, o que resta é congratularmo-nos.

Aquella jovialidade do doutor era para todos como a certeza da saude proxima.

E d'ahi a dias, o conego vendo aproximar-se o fim d'agosto, fallou de alugar casa na Vieira, como costumava um anno sim outro não, para ir tomar os seus banhos de mar. O anno passado não fôra. Este era o anno de praia...

—E a mana lá, n'aquelles ares saudaveis da beira-mar, é que acaba de ganhar forças e carnes...

Mas o doutor Gouvêa desapprovou a jornada. O ar muito picante e muito rico do mar não convinha á fraqueza de D. Josepha. Era preferivel irem para a quinta da Ricoça, nos Poyaes, logar abrigado e muito temperado.

Foi um desgosto para o pobre conego, que prodigalisou as lamurias. O quê! ir enterrar-se todo o verão, o melhor tempo do anno, na Ricoça! E os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?

—Veja o senhor,—dizia elle a Amaro, uma noite no escriptorio,—veja o que eu tenho sofrido... Durante a doença, que desarranjo, que desordem na casa! Chá fôra d'horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que me emmagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer-me para a praia, não senhor, vai p'r'á Ricoça, dispensa os teus banhos... Isto é o que eu chamo sofrer! E no fim de tudo não fui eu que estive doente. Mas sou eu que as aguento... Perder dois annos a fio os meus banhos!...

Amaro, então, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:

—Homem, veio-me uma boa idéa!

O conego olhou-o com duvida, como se não achasse possivel a uma intelligencia humana descobrir o fim dos seus males.

—Quando digo uma boa idéa, padre-mestre, devia dizer uma idéa sublime!

—Acabe, creatura...

—Escute. O senhor vai p'r'á Vieira, e a S. Joanneira, está claro, vai tambem. Naturalmente alugam casa um ao pé do outro, como ella me disse que tinham feito ha dois annos...

—Adiante...

—Bem. Aqui temos a S. Joanneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana parte p'r'á Ricoça.

—E então a creatura ha de ir só?

—Não! exclamou Amaro em triumpho. Vai com a Amelia! A Amelia vai-lhe servir de enfermeira! Vão ambas sós! e lá na Ricoça, n'aquelle buraco onde não vai viva alma, n'aquelle casarão onde póde uma pessoa viver sem que ninguem em roda suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hein, que lhe parece?

O conego erguera-se com os olhos redondos d'admiração.

—Homem, famosa idéa!

—É que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joanneira, longe, não sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amelia tem um sitio escondido p'r'á coisa... Á Ricoça ninguem a vai vêr... A D. Maria tambem vai p'r'á Vieira. As Gansosos idem. A rapariga deve ter o bom successo ahi pelos principios de novembro... Da Vieira, e isso fica por sua conta, não volta ninguem dos nossos até principios de dezembro... E quando nos reunirmos de novo está a rapariga limpa e fresca.

—Pois senhores, por ser a primeira idéa que vossê tem n'estes dois ultimos annos, é uma grande idéa!

—Obrigado, padre-mestre.

Mas havia uma difficuldade feia: era o ir á D. Josepha, á rigorista D. Josepha, tão implacavel ás fraquezas do sentimento, á D. Josepha que pedia para as mulheres frageis as antigas penalidades gothicas—as letras marcadas na testa com ferro em braza, os açoutes nas praças publicas, os

in pace

tenebrosos—ir á D. Josepha e pedir-lhe para ser cumplice d'um parto!

—A mana vai dar urros! disse o conego.

—Nós veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouçando a perna, muito certo do seu prestigio devoto. Nós veremos... Hei de lhe eu fallar... E quando lhe tiver contado umas lérias... Quando lhe tiver representado que é para ella um caso de consciencia encobrir a pequena... Quando lhe lembrar que nas vesperas da morte é que se deve fazer alguma boa acção, para não se apresentar á porta do paraiso com as mãos vazias... Nós veremos!

—Talvez, talvez, disse o conego. A occasião é boa, porque a pobre mana está fraquita do juizo e leva-se como uma criança.

Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mãos:

—Pois é mãos á obra! É mãos á obra!

—E é necessario não perder tempo, porque o escandalo estala. Olhe que esta manhã, lá em casa, a besta do Libaninho pôz-se a gracejar com a rapariga, a dizer-lhe que tinha a cinta grossa...

—Oh, que patife! rugiu o parocho.

Não, não seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado, é facto... Com esta atarantação da doença ninguem tem tido olhos para nada... Mas agora póde-se reparar... É sério, amigo, é sério!

Por isso, logo na manhã seguinte, Amaro foi, segundo a expressão do conego, «dar a grande abordagem á mana».

Antes, porém, explicou em baixo no escriptorio ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a D. Josepha que o conego estava na inteira ignorancia do desastre da Ameliasinha, e que elle, Amaro, o sabia, não em segredo de confissão (n'esse caso não o poderia revelar) mas pelas confidencias secretas dos dois—de Amelia e do homem casado que a seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque emfim era necessario provar á velha que havia a impossibilidade d'uma reparação legitima...

O conego coçava a cabeça descontente:

—Isso não vai bem arranjado, disse elle. A mana sabe bem que não iam homens casados á rua da Misericordia.

—E o Arthur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrupulo.

O conego largou a rir, com gosto. O pobre Arthur, sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos de carneiro triste, accusado de perder virgens!... Não, essa era boa!

—Não péga, parocho amigo, não péga! Outra, outra...

Mas então subitamente partiu dos labios d'ambos o mesmo nome,—o Fernandes, o Fernandes da loja de panos! Bello homem, que Amelia admirava muito! Sempre que sahia ia-lhe á loja: tinha mesmo havido indignação na rua da Misericordia, havia dois annos, com a ousadia do Fernandes que acompanhára Amelia pela estrada de Marrazes até ao Morenal!

Já se sabe, não se dizia explicitamente á mana,—mas dava-se-lhe a entender que fôra o Fernandes.

E Amaro subiu rapidamente para o quarto da velha, que era por cima do escriptorio. Esteve lá meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para o conego, que apenas podia ouvir em cima, ora rangerem as solas d'Amaro, ora a tosse cavernosa da velha... E no seu passeio habitual pelo escriptorio, da estante para a janella, com as mãos atraz das costas e a caixa de rapé nos dedos, ia considerando quantos incommodos, quantas despezas lhe traria ainda aquelle «divertimento do senhor parocho»! Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis mezes... Depois o medico, a parteira que era elle naturalmente que havia de pagar... Depois algum enxoval para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, ao pequeno?... Na cidade, a Roda fôra supprimida; em Ourem, como os recursos da Misericordia eram escassos e a affluencia dos engeitados escandalosa, tinham posto um homem ao pé da sineta da Roda, para interrogar e pôr embaraços; havia indagações de paternidade, restituições de crianças; e a auctoridade, finoria, combatia o excesso dos engeitamentos com o terror dos vexames...

Emfim o pobre padre-mestre via diante de si todo um erriçamento de difficuldades para lhe sacudir a pachorra e estragar-lhe a digestão...—Mas o excellente conego, no fundo, não se indignava; sempre tivera uma affeição de velho mestre pelo parocho; para a Amelia sempre o inclinára um fraco meio paternal, meio lubrico; e mesmo já sentia pelo «pequeno» uma vaga condescendencia d'avô.

A porta abriu-se, e o parocho appareceu triumphante.

—Tudo ás mil maravilhas, padre-mestre! Que lhe dizia eu?

—Consentiu?

—Em tudo. Não foi sem difficuldade... Ia-se abespinhando. Fallei-lhe do homem casado... Que a rapariga estava com a cabeça perdida, queria-se matar... Que se ella não consentisse em encobrir a coisa era responsavel por uma desgraça... Lembre-se a senhora que está com os pés p'r'á cova, que Deus póde chamal-a d'um momento a outro, e que se tiver na consciencia este peso, não ha padre que lhe dê a absolvição!... Lembre-se que morre p'r'áhi como um cão!...

—Emfim, disse o conego approvando, fallou-lhe com prudencia...

—Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de fallar á S. Joanneira, e de a levar p'r'á Vieira quanto antes...

—Outra coisa, amigo, interrompeu o conego. Tem vossê pensado no destino que se ha de dar ao fructo?

O parocho coçou desconsoladamente a cabeça:

—Ah, padre-mestre... Isso é outra difficuldade... Tem-me apoquentado muito... Naturalmente dal-o a criar a alguma mulher, longe, lá p'ra Alcobaça ou p'ra Pombal... A felicidade, padre-mestre, era que a criança nascesse morta!

—Era um anjinho mais... rosnou o conego sorvendo a sua pitada.

Logo n'essa noite elle fallou á S. Joanneira da ida para a Vieira, em baixo na saleta onde ella estava arranjando pires de marmelada que andavam a seccar para a convalescença de D. Josepha. Começou por dizer que lhe alugára a casa do Ferreiro...

—Mas isso é um nicho! exclamou ella logo. Onde hei de eu metter a pequena?

—Ora ahi é que está. É que justamente a Amelia d'esta vez não vai á Vieira.

—Não vai!?

Foi só então que o conego lhe explicou que a mana não podia ir só para a Ricoça, e que elle tinha pensado em mandar com ella Amelia... Era uma idéa que lhe viera n'essa manhã.

—Eu não posso ir, tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe... A pobre de Christo não ha de estar para lá só, com uma criada. Portanto...

A S. Joanneira teve um silenciosinho desconsolado:

—Isso é verdade. Mas olhe, para lhe dizer com franqueza, custa-me bem deixar a pequena... Se eu pudesse dispensar os banhos, ia eu.

—Qual ia! A senhora vem p'r'á Vieira. Eu tambem não hei de estar lá só... Sua ingrata, sua ingrata!...—E tomando um tom muito sério:—A senhora veja bem. A Josepha está com os pés p'r'á cova. Ella sabe que o que eu tenho para mim chega. Ella tem affeição á pequena, sempre é madrinha; se a vir agora a tratal-a na doença, a estar alli só com ella uns mezes, fica pelo beiço. Olhe que a mana ainda vale um par de mil cruzados. A pequena póde apanhar um bom dote. Não lhe digo mais nada...

E a S. Joanneira concordou logo—uma vez que era vontade do senhor conego.

Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amelia «o grande plano», a scena com a velha: que ella se promptificára logo, coitadinha, já cheia de caridade, desejando até ajudar para o enxoval do pequeno...

—N'ella pódes ter confiança, é uma santa... De modo que está tudo salvo, filha. É estar mettida quatro ou cinco mezes na Ricoça.

Era isso que fazia choramingar Amelia: perder a estação da Vieira, o divertimento dos banhos!... Ir enterrar-se todo um verão n'aquelle sinistro casarão da Ricoça! A unica vez que lá fôra, já ao fim da tarde, ficára estarrecida de medo. Tudo tão escuro, d'um echo tão concavo... Tinha a certeza que ia lá morrer, n'aquelle degredo.

—Tolice! fez Amaro. É dar graças ao Senhor de me ter inspirado esta idéa de salvação. Demais tens a D. Josepha, tens a Gertrudes, o pomar para passear... E eu vou-te lá vêr todos os dias. Até has de gostar, verás.

—Emfim que lhe hei de eu fazer? É aguentar. E com duas grossas lagrimas nas palpebras, amaldiçoava intimamente aquella paixão que só amarguras lhe dava, e que agora, quando toda a Leiria ia para a Vieira, a forçava a ella a ir fechar-se na solidão da Ricoça, ouvindo tossir a velha e os cães uivar na quinta...—E a mamã, que diria a mamã?

—Que ha de dizer? A D. Josepha não póde ir p'r'á quinta só, sem uma enfermeira de confiança! Não te dê cuidado. O padre-mestre está lá em baixo a trabalhal-a... E eu vou ter com ella, que já aqui estou só ha bocado comtigo, e n'estes ultimos dias é necessario ter cautelinha...

Desceu. Justamente o conego subia, e encontraram-se na escada.

—Então? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre.

—Tudo arranjado. E por lá?

—Idem.

E no escuro da escada os dois padres apertaram-se silenciosamente a mão.

D'ahi a dias, depois d'uma scena de prantos, Amelia partiu com D. Josepha para a Ricoça n'um

char-à-banc

.

Tinham arranjado, com almofadas, um recanto commodo para a convalescente. O conego acompanhava-a, furioso com aquelle incommodo. E a Gertrudes ia em cima na almofada, á sombra da montanha que faziam sobre o tope do carro os bahús de couro, os cestos, as latas, as trouxas, os saccos de chita, o açafate onde miava o gato, e um fardo amarrado com cordas contendo os paineis dos santos mais queridos de D. Josepha.

Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. Joanneira para a Vieira, de noite, por causa da calma. A rua da Misericordia estava atravancada com o carro de bois, que conduzia as louças, os enxergões, o trem de cozinha; e no mesmo

char-à-banc

que fôra á Cortegassa, ia agora a S. Joanneira e a

Ruça

que levava tambem no regaço um açafate com o gato.

O conego fôra na vespera, só Amaro assistia á partida da S. Joanneira. E depois de toda uma azafama, de galgarem cem vezes de baixo a cima as escadas por um cestinho que esquecera ou um embrulho que desapparecia, quando a

Ruça

emfim fechou a porta á chave, a S. Joanneira, já no estribo do

char-à-banc

, rompeu a chorar.

—Então, minha senhora, então! disse Amaro.

—Ai, senhor parocho, deixar a pequena!... Mal sabe o que me custa... Parece que a não torno a vêr. Appareça pela Ricoça, faça-me essa esmola. Veja se ella está contente...

—Vá descansada, minha senhora.

—Adeus, senhor parocho. Muito obrigada por tudo... Ai os favores que lhe devo!

—Tolices, minha senhora... Boa jornada, dê noticias! Recados ao padre-mestre. Adeus, minha senhora! adeus, Ruça...

O

char-à-banc

partiu. E pelo mesmo caminho por onde elle ia rolando, Amaro foi andando devagar até á estrada da Figueira. Eram então nove horas, nascera já o luar d'uma noite calida e serena de agosto. Uma tenue nevoa luminosa suavisava a paizagem calada. Aqui e além uma fachada saliente de casa rebrilhava, batida da lua, entre as sombras do arvoredo. Ao pé da ponte, parou a olhar melancolicamente o rio que corria sobre a areia com uma susurração monotona; nos logares em que as arvores se debruçavam, havia escuridões cerradas; e adiante uma claridade tremia sobre a agua, como um tecido de filigrana faiscante. Alli esteve, n'aquelle silencio que o calmava, fumando cigarros e atirando as pontas para o rio, embebido n'uma tristeza vaga. Depois, ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, passou pela rua da Misericordia n'um enternecimento de recordações: a casa, com as janellas fechadas, sem as cortinas de cassa, parecia abandonada para sempre; os vasos de alecrim tinham ficado esquecidos aos cantos da janella... Quantas vezes Amelia e elle se tinham encostado áquella varanda! Havia então um craveiro fresco, e conversando, ella cortava uma folha, trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha acabado agora!—E na Misericordia, ao lado, o piar das corujas no silencio dava-lhe uma sensação de ruina, de solidão e de fim eterno.

Foi andando para casa, devagar, com os olhos arrazados d'agua.

A criada veio logo á escada dizer-lhe que o tio Esguelhas, n'uma afflicção, viera procural-o duas vezes, haviam de ser nove horas. A Tótó estava a morrer, e só queria receber os sacramentos da mão do senhor parocho.

Amaro, apesar da sua repugnancia supersticiosa em voltar assim n'essa noite, para um fim tão triste, ao meio das recordações felizes da sua paixão, foi, para obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o aquella morte, coincidindo com a partida d'Amelia, e como completando a subita dispersão de quanto até ahi o interessára ou estivera misturado á sua vida.

A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e na escuridão da entrada topou com duas mulheres que sahiam suspirando. Foi logo direito á alcova da paralytica: duas grandes velas de cera, trazidas da igreja, ardiam sobre uma mesa; um lençol branco cobria o corpo da Tótó; e o padre Silverio, que fôra decerto chamado por estar de semana, lia o Breviario, com o lenço nos joelhos, os seus grandes oculos na ponta do nariz. Ergueu-se apenas viu Amaro:

—Ah, collega, disse muito baixo, andaram a procural-o por toda a parte... A pobre de Christo queria-o a vossê... Eu, quando me foram buscar, ia fazer a partida a casa do Novaes. É a partida do sabbado... Que scena! Morreu na impenitencia, como era dos livros. Quando me viu, e que vossê não vinha, que espectaculo! Até tive medo que me cuspisse no crucifixo...

Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta do lençol, mas deixou-o logo recahir sobre a face da morta. Depois subiu acima ao quarto onde o sineiro, estirado sobre a cama, voltado para a parede, soluçava desesperadamente; estava com elle outra mulher, que se conservava a um canto, muda e immovel, com os olhos no chão, no vago aborrecimento que lhe dava aquelle pesado dever de visinha. Amaro tocou no hombro do sineiro, fallou-lhe:

—É necessario resignação, tio Esguelhas... São decretos do Senhor... Para ella é até uma felicidade.

O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o parocho, por entre o véo das lagrimas que lhe alagavam os olhos, tomou-lhe a mão, quiz beijar-lh'a. Amaro recuou:

—Então, tio Esguelhas!... Deus ha de ser misericordioso, ha de lhe levar em conta a sua dôr...

Elle não o escutava, sacudido d'um pranto convulsivo,—emquanto a mulher, muito tranquillamente, limpava ora um ora outro canto do olho.

Amaro desceu; e para alliviar o bom Silverio d'aquelle serviço excepcional, tomou o seu logar ao pé da vela, com o Breviario na mão.

Alli ficou até tarde. A visinha ao sahir veio dizer-lhe que o tio Esguelhas tinha pegado a dormir; e ella promettia voltar com a amortalhadeira, mal rompesse a manhã.

Toda a casa então ficou n'aquelle silencio, que a visinhança do vasto edificio da Sé fazia parecer mais soturno; só ás vezes um mocho piava debilmente nos contrafortes, ou o grosso bordão batia os quartos. E Amaro, tomado d'um indefinido terror, mas preso alli por uma força superior da consciencia sobresaltada, ia precipitando as orações... Ás vezes o livro cahia-lhe sobre os joelhos; e então, immovel, sentindo por detraz a presença d'aquelle cadaver coberto do lençol, recordava, n'um contraste amargo, outras horas em que o sol banhava o pateo, as andorinhas esvoaçavam, e elle e Amelia subiam rindo para aquelle quarto onde agora, sobre a mesma cama, o tio Esguelhas dormitava com soluços mal acalmados...

XXII

O conego Dias recommendára muito a Amaro que ao menos nas primeiras semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, não fosse á Ricoça. E a vida d'Amaro tornou-se então mais triste, mais vazia que outr'ora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joanneira viera para a rua das Sousas. Todos os seus conhecidos estavam fóra de Leiria: D. Maria da Assumpção na Vieira; as Gansosinhos ao pé d'Alcobaça com a tia, a famosa tia que havia dez annos estava para morrer e para lhes deixar uma grande herdade. Depois do serviço da Sé, as horas, todo o longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. Não estaria mais separado de toda a communicação humana, se como Santo Antonio vivesse nos areaes do deserto libyco. Só o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe apparecia nos tempos felizes, voltára agora, como o companheiro fatidico das horas tristes, a visital-o uma, duas vezes por semana, ao fim do jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno guardachuva na mão. Amaro odiava-o; ás vezes, para o impôr, fingia-se todo occúpado n'uma leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe sentia nos degraus as passadas lentas:

—Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.

Mas o homem installava-se, com o odioso guardachuva entre os joelhos:

—Não se prenda, senhor parocho, não se prenda.

E Amaro, torturado por aquella figura lugubre que não se mexia na cadeira, atirava a penna, furioso, agarrava o chapéo:

—Não estou hoje p'r'á coisa, vou espairecer.

E á primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.

Ás vezes, farto de solidão, ia visitar o Silverio. Mas a felicidade pachorrenta d'aquelle sêr obeso, occupado em colleccionar receitas de medicina caseira e em observar as perturbações phantasticas da sua digestão; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e da senhora; as chalaças obsoletas que elle repetia havia quarenta annos e a innocente hilaridade que ellas lhe davam, impacientavam Amaro. Sahia, enervado, pensando na sorte inimiga era a felicidade por fim: porque não havia de elle ser tambem um bom padre caturra, com uma pequenina mania tyrannica, parasita regalado d'uma familia respeitavel, tendo um d'estes sangues tranquillos que giram sob camadas de gordura, sem perigo de transbordar e de causar desgraças, como um riacho que corre por debaixo d'uma montanha?...

Outras vezes ia ao collega Natario, cuja fractura, mal tratada ao principio, o retinha ainda na cama com o apparelho na perna. Mas ahi, enjoava-o o aspecto do quarto—impregnado d'um cheiro d'arnica e de suor, com uma profusão de trapos ensopados em malgas vidradas, e esquadrões de garrafas sobre a commoda entre fileiras de santos. Natario, mal o via apparecer, rompia em queixas: As cavalgaduras dos medicos! A sua má sorte habitual! As torturas a que o forçavam! O atrazo em que estava a medicina n'este maldito paiz!... E ia salpicando o soalho negro de expectorações e de pontas de cigarro. Desde que estava doente, a saude dos outros, sobretudo dos amigos, indignava-o como uma offensa pessoal.

—E vossê sempre rijo, hein? Pudera!—murmurava com rancor.

E pensar que aquella besta do Brito nunca lhe doera a cabeça! E que o alarve do abbade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete da manhã! Animaes!

Amaro então dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do conego, da Vieira, as melhoras da D. Josepha...

Mas Natario não se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a convivencia e a amizade; interessavam-n'o só os seus inimigos, com quem tinha ligações d'odio. Queria saber do escrevente, se já tinha estourado de fome...

—Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cahir aqui n'esta maldita cama!...

As sobrinhas appareciam então—duas creaturinhas sardentas, d'olhos muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi não mandasse vir a

benzedeira

pôr-lhe

virtude

na perna: era o que tinha curado o morgadinho da Barrosa, e o Pimentel d'Ourem...

Natario, na presença das

duas rosas do seu canteiro

, calmava-se.

—Coitaditas, não é por falta de cuidados d'ellas que eu ainda não arribei... Mas tenho soffrido, caramba!

E as duas rosas, com o mesmo movimento simultaneo, voltavam-se para o lado limpando os olhos aos lenços.

Amaro sahia d'alli, mais enfastiado.

Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se mais intensa, concordando com aquella paizagem de collinas tristes e arvores enfezadas: e a sua vida apparecia-lhe como essa mesma estrada monotona e longa, sem um incidente que a alegrasse, estirando-se desoladamente até se perder nas brumas do crepusculo. Ás vezes, ao voltar, entrava no cemiterio, ia passeando entre os renques de cyprestes, sentindo áquella hora do fim da tarde a emanação adocicada das moitas de goivos; lia os epitaphios; encostava-se á grade dourada do jazigo da familia Gouvêa, contemplando os emblemas em relevo, um chapéo armado e um espadim, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe adorna a lapida:

Caminhante, detem-te a contemplar

Estes restos mortaes;

E, se sentires a mágoa a transbordar,

Detem teus ais.

Que Julio Cabral da Silva Maldonado

Mendonça de Gouvêa,

Moço fidalgo, bacharel formado,

Filho da illustre Cêa,

Ex-administrador d'este concelho,

Commendador de Christo,

Foi de virtudes singular espelho,

Caminhante, crê n'isto.

Depois era o rico mausoléo do Moraes, onde sua esposa, que agora, rica e quarentona, vivia em concubinagem com o bello capitão Trigueiros, fizera gravar uma piedosa quadra:

Entre os anjos espera, ó esposo, A metade do teu coração Que no mundo ficou, tão sózinha, Toda entregue ao dever da oração!...

Algumas vezes, ao fundo do cemiterio, junto ao muro, via um homem ajoelhado ao pé d'uma cruz negra, que um chorão assombreava, ao lado da valla dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua moleta no chão, rezando sobre a sepultura da Tótó. Ia fallar-lhe, e mesmo, n'uma igualdade que aquelle logar justificava, passeavam familiarmente, hombro a hombro, conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia á desgraçada rapariga a vida para a passar estirada n'uma cama?

—Sempre era viver, senhor parocho... E eu, veja agora isto, sósinho de dia e de noite!

—Todos têm as suas solidões, tio Esguelhas, dizia melancolicamente Amaro.

O sineiro então suspirava, perguntava pela snr.

a

D. Josepha, pela menina Amelia...

—Lá está na quinta.

—Coitadita, não está má estopada...

—Cruzes da vida, tio Esguelhas.

E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros cheios do negrejamento das cruzes e da brancura das lapidas novas. Amaro, ás vezes, reconhecia alguma sepultura que elle mesmo tinha aspergido e consagrado: onde estariam aquellas almas que elle recommendára a Deus em latim, distrahido, engorolando á pressa as orações para ir ter com Amelia? Eram jazigos de gente da cidade; elle conhecia de vista as pessoas da familia; vira-as então lavadas em lagrimas, e agora passeavam em rancho pela Alameda ou chalaceavam ao balcão das lojas...

Voltava para casa mais triste,—e a sua longa noite começava, infindavel. Tentava lêr; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de tedio e de fadiga. Ás vezes escrevia ao conego. Ás nove horas tomava chá; e depois era um passear sem fim pelo quarto, fumando maços de cigarros, parando á janella a olhar a negrura da noite, lendo aqui e além uma noticia ou um annuncio do

Popular

e recomeçando a passear com bocejos tão cavos que a criada os ouvia na cozinha.

Para entreter estas noites melancolicas, e por um excesso de sensibilidade ociosa, tentára fazer versos, pondo o seu amor e a historia dos dias felizes nas formulas conhecidas da saudade lyrica:

Lembras-te d'esse tempo da delicias, Ó anjo feiticeiro, Amelia amada, Quando tudo eram risos e ventura E a vida nos corria socegada? Lembras-te d'essa noite de poesia Em que a lua brilhava pelos céos, E nós unindo as almas, ó Amelia, Erguemos nossa prece para Deus?...

Mas a despeito de todos os esforços nunca passára d'estas duas quadras—apesar de as ter produzido com uma facilidade promettedora—como se o seu sêr contivesse apenas estas duas gottas isoladas de poesia, e, soltas ellas á primeira pressão, nada mais restasse senão a sêcca prosa do temperamento carnal.

E esta existencia varia relaxára-lhe tão subtilmente todo o machinismo da vontade e da acção, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso como o peso d'um fardo injusto. Preferia ainda os tedios da ociosidade aos tedios da occupação. A não serem os deveres estrictos que elle não podia desleixar sem escandalo e sem censura—desembaraçára-se, pouco a pouco, de todas as praticas do zelo interior: nem a oração mental, nem as visitas regulares ao Santissimo, nem as meditações espirituaes, nem o rosario á Virgem, nem a leitura á noite do Breviario, nem o exame de consciencia—todas estas obras da devoção, estes meios secretos de santificação progressiva substituia-os pelos infindaveis passeios pelo quarto, do lavatorio á janella, e por maços de cigarros fumados até ao negro dos dedos. A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; o serviço da parochia feito com surdas revoltas de impaciencia; tornára-se consummadamente o

Indignus sacerdos

dos ritualistas; e tinha na sua ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que os theologos attribuem ao

mau padre

.

Só lhe restava através da sua sentimentalidade um appetite tremendo. E como a cozinheira era excellente, e a snr.

a

D. Maria da Assumpção, antes da sua partida para a Vieira, lhe deixára um fornecimento de cento e cincoenta missas a cruzado—banqueteava-se, tratando-se a gallinha e a geleia, regando-se d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe escolhera. E alli ficava á mesa, horas esquecidas, de perna esticada, fumando sobre o café, e lamentando não ter á mão a sua Ameliasita...

—Que fará ella por lá, a pobre Ameliasita! pensava, espreguiçando-se com tedio e com langor.

A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua vida.

Logo durante a jornada no

char-à-banc

D. Josepha lhe fizera tacitamente sentir que d'ella não tinha a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do escandalo... E assim foi, quando se installaram. A velha tornou-se intratavel: era todo um modo cruel de abandonar o

tu

, de a tratar por

menina

; uma recusa rispida se Amelia lhe queria arranjar a almofada ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo quando ella lhe passava o serão no quarto, costurando; e a todo o momento allusões suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus dias...

Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe que a madrinha seria toda caridade, toda cumplicidade; entregava-a por fim a uma semelhante ferocidade de velha virgem devota!...

Quando se viu n'aquelle casarão da Ricoça, n'um quarto regelado, pintado a côr de canario, lugubremente mobilado com uma cama de docel e duas cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabeça, enterrada no travessseiro—torturada por um cão que debaixo das janellas, estranhando sem duvida as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.

Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrahir-se. Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um cypreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda peor, semelhante a um ourango-tango, com duas orelhas enormes muito despegadas do craneo, uma saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas, um corpo desengonçado de tisico, de peito mettido para dentro. Abalou bem depressa, foi vêr o pomar: andava maltratado; as ruasitas estavam invadidas por um hervaçal humido; e a sombra das arvores muito juntas, n'um terreno baixo, cercado d'altos muros, dava uma sensação doentia.

Era ainda preferivel passar os seus dias mettida no casarão; dias infindaveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso d'um desfilar funerario.

O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas recebia a impressão triste da paizagem que se estendia defronte, uma ondulação monotona de terras estereis com alguma magra arvore aqui e além, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exhalação de paues proximos e de baixas humidas, e a que nem o sol de setembro dissipava o tom sezonatico.

Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josepha, accommodal-a no canapé; depois vinha costurar para ao pé d'ella—como outr'ora na rua da Misericordia para ao pé da mãi; mas agora em logar das boas «cavaqueiras» tinha só o silencio intratavel da velha e a sua ronqueira incessante. Pensára em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal fallou, a velha exclamou com azedume:

—A menina está doida... Não tenho saude para tocatas! Ora o desproposito!

A Gertrudes tambem não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella freguezia, e passava o seu tempo pelos casaes, palrando com as antigas visinhas.

A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rozario, ficava junto á janella olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silencio parecia descer, pousar sobre a terra; depois uma primeira estrellinha tremeluzia e brilhava; e diante d'ella era então só uma massa inerte de sombra muda até ao horisonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira côr de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno de objecto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; áquella hora a mãi e as amigas recolhiam do passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros começam a apparecer as luzes; é a hora do chá, dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisando

soirées

. E ella alli, só!...

Era então necessario deitar a velha, rezar com ella e com a Gertrudes o terço. Accendiam depois o candieiro de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.

Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, n'um medo constante de ladrões; e então começava para Amelia a hora dos terrores supersticiosos. Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura d'aquellas antigas salas deshabitadas e em redor o tenebroso silencio dos campos. Ouvia ruidos inexplicaveis: era o soalho do corredor que estalava, sob passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um halito invisivel; ou a distancia, para os lados da cozinha, o baque surdo d'um corpo. Accumulava então as orações, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadêlo continuavam-lhe os terrores da vigilia. Uma vez acordára de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por traz da alta barra da cama:—

Amelia, prepara-te, o teu fim chegou!

Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.

Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou quando ella ia adormecer:

Amelia, lembra-te dos teus peccados! Prepara-te, Amelia!

Deu um grito, desmaiou. Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitára, correu áquelle ai agudo que cortára o silencio do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, com os cabellos soltos da rede rojando no chão, as mãos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de madrugada foi uma azafama para a chamar á vida. Desde esse dia a Gertrudes dormia ao pé d'ella—e a voz não tornou a ameaçal-a por traz da barra.

Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa da morte e o pavor do inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante d'estampas passou pela Ricoça; e a snr.

a

D. Josepha comprou-lhe duas lithographias—a

Morte do Justo

e a

Morte do Peccador

.

—Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ella.

Amelia não duvidou ao principio que a velha, que contava morrer no mesmo apparato de gloria com que expirava o

Justo

da estampa, lhe quizera mostrar a ella, a

peccadora

, a scena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquella «picardia». Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar á compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que alli mandára o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na lithographia da

Morte do Peccador

o espectaculo da sua agonia: e estava então certa que tudo seria assim, traço por traço—o seu anjo da guarda fugindo aos soluços; Deus-Padre desviando o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da morte rindo ás gargalhadas; e demonios de côres rutilantes, com todo um arsenal de torturas, apoderando-se d'ella, uns pelas pernas, outros pelos cabellos, arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna chammejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dôr... E ella podia vêr ainda, no fundo dos céos, a grande balança—com um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma penna de canario, e o outro prato cahido, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de peccado.

Cahiu então n'uma melancolia hysterica que a envelhecia; passava os dias suja e desarranjada, não querendo dar cuidado ao seu corpo peccador; todo o movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas orações lhe custavam, como se as julgasse inuteis; e tinha atirado para o fundo d'uma arca o enxoval que andava a costurar para o filho—porque o odiava, aquelle sêr que ella sentia mexer-se-lhe já nas entranhas e que era a causa da sua perdição. Odiava-o—mas menos que o outro, o parocho que lh'o fizera, o padre malvado que a tentára, a estragára, a atirára ás chammas do inferno! Que desespero quando pensava n'elle! Estava em Leiria socegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez—e ella alli sósinha, com o ventre condemnado e enfartado do peccado que elle lá depuzera, ia-se afundindo na perdição sempiterna!

Decerto esta excitação a teria matado—se não fosse o abbade Ferrão que começára então a vir vêr muito regularmente a irmã do amigo conego.

Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua da Misericordia; dizia-se lá que o Ferrão tinha «idéas exquisitas»: mas não era possivel recusar-lhe nem a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se succedido na diocese, e elle alli ficára esquecido n'aquella freguezia pobre, de congrua atrazada, n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo vigario geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavriado:

—Vossê é um dos bons theologos do reino. Vossê está predestinado por Deus para um bispado. Vossê ainda apanha a mitra. Vossê ha de ficar na historia da Igreja portugueza como um grande bispo Ferrão!

—Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom! Mas era necessario que eu tivesse o arrojo d'um Affonso d'Albuquerque ou d'um D. João de Castro, para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!

E alli ficára, entre gente pobre, n'uma aldeia de terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e uma chavena de leite, com uma batina limpa onde os remendos faziam um mappa, precipitando-se a uma meia legua por um temporal desfeito se um parochiano tinha uma dôr de dentes, passando uma hora a consolar uma velha a quem tinha morrido uma cabra... E sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma necessidade do seu visinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não duvidando parar, se encontrava uma rapariga bonita, o que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda moça, Deus a abençôe!»

E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão celebre, que lhe chamavam «a donzella».

De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas d'estação aos pés do Santissimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores praticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, d'onde a sua alma sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se para o somno com um d'estes longos e piedosos exames de consciencia, tão uteis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarcho e Seneca, e que são a correcção laboriosa e subtil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento meticuloso da virtude activa, emprehendido com um fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha vago, abysmava-se n'um cahos de livros.

Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de caçar! Cohibia-se, porque a caça tira muito tempo, e é sanguinario matar uma pobre ave que anda azafamada pelos campos nos seus negocios domesticos. Mas nas claras manhãs d'inverno, quando ainda ha orvalho nas giestas, se via passar um homem d'espingarda ao hombro, o passo vivo, seguido do seu perdigueiro—iam-se-lhe os olhos n'elle... Ás vezes porém, a tentação vencia: agarrava furtivamente a espingarda, assobiava á

Janota

, e com as abas do casacão ao vento, lá ia o theologo illustre, o espelho de piedade, através de campos e valles... E d'ahi a pouco—pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda debaixo do braço, os dois passaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosario á Virgem, e respondendo aos

bons dias

da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.

O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto «gêbo» e do seu grande nariz, agradou a Amelia, logo desde a primeira visita á Ricoça; e a sua sympathia cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano conego tinha pela sciencia do abbade.

A velha, com effeito depois de ter estado só com elle n'uma pratica d'horas, condemnára-o com uma unica palavra, na sua auctoridade de velha devota experiente:

—É relaxado!

Não se tinham realmente comprehendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos annos n'aquella parochia de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de mães a filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguezia, tendo pouca experiencia de confissão, encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada de devota de cidade, d'um beaterio caturra e atormentado; e ao ouvir aquella extraordinaria lista de peccados mortaes, murmurava espantado:

—É estranho, é estranho...

Percebera bem ao principio que tinha diante de si uma d'essas degenerações morbidas do sentimento religioso, que a theologia chama

Doença dos escrupulos

—e de que na sua generalidade estão affectadas hoje todas as almas catholicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença d'uma maniaca perigosa; e instinctivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira.

Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em que chegára á Ricoça (contava ella), ao começar o rosario a Nossa Senhora, lembrára-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era tão efficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito vezes de seguida recomeçára o rosario, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ella e Nossa Senhora!... Então desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E immediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pernas...

O abbade pulou:

—Oh, minha senhora!...

—Ai, não é tudo, senhor abbade!

Havia outro peccado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir a expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na bôca, tinha de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia d'embrulhada para o estomago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?

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