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O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

O CRIME DO PADRE AMARO (continued 2)

Reading edition

—Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial, entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de dez reis.

—Parece milagre! considerou a snr.

a

D. Maria da Assumpção, piedosamente.

Mas tinham dado onze horas; e depois da

tumba

final as velhas começaram a agasalhar-se. Amelia sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polka. João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:

—Muitos parabens por ter

quinado

com o senhor parocho. Que enthusiasmo!—E como ella ia responder:—Boa noite! disse elle sêccamente, embrulhando-se no seu chale-manta com despeito.

A

Ruça

alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam ganindo

adeusinhos

. O snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o

Descrido

.

Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviario; mas distrahia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes pôdres de Arthur, sobretudo o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama, com o Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçosinho gracioso...

Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da monotonia do

quino

, com uma grande sêde além d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz beber, mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então que na sala de jantar havia uma bilha d'Extremoz com agua fresca, muito boa, da nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu devagarinho. Havia

luz

na sala, estava o reposteiro corrido: ergueu-o e recuou com um

ah!

Vira n'um relance Amelia, em saia branca, a desfazer o atacador do collete: estava junto do candieiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus braços brancos, o seio delicioso. Ella deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos cabellos. Poderiam suspeitar uma offensa! Palavras indignadas iam sahir decerto através do reposteiro do quarto, que ainda se balouçava agitado!

Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:

—Que queria, senhor parocho?

—Vinha buscar agua... balbuciou elle.

—Aquella

Ruça

! aquella desleixada! Desculpe, senhor parocho, desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa, a bilha. Achou?

—Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a agua escorria-lhe pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos hombros e em chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.

V

Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda, dentro de uma bacia, a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de murrão de azeite; brancuras de saias cahidas no chão destacavam; e os olhos do gato, que não socegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade phosphorica verde.

Na casa visinha uma criança chorava sem cessar, Amelia sentia a mãi embalar-lhe o berço, cantar-lhe baixo:

Dorme, dorme, meu menino, Que a tua mãi foi á fonte!

Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente Sousa deixára com um filho no berço, e gravida d'outro—para ir casar a Extremoz! Tão bonita era, tão loura—e mirrada agora, tão chupada!

Dorme, dorme, meu menino. Que a tua mãi foi á fonte!

Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mãi dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmãosinho que morrera!

Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, ao pé da estrada de Lisboa; á janella do seu quarto havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao sol. Não conhecera o papá. Fôra militar, morrera novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e branca, que fôra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus oculos redondos, junto á janella, empurrando a agulha, morria-se por contar historias do convento: as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando:—Augusto! Augusto!

Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava então tanto de festas d'igreja e da convivencia dos santos, que desejava ser uma «freirinha, muito bonita, com um véosinho muito branco.» A mamã era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhe

padrinho

. Quando ella voltava da mestra, á tarde, encontrava-o sempre a palestrar com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando vêr o longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O senhor chantre perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a taboada.

Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fôra frade franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da mãi, com as suas

meias

; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silencio, e o capitão, repenicando a guitarra, cantava o

lundum da Figueira

.

Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos: sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas mãos papudas e molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o cabello todo branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho, comprimentando com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer «bagatella» fallavam-lhe sempre dos castigos do céo; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe dar o soffrimento e a morte e que é necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cahir na escada.

Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de musica. A mãi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um pano verde, tão desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas da mãi diziam-lhe:

—Tu tens ahi um piano, porque não mandas ensinar a rapariga? Sempre é uma prenda! olha que lhe póde servir de muito!

O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé d'Evora, extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praça, que ia muito á capital, vira-a descer a rua do Norte, de

garibaldi

escarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira em grande melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer até aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia muito transido, no seu capote côr de vinho que só lhe chegava á cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o

Tio Cegonha

pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe chamado

Tio Cegonha

; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.

O velho poz-se a sorrir:

—Ai, chame, minha rica menina, chame!

Tio Cegonha

?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem cegonha!

Era então no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a aspera estação opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias esfomeadas indo á camara pedir pão. O

Tio Cegonha

vinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e não o deixava escrever no cartorio.

—Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.

Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro mez das lições, o velho appareceu muito contente, com umas grossas luvas de lã.

—Ah,

Tio Cegonha

, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.

—Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias de lã. Deus a abençôe, minha menina, Deus a abençôe!

E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornára-se a «sua rica amiguinha». Já lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora, quando diante do senhor

arcebispo

, vistoso na sua sobrepelliz escarlate, acompanhava o

Lausperenne

.

Amelia não se esqueceu das meias de lã do

Tio Cegonha

. Pediu ao chantre que lhe désse umas meias de lã.

—Ora essa! para quê? para ti? disse elle com o seu riso grosso.

—Para mim, sim senhor.

—Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a idéa!

—Não deixe fallar, não! dê, sim?

Lançou-lhe os braços ao pescoço, fez-lhe olhinhos dôces.

—Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! ha de ser o diabo!... Pois sim, ahi tens.—E deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.

No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fóra em letras garrafaes:

Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula

.

Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:

—Ó

Tio Cegonha

, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartorio?

O velho sorriu-se:

—Ora, minha rica menina, quanto me hão de dar? uma bagatella. Quatro vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...

—E chegam-lhe, quatro vintens?

—Ora! como hão de chegar!

Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando gravemente a attitude de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.

E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãi a dar de almoçar e de jantar ao

Tio Cegonha

nos dias de lição. Assim se estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre

Tio Cegonha

, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se áquella amizade inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua musica; e via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, ás recordações da velha Sé d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se fallava de procissões ou de festas de igreja:

—Para isso Evora! em Evora é que é!

Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua vida: já tocava contradansas e antigas arias de velhos compositores; a snr.

a

D. Maria da Assumpção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o

Trovador

.

—Coisa mais linda! dizia.

Mas o

Tio Cegonha

só conhecia a musica classica, arias ingenuas e dôces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos dôces tempos freiraticos.

Uma manhã o

Tio Cegonha

encontrou Amelia muito amarella e triste. Desde a vespera queixava-se de «mal-estar». Era um dia nublado, muito frio. O velho queria ir-se embora.

—Não, não,

Tio Cegonha

, disse ella, toque alguma coisa para eu me entreter.

Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente melancolica.

—Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé junto ao piano.

E quando o velho deu as ultimas notas:

—O que é? perguntou ella.

O

Tio Cegonha

contou-lhe que era o começo de uma

Meditação

feita por um frade seu amigo.

—Coitado, disse, teve bem o seu tormento!

Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu chale:

—Diga,

Tio Cegonha

, diga!

Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ella morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade, fizera-se frade franciscano...

—Parece que o estou a vêr...

—Era bonito?

—Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao orgão: «Olha o que eu fiz», disse-me elle. Era um papel de musica. Abria em ré menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que musica! Mas não me lembra o resto!

E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes da

Meditação

em ré menor.

Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade frasciscano, na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus olhos profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos seus habitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos caminhava para o côro: elle ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava: era um vasto céo negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta escuridão ella via apparecer um grande coração em carne viva, todo trespassado de espadas—e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o céo d'uma chuva escarlate.

Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa tranquillisou a S. Joanneira com uma simples palavra:

—Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze annos da rapariga. Hão de lhe vir ámanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temol-a mulher.

A S. Joanneira comprehendeu.

—Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixões fortes! acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.

Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço d'açorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternação inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpção, as snr.

as

Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.

a

D. Josepha Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:

—Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te ampare!

Era então no começo de setembro; a snr.

a

D. Maria da Assumpção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia para a estação dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis, em logar differente, aquella dôr.

—É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a vêr-me costurar!

—Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.

—Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha!

Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta e de bonitas fórmas. Foi uma alegria para ella a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul, muito mansa, cheia de sol; ás vezes no horisonte passava um fumo delgado de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céo azul-ferrete.

Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé. Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia então da barraca com o seu vestido de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinha-se persignado ás escondidas e toda tremula, agarrada á mão do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua salgada. Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor vozes amigas perguntavam:

—Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?

Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme!

D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz, filho do snr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moço delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de caloiros, fazia

partidas

, e era famoso na Vieira, entre os homens, «por saber conversar com senhoras».

—O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça áquella. Lá para sociedade não ha outro!

Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr. Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, «p'ra namoro». Amelia córava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e admirava-o, achava-o muito «dengueiro».

Um dia em casa da snr.

a

D. Maria da Assumpção pediram a Agostinho para recitar.

—Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro! exclamou elle, jovial.

—Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.

—Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.

—A

Judia

, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.

—Qual

Judia

! disse elle, ha de ser mas ha do ser a

Morena

!—E olhou para Amelia.—Foi uma poesia que fiz hontem.

—Valeu, valeu!

—E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caçadores, tomando logo a guitarra.

Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou a luneta, apoiou as duas mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:

—Á

Morena

de Leiria! disse.

Nasceste nos verdes campos Onde Leiria é famosa, Tens a frescura da rosa, E o teu nome sabe a mel...

—Perdão! exclamou o recebedor, a snr.

a

D. Juliana não está boa...

Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os

braços

pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovêlo, olhou em redor, começaram a tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os homens em grupo, commentavam:

—Foi o calor, diziam.

—O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caçadores.

O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa acompanhar a snr.

a

D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S. Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um criado levava um lampeão, e todos caminhavam na areia, calados.

—Tudo isto é teu proveito, disse a snr.

a

D. Maria da Assumpção baixo á S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.

—Meu!?

—Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!

—Ora essa!... disse a S. Joanneira.

—Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as tias. É um partidão!

Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca, e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.

—Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.

Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar a areia com a sombrinha. O snr. Agostinho suspirou, alisou outro pedaço d'areia com o pé, escreveu—

Amelia

. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mão.

—Então! disse elle. E debruçando-se, baixo:—É o nome da

Morena

, bem vê.

O seu nome sabe a mel!

...

Ella sorriu:

—Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.

—Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo! Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não importo com ella, como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...

—Quem é? É a snr.

a

D. Bernarda?

Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.

—É, disse elle rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado, é pela D. Bernarda.

—Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos, riscando a areia.

—Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.

Amelia pôz-se de pé.

—Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou elle offendido.

—Eu é que estava cansada de estar sentada.

Calaram-se um momento.

—Já tomou banho? disse ella.

—Já.

—Estava frio hoje?

—Estava.

As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.

—Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe de leve a mão no hombro.

Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo risonho, exclamou com vehemencia:

—Estou mesmo doido por si!

—Chut!... disse ella.

A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de lenço amarrado na cabeça.

—Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéo de palha.

—Estava por aqui?

—Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?

—Se é servido... disse a S. Joanneira.

Agostinho, muito galante, offereceu o braço á mamã.

E desde então seguia sempre Amelia, de manhã no banho, de tarde á beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos—o

Sonho

. Uma estrophe era violenta:

Senti-te contra o meu peito Tremer, palpitar, ceder...

Ella murmurava-os com grande commoção, de noite, suspirando, abraçando o travesseiro.

Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da snr.

a

D. Maria da Assumpção e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céo, cahíram gotas d'agua. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:

—Estou doido por ti, filha!

—Creio lá n'isso! murmurou ella.

Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:

—Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.

—Vai-se?

—Talvez; não sei ainda. Além d'ámanhã é a matricula.

—Vai-se... suspirou Amelia.

Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com furor:

—Escreve-me! disse.

—E a mim escreve-me? disse ella.

Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.

—Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.

De repente teve um gemido dôce como um arrulho de ave, e abandonava-se—quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:

—Ha uma aberta. É andar! é andar!

E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guardachuva da mamã.

Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mãi, a snr.

a

D. Maria da Assumpção voltaram para Leiria.

Passou o inverno.

E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpção deu parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento justo com a menina do Vimeiro.

—Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus trinta contos! Olha o méco!

E diante de todos Amelia rompeu a chorar.

Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada d'aquelle moço da historia do

Tio Cegonha

, que por amor se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendencias que desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na igreja, accumulando Salve-Rainhas á Senhora da Encarnação. Ouvia todos os dias missa, quiz commungar todas as semanas—e as amigas da mãi achavam-na «um modêlo, de dar virtude a incredulos»!

Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irmã, a snr.

a

D. Josepha Dias, começaram a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o conego tornou-se o «amigo da familia». Depois do almoço era certo com a sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.

—Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o senhor chantre não ha dia nenhum que me não lembre d'elle!

A irmã do conego tinha então organisado com a S. Joanneira a

Associação das Servas da Senhora da Piedade

. A snr.

a

D. Maria da Assumpção, as Gansosos «filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; «a Sé, como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da Misericordia». Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um homem—

não é temente a Deus

, havia o dever de o desacreditar santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham tomado um certo vestuario entre o preto e o rôxo: toda a casa cheirava a cera e a incenso; e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o commercio das hostias.

Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se: a ligação do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem—como era de tradição n'aquella diocese, fatal aos chantres; e já não eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; crescera: fizera-se uma bella moça de vinte e dois annos, d'olhar avelludado, beiços muito frescos—e achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice de criança». A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na religião e na igreja era o apparato, a festa—as bellas missas cantadas ao orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mór na gloria das flôres cheirosas, o roçar das correntes dos incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no côro das alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre Brito ou ao conego Saldanha.—Mas em certos dias, como dizia a mãi, «murchava»: voltavam então os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam, lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas occasiões horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que só a consolava cantar pela casa o Santissimo ou as notas lugubres do toque da Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre—e lamentava então que a Sé fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um altar ornado como uma

étagère

.

Fizera vinte e tres annos quando conheceu João Eduardo, no dia da procissão de

Corpus-Christi

, em casa do tabellião Nunes Ferral, onde elle era escrevente. Amelia, a mãi, a snr.

a

D. Josepha Dias tinham ido vêr a procissão da bella varanda do tabellião, guarnecida de colchas de damasco amarello. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde, reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe «muito bom rapaz».

Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:—É tirar pares, é tirar pares!—emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio estridente uma mazurka franceza. João Eduardo aproximou-se de Amelia:

—Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar sêcco.

João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a mão na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia, desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar accommodando os folhos de sêda, agradada. O escrevente, embaraçado, torcia o bigode com a mão tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:

—Então o senhor não dansa tambem?

—E a snr.

a

D. Amelia? disse elle baixo.

Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:

—Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.

—Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma intenção fina.

—Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella olhando-o de lado.

—De mim, por exemplo.

—De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque me hei de eu rir do senhor? Boa!... Então o senhor que tem que faça rir?—E agitava o seu leque de sêda preta.

Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.

—Então sério, sério, não dansa?

—Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!

—É porque me interesso por si.

—Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.

—Palavra!

Mas a snr.

a

D. Josepha Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa muito franzida—e João Eduardo levantou-se, intimidado.

Á sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de chapéo na mão:

—Cubra-se bem, não apanhe frio!

—Então continúa a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor do pescoço as pontas da sua manta de lã.

—O mais possivel, creia.

Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de

zarzuela

. Fallava-se muito da contralto, a

Gamacho

. A snr.

a

D. Maria da Assumpção tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia—que duas noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido de cassa todo florido de laços de sêda azul. João Eduardo na platéa—emquanto a Gamacho, empastada de pó de arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com uma graça decrepita o leque de lentejoulas, garganteava malaguenhas agudas—não se fartou de contemplar, de desejar Amelia. Á sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o braço até á rua da Misericordia: a S. Joanneira, a snr.

a

D. Maria da Assumpção seguiam atraz com o tabellião Nunes.

—Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?

—A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.

—Então que fez?

—Olhei para si, respondeu elle resolutamente.

Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:

—Onde vem a mamã?

—Deixe lá a mamã!

E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe «a sua grande paixão». Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:

—Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!

Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de verão, com a sua vasta scintillação de estrellas, tornava-a toda languida. Abandonou a mão, suspirou baixinho.

—Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.

—Sim, respondeu ella—e apertou os dedos de João Eduardo, com paixão.

Mas, como ella pensou, «fôra decerto um fogacho»—porque, dias depois, quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde fallar livremente com elle, reconheceu que «não tinha nenhuma inclinação pelo rapaz». Estimava-o, achava-o sympathico, bom moço; poderia ser um bom marido; mas sentia dentro em si o coração adormecido.

O escrevente porém começou a ir á rua da Misericordia quasi todas as noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu «proposito» e pela sua honradez. Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o á janella pela manhã quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dôces á noite,—mas só para o não descontentar, para ter na sua existencia desoccupada um interessesinho amoroso.

João Eduardo um dia fallou à mãi em casamento:

—Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.

E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:

—Mais tarde, por ora não me parece, veremos.

Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até que elle obtivesse o lugar de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor Godinho—o temido doutor Godinho!

Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a

Ruça

na sala de jantar:

—É o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vão á Sé.

Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, ergueu uma pontinha da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina de pano fino.

VI

Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades, Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o «quarto do senhor parocho andava que nem um brinco»! Amelia tinha com elle uma familiaridade picante de parenta bonita: «tinham calhado um com outro», como dissera, encantada, D. Maria da Assumpção. Os dias iam assim passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colchões macios e a convivencia meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tilias floresceram no jardim do Paço: «quasi milagre»! disse-se: o senhor chantre, contemplando-as todas as manhãs da janella do seu quarto, em robe-de-chambre, citava versos das

Eclogas

. E depois das longas tristezas da casa do tio da Estrella, dos desconsolos do seminario e do aspero inverno na Gralheira—aquella vida em Leiria era para Amaro como uma casa sêcca e abrigada onde o alegre lume estala e a sôpa cheirosa fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.

Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As manhãs estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, com o mantéo escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de branco.

Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no lagedo, emquanto o sacristão, pachorrento, contava «as novidades do dia».

Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava á igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade pallida na larga luz da manhã, juntava as mãos, murmurava, curvado:

—

Introibo ad altare Dei.

—

Ad Deum qui lætificat juventutem meam

, resmungava, n'um latim syllabado, o sacristão.

Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma devoção enternecida. «Estava agora habituado», dizia. E como não ceava, e áquella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos. Por traz o sacristão, com os braços cruzados, passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando de revez para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. Largas resteas de sol cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sêccos adocicava o ar.

Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas, apresentava-as, curvado—e Amaro sentia o cheiro do oleo rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um antigo habito de emoção mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido: com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza, a exhortação universal á oração—

Orate, fratres!

E as velhas encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios negros. Então o sacristão ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando ligeiramente com uma das mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a hostia—

Hoc est enim corpus meum!

—elevando alto os braços para o Christo cheio de chagas rôxas sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à volta do mercado.

—

Ite, missa est!

dizia Amaro emfim.

—

Deo gratias!

respondia o sacristão respirando alto, com o allivio da obrigação finda.

E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus dar a benção, era já pensando na alegria do almoço, na clara sala de jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora já Amelia o esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca um bom cheiro de sabão d'amendoas.

Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S. Joanneira e Amelia costuravam. «Estava aborrecido em baixo, vinha um bocado para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao pé da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos de cera, oscillavam, faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras leves côr de

bistre

esbatiam-se delicadamente sobre a pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda, espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:

—Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!

Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando a

Ruça

vinha ao armario buscar um prato ou uma colhér: então fallava-se do preço dos generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas, traçava a perna e, balouçando o pé calçado n'uma chinela d'ourelo, punha-se a dizer os pratos:

—Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor parocho gostará, foi para variar...

Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria affinidade de gostos com Amelia.

Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrára uma carta; perguntou-lhe pelo

derriço

; ella respondeu, picando vivamente o posponto:

—Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...

—Não é tanto assim, acudiu elle.—Mas suspendeu-se, muito vermelho, affectando tossir.

Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.

—Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. Joanneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...

Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:—elle estava alli para o que quizessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do senhor parocho, «que até tocavam o coração»! Ás vezes Amelia pousava a costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mão pela espinha do

Maltez

que se arredondava, fazendo um

ron-ron

de gozo.

—Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, com os olhos muito ternos.

E a voz de Amaro murmurava, perturbada:

—Bichaninho gato! bichaninho gato!

Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio á idiota ou ir palrar á cozinha. Elles ficavam sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente. Então Amelia cantarolava baixo o

Adeus

ou o

Descrente

: Amaro accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.

—É tão bonito isso! dizia.

Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.

Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que era

ella

ou vinha d'

ella

lhe parecia perfeito: gostava da côr dos seus vestidos, do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava até com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar á janella do seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficára sobre o bahú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, andar com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em baixo, longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se vêem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.

Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o pé:

—Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima, o

tic-tic

das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção cahia como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava então a sua liberdade perdida: como desejaria não a vêr, estar longe de Leiria, n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o—e o encanto recomeçava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha. A

Ruça

, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia ás vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro queria levantar-se logo, attencioso.

—Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E punha-lhe a mão no hombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; ás vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amelia debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava não ter uma irmãzinha assim»!

Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no môlho do guisado; a mãi dizia-lhe sempre:

—Embirro que faças isso diante do senhor parocho.

E elle então rindo:

—Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! magnetismo!

E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o crepusculo crescia, a

Ruça

trazia o candieiro. O brilho dos copos e das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. Joanneira

mamã

; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.

Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada:

—Licença para dois!

Era elle e a cadella, a

Trigueira

.

—Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! dizia assomando á porta.

—Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.

Elle sentava-se, exhalando um profundo

uff!

—Vá lá a gotinha do café! E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:

—Então como vai cá o seu menino?

Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso o

Diario Popular

; Amelia interessava-se pelo romance, a S. Joanneira pelas correspondencias amorosas nos annuncios.

—Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.

Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contára a tia, dos fidalgos que conhecera «em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia, enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quasí imperceptivel, fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.

—É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem vêr como está.

A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:

—Ah! é o menino!

—É o menino, é, diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

—É o menino, é o menino!

—Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe dê uma boa morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:

—Ora vá um bocadinho de musica, pequena!

Amelia ia sentar-se ao piano.

—Ó filha, toca o

Adeus

! recommendava a S. Joanneira começando a sua meia.

E Amelia, ferindo o teclado:

Ai! adeus! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado...

A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.

Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a lêr os

Canticos a Jesus

, traducção do francez publicada pela sociedade das

Escravas de Jesus

. É uma obrasinha beata, escripta com um lyrismo equivoco, quasi torpe—que dá á oração a linguagem da luxuria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado do meu coração, corpo adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavras

gozo

,

delicia

,

delírio

,

extase

, voltam a cada momento, com uma persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se exhala um bafo de cio mystico, vêm então imbecilidades de sacristia, notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e orações para as dôres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as educandas lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem as eloquencias do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e dá-se ás confessadas: é a cantharida canonica!

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros, tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça ás costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vêl-a em collete diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.

Começára então a recommendar-lhe a leitura dos

Canticos a Jesus

.

—Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse elle, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, com as olheiras até ao meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitações.

—E então, gostou dos

Canticos

?

—Muito. Orações lindas! respondeu.

Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste—e sem razão, ás vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.

Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando João Eduardo vinha passar as noites «em familia». Até ás nove horas o parocho não sahia do quarto; e quando subia para o chá desesperava-se de vêr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.

—Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S. Joanneira.

Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os olhos fitos na chavena.

Amelia, na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o parocho a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se sentia o vento uivar, encanado na rua.

—Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo devagar a sua meia.

—Safa!... acrescentava João Eduardo.

As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.

—Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.

—Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira, com um suspirosinho de fadiga.

A S. Joanneira, então, que não gostava de «vêr gente mona», propunha uma

bisca de tres

; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de latão, descia para o quarto, muito infeliz.

N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a

casmurra

. A intimidade do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar á S. Joanneira, dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a dentro não podia ser agradavel a Deus». Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a, pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se então Amelia com a sua corôa de flôres de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus lençoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo «idiota do escrevente» cravavam-se-lhe no peito como punhaes...

—Pois que casem, e que os leve o diabo!...

Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como para impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o

frou-frou

das suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o coração aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima ao despir-se, palrando ainda com a mãi.

Um dia Amaro jantára em casa da snr.

a

D. Maria da Assumpção; fôra depois passear pela estrada de Marrases, e á volta, ao fim da tarde, encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no patamar, estavam os chinelos de ourelo da

Ruça

.

—Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte e esqueceu-se de fechar a porta.

Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.

a

D. Joaquina Gansoso, n'uma fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em ir á irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu á cozinha a accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da S. Joanneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou.—Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia branca, atacava o collete; e, sentado á beira da cama, em mangas de camisa, o conego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas de chuva cahiam.

—E esta! E esta! dizia elle assombrado.

Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S. Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição, as dignidades ecclesiasticas! Que faria então um homem novo e forte, que sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:—«Todos são do mesmo barro!» Todos são do mesmo barro,—sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em Deus como n'uma absolvição permanente, e têm no emtanto, n'uma viella, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das attitudes devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!

Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquella, a S. Joanneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita, desejavel—outr'ora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos declives da idade, áquelles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da concubinagem. Amelia ia sósinha á igreja, ás compras, á fazenda; e com aquelles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante!—Resumia, filiava certas recordações: um dia que ella lhe estivera mostrando na janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e ella, muito córada, puzera-lhe a mão sobre o hombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra occasião ella roçára-lhe o peito pelo braço! A noite cahira, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa, cheio de uma só idéa deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa vida escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,—Amelia desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um chale sobre os hombros nús... Com que phrenesi a esperaria! E já não sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a idéa muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava áquelle homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos pulinhos pela rua.—Que pechincha de casa!

A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar. Subiu.

—Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a humidade da nevoa.

Sentada á mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: João Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joanneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica: e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam—vendo alli Amelia ao pé do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candieiro de familia!

E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu papel de ramagens verdes, o armario cheio de louça luzidia da Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme nos seus tres pés torneados; o paliteiro tão querido de todos—um Cupido rechonchudo com um guardachuva aberto erriçado de palitos, e aquella tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo tão decente!

Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S. Joanneira, como para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha duvida, és «uma barregã de clerigo ». Mas Amelia! com aquellas longas pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da mãi; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se solidamente na segurança d'um amor legal!—E Amaro, da sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade do seu passado.

—Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para João Eduardo:—Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar?

O escrevente, namorado, distrahia-se.

—É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.

Depois elle esquecia-se de

comprar cartas

.

—Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas!

Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto com botões de vidro, que lhe disfarçava a fórma do seio.

E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar! Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a brancura d'aquelles peitos! Queria casar—e guardava

tudo

para o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...

—Está incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.

—Não, disse elle sêccamente.

—Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.

O escrevente, baralhando as cartas, começára a fallar de uma casa que queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.

—Traze-me luz! gritou Amaro à

Ruça

.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a vela sobre a commoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio, ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por traz a corôa hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que tinha um bigode, o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; elle só poderia dar-lhe sensações criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma situação legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a consideração dos lojistas, todos os proveitos da honra!

Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida, que não percebia que ao pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou que ella fosse como a mãi,—ou peor, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma femea facil como uma porta aberta ...

—Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!—pensou, recahíndo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos pensar em mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!

Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; a chuva cessára; o piar das corujas na Misericordia cortava só o silencio.

Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, aquella mudez de villa adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sêr, o amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo devoto: via a sua linda cabeça, d'uma belleza transfigurada e luminosa, destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um desfallecimento d'adoração, como no culto a Maria e na Saudação Angelica; pediu-lhe perdão anciosamente de a ter offendido; disse-lhe alto: És uma santa! perdôa!—Foi um momento muito dôce, de renunciamento carnal...

E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente em si, pôz-se a pensar com saudade—que se fosse um homem livre seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de joelhos, todo d'adorações! Como amaria o

seu

filho, muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas felicidades inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldiçoou, n'um desespero, «a pêga da marqueza que o fizera padre», e o bispo que o confirmára!

—Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.

Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor das saias de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no beiço, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.—Mas a sensação d'amor mystico que o penetrára um momento, olhando a noite, passára; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.

VII

Dias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham ido jantar com o abbade da Cortegassa.—Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das visinhanças conhecia a sua famosa

cabedella de caça

. O abbade fazia annos, havia outros convidados—o padre Natario e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, sêcca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pelle picada das bexigas e extremamente irritavel. Chamavam-lhe o

Furão

. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de ferro; e dizia-se d'elle:

é uma lingua de vibora

! Vivia com duas sobrinhas orphãs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhes sempre a virtude, e costumava chamar-lhes as

duas rosas do seu canteiro

. O padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beirão que maneja bem o cajado, emborca um almude de vinho, péga alegremente á rabiça do arado, serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas séstas quentes de junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correcto nas suas comparações mythologicas, chamava-lhe—o

leão de Nemeia

.

A sua cabeça era enorme, de cabello lanigero que lhe descia até ás sobrancelhas: a pelle cortida tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos muito miudos e muito brancos do uso da brôa.

Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:

—Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!

A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou então com a vasta terrina do caldo de gallinha; e o Libaninho, saltitando em roda d'ella, começou os seus gracejos:

—Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!

A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a massa do seio.

—Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!...

—Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovêlos. Então é que é chupal-as!

Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se á mesa.

O jantar fôra todo cozinhado pelo abbade: logo á sopa as exclamações começaram:

—Sim, senhor, famoso! D'isto nem no céo! Bella coisa!

O excellente abbade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia o senhor chantre, «um divino artista»! Lera todos os

Cozinheiros completos

, sabia innumeras receitas: era inventivo—e, como elle affirmava dando martelladinhas no craneo, «tinha-lhe sahido muito petisco d'aquella cachimonia»! Vivia tão absorvido pela sua «arte» que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fieis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho. E alli vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom paladar tambem, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma só ambição na vida—ter um dia a jantar o bispo!

—Oh, senhor parocho! dizia elle a Amaro, por quem é! mais um bocadinho de cabedella, faça favor! Essas côdeasinhas de pão ensopadas no môlho! Isso! isso! Que tal, hein?—E com um aspecto modesto:—Não é lá por dizer, mas a cabedella hoje sahiu-me boa!

Estava com effeito, como disse o conego Dias, de tentar Santo Antonio no deserto! Todos tinham tirado as capas, e, só com as batinas, as voltas alargadas, comiam devagar, fallando pouco. Como no dia seguinte era a festa da Senhora da Alegria, os sinos na capella, ao lado, repicavam; e o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres á louça, ás bojudas canecas azues com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões escarlates, ás frescas malgas de azeitonas pretas—emquanto o bom abbade, d'olho arregalado, mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos brancos do peito do capão recheado.

As janellas abriam para o quintal. Viam-se dois largos pés de camelias vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para além das copas das macieiras um pedaço muito vivo de céo azul-ferrete. Uma nora chiava ao longe, lavadeiras batiam a roupa.

Sobre a commoda, entre

in-folios

, na sua peanha um Christo perfilava tristemente contra a parede o seu corpo amarello, coberto de chagas escarlates: e, aos lados, sympathicos santos sob redomas de vidro, lembravam legendas mais dôces de religião amavel: o bom gigante S. Christovão atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz saltar o mundo sobre a sua mãosinha como uma pella; o dôce pastor S. Joãosinho coberto com uma pelle de ovelha, e guardando os seus rebanhos, não com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na sua mão de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do céo! Nas paredes, em lithographias de coloridos crueis, o patriarcha S. José apoiava-se ao seu cajado onde florescem lirios brancos; o cavallo empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre d'um dragão surprehendido; e o bom Santo Antonio, á beira d'um regato, sorria, fallando a um tubarão. O

tlim-tlim

dos copos, o ruido das facas animavam a velha sala de tecto de carvalho defumado, d'uma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo pilherias:

—Gertrudinhas, flôr do caniço, passa-me as vagens. Não me olhes assim, magana, que me fazes revolver os intestinos!

—O diabo é o homem! dizia a velha. Olha p'r'ó que lhe deu! Fallasse-me aqui ha trinta annos, seu perdido!

—Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto coisas pela espinha acima!

Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoára a batina, deixando vêr a sua grossa camisola de lã da Covilhã, onde a marca da fabrica, feita de linha azul, era uma cruz sobre um coração.

Um pobre então viera á porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e emquanto Gertrudes lhe mettia no alforge metade d'uma brôa, os padres fallaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguezias.

—Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abbade. Ó Dias, mais este bocadinho da aza?

—Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre Natario.—Em muitas fazendas sabia elle que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas portas.—Sucia de mariolas! resumiu.

—Deixe lá, padre Natario, deixe lá! disse o abbade. Olhe que ha pobreza devéras. Por aqui ha familias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão hervas.

—Então que diabo querias tu que elles comessem? exclamou o conego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a aza do capão. Querias que comessem perú? Cada um como quem é!

O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estomago, e disse com affecto:

—A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.

—Ai, filhos! acudiu o Libaninho n'um tom choroso, se houvesse só pobresinhos isto era o reininho dos céos!

O padre Amaro considerou com gravidade:

—É bom que haja quem tenha cabedaes para legados pios, edificações de capellas...

—A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu Natario com auctoridade.

O conego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:

—Para o esplendor do culto e propagação da fé.

Mas a grande causa da miseria, dizia Natario com uma voz pedante, era a grande immoralidade.

—Ah! lá isso não fallemos! exclamou o abbade com desgosto. N'este momento ha só aqui na freguezia mais de doze raparigas solteiras gravidas! Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, põem-se-me a fungar de riso!

—Lá nos meus sitios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da azeitona, como ha falta de braços, vieram as

maltas

trabalhar. Pois agora o verás! Que desafôro!—Contou a historia das

maltas

, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam offerecendo os braços pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miseria.—Era necessario andar sempre de cajado em cima d'elles!

—Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na cabeça. Ai, o peccado que vai pelo mundo! Até se me estão a erriçar os cabellos!

Mas a freguezia de Santa Catharina era a peor! As mulheres casadas tinham perdido todo o escrupulo.

—Peores que cabras, dizia o padre Natario alargando a fivela do collete.

E o padre Brito fallou de um caso na freguezia de Amor: raparigas de dezeseis e dezoito annos que costumavam reunir-se n'um palheiro—o palheiro do Silverio—e passavam lá a noite com um bando de marmanjos!

Então o padre Natario, que já tinha os olhos luzidios, a língua solta, disse, repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:

—Eu não sei o que se passa lá na tua freguezia, Brito; mas se ha alguma coisa o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher do regedor...

—É mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo escarlate.

—Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o com bondade.

—É mentira! berrou elle.

—E aqui para nós, meus ricos, disse o conego Dias baixando a voz, com o olhinho acceso n'uma malicia confidencial, sempre lhes digo que é uma mulher de mão cheia!

—É mentira! clamou o Brito. E fallando de um jacto:—Quem anda a espalhar isso é o morgado da Cumiada, porque o regedor não votou com elle na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os ossos!—Tinha os olhos injectados, brandia o punho:—Quebro-lhe os ossos!

—O caso não é para tanto, homem, considerou Natario.

—Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!

—Ai, socega, leãosinho! disse o Libaninho com ternura. Não te percas, filhinho!

Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, que era então opposição e que levava duzentos votos á urna, os padres fallaram de eleições e dos seus episodios. Todos alli, a não ser o padre Amaro, sabiam, como disse Natario, «cozinhar um deputadosinho». Vieram anecdotas; cada um celebrou as suas façanhas.

O padre Natario na ultima eleição tinha arranjado oitenta votos!

—Caspitè! disseram.

—Imaginam vossês como? Com um milagre!

—Com um milagre!? repetiram espantados.

—Sim, senhores.

Tinha-se entendido com um missionario, e na vespera da eleição receberam-se na freguezia cartas vindas do céo e assignadas pela Virgem Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do inferno, voto para o candidato do governo. De chupeta, hein?

—De mão cheia! disseram todos.

Só Amaro parecia surprehendido.

—Homem! disse o abbade com ingenuidade, d'isso é que eu cá precisava. Eu então tenho de andar ahi a estafar-me de porta em porta.—E sorrindo bondosamente:—Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da congrua!

—E com a confissão, disse o padre Natario. A coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.

O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:

—Mas emfim a confissão é um acto muito sério, e servir assim para eleições...

O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:

—Pois o senhor toma a confissão a sério?

Houve uma grande surpreza.

—Se tomo a confissão a serio!? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.

—Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino!

O padre Natario exaltado queria explicar, attenuar:

—Escutem, creaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para alli... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Ahi está o que é—a absolvição é uma arma!

—Uma arma! exclamaram.

O abbade protestava, dizendo:

-Oh, Natario! oh, filho! isso não!

O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, «tinha já um tal terror que até lhe tremiam as pernas»!

Natario irritou-se:

—Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo facto de ser padre, porque o bispo lhe impoz tres vezes as mãos e porque lhe disse o

accipe

, tem missão directa de Deus,—é Deus mesmo para absolver?!

—Decerto! exclamaram, decerto!

E o conego Dias disse, meneando uma garfada de vagens:

—

Quorum remiseris peccata, remittuntur eis.

É a fórmula. A fórmula é tudo, menino...

—A confissão é a essencia mesma do sacerdocio, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natario. Leia Santo Ignacio! leia S. Thomaz!

—Anda-me com elle! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro.—Anda-me com elle, amigo parocho! Salta-me no cachaço do impio!

—Oh, senhores! berrou Natario furioso com a contradicção, o que eu quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:—O senhor, por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionario, ás vezes preoccupado com negocios de familia ou com faltas de dinheiro, ou com dôres de cabeça ou com dôres de barriga, imagina o senhor que está alli como um Deus para absolver?

O argumento surprehendeu.

O conego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solemnidade comica exclamou:

—

Hereticus est!

É hereje!

—

Hereticus est!

tambem eu digo, rosnou o padre Amaro.

Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz dôce.

—Não fallemos n'essas coisas, não fallemos n'essas coisas, disse logo prudentemente o abbade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!

Natario, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:

—Absolver é exercer a graça. A graça só é attributo de Deus: em nenhum auctor encontra que a graça seja transmissivel. Logo...

—Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em attitude de polemica.

—Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade afflicto. Deixem a sabbatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!

Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções classicas:

—Mil oitocentos e quinze! dizia. D'isto não se bebe todos os dias.

Para o saborear, depois de o fazer reluzir á luz na transparencia dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as

saudes!

A primeira foi ao abbade, que murmurava:—Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.

—A sua santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o calix. Ao martyr!

Todos beberam commovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hymno de Pio IX: o abbade, prudente, fêl-o calar por causa do hortelão que no quintal aparava o buxo.

A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario tornára-se terno, fallava das suas sobrinhas, «as suas duas rosas», e citava Virgilio, molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para traz na cadeira, as mãos nos bolsos, olhava machinalmente as arvores do jardim, pensando vagamente em Amelia, nas suas fórmas: suspirou mesmo com um desejo d'ella—emquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos a

marmeleiro

.

—Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou enthusiasmado o Libaninho.

Mas Natario começára a discutir com o conego historia ecclesiastica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graça: affirmava que um assassino, um parricida poderia ser canonisado—se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com phrases d'escóla em que se lhe pegava a lingua. Citou santos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido, praticado, amado o vicio. Exclamou com as mãos na cinta:

—Santo Ignacio foi militar!

—Militar!? gritou o Libaninho.—E erguendo-se correndo a Natario, lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e avinhada:—Militar!? E que era elle? Que era elle, o meu devoto Santo Ignacio?

Natario repelliu-o:

—Deixa-me, homem! Era sargento de caçadores.

Houve uma enorme risada.

O Libaninho ficára extatico.

—Sargento de caçadores! dizia erguendo as mãos n'um impeto beato. Meu rico Santo Ignacio! Bemdito e louvado seja elle por toda a eternidade!

E então o abbade propôz que fossem tomar café para debaixo da parreira.

Eram tres horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a cabeça lucida, as pernas firmes—e sentia-se muito terno.

—Pois agora, collegas, disse o abbade sorvendo o ultimo gole de café, o que está a calhar é um passeio à fazenda.

—Para esmoer, rosnou o conego erguendo-se com difficuldade. Vamos lá á fazenda do abbade!

Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia estava muito azul, d'um sol tepido. A vereda seguia entre vallados erriçados de silvas; para além as terras lisas estendiam-se cobertas de rastolho; a espaços as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua folhagem fina; para o horisonte arredondavam-se collinas cobertas da rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; só ás vezes, ao longe, n'um caminho, um carro chiava. E n'aquella serenidade da paizagem e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeçando um pouco, d'olho acceso, estomago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.

O conego Dias e o abbade, de braço dado, caturravam. O Brito, ao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada.

—Prudencia, collega Brito, prudencia, dizia Amaro chupando o cigarro.

E o Brito, com passadas de carretão, rosnava:

—Hei de comer-lhe os figados!

O Libaninho atraz, só, cantarolava em falsete:

—Passarinho trigueiro, Salta cá fóra...

Adiante de todos ia o padre Natario: levava a capa no braço, arrastando pelo chão; a batina desabotoada por traz deixava vêr o forro immundo do collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de lã cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.

E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:

—Eu só me contentava em agarrar n'um cajado e correr tudo! tudo!—E gesticulava com um gesto immenso que abrangia o mundo.

—Tem as azas quebradas, Não póde agora...

gania atraz o Libaninho.

Mas pararam de repente: Natario adiante gritava com uma voz furiosa:

—Seu burro, vossê não vê? Sua bêsta!

Era á volta do atalho. Tropeçára com um velho que conduzia uma ovelha; ia cahindo; e ameaçava-o com o punho fechado n'uma raiva avinhada.

—Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.

—Sua bêsta! berrava Natario com os olhos chammejantes. Que o racho!

O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo; viam-se os seus cabellos brancos; parecia ser um antigo criado de lavoura envelhecido no trabalho; era talvez avô—e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores padres joviaes e excitados da vinhaça!

Amaro não os quiz acompanhar até á fazenda. Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.

—Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade. Eu mando-lhe apparelhar a egoa, collega.

—Qual historia, abbade, a perninha é rija!—E, traçando alegremente a capa, partiu cantarolando o

Adeus

.

Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido d'um muro de quinta coberto de musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de garrafas. Quando Amaro chegou proximo ao portão de carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande vacca malhada; Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; a vacca trotou balouçando a papeira—e Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão, que saudava, dizendo toda risonha:

—Então está-me a espantar o gado, senhor parocho?

—É a menina! Que milagre é este?

Ella fez-se um pouco vermelha:

—Vim á quinta com a D. Maria da Assumpção. Vim dar uma vista d'olhos á fazenda.

Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves n'uma canastra.

—Então esta é que é a quinta da D. Maria?

E Amaro deu um passo para dentro do portão.

Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra dôce, estendia-se até á casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.

—É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tambem por aqui. Vá, Joanna, avia-te!

A rapariga pôz a canastra á cabeça, deu as boas tardes, metteu pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.

—Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade... considerava o parocho.

—Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É uma migalhinha de terra, mas para fazer uma idéa. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá baixo com a D. Maria, quer?

—Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro.

Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O chão estava cheio de folhas sêccas, e, entre os troncos espaçados, moitas de hortensias pendiam abatidas, amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha, de um andar só, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes aboboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do inverno, esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formava uma massa de folhagens verde-escuras; uma nora chiava monotonamente.

Um rapazito passou com um balde de lavagem.

—Para onde foi a senhora, João? perguntou Amelia.

—Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada.

O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, não se podia ir lá sem tamancos.

—Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar lá a D. Maria, hein? Vamos nós vêr a quinta... Por aqui, senhor parocho...

Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam clematites. Amelia abriu uma porta verde; e por tres degraus de pedra desconjuntados desceram a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de todo o anno; do outro lado, por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de luz, com tons amarellados, um grande campo de herva; os tectos baixos do curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e d'esse lado um fumosinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.

Amelia a cada momento parava, explicava a quinta:—Alli ia semear-se cevada; além havia de vêr o cebolinho, estava muito bonito...

—Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito bem tratado!

Amaro ouvia-a fallar, com a cabeça baixa, olhando-a de lado; a sua voz n'aquelle silencio dos campos parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande ar dava-lhe uma côr mais picante ás faces; o seu olhar rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que elle entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.

Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido d'um regueiro. Amelia riu muito do parocho, que tinha medo de sapos. Elle então exagerou os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria viboras? E roçava-se por ella, afastando-se das hervas altas.

—Vê aquelle vallado? Pois para o lado de lá é a nossa fazenda. Entra-se pela cancella, vê? Mas veja lá se está cansado! Que o senhor parece-me que não é grande caminhador... Ai, um sapo!

Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. Ella empurrou-o dôcemente, e com um riso calido:

—Seu medroso! seu medroso!

Estava toda contente, toda viva. Fallava na

sua fazenda

com uma vaidadesinha satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietaria.

—A cancella está fechada, parece, disse Amaro.

—Está? fez ella.—Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes hombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.

—Foi o caseiro que levou a chave!

Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a voz:—Antonio! Antonio!

Ninguem respondeu.

—Anda lá para o fundo da quinta! disse ella. Que sécca! Se o senhor parocho quizesse, aqui adiante póde-se passar. Ha uma abertura no vallado, chamam-lhe o

salto da cabra

. Póde a gente saltar para o outro lado.

E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:

—Quando eu era pequena nunca passava pela cancella, saltava sempre por alli. E cada trambolhão quando o chão estava resvaladiço com a chuva! Era um vivo demonio, aqui onde me vê! Ninguém ha de dizer, senhor parocho, hein? Ai! vou-me a fazer velha!—E voltando-se para elle, com um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:—Não é verdade? Estou-me a fazer velha, hein?

Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do vinho do abbade, amollecia-o: e a figura d'ella, os seus hombros, os seus encontros davam-lhe um desejo continuo e intenso.

—Aqui está o

salto da cabra

, disse Amelia parando.

Era uma abertura estreita no vallado: a terra do outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo plano estendia-se até um olival, com a herva fina muito estrellada de pequenos malmequeres brancos; uma vacca preta, de grandes malhas, pastava; e para além viam-se tectos aguçados de casaes onde voavam revoadas de pardaes.

—E agora? perguntou Amaro.

—Agora saltar, disse ella rindo.

—Cá vai! exclamou elle.

Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas humidas—e immediatamente Amelia, debruçando-se, rindo muito, com grandes acenos de mãos:

—E agora adeus, senhor parocho, que eu vou ter com a D. Maria. Ahi fica preso na fazenda. Para cima não póde o senhor pular, pela cancella não póde o senhor passar! É o senhor parocho que está preso...

—Ó menina Amelia! ó menina Amelia!

Ella cantarolava-lhe, escarnecendo:

Fico sósinha á varanda Que o meu bem está na prisão!

Aquellas maneirinhas excitavam o padre—e com os braços erguidos, a voz calida:

—Salte, salte!

Ella então fez voz de mimo:

—Ai, tenho medinho! tenho medinho...

—Salte, menina!

—Lá vai! gritou ella bruscamente.

Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se—e, sentindo entre os braços o corpo d'ella, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.

Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada, com a face em braza, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:

—Ameliasinha!

Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do vallado. Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou á cancella, Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com a chave.

Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a parreira. Amelia adiante palrava com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça baixa, seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou, fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoço:

—Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor parocho. Muito boas tardes, senhor parocho.

E através das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os lados do olival.

A snr.

a

D. Maria da Assumpção ainda lá estava, sentada n'uma pedra, tagarellando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.

—Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que doida!

—Vim a correr, disse

ella

toda vermelha, suffocada.

Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com as mãos cahídas no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos n'uma abstracção. Todo o seu sêr se abysmava n'uma só sensação:

—Gosta de mim! Gosta de mim!

Estava ha muito namorada do padre Amaro—e ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por imaginar que elle não percebia nos seus olhos a confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de passaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não conhecia o seu passado; e, lembrada do frade d'Evora, pensou que elle se fizera padre por um desgosto d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pallida se desprendia uma fascinação. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave fallar do paraiso! Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se pallida à idéa de o poder abraçar na sua longa batina preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto d'elle, beijava a travesseirinha, guardava os cabellos curtos que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.

Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava todo o dia impertinente, ralhava com a

Ruça

, ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito». Quando elle fallava d'alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua antiga devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago amor physico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos demorados, o altar, o orgão, o missal, os santos, o céo, porque não os distinguia bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando n'elle como no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ella em cima o escutava, regulando as palpitações do seu coração pelas passadas d'elle, abraçando o travesseiro, toda desfallecida de desejos, dando beijos no ar, onde se lhe representavam os labios do parocho!

A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, emquanto D. Maria da Assumpção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente erguidas, decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe então domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a benção dos degraus do altar-mór; e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a senhora baroneza de Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa, com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambem bonitos os seus olhos negros! E era elle que a tinha apertado nos braços, ao pé do vallado! Sentia ainda no pescoço a pressão calida dos seus beiços: uma paixão flammejou como uma chamma por todo o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma n'uma devoção:

—Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, faze que elle goste de mim!

No adro lageado conegos passeavam, conversando. A botica defronte já tinha luz, os bocaes reluziam; e por detraz da balança a figura do pharmaceutico Carlos, com o seu boné bordado a missanga, movia-se magestosamente.

VIII

O padre Amaro voltára para casa aterrado.

—E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o coração encolhido.

Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! Não podia continuar alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquelle atrevimento com a pequena».

Que ella não ficára muito indignada—apenas atordoada; contivera-a talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a attenção para com o amigo do conego. Mas podia contar á mãi, ao escrevente... Que escandalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna e fitando-o,—que era a sua attitude de reprehensão—dizer-lhe com pompa:—«São esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. Não se comportaria d'outro modo um Satyro no monte Olympo!»—Poderiam desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a senhora condessa de Ribamar?

E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, ter constantemente presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma covinha no queixo, a curva d'aquelle peito—a sua paixão, crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma asneira»!

Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca necessitava sempre receber forças d'uma razão, d'uma experiencia alheia: costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminario, a sua dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio do conego, que conhecia Leiria como se a tivesse edificado.

Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos d'uma pulverisação de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a

Trigueira

estirada dormitava como elle.

Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:

—Ia adormecendo, hein!

—É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que preguiça é essa?

—Ah! é vossê? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é feito?

—Vim por aqui.

—Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mão cheia! Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa do Breviario.

Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o brazido:

—Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. Ia acrescentar:—Aconteceu-me um caso!—Mas reteve-se, murmurou:—Estou hoje exquisito; tenho andado ultimamente fóra dos eixos...

-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o. Purgue-se, homem!

Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.

—Sabe? estou com idéa de mudar de casa.

O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:

—Mudar de casa! Ora essa! Porquê?

O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:

—Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é assim exquisito estar em casa de duas mulheres, com uma rapariga...

—Ora, historias! Que me vem vossê contar? Vossê é hospede... Deixe-se d'isso, homem! É como quem está na hospedaria.

—Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...

E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as confidencias.

—Então só hoje é que pensa n'isso, Amaro?!

—É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razões.—Ia a dizer:—Fiz uma tolice,—mas acanhou-se.

O conego olhou para elle um momento:

—Homem, seja franco!

—Sou.

—Vossê acha aquillo caro?

—Não! disse o outro com uma negação impaciente.

—Bem, então é outra coisa...

—É. Vossê que quer?—E n'um tom magano, com que julgou agradar ao conego:—A gente tambem gosta do que é bom...

—Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Vossê, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!

—Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.

—Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braços. Vossê quer sahir da casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...

—É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita barata com alguma mobilia... Vossê entende melhor d'essas coisas...

O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o queixo.

—Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.

—Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A casa da S. Joanneira...

Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a doença de figado que ia minando o engraçado conego Sanches—Amaro sahiu, quasi contente agora de se não «ter desabotoado com o padre-mestre».

O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquella resolução d'Amaro de deixar a casa da S. Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com a S. Joanneira diminuir-lhe a mezada que havia annos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede, dormia só no primeiro andar: o conego podia então saborear livremente os carinhos da sua velhota,—e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este «conchêgosinho». Quando veio o padre Amaro, a S. Joanneira cedeu-lhe o quarto e dormia n'uma cama de ferro ao pé da filha: e o conego então reconheceu, como elle disse, desconsolado—«que aquelle arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as doçuras da sésta com a sua S. Joanneira era necessario que Amelia jantasse fóra, que a

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