CAPÌTULO VII.
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ENTRE OS GANGUELAS.
Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi.
No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e ás 10 horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas.
Figura 30.--Passagem do Cuanza.

Prestou-me valiosos serviços o meu barco de cautchuc da casa Macintosh de Londres; mas ainda assim, o sova de Liuíca emprestou-me quatro canôas, que muito me auxiliáram.
Não houve o menor accidente durante a passagem, e ao meio dia seguia a leste internando-me no paiz dos Quimbandes. Tendo passado junto das povoações de Muzeu e Caiáio, fui acampar pelas 2 horas a E.S.E. da povoação de Mavanda, junto da nascente do riacho Mutango, que corre a N.O. para o Cuanza. As povoações ali não sam já tão sòlidamente fortificadas como as de àlém Cuanza. Os Quimbandes formam uma confederação, sendo o paiz dividido em pequenos estados, que se unem sempre para protecção mùtua. Todas as numerosas povoações em tôrno do meu campo obedecem ao sova Mavanda, que é tributario do sova do Cuio ou Mucuzo, na mesma margem do Cuanza um pouco ao N. A cousa que primeiro me ferio a attenção entre os Quimbandes, foi o penteado das mulhéres, que sam as mais extraordinarias que tenho visto. Algumas entrançam o cabello de forma que, depois de ornado com buzio (caurim), assimelha um chapéo de dama Europea.
Figura 31.--Homem e Mulhér Quimbande.

Outras dam-lhe tal forma, que parecem trazer na cabêça um capacete Romano.
O buzio (caurim) é distribuido ou accumulado com profusão nas cabeças feminiz, e o coral branco ou encarnado aparece ainda, mas muito mais raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza.
O cabello, n'estes penteados estupendos, é fixo com um cosmètico nauseabundo, massa formada de tacula em pó e òleo de ricino, que lhe dá uma côr avermelhada. O òleo de ricino é preparado em grande quantidade entre estes povos. Depois de extrahirem as sementes do
Ricinus
communis
, dam-lhe uma ligeira torrefacção e reduzem-n-as a pó. Este pó conservado por muitas horas em àgua ebulliente, fornece o òleo, que a frio é separado grosseiramente da àgua, e guardado em cabaças pequenas.
Figura 32.--Raparigas Quimbandes.

Estes povos não o empregam como purgante. Notei logo, que o typo feminino entre os Quimbandes se approxima um pouco do typo caucasio, e vi algumas mulhéres que se poderiam chamar bonitas se não fossem prêtas.
Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa.
Igual pedido me tem sido já feito por outros, o que mostra a tendencia que t[~e]m para se vestirem.
Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas pelles de pequenos antìlopes que cahem adiante e atraz de um largo cinto de couro de boi. Só os sovas usam pelles de leopardo. As mulhéres andam quasi nuas, e algum farrapo de pano, ou de liconte, substitue a folha de vinha clàssica.
No dia seguinte logo de manhã, viéram uns portadores do sova dar-me parte, de que a gente que eu esperava chegara de noute á outra margem do Cuanza, onde estavam acampados.
Não dei o menor crèdito á noticia, porque, já conhecedor das manhas do gentio, sabia que elles t[~e]m costume de indagar o que mais desejamos, para nos virem burlar com uma noticia agradavel e pedir alvìçaras. Contudo, disse ao indìgena que me certificou tel-os visto, que fôsse a elles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um signal seu para ficar certo de que vinha a caminho.
Ainda de manhã, o sova Mavanda mandou-me uns enviados dizendo, que sahia n'aquelle dia a combater uma povoação vizinha onde um seu sùbdito se revoltara contra o seu poder, e ao mesmo tempo pedindo-me que o auxiliasse n'aquella campanha. Recussei dar-lhe auxilio, mas procurei fazel-o de modo a não me indispor com o sova, o que consegui com bôas razões.
Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o exèrcito de Mavanda.
Á frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a Francesa, mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens levando a pao e corda uma enorme caixa de pòlvora, provavelmente vazia. Seguia-se o sova rodeado dos seus grandes, e após este estado maior o exèrcito a 1 de fundo. Seriam uns 600 homens armados de arcos e frechas, levando ao tôdo 8 espingardas. Alguns passos á frente da bandeira, dois prêtos tocavam os tambores de guerra, fazendo um barulho infernal.
Ao anoutecer voltou o exèrcito sem ter combatido; porque o inimigo rendeu-se á discrição.
Logo que passáram o meu campo, principiáram a fazer exercicio, simulando um ataque á povoação do règulo.
Estendéram em linha de atiradores, tomando a bandeira o centro da linha, e sempre atraz d'ella a caixa da pòlvora e o sova.
Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado, começou a envolver a povoação, já avançando, já recuando, sempre em accelerado.
A uma vóz do sova, precipitáram-se sôbre a povoação, dando saltos enormes, e fazendo tôda a especie de momices que usam para aterrar os adversarios, com uma grita infernal.
Quando eu pensava que elles iam direitos a suas casas atacar o jantar, vejo que voltavam á posição que tinham antes do ataque, e que reunidos á voz do chefe, entravam na povoação na mesma ordem de marcha em que tinham sahido.
Á noute voltou o Quimbande a dizer-me, que estêve com o meu doutor, mas que elle não lhe quizera dar signal algum para mim. Vi que se verificavam as minhas previsões, e que era tudo falso.
O meu acampamento dava-me serios receios, porque, coberto de erva sêca, podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus prêtos, transidos de frio, não calculavam o perigo, e alimentavam dentro das barracas fogueiras enormes.
Desde o rio Cuqueima até Mavanda, e ainda mais àlém, produz vigorosamente a cana de assucar e o algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o algodão, que fiam para fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga.
No dia seguinte, continuáram a asseverar-me, que os carregadores estavam na margem do Cuanza, e não podiam passar o rio por não lhes emprestarem as canôas as indìgenas d'ali.
Decidi-me a mandar lá o Augusto, acompanhado de um guia Quimbande.
Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este viria visitar-me.
Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua côrte, e se ficou espantado a olhar para mim; eu não fiquei menos a olhar para elle, porque era o maior homem que tenho visto em minha vida. A uma altura enorme reunia uma grossura e gordura verdadeiramente phenomenal. Cobria a cintura com um panno usado, sobre o qual cahiam três pelles de leopardo.
Muitos amulêtos lhe pendiam de um collar de missangas.
Se Mavanda é grande, possue coisas grandes tambem, porque me trazia de presente o maior boi que vi em Àfrica.
Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto, que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, prenoitando ás vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado por feras que lhe causavam grande damno.
Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse guiado ás pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle não achou mao o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do paiz o fazer vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contìnuas perdas.
Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito satisfeito, e nos melhores termos de amizade.
Logo que se retirou o sova, chegáram uns enviados do sova Capôco com uma carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe, e dizia-me, que me mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fôsse comigo uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertões do Zambeze a fazer negocio.
Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os carregadores, não contando muito, ainda assim, que elles viessem, e n'esse sentido respondi ao sova Capôco.
Em vista d'aquella deliberação, ordenei a reconstrucção do acampamento para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes, com receio de um incendio.
Figura 33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.

No dia seguinte, houve grande actividade na reconstrucção do campo, que estava prompto ao meio-dia, apresentando um bonito aspecto.
O campo era formado de barracas cònicas, de troncos de àrvore, medindo três metros de diàmetro na base, por dois e meio de alto.
A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras, media cìnco metros de diàmetro na base, por três e meio de alto.
Figura 34.--Esqueleto da Barraca.

O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas por uma fileira de abatizes de àrvores espinhosas.
A minha barraca occupava o centro, e em frente d'ella as cargas estavam em pilha. A minha gente de serviço estabeleceu o seu campo em tôrno de mim, ao alcance da voz.
Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me viéram avisar de que uns enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir à minha presença, e conheci em um d'elles um dos grandes do sova, que tinha visto junto d'elle no Gando. Traziam-me uma carta, e uma encomenda, que não sei que sovêta lhe tinha enviado para mim.
Abri a carta, e vi ser ella do meu amigo Galvão da Catumbella, que me enviava um presente, que tinha dirigido ao Bihé, julgando que eu estivesse ainda ali. A bôa harmonia que eu tinha guardado com as povoações por onde passei, fez com que aquella carta e o presente chegassem até mim vindo de mão em mão.
Abri a caixa, e encontrei uma porção de passas de Màlaga, que viéram a propòsito adoçar um pouco a monotonia da minha já bem pobre alimentação.
Figura 35.--Barraca concluida em uma hora.

Na carta dava-me elle algumas noticias da Europa, as ùltimas que tive até chegar a Pretoria. Pensei n'isso então; e, quam profunda não foi a minha tristeza ao lembrar-me de quanto tempo teria de ficar sem noticias dos meus, noticias que já me faltavam havia tanto!
Deitei-me debaixo de uma triste impressão de saudade. Ao alvorecer, viéram avisar-me, de que uma pequena comitiva, capitaneada por um prêto, levando cêra, se dirigia ao Bihé. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que me levasse uma carta, que entregaria a alguem no Bihé, pedindo-lhe que a fizesse chegar a Benguella. Elle accedeu, dizendo-me logo, que não se podia demorar, porque queria ir dormir junto ao Cuqueima.
Tinha pouco tempo; ¿a quem escrever? Não podia perder este portador do accaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo.
Peguei na penna, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta inclui dois pequenos bilhetes, um para minha mulhér, outro para Luciano Cordeiro.
O chefe da pequena caravana, já impaciente, recebeu a carta e partio.
Hôje sei que aquella carta chegou á Europa, e foi recebida pelo seu destinatàrio. Como ella foi do Bihé a Benguella não sei.
Era essa protecção que tinha levantado em volta de mim Silva Porto, que ainda se fazia sentir.
O sova Mavanda passou o dia comigo, e conversámos muito. Eu dei-lhe alguns pequenos objectos, e entre elles uma caixa de fòsforos, com que ficou maravilhado.
Na occasião de retirar-se, disse elle aos seus macotas estas palavras, que me impressionáram pela figura empregada.
"Não vêdes de longe um pàssaro que vôa muito alto, e vai pousar em àrvore distante, e dizeis é uma rôla; depois caminhaes e abeirais-vos d'elle, e ficais admirados do tamanho; era uma àguia. Assim foi o Manjóro (nome que me davam); passou ao largo da povoação, e nós dissémos é a rôla; agora vivemos com elle e conhecemo-l-o, e dizemos, é a àguia."
Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os antìlopes, que sam escassos, levantei a carta do paiz, ou antes, pude concluir a carta do paiz comprehendido entre o Cuqueima e Cuanza.
O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir era, o de lhe eu dar um par de calças. Resolvi logo fazer-lhe a vontade, e chamei o velho Antonio.
Arvorei-o em Alfaiate, cousa que muito o sorprendeu, e enviei-o a tomar medida ás calças do sova. Talhei depois as calças, que fôram cosidas pelo velho Antonio, e leváram 5 jardas de algodão largo!! Este rei é um verdadeiro hippopòtamo, mas muito boa pessôa.
No dia 20 de manhã, veio um enviado do sova dizer-me, que, por ser então a èpocha em que festejam uma especie de carnaval, o sova, para me fazer honra, viria ao meu campo mascarado, e dançaria diante de mim.
Figura 35A.--Ganguelas á Quimbandes.

Pelas 8 horas, chegáram os batuques, e juntou-se grande concurso de pôvo.
Meia hora depois, appareceu o sova, com a cabêça mettida em uma cabaça, pintada de branco e prêto, e o enorme corpo augmentado por uma armação de varas coberta de liconde, igualmente pintado de prêto e branco.
Um saio de clinas e caudas de animaes, completavam o trajo.
Logo que elle chegou, os homens formáram em linha, com os batuques a traz, e as mulhéres e rapazis desviáram-se para longe. Começáram os batuques, e os homens immoveis do corpo, cantando as suas monòtonas toadas e batendo as palmas.
Figura 36.--O sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu campo.

O sova foi collocar-se a uns trinta passos em frente da linha, e começou uma brutesca dança, em que parecia fera enraivecida; conquistando os maiores applausos da sua e da minha gente. Meia hora depois, correu, e foi sumir-se na sua povoação, sendo seguido pelos seus. Pouco tempo mais tarde, voltou ao meu campo, já sem o seu trajo feroz, e andou comigo até á noute. Decididamente eu tinha-lhe cahido em graça.
Tinha aproveitado tôdo o tempo que podia tirar aos meus trabalhos, dando melhor arrumação ás cargas, tendente a diminuir o nùmero d'ellas. A fazenda que tinha era já quasi nenhuma, e tôda a minha riqueza monetaria consistia em um saco de buzio e na missanga comprada ao José Alves; mas o gasto, para sustentar a minha gente, era grande, e eu via com horror a diminuição do meu pequeno haver. No paiz a caça era pouca e miüda, pois apenas se encontravam algumas gazellas (
Cervicapra bohor
).
Figura 37.--Mulhér Quimbande carregada.

¡Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e missangas me não despertava uma atroz angùstia!
¡Quantas vezes uma dôr pungente me não cerrava o coração, fazendo-me antever um futuro bem sombrio!
¡Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha cabrinha Cora, e os cantares folgazãos do meu meigo papagaio, que voava para o meu hombro pedindo-me uma meiguice!
¡Quantas vezes uma fé sem limites me invadia o coração, e o desalento era banido do meu ànimo!
A razão queria lutar contra esses raios de infundada esperança que me alegravam o espìrito; mas essa esperança era tão tenaz que procurava argumentos e sophismas para combater a razão.
Sam momentos indescriptiveis, essas lutas do espìrito, estando o homem isolado, sendo elle mesmo o pro e o contra das suas idéas, sem um amigo, ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata outro.
Fui joven e tive amores, e com elles as penas dos amores; fui pai, e vi morrer-me nos braços uma filha que adorava; mas confesso que nunca senti n'alma tão profunda tristeza, tão cruel melancolia, como a que por vezes, em dias aziagos, experimentei em Àfrica.
Só! sózinho, no meio de uma multidão ignara, e estridente, cuja lìngua e falares não comprehendia, tinha momentos horriveis, que se traduziam logo em febre e doença!
Não conto como soffrimento as fomes, as doenças, a miseria. Não! que homem é e deve ser superior á materia bruta, que deve dominar, para se afastar do irracional.
O soffrimento é a dùvida. O soffrimento é não saber como se hade vencer o abysmo que a razão nos mostra cavado ante os passos que queremos dar. O soffrimento é ver dezenas de pessôas, que nos acompanham cégas, dizendo: "Elle sabe o que faz;" e que arrastamos com-nosco ao abysmo! O
soffrimento é a responsabilidade tremenda da missão que nos imposémos. Se me não importava hôje muito que os meus detractores experimentassem um pouco da fome, da sêde e das privações que passei; não lhes desejo, mesmo a elles, que soffressem a millesima parte do que eu soffri moralmente. É verdade, que, para soffrer como eu soffri, é preciso ter alma, coração e uma consciencia.
A carta que de Mavanda escrevi ao D^{or.} Bocage, ressentia-se já do que eu soffria então. Foi escrita n'um dos meus dias nebulosos.
Deixemos porem esta divagação, que pouco interessa; e falemos dos acontecimentos de então.
Os Quimbandes fabricam alguns objectos de ferro e de madeira, muito mais perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza.
1. Cachimbo. 2, 2. Facas. 3, 3. Cacetes de guerra.

Figura 38.
O frio de noute era muito intenso, e já era grande a differença entre as màximas e as mìnimas. Apesar da carta que recebi do sova Capôco, não acreditava muito na promessa dos carregadores, nem na volta do meu Doutor Chacaiombe; e por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era possivel; o que só podia fazer distribuindo o conteudo de uma pelas outras. Isto tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar os homens.
Estàvamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu decidira esperar por os carregadores do sova Capôco.
A minha angùstia era grande, e só então avaliei bem o mao bocado porque t[~e]m passado outros exploradores, tendo de abandonar cargas que lhes sam absolutamente precisas.
A escôlha é cousa sèria, quando todas se nos afiguram indispensaveis.
O pouco que de commodidades eu levava já tinha sido abandonado; o resto de algumas latas de comida dei-as aos muleques.
Os meus carregadores, vendo o meu embaraço, pedem-me que os carregue até ao máximo pêso com que podérem caminhar; mas, ainda assim, é impossivel ir tudo.
Depois de todas as reducções, e de ter distribuido as cargas, ficam 4 sem carregadores.
Sam ellas as duas do meu barco Macintosh, um barril de àgua-ardente, e 50 libras de pòlvora.
Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda dois homens para me levarem a pòlvora e o barril d'àgua-ardente de acampamento em acampamento, até que dois dos meus carregadores ficassem sem carga, o que não tardaria a succeder pelo grande gasto que faziamos.
O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi, ficando tudo prompto para seguirmos no dia immediato.
Levantei campo no dia 23 ás 8 horas, e depois de três e meia horas, cheguei á margem esquerda do rio Varea, que passei sobre uma soffrivel ponte de madeira.
O sovêta de Divindica, povoação que assenta na margem esquerda do Varea, na confluencia do riacho Moconco, veio pedir-me alguma cousa pela passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro jardas de fazenda, retirou-se satisfeito.
Mappa 4.--O Paiz dos Quimbandes

O rio Varea corre ali ao N., e vai affluir ao Cuime. Tem 25 metros de largo por 2 de fundo, e pequena corrente, não tendo cataractas a jusante de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as povoações de Moariro e Moaringonga.
Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio Onda, em frente á grande povoação de Cabango, capital dos povos Quimbandes de Leste.
Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei, o muleque Moero, que as levava, cahio, quebrando-se uma d'ellas, e entornando-se o precioso nectar, sem que se podesse aproveitar uma gôta.
Desde Mavanda até ás nascentes do riacho Moconco, cujo curso segui até á confluencia com o Varea, a vegetação arbòrea é esplèndida, e no cimo dos montes que marginam o riacho é tambem pomposa. Para àlém do Varea é ainda mais rica.
Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do paiz dos Quimbandes, affirmação que me era confirmada pelos grandes affluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder em desejos de lhe ir lançar uma vista d'olhos.
Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspecto muito differente do que até ali.
As paizagens sam mais pintorescas e não apresentam a monotonia do Bihé. Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais fundos, tornando mais sensiveis os accidentes do terreno. As margens dos rios e ribeiros àlém dos limites das cheias, já se apresentam cobertas de vigorosa vegetação arbòrea, e a vegetação arborescente forma barreiras impassaveis nas florestas.
Na parte leste do paiz dos Quimbandes, a população começa a rarear. O sova de Cabango é ainda tributario do sova do Cuio ou Mucuzo.
Os costumes d'estes povos sam os mesmos dos Bihenos, salvo na actividade, que é entre os Quimbandes substituida pela mais vergonhosa preguiça.
Os Quimbandes andam quasi nus, não trabalham, não viajam e não negociam.
Poucos t[~e]m espingardas, por não terem com que as comprar. Já apanham alguma cêra, que os Bailundos lhes v[~e]m permutar a buzios e missangas, mas isto em pequenissima escala.
A terra é cultivada pelas mulhéres, e a sua producção é rica. O que mais tenho visto nas plantações é mandioca e ginguba.
Este paiz deve merecer particular attenção. Cortado com rios navegaveis que vam affluir a um grande traço navegavel do Cuanza; tendo um clima magnìfico e ubèrrimos terrenos, onde produz bem o algodão, a canna de assucar, os cereaes e virentes pastagens, occupado por uma população que facilmente se submette, está nas melhores condições de um desenvolvimento ràpido.
No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem direita, três milhas àlém do meu campo anterior.
O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo de leste corre depois a N.O. a affluir ao Varea.
Depois de ter determinado a posição do meu acampamento, fui passear rio acima, e encontrei bastante caça. Logo acima de Cabango, o Onda estreita a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma corrente de 10 metros por minuto; corrente que se estende até ao fundo; o que me foi denunciado não só pela sonda, mas tambem pela inclinação que tomam as plantas que vegetam no fundo; o que se vê facilmente, por serem as àguas muito crystallinas e o fundo de area alvissima.
Figura 39.--Ditassoa, peixe do rio Onda.

N'este rio não vi outro peixe, a não ser um que os naturaes chamam
Ditassoa
, e que é soffrivel.
Percorrendo as margens do rio, vi, a distancia, um grupo de àrvores que se destacava da paizagem, e que julguei serem palmeiras; mas aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus arboreos, da mais elegante belleza.
As margens do rio sam cortadas verticalmente, e por isso apresentam junto á borda a mesma profundidade que no meio.
Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro rio navegavel, outra estrada natural, que encontrava n'este soberbo paiz.
Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradavel sorpresa.
O Doutor Chacaiombe foi a primeira pessôa que veio comprimentar-me.
Eu, que julgava não mais vel-o, saudei-o com o maior jùbilo, porque o seu desapparecimento era uma nuvem nêgra na minha viagem.
Figura 40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda.

Já por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e não disse quem era.
Este homem foi o adevinho que, em casa do filho do capitão do Quingue, me predisse as cousas mais agradaveis a respeito do meu futuro.
Accumulando as funcções de cirurgião com as de adevinho, veio elle estabelecer-se junto a mim no Bihé, e não mais me deixou até que se encarregou da missão de obter carregadores no Capôco, d'onde julguei que não mais voltaria.
Depois de muitos comprimentos, annunciou-me Chacaiombe que os carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi esperal-os.
O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera visitar-me, e se retirara muito contrariado por me não encontrar.
Mandei logo o pombeiro Chaquiçonde ao sova, pedir-lhe dois homens para mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com bem pesar meu e da minha gente, que viram os serviços que elle nos prestou nas passagens do Cuqueima e do Cuanza.
Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito molhado, e ainda me lembrava com horror do rheumatismo no Bihé.
No dia seguinte, parti de madrugada para a caça, dirigindo-me ao norte, onde o paiz é coberto de densas florestas. Depois de ter andado oito milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande cataracta. Voltei e já era noute quando alcancei o meu campo, extenuado de fadiga; mas tendo feito boa caçada, e tendo visto o rio que ardia em desejos de ver, e que effectivamente é uma via importante, sendo como me asseguráram os naturaes, navegavel desde a sua grande cataracta até ao Cuanza.
No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali sorprendeu-me a vista mais de uma povoação que divisava ao longe. Ao approximar-me, conheci que eram, não povoações de prêtos, mas sim de formigas brancas (
termites
), que juntavam em grandes grupos as suas construcções cònicas, cuja côr alvacenta, devida á da argila que iam buscar ao sub-solo, lhes dava toda a apparencia de aldeas de indìgenas. De volta ao meu campo, encontrei o sova de Cabango, que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de 60 homens e muitas mulhéres.
Figura 41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça.

Esta gente, que se apresenta quasi em completa nudez, faz consistir todo o seu luxo nos penteados. Variam-n-os ao infinito e sam elles verdadeiras obras d'arte, e t[~e]m technologia propria.
Nas mulhéres o cabello, que fica em forma de cimeira de elmo Romano, chama-se
tronda
, e o que cae em trancinhas, dos lados,
cahengue
.
Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se
sanica
.
O sova offereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que elle pareceu retirar-se satisfeito.
Chegáram n'esse dia os carregadores que vinham do Capôco e eram apenas quatro, mas eram os sufficientes, sendo dous para o barco, e outros dous para alliviar algumas cargas mais pesadas.
Á noute os meus prêtos e os da terra fizéram grande batuque, que durou até depois das 10 horas.
Figura 42.--Homem de Cabango.

O frio de noute continuava intenso, sendo que ás 3 e meia horas da manhã d'esse dia, o thermòmetro marcara 0°C. A desigualdade entre a màxima e a mìnima era já muito extraordinaria, e grande a seccura da atmosphera, como se verá dos boletins meteorològicos.
O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o paiz. Diz elle, que já não reconhece a soberania do sova do Cuio ou Mucuzo, e se considera independente.
As matas t[~e]m muita cêra, e os Bailundos v[~e]m ali permutal-a a buzio (caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados grandes, balas e facas.
Os machados de guerra, frechas e azagaias, v[~e]m-lhes dos Luchazes, e as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzellos.

Figura 43.--Homem de Cabango.
Este soba, que se chama Chaquiunde, é um pouco falto de probidade, o que não admira muito. Veio, depois de larga conversa, fazer-me exigencias, allegando ter-me dado um boi. Vi-me na necessidade de o pôr fora do acampamento; mas elle, vendo a aspreza com que eu o tratava, mostrou-se contente, e explicou a sua impertinencia, desculpando-se com os seus macotas, que o tinham aconselhado a fazer grandes exigencias, e que o que pedia era para elles, pois que a elle eu tinha dado um presente superior ao valor do boi.
Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia immediato.
O dia 28 amanheceu frigidissimo, pois que o thermòmetro, ás 6 horas marcava apenas dois graos acima de zero; e por isso pude só levantar campo ás 8 horas, indo acampar ás 10 e 40 junto da margem do Onda, tendo andado a E.S.E.
Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito pesados.
O terreno desde o rio Varea até ali é coberto de uma camada arenosa, sendo o sub-solo formado por uma argila de côr cinzenta, variando desde o branco sujo até ao azul acinzentado.
Junto ao leito do Onda o solo é formado por uma forte camada de humos, que ainda assim assenta sobre o sub-solo da mesma argila acinzentada. Junto ao rio vi alguns montes termìticos, apresentando a côr azul cobalto.
O terreno das clareiras é habitado por uma especie de termites differente d'aquella que habita as florestas. As termites das clareiras construem montes mamelados, apresentando o aspecto de cones truncados cobertos por cùpulas hemisphèricas, tendo de 80 centìmetros a um metro de diàmetro na base, por igual altura. Nas florestas formam ellas verdadeiros cones, tendo de 4 a 6 centìmetros de diàmetro na base, por 25 a 30 centìmetros de altura.
Sam muito approximados, e semelham um eriçado de espinhos que parecem brotar da terra.
Estas termites das florestas vam buscar os materiaes das suas construcções muito perto da superficie da terra, porque nas suas architecturas figura como materia prima a terra vegetal que forma o solo dos matos, e estas, apesar do cimento empregado, não t[~e]m a ligação e dureza das termites das clareiras, que, empregando uma argila consistente, formam verdadeiras petrificações. Nas habitações das termites das clareiras, apesar do seu interior ser formado de cèlulas como as de um favo de abelhas, a bala Snider não penetra n'ellas a mais de 10 centìmetros.
Como já disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas formigas accumulam as suas habitações em limitados espaços, figurando, a quem de longe as vê, verdadeiras povoações Quimbandes.
Por espaço de uma hora, depois que deixei o acampamento, caminhei na margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei em uma esplèndida floresta, cortada de riachos affluentes do Onda.
Figura 44.--O Lago Liguri.

Por vezes, a floresta tomava o aspecto de um d'esses grandes parques do norte da Europa, onde uma viçosa relva cobria completamente o solo. No meio da mata os meus passos fôram suspensos para contemplar uma das mais pintorescas paizagens que tenho visto.
Uma vasta clareira era occupada por uma lagôa de àgoa crystallina e fundo arenoso. Àrvores enormes assombravam o pequeno lago, que reflectia os seus ramos de um bello verde-escuro, onde chilravam mil pàssaros.
A relva descia dos lados até á àgua, e só desapparecia para deixar logar a uma arêa alva e fina. Os prêtos d'este paiz, que não sam muito poetas, acham encanto n'este pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que ja me haviam falado.
Tôdos os riachos d'este paiz t[~e]m as margens apaüladas, e na àgua estagnada ha um depòsito de côr vermelha, que ao principio atribui á presença de ferro; o que conheci ser engano, porque o chá verde feito com aquella agua não a denunciava ferrea, pela formação do tanato de ferro. Só, talvez, por uma accumulação de animàlculos infusorios se produzam aquelles depòsitos vermelhos.
Desde o Bihé, observei, que em tôdos os pontos onde ha àguas estagnadas abundam sanguesugas, mas n'estes còrregos affluentes do Onda sam ellas em maior nùmero.
O rio continùa a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a 5 de fundo, tem corrente muito insensivel. Abunda a caça.
No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por espaço de três horas, sendo difficil a passagem de uma emmaranhada floresta, e mais difficil ainda o vadear o ribeiro Cobongo, de 4 metros de largo por 1 de fundo, e cujo leito lodôso embaraçava o andar.
Depois de três horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo a margem do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda do ribeiro Bitovo.
A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para caminhar livre de floresta, e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde, cujo curso segui até ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impressão o contemplar as aguas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito. Até ali tinha encontrado àguas correndo ao oceano Atlàntico, e essas àguas, cujo murmurio acalentava o meu somno, eram como um laço que me prendia á minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava o meu Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que de saudades, que de angùstias que viram, podiam ir contar aos meus!
Ao deixar o Bitovo partio-se esse laço que me ligava á costa do Oeste. ¡Que pungente saudade não foi a minha!
Fazia um anno n'aquelle dia que eu fôra dar o abraço de despedida a meu velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me deixara com o presentimento de não mais me ver.
N'aquelle dia já assentava o meu campo no paiz dos Luchazes, tendo deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.
Viéram alguns homens e mulhéres das povoações da margem direita do Cuito ao meu campo; mas nada trouxéram que vender, e nós precisàvamos de comida. Prometêram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango, porque não cultivam milho nem mesmo Massambala.
Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijão fradinho, ginguba, mamona e algodão, tudo em pequena escala, apenas o necessario para o consumo do cultivador.
Colhem bastante cêra, já apanhada nas florestas, e já de colmeas que collocam sobre as àrvores, e onde os enxames v[~e]m habitar.
A cêra é um gènero, que elles permutam por peixe sêco do Cuanza, que os Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito ali não tem peixe.
Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoações para fazerem pequenas caçadas aos antìlopes, afim de obterem pelles para se vestirem.
A pequena cultura é feita por homens e mulhéres.
O sovêta que governa as poucas povoações da margem do rio Cuito é o Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja povoação não pude precisar bem onde fica.
Figura 45.--Luchaze das margens do rio Cuito.

Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que precisam. O ferro é encontrado no paiz.
Uma cousa ùnica que vi entre os povos bàrbaros que visitei, é usarem os Luchazes de isqueiros para fazerem fogo, com fusil e pederneira. As pederneiras sam trazidas pelos Quibôcos, ou Quiôcos, que as v[~e]m trocar a cêra; e os fuzis fabricados por elles sam de ferro forjado e temperados em àgua fria, onde os lançam estando o ferro rubro. A isca é preparada com algodão misturado com a amendoa, pisada, contida no endocarpio de um fruto chamado Micha.
As mulhéres Luchazes usam cestos differentes dos empregados pelas Quimbandes, e differentemente os trazem, porque sam suspensos da cabêça por uma larga tira de casca de àrvore, e caem sôbre as costas.
Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como é uso geral em Àfrica, sobre os rins, trazendo-os ao lado.
No dia seguinte, viéram de manhã algumas mulhéres trazer massango; mas em tão pequena quantidade, que mais fez sentir a fome que já tìnhamos.
Figura 46.--Mulhér Luchaze carregada.

O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto.
É affluente do Cubango, e na sua confluencia assenta a grande povoação de Darico.
Nasce na planicie de Cangaba, onde t[~e]m nascente muito pròxima o Cuime e o Cuiba, affluentes do Cuanza, e o Lungo-é-ungo, affluente do Zambeze.
Figura 47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.

Não podendo obter vìveres, resolvi seguir ávante, e quando dava ordens para levantar campo, chegava á margem do rio Cuito uma comitiva de escravos, capitaneada por três prêtos.
Apoderei-me dos três prêtos, e soltei todas as escravas, pois que na comitiva não iam escravos. Fiz com que entrassem no meu campo, e disse-lhes, que eram livres, e se quizessem acompanhar-me eu as fazia chegar a Benguella.
Disse-lhes, que nada receiassem dos seus guardas, e que se convencessem de que eram livres. Declaráram-me uma a uma, que não queriam a minha protecção, e que as deixasse ir como tinham vindo.
¿D'onde eram? Não m'-o sabiam dizer. ¿Que fazer? Repugnou-me leval-as comigo a despeito seu. Depois de algumas instancias, resolvi deixar aquellas desgraçadas seguirem o triste fado a que não queriam esquivar-se.
Demais, ¿seria elle melhor se me seguissem? Não é facil, ainda que isso se afigure na Europa, libertar uma leva de escravos, quando essa leva é encontrada longe dos dominios Europeus.
Uma leva de escravos tem gente de naturalidades differentes, e muitas vezes longinquas.
Se aquelle que os pode libertar os quizér restituir ás suas familias, tem de percorrer uma grande parte d'Àfrica á busca dos lares dos seus protegidos, o que é pràticamente impossivel.
Abandonal-os e dizer-lhes:--
Ide-vos
--é fazel-os novamente escravos dos primeiros povos que encontrarem.
Muitas vezes, aquelles desgraçados, arrancados das povoações em tenros annos, perdêram da memoria o sitio onde nascêram, e falando já uma lìngua differente da que balbuciáram crianças, e esquècêram longe dos seus, t[~e]m por sua patria a terra da escravidão, e não conhecem outra.
Hôje, depois que os navios de guerra, Portuguezes e Inglezes, cruzam no Atlàntico e no Ìndico, e impedem a exportação do homem, a escravatura é gènero de permutação apenas no interior, e o seu systema tem-se modificado.
O escravo apparece em Àfrica por dois modos. Ou é o prisioneiro de guerra, ou é o gènero de pagamento de dìvida pelos parentes.
Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e infelizmente ainda hôje se faz, posto-que em menor escala.
O ente humano dado, pelo parente proletario, em pagamento da dìvida contrahida, ou da multa decretada, é vulgar.
No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque lhe não era facil, adulto que fôsse, voltar da Amèrica á Àfrica. O Atlàntico era garantia segura.
Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram preferidos ao adolescente e á criança.
Hôje não é assim. O homem feito foge, e tem sempre na idéa o voltar ao ninho d'onde o arrancáram, e essa esperança não o abandona em quanto pisa o continente onde tem seu paiz.
Disse-me a mim um negreiro:--
sam muito fugitivos
.
A criança, o adolescente e a mulhér, offerecem ao commerciante maior garantia, porque, espìritos mais irresolutos, não ousam encarar o pensamento de atravessar paizes enormes, para voltar ao seu.
Tem por isso mais valor, hôje, na Àfrica Austral, a criança e a mulhér, e nas levas de desgraçados que infelizmente ainda arrastam os duros grilhões a travez do solo Africano, é raro vermos um homem feito.
Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras sobre ella.
Portugal, a Inglaterra e a França, t[~e]m, nos ùltimos tempos, empenhado uma verdadeira luta contra o commercio da carne humana, e as modificações feitas nas antigas praxes Americanas, concorrêram para que esse commercio diminuisse consideravelmente, e se modificasse essencialmente na Àfrica Austral.
Contudo, eu atrevo-me a dizer, que não será ainda a geração que ora começa, aquella que verá desapparecer o escravo do solo Africano.
O mesmo principio que imperava outrora na Amèrica, fazendo colonisar com os escravos, existe e existirá por muito tempo em Àfrica.
Os governos prêtos tambem t[~e]m a sua polìtica colonisadora, e entre elles e os logares de procedencia do escravo, falta-nos um Oceano, onde possamos fazer singrar as nossas esquadras, e proteger os mesquinhos com as nossas baterias d'aço. Só os principios civilisadores poderám fazer cessar um dia a escravidão; mas infelizmente esse dia está longe, porque os argumentos de que se servem esses principios, sam menos eloquentes e menos enèrgicos do que os projecteis cylindro-cònicos o fôram no Atlàntico e no Ìndico.
Eu tenho para mim, que a abolição da escravatura, no interior da Àfrica Austral hade existir de facto, quando deixar de existir a polygamia entre os prêtos; porque, ainda que os principios civilisadores façam desapparecer o escravo, a sensualidade asinina do negro fará subsistir a escrava.
Isto não quer dizer, que eu descreia de que se possam dar alguns rudes golpes de immediato effeito no reprovado commercio; mas sim que penso na difficuldade do seu completo exterminio. Já vai longa a divagação, voltemos ao assumpto.
Dizia eu, que as raparigas não quizéram ser livres, e seguíram os seus conductores.
Eu preparei-me tambem para partir, forçado sobre tudo pelas imperiosas necessidades dos estômagos, que em viagens de exploração governam tanto e mais do que as sociedades de Geographia.
Segui quasi a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma povoação, e acampava na margem de um ribeiro perto d'ella. Sube que ribeiro e povoação se chamavam Bembe.
Quando começava a faina de cortar madeira para acampar, vi de repente os meus prêtos dispersarem-se em varias direcções, fugindo espavoridos. Não atinava eu com a causa de tal terror, e dirigi-me ao sitio onde elles trabalhavam, a investigar o que seria. No logar onde eu tinha mandado
construir o campo, milhões da terrivel formiga chamada pelos Bihenos Quissonde, sahiam da terra, e d'ella fugíram os meus homens. A formiga Quissonde é uma das mais temiveis feras do continente Africano. Dizem os naturaes, que ataca e mata o elephante, introduzindo-se-lhe na tromba e nos ouvidos. É inimigo que se não pode combater, e atacando aos milhares, só se lhe pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8 milimetros de comprido, côr castanho-clara muito luzidía.
As mandìbulas d'este feroz hymenòptero, sam fortissimas e de grandeza desproporcionada.
Da sua mordedura no homem sahi logo um jacto de sangue.
Os chefes conduzem as suas phalanges a grandes distancias, e atacam todo animal que encontram no seu caminho.
Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques d'este feroz insecto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares d'ellas esfregadas aos pés, levantarem-se, e continuarem a sua marcha, primeiro lentamente, depois com a sua celeridade ordinaria, tanta é a sua vitalidade.
Vem a propòsito falar aqui de outras formigas mais vulgares do que o Quissonde.
Uma é pequena, de três milimetros a quatro de comprido, negra e como o Quissonde armada de fortes mandìbulas. Chamam-lhe os Bihenos Olunginge. É o maior inimigo das termites, contra as quaes dirige terriveis ataques, e que vence apesar da desproporção do seu tamanho.
Estas pequenas formigas sam um verdadeiro beneficio, pela enorme destruição que causam nas larvas, nymphas e ovas das termites.
Em alguns pontos encontrei nas habitações das termites uma grande quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de 20 milimetros, que vivem em communidade com os abundantes nevròpteros da Àfrica Austral.
Estas formigas, supponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir habitações, vam procurar nas construcções termìticas, abrigo e morada.
Nenhum d'estes pequenos insectos ataca o homem àlém do Quissonde, que o ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez dispersar os meus carregadores.
Tive pois de ir longe escolher outro sitio para acampar.
Voltáram da povoação do Bembe alguns homens que ali tinha enviado, com a triste nova, de que o sovêta dera ordem para nada me venderem.
A fome já se fazia sentir muito, caça não apparecia, e apenas tivémos n'esse dia um punhado de massango, que tanto coube a cada um de nós na divisão que fiz, do pouco que obtivémos na margem do rio Cuito.
Ali o paiz já era completamente desconhecido a todos, e nenhumas informações podiamos colher do gentio esquivo.
Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de alargarmos a marcha no dia seguinte, até encontrarmos povoações mais hospitaleiras.
Elles conviéram na imperiosa necessidade, e apesar de muito carregada a comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento, decidíram animar a sua gente para os fazer ir avante. Havia dous dias que encontrava vestigios de ter sido outrora povoadissimo este paiz, pelas ruinas, já antigas, de muitas povoações que encontrei.
¿O que determinaria este abandono?
¿Seria a devastação pela escravatura? ¿Seria a insalubridade do clima? ¿Seria a falta de caça? ¿Seria a má qualidade do terreno?
Não o pude saber; mas a primeira hypòthese parece-me a mais admissivel.
O facto era, que essa falta de população inesperada, nos creou o maior embaraço, e eu n'essa noute soffri horrivelmente das torturas da fome.
No dia immediato, tive logo de manhã o transtorno de um carregador doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a bizarria e offereceu-se para levar a carga.
Na occasião de partir, apparecêram uns enviados do sovêta do Bembe, pedindo-me alguma cousa para elle; fiz-lhes ver o mao procedimento do sovêta para comigo, e mandeios pôr fora do campo.
Segui ás 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a vadear, tem dois metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito.
A sua margem direita é montanha ìngreme; mas a esquerda, depois de uma trincheira quasi vertical, de 10 metros, estende-se, plana e paludosa, por um kilòmetro.
A marcha atravez do paúl levou uma hora, e fatigou muito a faminta caravana.
O terreno em seguida é levemente inclinado e coberto de uma vegetação arborescente difficil de transpor. Depois de outra hora de fatigante caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo sopé se desenrolava uma planicie, occulta por densa floresta. Desci uns 50 metros para alcançar a orla da mata; mas tive logo de alterar o meu rumo. A floresta era impassavel.
Aprovetei um difficil trilho de caça, que ora me levava a Leste, ora a Noroeste, e depois a Sueste, até que o terreno me faltou de repente.
Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas àguas de um ribeiro, tolhia-me a passagem.
A difficuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus carregadores, obrigáram-me a acampar ali.
A fome já se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma esperança todavia me animava; eu tinha visto vestigios de caça.
Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno á sua mordedura. Tinha um metro de comprido, e era côr de telha no dorso, tendo o ventre um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito brilhantes e a lingua bipartida.
A bôca era armada de quatro dentes dispostos como as presas de um cão. Ahi ficam os signaes d'ella para aquelles que pisarem um dia aquellas paragens.
Era preciso caçar, e eu, logo que fiz as minhas observações, parti para um lado, e mandei em outras direcções os meus prêtos Augusto e Miguel, os ùnicos que t[~e]m algumas manhas de caçadores na minha comitiva.
Encontrei perto do campo um grande rasto de bùfalos e segui-o.
Não se faz idéa na Europa do que seja caçar para comer. É um prazer horrivel.
Deve ser assim o apontar á banca, do jogador que precisa ganhar uma certa quantia para pagar uma dìvida de honra, e que mistura o febril prazer do jôgo, com a cruciante angùstia da incerteza. Os olhos com que elle devora as cartas que lentamente vam escorregando por entre os dedos do banqueiro; os olhos que queriam penetrar atravez da carta opaca para anticipar o desfecho da agonia da dùvida, no fim da qual está a salvação ou a morte suicida; devem ter a mesma expressão dos olhos do caçador faminto, que perscruta a floresta em busca da caça que é para elle questão de vida ou morte.
Ha contudo uma differença.
É que o caçador faminto pode invocar em seu auxilio a Divindade, pode balbuciar uma sùpplica a Deus.
Ao passo que o caçador por prazer segue descuidoso uma pista, cheio de felizes emoções ao avistar o gamo que procura; caminha desassombradamente, sabendo que no sitio ajustado, um cozinheiro prepara òptimos manjares; que pára aqui e àlém para contemplar uma flôr mimosa, uma paizagem agradavel. O caçador por necessidade só pensa na caça que, matando-a, lhe matará a fome.
Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro deita-se de rastos, não sente os espinhos que lhe razgam as carnes, e por umas palhas que faz tremer, treme tambem de dar um alarme, e caminha devagar, devagar, reduzindo a distancia para que o tiro não falhe, com o coração a palpitar, e com o estômago a bradar em contorsões pungentes.
Deve ser assim o caçar do tigre e do leão. O rasto que eu segui levou-me ao fundo do precipicio onde corre o pequeno còrrego, e por muito tempo segui a sua margem direita, passando depois á esquerda, onde vi os bùfalos, que caminhavam pastando na orla de uma densa floresta virgem.
Estavam a 500 metros de mim.
Começou então esse fatigante caminhar de rôjo, a carabina a tiracollo como que nadando n'um mar de palha curta. De quando em quando levantava a cabêça descoberta para espreitar a minha presa, e prosseguia n'aquelle caminhar difficil cheio de commoções. Os bùfalos pastando, ora caminhavam ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria, se andavam que desespêro o meu!
Na mente phantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vam á margem do còrrego, e lá encontrarám caça para matar a fome."
Era uma mistura de prazer e de angùstia que me causava a incerteza horrivel.
De repente os animaes desapparecêram na floresta em apressado trotar.
¿O que seria? ¿Terme-hiam presentido?
Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na floresta, o meu desespêro subio de ponto.
Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso não deixa perceber um rasto ao ôlho mais experimentado.
Parei desanimado. Tudo o que tinha phantasiado cahio como sonho fágueiro ao impertinente despertar.
Ainda fui longe sem nada perceber de caça, e perto das 6 horas da tarde recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado inutilmente 20 kilòmetros!
Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me radiante de alegria um soberbo antìlope que tinha morto! Era uma enorme Malanca (
Hippotragus equinus
) da corpulencia de um boi.
Fiz immediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo, e depois de um longo jejum, que nem Deos me leva em conta por ser involuntario, tive um opìparo jantar, adubado pela fome, que faria inveja aos mais pichosos gastrònomos.
Miguel, o meu bravo caçador de elephantes, tambem veio comprimentar-me; mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza.
Logo que sube a causa do desespêro do meu valente, não pude deixar de me consternar muito.
Durante a ausencia de Miguel, a minha cabrinha Córa entrou na sua tenda, e comera-lhe o grande feitiço que elle possuia para matar os elephantes.
Consistia o valioso talisman em um dente humano cahido do tecto de uma casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgião de grande fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facilimo ao portador de tão extraordinario objecto, o encontrar e matar elephantes sem o menor perigo. Miguel estava inconsolavel; mas eu consegui tranquelizal-o, promettendo-lhe maior feitiço do que o perdido, para o mesmo fim.
E não o enganava, pois que a boa carabina que tencionava dar-lhe, logo que chegàssemos a paiz de elephantes, valia bem por tôdos os dentes humanos embrulhados em palha e trapos.
Depois de comer, reuníram-se em tôrno da minha fogueira os meus pombeiros, e contáram-me, que durante a minha ausencia, toda a gente tinha ido ao mato, seguindo uns os
indicators
, haviam colhido bastante mel, sendo que outros haviam feito larga colheita de uma fruta chamada pelos Bienos
atundo
, semelhante á goiaba, mas produzida por uma planta herbacea de pequeno talhe. Os pedùnculos d'esta fruta partem do caule junto á terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor é agradavel, não julgando eu que seja muito nutriente.
Figura 48.--Atundo, Planta e Fruto.

No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio, levantámos campo muito mais cêdo que do custume.
Seguímos a S.E., encontrando, depois de duas horas de marcha, um rio difficil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e violenta corrente.
Mandei cortar grandes àrvores na floresta, e pouco depois estava lançada uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do sitio em que passei o rio, affluia a elle um riacho vindo de Leste. Segui a margem direita d'este riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas povoações que avistava.
Logo que chegámos, viéram espreitar-nos alguns gentios, com quem pudémos falar a pedir provisões. Pouco depois, já apparecia no nosso campo algum massango que pretas quasi nuas vinham vender. Comprando a missanga sem regatear, em breve tivémos alimentação sufficiente para aquelle dia.
Em breve se estabelecêram relações cordiaes entre aquelle gentio e nós. Por elles soubémos, que o ribeiro onde acampámos na vèspera se chamava Licócótoa, o rio onde n'aquelle dia havìamos lançado a ponte Nhongoaviranda, e o còrrego em cujas nascentes estàvamos acampados Cambimbia.
As duas povoações que ficam na margem esquerda do ribeiro sam Luchazes, aquella que ficava a N.O. do meu campo era de Quiôcos ou Quibôcos. Fôram estes ùltimos que viéram ao meu campo e com quem estava em relações.
Comi mais de um litro de massango cozido em àgua, não me foi desagradavel tal alimento.
Depois de ter saciado o appetite, calculei a posição em que estaria n'aquella noute o planeta Jùpiter, no momento do eclipse do 1^o satèlite que eu precisava observar.
Eu estava acampado n'uma floresta copada, que não me deixava ver os astros.
Logo que achei pelo càlculo a posição do planeta no momento desejado, escolhi o logar onde assentaria o meu telescopio, e mandei rasgar na floresta um claro sufficiente para poder fazer a observação.
Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho, conseguìram em duas horas razgar uma abertura por onde eu podesse dirigir o meu òculo.
As mulhéres dos Quiôcos ou Quibôcos que viéram ao meu campo traziam os filhos ao lado como as Luchazes, suspensos do hombro opposto por uma faixa de casca de àrvore.
Àlém de massango, trouxéram ellas para vender umas raizes tuberculosas chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam muito e eu nada. Não cultivam o milho, e alimentam-se de massango.
O luxo dos penteados não se encontra entre os Quibôcos ou Quiôcos, e o seu vestir é mais miseravel do que entre os Quimbandes. As mulhéres andam nuas!
Causará de certo estranheza ao leitor, que eu, estando em pleno paiz dos Luchazes, lhe esteja falando em Quiôcos. Se isso o admira, não me sorprendeu menos a mim o caso de os encontrar ali.
A emigração constante dos Quiôcos e a colonização das terras Luchazes por elles, é um facto.
O paiz dos Quiôcos ou Quibôcos (que lhes chamam indifferentemente) é collocado ao norte de Lobar, nas vertentes leste da serra da Mozamba. Livingstone fal-o cortar pelo parallelo 11 sul, e pelo meridiano 20 leste de Greenwich.
Os Quiôcos sam viajantes, caçadores, e ousados. Alguns, descontentes com o seu paiz, emigráram para o sul, atravessáram o Lobar, e viéram estabelecer-se na margem direita do Lungo-é-ungo, em paiz Luchaze.
Não foram hostilizados, e atraz d'estes seguìram-se outros, sendo constante hôje a emigração. Não paráram ali, e seguíram muitos emigrantes mais ao sul, indo até ao Cubango. A maior parte da povoação de Darico é de Quiôcos.
Perguntando-lhes eu, ¿qual o motivo de abandonarem o seu paiz? disséram-me, que a doença e a falta de caça os afugentava de lá.
Estes Quiôcos com quem entrei em relações, estavam estabelecidos ali havia pouco, e não lhes sobravam as provisões para venderem; mas disséram-me elles, que
[**Nota de editor: No original há um salto da página 235 à 237. Trata-se de um erro de impressão.]
[**Transcriber's note: In the original book there is a gap between pages 235, 236 and 237... it is a printing error.]
No alto da serra ha um esplèndido panorama de N.E. a N.O. Vê-se tôdo o curso do rio Cuango, affluente do Lungo-é-ungo pelo sul.
Mappa 5.--Disposição da àgua em Cangala

Avista-se a bacia d'este desde Cangala até á confluencia do Cuango, e bem assim as bacias superiores dos rios Cuito, Cuime e Cuiba.
O golpe de vista é sorprendente.
Na vertente de oeste da serra Cassara-Caiéra a vegetação arbòrea é esplèndida, na cumiada enfèzada e pobre; na vertente leste a vegetação arborescente e herbàcea verdadeiramente rica.
Esta vertente leste é chamada Bongo-Iacongonzêlo.
Fui acampar na nascente do ribeiro Canssampôa, affluente do Cuango, e durante tôdo o trajecto d'aquelle dia não encontrei àgua.
Junto ao meu campo, na outra margem do ribeiro, ficavam cinco povoações Luchazes.
Estas cinco povoações sam governadas por um sovêta que obedece ao soba Chicôto, cuja povoação é na confluencia do Cuango com o Lungo-é-ungo.
As duas povoações Luchazes que ficam no Cambimbia obedecem ao Muene-calengo do Cuito.
O sovêta Cassangassanga veio visitar-me, e trouxe-me de presente um cabrito. Dei-lhe alguma missanga com que se retirou satisfeito, promettendo mandar-me algum massango n'aquelle dia, e guias no immediato para me conduzirem a Cambuta, onde me disse eu encontraria muitos vìveres. Cumprio as suas promessas, não só mandando o massango n'aquelle dia, como os guias no seguinte.
O massango, dividido, deu uma pequena ração a cada um de nós; o cabrito não era cousa de vulto para tanta gente, e francamente dormímos com fome.
Ali cultivam massango, pouca mandioca, menos feijão, bastante mamona e algum lùpulo.
Trabalham o ferro com bastante perfeição, sendo o minerio encontrado no paiz.
No dia 6 de Julho, parti a leste, e depois de três horas de caminho, na ùltima das quaes segui a margem do ribeiro Andara-canssampoa, acampava em frente da povoação de Cambuta, junto ao rio Bicéque, que corre a N.E. para unir-se ao Cutangjo, affluente do Lungo-é-ungo. O paiz tem uma certa agglomeração de população, que obedece ao sova de Cambuta. Ali pude obter bastante massango, ùnico alimento que cultivam em abundancia, e por isso ùnico que me viéram vender.
Figura 49.--Povoação de Cambuta, Luchaze.

Nunca vi tão grande quantidade de rôlas como ali, e eu matei muitas, carregando a arma com pedrinhas miùdas das margens do ribeiro. Adoecêram-me alguns carregadores com papeira, e outros com gastrites, de certo provenientes da má alimentação.
Entre as raparigas que viéram ao meu campo vender massango, notei algumas muito galantes e muito esbeltas.
Andam quasi nuas, e mal se lhes percebe, não uma folha de vinha, mas um pequeno farrapo de casca de àrvore.
Ali homens e mulhéres sem excepção t[~e]m os dentes incisivos da frente cortados em triàngulo, de modo que estando a dentadura unida, apparece um lozango vazio, formado por os dois triàngulos cortados na frente em dentes de ambas as maxilas.
O frio continuava a ser intensissimo durante a noute, e só junto de grandes fogueiras podiamos repousar.
Figura 50.--Mulhér Luchaze de Cambuta.

No dia seguinte, continuavam as doenças. Um caso bem para notar era, serem só atacados os Bihenos, e resistirem os negros de Benguella, não tão habituados como aquelles ás vicissitudes da vida sertaneja.
De manhã, matou-se perto do acampamento uma ave de rapina, que a minha vista pouco experimentada não soube collocar em algum dos gèneros em que se divide a familia dos rapaces diurnos, querendo, na minha ignorancia em tal assumpto, que fosse um Gypeta, ainda que julgo ser ùnica a especie do gènero conhecida.
O meu pàssaro parecia-se enormemente com o gypeta, excepto nas dimensões que as tinha muito menores, pois contava apenas, de ponta a ponta de aza, 1 metro e 75 centìmetros.
Fôsse o que fôsse, foi saboreado pelos Bihenos, que em materia de gastronomia, desde o homem até ao abutre, passando pelo crocodilo, leopardo e hyena, de tudo comem sem escrùpulo.
Figura 51.--Homem Luchaze de Cambuta.

N'esse dia, como na vèspera, o tempo que me ficou livre das observações, empreguei-o a percorrer os arredores, levantando, como costumo, uma planta grosseira dos terrenos que avisto, tendo marcado tres milhas ao sul da nascente do Biceque, a nascente do rio Cuanavare, grande affluente do Cuito. Junto da nascente do Cuanavare, estive na povoação de Muenevinde, governada por uma dama, cujo marido que se chama Ungira, não tem voz activa na governação.
Eu nunca fui amante de feijão-fradinho, mas á noute, de volta ao campo, tive um pequeno presente d'elle, e comi-o com devorador appetite.
1 e 3. Machados. 2. Frecha. 4, 4. Ferros de frecha. 5. Enxada.

Figura 52.--Objectos fabricados pelos Luchazes.
O sova de Cambuta estava ausente em caçada, e fizéram-me as honras da casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiaes relações, obtendo d'ellas, não só boa provisão de massango, mas ainda 12 carregadores para elle, e dois guias para me encaminharem ás nascentes do Cuando e do Cubangui, affluente d'aquelle, rios que me diziam no paiz serem os
maiores do mundo
.
Permittam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das ùltimas do perìodo anterior que sublinhei.
O rio Cuando, de certo o maior affluente do Zambeze, não foi conhecido por mim pelas informações dos Luchazes de Cambuta; e eu, tendo sustentado a minha marcha do Bihé até ali, uma grande parte do caminho fóra e muito ao norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que fazia, e onde deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de tão grande arteria. Devia isso ás informações de Silva Porto, que já tinha descido aquelle rio do Cuchibi até Liniante, levando cargas em canôas.
Silva Porto tinha-me assignalado as nascentes d'aquelle rio, que elle conhecia nos seus terços medio e inferior, pouco mais ou menos no ponto em que as encontrei, e isto por informações colhidas por elle do gentio.
Se Silva Porto podesse dar aos pontos que conhece da Àfrica Austral, as posições traduzidas em longitudes e latitudes, enchiam-se facilmente os espaços em branco que ainda existem na carta d'aquelles paizes.
Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu cumpria o itinerario que havia traçado, e ia resolver um dos problemas que mais desejava resolver.
As noticias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as geraes essas já as tinha aprendido de Silva Porto.
Disséram-me os meus guias, que ìamos atravessar, para àlém do rio Cutangjo, uma região despovoada, e por isso era mistér fazer provisões para o caminho. Foi essa informação que me levou a comprar mais massango, e a pedir 12 homens, ás mulhéres do sova.
Parti no dia 9 de Julho ás 9 da manhã, e três horas depois passava o rio Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto da povoação de Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a N.N.E. para o Lungo-é-ungo. Vi que nas plantações havia alguma mandioca e muito massango--o terrivel massango, que tanto me havia de perseguir em Àfrica!
Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes.
Mappa 6.--De Cambuta ao Cubangué

Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras sam muito perfeitas.
Quasi todos os Luchazes t[~e]m barba por baixo do queixo, e pequeno bigode. Vai ali desapparecendo o luxo dos penteados extraordinarios que até ali faziam a minha admiração.
Figura 53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo.

Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por elles; cobrem com pelles a sua nudez, e abrigam-se do frio com licondes, que extrahem de àrvores das florestas.
Não fabricam panellas, e as que usam vam obtel-as dos Quimbandes.
Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes v[~e]m permutar a cêra os Lobares, sendo que estes o obt[~e]m da Lunda.
Figura 54.--Cachimbo Luchaze.

Fui ver a povoação de Chaquicengo, que, como todas do paiz, é muito bonita e de um grande aceio. As casas sam feitas de troncos de àrvores, de 1 metro e 20 centìmetros de altura, que tanto é a altura das paredes. O intervallo da madeira, que é encostada uma á outra, é cheio, em umas de barro, em outras de palha. Os tectos sam de côlmo, e como as armações sam feitas de varas muito finas, fazem uma curva, tomando um aspecto de tectos Chinezes. Os celeiros sam collocados muito altos sobre uma armação de madeira, todos de palha, e de cobertura movel; pois é preciso levantal-a para ir dentro buscar os mantimentos. T[~e]m accesso por uma escada de mão, e não sam mais do que um cesto gigantesco á prova d'àgua, em que é tampa um tecto cònico.
Figura 55.--Capoeira dos Luchazes.

As capoeiras sam umas pyràmides quadrangulares de varas d'àrvore, assentes em quatro pes ou estacas muito altas, para as pôr ao abrigo dos pequenos carnìvoros.
No centro da povoação ha, como no Huambo, uma especie de kiosque para conversa.
Ali, em tôrno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos e frechas. Recebêram-me muito bem, e viéram-me offerecer uma bebida preparada com àgua, mel e farinha de Lùpulo, que misturam em uma cabaça onde a deixam fermentar. Chamam-lhe Bingundo, e é a mais alcohòlica que tenho encontrado.
Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos antìlopes e lebres, que é engenhosa, e bem so comprehende em vista do desenho. Chama-se Urivi.
Figura 56.--Urivi, Armadilha para caça.

Depois de um passeio até ás nascentes do Cutangjo, voltei ao meu campo, acompanhado por grande nùmero de homens e mulhéres que não cessavam de me admirar.
Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos typos masculinos de uma fealdade repugnante.
Estes povos, não só apanham muita cêra nas florestas, mas ainda collocam nas àrvores innùmeras colmeas que fabricam com uma grossa casca de àrvore ligada com pinos de pao.
Figura 57.--Luchaze do Cutandjo.

1. Bainha de faca. 2. Cesto. 3. Travesseiro de pao. 4. Cortiço d'abelhas.

Figura 58.--Objectos Luchazes.
No dia 10 de Julho, parti ás 8 da manhã, e meia hora depois, apesar dos guias, andava perdido em uma floresta impassavel, d'onde pudémos a muito custo sahir ás 10 horas. Então encontrámos terreno limpo de arbustos, mas coberto de àrvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que
durou pouco, porque, meia hora depois, já andàvamos outra vez mettidos em mato tão emmaranhado que nos deu verdadeiro trabalho a transpor. Emfim, ás 11 e 20 minutos, descia eu a vertente suave de um còmoro, em cujo sopé a àgua limosa de uma pequena lagôa era cercada por um tapête de verdejantes gramìneas.
Ao chegar ali, dei um tiro em um animal que creio se chama
Leopardus
jubatus
, cuja pelle veio augmentar a minha cama felina. Esta pelle, que foi minha cama até Pretoria, offereci eu ao Doutor Bocage.
Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi apenas dois, vê muito pouco de dia, supponho eu, e supponho isto por ter notado em ambos, que, ao deparar com elles, fitavam as orelhas para o meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo mais pelos orgãos auditivos do que pelos visuaes.
Abeirei-me da lagôa, e determinei a sua posição, tendo mandado construir o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a encosta, ficando uns 30 metros sobranceiro ao paúl, que mais paúl do que lagôa é o charco onde nasce o grande affluente do Zambeze.
Quando trabalhava fui acommettido de um repentino e violento accesso de febre que me prostrou por três horas. Quando voltei a mim, não pude deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo ao pescôço um sem-nùmero de cornos de pequenos antìlopes, cheios das mais virtuosas medicinas. Uma pulseira de dentes de crocodilo enlaçava-me o braço direito, e dois enormes cornos de malanca pendiam de dois paos espetados dentro da barraca.
Os meus prêtos, durante a febre, não se haviam poupado a cuidados, e ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquillo sobre mim, com a mais inteira fé no resultado.
Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu prompto restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo a elles foi attribuido.
Os meus prêtos Augusto e Miguel, tinham ido caçar; mas voltáram sem nada, tendo encontrado alguns leopardos. Víram contudo muitos rastos de caça grossa.
No dia seguinte de manhã, levantei uma grosseira planta do paúl, rectifiquei a minha posição, e levantei um pequeno padrão, construido de barro, dentro da barraca das observações, onde enterrei um frasco que fôra de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papél, onde, de um lado, por baixo do nome d'El-Rei, escrevi os nomes dos membros da commissão central permanente de geographia, e do outro, as coordenadas do ponto, e a data.
Depois do meio-dia, os guias Luchazes fôram mostrar-me a nascente do rio Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6 milhas geogràphicas a S.O. do paúl da nascente do Cuando.
Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e queixavam-se muito do frio. O paiz é despovoado, e deve ter muita caça, porque d'ella haviam rastos, continuando a apparecer leopardos, que d'ella sam tambem indicio certo. Nós não vimos nenhuma. Era preciso seguir avante, porque os mantimentos desappareciam ràpidamente, e precisàvamos alcançar as povoações Ambuelas, para escapar á fome.
Na manhã de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de zero, mandei levantar campo e preparar para partir; não conseguindo deixar o acampamento antes das 8 horas.
Mappa 7.--Paúl da nascente do Cuando

Milhares de periquitos esvoaçavam nas matas e faziam uma chiada infernal.
Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por indicação dos guias, passei á margem esquerda sobre uma ponte que improvisámos de troncos de àrvore.
Ali já o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e violenta corrente.
Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que não pude atirar.
Acampei ali. As margens do Cuando sam montanhosas, e desde a nascente até áquelle ponto t[~e]m uma faxa apaülada de 30 a 40 metros, que deita em toda a extensão muita àgua, que vai engrossar o rio.
Este facto dá-se com quasi todos os rios d'aquellas regiões, que recebem por aquelle meio enorme quantidade de àguas, de modo que, sem a elles affluirem outros, sam navegaveis a algumas milhas das pequenas nascentes.
Na margem direita do rio vi aqui e àlém algumas barreiras verticaes estratificadas, apresentando faxas côr-de-rosa, brancas e azues.
No dia seguinte, levantei ás 8, e caminhei até ao meio-dia, indo acampar junto de um còrrego affluente do Cuando.
Adoecêram-me alguns homens, com papeira, e outros com inflammações nas pernas.
Felizmente, as cargas das provisões tinham diminuido sensivelmente, e tinha carregadores de sobrecelente. Nas margens apaüladas do Cuando abundavam sanguesugas, que mandei apanhar, para applicar a alguns doentes que d'ellas careciam.
As matas que atravessei, e aquella em que estava acampado, eram quasi exclusivamente formadas de umas àrvores enormes, a que os Bihenos chamam Cuchibi, àrvores prestadias ao viajante faminto.
O seu fruto semelha um feijão, onde só um grão de vivo escarlate está encerrado na casca verde-escura. Este fruto, depois de uma demorada cocção, separa os invòlucros escarlates dos cotylèdones brancos. Sam aquelles invòlucros escarlates a parte comestivel d'esta semente.
Figura 59.--O Cuchibi.

Sam bastante oleaginosos, e os Ambuelas e Luchazes extrahem d'elles um òleo que tempera a comida.
Este fruto é de certo um grande socorro ao viajante faminto; mas não é para pressas, que a sua cocção é demoradissima.
Outro fruto que se encontra ali e que é bastante vulgar em todo o planalto, é o que os Bihenos chamam Mapole.
É produzido por uma àrvore de mediana corpolencia, e semelha pela côr e tamanho uma laranja madura.
Um pedùnculo bastante comprido suspende este fruto verticalmente dos ramos da àrvore. O epicarpio e o mesocarpio estreitamente ligados, formam um invòlucro de quatro milimetros de espessura, de dureza cornea.
Figura 60.--Folha e Fruto do Cuchibi. (Tamanho natural.)

Só com um forte machado se pode partir. No interior a parte comestivel é um lìquido espesso e coagulado em que se agglomeram umas sementes como as das ameixas pequenas.
Este lìquido, de sabor agro-dôce, tomado em quantidade, é bastante purgativo; mas asseguráram-me os Bihenos, que é muito nutritivo e um homem pode viver d'elle alguns dias.
No dia seguinte, deixei o rio Cuando, que já ali se inclina a S.S.E.; e por indicação dos guias, caminhei a leste, para ir demandar as nascentes do Cubanguí, rio que elles me diziam ser muito grande.
Depois de uma hora de marcha, passei um ribeirão que corre ao sul, n'um terreno apaülado de 100 metros de largo, que custou a transpor; 4 milhas àlém, outro grande ribeiro corre parallelo ao antecedente.
Figura 61.--O Mapole, Àrvore e Folha.

Entre os leitos d'estes ribeiros, e bem assim entre os dos affluentes do Cuando, a leste, correm montanhas norte-sul, montanhas que pertencem a um systema mais importante, que ao norte corre leste-oeste, indo as suas vertentes N. terminar no valle do Lungo-é-ungo.
Pelas 11 e meia, cheguei ao alto da serra, d'onde os guias me mostráram, muito ao longe, as nascentes do rio Cubanguí. Marquei aquellas nascentes perfeitamente a leste; e como receei não poder, chegado que fôsse, determinar a latitude, parei, e ao meio-dia determinei a d'aquelle ponto em que estava, por ser a mesma das nascentes do rio, estando, como estavam, leste-oeste com elle.
Pelas 2 horas da tarde, acampei junto ás nascentes, que sam em tudo semelhantes ás do Cuando. O pàntano que dá nascente a este rio tem o seu eixo norte-sul, e estende-se por um kilòmetro, variando a sua largura entre 80 e 100 metros.
Figura 62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos.

Não appareceu caça, mas vimos d'ella muitos rastos, e durante a noute, os leões fizéram um concerto infernal em tôrno do campo.
Já ali se distribuíram as ùltimas rações, e de nôvo tìnhamos diante de nós a fome.
Os guias diziam, estarem perto as povoações, mas termos de marchar dois dias para as alcançar; porque os muitos doentes, e sobre tudo o pombeiro Canhengo, que estava mal, nos impediam de forçar as marchas.
O meu cuidado era extremo, e receiava já que o aggravarem-se as doenças com a fome e com a fadiga me impedisse de alcançar a tempo os recursos precisos.
No dia seguinte, apesar de todos os meus esforços, não consegui sustentar a marcha àlém de quatro horas, e tive de acampar na margem do Cubanguí, que não deixei desde a sua nascente. No ponto em que acampei já o rio conta três metros de largo por um de fundo.
Um gnou, que matei, e algum mel que os prêtos colhéram na floresta, deu minguada ração com que passámos um dia.
No dia immediato continuei a seguir a margem direita do Cubanguí, e depois de quatro horas de marcha, acampei junto ao ribeiro Linde, em frente de três povoações Ambuelas. Mandei logo não só áquellas povoações, mas ainda a outras que ficavam na margem direita, e apenas pudémos obter uma escassa ração de massango.
Todos nos diziam, que no dia seguinte chegariamos á terra do sova, e que elle nos daria de comer. Na confluencia do Linde já o rio Cubanguí tem 5 metros de largo por 3 de fundo.
Os meus doentes não melhoravam muito, o que não era por falta de dieta.
Foi preciso sustentar marcha de seis horas, para alcançarmos no dia immediato a povoação do chefe, a quem mandei logo um presente de uma farda velha de cabo de infanteria 2, que elle muito agradeceu, dando ordem aos seus povos para me venderem mantimentos. A trôco de missanga obtivémos massango, o maldito massango, que tanto me havia de perseguir.
Despedi os meus guias, e os doze Luchazes que até ali me acompanháram, e que se retiráram satisfeitos com o que lhes dei.
Elles fraternizáram com a gente das povoações Ambuelas, que estam ali um pouco misturadas com a raça Luchaze.
Em um dos dias seguintes que passei ali, acampou junto de mim uma grande porção de familias Luchazes que se vinham estabelecer no paiz.

Figura 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba. 1. O que elle traz na mão.
Passou ali tambem um rancho de caçadores, que iam para o sul em busca dos elephantes. Foi a primeira vez que ouvi falar em elephantes, porque todo o paiz que atravessei desde Benguella até ao Cubanguí, não os tem, nem mesmo d'elles vi rasto antigo.
Ainda assim, os taes caçadores disséram-me, que precisavam andar seis dias para os encontrarem.
Dois dias depois da minha chegada, veio visitar-me o sova de Cangamba, Muene Cahenda, que me levava um presente de quatro gallinhas e um grande cesto de massango.
Trajava a farda que eu lhe tinha enviado, e da cinta pendiam-lhe pelles de leopardo. Na mão trazia elle um objecto formado de caudas de antìlope, com que sacudia as moscas.
A cultura é feita no paiz por homens e mulhéres, que, em pequenas plantações, cultivam massango, algodão, pouca mandioca, e ainda menos batata dôce.
Trabalham muito em ferro, que extrahem das minas na margem direita do rio, junto das quaes passei, ao norte de Cangamba.
Figura 64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas de Cangamba.

Ao contrario dos outros povos Ganguelas, em Cangamba sam os homens que fazem as panellas e as mulhéres esteiras.
Fiam o algodão, que tecem em teares de occasião, fazendo uns pannos, do tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos.
Viéram vender-me tabaco, que dizem cultivar no paiz, mas que eu não vi nas plantações que visitei.
As armas de que usam sam frechas e machadinhas.
O Cubanguí tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6 de fundo, e 12 metros de corrente por minuto.
Tem peixe, a que não posso assignalar o feitio, porque os que vi eram sêcos, e tinham de 40 a 50 centìmetros de comprido.
Mandioca e peixe sêco; ¡que opìparo banquête para quem andava condenado ao atroz massango!
O rio Cubanguí, para não escapar á lei geral d'aquelle Continente, tem crocodilos, mas sam nada vorazes, e afiançáram-me os Ambuelas, não haver exemplo de uma desgraça causada por elles.
Figura 65.--Cachimbo Ambuela.

Fui pagar a visita ao sova, que é sujeito distincto e sympàthico. Como me não vendiam senão massango, pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e algumas batatas dôces, presente que elle me fez em minguada porção, escusando-se por não ter mais.
Ainda assim, chegou para três dias. ¡Três dias de fèrias de massango!
Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi seguir ávante, no dia 22 de Julho, a demandar as povoações do sova Caú-eu-hue, no rio Cuchibi, onde passa, o caminho outrora seguido por Silva Porto, e que eu abandonei no Cuanza, seguindo mais ao norte.
Disséram-me os guias, que teria de jornadear em paiz deserto por espaço de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de rações. Os meus doentes tinham melhorado com o descanço e mais abundante alimentação; ainda assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a carregar o massango de que me provi.
Tendo-me dito os guias, que durante dois dias devìamos caminhar na margem do rio, tive a lembrança infeliz de o descer embarcado.
A 22 de manhã, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao rio, fiz levantar campo, e tendo entregue o commando da comitiva ao Verissimo, dirigi-me ao barco, que tripulei com dois muleques pequenos, o meu Catraio, e outro pequeno de 12 annos, chamado Sinjamba, filho de um carregador Biheno, que escolhi por falar bem a lìngua Ganguela, e poder servir-me de intèrprete, se isso fôsse preciso.
Declaro, que não foi sem uma certa commoção que deixei a margem, e me lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo por ùnicos companheiros duas crianças, e governando um barco de fragil tela.
O rio, que nasce trinta milhas ao N., já tem ali 15 metros de largo por 6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e ás vezes mais.
O seu fundo, que varía entre 3 e 6 metros, é coberto de area muito alva, que de certo cobre uma camada de lôdo, porque a flora aquàtica do rio é verdadeiramente assombrosa.
Muitas especies de juncos e outras plantas aquàticas enraizam no fundo, atravessam com suas fôlhas e seus troncos finos, sempre agitados pela corrente, 6 metros d'àgua, e v[~e]m desabrochar á superficie, as suas flôres de variado colorido, e elegantes formas. Por vezes, esta pomposa vegetação occupa tôda a largura do rio, e parece impedir a passagem. A principio hesitei em lançar o barco sôbre aquelle prado aquàtico, julgando encontrar fundo e falta de àgua para navegar; mas depois que a sonda ali me accusou, ora 4 ora 6 metros de àgua, não mais duvidei em deslizar por entre aquelles jardins floridos.
Mappa 8.--De Cangamba ao Cuchibi

Nos pontos onde a àgua, pela disposição do leito, tem corrente insensivel, é que esta vegetação submersa se converte em verdadeira mata virgem, que prende o barco e não o deixa avançar.
Vi muitos peixes nadando ligeiros por entre as sarças, sendo alguns de mais de 60 centìmetros de comprido.
Bandos de patos fugiam diante de mim, estranhando de certo o serem interrompidos n'aquellas regiões nunca devassadas por uma canôa.
Nos juncaes das margens, milhares de passarinhos chilreavam e saltavam nos ramos das gramìneas, que mal se curvavam ao seu pêso ligeiro.
Aqui e àlém, um pàssaro pescador sustentava a mesma posição no ar com um ràpido bater d'azas, até descer verticalmente com velocidade de frecha a tomar a prêsa que espreitava.
Nos canaviaes da margem, um grande rumorejar na folhagem verde deixava-me perceber um ou outro crocodilo que desapparecia nas àguas.
Outras vezes, aquelle rumor era seguido pelo baque de um côrpo que em leve salto se precipitava no pego, e mal eu tinha tempo de perceber uma esquiva lontra.
O rio, cuja direcção geral é Norte-sul, descreve as mais caprichosas curvas, que quadruplicam o caminho. A margem direita é um vasto paúl de largura muito variavel, que ás vezes alcança 1000 metros. D'ali se escôa um grande volume d'àgoas que engrossam o rio a olhos vistas.
Três milhas àlém de Cangamba, vi um rancho de 18 mulheres que pescavam junto á margem, peixes pequenos, com cestos de vime.
Em uma das voltas do rio, percebi três antìlopes desconhecidos para mim, e quando ia a tomar a carabina para lhes fazer fôgo, elles saltáram na àgua e desapparecêram em profundo mergulho.
Este facto causou-me a maior estranhêza, que cresceu de ponto quando, no correr da viagem, por vezes divisei muitos d'aquelles animaes, já nadando e mergulhando ràpidamente, já conservando sempre a cabêça submersa, e deixando ver apenas as pontas dos cornos.
Este animal curioso, que tive depois occasião de matar no Cuchibi, e de cujos hàbitos tive algum conhecimento, obriga-me a suspender por um momento a minha narrativa, para falar d'elle.
Chamam-lhe os Bihenos Quichôbo, e os Ambuelas Buzi. O seu tamanho, no estado adulto, é o de um bezerro de um anno. O pêllo é cinzento escuro, de 5 a 6 centìmetros de comprido, e extremamente macío. Na cabêça o pêllo é mais curto, e tem sôbre as fossas nasaes uma lista esbranquiçada transversal. Os cornos t[~e]m 60 centìmetros de comprido, e a sua secção na base é semicircular, tendo a corda quasi rectilìnea. Conserva esta secção até três-quartos da sua altura, depois do quê se torna quasi circular até á ponta. O eixo medio dos cornos é recto, e formam entre si pequeno àngulo. Sam torcidos em tôrno do eixo, sem perder a sua forma rectilìnea, apresentando as arestas uma espiral de passo muito largo.
As patas t[~e]m compridas unhas semelhantes ás do carneiro, e reviradas nas pontas.
A disposição das patas e os seus hàbitos sedentarios tornam este notavel ruminante improprio para correr. A sua vida passa-se na àgua, e nunca se afasta muito da margem do rio, onde sahe a pastar, raras vezes de dia, e muito de noute.
O seu sono e o seu repouso é na àgua.
A sua potencia mergulhadora é igual, senão superior, á do Hippopòtamo. Durante o sono aproximam-se da superficie da àgua, e deixam ver fora d'ella metade dos seus cornos.
Figura 66.--O quichôbo.

É muito tìmido, e acoita-se no fundo das àguas ao menor signal de perigo.
É facil de surprender e de matar, sendo que os indìgenas lhe dam grande caça, para se aproveitarem das suas pelles, que sam magnìficas, e da sua carne, que não é muito bôa.
Quando sahem a pastar, a sua pouca destrêza na carreira, permitte aos indìgenas o apanharem-n-o vivo, não se defendendo no ùltimo trance, como fazem quasi tôdos os antìlopes.
A fèmea, como o macho, é armada de cornos.
Ha muitos pontos de contacto entre a vida d'este extraordinario ruminante e a dos hippopòtamos seus conterràneos.
O rio Cubanguí, o rio Cuchibi e o alto Cuando, dam guarida a centenares de Quichobos, que não apparecem já no baixo Cuando, nem no Zambeze. Eu explico este facto pela voracidade dos crocodilos no Zambeze e baixo Cuando, que em pouco tempo dizimariam tão tìmido animal, se elle se afoutasse a ir viver nas àguas onde reina com absoluta soberania o carniceiro amphibio.
Em uma entrevista que tive em Pretoria com um notavel caçador de antìlopes, Mr. Selous, me disse elle ter ouvido falar do meu antìlope, aos indìgenas do alto Cafucue, onde lhe disséram existir um animal n'aquellas condições de vida.
A minha pouca competencia em materia de zoologia, não me permittio fazer mais minucioso estudo de um animal, que eu julgo merecer a attenção dos homens de sciencia pelos seus estranhos hàbitos.
Continuando com a minha narrativa, tenho a fazer os maiores elogios ao meu barco Macintosh, que se portava muito bem nas àguas do Cubanguí; mas cuja exiguidade de formas me obrigava a uma posição constrangida, que, pelas 4 horas da tarde, me produzia dôres em tôdas as articulações.
Desde que deixei Cangamba não mais vi signaes da minha comitiva, e pêlas 4 horas da tarde, ás dôres de uma posição contrafeita já se unia um vago cuidado e uma fome bem pronunciada. Os meus pequenos remadôres estavam extenuados de fadiga. Aportei á margem esquêrda, e mandei o muleque Sinjamba subir ao tope de uma àrvore a investigar se na outra margem se erguia o fumo do acampamento.
Elle julgou ver o fumo a N.O., a montante por isso do sitio em que estàvamos.
Tornámos a subir o rio, e eu com muito custo pude saltar no paúl da margem direita e encaminhar-me ao logar onde fôram assignalados os indicios de fumo.
Teria andado um kilòmetro, quando percebi vestigios da passagem da minha comitiva para o sul. Os rastos da minha cabra e dos cães não me podiam enganar.
Voltei ao barco e tornei a navegar rio abaixo. De vêz em quando parava e mandava o muleque trepar a alguma àrvore da margem esquêrda, mas esta manobra repetia-se sem resultado.
Aproximava-se a noute, e eu não estava sem cuidados; porque, àlém da fome que sentia, receiava o dormir fora do campo, por causa dos meus chronòmetros que ficariam sem corda.
Tinha desapparecido o sol, e n'aquellas paragens o crepùsculo é curto. Decidi acampar com os meus dous pequenos na margem esquêrda, e quando já dava execução ao meu plano, pareceu-me ouvir o estampido de um tiro muito longe a S.O. Redobrámos de esforços, e pouco depois ouvia outro tiro, a que respondi.
Ao meu tiro, vi o clarão de outro atirado a 200 metros de mim. Dirigi para ali o barco, e deparei com o meu Augusto mettido em àgua até á cinta no paúl de margem direita. Um Biheno estava com elle. Foi grande a sua alegria ao vêrem-me, e logo viéram tirar-me do barco e transportar-me ás costas por tôdo o paúl que era largo ali.
Foi difficil aquelle caminhar que levou meia hora, mas eu cheguei enxuto á margem.
Os pequenos, depois de prenderem o barco a um canavial, seguíram-nos. Disse-me o Augusto, ser longe o acampamento e termos de atravessar uma espêssa floresta.
Eram profundas as trevas na floresta, e difficil o caminhar por entre as sarças.
Tropeçar aqui, cahir àlém, andar dez metros em dez minutos, rasgando o vestuario e a carne nos espinhos do matagal, tal é o jornadear á noute em mata virgem.
Depois de uma hora de violentos esforços, sentímos perto tiros e grande grita.
Eram os meus, que me buscavam.
Fiz-lhe signal e encontrámo-n-os.
Vinha Verissimo Gonçalves á frente de um grupo de Bihenos, que quizéram por fôrça transportar-me ao campo, em umas andas que ali improvisáram com troncos cortados na mata e folhagem d'arbustos.
Assim entrei no meu acampamento, onde, á meia noute, junto de um bom fôgo, matava a fome de 36 horas.
Demorei-me ali um dia, e no seguinte logo de manhã comecei a passagem do rio, que foi muito demorada, porque dispunha apenas para isso do meu pequeno barco Macintosh.
Segui ás 9 horas na margem esquêrda do rio, e uma hora depois, encontrava um ribeiro nas margens do qual appareceu muita caça; segui sempre, e pela 1 hora fui acampar junto de outro riacho, que como o primeiro era tributario do Cubangui.
Aparecêram no meu campo dois Ambuelas caçadores de cêra (como elles dizem), que prevenìram os guias de que era imprudente seguir para o Cuchibi; porque, tendo morrido um sovêta pròximo do caminho que devìamos seguir, estàvamos expostos aos desatinos que elles costumam praticar em taes occasiões.
Viéram prevenir-me d'isso, mas eu, a despeito da morte de tôdos os sovêtas possiveis, resolvi seguir ávante, e effectivamente no outro dia, depois de marcha bastante forçada de 6 horas, alcancei a margem direita do rio Cuchibi.
Na minha comitiva havia muita gente com uma molestia que tinha alguma cousa de ridìculo; 18 ou 20 pessôas estavam com papeira.