CAPÌTULO V.
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VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova Quipembe--Quingolo e o sova Cáimbo--40 carregadores--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho Capôco--80 carregadores--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Canhungamua e Cunene--Nôva e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!
Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10 homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonçalves, de quem já falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fôrça acompanhar-me n'esta expedição, que tinha por ùnico fim o arranjar carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos auxiliar, e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.
Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar; porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu espìrito o principio que formulei no capìtulo anterior, e hôje mesmo creio que elle foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertões avassallados.
Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E., alcançei a libata de Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e depois o Catapi, que ali corre a S.O.
O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu podido comprar gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á minha barraca, e depois de larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fôram sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle não o era; porque as muitas arbitrariedades commettidas pêlos chefes contra elle e os seus, tinham quebrado os compromissos antigos; que o
Mueneputo
ja lhe não fazia justiça, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as suas accusações aos chefes, falando com modo muito atilado.
O chefe estava presente á entrevista, e não podia responder ás accusações dirigidas aos seus antecessores, tão claramente eram ellas formuladas.
Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos Portuguezes em Caconda com um juizo difficil de encontrar em prêto boçal.
Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha dos chefes de Caconda, mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vêz tive occasião de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem aos chefes dos consêlhos do interior; causa primordial da decadencia do nosso poderio e influencia ali.
O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraça o caminhar.
A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas pequenos olhavam pasmados para mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e bagos de coral; mas só mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que recebiam o presente.
Fôram objecto de grande admiração, os meus òculos e o meu cobertor, em que se desenhava um enorme leão em fundo vermelho.
No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do Quando. Este rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem, por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo.
A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a esquêrda campina de 1 kilòmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja, magnificamente situada no tôpo de um outeiro, e depois de atravessar três ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao Quando, alcancei este ùltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene.
O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a três de fundo.
No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a jusante.
Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetação, onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos espinheiros. Os rochêdos denegridos sobressaem aqui e àlém por entre os tufos de mato, mostrando os cabêços puïdos do bater das tempestades.
Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e innùmeras rôlas esvoaçam sôbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos hippopòtamos nos pegos do rio.
É a belleza selvagem em tôda a sua força, mas a par d'ella ha ali alguma cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se arrastam junto de nós.
Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem de mortal peçonha.
Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra, que pêla extensão parecem ter sido muro de povoação antiga. Foi este o primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo estrellado, mas por isso não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer matámos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.
Seguímos a N.E., e para àlém da povoação de Pessange, encontrámos a de Canjongo, governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu algumas gallinhas a trôco de panno de algodão ordinario, e depois de passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descançámos algumas horas na margem esquêrda, e caminhando depois a N.N.E., chegámos, ás 5 horas da tarde, á libata grande de Quingolo.
O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.
Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fôsse eu ver se obtinha os outros ao Huambo.
Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã, o sova veio visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse partiriam no seguinte dia para Caconda.
Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me quiséram vender; sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um presente de 3 peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente.
O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro prazer.
Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que partiam, para receberem os pagamentos.
Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um outeiro granìtico que domina uma enorme planicie.
Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes, que lhe dam uma frescura constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel fortificação, rodeada de um fosso meio obstruido. No tôpo do outeiro dois rochêdos enormes de elevadas proporções formam uma especie de mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho visto.
Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas interrompida aqui e àlém por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo é talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em tôrno por um perfil azulado de longínquas montanhas que de distantes mal se avistam.
No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui ás 8h. 30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o ribeiro Luvubo, que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei a libata do secúlo Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre que recrescia a cada momento.
Apesar do meu estado de saude, fiz observações astronòmicas, para determinar a minha posição; e falo n'isso, por ser este o primeiro d'essa sèrie de pontos que eu devia determinar através d'Àfrica.
Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa linha que marca o meu caminho do mar Atlàntico ao Indico.
Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzíram-me ràpidas melhoras que me permitíram seguir no dia immediato.
Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de reserva, bôis muito bem domesticados e que offereciam bôa commodidade ao andar, podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto.
Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que chamam das mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos bôis, por ser de fundo lodoso.
O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, pêlo que resolvi deitar-me a descançar um pouco.
Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sôbre uma terra ardente adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de motu proprio estavam em tôrno de mim segurando um panno para desviar do meu côrpo as ardencias de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui ávante e passei um riacho--o Dôro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e corre depois ao Calae, não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de fundo, em cuja margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe miudo, que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente. Á febre que tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.
Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango, que não levou sal, por se me ter acabado a pequena provisão trazida de Caconda.
Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e meia hora depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de fundo, e corre ao Calae.
Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2 metros, tornáram difficil a passagem dos bois.
Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já ao cahir da noite, alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho do sova do Huambo.
O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar, offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas gallinhas.
Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.
Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhêcem pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos, trouxeram em cestas abundante comida aos meus prêtos. Depois de tomar alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de èxito a minha excursão.
No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles, não só a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os recursos que já me faltavam completamente.
Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que adormecia na vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias!
No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do Huambo. A libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilòmetros da do filho, e está assente na margem esquêrda do rio Calae.
Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava soberbamente uma casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma barretina de caçadores. Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peças de riscado ordinario e duas garrafas de àgua-ardente, a que se mostrou muito grato. Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um ôvo a 50 metros.
Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está hôje reduzido a dominar apenas em parte d'elle. A sua historia é curta, mas vulgar. Elle era casado com a filha do sova do Bihé, que entretinha relações amorosas com um dos seus secúlos.
Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a sua falta. Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e a guerra foi declarada. Bilombo tomou o commando do seu exèrcito e partio, ficando a governar na sua ausencia o amante da sua mulhér. Conspiráram ambos e Capussocússo fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do paiz banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou fiel, e á epocha da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingança á adùltera e ao seu amante o traidor Capussocússo.
De volta a casa do Capôco, despedi os três guias, que me acompanháram desde Quingôlo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que os esperava, e que não abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco seguro.
Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e sorprendeu-me a quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada matei por não ir prevenido para isso.
O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado bovino n'aquelle paiz.
Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando chegáram três portadores do sova de Quingôlo, com cartas d'elles, e uma cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.
Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular, assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim de Quingôlo, me mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo guia Barros, para eu as conduzir ao Bihé.
Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão Africano, que então tinham os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um paiz hostil, e se até ali tinha sido respeitado, fôra só porque o gentio me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o receio das represalias tinha até então sostido a rapacidade dos indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que percorrera impunemente os mais longinquos sertões Africanos, tivera de sustentar cruento combate com um gentio àvido de rapina.
¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a minha força consistia em 10 homens? Encarei a minha posição e achei-a um pouco séria. Capello e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não lhes consentiria de certo o deixarem-me em tal posição, se elles conhêcessem bem essa posição.
¿Que fazer? Em três dias podia alcançar Caconda, e voltar d'ali a Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte dias ao Bihé, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a vida e as bagagens. ¿Que fazer?
A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitação febril indescriptivel.
¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? ¿Teria o direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? ¿Deveria voltar a Benguella?
¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi insuperavel que me fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou outro explorador infeliz como eu.
¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de pé, e havia momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia machinalmente aquella phrase.
Audaces fortuna juvat
. Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a lei que dicta as acções dos aventureiros.
Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a Àfrica para só visitar o paiz do Nano, que, digamos a verdade, não deixa de ser muito interessante, sôbre tudo para nós os Portuguezes.
Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição precaria e a resolução tomada de caminhar para o Bihé; elles protestáram-me a sua dedicação e a intenção de sempre me acompanharem.
D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e Camutombo estivéram em Lisboa depois de terem atravessado comigo a Àfrica; 4 seguíram do Bihé Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu, junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto, Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes, Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia, morréram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.
Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e não tivera até então logar de experimentar o seu valor.
Eu estava em casa do Capôco, que até então me tinha dispensado os maiores favores; mas Capôco era o cèlebre salteador do Nano, que chegara a ir atacar Quillengues, um anno antes. ¿O que faria elle, logo que conhêcesse a minha fraqueza?
D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco é homem de vinte e quatro annos, sympàthico e de maneiras agradaveis. Muitas vêzes me dizia Verissimo Gonçalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo nome era tão temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de devastação e morte. Entre as suas escravas conhêceu Verissimo algumas raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e Capôco pedia por ella grande resgate.
Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande nùmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas.
Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco ¿porque não havia feito d'ella sua amante? "Porque não dêvo," me respondeu elle, "é minha escrava pêlo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o intento de a resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada, porque a dêvo entregar como a tomei."
Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo antes de ir a Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me disse, ser o nosso paiz muito mais longe.
Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não enxadas, que v[~e]m do norte.
Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos artelhos de ambas as pernas ou só na esquêrda, umas manilhas de verga de pao, e é grande crime para a familia, conservar as manilhas áquellas que já não t[~e]m direito de as usar.
Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas as povoações uma especie de kiosques para conversação.
Figura 4.--Homem e Mulhér do Huambo.

Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de côlmo, sam bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio Africano, e em tôrno tomam assento os habitantes da povoação em toros de pao. É o sitio da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se episodios de guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de vidas alheias do que na Europa.
No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o grande luxo nos penteados, tanto em homens como em mulhéres, e tenho visto alguns que difficilmente seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa.
Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se conservam por muitos mezes.
Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com umas contas de vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou encarnado, e é este gènero muito procurado no paiz. Eu infelizmente não levava nenhum.
A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali gèneros de grande valia. Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que tornava mais embaraçosa a minha posição.
Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido por Gallangue, e que só viriam 50 cargas, não precisando eu por isso mais de 40 homens e esses só para irem d'ali ao Bihé.
Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora já estavam reunidos, e que se retiráram muito descontentes. Capôco prometeu-me que teria os 40 de que precisava até ao Bihé. N'esse dia chegou o prêto Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nôva carta dos meus companheiros, confirmando o que diziam as primeiras.
Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o Bihé; acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro, e pêlo degradado Domingos, que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e que a obtivéram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto.
A elles, talvez, devia eu a crìtica posição em que me achava, porque os meus companheiros, pouco conhêcedores d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz, não podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. Não os accuso de um crime, mas culpo-os de uma leviandade.
Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido com garras de ferro a doença, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a que elles déram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de Silva Porto, que eu occupava no Bihé; e esquècendo tudo o mal que me haviam feito; e não me lembrando de que um estava privado dos direitos
de cidadão por uma sentença infamante; reparti com elles o pouco de vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles, não só dois brancos, dois Portuguezes, perdidos no já longinquo sertão do Bihé, mas vi mais os homens que me fizéram ter de mim uma opinião de que me sentia orgulhoso, os homens que em 20 dias de agonia que me déram, em mil perigos a que me lançáram, com que me fizéram lutar e que eu venci, me retemperáram a alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiança que tinha em Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava pagar uma dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao soffrimento, só veriam, talvez, um motivo de vingança.
Não antecipemos factos.
Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria, mas só até ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais àlém; por estarem despeitados pêla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir a Caconda e ao Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém d'isso, elles exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por 10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam só do Huambo ao Sambo 8 pannos. Acertei tudo, para poder partir.
No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40 homens; mas de repente surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados pêlo Bandeira, o Ivens tinha tirado a tôdos os fardos sortidos o algodão branco; porque os prêtos que esperàvamos do Bandeira não queriam pagamento em outro gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu, levando dois fardos sortidos, não levava nem uma só peça de algodão branco. A gente do Capôco declarou-me logo, que não queriam receber senão algodão branco, e não pegariam nas cargas se eu lho não désse.
Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam, quando appareceu o Capôco, e não sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade em zuarte.
Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas os fiz seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma hora; mas fui atacado de tão violento accesso de febre, que tive de deitar-me.
Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre tudo a noite foi tempestuosa.
A febre comêçou a declinar ás 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Pêlas 5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato pròximo, os meus passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordão.
Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno Pépéca, que me acompanhasse e trouxesse uma das minhas carabinas.
Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bùfalo a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.
Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual não é o meu desespêro, vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de caça, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel, terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente.
Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera avançava aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8 passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro não havia mais distancia entre a bôca da espingarda e a cabêça do bùfalo do que alguns decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bùfalo seguio sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no mato. O meu Pépéca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do perigo, batia as palmas gritando, "O bôi fugio, o bôi fugio, têve mêdo de nós."
Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever, e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa de sardinhas de Nantes.
Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do Capôco, e febril ainda, segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era elle do guia Barros, dizendo-me, que na vèspera á noite, os carregadores tinham fugido tôdos, deixando as cargas na libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova Bilombo.
Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e elle disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene, tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente.
As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de gramìneas, por entre as quaes surge aqui e àlém um solitario dragoeiro. O solo é de formação animal, que tudo o terreno é coberto por um mundo infinito de termites, ou antes o cobre.
Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une as duas margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um affluente importante, o Cuçuce, que traz volume d'àgua igual ao seu. Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei junto á libata do secúlo Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio. Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a mim e disse-me, que havia questão com um carregador nosso.
Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a quem tinham tirado a espingarda, o que conseguíram facilmente, porque elle a largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronòmetros e outros instrumentos delicados.
Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um carneiro, que me tinham sido dados pêlo Capôco. Intimei-os a que me entregassem o roubo; mas apenas me respondéram com um murmurio ameaçador.
Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado por 200 que me ameaçavam furiosos.
Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revólver e ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prêto de Benguella, Manuel, um môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma transformação sùbita, e armando a carabina, de um salto entrou na libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os
outros seguíram, e eu, estudando os meus homens, esquèci-me de mim, e podia ter sido vìctima do furor da populaça que me cercava; mas a nossa audacia espantou-os, e recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta cobrindo-lhes a retirada.
A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi encontrada, mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o successo desta tinha autorizado.
Os meus prêtos, animados pêla indecisão dos gentios, só proferiam palavras de morte, e custou-me a contel-os para que não fizessem fogo sôbre os indìgenas.
Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfação plena.
Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava um pouco.
Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Põe, affluente do Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e molle dá difficil passagem.
Ás 3 horas chegava á libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova do Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prêto Barros. O Quimbungo recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores até ao Sambo, e sabendo do occorrido de manhã, pedio-me que não fizesse mal ao secúlo
Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena satisfação do insulto. Pêlas 6 horas, chegou ali o Capôco, trazendo alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados. Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria á minha disposição o chefe da povoação para eu o castigar.
Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o tio, me acompanhariam até ao Sambo.
Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.
No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas não ainda os sufficientes.
Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle secúlo, a quem perdoei a offensa da vèspera. O delinquente deu-me mil satisfações, e melhor do que as satisfações, dois magnìficos carneiros.
Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que é o terror do Nano, esse homem que eu consegui dominar completamente e que tantos serviços me prestou, despede-se de mim e volta á sua libata, recommendando-me instantemente ao tio.
De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel tempestade, e á chuva torrencial misturava-se o raio e o trovão da tormenta perpendicular. Recresceu-me a febre.
Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O secúlo Quimbungo, logo de manhã cêdo, me veio dizer estarem promptos os carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.
Recusei positivamente, porque, àlém da experiencia adquirida com o mao resultado dos pagamentos adiantados, foi consêlho do Capôco, nunca fazer taes pagamentos.
Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se. Quimbungo reune a gente da sua povoação, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecêram, mas sam mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capôco, deixam ainda 27 cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me ámanhã para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.
Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua, de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir as suas àguas ás do Cunene.
Uma ponte de troncos de àrvore, de construcção nôva, deu-me facil passagem e á comitiva, que na margem esquêrda do rio se recusou a ir mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para os fazer seguir até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa floresta de acacias.
O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular tratamento que eu lhe podia fazer.
Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.
Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas depois, passava o Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta parte d'Àfrica, de troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de gramìneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de àrvores, mui semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas, por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia branca e fina.
Descancei um pouco, depois de ter feito as observações precisas para determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcançando, pêlas 2 horas, a libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo.
Este sovêta é vassallo do sova do Sambo, é homem rico e tem muita gente nas povoações que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me hospedasse na libata, o que aceitei.
Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu chegado em má occasião, por ter muita gente fôra em guerra. Paguei e despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia
immediato.
Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico, que mora na margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovêta de quem era amigo. Este Cassoma, com quem não sympathizei, veio fazer-me mil protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bihé.
De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de àgua-ardente, e fiz lembrar-lhe que me não faltassem os carregadores na manhã seguinte. Ao contrario dos usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovêta nada me mandou para comer, e eu e os meus tivémos fome, porque ninguem nos vendeu farinha.
Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estômago vazio, me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o sovêta Dumbo, o tal Cassoma e um secúlo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do sovêta, e cinco das mulhéres d'este ùltimo.
Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma, interrompendo a conversa, disse ao sovêta, "Nós não viémos aqui para conversar, queremos àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê já."
O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse àgua-ardente a elles e ás mulhéres. Eu respondi-lhe que já lhe tinha dado três garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com fome, e por isso não lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O Cassoma meteu-se logo na questão, animando o sovêta contra mim, e entre nós comêçou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram dizendo-me, que pois eu lh'a não queria dar por bem, m'a iam tirar á fôrça.
Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé o barril, e armando o revólver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia.
Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao sovêta: "Tu es rei, vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia, entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o não furte," e caminhou ao barril.
Eu levantei o revólver á altura da cabêça do sovêta e fiz fogo; mas Verissimo Gonçalves, que estava junto a mim, empurrou-me o braço e a bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parêde.
Os três nêgros, transidos de mêdo, recuáram até á parêde, e as 5 mulhéres fizéram um berreiro horrivel.
Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a attenção, e devisei na sombra dois homens encostados ás carabinas, que riam como riem prêtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham aproximado, ao ouvirem a discussão, e que, acompanhados dos outros 8 homens, guardavam a porta.
O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus companheiros, que se fôssem deitar, e não me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra vez, elle não lhes poderia salvar a vida como ha pouco.
Elles tomáram o prudente consêlho, e retiráram-se, ficando tudo em silencio.
Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi elle que salvou tudo.
Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito.
Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse descançado, que elles velariam por mim.
Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.
Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá fora.
Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto com o règulo?
Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.
Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir, e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.
Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações
do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi depois.
Figura 5.--Mulhér do Sambo.

Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não eram só carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos artêlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para não me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse um homem da sua confiança recebel-a no Bihé, mostrando-lhe desejos de que esse homem fôsse o secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo entregava nas minhas mãos um preciôso refem, que me responderia já pêla minha segurança, já pêla das cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.
Deixei a povoação ás 11 horas, á frente da estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do sovêta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde passei tão horrivel noite.
Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.
Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe da povoação, porque, depois do que se passou na vèspera, recordei-me de um bom consêlho que me deu Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar em casa de gentio.
Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.

Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e batatas magnìficas, em nada inferiores ás da Europa.
A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito doente.
Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam a um ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este ùltimo rio recebe mais de Oeste.
Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã, hora em que parou. Ha grande abundancia de òptimo tabaco n'este paiz, onde me vendêram muito e baratissimo. Ali poucos prêtos fumam, mas tôdos cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pao, especie de mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma correa fina.
Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma região muito cultivada e muito povoada.
Ás 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10 parei para descançar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois fui acampar no mato pròximo da povoação do Gongo.
Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio.
Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me ficava uns 15 kilòmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado á porta do sova, elle me daria um bôi. Agradeci a bôa intenção, e resolvi dar-lhe no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria facil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso tôda eloquencia do Verissimo para os convencer a seguirem ávante.
O secúlo Capuço, chefe da povoação pròxima, mandou-me comprimentar por três das suas mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de uma gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e dei algumas missangas ás mulhéres. Junto á noite viéram algumas mulhéres vender farinha, milho e mandioca.
Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de oleo de ricino, que ellas prodigalizam na sua
toilette
. Os homens do sovêta Dumbo eram verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella, e durante a noite só houve tranquillidade na barraca onde dormiam as seis virgens nêgras, as minhas gentís carregadoras.
A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o secúlo Capuço, veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em logar das três mulhéres feias que me enviou na vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda gallinha.
O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da intenção de me dar um bôi, se eu passasse junto da libata d'elle.
Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhônha, primeiras da raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste.
Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois kilòmetros, quando os carregadores pousáram as cargas, recusando seguir ávante, e pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais aquelle curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria os seus pagamentos e os despediria.
Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fôra do seu paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas.
Fôram baldados os meus esfôrços e tudo foi eloquencia perdida. Recusei-me a pagar-lhes se elles não passassem o Cubango; responderão-me que se retiravam sem pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e ordenáram-lhes que os seguissem.
Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser aquillo plano combinado de antemão para me entregarem a elle, que me havia precedido no caminho.
As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.
Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina atravessada sôbre os joêlhos.
Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido. Saltar sôbre elle e derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se estendia sôbre as nossas cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, elle, transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vam passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fêz reunir os carregadores já dispersos.
Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecêram.
Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro na cabêça á menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esquêrda junto das povoações de Chindonga.
Figura 7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.

Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio extrae abundante minerio.
Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo e Sambo, de que guardarei eterna memoria.
O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de fundo. Fiz observações para determinar a posição e altitude, e logo corri á barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós copiosa chuva.
Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois côvados de riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.
Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as mulhéres tinham obrigação de trabalhar e não mereciam paga. Ellas retiráram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, tão aviltada é a mulhér n'aquelles paizes.
Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma, e algums fios de missangas differentes.
É impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraçadas ao receberem tão valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu convenci-os de que, se não tivessem querido voltar para casa na outra
margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.
Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa lição.
Figura 8.--O Secúlo que me deu um Porco.

N'essa noite veio procurar-me um secúlo da povoação de Chindonga, que me trouxe de presente um porco.
Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um côvado de riscado por dia, dizendo-me, que elles só iriam até ao paiz de Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bihé.
A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas completamente molhado havia três dias, eu sentia já os primeiros symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que depois ia compromettendo a minha viagem.
A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.
O secúlo veio logo de manhã com os carregadores; mas eu tinha resolvido descançar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte. Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vèspera, vindos do Sul.
O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado, mas livre. Eu na vèspera tinha mandado dizer ao sovêta Dumbo, que a cabêça do seu amigo me respondia pêlas cargas que vinham escoltadas pêlo prêto Barros, resolução que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz. Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posição de algum, acompanhado só de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil, desde o clima até ao homem. Se eu não professo o principio de que os fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso para apresentar uma face á mão que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do mundo civilisado, fôra d'esses dois cìrculos de ferro que apertam a humanidade culta, a que chamam o còdigo penal e as conveniencias sociaes, cìrculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e á infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de pôvos ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos; tendo por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por ùnico censor das suas obras a sua consciencia, precisa ter uma fôrça sublime para se conservar honrado e digno, quando muitas vêzes as paixões travam no seu ìntimo uma luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as ovações que me tem dispensado o mundo civilisado, pêla felicidade que tive de vencer os obstàculos materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo.
Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus hàbitos materiaes e moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador. Aquelle que o conseguiu, attingirá o seu fim, cumprirá a sua missão.
Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.
Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito têve de ceder á vontade inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um còdigo, tomei um que accommodei ao meu uso. Os meus principios fôram os do direito natural; a minha lei, curta mas òptima, resumiu-se nos dez preceitos do Decàlogo.
Não se julgue que quero fazer jus á canonização, nem mesmo que pretendo ter seguido á risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo do livro sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem.
Esta divagação fica aqui, não como narrativa de àguas passadas, mas como consêlho a exploradores futuros, que não sejam missionarios, que a esses Deos me defenda de falar em materia da sua competencia.
É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que me fizéram lembrar o velho rifão, "Em casa de ferreiro, espeto de pao."
Passemos adiante.
Durante o dia, viéram muitas prêtas vender alimentos, e entre outras cousas vulgares, trouxéram uma mui extraordinaria.
Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás do
Acherontia Atropos
, e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero no seu primeiro estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher grande provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar, que os meus prêtos recusáram.
Figura 9.--Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.

No dia seguinte logo de manhã, viéram offerecer-se muitos mais carregadores, que recusei, por me serem inuteis.
Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do rio Cutato das Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre uma pequena cataracta.
No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do Cutato.
O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é uma serie de ràpidos, em que o rio se precipita com fragor enorme, pôr sôbre as rochas de granito que formam o seu leito.
Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.

No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.
Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.

A margem direita é occupada pêlas plantações da povoação de Moma, que occupam um espaço que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as maiores que tenho visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos consiste principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se vê sam campos de milho. Antes de chegar ás plantações, atravessei uma floresta de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do Cutato é muito original. Onde termina o granito do leito do rio comêça um solo de formação termìtica, e o terreno coberto de milhares de montìculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetação silvestre, tôdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista, admirada ao contemplar um tão estranho systema orogràphico artificial. Marquei a grande povoação de Moma, três kilòmetros a O.S.O., e depois de ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante chuva, e atacado de nôvo accesso de febre.
Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno, as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão impossivel, vedar a àgua em uma barraca.
A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações.
Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar. Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados.
O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o nome de
Mupas
.
É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes cultivadores.
Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore grande.
Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas, as saudades e as perpètuas.
De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio. A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo, passei junto da grande povoação de Cassequera.
Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação, deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento.
Figura 12.--Sepultura de Secúlo.

O meu muleque Pépéca foi atacado de tão violento e repentino accesso de febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na povoação de Cassequera, para o levar ás costas. Ao meio dia, passei junto da libata do Capitão do Quingue, primeira povoação do paiz de Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino, mestiço de Benguella, filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, môrto por um bùfalo nos sertões do Zambeze.
João Albino mora na libata de Camenha, filho do Capitão do Quingue.
Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fôrças do sova de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovêtas do Cubango.
O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo continuava a ameaçar-me.
A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.
Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de presente uma peça de lenços. Elle deu-me um bôi, que mandei logo matar, porque há muito que tìnhamos só carne de porco para comer. O capitão era muito velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha viagem, e não comprehendeu o que eu andava fazendo.
Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu és secúlo de Moeneputo, e elle mandou-te ver estas terras e estudar os caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que não sam bôas, e o Moeneputo hade querer pôr termo a isso; peço-te, que quando isso aconteça, te lembres de que eu te dei um bôi, e te tratei como meu irmão; eu pouco viverei, mas então lembra-te de meus filhos, e não lhes
faças mal." Comovéram-me estas palavras do ancião. Os seus secúlos viéram acompanhar-me respeitosamente até á libata do filho onde estava hospedado, e poucos deixáram, no correr do dia, de me trazer pequenos presentes, já gallinhas, já ôvos e já canna de assucar. Na libata do capitão vi uma pequena plantação de cana de assucar, tão viçosa como não vi no litoral, e em que esta enorme gramìnea tinha um desenvolvimento descommunal.
Notei esta circunstancia, por ter julgado até então, que a uma tão grande altitude, cerca de 1700 metros, não vegetaria tal planta.
De volta á libata, encontrei ali Francisco Gonçalves (
o Carique
), irmão do Verissimo, que, sabendo da minha chegada, vinha visitar-me.
Este
Carique
, filho do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, é comtudo filho de outra mãe, e a elle pertence por herança materna o throno de Caquingue.
Vive junto do sova, seu tio, e é casado com uma filha do futuro sova do Bihé.
Foi educado em Benguella, e possue alguma instrucção e bastante intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prêtos que fôram escravos de seu pai, e que logo se offerecéram para me acompanharem na viagem do Bihé para Leste.
Assim, pois, já antes de chegar ao Bihé, arranjei alguns carregadores.
Carique, Albino, o filho do Capitão, e outros que fazem commercio sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e Sulatebelle, descendo o Cubango até ao Ngami, sempre pêla margem direita, e vam tambem negociar ao Cuanhama, paiz a leste do Humbe, na margem esquêrda do Cunene.
O artigo principal do tràfico é o escravo, que em caminho trôcam por bôis, e estes e fazendas, por cêra e marfim.
Resolvi demorar-me ali um dia, não só para descançar e enxugar, mas tambem para me informar sôbre este paiz, cujos usos já differem muito dos dos povos que tinha encontrado até ali. De tarde, o Carique e João Albino déram-me largas informações sôbre o paiz, das quaes transcrevo do meu diario as mais curiosas.
O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bihé, a oeste com o paiz de Moma, a leste e ao sul com pôvos confederados de raça Ganguela. A raça Ganguela occupa n'esta parte d'Àfrica um vasto territorio, e está dividida em 4 grandes grupos, os quaes soffrem ainda subdivisões. A lìngua e usos sam os mesmos; mas a sua organização polìtica differente. No paiz de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam constituidos em reino, tendo um ùnico chefe.
Nas suas outras divisões formam confederações, muito vulgares em Àfrica, sendo cada povoação governada por um chefe independente. Os que demoram a S.E. de Caquingue chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles que vivem a leste do Bihé, Bundas. D'estes ùltimos terei de falar detidamente no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de Caquingue, sam cultivadores e negociantes, e sam, de tôdos os pôvos da Àfrica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos, em commettimentos de exploração commercial.
No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre elles e outros pôvos activas relações de commercio.
Não tem a menor idéia de uma religião qualquer, e vivem com os seus feitiços, não pensando na existencia de um Ente Supremo que tudo dirija.
Figura 13.--Ferreiros Caquingues.

Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de ferro, que sam abundantes no paiz.
Para extracção do minerio cavam poços circulares de três a quatro metros de diàmetro, que não profundam mais de dois metros; de certo por lhe escacearem os meios de elevarem com facilidade o minerio a maior altura.
1. Folles. 2. Bocal de Barro. 3. Bigorna. 4. Martello.

Figura. 14.
Visitei muitos d'esses poços junto ao Cubango. Extraido que é o minerio que elles julgam sufficiente para o trabalho d'aquelle anno, comêça a separação do ferro, que elles fazem em côvas pouco profundas, misturando o minerio com carvão vegetal, e elevando a temperatura por meio dos seus instrumentos de insuflação, que consistem em dois cylindros de pao, cavados de 10 centìmetros, com 30 de diàmetro, e recobertos por duas pêlles de cabra curtidas, ás quaes estam ligados dois paos, de 50 centìmetros de comprido por 1 de diàmetro. É por meio d'estes paos que um ràpido movimento dado ás pêlles produz a corrente de ar, que é dirigida sôbre o carvão por dois tubos de pao ligados aos cylindros, e terminados por um bocal de barro.
Depois comêça um incessante trabalhar, noite e dia, até que tudo o metal é transformado em enxadas, machados, machadinhas de guerra, ferros de frecha, azagaias, pregos, facas e balas para as armas, e até mesmo fuzis para ellas, de ferro temperado com unha de bôi e sal. Vi muitos d'esses fuzis darem fogo tambem como os do melhor aço fundido.
Durante tudo o tempo que duram os trabalhos é expressamente prohibido a qualquer mulhér aproximar-se do campo dos ferreiros, porque dizem elles que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi estabelecido para que os homens se não distraiam do trabalho, em que empregam, como já disse, noite e dia.

Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e o Bihé. 1. Machado de Trabalho. 2. Ferro de Frecha para a Guerra. 3. Frechas. 4. Ferro de Frecha para Caçar. 5. Pé das Frechas. 6. Machado de Guerra. 7. Enxada. 8. Azagaias.
Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida depois de terem reservado o necessario para seu uso.
Tôdos estes pôvos não admittem causas naturaes de doença ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguem, ou fôram as almas do outro mundo (uma certa é designada) que produzio o mal, ou então foi algum vivo que fêz feitiço ao doente ou ao môrto. Logo que morre alguem, se os parentes não estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e no entanto penduram o cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da porta da povoação, e esperam que elles venham para fazer o enterro.
Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se immediatamente á devinhação para saber a causa da morte.
Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens nas extremidades, levam o côrpo ao logar destinado ás adevinhações, onde o espera o adevinho e o pôvo formado em duas alas.
O adevinho tomando na mão direita um coral branco, comêça a adevinhação.
Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o môrto, que o pôvo acredita que mexeu sem intervenção estranha, o adevinho declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou então que foi feitiço dado por alguem que elle designa.
No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma côva no mato, em qualquer logar indistinctamente, e lançando n'ella o cadaver que cobrem de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a pessôa designada pêlo adevinho como feiticeiro é agarrada, e, ou paga ao mais pròximo parente a vida do môrto, ou lhe cortam ali a cabêça, indo dar parte do occorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle escutar o caso.
Comtudo pôde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a sua culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa.
Para isso, vai elle buscar um cirurgião que vem, na presença do pôvo proceder ás provas da innocencia ou culpabilidade do accusado.
O cirurgião chega á presença dos parentes e do pôvo, e compõe uma bebida venenosa de que tomam quantidades iguaes o accusado e o mais pròximo parente do môrto.
A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e é n'aquelle dos dois em que ella se manifesta com mais intensidade que recae a culpa da morte.[
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]
Se é no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se é no parente, tem este de indemnizar o accusado pêla accusação feita, dando-lhe logo um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois tem de lhe dar o que o accusado exigir, sejam dois bôis, dois escravos, um fardo de fazenda, etc. etc.
Antes de continuar, dêvo fazer sentir uma grande differença que existe de três entidades importantes, nos pôvos da Àfrica Austral, e que muitas vêzes sam confundidas.
Sam ellas o cirurgião, o adevinho e o feiticeiro. Effectivamente, estas três entidades que parecem á primeira vista ter pontos de contacto, nenhum t[~e]m na realidade.
O cirurgião fica definido pêla palavra. É um curandeiro, tem conhecimento de um certo nùmero de plantas e raizes, que empega sempre empìricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a sciencia de curar está muito em atrazo n'aquelles paizes. O cirurgião, que nunca faz diagnòstico da molestia, faz sempre o prognòstico. A dosagem das plantas medicamentosas é sempre empìrica, e nas suas polypharmacias entram os mais absurdos e inuteis componentes. É verdade que entre nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O cirurgião, que é ao mesmo tempo pharmacèutico, emprega durante a preparação das suas drogas, um certo nùmero de ceremonias e de palavras sem as quaes ellas perderiam a virtude. Fazem grande segrêdo das plantas que empregam, e dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam interrogados. O cirurgião é pessôa muito importante, e muitos actos solemnes requerem a sua presença. Elle decide altas questões, porque a sua opinião prevalece á do adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgião nunca a emitte sem fazer antes um certo nùmero de remedios e ceremonias, já com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionaes, a que chamam,
fazer os curativos
.
O adevinho só adevinha, e mais nada. No caso de doença, o adevinho é sempre chamado para adevinhar se sam almas do outro mundo ou feitiços, e só depois d'elle, vem o cirurgião.
Estes dois sujeitos entendem-se sempre.
O adevinho não é só consultado em caso de doença ou morte, é ouvido em tudo e por tudo, e nada se faz sem que elle adevinhe primeiro.
Para a consulta, coloca-se elle no centro de um cìrculo formado pêlo pôvo, que dêve estar sentado. Arma-se de uma cabaça e um cesto. A cabaça contem missanga grossa e milho sêco, o cesto é cheio das cousas mais disparatadas, ossos humanos, legumes sêcos, pedras, paos, caroços de frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.
Comêça por sacudir frenèticamente a cabaça, e durante a chocalhada que faz invoca os
espìritos malignos
, ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objectos que vam apparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas não tão seguido como aqui.
Falei em
espìritos malignos
, e é preciso dizer, que ali os
espìritos
malignos
emparelham em malignidade com as almas do outro mundo (
Cassumbi
) e com os feiticeiros. Ás vezes entram no côrpo de alguem, e custa muito fazel-os sahir. Outras vêzes, fazem tropelias maiores, tomando conta de uma povoação, onde durante a noite não deixam socegar ninguem, sendo preciso que o cirurgião faça grandes
curativos
para os expulsar.
Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.
Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia.
Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o pôvo da libata, e muito da povoação do capitão, para assistirem á adevinhação.
A ceremonia fêz-se com grande apparato, e elle comêçou a ler nas trapalhadas do cesto as cousas mais lisongeiras a meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade, e felizes seriam aquelles que fossem comigo.
Este vaticinio produzio o melhor effeito, e têve grande influencia no resultado da minha partida do Bihé.
Já falei do cirurgião e do adevinho, e vou dizer o que é feiticeiro. Esta palavra tem uma significação que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa, não é comtudo a mesma cousa.
Ali qualquer é, ou pôde ser feiticeiro, e feiticeiro é mais o envenenador do que homem que governa nos espìritos.
Effectivamente, o
feitiço
ali é veneno, e dar
feitiço
a alguem, é dar veneno, que determine, ou doença, ou morte, ou loucura.
Esta é a rigorosa accepção da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pôde causar grandes prejuizos, e como tudo se atribue a
feitiço
, a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da sua malevolencia.
Não se julgue porem que se pôde designar o feiticeiro; não pôde. O feiticeiro apparece como causa do effeito, e como essa causa é logo destruida, o feiticeiro é como um meteoro que se desvanece logo depois de apparecer. Esta pràtica dá logar a terriveis vinganças, como bem se pôde suppor.
Àlém d'estas três entidades, duas das quaes sam definidas e uma indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa importancia entre estes pôvos bàrbaros.
É elle o homem que dá e tira a chuva. Ha um certo nùmero de indivìduos que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um espìrito observador, attentáram em que com taes ventos em certa èpocha do anno chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes, que sam tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados por homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos animaes, sôbre tudo das aves, elles que podem com certa probabilidade fazer um prognòstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar ou tirar.
Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras vêzes se enganam.
Estas pràticas que nos causam estranheza, eram ha dois sèculos vulgares na Europa, e ainda hôje existem entre nós no baixo pôvo dos campos.
Não é preciso ir á idade media para se encontrarem os Reis consultando os seus astròlogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso,
com
tôdas as licenças necessarias
, em 1712, que o seu autor
Gaspar Cardozo
de Sequeira
, mathemàtico da villa de Murça, intitulou Thesouro de Prudentes, livro acrescentado pêlo engenheiro Gonçalo Gomes Caldeira, que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos d'essas eras, porque o pôvo de então não sabia ler. Desculpemos pois os ignaros prêtos d'Àfrica Austral.
Uma lei engraçada d'aquelle paiz, é a respeito das mulhéres que morrem de parto.
Logo que uma mulhér morre de parto, o marido tem obrigação de a enterrar elle só, levando o cadaver ás costas até á sepultura, e fazendo sózinho o trabalho da inhumação. Em seguida, tem de pagar a vida d'ella aos parentes, e se não tem com que, constitue-se escravo d'elles.
As sepulturas dos proletarios não t[~e]m signal algum que as indique, e sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.
Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos costumes que sam communs a estes paizes, e que tive depois occasião de estudar detidamente, sôbre tudo aquelles que se referem aos sovas e aos grandes.
Um costume que é privativo de Caquingue é o que elles chamam
tratar as
mulhéres
. Logo que uma mulhér está gràvida, um sujeito pede ao marido em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo é obrigado a
tratal-a
, isto é, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de
toilette
.
Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a criança, o noivo redobra de presentes á mãe, e tem o dever de vestir a filha até á pubredade, isto é, á èpocha do casamento. Se acontece nascer um varão, a obrigação de vestir mãe e filho subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do que o
tratou
.
Mais adiante direi o que é um Quissongo.
Este costume não é tão extraordinario como parece á primeira vista, e se em Àfrica só o encontrei no paiz de Caquingue, cá na Europa é elle vulgar, não na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos salões chama-se a isso, creio eu,
casamentos de conveniencia
.
Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa em que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dôres rheumàticas eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu Pépéca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receiando porem do meu rheumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ella, que me fóram obsequiosamente cedidos por Francisco Gonçalves (
o Carique
). Depois de cordiaes despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavallo (Bonito) embaraçou-se em umas sarças, perdeu o ànimo, e foi ao fundo; custou muito salval-o, e só pude seguir ao meio dia. Á 1^{h.} e 15^{m.} passei o riacho Govêra, de 3 metros de largo por 50 centìmetros de fundo, e á 1 e 45 acampava a S.S.O. da povoação de Chindúa. Passei no caminho junto de duas grandes povoações, a de Cacurura, e a de Cachota. Já estava em terras que prestam obediencia ao sova do Bihé. O paiz continúa ali a ser muito povoado e cultivado.
Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha febre tinha desapparecido completamente, mas as dôres rheumàticas recresciam n'uma progressão assustadora, e já ameaçavam estender-se a tudo o côrpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sôbre o Cuchi mandou-me avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem só a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e é lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali pôde passar sem terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu.
Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia hora depois.
O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao Cubango.
Da ponte avista-se, 2 kilòmetros ao N., a grande cataracta do Cuchi, de sorprendente belleza, cujo ruido chêga até nós.
Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liapêra, que côrre ao Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que côrre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, pêlo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoação de Ungundo.
Estes dois pequenos riachos, o Liapêra e o Caruci, marcam a separação das àguas para o Cubango e Cuanza.
O secúlo Chaquimbaia, chefe da povoação de Ungundo, veio comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas; retribui o presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte. Durante o dia, não só em caminho encontrei muitos ranchos de gente armada que vam reunir-se ás forças do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei, passáram innùmeros prêtos armados que levavam o mesmo destino.
Das 7 ás 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E. uma trovada longinqua; mas, ás 9 horas, formáram-se trovoadas em muitos pontos do horizonte, e pareciam tôdas convergir sobre o meu campo, que era situado em um alto. Ás 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque immenso sôbre o campo, e a mais horrivel tormenta que até então tinha presenceado se desencadeou sôbre mim. Os raios succediam-se com intervallos de três a cinco segundos, e o estalar sêco dos trovões era incessante.
Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gôtas de chuva cahiam aqui e àlém.
O baròmetro apenas desceu dois milimetros, e o thermòmetro conservava uma temperatura de 16 graos Cent. As agulhas magnèticas desnorteavam, e conservavam um oscillar constante.
Uma bùssola circular Duchemim, chegou a voltear ràpidamente.
Durou este estado de cousas até ás 11 horas, hora a que soffreu modificação mais terrivel ainda. Um vento fortissimo, um verdadeiro tufão, começou a soprar de leste, e n'um momento correu os quadrantes
pêlo norte até S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa chuva começou a cahir então. O vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo, e nós ficámos expostos á chuva torrencial que cahio até ás 4 horas, em que a tempestade começou a abrandar.
Quem o não presenceou não avalia o que seja uma tempestade, de noite, no meio das florestas d'Àfrica Austral, quando ao rebombar dos trovões se une o grito multìsono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terriveis.
A chuva apagou os fôgos do campo, o vento soprou longe os frageis abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as trevas, depois do seu ràpido fulgor.
Muitas vêzes, ao estalido do raio succede outro estalar medonho. Foi a àrvore, que levou sèculos a crescer, e que n'um momento, ferida por elle, voou em rachas e baqueou no solo.
¡O espectàculo é horrivel, mas grandioso e sublime!
Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos, só restavam para o lembrar, innùmeras àrvores derrubadas e um terreno encharcadissimo.
¡A mim restava mais alguma cousa!
O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e estendendo-se a tôdas as articulações, tolhia-me os movimentos. Soffria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforços enormes para calar na garganta os gritos arrancados pêlo soffrimento que infligia o movimento da maca.
Uma hora depois, envolvi-me em um pàntano extenso, onde a àgua dava pêla cintura aos homens que me carregavam.
O terreno, encharcado pêla chuva da noite, estava transformado em pàntano enorme. Alcançámos um outeiro, quando, ás 2 horas, nôva tempestade, vinda de leste, cahio sobre nós. Da maca, onde gemia dôres atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com intenção de alcançar as povoações de Bilanga, onde queria pernoitar.
Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o Verissimo, estar eu n'aquellas povoações, na libata do Vicente; mas não tenho a menor idéia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me disséram os prêtos ter sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a febre e o delirio.
A cabêça estava livre, mas o ataque e as dôres recrescéram, se era possivel isso.
Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges das mãos.
Verissimo e os meus prêtos dispensavam-me os maiores cuidados.
Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava passagem no vao; mas, sabendo que existia uma pequena canôa a jusante da cataracta, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de calafetar com musgo a canôa já muito velha, e que apenas podia soportar o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia caudalosissimo. Resaltando por sôbre as rochas da cataracta, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas àguas em um só canal, largo de 100 metros.
Era ali que ìamos passar. Eu fui collocado dentro da canôa com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito doloroso.
Um habil barqueiro tomou o remo e a canôa deixou a margem. Tìnhamos de atravessar 100 metros de àgua, mas de àgua animada de violenta corrente, e encrespada por ondas furiosas produzidas pêlos baldões da cataracta. O barqueiro dirigio a canôa para a ilha, e até chegar á juncção das àguas tudo foi bem; mas ali o fragil barco preso nos enormes rodomoinhos não quiz seguir ávante, apesar da pericia do habil nêgro. Eu via a àgua, em ondas espumantes ainda do salto de ha pouco, referver em volta de mim, e comecei a comprehender o grande perigo em que estava.
Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de dôr! Julguei-me perdido, porque, se a canôa afundasse, eu não poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das àguas, não seguia ávante, e de repente começou a rodopiar ella mesma. O prêto receiou que nos afundasse-mos, e decidio saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.
Alliviada d'aquelle peso, a canôa fluctuou melhor, mas não deixou o sitio em que estava presa pêlas fôrças desencontradas da àgua.
De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de verdadeira imbecilidade, e não sei o que se passou; só me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o vigor, só com um braço, sustentando fôra d'àgua com o outro um dos chronòmetros que trazia comigo, para que não lhe chegasse a àgua.
Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava ràpido os remoinhos das caudalosas àguas, o que me era facil a mim, que desde criança aprendi a lutar com os ràpidos do meu patrio Douro.
Os prêtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica, prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.
Tinham desapparecido as dôres, a febre cessou de repente, e eu sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a canôa, do meio de 100 homens que assistiam á scena, e que ficáram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente á àgua para me salvar.
Menos perito nadador do que eu, não alcançou a margem senão depois de mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua dedicação ficou gravada no meu coração para sempre. Era o meu prêto Garanganja, que enlouqueceu depois, não tendo uma alma assás forte para sopportar as miserias que experimentámos.
Quando me firmei em terra andei, sem dôres, sem febre. Despi-me immediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia. Voltáram as dôres e a febre, e só sei que no outro dia, estava estendido em um leito na libata da Annunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme Gonçalves, pai do Verissimo.
Cheio de dôres e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e ir encontrar os meus companheiros.
Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas àrvores feridas do raio. Vi tambem uma planta que ali abunda, e que é, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ella mui semelhante.
Os meus ôlhos, pouco afeitos ás subtilezas das observações que demanda o estudo do reino vegetal, não sam bastante penetrantes para differençar especies, gèneros e familias, quando ellas não se differençam por si mesmo.
Chêguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pêla uma hora, e fazendo um supremo esfôrço, fui a casa dos meus companheiros.
Elles, confirmando o que me tinham escrito, disséram-me que iam continuar sós, e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O Ivens offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario estado de saude, se eu quizesse voltar á Europa.
Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão generosa offerta.