CAPÌTULO VI.
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PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.
No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os meus trabalhos--Nôvas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao Cuanza--Escravatura.
Depois de 20 dias de cruél agonia e grandes soffrimentos, estava emfim no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio de fé e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata pròxima do Magalhães, onde cahi sem fôrças sôbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma meningite declaráram-se, ao passo que redrobravam as dôres rheumàticas.
No dia seguinte, fóram ver-me o Capello e Ivens, que me leváram medicamentos. Peiorei, e veio o delirio.
Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnìfico leito, despido e entre lençoes de fina bertanha. O leito era coberto de elegante cortinado de reps côr-de-rosa e franjado de branco.
Disséram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me mandara aquella cama; que as havia assim no Bihé, em Belmonte, em casa de Silva Porto.
Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me tiráram os prêtos, deixara-me em um estado de fraqueza indescriptivel. As dôres tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, viéram os prêtos de Nôvo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães, Verissimo e Joaquim Guilherme José Gonçalves, irmão mais velho do Verissimo. Vinham elles dizer-me, que não queriam seguir com os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.
Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a acompanhal-os. Sube então, que Capello e Ivens estavam construindo um abarracamento a 5 kilòmetros d'ali, e já lá tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de Belmonte.
Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga conversa.
Dei-lhe tôdas as cartas de recomendação que Silva Porto me havia dado em Benguella para obter carregadores, e comprometi-me a não pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a elles. Ivens disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar tôdas as cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o prêto Barros, que já tinham chegado. O prêto Barros declarou-me, que não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem como a alguns prêtos de Benguella, que manifestáram igual intenção. Escrevi poucas linhas a Pereira de Mello, que o meu estado de saude não me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta cousa, eu ia embrulhar-me nos lençoes e procurar no sono um pouco de descanço, surgio diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de physionomia enèrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia olvidado, era o secúlo Palanca, o conselheiro ìntimo do sova Dumbo do Sambo.
"Já despachaste tôda a tua gente, me disse elle, uns despediste-os, outros ficaste com elles, ¿o que determinas de mim, e qual é a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levarás ao Dumbo a
espingarda que lhe prometti, e alguma pòlvora, e para ti terei alguma cousa tambem. Dêvo-te uma indemnização por aquella corda que tiveste ao pescôço pròximo do Cubango, e pêlos sulcos que te fizéram nos pulsos as cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas órdens n'esse sentido.
Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou logo o Bihé.
Dois homens seguíram-se no meu quarto á sahida do secúlo do Sambo. Estava escrito que eu não descançasse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois prêtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de confiança de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.
Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação, muitas vêzes repetidos, consegui ficar só. Só, não! Junto de mim estava a ùnica, a grande dedicação que tive na minha viagem a travez d'Àfrica. Córa, a minha cabrinha, em pé, com as patas pousadas sôbre o leito, berrando e lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu não lhe fazia ha muito.
No dia seguinte, os meus companheiros avisáram-me de que deixavam a casa de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e três carabinas Snider, que elles me haviam deixado.
A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte, está situada sôbre a parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente até ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima.
A posição da libata é muito bonita, e forte como ponto estratègico.
Figura 16.--Casa de Belmonte (Bihé).

Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e flôr, o que não acontece a outras algumas no Bihé. O laranjal é cercado de uma sebe de roseiras, que attingem uma altura de tres metros, e estam sempre floridas.
Figura 17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé.

Sycòmoros enormes assombram as ruas e rodeam a povoação, defendida por uma forte palissada de madeira.
Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha posição, e elaborando projectos mais ou menos sensatos!
Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dôres, que, queimado da febre, concebí, e organizei na minha mente o plano que havia realizar depois.
Se de alguma cousa me orgulheço na minha viagem, é d'esse tempo.
Mais tarde joguei muitas vêzes a vida, fui de certo mais de uma vez temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.
Ali não! Estava doente, quasi anèmico, e sem recursos. Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa. Mil difficuldades, que provinham da minha separação dos meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quasi impossivel de transpor, para emprehender uma exploração qualquer. O desànimo reinava na minha pouca gente.
* Sycomoros. * Forte palissada de pao. * Palissada da horta coberta de roseiras sempre floridas. * Romeiras. * Larangeiras. * Hortas. * Cemiterio. * Casas dos prêtos. 1. Entrada da povoação. 2. Entrada da casa de Silva Porto 3. Casa. 4. Pateo interior. 5. Cusinha e dispensa. 6. Casas de criados. 7. Armazem.

Figura. 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé.
Entrèvado e sem fôrças, não pensar um só momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante mim como um abysmo attrahente; desfazer uma a uma as difficuldades que surgiriam; reconstruir muitas vêzes o trabalho feito, que se esvaïa como cahe um castello de cartas; criar recursos onde os não havia; conseguir organizar uma expedição sôbre as ruinas de outras que se haviam desmembrado; é, aos meus ôlhos, a parte mais difficil da minha viagem, e de que mais me orgulheço, se é que me orgulheço de alguma cousa.
Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente. Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte d'Àfrica. Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e Senna.
Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tôlo.
Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confecção do material necessario aos meus planos.
No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.
A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.
Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte.
O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessario para a viagem.
Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro.
Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um favor.
Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao soffrimento.
No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para receber mais alguma fazenda e partir.
A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um livrinho de Flamarion,
As Maravilhas Celestes
.
Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de
x
e
y
.
Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si. Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno.
Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas.
Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão, permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé.
Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguem.
O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado.
Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a população está muito pouco accumulada.
Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.
O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza.
A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora.
Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno.
Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral.
Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a Loanda.
Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu uma povoação e um pequeno dominio para viver.
Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado.
Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli.
Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai.
Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai.
Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser acclamado, já dentro da capital.
De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé.
Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que sam muitos.
Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.
Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:--

Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta.
Figura 19.--Mulhér do Bihé cavando.

Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o trabalho é feito pêlas mulhéres, que só ellas cultivam a terra.
Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro règulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos remotos sertões onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposições, alguns homens ousados, taes como Silva Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos, começáram a dirigir os Bihenos nas suas excursões, e fizéram n'isso um grande serviço ao mundo; porque, abrindo nôvos mercados ao commercio, abríram nôvos horizontes á civilisação. Não foi só o seu tràfico que veio augmentar o movimento commercial da praça de Benguella, mas, ainda animado por elles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais remotos paizes, desceu a vir permutar directamente os seus gèneros nas casas commerciaes de Benguella.
Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.

Nas viagens sertanejas, aos brancos seguíram-se os prêtos, e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo crèdito na praça de Benguella, fôram ao Bihé organizar expedições, d'onde partem a procurar a cêra e o marfim nos sertões mais distantes.
Muitos prêtos conhêço eu que negoceiam com um crèdito de 4 e 5 contos de réis, e alguns com mais, como o prêto Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que, durante a minha permanencia no Bihé, chegou do sertão, onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de réis!
Não é difficil no Bihé encontrar um branco Portuguez, escapado dos presidios da costa, secretario de um prêto commerciante rico.
Para o Biheno, em questões de viagens de tràfico, nada é impossivel, e tudo lhe parece natural. Se elles soubessem dizer onde t[~e]m estado e descrever o que t[~e]m visto, os geògraphos da Europa não teriam em branco grande parte da carta de Àfrica Austral.
O Biheno deixa com o maior desapêgo o lar, e carregado com trinta kilogrammas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora 2, 3, e 4 annos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a naturalidade de quem volta de uma viagem de três dias.
Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava prêtos seus em outras direcções, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no Luapula.
A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.
É mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares.
Àlém d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande vantagem sôbre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de escravos, não promovem elles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter por fôrça. Isto quando em viagem de tràfico sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem o que podem, e sam dotados de inaudita crueldade.
Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hàbito de viajar, possuem grandes defeitos, e não conhêço em Àfrica pôvo mais profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente hypòcrita.
Tem esta gente uma certa emulação entre si como viajantes, e muitos conhêço eu que se ufanam de ter ido onde outros não fôram, a que elles chamam
descobrir terras nôvas
. Elles sam educados na vida de caminheiros, e tôdas as comitivas levam innùmeras crianças, que, com cargas proporcionaes ás suas forças, acompanham os pais ou parentes nas mais longìnquas correrias; e é por isso que não causa estranheza encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no Matianvo, no Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se elle viajou desde os 9 annos.
Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja, offerecem-se dois meios de obter carregadores. Um é por meio de presentes ao sova e aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro é annunciar a viagem, e esperar que elles se venham offerecer.
O primero é mao, porque, àlém do grande dispendio feito com os presentes que é preciso dar ás pessôas a quem se pedem os carregadores, estes sam obrigados a ir, e o que os pedio é responsavel pela vida d'elles para com as familias ou senhores. Àlém d'isso, as pessôas a quem se pedem, com o intùito de extorquir mais presentes, vam demorando quanto podem a partida, e quando se está na sua dependencia as exigencias crescem.
O segundo meio é bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam prêtos livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do paiz, como foi elle que se offereceu, não tem o que o aceitou a menor responsabilidade do facto.
É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se
Quissongo
, e no Bihé e Bailundo
Pombeiro
.
Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhéram um para Pombeiro, e n'estes sam tôdos livres. Outros sam formados por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem t[~e]m confiança. Outros ainda, sam grupos de escravos dos Pombeiros que os commandam.
A obrigação do Pombeiro é vigiar pêla sua gente, e responder por ella ante o chefe da comitiva. Come e dorme com elles, é emfim o cabo de esquadra da caravana.
O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença ou morte de algum dos seus, substitue-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o seu logar é no couce da comitiva, e logo que um seu carregador se atraza, elle fica para o acompanhar.
O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas viagens de tràfico regulares é diminutissimo.
Assim, um carregador, para ir do Bihé á Garanganja (Luapula), recebe 12 pannos ou valor de 2400 réis, e na volta uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 réis, ao tudo 6400 reis, comida á parte, porque o chefe da comitiva tem obrigação de sustentar tôda a sua gente durante a viagem, excepto nos primeiros três dias de sahida do Bihé, para os quaes cada um leva de comer.
Esta regra tem ainda uma excepção. Muitos sertanejos, ao sahirem do Bihé, destinam um certo nùmero de pombeiros para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para differentes pontos.
A estes Pombeiros dam um certo nùmero de fazendas, pêlas quaes elles lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos Pombeiros que vam traficar livremente, chamam-se
banzos
, e d'ellas comem o Pombeiro e carregadores desde o comêço da jornada. Afora este caso, em tôdos os mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores.
Os Pombeiros não sahem nunca por tempo determinado, e tanto ganham demorando-se pouco como muito. É sabido que os nêgros em Àfrica não dam valor ao tempo.
Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a essa gente.
Não t[~e]m a menor idéa de uma religião qualquer, não adoram nem sol, nem lua, nem ìdolo, e vivem com os seus feitiços e advinhações.
Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no desassocego d'ella em quanto não cumprem certos preceitos ou vinganças em favor do morto.
A forma do governo é monàrchica absoluta, e tem muito do feudalismo.
Cada um é, muitas vêzes, juiz em causa propria, e quando eu falar dos
mucanos
direi como ali se faz justiça.
Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam aos sovas, e sôbre tudo á sua morte e á acclamação do nôvo règulo. Antes porem de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar da sua côrte.
O sova é rodeado de um certo nùmero de sujeitos, a que chamam
Macotas
, que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós, mas que assim não é. Os Macotas formam apenas uma especie de consêlho a que o sova submette sempre as suas deliberações, mas de cuja opinião poucas vêzes faz caso. Sam secúlos e favoritos do sova, e nada mais. Secúlo é o fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido pêlo sova.
Muitos secúlos que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o tratamento de sovas, e os seus pôvos, quando lhe dirigem a palavra, dizem
Ná
côco
, o que quer dizer Vossa Magestade.
Àlém dos Macotas, ha três prêtos que rodeiam o sova, e que, quando elle dá audiencia, se sentam no chão junto d'elle, e apanham da terra os escarros do regùlo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a cadeira, e o Bôbo, figura indispensavel em tôdas as côrtes de sova, e mesmo dos secúlos ricos e poderosos. O bôbo tem obrigação de limpar a porta da casa do sova e a rua em tôrno d'ella.
As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi sempre coberta de sycòmoros enormes, e dentro d'ellas uma segunda palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto chama-se o
lombe
. Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa pêla morte ou acclamação dos règulos.
Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas, que guardam o maior segrêdo. Dam parte ao pôvo de que o sova está doente e por isso não apparece. O cadaver é deitado na cama, na cubata, e coberto com um panno; isto em Caquingue, porque no Bihé, é dependurado pêlo pescôço ao tecto da cubata.
O côrpo ali jaz até que a putrefacção e os insectos deixam a ossada nua, no paiz de Caquingue; no Bihé, até que a cabêça se separa do corpo.
É então que anunciam a morte do règulo, e que se procede ao enterro. Os ossos sam metidos em uma pelle de boi e enterrados em uma cubata que existe no Lombe, sarcòphago de tôdos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadaver é demolida, e tudo o material é transportado fôra da libata, e abandonado no mato. Será desnecessario dizer, que a morte de um sova é sempre produzida por feitiço, e que um desgraçado paga com a vida, não o feitiço, que não fez, mas a vingança particular de um dos Macotas. Logo que se anuncía a morte do sova, o pôvo sahe furioso, e durante alguns dias, sam roubados tôdos os que passam pròximo da capital, sendo que se apossam das pessôas mesmas, que escravizam para venderem depois.
Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o até á Libata Grande (capital); mas ali elle não entra no Lombe, e fica vivendo na povoação como qualquer do seu pôvo. Em seguida á entrada do herdeiro na Libata, sahem dois bandos de caçadores, um em busca de uma malanca (
Catoblepas
taurina
), e outro em procura de uma creatura humana.
Do grupo que vê o antìlope, se adianta um caçador que lhe atira, fugindo logo, e sam os outros que lhe vam cortar a cabêça, porque, se fôr o que lhe atirou, é logo assassinado, e nunca pôde dizer que foi elle que o matou.
O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que encontra (homem ou mulhér), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a cabeça, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o côrpo. Chegados á libata, esperam pêlo bando que foi caçar o antìlope; porque mais facil sempre é encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca.
Reunidas em uma cesta as duas cabeças, a do homem e do antìlope, vem o cirurgião, e comêça a fazer
os curativos
precisos para que o nôvo sova possa tomar as redeas do governo, e quando acaba a sua magía, declara que elle pôde entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria.
O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é escolher entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulhér, a qual fica morando com elle, e toma o nome de Inácúlo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas fôra do recinto do règulo.
No Bihé, como em tôda a Àfrica Austral, está estabelecida a polygamia.
Os crimes no Bihé sam sempre julgados em primeira instancia pêlo lesado, e só se o culpado se não sujeita ao pagamento da multa, é que, algumas vêzes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justiça é feita pêlo lesado. A palavra terrivel no Bihé, o vocàbulo
Mucano
, não exprime simplesmente o crime, mas designa uma idéa que involve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.
Ali tôdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto é, ao pagamento de multas; e não ha penalidades intermediarias entre a multa e a pena de morte. Se alguem rico sôbre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o lesado é poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior á multa, ficando a presa em depòsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a fez.
Aquelle que faz uma presa injusta é obrigado pêlo sova á restituição, e a dar um porco ao prejudicado.
Este systema é ázado a roubos, e tôdos os dias apparecem mucanos os mais estupendos.
Um dos mais vulgares é o do adulterio das mulhéres, a quem os maridos mandam que se façam seduzir por este ou aquelle homem que possue alguma cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva é obrigado a pagar os mucanos dos seus prêtos, e responsavel pêlo comportamento d'elles.
Quando um branco responsavel pêlos mucanos dos seus prêtos, tem por seu lado força bastante e se recusa a pagar, elles esperam, ás vêzes, annos até poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que é por causa do outro, e que se entenda com elle.
Se o que têve um mucano é fallecido, o desgraçado que vem habitar a sua povoação paga por elle.
O modo por que se
faz justiça
no Bihé, é a causa do grande transtorno que soffre o commercio, e das grandes perdas das casas de Benguella.
Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viéram ali uns prêtos que traziam uma gallinha para fazer uns
curativos
, e o hortelão vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com ella. Fôram estas palavras
objecto de um mucano, em que o hortelão têve de pagar 16 côvados de algodão ao dono da gallinha.
Logo que chega alguem ao Bihé e traz fazendas, procuram arranjar-lhe innùmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte d'ellas.
Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, sam tão defraudados pelos mucanos, que muitas vezes não lhes fica para ir negociar no interior mais do que a terça-parte das facturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a ùltima vez que ali foi em viagem de tràfico, foi obrigado a dar fazendas no valor de 600 mil réis, por um mucano que lhe arranjáram, de um seu prêto ter comprado um bocado de carne de carneiro por três cartuxos de pòlvora, e não os ter dado no dia aprasado, mas sim no seguinte, em que já não fôram aceites. Durante a minha estada no Bihé, Silva Porto têve de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela ainda maior.
É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e autorizado, a causa principal do estôrvo ao commercio, e da decadencia do Bihé.
Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos sertanejos honrados.
Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicará o commercio de Benguella, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hôje pela pouca segurança, virám alimentar as industrias Europeas.
O pôvo do Bihé é ázado a grandes commettimentos. Esmague-se no seu seio a vìbora da ignorancia que o corróe; levantem-se esses brutos ignaros á altura de homens, dê-se-lhes uma direcção, e elles caminharám na via do progresso e chegarám onde difficilmente chegará outro pôvo Africano.
Os prêtos d'Àfrica sam como os cavallos de fina raça, quanto mais fogosos e bravos, mais promptamente se tornam doceis e obedientes.
Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se poderám civilizar; aos outros não será difficil tarefa trazel-os ao caminho do bem.
Os Bihenos, como tôdos os povos d'esta parte de Àfrica, sam muito dados á embriaguez.
Ali ainda chega a àgua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se muita capata.
A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes modos, é uma especie de cerveja feita de milho.
Nas terras onde cultivam o lùpulo (
Humulus lupulus
), servem-se das cònicas sementes d'esta trepadeira para confeccionarem a bebida.
Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este pó com fuba de milho, em uma enorme panella, ferve por espaço de oito ou dez horas em muita àgua, e logo, retirada do fôgo e fria, é a capata, que se bebe immediatamente.
N'este preparado a fermentação acètica predomina, e é tão pequena a fermentação alcohòlica, que não embriaga senão em grande quantidade. Como a bebida não é filtrada, fica cheia de farinha em suspensão, e é mais massa muito flùida, do que puramente um lìquido. É muito substancial, e ha prêtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo só capata.
Nas terras onde não ha lùpulo é este substituido por uma farinha feita de milho em estado de germinação, que elles fazem produzir, já enterrando o milho, já deitando-o em àgua por alguns dias.
No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentação alcohòlica, addicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias está em parte transformado em alcohol.
Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.
Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco, mas que é agradavel e muito nutriente.
É ella feita com a raiz de uma planta herbàcea, que os meus poucos conhecimentos botànicos não me permitíram classificar, a que os prêtos chamam
imbundi
. Uma forte decocção da raiz do imbundi, depois de fria e de uma ligeira fermentação em uma grande cabaça, e addicionada, a frio, á fuba fervida como para a capata.
A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.
Esta bebida chama-se Quissangua.
A alimentação do pôvo do Bihé é quasi toda vegetal, e tendo elles poucos gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne de pôrco, animaes estes que abundam ali no estado domèstico. Creio que fôram introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a caça, e a pouca que há sam pequenos antìlopes (
Cephalophus mergens
), difficeis de matar por muito esquivos.
Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de putrefacção.
O leão, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tôdos os carnìvoros, sam para elles finos manjares, mas sôbre tudo o que mais amam sam os cães, que engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentação animal que t[~e]m no seu paiz. Elles não sam positivamente canibaes, mas comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um ancião de cabelleira branca é òptimo presente que recebe o sova, ou algum rico secúlo, para um banquete.
Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5 pessôas, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1 mulhér que faça panellas, 1 do primeiro parto, 1 que tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1 caçador de côrças.
Presas as vìctimas, sam degolladas, e as cabeças lançadas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde sam esquartejados, e morto um boi, a sua carne é cozida com a carne humana, parte da qual é tambem fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer no banquete deve levar sangue humano. Logo que está prompta a sinistra e repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o Quissunge, e todos os habitantes da povoação correm pressurosos ao festim.
Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitações para as comerem cruas.
O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que pode algum objecto, logo que está no seu paiz; fóra d'elle, não só se abstem de roubar, mas, como carregador, respeita a carga que lhe confiáram.
Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é preciso logo dar parte d'isso ao secùlo dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os prêtos da povoação vizinha a roubarem quanto possam. Logo que se dá o presente ao dono da terra, é elle o responsavel por qualquer roubo que haja.
É tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao que se chama dar a
Quibanda
. Elles nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda.
As libatas ou povoações fortificadas (que todas o sam, desde a costa ao Bihé) t[~e]m as mesmas condições, salvo pequenas modificações, devidas á disposição do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e cobertas de côlmo, cercadas por uma palissada, que varía entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta palissada é formada por estacas de pao-ferro de vinte centìmetros de diàmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas encaixadas em forquilhas enormes.



Figura 21A. Palissada Solta. Figura 21B. Palissada amarrada com Casca de arvore. Figura 21C. Palissada travada com Forquilhas.
Outra palissada igual á exterior, senão mais forte, rodea o Lombe, ou morada do chefe da povoação. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de palissada.
As libatas, e sôbre tudo as antigas, sam cobertas de frondosas àrvores, e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar a àgua por dentro.
Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellìpticas ou circulares, e outras formando polygonos irregularissimos. Não ha a menor ordem nas construcções, e em geral é a disposição do terreno que as determina.

Figura 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé.
A. Entrada. B. Cubata onde se enterram os sovas. C. Trophéu de cornos. c c c. Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. a a a. Lombe ou morada do sova. d d d. Casas dos prêtos.
Figura 22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas as libatas.

Figura 23.--Fora da porta das libatas ha isto.

As povoações sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras não abundam muito no paiz, e não é mesmo isso necessario para feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoações sam abertas.
As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e basta a riqueza de um pôvo para que elle seja atacado.
Sam verdadeiros ataques de salteadores.
Logo que um règulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pôvo qualquer, manda emissarios seus aos sovas e secúlos circumvizinhos, convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que os convoca. Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a guerra, e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os seus pastores. Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de Àfrica, é a de ser sempre vencedor o que ataca.
Ha excepções, mas muito raras.
Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba).
Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.
Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22 centìmetros de comprido.
As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares do que espheras.
As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.
O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da mão.
Talvez haja reparo em eu escrever
pello
de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême, que tem o pello mais longo, differe muito da lã.
Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no Bihé, de pequeno corpo.
Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril de 1878.
As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura, desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e scintillante, que ellas só t[~e]m nas regiões tropicaes.
Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda no Bihé!
Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha.
Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.
Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.
Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas, não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro.
Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em àgua, que me servia de pão.
Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.
A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O
mucano
aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.
O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade.
Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por braços nus até ao cotovelo.
O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?"
O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.
Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.
Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio dos felizes resultados da minha tentativa.
Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.
Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto encontrei uma colecção completa da
Gazeta de Portugal
, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se.
Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro quando tinha uns duzentos kilogrammas.
Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.
O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era facil.
A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu haver.
Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma pequena porção, que me fez a carga de um homem.
Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.
1. Folle. 2. Folle preparado para servir. 3. Bocal de barro em contacto com a chama. 4. Tenaz. 5. Martello grante. 6. Um bocado de cano de espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças. 7. Martello pequeno. 8. Panellas de cozinha. 9. Panella para capata. 10. Tambores dos batúques.

Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.
Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era ella a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos incòmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observações depois da meia noite, tinha de estar acordado até á hora precisa; e asseguro que é triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer para matar o tempo.
No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão o seu estado.
Estava muito magro, de uma palidez cadavèrica, e accusava nas feições um soffrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia immediato, que era o dia dos meus annos. Elle disse-me, que talvez não podesse vir pêlo seu estado de saude.
Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a posição da nascente do Cuanza.
No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro, toscamente forjados, com pertenções a terem uma forma esphèrica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros. N'esse dia chegáram os primeiros Bailundos com as cargas de Benguella, e nos seguintes dias fôram apparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado sèrias proporções se eu não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda, três barris de àgua-ardente, e dois saccos de caurim.
Faltava-me a pòlvora e o sal, que tinham ficado atraz.
Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir, porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou três dias os carregaria de pòlvora. Mandei emissarios a reunir os carregadores, que tôdos estavam justos e promptos.
No dia 29 de Abril, os prêtos de Silva Porto fizéram-me um pequeno furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os mandar para Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bôas graças, viéram denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido roubadas á expedição no caminho de Benguella. Uma d'ellas fôra furtada pelo S^{nr.} Magalhães, dono da povoação onde primeiro estive no Bihé.
Pude havel-as todas.


Figura 25A. Quinda, cesta de palha que não deixa passar a àgua. Figura 25B. Peneiro para seccar a Farinha (fuba).


Figura 25C. Peneiro de peneirar. Figura 25D. Cabaça para tirar Àgua a capata.
A esse tempo eu mal tinha occasião de comer. Arranjava as cargas, e era preciso estar presente a tudo, para não ser roubado, porque tôdos os prêtos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladrões.
Havia uma excepção, uma ùnica. Era o meu prêto Augusto, que me deu sempre prova da maior fidelidade.
Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se não distinguia dos outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez.
Na distribuição das armas, os prêtos fizéram repugnancia em receber as de Snider, e só o Augusto me pedio logo uma. Foi a primeira vez que attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz um exercicio ao alvo, e vi que elle era um soffrivel atirador. Depois, em Quillengues, sube, que elle dissera entre os prêtos, que me não deixaria nunca, e como, pêla sua força herculea, e pêla sua coragem, elle tinha tomado um grande ascendente sôbre os outros prêtos, chamei-o a mim.
Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de posição, e de simples carregador, estava chefe da comitiva.
Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.
Augusto é o melhor prêto que eu tenho encontrado em Àfrica; mas ninguem é perfeito n'este mundo, e Augusto não quer ser excepção á regra. Entre os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por virtude.
Augusto é louco pêlo bello sexo.
Forte como um bùfalo, corajoso como um leão, entende que deve protecção e apoio ás creaturas frageis que encontra no seu caminho.
Já não tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguella ao Bihé. Casado em Benguella, casou de nôvo no Dombe, em Quillengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao Bihé, já tinha feito ali três ou quatro casamentos. É um verdadeiro D. Juan de côr prêta.
Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas admoestações n'esta parte.
Um dia, como as queixas das mulhéres fossem muitas, chamei-o e reprehendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se elle continuasse. Chorou muito, lançou-se de joêlhos aos meus pés, fez mil protestos de emenda, e pedio-me para lhe dar uma peça de fazenda, que com isso iria contentar as mulhéres, e só ficaria com Marcolina, a sua mulhér de Benguella.
Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de tão sincero arrependimento.
Figura 26.--Uma Casquilha do Bihé.

Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoação, e cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado.
Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver. ¡Qual não é o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu nôvo casamento com uma rapariga da libata de Jamba!
Vi que o furor de casar-se era superior ás suas forças, e decidi não mais me importar com os seus negocios galantes, mesmo porque elle não compromettia ninguem, e casava sempre legalmente.
Estàvamos a dois de Maio, e ainda não tinha podido reunir os carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem a pòlvora nem o sal vindos de Benguella.
O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um só se tinha apresentado.
Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa mui differente da mùsica monòtona dos prêtos.
Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prêto alto e magro, quasi nu, de physionomia triste e expressiva.
Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em forma ás nossas rabecas, era cavado em uma só peça de pao, que formava a caixa e o braço, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira.
Tinha tres cordas de tripa, fabricadas pêlo mùsico, e o arco era guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina.
Era de certo uma imitação das rabecas da Europa, e não um instrumento primitivo.
A madeira de que era feita chama-se no paiz
Bóle
, e abunda nas matas da Àfrica de Oeste. Não seria talvez para desprezar o ensaio d'esta madeira na fabricação de instrumentos de corda.
O bàrbaro mùsico cantou uma aria em meu louvor, a
mezzo petto
, com voz muito agradavel, acompanhando-se na tôsca mas harmoniosa rabeca. Foi muito applaudido pelos prêtos que tinha attraido em volta de si, e eu mesmo gostei d'aquella mùsica original.
Chegáram á libata uns prêtos do sertão do Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam em quantidade. É este tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguella, vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bihé.
Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500 réis o kilogramma.
Os preços dos differentes gèneros no Bihé não sam aquelles que me t[~e]m forçado a pagar, e sam os seguintes:
Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos, uma jarda; um cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90 kilogrammas), uma peça de algodão branco e outra de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijão, três jardas. Isto sam jardas de fazendas das mais ordinarias, cujo prêço no Bihé não se dêve calcular superior a 200 réis.
Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um
Pano
, 2 jardas uma
Béca
, 4 jardas um
Lençol
, 8 jardas uma
Quirana
.
As fazendas de negocio proprias para o Bihé e sertões explorados pelos Bihenos, sam, algodão branco, zuarte, zuarte pintado, lenços de zuarte pintado, lenços finos, lenços cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais inferior qualidade.
As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenços pintados 8 jardas, os lenços cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas.
As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta parte de Àfrica, porque, não tendo muito mais importancia para o gentio, sam consideravelmente mais pesadas.
Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino, t[~e]m apenas 180 jardas, e sam mais pesados.[
4
]
Já se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de bôa qualidade, que àlém de ser grande o seu custo, é grande tambem a difficuldade do seu transporte, pois que três homens carregam d'ellas tanto quanto um carrega de fazenda ordinaria.
E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.
Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.
O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo não é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos, sam pèssima moeda.
Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam bôa moeda.
Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no mesmo caso.
Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as fizér.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os admira é verem um bom atirador.
Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objecto das conversações por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.
Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o precioso licor.
Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.
Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.
O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por Pereira de Mello e Silva Porto.
Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a meu respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Mello.
Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula.
Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os.
Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.
O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais noticia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á perdição.
Era um golpe terrivel.
Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais.
Quasi desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ànimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço.
¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me?
¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior?
¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"
¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado.
Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que antes.
Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar n'ella.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.
Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.
Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha de milho.
Figura 27.--Mulhéres do Bihé pisando Milho.

Indo agradecer-lhe á sua povoação, passei pelas plantações, onde andavam algumas mulhéres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dous cabos.
De volta ao acampamento, encontrei um prêto dos de Nôvo Redondo, que não tinha podido seguir com Capello e Ivens, pêlo seu estado de saude. Não se sustinha em pé, e uma ardente febre o devorava.
Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle pedio-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe.
Veio visitar-me Tiberio José Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bihé, o qual me obtêve alguns carregadores de gente da sua povoação.
N'esse dia aparecêram mais uns 12 carregadores com que eu já não contava, e eram capitaneados pêlo prêto Chaquiçonde, irmão da mãe de Verissimo.
Ia renascendo a esperança, e de nôvo se ia organizando a nova comitiva.
Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José Alves, com esperança de completar ali o nùmero de gente que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que não tinham carregador, e tambem 4 homens e uma maca para o doente de Nôvo Redondo.
Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na povoação de Cuionja, de Tiberio José Coimbra, onde me esperava um òptimo almôço, com òptimo chá. Até havia guardanapos!
Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando á povoação de Caquenha, com 4 horas de caminho.
Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoação.
Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fôra o chefe da cèlebre expedição que Silva Porto mandou do Bihé a Moçambique, e que conseguio alcançar Cabo Delgado, na costa do mar Indico.
É elle o ùnico dos homens d'aquella expedição que hôje vive.
O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.
Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus esforços foi-me impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma segurança o seu trajecto.
De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas não me restou a menor dùvida, porque ha três pontos que elle precisa perfeitamente.
Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas; outro ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago Nyassa.
Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas do commandante, dois kilòmetros a S.E. da libata de José Alves.
Era já noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.
Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do tão falado sertanejo.
José Antonio Alves é um prêto (
pur sang
) de Pungo Andongo, que, como muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.
No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o prêto que usa calças e sapatos de liga e guardasol, é tratado assim.[
5
] Em Benguella levam a condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco escuro; mas a verdade é, que nas suas veias não ha uma gôta de sangue Europeu, e que elle é prêto não só na côr como na ascendencia, e quiçá na alma.
Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois começou a negociar por conta propria, abonado pela casa Ferramenta de Benguella, que hôje faz avultado commercio sob a firma J. Ferreira Gonçalves.
José Alves é homem de 58 annos, já um pouco grisalho, de corpo franzino, e soffrendo de uma affecção pulmonar.
Vive como prêto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro.
Quando cheguei a casa de José Alves, estava elle decidindo um
mucano
.
Informado da questão, sube que um empregado mulato do José Alves seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz nada tinha de seu, elle fez-lhe um mucano á familia da mãe, que possuia alguma cousa, exigindo, em paga do delicto, um boi, ou uma
cabecinha
, para ficar limpo o seu coração. Isto me disse elle, passando a palma abranqueada da mão nêgra por sobre a parte da caixa thoràcica onde se alberga aquella vìcera, nos que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os seus movimentos de sìstole e diàstole.
Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um
mucano
, percebi eu.
Depois de decidido o
mucano
, falei-lhe da minha viagem, que elle duvidou podesse levar a effeito com os pequenos recursos de que dispunha.
Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores, evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe quizessem pagar bem, não teria difficuldade em os arranjar. Era o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.
Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forçado a tal companhia, por tanto tempo.
Nesta parte do Bihé a vegetação arbòrea começa a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposição termìtica que descrevi na margem do Cutato dos Ganguellas.
Com uns carregadores que me chegáram no dia 29, enviados pelo irmão de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente sufficiente para seguir viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o dia 30.
Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.
Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as mesmas atoardas de Belmonte, e viéram muitos d'elles declarar-me, que voltavam a suas casas, e não me seguiriam.
Fiz esforços de eloquencia para os convencer a seguirem-me, mas poucos me escutáram.
Era a segunda vez que, em vèspera de partida, no Bihé, ficava eu sem gente.
Ali ficáram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as commodidades, e a abandonar toda a alimentação que levava, com poucos mais poderia seguir.
Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei na empresa. Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado feliz a minha esperança.
No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos presidios da Costa.
Um d'estes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou uma estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela dècima-sètima, e repetido emprêgo de termos só usados na minha provincia, me denunciou n'elle um conterraneo.
Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a alma do orador era sentina de todas as podridões, em decomposição n'um clima tropical, trascalando fedores em cada phrase evaporada d'aquelle espìrito immundo.
Depois de me aconselhar a dispor das armas e munições que tinha, n'uma empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar, terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fôsse para o que fôsse, ou elle, empregando manhas que tinha de geito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibelidade de dar um passo.
Terminada esta peroração, que o homem julgou ser argumento triumphante nas minhas decisões, exigio immediata resposta.
Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito, a quem mandei applicar logo cincoenta açoutes, para fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci ás primeiras palavras, elle não me conhecia ainda.
Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do Bihé, com ração de comida e de chicote todos os dias.
Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco era mais nêgra do que a pelle d'elles ouvintes.
A nova da minha justiça espalhou-se nas povoações circumvizinhas, e deu-me crèdito entre os pretos, que tinham em má conta o meu prisioneiro.
No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viéram offerecer-me carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.
Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não chegavam, e a 5 de Junho, já no maior desespêro, decidi abandonar muitas cargas e seguir ávante.
Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decisão.
Tivémos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resolução, dando ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lançar ao rio.
Já se ia executar esta deliberação, quando o doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pedio para adiar de alguns dias a execução d'ella, dizendo-me, que obtivesse nas povoações vizinhas gente de ganho que
transportasse tudo até ao Cuanza; que elle ia tentar um esfôrço junto de um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza.
Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe positivamente, que não esperaria um só dia mais.
Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação, e depois de uma proposta de Miguel (o caçador de elefantes), decidíram pegar tambem elles em cargas, ainda que isso seja não só contra os usos, mas tambem inconveniente em marcha, onde elles t[~e]m o seu serviço especial a desempenhar.
Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.
N'esse dia morreu o homem de Nôvo Redondo que eu tinha recolhido no Cabir.
Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho á razão de 1 panno por dia.
Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoação de Cassamba.
Fica esta povoação no meio de grande e espessa floresta, onde fui caçar, encontrando apenas algumas
pintadas
que matei.
Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saío-me ao encontro o soveta de Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de presente.
Desculpei-me de não lhe dar immediatamente um presente, por estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu nôvo acampamento, d'onde lhe enviaria uma lembrança.
Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas ùltimas atravessado grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por três de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.
Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcação não tinha capacidade para mais de cinco pessôas, ainda que o poder de fluctuação da sua caixa de ar era muito superior.
Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno apaülado, e nu de arvorêdo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.
Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha á minha disposição o lombe da sua povoação, que aceitei e onde me fui estabelecer.
Chegáram uns prêtos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do sovêta, que de manhã eu lhe vira na mão.
É costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e escrita existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma mensagem, para que não se duvide que elles vam da parte de quem os envia.
Mandei o promettido presente.
O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnìfico boi, ficando muito satisfeito com uma peça de algodão riscado e algumas cargas de pòlvora que lhe dei.
No dia immediato levantei campo logo de manhã, e duas horas depois, fui acampar 1 kil. a Oeste da povoação de Muzinda.
Antes de partir, mandei soltar, e pôr na outra margem, o meu prisioneiro branco, já impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bihé.
Figura 28.--Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos.

Viéram ao meu acampamento muitas mulhéres da povoação de Muzinda, algumas das quaes traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos transversaes sôbre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo d'esses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um sôbre o labio superior.
Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa distancia, arremedam um chapéo de dama Europea.
Tôdos os homens cortam em triàngulo os dois incisivos da frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o vèrtice apoiado na gengive. Esta operação é feita com uma faca em que vam batendo pequenas pancadas.
Deu-me um indìgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent. de comprido por 50 milimetros de diàmetro, affirmando-me que a producção d'aquella rica gramìnea é abundante ali.
Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para àlém do Cuanza comprar cêra a trôco de peixe sêco do Cuqueima.
Estes indìgenas andam quasi nus, tendo por ùnico vestuario duas pequenas pelles, que pendem de um estreito cinto de couro.
As mulhéres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!
O sovêta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.
A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da povoação de Liuíca. N'aquelle ponto o Cuanza é mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto.
O seu leito é de area branca e fina, e notavel a transparencia das suas àguas.
O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a três kilòmetros de largo, que encosta de um e outro lado a pequena elevação de vertentes dôces, cobertas do arvorêdo.
Na planicie vegetam gramìneas altissimas, tão bastas que difficil é romper por entre ellas.
O terreno da planicie é mais ou menos pantanoso.
Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe, tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aquelles que construia só para uma noute.
Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de entre Cuqueima e Cuanza, e que é elle mesmo tributario do sova do Bihé, a quem só obedece quando lhe faz conta; porque não teme os seus ataques, sendo-lhe facil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte, senão tôdos, os barcos que navegam ali, das povoações Ganguelas.
Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não dar um boi, por ser a sua povoação muito distante.
Recebi tambem a visita do sovêta de Liuíca, que me offereceu um boi.
Este sovêta, homem de boa feição, frequentou muito o meu campo durante a minha permanencia na sua vizinhança.
Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.
Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque Pépéca o matasse com um tiro.
Elle olhou para a criança e aceitou.
O Pépéca, sofrivel atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez fôgo a um boi que ia mais separado dos outros, e que cahio fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o sovêta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pelle, e um bocado de carne para elle comer, o que eu fiz logo.
Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente raça dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.
No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que não posso deixar de narrar aqui.
Andava eu fora, quando alguns dos meus prêtos viéram encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me disséram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licença de ir comigo até ás margens do rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para segurança sua.
Consenti no pedido, ainda que não de bom grado.
N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros até tarde, e sentados á porta da minha barraca, discursàvamos sôbre as probabilidades que haveria de ser bem succedido o meu cirurgião Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular.
Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que era aquillo, e mandei lá o meu Augusto.
Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de escravos chegados n'essa noute do Bihé.
Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto três ou quatro pombeiros que estavam junto de mim.
Contive a còlera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu hòspede.
Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de mim.
Perguntei-lhe ¿o que era aquelle bater de ferro? Respondendo-me elle, que era a acorrentar umas
cabecinhas
que levava para vender no sertão.
¡No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza, acorrentava-se uma leva de escravos!
Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse ao pombeiro, que fosse soltar tôdos aquelles desgraçados e m'os trouxesse livres.
Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso alvar.
Perdi então a paciencia, e a raiva contida a custo transbordou violenta.
Cego de furor, lancei-me por sôbre a fogueira áquelle boçal mulato, e já a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe ameaçavam a cabeça, e por um d'esses reviramentos tão vulgares como ràpidos no meu espìrito, só pensei em salvar-lhe a vida.
Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado tôda a minha gente, e ameaçavam exterminar tôda a comitiva Bihena.
Eu, que conhêço a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser immolados.
Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e á excepção de 5 dos meus pombeiros que assistíram ao comêço da scena, tôdos ignoravam o que era aquillo, e só proferiam palavras de morte.
Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.
Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os á minha presença, assim como tôdas as correntes e prisões que encontrassem nas barracas onde elles estavam.
Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro, reservando só aquellas com que prendi os prêtos, guardas da leva.
Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os seus guardas presos o tempo sufficiente para os não poderem alcançar. Desapparecêram tôdos, excepto uma pequena, que quiz ficar comigo, por não saber onde ir; e só na occasião de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade aos chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos.
Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgião, e na noute d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87, separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.
Declaro que é difficil tal escolha.
Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador, é escolher entre as cargas, indispensaveis tôdas, aquella que hade dispensar.
Se não é mais difficil, é pelo menos tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude.
Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tôda a alimentação que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus companheiros me haviam cedido, e que, comprada em Loanda, era de valor problemàtico nos sertões em que me ia internar.
Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do Chacaiombe, as cargas condenadas seriam destruidas, queimando umas e lançando outras ao Cuanza.
¿Para quê? me perguntarám os meus leitores.
Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da Àfrica, onde tivér de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar inaproveitaveis tôdos os objectos que fôr forçado a abandonar, e isto por duas razões, uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao gentio dos paizes que atravessa.
Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa da carga abandonada, tôdos os dias terá carregadores doentes, que o obrigarám a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.
Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um tòxico qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que houvér de ser abandonado é inutilizado.
Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso.
No dia 14 de manhã, não tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61 cargas!
RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.
O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bihé.
Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de exploração se pode colher de dados geogràphicos e topogràphicos.
Muitos dos pontos marcados sam determinados astronòmicamente, sendo os intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projecção das distancias percorridas, distancias avaliadas pelos pedòmetros e pelo tempo gasto a percorrel-as.
As posições do Benguella, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens, e como eu apenas tinha os resultados dos càlculos, ahi os designo taes como m'os deu o Ivens, sem as observações iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as posições astronòmicamente determinadas por mim vam precedidas das observações iniciaes.
Resultado das observações de Capello e Ivens, da Costa a Caconda.