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Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro

CAPÌTULO VI. (continued 2)

Reading edition

Nome dos Logares. Longitude E. de Greenwich Latitude Sul. Declinação da Agulha Inclinação da Agulha. Altitude em metros.

° ' " ° ' " ° ' ° '

Benguella 13 25 20 12 34 17 23 30 O. 39 37 7

Dombe Grande 13 7 45 12 55 12 23 26 39 44 98

Quilengues 14 5 3 14 3 10 23 3 40 40 900

Ngola 14 39 1 14 16 46 --- --- 1,410

Caconda 15 1 51 13 44 0 22 30 --- 1,676

Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos trabalhos que tìnhamos começado, não podendo fazer observações de inclinòmetro e fôrça magnètica, porque os ùnicos instrumentos que para isso levàvamos ficáram em poder de Capello.

Começarei a expor os meus trabalhos pela determinação das coordenadas geogràphicas de Caconda á margem esquerda do Cuanza, onde pára a minha narrativa no precedente capìtulo.

No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se poderem verificar os resultados que designo.

Todas estas observações calculadas em Àfrica fôram recalculadas em Londres pelo 1^o tenente calculador da marinha ingleza, Selwyn Sugden.

Quadro das Observações Astronòmicas feitas pelo Major Serpa Pinto entre Caconda e o rio Cuanza.

Anno de 1878. Logares onde observei. Hora dos Chronòmetros. Estado para Greenwich.

H. M. S. H. M. S.

a Janeiro 14 Vicete (junto ao Cunene) 8 10 24 + 1 0 15

b " " " 10 27 44 + 3 23 2

c " 16 Fende (Cunene) 5 10 2 + 3 23 6

d Fevereiro 12 Libata do Palanca 7 55 0 - 1 0 0

e " " " 10 30 56 + 3 27 18

f " 13 Libata do Capôco 9 3 0 - 1 0 0

g " " " 9 57 15 + 3 27 27

h " 18 " 10 18 14 + 3 28 8

i Março 16 Belmonte (Bihé) 10 25 0 - 1 4 0

j " 18 " 5 6 10 + 3 31 43

l " 22 " { 5 3 1 } ---

m { }

n { 9 51 41 }

o Abril 2 " --- ---

p " 3 " --- ---

q " 4 " --- ---

r " 5 " --- ---

s " " " 4 53 40 + 3 24 29

t " 6 " --- ---

u " 7 " --- ---

v " " " 0 8 32 - 0 57 43

x " " " 10 50 54 ---

z " " " 10 55 6 + 3 34 54

0 " 23 " 9 4 25 ---

1 " " " 9 38 16 + 3 37 26

2 Maio 24 Matas do Cabir (Bihé) --- ---

3 " " " 9 38 55 + 3 42 47

4 | " 31 9 12 5 + 3 43 56

5 Junho 1 " --- ---

6 | " 9 6 22 33 + 3 45 52

7 " " " 6 6 53 ---

8 | " 10 " --- ---

9 " " " 9 17 21 + 3 45 57

Natureza da Observação Dupla altura do astro. [A] [B] [C] [D] Resultados

º ' " º ' H. M. ' " º '

a Alt. Mer. [-)] 101 3 0 --- --- -3 30 1 Lat. 14 2 S.

b Chron. [*-] 101 2 0 14 2 --- " 1 Long. 15 14 E.

c " 104 31 0 " --- " 1 " 15 25 E.

d Alt. Mer. [-)] 97 3 10 --- --- -0 50 1 Lat. 13 20 S.

e Chron. [*-] 99 6 30 13 20 --- " 1 Long. 15 27 E.

f Alt. Mer. [-)] 98 30 30 --- --- " 1 Lat. 13 9 S.

g Chron. [*-] 115 5 30 13 9 --- " 1 Long. 15 30 E.

h " 104 15 30 --- --- " 1 " 15 28 E.

i Alt. Mer. [-)] 131 38 30 --- --- " 1 Lat. 12 22 S.

j Chron. [*-] 104 58 40 12 22 --- " 1 Long. 16 51 E.

l Alt. iguaes 103 21 10 " --- " 2 Estado 3^h.31^m.54^s.

m

n

o Alt. Mer. [*-] 144 49 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12º 23' S.

p " 144 4 0 --- " " 1 " 12 23 S.

q " 143 20 0 --- " " 1 " 12 22 S.

r " 142 32 0 --- " " 1 " 12 23 S.

s Azimuth 266-30 [*-] 93 34 20 12 22 --- -1 0 1 Variação 21 11 Oes.

t Alt. Mer. [*-] 141 47 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12 22 S.

u " 141 3 0 --- " " 1 " 12 22 S.

v Alt. prox. do Mer. [*-] 140 3 0 --- --- " --- " 12 22 S.

x Eclipse do 1^o sat. de Jùp. --- --- --- --- 1 Long. 16 46 E.

z Chron. [*-] 65 48 0 12 22 --- -1 0 1 Diff p^a o logar 4^h.42^m.23^s.

0 Eclipse do 1^o sat. de Jùp. --- " --- --- 1 Long. 16º 49' E.

1 Chron. [-)] 71 31 40 " --- -0 30 1 Atrazado 4^h.44^m.56^s.

2 Alt. Mer. [*-] 113 10 40 --- 1 7 -1 25 1 Lat. 21º 22' S.

3 Chron. [*-] 79 22 50 12 22 --- " 1 Long. 16 53 E.

4 " 86 38 10 12 28 --- " 3 " 17 9 E.

5 Alt. Mer. [*-] 110 26 40 --- --- " 1 Lat. 12 28 S.

6 Chron. [)-] 63 59 30 12 35 1 9 35 1 Diff p^a o logar 4^h.54^m.34^s.

7 Eclipse do 2^o sat. de Jùp. --- --- --- --- 1 Long. 17º 25' E.

8 Alt. Mer. [*-] 108 15 20 --- 1 9 -0 40 1 Lat. 12 35 S.

9 Chron. [*-] 82 43 23 12 35 --- " 3 Long. 17 25 E.

Legenda

:

[A] Latitude Sul.

[B] Longitude em tempo.

[C] Erro do instrumento.

[D] N^o. de Obs.

[-)] símbolo da lua debaixo da barra

[*-] símbolo do sol por cima da barra

[)-] símbolo da lua por cima da barra

Trànsito de Mercurio a través do Sol em 6 de Maio de 1878.

Data Logar da Observação Latitude Longitude Hora do Chron. para a hora local Altura do Sol. Erro do sext. - 1' 25".

Media de 4 Media de 4

º ' " º ' " H. M. S. º ' "

6 Maio 1878 Belmonte 12 22 40 16 49 24 10 6 50 74 36 55

Data Estado atrazado de Greenw. Hora do 1^o contacto interno. Longitude

No chronòmetro

H. M. S. H. M. S. º ' "

6 Maio 1878 3 39 39 11 35 29 16 50 15

É muito notavel que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo chronòmetro é muito pròximo da verdadeira obtida pelo trànsito de Mercurio. Esta longitude muito pouco differe tambem da obtida pelo eclipse do 1^o Satèlite de Jùpiter a 23 de Abril.

Não inclui n'este quadro as innùmeras observações feitas para estudar as marchas dos chronòmetros, que publicarei em separado um dia.

Nos estados dos chronòmetros a grande differença que se nota entre alguns provém do pertencerem a differentes chronòmetros.

Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o horizonte artificial de mercurio, que outro não tinha, tendo ficado em poder dos meus companheiros o Abba, ùnico theodolito universal que possuìamos.

Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bùssolas azimutaes eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Barão de Barth.

Os meus chronòmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira, e um, que, depois, de Benguella me enviáram ao Bihé, de marinha, tambem de Dent.

Este ùltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre tudo o que eu designo com a letra S, nos càlculos.

Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsòmetro, e outras pelo aneroide, cotisado com o hypsòmetro.

Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.

A carta do paiz do Bihé, muito grosseira e incompleta de certo, foi levantada á bùssola, nas minhas excursões venatorias; mas, ainda assim, possue a sufficiente exactidão para se julgar do paiz, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito mais pròximos da costa em que dominamos, estivessem tão pròximas da verdade como ella.

Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar ràpidamente do paiz que ellas representam.

De Benguella ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno calcàreo, abundante de minèrios diversos.

As àguas faltam ali na estação sêca, e apenas o valle do Dombe Grande tem a sufficiente para ser enormemente productivo. A vegetação, sem ser pobre, não tem, todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes. Entre Benguella e o Dombe apenas se encontra àgua potavel n'um pequeno charco na Quipupa.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro

Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza

O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle grande variedade de antìlopes, sendo os mais vulgares o

Strepsiceros kudu

, o

Cephalophus

mergens

, o

Cervicapra bohor

, e o

Oreas canna

. Nas rochas de

carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe Grande, abundam os

hyrax

, e na planicie, entre as grandes e pomposas plantações de mandioca, vivem muitos

hystrix

, maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande é de certo a melhor porção de terreno da provincia de Angola. As suas condições de salubridade não sam más, e o solo é de grande fertilidade. Um porto de mar, o Cúio, dista apenas alguns kilòmetros do maior centro de producção.

As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e já tem estado em exploração, sempre em pequena escala, por falta de capitaes. Ha ali enxôfre e cobre.

A população indìgena é de bôa ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um prêto abandonado a si mesmo.

Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho que segui há falta de àgua, e a vegetação, pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues.

Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de àgua, e ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegetação rica. Contudo, o paiz mesmo por ali não é habitado.

Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga começa o terreno granìtico, e com elle uma vegetação mais pomposa. Todos os rios designados no Mappa até Quilengues sam apenas torrentes na estação chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua na estia, cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo está sujeito a esta condição de pobreza.

Quilengues é um extenso e fertil valle, em condições iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicações com a costa.

A sua população é densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeças de gado vaccum de excellente raça.

Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de serem vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.

Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de Portugal, mas não sam tão submissos como os Mundombes.

Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicações o ligarem á costa, á Huila e a Caconda, e quando fôr administrado como o deve ser.

De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz muito povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.

Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu passei na parte chamada Monte Quissécua.

Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e d'ali ao Bihé a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras depressões nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de montanhas isoladas.

D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro que encontrei n'estas condições affluente do Cunene.

A vegetação arbòrea no planalto não é já tão forte como em Quilengues, mas a herbàcea é mais rica, se é possivel sel-o.

O terreno continúa granìtico, e começa a apparecer n'elle maior abundancia de termites. As ùnicas povoações que se encontram no caminho que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente.

Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser não menos rico e productivo do que o de Quilengues.

É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direcções, affluindo ao Catapi, affluente do Cunene.

A febre miasmàtica é endèmica em Caconda, como em Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz vìctimas.

Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de salubridade de Caconda.

As condições climatològicas do paiz de Caconda é que já differem essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues.

Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente, é temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas está por isso mesmo sujeito ás bruscas mudanças que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera tão rarefeita.

Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria òptimamente em Caconda, se uma màchina em contacto com um thermòmetro, nos fosse deitando cobertores na cama á medida que o thermòmetro descesse, durante o somno.

Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute dá-se quando o sol tem declinação Norte, porque durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador é ella muito menor.

Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei; todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A batata é muito boa e produz muito, não só ali como em todo o planalto; mas é tão difficil o seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa.

Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem em todo o planalto.

Perto da fortaleza, a população é rara, mas a uma certa distancia está condensada; sendo governada por chefes independentes.

De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se menos pastores do que os povos até Caconda, sam um pouco mais agricultores.

Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos, mais aguerridos e independentes.

Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que dividem as suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza.

Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que chamam no paiz a

Enhana

de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.

Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai entrar no mar por 10° 50' de Latitude S., junto ás Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha.

Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro é o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.

Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos Ganguelas, que se une ao Cubango.

O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que corre de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Caláe e o Cuçúce, que se unem para affluir ao Cunene.

Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar.

Fazendo excepção á minha regra de não baptizar em Àfrica rios ou montes, dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo.

Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter o paiz outro minerio àlém do ferro, o que não quer dizer que o não haja.

O terreno é ainda granìtico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos é de formação animal, pois que é construido pelas termites.

Àlém da disposição especial que encontrei no terreno termìtico das margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes construcções termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies.

Figura 29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o Bihé. 1 e 2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro

Ha abundancia de caça, sobre tudo nas faldas da serra de Andrade Corvo, entre o Caláe e o Cuçúce, que nunca vi tanta em Àfrica, a não ser no Zambeze.

Alem dos antìlopes que já citei falando do Dombe, abundam ali o

Hippotragus equinus

, o

Catoblepas taurina

, e o

Bubalus Caffer

.

As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo um sem-nùmero de especies da Acacia.

Ha muito poucas plantas trepadeiras.

Passamos a linha divisoria das àguas entre o Cubango e o Cuanza, e entramos no paiz do Bihé, de certo o mais importante do Sudoeste d'Àfrica.

O paiz do Bihé, de cujos povos falo detidamente no capitulo anterior, é cortado por dois rios importantes, ainda que innavegaveis, o Cuqueima e o Cuito. Innùmeros riachos sulcam em todas as direcções o terreno, e vam affluir áquellas arterias principaes.

O clima é igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas condições atmosphèricas.

O terreno é granìtico e de uma admiravel fôrça productiva. As pastagens sam òptimas para todos os gados. É pobre de caça; mas, em compensação, é desinfestado de feras.

Não creio muito que seja rico em productos mineralògicos, porque a sua densa população não tem encontrado vestigios de minerios ricos, e eu tenho visto em Àfrica, que os primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o chumbo e o ferro sam os indìgenas.

No Bihé o que é verdadeiramente rico é o terreno, e não sei de paiz Africano que mais podesse prosperar pela agricultura e commercio.

A raça Europea vive ali muito bem, e o producto do cruzamento d'ella com as raças do paiz é physicamente admiravel.

Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das condições climatològicas, e sobre tudo no primeiro mez, em que o pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de sahir, observei regularmente o baròmetro e o thermòmetro de 3 em 3 horas durante o dia.

Adiante apresento um quadro d'essas observações, durante trinta dias, fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota durante o dia é devida á estação do anno em que fôram feitas as observações, estação que corresponde ao nosso outono.

As chuvas t[~e]m duas èpochas, com uma interrupção de estiagem que se dá em Dezembro e Janeiro. As primeiras chuvas cahem em meado de Outubro, e duram até principio de Dezembro, sendo mais moderadas do que as segundas que cahem do fim de Janeiro ao principio de Março.

Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na estação chuvosa as maiores tormentas que observei vinham do oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre, sobre tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros elèctricos, e cahem no meio de terriveis trovoadas.

O seguinte quadro apresenta as minhas observações desde o dia 25 de Março ao dia 23 de Abril de 1878.

Por esta serie de observações se vê quão ameno é o clima do Bihé n'esta èpocha do anno.

Anno de 1878 6 Horas. 9 Horas. Meio dia 3 Horas. 6 Horas.

Mez. Dia. [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F]

Março 25 629.8 19.1 630.5 20.4 629.2 22.4 628.8 23.2 630.0 21.6

" 26 632.0 20.1 631.9 21.2 630.8 21.6 629.8 21.5 629.5 21.0

" 27 629.5 19.4 632.0 19.9 629.6 21.0 628.5 21.3 630.0 20.6

" 28 630.0 19.4 631.6 19.9 629.5 20.4 629.0 22.1 629.0 21.6

" 29 630.2 20.6 632.3 20.8 630.0 21.6 628.5 22.5 629.2 22.1

" 30 631.0 18.3 632.0 20.6 631.0 21.9 630.0 22.2 629.9 21.3

" 31 631.0 19.2 632.3 20.0 631.2 20.9 629.2 21.3 631.0 20.4

Abril 1 630.5 18.6 632.0 19.5 630.6 20.4 630.0 19.9 630.0 19.8

" 2 631.0 17.5 632.0 18.7 630.0 21.1 629.3 20.2 630.0 20.2

" 3 630.0 18.8 632.5 20.0 630.5 21.1 630.0 21.2 629.0 20.9

" 4 632.0 18.6 632.0 20.2 630.0 21.2 629.5 21.6 630.0 20.7

" 5 630.0 18.8 632.0 20.0 630.3 21.1 630.0 22.0 629.8 20.1

" 6 630.0 17.2 632.3 19.8 631.0 20.4 630.5 21.7 630.0 20.2

" 7 630.0 17.8 632.0 19.7 630.5 21.0 629.0 22.7 630.0 21.5

" 8 629.0 17.6 632.0 19.9 630.0 21.5 629.5 22.8 630.0 21.3

" 9 629.5 18.4 631.5 20.4 631.0 21.8 629.3 22.6 629.8 21.1

" 10 631.2 18.1 632.8 20.5 631.5 21.7 629.4 22.4 630.0 21.5

" 11 630.5 16.6 631.9 20.2 631.0 21.4 629.5 23.0 629.8 21.7

" 12 629.0 16.4 629.9 20.1 629.0 21.1 627.0 22.6 629.0 21.8

" 13 628.3 18.2 630.0 20.2 629.6 21.6 629.4 22.3 629.5 21.1

" 14 629.0 18.6 631.5 20.4 630.6 22.0 629.5 23.1 630.0 21.7

" 15 631.4 17.2 632.6 19.7 631.0 21.3 630.5 22.4 630.5 20.7

" 16 630.6 16.1 632.0 19.0 630.3 21.3 629.0 22.8 630.0 20.2

" 17 632.6 19.4 633.0 20.7 631.0 22.0 630.0 22.2 630.0 20.0

" 18 631.6 18.0 632.0 20.1 630.0 20.4 629.7 22.7 629.9 19.8

" 19 631.2 17.8 632.2 20.3 630.6 21.0 630.1 23.0 630.5 19.7

" 20 630.7 16.5 631.9 20.1 630.4 21.2 630.0 22.7 630.0 20.1

" 21 631.0 15.6 632.1 17.8 630.3 19.8 629.3 20.6 629.8 19.5

" 22 630.0 14.6 632.0 17.1 630.0 19.2 628.7 20.4 629.0 19.4

" 23 630.3 14.9 632.0 17.9 630.5 20.0 629.2 21.3 630.0 20.0

Legenda

:

[E] Baròmetro

[F] Thermòmetro

É muito notavel a marcha diurna do baròmetro, que ali é inalteravel em presença das mudanças bruscas da atmosphera.

Um boletim meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou 1^h. 50^m. do logar, completa o estudo atmosphèrico d'este paiz n'aquella èpocha.

Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado durante toda a viagem, tendo apenas as interrupções provenientes de doenças ou de estorvos occasionaes.

O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco até ao Cuqueima, na parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do Cuqueima eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.

Na parte leste do paiz reapparece a vegetação arbòrea mais rica, e ha pequenas mas densas florestas.

Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bihé e Benguella, não existe o zé-zê, esse flagello de muitos pontos da Àfrica Austral, que, matando o cavallo e o boi, priva o homem de dois dos seus maiores auxiliares na vida pràtica.

Uma especie de epizotia, que no paiz chamam

cahônha

, ataca o gado bovino e lanìgero; não fazendo ainda assim os estragos que na Europa e outras partes d'Àfrica produz a epizotia.

Boletim meteorològico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do Bihé.

Mez. Dia [E] [F1] [F2] [G] Direcção do Vento. Estado da Atmosfera.

Março 25 628.7 22.9 20.2 40 S.S.O. fraco {Durante a noute {trovoada, hôje ceo {limpo

" 26 629.6 22.1 20.0 2 O.S.O. fraco {Nublado de noute, {de dia cirrus.

" 27 629.1 21.0 20.1 31 E. forte Chuva durante a noute.

" 28 628.8 21.5 21.2 0 Calma Algumas nuvens, cirrus.

" 29 629.0 22.3 21.6 0 " " " "

" 30 630.0 22.0 21.0 0 " " " "

" 31 629.5 21.5 20.8 0 E. forte Nublado.

Abril 1 630.5 20.2 19.4 17 Calma {Nublado. {De noute trovoada a N.O.

" 2 629.3 19.8 19.1 0 E. forte Algumas nuvens, cirrus.

" 3 630.0 20.9 19.1 0 E. moderado " " "

" 4 630.3 21.5 20.2 0 " " " "

" 5 630.5 21.8 20.6 0 " " " "

" 6 630.0 21.1 19.2 0 " " " "

" 7 629.3 21.8 19.7 0 " " " "

" 8 628.1 22.5 19.8 0 " " " "

" 9 629.6 22.2 20.6 0 Calma " " "

" 10 629.0 21.8 19.9 0 " Ceo limpo.

" 11 629.8 21.9 19.8 0 " " "

" 12 627.8 21.8 19.8 0 " Alguns cirrus.

" 13 629.5 22.0 20.1 0 " Nublado.

" 14 630.0 22.5 20.2 0 " Alguns cirrus.

" 15 630.5 21.6 19.6 0 E. forte. Ceo limpo.

" 16 629.8 21.6 19.7 0 Calma Alguns cirrus.

" 17 630.0 22.0 18.6 0 E. forte. " "

" 18 630.0 22.2 20.3 0 " " "

" 19 630.4 22.5 20.1 0 E. moderado " "

" 20 630.2 22.0 20.2 0 " " "

" 21 629.8 19.9 15.5 0 " Ceo limpo.

" 22 629.6 19.9 16.1 0 " " "

" 23 630.0 20.5 18.3 0 E. forte " "

Legenda

:

[E] Baròmetro

[F1] Thermòmetro seco

[F2] Thermòmetro molhado

[G] Chuva em milimetros

Não existe ali a molestia que mata tantos cavallos no Transvaal e no Calaári, a que os inglezes chamam

Horse-sickness

. Em toda a parte o gado suino prospera e desenvolve-se como na Europa, sendo facil a conservação da carne, o que já não acontece perto da costa.

O paiz até ao Cuanza, e ainda para àlém, tem grande carencia de sal, sendo todo o que ali se gasta proveniente da costa.

Não ha minas de sal gemma, e as àguas, mesmo as das lagoas, sam potaveis.

N'este succinto resumo, procurei compendiar o resultado das minhas observações, dando uma noticia geral do paiz, e terminarei com um curto juizo meu ácerca d'elle.

Collocado em uma posição geogràphica muito differente da do Transvaal, o paiz comprehendido entre a costa e o Bihé, aproxima-se d'elle pelo clima, e possue um solo mais fertil. A comparação entre a mesma planta vegetando nos dois paizes indica isso.

Tem uma população indìgena muito mais condensada do que a do Transvaal e muito mais agricultora. Não é menos abundante em boas pastagens, e é mais rico em florestas.

O Transvaal possue uma grande riqueza mineralògica, que escaceia ali; mas eu creio que estará reservado a este paiz um futuro mais pròspero do que áquelle, porque o Transvaal está isolado do resto d'Àfrica pelos desertos àridos e pela mosca zé-zê, em quanto estes terrenos estam em facil communicação com um interior quiçá mais rico.

1. Ràpido da Libata Grande. 2. Ràpido de Canhacuto. 3. Ràpido de Quiverequete.

Illustration from Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro

Figura 29A.--Viagem ao Cunene.

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