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Cartilha Maternal

VIGESIMA SEGUNDA LIÇÃO

Reading edition

Estamos chegados á penultima das consoantes incertas, que é o m. Este caracter umas vezes é letra, outras vezes signal nasal, outras vezes nem uma cousa nem outra; e podemos accrescentar que outras vezes é ambas as cousas.

Quando é letra representa um despego de labios similhantissimo aos que representam b, p; como por exemplo em

mal, mel, mil, mola, mula.

É impossivel começar a ler estas palavras sem ser de bôca fechada. Os labios despegam-se á primeira voz; vindo portanto o m a representar um facto puramente mecanico, por si só inapreciavel ao ouvido. Não é isto particularidade do m, mas qualidade geral de todas as letras que valem inflexões instantaneas.

O m representa esta inflexão labial em tendo vogal adiante.

Quando é signal nasal, vale para a vogal antecedente o mesmo que til. Tanto importa para a leitura escrever:

ambos, embora, impar, ombria, umbral;

como ãbos ẽbora ĩpar õbria ũbral:

com a differença que esta orthografia era melhor, mais exacta e, por consequencia, mais elegante.

Por economia de espaço, e conveniencias typograficas, talvez mais que por espirito reformador duma orthografia incoherente, acha-se o til empregado nas edições antigas, frequentissimamente, onde agora pomos m ou n. Em boa hora volte e seja universalmente recebida aquella substituição. Mas os antigos, que escreviam (tambem mais logicamente) por exemplo amárão; querendo differençar o ão dominante do grave, á falta de signaes convenientes escreviam amaráõ, desvirtuando assim ao mesmo tempo os dois signaes agudo e nasal; pois nem o a é agudo, nem o o nasal. Daqui e, provavelmente ainda mais, da costumeira de solletrar á, ó, til, ão; parecendo ao principiante (e talvez ao mestre) que o til pertence ao o; resulta vermos até na capital grandes letreiros: Salaõ, Repartiçaõ de Instrucçaõ etc. (o que diga-se a verdade não é muito airoso para o pintor).

O m tem sempre este valor nasal quando se lhe não segue vogal.

Mas ás vezes não tem valor nenhum, e só se escreve por divisa etymologica, como por exemplo em

commenda, commissão, condemnado,

que se lêem exactamente como se escrevessemos comenda comissão condenado.

Estas taes divisas etymologicas, ou estas taes etymologias teem o grande inconveniente de fazer da escrita um privilégio, que nenhum homem liberal supporta sem repugnancia, etc. E ainda se os partidarios [ilegível............]! Mas elles não se entendem uns aos outros, e nem a si mesmos se entendem. Devia acabar esta affectação ridicula.

Continuando, não podemos dizer que mm estão no caso de bb, cc, dd, ff, gg, etc., que valem sempre assim dobradas o mesmo que simples: porque é tão commum o primeiro m não valer nada como valer de til: por exemplo:

somma, gomma, emmalar, emmassar

equivale a sõma, gõma, ẽmalar, ẽmassar:

vingando aqui a regra, que m sem vogal adiante vale de til.

Tambem o am final se póde dizer que não offerece nada de extraordinario quanto ao m. Ahi o m vale til; é regular: a forma orthografica sim que é viciosa; porque escrevemos ã para lermos ão. Nem o a nem o m podem representar o u que soa na leitura. É uma convenção caprichosa, e pouco sustentavel.

Antigamente dizia-se, por exemplo, amárũ; depois, com o correr dos tempos, amárõ; depois, amárã. Foi-se a musica da lingua, por assim dizer, aclarando. Hoje ainda muito povo diz amárõ, fállõ; mas o estylo correcto e literario é amárão, fállão.

Nisto devem os mestres não poupar insistencias, porque o tal õ é repugnante. E dizemos: não poupar insistencias, porque é necessario insistir: a maior parte dos alumnos teem esse vício muito arraigado. Mas quem diz cão, póde dizer fícão: seja a syllaba grave ou dominante, a pronuncia é organicamente a mesma.

Tempo houve que geralmente se escrevia ão no fim. Depois, talvez para evitar equivocos, e poupar accentos (no que sempre nos temos mostrado singularmente economicos), em vez de se progredir empregando, e até inventando os signaes necessarios a bem duma orthografia exacta, retrogradou-se. Quasi todos escrevem actualmente amam, fallam, quizeram, etc.

A dizer a verdade a boa orthografia não depende tanto da logica dos caracteres como da generalidade das regras; e se am final vale sempre o mesmo, embora mal represente o que vale, passe a incoherencia. Melhor orthografia é fállão, fallárão, fallarão, etc. Mas por exemplo pensão é equivoco; e escrever pénsão, não é logico; porque não temos na palavra e agudo. A falta dum signal para a vogal dominante, é uma razão a favor do am final: todavia, razão que pouco pode aproveitar aos que seguem (como nós aqui) a orthografia em am; pois escrevem sem escrupulo provém, contém e até porém. Logo que dúvida podiam ter em escrever pénsão, péndão, mándão, etc.? Melhor seria.

Mas dissemos nós que o m vale ás vezes de letra e de til. De facto acha-se uma especie de influencia nasal retroactiva no m (assim como no n). Nós lemos ama, temo, lima, Roma, uma, como se estivesse escrito ãma, tẽmo, lĩma, Rõma, ũma. Amamos, amemos; fazemos, façamos; vestimos, vistamos; pomos, ponhamos; nestas e outras vozes similhantes dá-se tambem o caso de nasalarmos a penultima vogal, sem til nem m que lhe pertença.

Mas destas e outras que taes advertencias não precisa o alumno. E limitando-nos ao que importa, na forma costumada:

—Como se chama esta letra?—Metíl.

—Porque se chama metíl?—Porque umas vezes vale m', outras vezes vale de til.

—Quando vale m'?—Com vogal adiante.

—E quando vale de til?—Com vogal atraz.

—Portanto, com a, e, i, o, u atraz, como se lê?—Ã, ẽ, ĩ, õ, ũ.

—Tambem se lê ã no fim de palavra?—No fim de palavra não se lê ã; accrescenta-se u; lê-se ão.

m meu umas mãos limões moças comer amigas gemer morrer mães maçãs irmãos queimaduras romãs mexer am = ~ em im om um vim fim sim assim algum alguem atum emfim quem tambem som com Joaquim riem limpem jejuem tomem afiem tremem caiem comem ardem fumem temem lêem compararem emmassarem emmalarão ~~~am = ão iam durmam amam temam ficam raspam levam puxam viam zurziam tocam armam ligam sumam emmagreçam complicariam

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