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Cartilha Maternal

VIGESIMA QUINTA LIÇÃO

Reading edition

Ensaiado o nosso discipulo em todas as minusculas por sua ordem, resta apresentar-lhe as maiusculas. Bastava metade, pela similhança de

C I J K O P S U V X Y Z

com c i j k o p s u v x y z.

Mas uma cartilha sem alfabeto, sería um escandalo. Evitemol-o.

O alfabeto é um cahos.

Se olhais ao som, e quereis tomar por base o ouvido, achais as vogaes misturadas com as consoantes: se olhais á pronuncia, e quereis tomar por base os orgãos da palavra, achais gutturaes e labiaes, consoantes de valor extremo e opposto no meio d'aquella babel.

A velha divisão de vogaes e consoantes não tem melhor fundamento. Consoantes são as que se lêem com as soantes? Nesse caso a divisão natural sería soantes e consoantes. Mas nem as vogaes são unicamente soantes, nem são unicamente as soantes.

A inflexão x... soa. Os caracteres que a representam são soantes.

Ainda soa mais a inflexão rr...; e nessa ha mais do que som, ha tom, voz. Prolongai-a e, melhor, parai com a lingua, continuando o mesmo fôlego, ouvireis um tom apreciavel na escala, que até se pode tomar por tónica d'uma oitava: é a voz que o repique da lingua está abafando e embaraçando.

Porque toda a voz é essencialmente musical: a mais frouxamente proferida, em se prolongando, afina ou desafina com a nota d'um instrumento.

Não ha differença essencial entre a palavra e o canto; e com razão chamaram vogaes (ou vocaes) as letras que representam os principaes elementos da palavra.

Mas, por isso, chamar consoantes a todas as outras, envolve impropriedade. Todos os sons soam; dizer que as vozes soam, não é bastante: as vozes cantam. E alem de impropriedade, é uma syntese exagerada.

Porque na palavra ha vozes, ha tons, ha sons e ha simples modificações sem tom nem som, que se percebem na palavra como se percebe na nota da rabeca a unha ou o arco. Nem a unha nem as sedas do arco são elementos fonicos: fazem soar de certo modo, sem que por si soem. Ora a estes quatro elementos da palavra, que formam como uma escala:

VIII Cantantes ou vocaes; VIII Toantes (rr... j... z... v...); VIII Soantes (x... c... f...); IIIV Mudos (bqd, gl, lh, etc.):

correspondem naturalmente quatro especies de letras susceptiveis das mesmas denominações segundo os seus valores.

Assim pois ha letras soantes e mudas, toantes e mudas; etc. X é toante (z...), soante (ç..., x...) e simultaneamente muda e soante (qç...).

Estas denominações e classificações tem utilidade, porque envolvem anályse, dão um conhecimento mais perfeito da palavra e da escrita, e proporcionam em muitos casos á doutrina do mestre uma precisão e clareza, que a distincção geral de vogaes e consoantes mal pode permittir.

Mas se se quizesse apenas essa distincção, era dividir as letras em vogaes e invogaes.

Ora contando as vozes ou elementos cantantes da nossa lingua, que se representam em mais do dôbro de maneiras, achamos dezesete. Ajuntando os quatro elementos toantes, os tres soantes e os doze mudos (todos tambem representados em muito maior número de caracteres) temos os trinta e seis elementos a que nos referiamos a pag. 53.

Mas voltando ao alfabeto, não recommendamos que o façam aprender de cór senão a discipulos que nutram a lisonjeira esperança de chegar um dia a folhear diccionarios, que é do que serve.

Em todo o caso ahi o tendes, á escolha, minusculo e maiusculo entremeado para confronto, e separado. Ainda nos parecia melhor, isto é, menos indigesto, encorporado em palavras, onde ao pé da maiuscula apparecesse a minuscula, e ao lado os nomes que nós damos ás letras.

Desses nomes ides ver alguns escritos dum modo mais sobrio ou mais usual mas equivalente; pois, por exemplo, lendo zêz como se costuma ler zaz, no fim soa x... que é o mesmo valor, embora mais exacto, que pretendiamos indicar no nome zêxe. Igualmente lendo á portugueza cêqes, soam tres inflexões, ç... q... x..., que são os valores do c simples, e accentuado de h. Nós tambem lemos zig-zag, dando ao g o valor guttural: porque não havemos de escrever semelhantemente gêg, para significar os dois valores desta toante e muda? Quizemos dar de barato aos partidarios dos nomes volumosos; agora permittam-nos essas modificações accidentaes.

Mas ao c tinhamos chamado cêqe: chamando-lhe agora cêqes, ha uma differença essencial. A razão é, como vêdes, para abranger no nome o novo valor que lhe trouxe o h. Assim vão tambem accrescentados os nomes de p, l, n: e dessa alteração convem dar conta e explicação ao alumno; se é que não preferis considerar nh, lh, ph, ch como formas elementares, chamando-lhes nhê, lhê, phê grego, xêq; o que é rasoavel mas pouco conforme ao que entre nós se entende por alfabeto.

E agora vem a proposito fallarmos de dh, que a pag. 23 incluímos nas formas compostas, e todavia não apparece na última lição. Dh é uma juncção casual, á similhança de nh por exemplo em inhabil inherente que se lê inábil inerente. As palavras que principiam por h, compostas de ad e in, affectam estas excepções ao nh, e aquella forma dh, não havendo em rigor nem uma nem outra cousa. Como porem mal se pode fallar ao alumno em preposições, e não deixava de convir praticamente considerar a cousa como parece, a isso nos dispunhamos, cedendo depois á verdade theorica.

Os quadros alfabeticos assim talhados, pelas cinco vogaes, em outras tantas regras ou linhas, estão indicando as porções em que se ha-de estudar o alfabeto. De alguma cousa havia de servir a posição alfabetica das vogaes. O alfabeto é uma ordem puramente material; o seu estudo, aborrecido; e não ha necessidade de molestar o alumno. Quantos terão renunciado á gloria de saber ler, pelo fastio invencivel dessa enfiada de nomes barbaros e desconnexos? É verdade que no princípio, que é quando o costumam ensinar, a essa desconnexão ajunta-se a absoluta ausencia de sentido; mas em todo o tempo a memoria se esquiva a encadear semelhante salsada.

Se acceitais a nossa nomenclatura, alternai com o discipulo as vezes necessarias, ou fazei repetir alternadamente os discipulos, accumulando de dia para dia os nomes decorados:

á, bê, cêqes, dê;

é, fê, jêg, agá,

í, jê, kê grego, lêlh, metíl, nênhetíl;

ó, pêf, qê, rêr, sezêz, tê;

ú, vê, qce-cezêz, i grego, zêz.

Adoptai esses nomes, que são verdadeiros e methodicos: não vos preoccupeis com o costume. O cozinheiro ri-se de ouvir chamar ao sal chlorureto de soda; os chimicos deixam-no rir.

Mas antes do alfabeto damos uma lição de esdruxulos, em que não deixa de convir ensaiar o discipulo.

Nós temos, em relação á syllaba dominante, tres generos de palavras, que são:

Agudas: onde se carrega na última (ou unica) syllaba: dá, arroz, fareis.

Inteiras: onde se carrega na penultima: dado, arrozes, farieis.

Esdruxulas: onde se carrega na antepenultima: esdruxulo, penultima, última, pallida, etc.

Os francezes não teem estas melodiosas palavras. Os hespanhoes teem-nas, e com razão accentuam sempre a vogal dominante. Nós que em materia de accentos só não poupamos o h, continuamos a escrever ultima, publica, replica, e o leitor que tire pelo sentido.

Mais uma razão para darmos uma lição de esdruxulos ao principiante, que tem o sentido distrahido na decifração de caracteres, alguns tão duvidosos.

Como acima alludimos aos elementos da lingua, e é por elles que se hão de classificar as letras, ahi os damos seguindo nos toantes e soantes a ordem fónica em escala descendente, e quanto aos mudos a ordem fysiologica dos labios para a garganta. Para exercicio especialmente das maiusculas damos uma lenda vertida do francez.

Vozes á, ã, â Voz è, é, ẽ, ê, e grave í, ĩ, i gr» ó, õ, ô ú, ũ, u gr»

brace
brace
brace
brace

Inflexões Toantes rr Voz e repique de lingua.

brace
brace
brace
brace
brace
brace
brace
brace

j lingua no ceo da bôca.

z dentes cerrados.

v labio inferior pegado aos dentes de cima.

Soantes x Fôlego e lingua no ceo da bôca.

brace
brace
brace
brace
brace
brace

c dentes cerrados.

f labio inferior pegado aos dentes de cima.

Mudas m Labios pegados.

brace
brace
brace
brace

b

p

d Lingua nos dentes.

brace
brace

t

r' Lingua no ceo da bôca.

brace
brace

l

lh

n

nh

g' Lingua contrahida na garganta.

brace
brace

q

Vozes

á, ã, â Voz

brace
brace

è, é, ẽ, ê, e grave

í, ĩ, i gr»

ó, õ, ô

ú, ũ, u gr»

Inflexões

Toantes

rr Voz e repique de lingua.

j Vo» e lingua no ceo da bôca.

z Vo» e dentes cerrados.

v Vo» e labio inferior pegado aos dentes de cima.

Soantes

x Fôlego e lingua no ceo da bôca.

c Fôle»o e dentes cerrados.

f Fôle»o e labio inferior pegado aos dentes de cima.

Mudas

m Labios pegados.

brace
brace

b

p

d Lingua nos dentes.

brace
brace

t

r' Lingua no ceo da bôca.

brace
brace

l

lh

n

nh

g' Lingua contrahida na garganta.

brace
brace

q

Palavras esdruxulas

Passaro, dúvida, número, hóspede, oculo, prestimo, sabbado, médico, polvora, lagrima, pallido, célebre, lampada, timido, camara, mácula, parocho, pecego, barbaro, cáustico, último. Kilometros, relampagos, alfandegas, telegraphos. Condiscipulo, evangelico.

Alphabetos aA bB cC dD eE fF gG hH iI jJ kK lL mM nN oO pP qQ rR sS tT uU vV xX yY zZ ——————— a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v x y z ——————— A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V X Y Z

Hymno de Amor Andava um dia Em pequenino Nos arredores De Nazaré, Em companhia De São José O Deus-Menino, O Bom-Jesús. Eis senão quando Vê num silvado Andar piando Arripiado E esvoaçando Um rouxinol, Que uma serpente De olhar de luz Resplandecente Como a do sol, E penetrante, Como diamante, Tinha attrahido, Tinha encantado. Jesús, doído Do desgraçado Do passarinho, Sai do caminho, Corre apressado, Quebra o encanto; Foge a serpente; E de repente O pobresinho, Salvo e contente, Rompe num canto Tão requebrado, Ou antes pranto Tão soluçado, Tão repassado De gratidão, Duma alegria, Uma expansão, Uma vehemencia, Uma expressão, Uma cadencia, Que commovia O coração! Jesús caminha, No seu passeio; E a avesinha Continuando No seu gorgeio, Em quanto o via: De vez em quando Lá lhe passava Á dianteira, E mal pousava Não afrouxava Nem repetia, Que redobrava De melodia! Assim foi indo E o foi seguindo. De tal maneira Que noite e dia Numa palmeira, Que havia perto Donde morava Nosso Senhor Em pequenino, (Era já certo) Ella lá estava A pobre ave Cantando o hymno Terno e suave Do seu amor Ao Salvador!

FIM DA CARTILHA MATERNAL

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