QUARTA LIÇÃO
Reading edition
Os modos de começar e acabar a voz chamam-se ordinariamente inflexões e articulações, por serem como uns eixos, umas juntas da voz que lhe dão contorno e melodia. A palavra lampada, por exemplo, é muito airosa; mas tirando-lhe a parte que nella tomam a lingua, os beiços e os dentes reduz-se a um vozeio de mudo, monotono e desengraçado: ãââ.
Donde se vê que a voz é como a perola que realça no engaste; e que as inflexões, intermeando e recortando a voz, apezar da sua obscuridade não são menos preciosas na palavra que as proprias vozes. Só a voz se canta, só a voz se alteia e expande, segundo o folego e garganta de cada um, a ponto de encher um templo, de retumbar no valle do alto da montanha; pelo contrario as inflexões a poucos passos de distancia somem-se: todavia uma lingua só de vozes seria uma lingua barbara.
Ora nós já sabemos que as inflexões na escrita se representam pelas consoantes; mas em logar de haver tantas consoantes como inflexões, correspondendo a cada inflexão a sua consoante, não succede assim.
Vejamos as inflexões contínuas de quantos modos se escrevem:
f... (fé afflição phoca) f ff ph
v... (vai) v
ç... (suisso ceo aço maximo) s ss c ç x
z... (aza uso existe) z s x
x... (eixo chega ais faz) x ch s z
j... (ja geme osga) j g s
rr... (rua erro rhetorica) r rr rh
Achareis, para representar as sete inflexões continuas, vinte e duas formas que, descontando repetições, se reduzem a dezeseis; mas, destas dezeseis, sete teem diversos valores, a saber:
s c seu z uso x triste j tisna x ch eixo z existe ç proximo kç sexo c ç ceo k cai ... acto



g gelo agua ch x chefe k chimica z z zelo x fiz r era raio




Ora destas formas de valor incerto nenhuma convinha para os primeiros exercicios. Das outras, uma tem valor certo e exclusivo, que é v: as mais não teem valor exclusivo mas teem valor certo, que são f, ff, ph, ç, ss, j, rr, rh; mas embora tenham valor certo, as compostas não seria bom methodo antecipar ás simples; ç é uma letra anomala; ff comprehende-se em f. Isto tudo supposto restam v f j.
Começámos pela mais perfeita, v, que maiuscula ou minuscula conserva a mesma forma, nunca se annulla dobrando-se debalde ou escrevendo-se por amor da etymologia, tem sempre o mesmo valor e só ella tem esse valor, presta-se com as vogaes a muitas combinações familiares, e representa uma inflexão gemida, isto é, duplamente apreciavel ao ouvido do principiante pela continuidade e pela intensidade.
Do v passámos ao f, pela analogia da pronuncia. Passamos agora ao j.
Os antigos punham o valor da letra no primeiro elemento do nome que lhe davam; razoavel systema de designações principalmente para as consoantes instantaneas, que mal se podem proferir em separado sem lhes exagerar o valor. Jota e xiz são os nomes que temos n'esse genero (preferiveis a éfe éle, etc. onde a inflexão vem encravada em duas vozes dum modo obscuro); mas taes nomes constituem excepção, e impõem a necessidade de fazer distincção entre o nome e o valor, o que o alumno embora perceba facilmente, não deixa por isso de se embaraçar na prática, porque lhe occorrem as duas cousas, nome e valor. Aquellas designações antigas fundadas numa base até certo ponto filosofica, eram nomes geralmente compostos, verdadeiros nomes, com toda a melodia da lingua, sem aquella simplicidade d'algumas denominações nossas como bê, dê; por isso peores de conciliar com a soletração. Ao d, por exemplo, chamavam daleth, ao a aleph, ao l lamed. Em quantos annos chegaria o desgraçado alumno a soletrar (claro está, inconscientemente, de memoria, á força de repetições sem conto) daleth aleph lamed, dal?!
(daleth aleph lamed, Somma... dal)
Em cinco e seis annos como ainda hoje a infancia israelita; com manifesto prejuizo da sua educação logica.
Mas seria mais irracional essa soletração que por exemplo a nossa cê á, ká? Não! ao menos alli, dada a chave do enigma, descoberto o segredo, achavam-se as parcellas da somma, os elementos da syllaba á frente dos tres nomes das letras. Em cê á, ká, é impossivel perceber donde veio k, a inflexão guttural que soa na syllaba ká.
Todavia ensina-se assim a ler! Não ensinemos nós a ler assim. Chamemos ao jota j...
j já fuja veja viaja viajava