SCENA SEGUNDA
Reading edition
Margarida (só)
(Entrando por uma porta lateral e esfregando os olhos)
Safa! Que dormir tão pesado o meu! Nem que fosse uma noite d'hymeneu, A prolongar um somno de fadiga! E então, que curiosa lucta e briga Com os sonhos, os mais extravagantes... A vêr-me rodeada só d'amantes, Que disputavam a honra e primazia Da posse luxuriante d'uma Lia! Safa! Que pezadello interminavel...
(Pausa, depois da qual, repara na carta)
Olá! Temos missiva? D'um amavel D. Juan, talvez?
(Vendo a letra)
Mas não, porque esta letra Pertence ao cavalheiro que penetra No aposento. É do meu nobre senhor! Não ha duvida! Ou antes, e melhor:{8} É d'um obediente e humilde escravo!
(Lendo a carta e cynicamente admirada)
An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo! Muito bem! Apoiado! É admiravel!
(Largando gargalhada sarcastica)
Eis uma acção esplendida, louvavel!
(Sentando-se)
Coitado! Que desgraça! Pobresito, Que diz voltar em tudo bem contricto Aos braços da mulher! (rindo) sim, sim, coitado Do triste e pobre errante, transviado Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo! Vae-te menino, vae-te, que o consôlo Não me falta, acredita; pódes crêr! E lança-te nos braços da mulher, Pois que duvida? Ora essa? Porque não?
(Com sarcasmo)
Mas que parvo, irrisorio e toleirão, Não veem!? Que ridiculo ignorante, Que nem ao menos sabe ser amante! E deixa carta, sem ter a coragem De dizer que se acolhe na frondagem Da virtude!
(Reconsiderando)
Virtude! Mas que é isso?! Um nome que se torna ôco e omisso Entre nós. A virtude é ter dinheiro Que bem nos sustente o orgico viveiro, Porque amantes, se atiram para o lixo, Vindo outros que sustentem o capricho!
(Indo para sentar-se e reparando na carteira)
Ah! espera! deixou uma carteira! E tem notas! Lembrança bem certeira, Porque... emfim... é só isto o essencial P'ra presidir á nossa bachanal...
(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha).