SCENA PRIMEIRA
Reading edition
Margarida (só)
Eu a chorar! e lagrimas ardentes Deslisando nas faces reviventes De vergonha! Deus na alma! e ao coração Amor! Ao meu espir'to a reflexão! Na consciencia a revolta e o remorso Em que já me debato e me contorso!
O que é? que póde ser? A reacção Convulsionando o corpo, e a razão Subjugando-me, por demais vencida! O que é? (Pausa) É a verdade, Margarida!
Verdade?! E quem responde? Quem me falla? É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala Esta mulher aos dons da Natureza? Sim. Porque se nasceu para a baixeza, Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto E pequei, pois agora mesmo eu sinto Que para o mal o mundo me não doou. Nem Deus para a baixeza me creou! Deus, amando, só cria para amar, E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,{50} Apenas a sonhar, sim, porque alguem Sepultou do meu sonho todo o bem! Eu nasci para amar, e amei; amei Quanto pude ante a bôa e pura lei Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava, Disse-me um dia que isso não passava De um mytho, e foi-se andando na procura D'aquillo que á pobreza salva a agrura; Foi-se andando na busca de riqueza, Porque eu era pobre, e isso se despreza! E é então, é então que o meu amor Se arrebata nas garras do impudor; É então, que me afundo nas camadas Que alimentam as tristes depravadas! Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto, Que por causa de amor tão puro e santo. Busquei embriagar-me n'esta orgia, Para que o grande Deus a ninguem cria!
(Pausa)
Eu a chorar!... e lagrimas ardentes Deslisando nas faces reviventes De vergonha! Porque? E que fiz eu? Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu; Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia, E nada, nada pela inconsciencia. E porque alguem, alguem me aniquilou, Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!
(Pausa)
Eu a chorar! e lagrimas ardentes, Velando os olhos bem reminiscentes Do que vi!...
E que vi eu?... A mulher, A mulher como ella é e deve ser. Vi-a altiva e com toda a magestade Destruindo o insulto á sombra da verdade! Vi-a repudiando com nobreza Os feitos da maldade e da torpeza! Vi-a... vi-a tomando nos seus braços O fructo que proveio de devassos! Vi-a, evocando graças divinaes N'uma orchestra de sons tão maternaes P'rá criança que a minha embriaguez Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!{51} E como tudo ainda fosse pouco, Em paga d'um agir mau, vil e louco, Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus! Pedir que me enviasses lá dos céus O perdão!
Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada... Fiz... o que faz mulher desnaturada!
(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)