SCENA SEGUNDA
Reading edition
OS MESMOS E ARMINDA
Arminda
(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando dolorosamente surprehendida)
Ah!...
Henrique
(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)
Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!
Arminda
(Altivamente)
Mas que significa este atrevimento?!
Henrique
Coisa de mero e simples argumento, Não se assuste!
(Pegando n'uma das mãos de Margarida)
Apresento a minha amante...
Margarida
(Timida)
Senhor! a que se atreve!?...
Arminda
(Cruzando os braços)
Que farçante!
Henrique
Serei; no entanto, como as bôas farças Reclamam a presença de comparsas, Queira representar o seu papel, Indicando com essa alma de fel A peçonha do mal que tanto encobre Nas apparencias d'uma casa nobre!... Vamos? Queira sahir d'esse mutismo Que estampa hypocrisia e diz cynismo! Queira tirar a mascara traidora{38} E mostrar ante mim e esta senhora Como a deshonra n'este lar se fez E abunda por aqui aos pontapés!...
Arminda
(Com repugnancia)
E porque não, indigno cavalheiro! Porque não hei-de, em modo sobranceiro, Indicar-lhe o que pede no momento? Porque não hei-de dar conhecimento Ao que exige em palavras que só são Proferidas p'la bocca d'um villão! Porque não hei-de com toda a altivez, Mostrar como anda o mal a pontapés?!
(Apontando para Margarida)
Mire-se no instrumento de façanhas E d'outras mil proezas que são ganhas Na desgraça. O mal, paira por alli, E tambem d'egual fórma o veja em si, Como estigma do mais reles exemplo Da profanação d'um culto e d'um templo!
Margarida
(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a Henrique)
Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!
Henrique
Na casa de quem só rivalisou Com a miseria a outros imputada E que, insultando mesmo, toda irada, A presença das nossas entidades, O faz, creia, nas mesmas igualdades Do direito com que eu deva insultar, Da causa, que m'instiga p'ra accusar; E, se insultos se pagam com insultos, Veremos então quem profana os cultos Do bom caminho; quem mancha e arruina O que a moralidade nos ensina! Veremos então quem mais enodeia, E quem com crime e farça mais hombreia!{39}
Arminda
(Indignadissima)
É o homem que, sem brio e pundonor, Assim falla! É o biltre, cujo horror Repugna a toda, a toda a consciencia, E talvez até á d'essa existencia Que ora aqui trouxe para mais vexame Meu! É o homem preverso, mau, infame, Ultrajando o que só é digno e honesto!
Henrique
(Interrompendo)
Mas que ao mais pequenino e simples gesto Irá destruir essa honestidade Apregoada com tanta falsidade!
Margarida
(Antepondo-se)
E é já tempo, senhor, para o fazer, Visto que me pretende convencer Do que vem affirmando.
Arminda
Ouça, senhora: Creio bem que, ante força vingadora, Me encontro n'esta salla; e é bem certo Que, seja p'lo que for, eu já desperto Mais ou menos da minha inconsciencia, Para crêr que pratico irreverencia Encontrando-me n'estes aposentos. E eu então, que não tenho sentimentos Senão os que a desdita me deixou, Sinto que dentro em mim ora soou Alguma coisa sã, e não sei quê D'extranho, a confirmar a crença e fé Que ha pouco me assistia, suspeitando De que, por aqui, não anda pairando O mal...
Henrique
(Atalhando)
Mas... como assim?! Se tal suspeita, Vae muito brevemente ser desfeita Ante o espelho fiel, e reflectir...
Arminda
(Interrompendo)
Do grande soffrimento e minha dôr!{40} Mas como Deus em tudo dá coragem, Eu propria mostrarei toda a miragem Do espelho que pretende descobrir.
(Com altivez)
Mas veja bem, que só vae reflectir A verdade, e ella, saiba, que aniquilla Os infames, tornando mui tranquilla A consciencia accusada! E a verdade, Chamando os villões á realidade, Vae prostra-los na immensa confusão De crimes, sem desculpa, nem perdão! A verdade, esse grande dom do mundo, No peito dos malvados crava a fundo O punhal do castigo merecido! E ai de si, miseravel! se vencido Ficar na falsa lucta que travou! Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou A redempção, á face do mysterio Que lhe auctorisa tão cynico imperio D'insidiar, lançando-me labeus Que apenas tanto o attingem e são seus!
(Com arrogancia)
Pois bem! Perante mim, e n'este instante, Se defrontam marido e sua amante!
Margarida
(Surprehendida)
Senhora!? Que dizeis?! É seu marido Este homem que comigo tem vivido E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...
Arminda
É! Mas melhor seria que o não fosse! Vamos : Perante mim e n'este instante, Se defrontam marido e sua amante. Procurando em vilissima baixeza O mal que tão sómente a elles lhe peza! E se era meu dever escorraçar Quem se arroja e atreve a enxovalhar Com descáro, a virtude d'esta casa, Só muito antes a minha alma se empraza A repudiar bem altivamente Os instinctos de tão ignobil gente, Ordenando que fiquem, por minutos, Na expiação de feitos e seus fructos.{41}
Henrique
(Interrompendo)
Mas essa altivez, é demais, senhora, Para quem se transforma em peccadora! Essa altivez repugna por excesso, Na mulher que adoptou egual processo D'ilegitimidade em relações?!...
Arminda
(Com desprezo)
Basta! Basta d'infames allusões!
Margarida
(Antepondo-se)
Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais, Porque as suas palavras são fataes, Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras Para quem se dirigem, salvadoras P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,
(Apontando para Arminda)
Em nome da verdade occulta em dôr!
Arminda
(Surprehendida)
Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!
Margarida
(Com pezar)
Qualquer coisa da minha consciencia!
(Ouvem-se uns gemidos de criança).
Henrique
(Perturbado e levando as mãos á cabeça)
E agora falla a vós d'alta vingança Nos gemidos que solta essa criança!...
Margarida
(Subitamente e apontando para o biombo)
Senhora! Quem... quem é que chora além?!...
Arminda
É um pedaço d'alma que vil mãe Despresou!{42}
Margarida
(Cahindo de joelhos)
Ah! Meu Deus! perdão! perdão!... Porque falla agora este coração!...
Henrique
(Admirado perante a posição de Margarida)
Surprehende-me esse humilde movimento?!...
Arminda
Falla o remorso em forte sentimento!
Margarida
(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)
Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu, Duvidando de que isto fosse reu Do cynismo que tanto apregoava!...
Henrique
(Surprezo)
Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava O producto do crime e da traição?!
Margarida
Era a voz da verdade e da razão, Illuminando as trevas da mentira!
Arminda
(Interrompendo)
É a prova do mal que tanto aspira. Para me confundir n'essa torpeza Que inventou, e que sempre se despreza Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa, Bem se torna a mulher crente, e ciosa Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando Isolada p'lo pessimo desmando Do marido, mesmo inda que atirada Para o jus da vingança provocada. Orgulhosa se torna esta mulher Que, no direito d'um mau proceder,{43} Em desforço do seu procedimento, Só antes se acoberta ao sentimento Que a sã moralidade nos indica, E ao bem que tudo, tudo dignifica!
E é então o senhor, que, sem nobreza D'aquilo onde se lê, estuda e reza A melhor oração da nossa vida, Vem hoje, perante esta alma esquecida, Interrogar na mais dura exigencia Quaes as razões porque tenra existencia Se acalenta no leito de innocentes, Com meus affagos ternos e dolentes!
E é então o senhor, é o senhor, Que, aggravando inda mais a minha dôr, Vem hoje aqui no intuito de saber Porque se encontra ao lado da mulher Desposada, a criança que acalenta? E sabe porque? Sabe porque dentro D'este lar se aconchega esse vivente? Porque, sem duvida, é seu descendente!
Henrique
(Surprehendido de subito)
Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa Para suas desculpas e evasiva! Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?! Só se a este lar se dá, faculta e presta O mysierio da tal santa doutrina! Talvez! Talvez que a Graça, a obra Divina, Por aqui estendesse o puro manto, E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo, Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez O mysterio julgasse pôr-me aos pés O filho que me indica, não é assim?...
(Irado)
Ora vamos senhora! Ponha fim Á comedia tão mal representada, E diga como essa alma envenenada Concebeu a pequena creatura{44}
Arminda
(Apontando para Henrique e Margarida)
No desvario do pae e na loucura Da mãe!...
Margarida
(Levantando-se e avançando para Henrique)
Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor, Que na ancia de vingança e de rancôr, Me desfiz da creança que me deu. A mãe maldita, está aqui, sou eu, Que em cegueira da minha profissão Atirei com a nossa creação Ao sabôr dos instinctos d'esta vida. A mãe, que tem por nome Margarida, E por mister o vicio infamante, Sou eu! Esta que foi a sua amante, E de cuja união sahe oriundo Esse fructo que vê a luz do mundo. A mãe, sou eu, que na brutalidade Do meu sentir e tão baixa maldade, Apunhalou por fórma audaciosa O socego do lar, e o bem da esposa! A mãe senhor, sou eu, esta mulher, Que um pedaço de carne faz viver P'ra orgia, palpitando em sangue vil! A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil Clientes de tão indigna alla mundana, E que, vivendo sob a fórma humana, Só renegam os dons da Natureza Por bem degeneradas em baixeza! A mãe sou eu, que tal nome invocando, Se affronta um predicado venerando. Alma não a tenho; odios ha alguns; Nada d'amor e meritos nenhuns. A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...
Henrique
(Mal comprehendendo a situação)
Margarida! Que diz?!...
Margarida
Digo, senhor,{45} A primeira verdade em minha vida; Digo que essa criança foi nascida Das nossas relações, e existe aqui, Em virtude do mal com que eu agi. É minha filha! e sua o é tambem, Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!
Henrique
(Attonito)
É minha filha?! Mas então... então... O que se fez da minha sã razão?!...
Arminda
(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a ficar visivel o interior aos personagens)
De ha muito anda perdida.
(Apontando para a criança)
E aqui tem Os espinhos da estrada d'onde vem!
Henrique
(Approximando-se um pouco)
Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita? Sim! é ella! Mas, como se acredita Tudo isto?!
Margarida
Pela fórma com que obrei Em face d'esta nossa infame grei.
Henrique
(Encolerisado e avançando para Margarida)
Porém, com que direito me levou A proclamar um crime que tramou?
Margarida
(Humilde e avançando um pouco)
Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê, Que nós obramos sem alma nem fé. Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá O que fiz? Foi apenas o que dá Esta vil creatura! Foi sómente A pratica d'um acto inconsciente!...{46}
Arminda
(Interrompendo)
E que, talvez, por essa inconsciencia, Um porvir se consiga da innocencia...
(Apontando para o berço)
Descança ella no leito que lhe dei, Embalada p'la dôr que alimentei. E nas minhas canções, mesmo chorando, A pouco e pouco irei sempre insuflando A redempção. Depois, quando mais tarde, Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde E d'esta virgindade faça alguem, Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.
(Approximando-se do berço)
Vejam? Sonha decerto na ventura Que o acaso lhe trouxe, e na candura Do berço onde dormita! Berço pobre De brocados, mas rico, rico e nobre Do bem! Sonha decerto na esperança Com que se entrega á minha confiança: Sonha, quem sabe? na libertação Da cadeia que traz humilhação!...
Margarida
(Avançando e exclamando)
Minha filha! Meu Deus! Grande verdade! É a isto que se chama honestidade?
Arminda
(Continuando, emquanto Henrique fita a creança succumbida)
Vejam?! E era, era então este senhor, O grande, o grande espelho reflector Do meu crime?!
(Vendo que Henrique emudece)
Ande? Diga? accuse e insulte, Para que todo o mundo veja e ausculte A farça attribuida! Vamos, falle? Porque emudece?
(Apontando para a creança)
Tem aqui o mal, E é ante elle que deve demonstrar O cynismo, a baixeza d'este lar, E tudo o mais que omitto, occulto e callo!{47}
Henrique
(Timido e a custo)
Fallar? Eu... eu... senhora?
(Com pausa)
Sim, eu fallo... Eu vou fallar, consente?...
Arminda
(Altiva)
Porque não?!
Henrique
(Curvando-se humilde)
Pois fallarei! (pausa) Perdão!
Margarida
(Cahindo de novo aos pés de Arminda)
Perdão! Perdão!
Arminda
Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!
Henrique
Do remorso que assiste, e se antevê!
Margarida
P'la crença, de que abjuro e reneguei P'ra sempre o caminho em que me abysmei.
Arminda
(Levantando os olhos para o ceu)
Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia, Venha a vossa infinita miser'cordia!
CAHE O PANO
Fim do segundo acto
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