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A Nuvem

SCENA PRIMEIRA

Reading edition

Arminda (só)

... E vinte!... O indispensavel enxoval P'ra essa creança, que é filha do mal! Apenas o preciso p'ra o conchego Do ente, que, desvario tolo e cego, Arrumou para o mundo, e que o destino Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino Deus! A vossa vontade seja feita! E a mulher, que a desdita sempre espreita, Curva-se ante o poder d'essa grandeza, Que a ella me ligou e me traz preza!

(Com dôr)

Um pequeno enxoval, mas sufficiente Para poder cuidar d'esse innocente Que a vil libertinagem engeitou! Que a infamia, por onde só errou{14} A vida impura, incasta e illegitima, Trouxe aos portaes da sua triste victima!

(Affastando-se da meza)

E que havia a fazer?... Repudiar O fructo da loucura?... Regeitar A offerenda, que, quem sabe? foi Deus A salva-la do mar, dos escarceus Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem A doa-la aos carinhos d'outra mãe! Que havia de fazer? Tornar-me ré Da deshonra, e com simples pontapé Exclamar:--Vae, vae para a sociedade Em que se mancha e perde a honestidade! Vae tambem corromper-te em sacrificio D'essa libertinagem, e do vicio! Não! Não! Ninguem me dá esse direito, Que apenas crearia mais um leito Na impudica mansarda da baixeza! Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza. Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede, Nem jámais a minha alma diz e pede Que lance p'ra mizeria e para o crime Uma outra alma que d'elle se redime!...

(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução)

Fica, pobre creança! Assim o quero Fica, porque eu respeito e mui venero O que o destino dá.

(Com pausa e sentimento)

Elle predisse, Em leis, que essa cruel libertinice D'um marido não tinha o grave jús De arrumar-te, impiedosa, para o púz Virulento d'infame corrupção!

(Curvando-se sobre o berço)

Fica sim! Tens aqui um coração Repleto de carinho e sentimento! Fica no lar, que, como deserta ilha, Escolhos cerca! Fica, és minha filha!... E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo. Fica creança, fica... Eu te abençôo!

(Sentando-se junto do berço)

E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva, Do gérmen d'essa orgia productiva!

(Pausa){15}

Não quiz Deus dar-me um filho que pedia, E que n'este deserto tanto urgia, Para que n'um momento, n'um instante. Tenha d'acalentar o que é da amante! Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...

(Pausa)

Marido... foge ao lar por onde a fé Do amor pode ser a unica sincera... E lá vae, lá vae elle como a féra Viciada, em procura do covil, Onde recebe o goso d'essas mil Desgraçadas sem alma, sem consciencia! Lá vae elle, deixando esta innocencia Do altar que a pura Egreja solidou, Em troca do que nunca, nunca amou; Porque amar, nunca e nunca sabe, quem Se ausenta de tão santo amor de mãe! Lá vae, lá anda n'essa podridão Que rouba o sentimento e a razão! Que destroe, injuría e enxovalha, Que infecta, que corrompe, prende e emalha A noção do respeito p'lo dever! Lá anda n'esse impudico prazer, Cujas garras tão vis, cynicamente Arrebatam do puro e casto ambiente Todo esse bem, que n'elle se creara; Cujas garras, de força bruta, avára. Arrebatam do lar santificado O descanço e o bem que lhes é dado! Lá anda, lá vegeta no monturo Mais ignobil, mais baixo, mais impuro, Que a desgraça creou, sustenta e nutre; Filando com intuitos só de abutre, E attributos de farça e d'ironia, As prezas de tão grande vilania! Vilania,--que em seu lubrico espasmo, Chasqueia da virtude, com sarcasmo, Ri da fé, desvirtua a honestidade, Deprava o sentimento e a dignidade. Insulta, zomba e rasga sem respeito O véu do precioso preconceito! Suja, quebra, dissolve e inutilisa, Macúla, estraga e já esterilisa A pureza e o brilho do que é são! Abala, derrue, prosta em confusão,{16} Det'riora, desfaz, calca e elimina A graça do bom lar, graça Divina!...

(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando dolorosamente)

E foi... foi assim que essa vilania Me roubou o socego e a alegria! Foi assim, assim, que ella aqui entrou, E que de mim se riu e só zombou!

(Encosta-se sentidamente ao berço)

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