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A Nuvem

SCENA PRIMEIRA

Reading edition

HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA

Henrique (só)

«Corre um anno de vida desgarrada Que sempre tem levado o teu amante, E outra vida, decerto, attribulada, Suavisar, se procura, n'este instante. Vou partir, Margarida, e sê feliz; Porque emfim, cêdo apenas a um esforço De sentimento são; e ás almas vis Cabe-lhe sempre o premio do remorso! Adeus! E vae fazendo o que poderes Para esquecer este homem transviado Do trilho, da conducta, e dos deveres! Adeus! A nada mais sou obrigado!»

(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)

Sim! sim! jámais podéra ser possivel Combater contra a minha reflexão! E depois, que diabo! não é crivel Mudar-se o santuario da união Pelo louco viver do mundanismo; Não, não é crivel ter a vida assim,{6} E salvar-me, procuro, d'este abysmo, Quando, demais, alguem soffre por mim!

(Pausa e reflectindo depois)

De facto, Margarida tem encantos, Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente Que a tornam fascinada só de quantos A pretendam gosar satyramente! Goso estupido, goso só brutal, Que nos converte em féras, ou ainda N'um ente desprezivel e anormal!

(Pausa, exclamando depois com sentimento)

E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda, Levado na corrente d'esse imperio!

(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)

Oh! rosto tão suave de mulher! Perfil tão nobre, tão grande, tão sério, Como não será muito o teu soffrer! Semblante de bondade, a contrastar Com falsos attractivos de mundanas! Aqui, traços de paz bem salutar,

(Em meditação)

N'aquellas... linhas torpes e profanas! Rosto meigo que outr'ora me prendeu, A elle regresso, a elle vão meus passos, E crê que vou guiado pelo ceu, Buscando, d'amizade, os santos laços.

(Beijando o retrato e levantando-se de subito)

Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho! Nem me lembrava d'esse poderio!... Foi a fatalidade do meu trilho, E complemento do meu desvario... Comtudo, não importa, porque em suma,

(Conformando-se)

É producto de falsas relações Que se dissolvem, qual tenue espuma... Existe uma creança; mas razões Me forçam a esquece-la já tambem.

(Tirando do bolso uma carteira)

Concedendo dinheiro em abundancia Para que Margarida, como mãe, Provenha ao alimento dessa infancia.

(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta lateral){7}

Coitadita da pobre creancinha!... A dormir!... Tem nos labios um sorriso...

(Atirando-lhe um beijo)

Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...

(Retirando-se a custo)

Custa-me... mas então? Se me é preciso! E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro, Que farei tudo quanto fôr humano Para vellar por ella no futuro!

(Pausa, depois da qual, com coragem)

Vamos!

(Parando e com desalento)

É bem profundo o desengano!

(Pegando no chapeu)

De resto, casa, orgia... tudo ahi fica... E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto, Onde, só de virtude, a vida é rica, E onde chego humilhado e bem contricto!

(Sae rapidamente).

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