← Table of contents
A Nuvem

SCENA SEGUNDA

Reading edition

ARMINDA E HENRIQUE

Henrique

(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e penetrando a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz).

Ninguem!... Sómente a paz religiosa Da verdade!... Só graça harmoniosa Da virtude!... Sómente o ar suavissimo Do bem!... O perfumado e o dulcissimo Aroma a castidade.. que trahi!...

(Respirando desafogadamente)

Ah! Como se respira bem aqui!... Deixai-me que, aspirando a longos tragos O balsamo do amor e dos affagos, Eu bem me purifique no sacrario Que envolve o precioso relicario Do natural, do justo, do acceitavel!

(Suspirando de novo)

Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel A realidade!

(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e se não ouvem um ao outro)

Arminda

(Parecendo despertar dum sonho)

E tudo, só tudo isto, Se me afigura um sonho!...{17}

Henrique

(Olhando para o ambiente)

Além, um Christo, Em expressão suavissima, a espargir Bondade, a abençoar, a redimir!

Arminda

(Olhando para a creança)

Coitada! Que destino o teu seria!?

Henrique

(Continuando a reparar em tudo)

Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria, Recebendo o amor em seus ternos braços.

Arminda

(Descobrindo o rosto da creança)

E em verdade, verdade, muitos traços D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...

(com ternura)

Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!

Henrique

(Voltando-se para a meza)

Aqui, vejo uma cesta com roupinha...

Arminda

(Continuando a examinar a creança)

E também se parece esta boquinha Bem rosada...

Henrique

(Analysando a roupa)

Enxoval d'uma creança, Posto em disposição cuidada e mansa.

Arminda

O narisito não. Destôa um pouco Do perfil d'esse mau e d'esse louco...{18}

Henrique

(Pegando em algumas peças de roupa)

Chambrinhos e babeíros; camisinhas...

Arminda

(Descobrindo a creança)

São perfeitos os braços e as perninhas...

Henrique

(Continuando a analysar a roupita)

E outra tanta roupinha de petiz,

(Admirado)

Decerto, para algum ente feliz, A quem Arminda serve de madrinha.

Arminda

(Cobrindo a creança)

Pobresita! Afinal és isentinha Do peccado...

Henrique

(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)

Ella é meiga e caridosa... É tão 'smoler, é tão affectuosa Para os pobres...

Arminda

(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente sahindo do biombo para entrar na salla e exclama)

Meu Deus! Meu bom Senhor! P'la Infinita vontade e grande amor,

(Sahindo do biombo)

Ahi fica, ahi fica essa creança, Que n'este triste abrigo a sorte lança...

Henrique

(Avançando, surprehendido, para Arminda)

Senhora!...{19}

Arminda

(Recuando atonita)

Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?

Henrique

(Suffocado)

Buscar essa amizade que perdi...

Arminda

(Surprehendida e admirada)

An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!

Henrique

(Avançando um pouco)

No saudoso ambiente d'esta cella!

Arminda

(Cada vez mais surprehendida)

O quê?! Aqui?! Decerto se enganou, E sem duvida, creio, a porta errou. Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...

Henrique

Abrigar-me ás caricias da mulher...

Arminda

(Profundamente admirada)

Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu Que o senhor se enganou, e qual judeu Errante, anda passando em falsa estrada, Illudindo-se ao certo na morada!

Henrique

(Avançando mais)

Arminda!...

Arminda

Ah! sim, sim! É esse o meu nome; Porém, tal coincidencia não assome{20} O direito de crer-me quem procura; E revella sómente muita uzura, Imaginar, que cá, por este mundo, Esse nome de mim seja oriundo!... Sim! Armindas ha muitas, acredite, E tantas, tantas, que bem me permitte Repetir quanto falham seus caminhos!...

Henrique

(Com sentimento)

Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos. Senhora!...

Arminda

(Impaciente)

Vamos! Vamos! Que deseja?

Henrique

(Contricto)

Confessar uma culpa que me peja. E se ha muito, se ha muito ando perdido, Bem penitente aqui tem seu marido!...

Arminda

(Com repugnancia)

Que diz o senhor?! Meu marido?!...

Henrique

(Corajoso)

Sim, E n'essa qualidade eu aqui vim...

Arminda

(Com serenidade)

E como tal pretende apresentar-se?!...

Henrique

Se dá licença?...

Arminda

(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma cadeira)

Então! Queira sentar-se.

(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa){21}

Com effeito... e em verdade, ideia tenho De que alguem, com astucia e muito engenho, Um dia conseguiu vêr-me no altar Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar Tal acto ou sacramento d'evangelhos, Ante um homem dobrei os meus joelhos! Então... padre d'aspecto venerando, As orações do rito foi rezando, Emquanto duas almas se fundiam Á lei de Deus, e dois peitos se uniam Ao regimen da mais pratica escola! Deram-se as mãos; depois, a branca estóla As cobriu, invocando o juramento Que firmaria o Santo Sacramento!

(Descançando)

E jurámos, jurámos n'esse exemplo, Que nos manda crear o bello templo Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto Sómente a guarda e abrigo d'um affecto! É mais, que de sublime, tem o vulto! É n'elle edificar paz, honra e culto!

E assim, bem se jurou mais egualmente Que, obreiros de castissimo ambiente, Erigissem alli, em devoção, O respeito, dever, religião!

(Pausa, depois proseguindo)

Realmente, senhor, lembra-me que um dia, Quando sã madrugada alvorescia Toda em perfumes, canticos e flôres, Alguem, que de mim tinha por amores, O symbolo d'aliança me entregava, E em meu peito dizia que se achava! Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor, Tão lindo despertar, tão lindo alvôr Da pura realidade dos meus sonhos, Feitos de beijos castos e risonhos, De melodias suaves e plangentes!

(Com mais vida, erguendo-se)

Se me lembra a manhã em que dois entes, Deleitados na força da paixão, Se uniam em solemne sagração D'um tributo!...

(Pausa, depois com magua){22}

Recorda-me... Entoava O orgão religiosos sons! Resava Por assim dizer preces ao Bom Deus Pelo bem de sagrados hymineus. E que sons! E que sons tão inspirados Na graciosidade d'uns noivados! Que harmonia e conjunctos fervorosos, Embalando a união de dois esposos! Que accordes, que hymnos tão sentimentaes, Incensando d'amor uns esponsaes!... Sim!... Recordo em verdade o sorridente Dia, e conservo ainda bem presente Toda a felicidade que senti!...

(Pausa e apontando a porta de fundo)

Olhe... repare... foi... foi por ali Que eu entrei com soberba magestade, Envolta no meu véu de virgindade! Foi por ali que entrei; e junto a mim Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»

Henrique

(Levantando-se e interrompendo-a)

E esse noivo, senhora, era...

Arminda

(Atalhando)

Era alguem, Que na ambição de posse que se tem, N'essa grande ambição a que se aspira, Julgou depois que tudo era mentira, Falsidade, illusão, tolice e asneira! Era alguem, que fitando em pasmaceira A vitrine d'objecto precioso, Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso, Exagerára as suas qualidades, E se precipitara nas vontades!

Henrique

(Pretendendo interrompel-a)

Mas, senhora...

Arminda

(Atalhando-o)

Não queira ter o arrojo De desmentir-me, pois qual, qual estojo,{23} A guardar um brilhante lapidado, Assim foi e era o meu véu de noivado; Assim foi o meu véu, que descoberto, Lhe mostrou, afinal, o que de incerto Era o seu pensamento em ideal...

Henrique

(Interrompendo)

Mas hoje, o positivo e o real...

Arminda

(Impondo silencio)

Nada d'interrupções! Estou fallando, E desejo ir a pouco demonstrando O meu sentir. Dizia eu ha bocado Que, tal como brilhante lapidado, Era a mulher sahida da innocencia Para o mundo da prova e exp'riencia. E... e senão, vejamos! Em geral, Tem a mulher encanto natural, E attracções de que muito foi dotada; Mas quando pretendida, quando amada, Eil-a que se transforma em maravilha, E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!... Anjo do ceu, que assim tanto seduz, Astro de fé, de vida, d'alma e luz; A guia, o norte, a briza perfumada. A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada, Tudo, emfim, de tal modo concebida, De tal maneira olhada e percebida, Que um Velasques, Murillo ou Raphael Jámais produziriam do pincel Inspiração egual! Mas, como as flôres Que em jardim vão brotando de mil côres, A ellas bem se assemelham as mulheres.

Cravos, jasmins, tulipas e outros seres Que da especie Deus pôz em geração, Um ha que nos merece distincção, E para elle vae vista attenciosa.

D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa, Pela côr e finura de formato; Aroma que daria suave extracto, E viço tal, que lagrimas d'orvalho{24} Pousando-lhe com arte e lindo talho, De perolas, imita, collar fino, A guarnecer um collo alabastrino!

Elegancia suprema, ar donairoso, A rosa attrahe olhar ganancioso: E com motivo, pelo mundo inteiro Lhe chamam a rainha do canteiro!

Admira-se, contempla-se a belleza Que a nossos olhos deu a natureza! Pasma-se em fascinante adoração Absorvendo o producto, a creação Genial! E depois, não resistindo Ao desejo de ter o fructo lindo, Corta-se o encanto, o iman attractivo, Para figurar qual decorativo N'uma jarra de Sevres, ou crystal!

Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!... A pobresita já dias após Não escutava nem ouvia a voz Da admiração! E ha pouco despresada, Sem carinhos, de todo abandonada, Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba! Nem sequer o perfume que exhalava Vem recordar a sua contextura! Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...

(Com desalento)

Assim é a mulher que s'enaltece: Tambem se apaga, cahe e desfallece...

(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)

Henrique

Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir A voz de quem pretende redimir Os erros de uma vida attribulada...

(Redobram os vagidos da criança)

Arminda

(Procurando affastar-se)

Não posso! Veja que outra vida brada Pela minha presença, e bem m'incute{25} Um dever! Veja! attenda? escute, escute Os vagidos d'aquelle innocentinho Pedindo o meu conforto e meu carinho!

Henrique

(Attonito e escutando)

Os vagidos!? Os choros de criança?!...

(Confuso)

Mas, minha senhora!

Arminda

(Interrompendo)

É uma herança, Que chama os meus cuidados!

Henrique

(Inquieto)

Mas perdão! Apenas um minuto d'attenção!

(Em confusão d'ideias)

Aquelle choro!... tão infantil!... Traduz-me a existencia de um ardil!... Espere: Espere?

(Avançando)

Arminda

Diga, mas depressa, Pois que aquelle lamento jámais cessa Sem ternuras de mãe!

Henrique

(Atalhando)

Senhora!

Arminda

(Cruzando os braços)

Que ha?!...

Henrique

(Aparentando soffrimento)

O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná... Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?! A que data, a que data, sim, se liga O nascimento d'esse seu vivente?{26}

Arminda

(Impassivel)

Tem seis mezes approximadammte!...

Henrique

(Muito surprehendido)

An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!

Arminda

A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...

Henrique

(Dolorosamente invocando a memoria)

Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia Não condiz com a minha grande ausencia Desta casa! Senhora! Por quem e? Veja o que em meu semblante já se lê, Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno Me ausentei... E esse filho... é...

Arminda

(Interrompendo)

É profano!...

Henrique

(Avançando de punhos cerrados e exclamando)

Ah!...

Arminda

(Imperiosa)

Suspenda! suspenda, desgraçado! Que não tremo ante o facto consumado! Suspenda, porque não me atemorisa A ira de quem adopta por divisa A infamia! Pare, pare, não avance, Que não vacilarei em frente ao lance Despotico de tão vil caminheiro Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro, Suspenda, porque não tremo perante Affirmar... que esse filho...

Henrique

(Interrompendo)

É?...{27}

Arminda

(Altiva)

D'um amante!...

Henrique

(Interrogando)

E a mãe!...

Arminda

É a mulher que deshonrou O nome d'um marido, que aviltou A dignidade dum sêr conjugal, E se lançou para esse lodaçal Da miseria humana! É a mulher Que na loucura d'orgico praser Se lançou ao enxurro da corrente, Vestal indecorosa e deprimente!...

Henrique

(Interrompendo, e convencido de ser victima de cilada)

É a mulher, que, sem honra e vergonha, Buscou a aviltantissima peçonha Da desforra cruel, não é verdade? A mulher que, perdendo a dignidade, Em troco de torpissima vingança, A mostra, com a prova da creança Existente no lar, que de novo ora Procuro. Que se não vexa, nem cora, Com a pratica d'um crime aviltante; A mulher que na sêde devorante De debitar affrontas, só reclama A moeda emprestada, e a si chama O direito d'um plano indecoroso, Pagando-se com acto vergonhoso; Atirando-me ao rosto grave insulto, E corrompendo todo, todo o culto Que deve ter-se pela honestidade! A mulher que despresa a probidade, E que na hora da minha reflexão, Aponta esse signal de corupção, Como atroz vilipendio e atroz injuria! É a mulher ardendo em odio e furia Vingativa, sem alma, sem nobresa, Sem outro qualquer dom de que se presa A sociedade, pois não é assim?{28} É a mulher que jura contra mim A guerra, de, a façanha, outra façanha, E que em descaramento me arreganha Os dentes da villesa e da traição! A mulher que transforma o coração Em veneno odioso e repelente, Para em dado momento, e ardilmente, O injectar em minha alma, proclamando Um feito immoralissimo e execrando! A mulher que s'isenta do civismo E logo se mascara do cynismo Que ultraja, sem que ao menos se recorde Que a raiva que inocula, quando morde, Encerra sempre o virus e o microbio Para sua deshonra e seu oprobio! É a mulher, emfim, que, sem virtude, A taes proezas tão vilmente allude! A mulher, que tal nome não merece, Quando só se desprende e só se esquece Do fim para que fôra concebida! É a mulher, em suma, confundida Na escoria da miseria, que profana, Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...

Arminda

(Interrompendo)

Ora nem mais, diz bem! É essa mesma: É essa tal, o monstro, essa abantesma Que descreve, acredite? É essa, é essa Misera que se expõe e que confessa...

Henrique

(Interrompendo)

O proceder infame d'uma esposa!

Arminda

(Interrompendo indignada)

É lá! Suspenda a phrase rancorosa, E não se atreva, não se atreva a tanto! Falla-se da mulher, saiba; porquanto, A esposa, está aqui, embora diga Que deixou de o ser, para quem se abriga No mal.{29}

Henrique

(Furioso)

E a senhora? Onde se abrigou?

Arminda

(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, cahindo de bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo todos os movimentos.)

N'esta vida que Deus me destinou!

Henrique

(Crusando os braços)

Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes Que se abriga ao producto d'uns amantes! Que se abraça á tristissima irrisão Da mais adulterina concepção! Diga antes, que se acolhe na sentença Que me fôra ditada; e que em presença D'esse escarneo, se prova a hediondez D'um crime, que a vingança traz e fêz! Diga-me, antes, senhora, que aconchega O fructo que a immoral lhe deu e lega Como espelho constante de traição, Como sobrio reflexo da illusão Em que cahi!...

Arminda

(Levantando-se e enchendo-se de coragem)

Pois seja! Assim o diga!... Esta creança...

Henrique

(Interrompendo)

O insulto!...

Arminda

(Interrompendo)

É o castigo!

Henrique

(Recuando e disposto a sahir)

Passe Vossa Excellencia muito bem Minha Senhora!!

(Apontando para a porta){30}

Aquella porta, tem O condão de se abrir ante a passagem D'este tão illudido personagem; E se aqui vim, buscando honestidade, Convicto saio e vou, da falsidade Com que ella se proclama e annuncia! Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia, Variando sómente em sociedade; Porquanto; se lá fora a indignidade Se expõe, aqui se occulta no cynismo Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo, Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo Ante o revoltantissimo sarcasmo Que preside á mudança d'este lar No mais indecoroso lupanar!

Arminda

(Revoltadissima)

E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor, Do biltre que, sem honra e pondonor, Se arroja a censurar, altivamente, A esposa que despreza infamemente!

(Altiva, apontando-lhe a porta)

Saia! Que jámais tem auctoridade Para insultar, quem só na indignidade Vagueia e lá procura o seu viver!

Henrique

(Altivo)

Mas eu sou homem!

Arminda

(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae recuando para sahir)

E eu... eu sou mulher!

(Indica-lhe a porta)

Fim do primeiro acto

{31}

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings