← Table of contents
Triste Fim de Polycarpo Quaresma

LIMA BARRETO

Reading edition

Autor de "ISAIAS CAMINHA"

TRISTE FIM DE POLYCARPO QUARESMA

Typ. "Revista dos Tribunaes"

RUA DO CARMO, 55

RIO DE JANEIRO

1915

A João Luiz Ferreira Engenheiro Civil

Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l'homme supérieur, c'est que, si l'on y transporte les principes de l'idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort souvent l'homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l'égoisme ou la routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle

INDICE

Primeira Parte Capitulo I. A LIÇÃO DE VIOLÃO II. REFORMAS RADICAES III. A NOTICIA DO GENELICIO IV. DESASTROSAS CONSEQUENCIAS DE UM REQUERIMENTO V. O BIBELOT Segunda Parte I. NO «SOCEGO» II. ESPINHOS E FLORES III. GOLIAS IV. «PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ» V. O TROVADOR Terceira Parte I. PATRIOTAS II. VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO III. ...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS... IV. O BOQUEIRÃO V. A AFILHADA

PRIMEIRA PARTE

I A LIÇÃO DE VIOLÃO

Como de habito, Polycarpo Quaresma, mais conhecido por major Quaresma, bateu em casa ás 4 e 15 da tarde. Havia mais de vinte annos que isso acontecia. Sahindo do Arsenal de Guerra, onde era sub-secretario, bongava pelas confeitarias algumas fructas, comprava um queijo, ás vezes, e sempre o pão da padaria franceza.

Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de fórma que, ás 3 e 40, por ahi assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pizar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S. Januario, bem exactamente ás 4 e 15, como se fosse a apparição de um astro, um eclypse, emfim um phenomeno mathematicamente determinado, previsto e predito.

A vizinhança já lhe conhecia os habitos e tanto que, na casa do Capitão Claudio, onde era costume jantar-se ahi pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona, gritava á criada: «Alice, olha que são horas; o Major Quaresma já passou».

E era assim todos os dias, ha quasi trinta annos. Vivendo em casa propria e tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos seus recursos burocraticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.

Não recebia ninguem, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortez com os vizinhos que o julgavam esquisito e misanthropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a unica desaffeição que merecera, fôra a do Dr. Segadas, um clinico afamado no lugar, que não podia admittir que Quaresma tivesse livros: «se não era formado, para que? Pedantismo»!

O sub-secretario não mostrava os livros a ninguem, mas acontecia que, quando se abriam as janellas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.

Eram esses os seus habitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava commentarios no bairro. Além do compadre e da filha, as unicas pessoas que o visitavam até então, nos ultimos dias, era visto entrar em sua casa, tres vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pallido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitavel! que seria?

E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá p'ra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janella aberta do exquisito sub-secretario.

Não foi inutil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o pinho na posição de tocar, o major, attentamente, ouvia: «Olhe, major, assim». E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre adduzia: «é ré, aprendeu».

Mais não foi precizo pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério mettido nessas malandragens!

Uma tarde de sol—sol de Março, forte e implacavel—ahi pelas cercanias das quatro horas, as janellas de uma erma rua de S. Januario povoaram-se rapida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do General vieram moças á janella! Que era? Um batalhão? Um incendio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça, baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.

É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuario não lhe escondia inteiramente as formas. Á vista de tão escandaloso facto, a consideração e o respeito que o major Polycarpo Quresma merecia nos arredores de sua casa, diminuiram um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Elle, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição.

Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguem ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detraz das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se elle quizesse ir á alma da pessoa ou da cousa que fixava.

Comtudo, sempre os trazia baixo, como se guiasse pela ponta do cavaignac que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de panno listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita, segundo um figurino antigo de que elle sabia com precisão a epocha.

Quando entrou em casa, naquelle dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:

—Janta já?

—Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje comnosco.

—Polycarpo, você precisa tomar juizo. Um homem de idade, com posição, respeitavel, como você é, andar mettido com esse seresteiro, um quasi capadocio—não é bonito!

O major descançou o chapéo de sól—um antigo chapéo de sól, com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madreperola—e respondeu:

—Mas você está muito enganada, mana. É preconceito suppor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuina expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ella pede. Nós é que temos abandonado o genero, mas elle já esteve em honra, em Lisboa, no seculo passado, com o padre Caldas, que teve um auditorio de fidalgas. Beckford, um inglez notavel, muito o elogia.

—Mas isso foi em outro tempo,—agora...

—Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionaes...

—Bem, Polycarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.

O major entrou para um aposento proximo, emquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veiu para a bibliotheca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descançando.

Estava num aposento vasto, com janellas para uma rua lateral, e todo elle era forrado de estantes de ferro.

Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquella grande collecção de livros havia de espantar-se ao perceber o espirito que presidia a sua reunião.

Na ficção, havia unicamente autores nacionaes ou tidos como taes: o Bento Teixeira, da Prosopopéa; o Gregorio de Mattos, o Basilio da Gama, o Santa Rita de Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionaes ou nacionalizados de oitenta p'ra lá faltava nas estantes do Major.

De Historia do Brasil, era farta a messe: os chronistas, Gabriel Soares, Gandavo; e Rocha Pitta, Frei Vicente Salvador, Armitage, Ayres Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschitchte von Brasilien), Mello Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Warnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Stade, o Jean de Lery, o Saint-Hilaire, o Martius, o principe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassis, Couto Magalhães e se encontravam tambem Darwin, Freycinet, Cook, Boungainville e até o famoso Pigafetta, chronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses ultimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.

Alem destes, havia livros subsidiarios: diccionarios, manuaes, encyclopedias, compendios, em varios idiomas.

Vê-se assim que a sua predilecção pela poetica de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediavel ignorancia das linguas literarias da Europa; ao contrario o major conhecia bem soffrivelmente francez, inglez e allemão; e se não falava taes idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espirito, no forte sentimento que guiava sua vida. Polycarpo era patriota. Desde moço, ahi pelos vinte annos, o amor da patria tomou-o todo inteiro. Não fôra o amor commum, palrador e vasio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições politicas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remedios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.

Não se sabia bem onde nascera, mas não fôra de certo em S. Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quizesse encontrar nelle qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predilecção por esta ou aquella parte de seu pai tanto assim que aquillo que o fazia vibrar de paixão não eram só os Pampas do Sul com o seu gado, não era o café de S. Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a belleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Affonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o impeto de Andrade Neves—era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrellada do Cruzeiro.

Logo aos dezoito annos quiz fazer-se militar; mas a junta de saude julgou-o incapaz. Desgostou-se, soffreu, mas não maldisse a Patria. O Ministerio era liberal, elle se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a terra que o viu nascer. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exercito, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.

Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de kilos de polvora, de nomes de fuzis e termos technicos de artilharia, aspirava diariamente aquelle halito de guerra, de bravura, de victoria, de triumpho, que é bem o halito da Patria.

Durante os lazeres burocraticos, estudou, mas estudou a Patria, nas suas riquezas naturaes, na sua historia, na sua geographia, na sua literatura e na sua politica. Quaresma sabia as especies de mineraes, vegetaes e animaes, que o Brasil continha; sabia, o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras hollandezas, as batalhas do Paraguay, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminencia do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns kilometros ao Nilo e era com este rival do seu rio que elle mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo.

Havia um anno a esta parte que se dedicava ao tupy-guarany. Todas as manhãs, antes que a «Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Phebo», elle se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guarany ó mâs bien tupy, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo noticia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não sei sabe porque em chamal-o—Ubirajára. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assignar o ponto, distrahido, sem reparar quem lhe estava ás costas, disse em tom chocareiro: «você já vio que hoje o Ubirajára esta tardando».

Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua illustração, a modestia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que o alcunha lhe era dirigido, não perdeu a dignidade, não prorompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no ar e respondeu:

—Sr. Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridiculo aquelles que trabalham em silencio, para a grandeza e a emancipação da Patria.

Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os empregados deixavam as bancas, transmittir aos companheiros o fructo de seus estados, as descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionaes. Um dia era o petroleo que lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de arvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Matto-Grosso; outra, era um sabio, uma notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela chorographia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegavel, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz ás nascentes. Elle amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indifferentes. Pequenas talvez...

Os collegas ouviam-no respeitosos e ninguem, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor objecção, a avançar uma pilheria, um dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: «Este Quaresma! que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa».

E desse modo elle ia levando a vida, metade na repartição, sem ser comprehendido, e a outra metade em casa, tambem sem ser comprehendido. No dia em que o chamaram de Ubirajára, Quaresma ficou reservado, taciturno, mudo, e só veiu a falar porque, quando lavavam, as mãos num aposento proximo á secretaria e se preparavam para sahir, alguem suspirando, disse: «Ah! Meu Deus! Quando poderei ir á Europa»! O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: «Ingrato! Tens uma terra tão bella, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de principio ao fim!

O outro objectou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com estatisticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima calumniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...

Era assim o major Polycarpo Quaresma que acabava de chegar á sua residencia, ás 4 e 15 da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, excepto aos domingos, exactamente, ao geito da apparição de um astro ou de um eclypse.

No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aquelles que têm ambições politicas ou de fortuna, porque Quaresma, não as tinha no minimo grau.

Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua bibliotheca, o major abriu um livro e pôz-se a lel-o á espera do conviva. Era o velho Rocha Pitta, o enthusiastico e gongorico Rocha Pitta da Historia da America Portugueza. Quaresma estava lendo aquelle famoso periodo: «Em nenhuma outra região se mostra o céo mais sereno, nem madruga mais bella a aurora; o sol em nenhum outro hemispherio tem os raios mais dourados...» mas não pôde ir ao fim. Batiam á porta. Foi abril-a em pessoa.

—Tardei, major? perguntou o visitante.

—Não. Chegaste á hora.

Acabava de entrar em casa do major Quaresma o Sr. Ricardo Coração dos Outros, homem celebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno suburbio da cidade, em cujos saráos elle e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de Duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a extensão dos suburbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa propria a elles. Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas ahi qualquer, um capadocio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um artista a frequentar e a honrar as melhores familias do Meyer, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do Tenente Marques, do Dr. Bulhões ou do seu Castro, a sua presença era sempre requerida, instada e apreciada. O Dr. Bulhões, até, tinha, pelo Ricardo uma admiração especial, um delirio, um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em extase. Gosto muito de canto, dizia o doutor no trem certa vez, mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Esse doutor tinha uma grande reputação nos suburbios, não como medico, pois que nem oleo de ricino receitava, mas como entendido em legislação telegraphica, por ser chefe de secção da Secretaria dos Telegraphos.

Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial o que só é alta nos suburbios. Compõe-se em geral de funccionarios publicos, de pequenos negociantes, de medicos com alguma clinica, de tenentes de differentes milicias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquellas distantes regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguezia de Petropolis e Botafogo. Isto é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um typo mais ou menos, olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: apparece lá em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne secca, muito ensopado—ahi, julga ella, e que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da distincção.

Fóra dos suburbios, na rua do Ouvidor, nos theatros, nas grandes festas centraes, essa gente mingua, apaga-se, desapparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a belleza com que deslumbram, quasi diariamente, os lindos cavalheiros dos interminaveis bailes diarios daquellas redondezas.

Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou á cidade, propriamente. A sua fama já chegava a S. Christovão e em breve (elle o esperava) Botafogo convidal-o-ia, pois os jornaes já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poetica...

Mas que vinha elle fazer ali, na casa de pessoa de propositos tão altos e tão severos habitos? Não é difficil atinar. De certo, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poetica, de mineralogia e historia brasileiras.

Como bem suppoz a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão sómente ensinar o Major a cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais, e é simples.

De accôrdo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poetico-musical caracteristica da alma nacional. Consultou historiadores, chronistas e philosophos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve duvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro: e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com elle. O seu fim era disciplinar a modinha, e tirar della um forte motivo original de arte.

Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite especial do discipulo, ia compartilhar o seu jantar; e fôra por isso que o famoso trovador chegou mais cedo á casa do sub-secretario.

—Já sabe dar o ré sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.

—Já.

—Vamos ver.

Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo, D. Adelaide, a irmã de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!

—O Sr. Ricardo ha de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do nosso jantar. Eu lhe quiz fazer um frango com petit-pois, mas Polycarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro e que eu o substituisse por guando. Onde é que se viu frango com guando?

Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e não fazia mal experimentar.

—É uma mania de seu amigo, Sr. Ricardo, esta de só querer cousas nacionaes, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!

—Qual, Adelaide, você tem certas ogerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é capaz de produzir tudo que é necessario para o estomago mais exigente. Você é que deu para implicar.

—Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.

—É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras ahi, fabricadas com gorduras de esgotos, talvez não se estragasse... É isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...

—Em geral é assim, disse Ricardo.

—Mas é um erro... Não protegem as industrias nacionaes... Commigo não ha disso: de tudo que ha nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com panno nacional, calço botas nacionaes e assim por diante.

Sentaram-se á mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de crystal e serviu dous calices de paraty.

—É do programma nacional, fez a irmã, sorrindo.

—De certo, e é um magnifico aperitivo. Esses vermutes por ahi, drogas! Isto é alcool puro, bom, de canna, não é de batatas ou milho...

Ricardo agarrou o calice com delicadeza e respeito, levou-o aos labios e foi como se todo elle bebesse o licor nacional.

—Está bom, hein? indagou o major.

—Magnifico, fez Ricardo, estalando os labios.

—É de Angra. Agora tu vais ver que magnifico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual Bordeaux? Temos no Sul muito melhores...

E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os productos nacionaes: a banha, o toucinho e o arroz; a irmã fazia pequenas objecções e Ricardo dizia: «é, é, não, ha duvida»—rolando nas orbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabello aspero, forçando muito a sua physionomia meuda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.

Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flôr... Certamente não se podia tomar por tal miseros beijos de frade, palmas de Santa Rita, quaresmas luctulentas, manacás melancolicos e outros bellos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o Major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de chrysanthemos, de magnolias—flôres exoticas; ás nossas terras tinham outras mais bellas, mais expressivas, mais olentes, como aquellas que elle tinha ali.

Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepusculo vinha de vagar, muito vagaroso e lento, como si fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliquescencia.

Mal foi accesso o gaz, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre elle como se o quizesse beijar. Tirou alguns accordes, para experimentar; e dirigiu-se ao discipulo, que já tinha o seu em posição:

—Vamos ver. Tire a escala, major.

Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação.

—Ohe, major, é assim.

E mostrava a posição do instrumento, indo do collo ao braço esquerdo extendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida accrescentou:

—Major, o violão é o instrumento da paixão. Preciza de peito para falar... É preciso encostal-o, mas encostal-o com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...

Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo elle fremindo de paixão pelo instrumento desprezado.

A lição durou uns cincoenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisongeado, quiz a vaidade profissional que elle, a principio, se negasse.

—Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.

D. Adelaide obtemperou então:

—Cante uma de outro.

—Oh! por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac—conhecem?—quiz fazer-me uma modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, seu Bilac. A questão não está em escrever uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Por exemplo: se eu dissesse, como em começo quiz, n'O Pé, uma modinha minha: o teu pé é uma folha de trevo—não ia com o violão. Querem ver? E ensaiou em voz baixa, acompanhando pelo instrumento: o—teu—pé—é—uma—folha—de—tre—vo.

—Vejam, continuou elle, como não dá. Agora reparem: o—teu—pé—é—uma—uma—ro—sa—de—myr—rha. É outra cousa, não acham?

—Não ha duvida, disse a irmã de Quaresma.

—Cante esta, convidou o major.

—Não, objectou Ricardo. Está velha, vou cantar a Promessa, conhecem?

—Não, disseram os dous irmãos.

—Oh! Anda por ahi como as Pombas do Raymundo.

—Cante lá, Sr. Ricardo, pediu D. Adelaide.

Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca:

Prometto pelo Santissimo Sacramento Que serei tua paixão...

—Vão vendo, disse elle num intervallo, quanta imagem, quanta imagem!

E continuou. As janellas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava Coração dos Outros foi apurando a dicção, tomando um ar feroz que elle suppunha ser de ternura e enthusiasmo; e, quando acabou, as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando D. Adelaide.

—Senta-te Ismenia, disse ella.

—A demora é pouca.

Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco moça e continuou a dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou á moça:

—Então quando te casas?

Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ella então curvava do lado direito a sua triste cabecinha, coroada de magnificos cabellos castanhos, com tons de ouro, e respondia.

—Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do anno e então marcaremos.

Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.

Não era feia a menina, a filha do General, vizinho de Quaresma. Era até bem sympathica, com a sua physionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.

Aquelle seu noivado durava ha annos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava para dentista, um curso de dous annos, mas que elle arrastava ha quatro, e Ismenia tinha sempre que responder á famosa pergunta:—«Então quando se casa»?—«Não sei... Cavalcanti forma-se para o anno e...»

Intimamente ella não se incommodava. Na vida, para ella, só havia uma cousa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nella a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo...

Após responder a D. Adelaide, explicou o motivo da visita.

Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa della.

—Papai, disse D. Ismenia, gosta muito de modinhas... do Norte; a senhora sabe, D. Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.

E para lá foram.

II REFORMAS RADICAES

Havia bem dez dias que o major Quaresma não sahia do casa. Na sua meiga, e socegada casa de S. Christovão, enchia os dias da fórma mais util e agradavel ás necessidades do seu espirito, e do seu temperamento. De manhã, depois da toilette, e do café, sentava-se no divan da sala principal e lia os jornaes. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma noticia curiosa, a suggestão de uma idéa util á sua cara patria. Os seus habitos burocraticos faziam-no almoçar cedo; e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo ás nove e meia da manhã.

Acabado o almoço, dava umas voltas pela chacara, chacara em que predominavam as fruteiras nacionaes, recebendo a pitanga e o camboim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem bem cerejas ou figos.

O passeio era demorado e philosophico. Conversando com o preto Anastacio, que lhe servia ha trinta annos, sobre cousas antigas—o casamento das princezas, a quebra do Souto e outras—o Major continuava com o pensamento preso nas problemas que o preoccupavam ultimamente. Após uma hora ou menos, voltara á bibliotheca e mergulhava nas revistas do Instituto Historico, no Fernão Cardim, nas cartas de Nobrega, nos annaes da Bibliotheca, no von den Stein e tomava notas sobre notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os indios. Não fica bem dizer estudava, porque já o fizera ha tempos, não só no tocante á lingua, que já quasi falara, como tambem nos simples aspectos ethnographicos e anthropologicos. Recordava (é melhor dizer assim), affirmava certas noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um systema de ceremonias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos selvicolas e abrangesse todas as relações sociaes.

Para bem se comprehender o motivo disso, é precizo não esquecer que o Major, depois de trinta armas de meditação patriotica, de estudos e reflexões, chegava agora ao periodo da fructificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro paiz do mundo e o seu grande amor á patria, eram agora activos e impelliram-no a grandes commettimemtos. Elle sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir, de obrar e de concretizar suas idéas. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande patria do Cruzeiro só precizava de tempo para ser superior á Inglaterra.

Tinha todos os climas, todos os fructos, todos os mineraes e animaes uteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais intelligente e mais doce do mundo—o que precizava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, duvidas não fluctuavam mais no seu espirito, mas no que se referia á originalidade de costumes e usanças, não se tinham ellas dissipado, antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do Tangolomango, numa festa que o general dera em casa.

Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veiu despertar no general e na familia um gosto pelas festanças, cantigas e habitos genuinamente nacionaes como se diz por ahi. Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar á maneira popular dos velhos tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto taes cerimonias na sua infancia: D. Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, applaudiram o enthusiasmo dos progenitores. A modinha era pouco; os seus espiritos pediam cousa mais plebea, mais caracteristica e extravagante.

Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, á moda do Norte, por occasião do anniversario de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer anniversario tinha a sua festa, de fórma que havia bem umas trinta por anno, não contando domingos, dias feriados e santificados em que se dansava tambem.

O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e dansas tradicionaes, entretanto viu logo a significação altamente patriotica do intento. Approvou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar os versos e a musica? Alguem lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que morava em Bemfica, antiga lavadeira da familia Albernaz. Lá foram os dous, o general Albernaz e o major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e crystallina tarde de Abril.

O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não posuisse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma unica batalha, não tivera um commando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fôra sempre ajudante de ordens, assistente, encarregado disso ou daquillo, escripturario, almoxarife, e era secretario do Conselho Supremo Militar, quando, se reformou em general. Os seus habitos eram de um bom chefe de secção e a sua intelligencia não era muito differente dos seus habitos. Nada entendia de guerras, de estrategia, de tactica ou de historia militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida ás batalhas do Paraguay, para elle a maior e a mais extraordinaria guerra de todos os tempos.

O altisonante titulo de general, que lembrava cousas sobrehumanas dos Cesares, dos Tuxennes e dos Gustavos Adolphos, ficava mal naquelle homem placido, mediocre, bonachão, cuja unica preoccupação era casar as cinco filhas e arranjar pistolões para fazer passar o filho nos exames do Collegio Militar. Comtudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Elle mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episodio de guerra, uma anedocta militar. «Foi em Lommas Valentinas, dizia elle»... Se alguem perguntava: «O general assistiu a batalha» ?Elle respondia logo: «Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vesperas. Mas soube pelo Camisão, pelo Venancio que a cousa esteve preta».

O bonde que os levava até á velha Maria Rita, percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo termino de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava para S. Paulo e abria communicações com o Curato de Santa Cruz.

Por ahi em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados generos do paiz. Não havia ainda cem annos que as carruagens d'El Rey D. João VI, pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para irem ter ao longiquo Santa Cruz. Não se póde crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Côrte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente montados em pangarés desanimados, o prestito devia ter a sua grandeza, não por elle mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar á sua lamentavel majestade.

Entre nós tudo é inconsistente, provisorio, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. As casas velhas, com grandes janellas, quasi quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de ha bem poucos annos, menos de cincoenta.

Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquillo sem reminiscencias e foram até ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animaes e corridas, tendo grandes ferraduras, cabeças de cavallos, panoplias de chicotes e outros emblemas hippicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda parte onde taes distinctivos fiquem bem e dêm na vista.

A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carvão de pedra, médas de lenha e immensas tulhas de saccos de carvão vegetal se accumulavam; mais adiante um deposito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão.

Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera secco e por isso se podia andar por elle. Para além do caminho, extendia-se a vasta região de mangues, uma zona immensa, triste e feia, que vai até ao fundo da bahia e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas azues de Petropolis. Chegaram á casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguezas. Ficava um pouco afastada da estrada. Á direita havia um monturo: restos de cozinha, trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira—um sambaqui a fazer-se para gaudio de um archeologo de futuro remoto: á esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto á cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça appareceu na janella aberta.

—Que desejam?

Disseram o que queriam e approximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:

—Vovó estão ahi dous moços que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor—disse ella depois, dirigindo-se ao General e ao seu companheiro.

A sala era pequena e de telha vã. Pelas paredes, velhos chromos de folinhas, registros de Santos, recortes de illustrações de jornaes baralhavam-se e subiam por ellas acima até dous terços da altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Victor Emmanuel com enormes bigodes em desordem; um chromo sentimental de folhinha—uma cabeça de mulher em posição de sonho—parecia olhar um S. João Baptista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.

Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descamado, enfeitado com um collar de missangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.

—Boas tardes, tia Maria Rita disse o General.

Ella respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O General atalhou:

—Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.

—Ah! É sô coroné!... Ha quanto tempo! Como está nhã Maricota?

—Vai bem.

—Minha velha, nós queriamos que você nos ensinasse umas cantigas.

—Quem sou eu, yôyô!

—Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o Bumba meu boi?

—Quá, yôyô, já mi esqueceu.

—E o Boi espacio?

—Cousa véia, do tempo do captiveiro—p'ra que sô coroné qué sabê isso?

Ella fallava arrastando as syllabas, com um doce sorriso e um olhar vago.

—É para uma festa... Qual é a que você sabe?

A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes immaculados:

—Vovó já não se lembra.

O General, que a velha chamava Coronel, por tel-o conhecido nesse posto, não attendeu a observação da moça e insistiu:

—Qual esquecida, o que! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?

—Só sei o bicho «Tutu», disse a velha.

—Cante lá!

—Yôyô sabe! Não sabe? quá, sabe!

—Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Polycarpo, se sei.

Quaresma fez com a cabeça signal affirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entôou:

«É vêm tutu' Por detrás do murundu P'ra cumê sinhosinho C'um bucado de angu'».

—Ora! fez o General com enfado, isso é cousa antiga de emballar crianças. Você não sabe outra?

—Não, sinhô. Já mi esqueceu.

Os dous sahiram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta annos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um signal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daquelles povos tenazes que os guardam durante seculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantel-as sempre vivazes nas memorias e nos costumes...

Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um numero bom para a festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quasi a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma dellas já estava garantida, graças a Deus!

O crepusculo chegava e elles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.

A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismenia, informou que nas immediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a elle. Era um velho poeta que teve sua fama ahi pelos setenta e tantos, homem doce e ingenuo que se deixara esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar collecções que ninguem lia, de contos, canções, adagios e dictados populares.

Foi grande a sua alegria quando soube o objecta da visita daquelles senhores. Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tambem, porque via na sua festa,—com um numero de folk-lore, meio de chamar a attenção sobre sua casa, attrahir gente e... casar as filhas.

A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover nella. Numa lata lia-se: Santa Anna dos Tócos; numa pasta: S. Bonifácio do Cabresto.

—Os Srs. não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! que surprezas ella reserva!... Ainda ha dias recebi uma carta de Urubu, de Baixo com uma linda canção. Querem ver?

O colleccionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre Não me deixaria assim: Dava no coração della Um logarsinho p'ra mim. O amor que tenho por ella Já não cabe no meu peito; Sae-me pelos olhos afóra Vôa ás nuvens direito.

—Não é bonito?... Muito! Se os Srs. conhecessem então o cyclo do macaco, a collecção de historias que o povo tem sobre o simio?... Oh! Uma verdadeira epopéa comica!

Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algum que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do foklorista, tinha mais intelligencia no olhar com que o encarava.

O velho poeta guardou, a canção de Urubu de Baixo, numa pasta; e foi logo á outra, donde tirou varias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:

—Vou ler aos senhores uma pequena historia do macaco, das muitas que o nosso povo conta... Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publical-as, sob o titulo Historias do Mestre Simão.

E, sem perguntar se os incommodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:

«O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de arvore em arvore, nas bordas de uma gróta. Eis senão quando, um delles vê no fundo uma onça que lá caira. Os macacos se enternecem e resolvem salval-a. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita á cintura de cada um delles e atiraram uma das pontas á onça. Com o esforço reunido de todos, conseguiram içal-a e logo se desamarraram, fugindo. Um delles, porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o immediatamente.

—Compadre Macaco, disse ella, tenha paciencia. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer.

O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexivel. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a elle; o macaco sempre agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animaes, o jaboty, cujas audiencias, são dadas á borda dos rios, collocando-se elle em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôz as suas razões.

O jaboty ouviu-os e no fim ordenou;

—Bata palmas.

Apezar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que tambem expôz as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:

—Bata palmas.

A onça não teve remedio senão largar o macaco, que se escapou, e tambem o juiz, atirando-se n'agua».

Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:

—Não acham interessante? Muito! Ha no nosso povo muita invenção, muita creação, verdadeiro material para fabliaux interessantes... No dia em que apparecer um literato de genio que o fixe numa forma immortal... Ah! Então!

Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lagrimas furtivas.

—Agora, continuou elle, depois de passada a emoção—vamos ao que serve. O boi espacio ou o Bumba meu boi ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos de vagar, começar pelo mais facil... Está ahi o Tangolomango, conhecem?

—Não, disseram os dous.

—É divertido. Arranjem dez crianças, uma mascara de velho, uma roupa estrambolica para um dos Srs. que eu ensaio.

O dia chegou. A casa do General estava cheia. Cavalcanti viera; e elle e a noiva, á parte, no vão de uma janella, pareciam ser os unicos que não tinham interesse pela folia. Elle, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ella, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.

Quaresma, foz o Tangolomango, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do General, pôz uma immensa mascara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de baculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em côro:

Uma mãe teve dez filhos Todos os dez dentro de um pote: Deu o Tangolomango nelle Não ficaram senão nove.

Por ahi, o major avançava, batia com o baculo no assoalho, fazia: hu! hu! hu! as crianças fugiam, afinal elle agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando, pela quinta estrophe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista, escura e cahiu. Tiraram-lhe a mascara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.

O accidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folk-lore. Comprou livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veiu ao fim de algumas semanas de estudo.

Quasi todas as tradições e canções eram estrangeiras; o proprio Tangolomango o era tambem. Tornava-se, portanto, precizo arranjar alguma cousa propria, original, uma creação da nossa terra e dos nossos ares.

Essa idéa levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéa traz outra, logo ampliou o seu proposito e eis a razão porque estava organizando um codigo de relações, de cumprimentos, de cerimonias domesticas e festas, calcado nos preceitos tupys.

Desde dez dias que se entregava a essa ardua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram á porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabellos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastacio tambem, e o compadre e a filha, pois eram elles, ficaram estupefactos no limiar da porta.

—Mas que é isso, compadre?

—Que é isso, Polycarpo?

—Mas, meu padrinho...

Elle ainda chorou um pouco. Enxugou as lagrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

—Eis ahi! Vocês não têm a minima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.

O seu compadre Vicente, a filha e D. Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O homem estaria doido? Que extravagancia!

—Mas, Sr. Polycarpo, disse-lhe o compadre, é possivel que isto seja muito brasileiro, mas é bem triste, compadre.

—De certo, padrinho, accrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...

Este seu compadre era italiano de nascimento. A historia das suas relações vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fôra fornecedor da casa de Quaresma ha vinte e tantos annos. O Major já tinha as suas idéas patrioticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vel-o suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recem-chegado. Mas um bello dia, ia Quaresma pelo largo do Paço, muito distrahido, a pensar nas maravilhas architectonicas do chafariz do mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquella simplicidade d'alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preoccupação séria. Não só de onde em onde, soltava exclamações sem ligação com a conversa actual, como tambem, cerrava os labios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu collega, estando disposto a matal-o, pois perdera o credito e em breve estaria na miseria. Havia na sua affirmação uma tal energia e um grande e extranho accento de ferocidade, que fizeram empregar o Major toda a sua doçura e persuasão para dissuadil-o do proposito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe tambem dinheiro. Vicente Coleoni poz uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veiu a ter aquella filha, que foi levada á pia pelo seu bemfeitor. Inutil é dizer que Quaresma não notou a contradicção entre as suas idéas patrioticas e o seu acto.

É verdade que elle não as tinha ainda muito firmes, mas já fluctuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciencia como tenues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte annos, veleidades que não tardariam tomar consistencia, e só esperavam os annos para desabrochar em actos.

Fora, pois, ao seu compadre Vicente e á sua afilhada Olga que elle recebera com o mais legitimo ceremonial guaytacaz, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tel-o. Estava até á mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.

—Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre elle os seus olhos muito luminosos.

Havia entre os dous uma grande affeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no economico nas demonstrações affectuosas. Adivinhava-se, entretanto, que a moça occupava-lhe no coração o logar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua affeição tanto mais que sentia confusamente nelle alguma cousa da superior, uma ancia de idéal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma idéa, um vôo emfim para as altas regiões do espirito que ella não estava habituada a ver em ninguem do mundo que frequentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a commum ás moças de seu nascimento. Vinha de um pendôr proprio, talvez das proximidades européas do seu nascimento, que a fizeram um pouco differente das nossas moças.

Fora com um olhar luminoso e prescrutador que ella perguntara ao padrinho.

—Então padrinho, lê-se muito?

—Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.

Vicente fôra com D. Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, elle que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar—que diabo! Não, não era possivel... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos—uma alegria de mathematico que resolveu um problema, de inventor feliz!

—Não se vá metter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.

—Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violencias...

Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O Major fez as apresentações.

—Já o conhecia de nome, Sr. Ricardo, disse Olga.

Coração dos Outros encheu-se de um alviçareiro contentamento. A sua physionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cutis que era reseccada e de um tom de velho marmore, como que ficou macia e joven. Aquella moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o—que satisfação! Elle que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a lingua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloquente.

—Leu então os meus versos, não é, minha senhora?

—Não tive esse prazer, mas li, ha mezes, uma apreciação sobre um trabalho seu.

—No «Tempo», não foi?

—Foi.

—Muito injusta! accrescentou Ricardo. Todos os criticos se atêm a essa questão de metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. V. Ex. sabe que os versos para musica têm alguma cousa de differente dos communs, não é? Não ha, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra metrica e outro systema, não acha?

—De certo, disse a moça. Mas parece-me que o Sr. faz versos para a musica e não musica para os versos.

E ella sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, emquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os seus olhinhos vivos e meudos de camondongo.

Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:

—O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.

—Eu sei, padrinho. Eu sei...

—Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a serio essas tentativas nacionaes mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquelle poeta que escreveu em francez popular?

—Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francez popular; é o provençal, uma verdadeira lingua.

—Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.

Olhou triumphante para um e outro circumstante: e Olga dirigindo-se a elle, disse:

—Continue na tentativa, Sr. Ricardo, que é digno de louvor.

—Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um bello instrumento e tem grandes difficuldades. Por exemplo...

—Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Ha outros mais difficeis.

—O piano? perguntou Ricardo.

—Que piano! O maracá, a inubia.

—Não conheço.

—Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionaes possiveis, os unicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquella gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!

—Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.

—De caboclo! Que é que tem? O Lery diz que são muito sonoros e agradaveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão tambem não vale nada—é um instrumento do capadocio.

—De capadocio, major! Não diga isso...

E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpreza, espantada, sem atinar, som explicação para aquella inopinada transformação de genio do seu padrinho, até ali tão socegado e tão calmo.

III A NOTICIA DO GENELICIO

—Então quando se casa, D. Ismenia?

—Em Março. Cavalcanti já está formado e...

Afinal a filha do General pôde responder com segurança á pergunta que se lhe vinha fazendo ha quasi cinco annos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dahi a tres mezes. A alegria foi grande na familia; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem um baile, uma festa foi annunciada para o sabbado que se seguia ao pedido da pragmatica.

As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ella lhes ia deixar o caminho desembaraçada, e fôra a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.

Noiva havia quasi cinco annos, Ismenia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto á sua natureza pobre fel-a não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ella, pão era negocio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéa, uma pura idéa. Aquella sua intelligencia rudimentar tinha separado da idéa de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: «Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar»... Ou senão: «Você preciza aprender a pregar botões, porque quando você se casar...»

A todo instante e a toda hora, lá vinha aquelle—«porque, quando você se casar...»—e a menina foi se convencendo de que toda a existencia só tendia para o casamento. A instrucção, as satisfações intimas, a alegria, tudo isso era inutil; a vida se resumia numa cousa: casar.

De resto, não era só dentro do sua familia que ella encontrava aquella preoccupação. No collegio, na rua, em casa das familias conhecidas, só se falava em casar. «Sabe, D. Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negocio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa»; ou então: «A Zezé está doida para arranjar casamento mas é tão feia, meu Deus!...»

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéas, o nosso proprio direito á felicidade, foram parecendo ninharias para aquelle cerebrozimho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante, uma especie de dever, que não se casar, ficar solteira, tia, parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afecto, na sua intelligencia a idéa de casar-se incrustou-se teimosamente como uma obsessão.

Ella não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua apparencia de bondade passiva, de indolencia de corpo, de idéas e de sentidos era até um bom typo das meninas a que os namorados chamam—bonitinhas. O seu traço de belleza dominante, porém, eram os seus cabellos: uns bastos cabellos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar.

Aos dezenove annos arranjou namoro com o Cavalcanti, e á fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.

O pai fez má cara. Elle andava sempre ao par dos namoros das filhas: «Diga-me sempre, Maricota—dizia elle—quem são. Olho vivo!...» É melhor prevenir que curar... Póde ser um valdevinos e...» Sabendo que o pretendente á Ismenia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava elle de si para si. Um cidadão semi-formado, uma especie de barbeiro. Preferia um official, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e elle accedeu.

Começou então Cavalcanti a frequentar a casa na qualidade de noivo paisano isto é, que não pediu, não é ainda official.

No fim do primeiro anno, tendo noticia das difficuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o General foi generosamente em seu soccorro. Pagou-lhe taxas de matriculas, livros e outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, D. Maricota viesse ao marido e dissesse: «Chico, arranja-me vinte mil réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia».

O General era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretenção marcial, não havia no seu caracter a minima falha. Demais, aquella necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava dos interesses dellas.

Elle ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despezas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.

Enfim—dizia Albernaz á mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos—a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe D. Maricota, vamos descontar esta lettra.

A satisfação resignada do General era porém, falsa; ao contrario: elle estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia elle:

—É um inferno, esta vida! imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!

Ao que Castro interrogava:

—Qual dellas?

—A Ismenia, a segunda, respondia Albernaz e logo accrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.

—Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malicia, aprendi a receita. Porque não fizeste o mesmo?

Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazens, ás lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundancia e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.

Na manhã do dia da festa commemorativa do pedido, D. Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ella cantarolava uma velha aria, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto signal certo de alegria corriam a ella, pedindo-lhe isto ou aquillo.

Muito activa, muito diligente, não havia dona de casa mais economica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôz tudo em actividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota fôram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, emquanto ella e Ismenia iam arrumar a mesa, dispol-a com muito gosto e esplendor. O movel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de D. Maricota era grande; ella não comprehendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e deshonroso para a familia. A sua satisfação não vinha do simples facto de ter descontado uma letra, como ella dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de familia.

Ella arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indifferente.

—Mas, minha filha, dizia ella, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece ahi uma mosca morta.

—Mamãe, que quer que eu faça?

—Não é bonito rir-se muito, andar ahi como uma serigaita, mas tambem assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tomava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cahir naquelle doentia lassidão que lhe era propria.

Veiu muita gente. Além das moças e as respeitaveis mães, acudiram ao convite do General, o Contra-Almirante Caldas, o Dr. Florencio, engenheiro das Aguas, o Major honorario Innocencio Bustamante, o Sr. Bastos, guarda-livros, ainda parente de D. Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fôra convidado porque o General temia a opinião publica sobre a presença delle em festa seria; Quaresma o fôra, mas não viéra; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.

Ás seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismenia, cumprimentado-a, não sem um pouco de inveja no olhar.

Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

—Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.

Tratava-se do enxoval. Todas ellas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam ao par.

A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

—Eu, hontem, vi na rua da Constituição um dormitorio de casal, muito bonito, você porque não vai ver, Ismenia? Parece barato.

A Ismenia era a menos enthusiasmada, quasi não respondia ás perguntas; e, se as respondia, ora por monosyllabos. Houve um momento em que sorriu quasi com alegria e abandono. Estephania, a doutora, a normalista, que tinha nos dedos um annel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidencia. Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quizesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:

—Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...

Ella alludia á resposta que, á sua confidencia, Ismenia tinha dado com parcimonia: qual o que!

Todas ellas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solenne, dentro de um grande fraque preto.

—Então, Dr. acabou, heim? dizia este a geito de um cumprimento.

—É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos—fui de um heroismo!...

—Conhece o Chavantes? perguntava um outro.

—Conheço. Um chronico, um pandego...

—Foi seu collega?

—Foi, isto é, elle é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo anno.

Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de attender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.

—É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no Dever e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.

—Actualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cumulo! Um curso difficil e caro, que exige cadaveres, apparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantel-o? Se o Governo mantem mal...

—Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabens. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!

—Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.

—Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.

—Boa carreira.

Nos intervallos da conversa, todos elles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural.

Para aquella gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma cousa sagrada e de essencia superior; e não juntavam á imagem que tinham delle actualmente, as cousas que porventura elle pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nella de modo algum; e aquelle typo, para alguns, continuava a ser vulgar, commum, na apparencia, mas a sua substancia tinha mudado, era outra differente da delles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fóra da natureza terrestre, quasi divina.

Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O General ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com elle o Contra-Almirante Caldas, o Major Innocencio, o Dr. Florencio e o Capitão de Bombeiros Segismundo.

Innocencio aproveitou a occasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assumpto de legislação militar. O Contra-Almirante era interessantissimo. Na marinha, por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exercito. Nunca embarcara a não ser na guerra do Paraguay, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era delle. Logo que se viu 1° Tenente, Caldas foi aos poucos se mettendo comsigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos logares, se esqueciam delle e não lhe davam commissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações militares: as commissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos.

Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.

—Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a flotilha do Rio Grande.

Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.

O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.

Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. Deixaram-n'o encostado, como se diz na gyria militar, e elle levou quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juizes e advogados—esse poviléo rebarbativo do fôro que parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.

Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos outros.

Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous fazem quatro—o que quer dizer: Major.

Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua consulta.

—Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!

Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe davam um ar de commodoro ou de chacareiro portuguez, pois era forte nelle o typo luzitano.

—Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!

—Não ha mais gente que preste, disse Bustamante.

Segismundo por ahi aventurou tambem a sua opinião dizendo:

—Eu não sou militar, mas...

—Como não é militar? fez Albernaz com impeto. Os Srs. é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?

—De certo, de certo, fez o Almirante cofiando os favoritos.

—Como ia dizendo, continuou Segismundo, apezar de não ser militar, eu me animo, a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?

—Não ha mais, meu caro, confirmou com voz tenue o Dr. Florencio.

—Não sei porque, pois tudo hoje não vai pela sciencia?

Fôra Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:

—Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de xx e yy, em Curupaity, hein Caldas? hein Innocencio?

O Dr. Florencio era o unico paisano da roda. Engenheiro e empregado publico, os annos e o socego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sahir da escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse roda a tarde jogar o sólo com o General. O Dr. Florencio perguntou:

—O Sr. assistiu, não foi, General?

O General não se deteve, não, se atrapalhou, não gaguejou e disse com a maxima naturalidade:

—Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vesperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o Venancio...

Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janella da sala onde estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circumscripto aos fundos dos quintaes das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desapparecido do horizonte e as tenues luzes dos bicos de gaz e dos lampeões familiares começavam a accender-se por detraz das vidraças.

Bustamante quebrou o silencio:

—Este paiz pão vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de Tenente Coronel, está no ministerio ha seis mezes!

—Uma desordem, exclamaram todos.

Era noite. D. Maricota chegou até onde elles estavam, muito activa, muito diligente e com o rosto aberto de alegria.

—Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?

Albernaz sahiu fóra da róda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:

—Se não dançam é porque não querem. Estou pegando algum?

D. Maricota approximou-se dos amigos do marido e explicou:

—Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguem tira par, ninguem, tóca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!

—Bem; eu vou lá, disse Albernaz.

Deixou os amigos e foi á sala de visitas dar começo ao baile.

—Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!

E elle mesmo em pessoa ia juntando os pares: «Não General, já tenho par, dizia uma moça. Não faz mal, retrucava elle, danse com o Raymundinho; o outro espera». Depois de ter dado inicio ao baile, veio para a roda dos amigos, suado, mas contente.

—Isto de familia! Qual! A gente até parece bôbo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quiz casar!

—Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?

—Vamos jogar o sólo, convidou Albernaz.

—Somos cinco, como ha de ser? observou Florencio.

—Não, eu não jogo, disse Bustamante.

—Então jogamos os quatro de garancho? lembrou Albernaz.

As cartas vieram e tambem uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florencio dar. Começaram, Albernaz tinha um ar attento quando jogava: a cabeça lhe cahia sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um Lord Almirante numa partida de «whist». Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir á fumaça. Bustamante fôra á sala ver as dansas.

Tinham começado a partida, quando dona Quinota, uma das filhas do General, atravessou a sala e foi beber agua. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou á moça:

—Então, D. Quinota, que dê o Genelicio?

A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muchocho e respondeu com falso máu humor:

—Ué! Sei lá! Ando atrás delle?

—Não precisa zangar-se, D. Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.

O General que examinava attentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:

—Eu passo.

D. Quinota retirou-se. Este Genelicio ora o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na familia. A sua candidatura era favorecida por todos. D. Maricota e o marido enchiam-n'o de festas. Empregado do Thesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta annos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguem mais bajulador e submisso do que elle. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando sahia, remancheava, lavava tres ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o director na porta. Acompanhava-o, conversava com elle sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquelle collega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como interprete dos companheiros e deitava um discurso; nos anniversarios de nascimento, era um soneto que começava sempre por—salve—e acabava tambem por—Salve! Tres vezes Salve!

O modelo era sempre o mesmo; elle só mudava o nome do ministro e punha a data.

No dia seguinte, os jornaes falavam do seu nome, e publicavam o soneto.

Em quatro annos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.

Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente genio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. Um dos que se servia, eram as publicações nas folhas diarias. No intuito de annunciar nos ministros e directores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornaes longos artigos sobre contabilidade publica. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores francezes ou portuguezes.

Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e elle vivia na secção cercado do respeito de um genio, um genio do papelorio e das informações. Accresce que Genelicio juntava á sua segura posição administrativa, um curso de direito a acabar; e tantos titulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente ás preoccupações casamenteiras do casal Albernaz.

Fóra da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre physico fazia comico, mas que a convicção do alto auxilio que prestava ao Estado, mantinha e sustentava. Um empregado modelo!...

O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das mãos fazia-se um breve commentario ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as falas sacramentaes do jogo; sólo, bólo, melhoro, passo. Feitas ellas jogava-se em silencio; da sala, porém, vinha o ruido festivo das dansas e das conversas.

—Olhem quem está ahi!

—O Genelicio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?

Deixou o chapéo e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo elle trahia a profissão, os seus gostos e habitos. Era um escripturario.

—Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negocios.

—Vão bem? perguntou Florencio.

—Quasi garantido. O Ministro prometteu... Não ha nada, estou bem cunhado!

—Estimo muito, disse o General.

—Obrigado. Sabe de uma cousa, General?

—O que é?

—O Quaresma está doido.

—Mas... o que? quem foi que te disse?

—Aquelle homem do violão. Já está na casa de saude...

—Eu logo vi, disse Albernaz, aquelle requerimento era de doido.

—Mas não é só, General, accrescentou Genelicio, Fez um officio em tupy e mandou ao ministro.

—É o que eu dizia, fez Albernaz.

—Quem é? perguntou Florencio.

—Aquelle vizinho, empregado do Arsenal, não conhece?

—Um baixo, de pince-nez?

—Este mesmo, confirmou Caldas?

—Nem se podia esperar outra cousa, disse o Dr. Florencio. Aquelles livros, aquella mania de leitura...

—P'ra que elle lia tanto? indagou Caldas.

—Telha de menos, disse Florencio.

Genelicio atalhou com autoridade:

—Elle não era formado, para que metter-se em livros?

—É verdade, fez Florencio.

—Isto de livros é bom para os sabios, para os doutores, observou Segismundo.

—Devia até ser prohibido, disse Genelicio, a quem não possuisse um titulo academico ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

—De certo, disse Albernaz.

—De certo, fez Caldas.

—De certo, disse tambem Segismundo.

Calaram-se um instante, e as attenções convergiram para o jogo.

—Já sahiram todos os trunfos?

—Contasse, meu amigo.

Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silencio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triumphantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano, Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metallica, apurando muito os finaes em s, começou:

A vida é uma comedia sem sentido Uma historia de sangue e de poeira Um deserto sem luz...

E o piano gemia.

IV DESASTROSAS CONSEQUENCIAS DE UM REQUERIMENTO

Os acontecimentos a que alludiam os graves personagens reunidos em tomo da mesa de sólo, na tarde memoravel da festa commemorativa do pedido de casamento de Ismenia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A força de idéas e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em actos imprevistos com uma sequencia brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro facto surprehendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma extravagancia, uma pequena mania, se apresentou logo em insania declarada.

Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e commentario pouco usual em documentos de tal natureza.

O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria se o official da acta, ria-se o continuo—toda a mesa e aquella população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as lagrimas vieram.

Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva, odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de clown.

Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.

Era assim concebida a petição:

«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que, por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma—usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.

O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.

Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima, agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização cerebral e ao nosso apparelho vocal—controversias que tanto impecem o progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica.

Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento».

Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi apontado na rua.

Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça, então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma fez aquillo.

Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:

—O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos lingua de moça, quer?

Com mais, ou menos espirito, os commentarios não cessavam e a ausencia de relações de Quaresma no meio de que sahiam, fazia com que fossem de uma constancia pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do sub-secretario.

Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo ha trinta annos quasi só, sem se chocar com o mundo, adquirira urna sensibilidade muito viva e capaz de soffrer profundamente com a menor cousa. Nunca soffrera criticas, nunca se atirou, á publicidade, vivia immerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fóra delles, elle não conhecia ninguem; e, com as pessoas com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o seu coração nada tinham que ver.

Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.

Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de extranho a tudo, ás competições, ás ambições, pois nada dessas cousas que fazem os odios e as lutas tinha entrado no seu temperamento.

Desinteressado de dinheiro, de gloria e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma que vão habitar esses homens de uma idéa fixa, os grandes estudiosos, os sabios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingenua, mais innocence que as donzellas das poesias de outras épocas.

É raro encontrar homens assim, mas os ha e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais sympathia pela nossa especie, orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.

A continuidade das troças feitas nos jornaes, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nelle a sua idéa. Á medida que engulia uma troça, uma pilheria, vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança, pezar-lhe todos os aspectos, examinal-a detidamente, comparal-a a cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, á proporção que fazia isso, a sua propria convicção mostrava a inanidade da critica, a ligeireza da pilheria, e a idéa o tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.

Se os jornaes tinham recebido o requerimento com facecias de fundo inofensivo e sem odio, a repartição ficou furiosa. Nos meios burocraticos, uma superioridade que nasce fora delles, que é feita e organizada com outros materiaes que não os officios, a sabença de textos de regulamentos e a boa calligrafia, é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja.

É como se visse no portador da superioridade um traidor á mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não ha só uma questão de promoção, de interesse pecuniario; ha uma questão de amor proprio, de sentimentos feridos, vendo aquelle collega, aquelle galé como elles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas superiores dos ministros, com mais titulos á consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.

Olha-se para elle com o odio dissimulado com que assassino plebeu olha para o assassino marquez que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o burguez trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde collega de desgraça.

Assim, quando surge numa secretaria alguem cujo nome não lembra sempre o titulo de sua nomeação, apparecem as pequeninas perfidias, as maledicencias ditas ao ouvido, as indirectas, todo o arsenal do ciume invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do que ella.

Amam-se ou antes supportam-se melhor aquelles que se fazem celebres nas informações, na redacção, na assiduidade ao trabalho, mesmo os doutores, os bachareis, do que os que têm nomeada e fama. Em geral, a incomprehensão da obra ou do merito do collega é total e nenhum delles se póde capacitar que aquelle typo, aquelle amanuense, como elles, faça qualquer cousa que interesse 06 extranhos e dê que falar a uma cidade inteira.

A brusca popularidade de Quaresma, o seu successo e nomeada ephemera irritaram os seus collegas e superiores. Já se viu! dizia o Secretario. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretencioso! O director, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infringir uma censura. O collega archivista era o menos terrivel, mas chamou-o logo de doido.

O Major sentia bem aquelle ambiente falso, aquellas allusões e isso mais augmentava o seu desespero e a teimosia na sua idéa. Não comprehendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa má vontade geral; era uma cousa innocente, uma lembrança patriotica que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava á idéa, e a examinava com mais attenção.

A extensa publicidade, que o facto tomou, attingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construcções de predios, viuvo, o antigo quitandeiro retirara-se dos negocios e vivia socegado na ampla casa que elle mesmo edificara e tinha todos os seus remates architectonicos do seu gosto predilecto: compoteiras na cimalha, um immenso monogramma sobre a porta da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros detalhes equivalentes.

A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoavel jardim na frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os passaros morriam tristemente. Era uma installação burgueza, no gosto nacional, vistosa, cara, pouco de accordo com o clima e sem conforto.

No interior o capricho dominava, tudo obedecia a a uma fantasia baroca, a um ecletismo desesperador. Os moveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e, a fantasia da filha, irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem áquella collecção de cousas caras.

Viuvo, havia já alguns annos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o encaminhava nas distracções e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tyrannia. Queria casar a filha, bem e ao gosto della, não punha, portanto nenhum obstaculo ao programma de Olga.

Em começo, pensou em dal-a a seu ajudante ou contra-mestre, uma especie de architecto que não desenhava, mas projectava casas e grandes edificios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou resistencia, mas não encontrou tambem assentimento. Convenceu-se de que aquella vaporosidade da menina, aquelle seu ar distante de heroina, a sua intelligencia, o seu fantastico, não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade camponias de seu auxiliar.

Ella quer um doutor—pensava elle—que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as cousas se accommodam.

Elle se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquez ou o barão de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito acceitavel comprar a satisfação de ennobrecer a filha com umas meias duzias de contos de réis.

Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propositos da menina. Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lyrico, nos bailes; amando estar sentado em chinellas a fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas, atraz da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco de perfume.

Era engraçado vel-o nas lojas de fazendas cheio de complacencia de pai que quer ennobrecer o filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento daquellas cousas que se adivinhava até no pagal-as. Mas elle ia, demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no mysterio, cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternaes.

Até ahi elle ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante, as visitas, as collegas da filha, suas mães, suas irmães, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdens dissimulados, deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava elle distante da sociedade das amigas e das collegas de Olga.

Não se aborrecia, porém, muito profundamente; elle assim o quizera e a fizera, tinha que se conformar. Quasi sempre, quando chegavam taes visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, não lhe era sempre possivel fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia, o velado pouco caso da alta nobreza da terra que o frequentava. Elle ficara sempre empreiteiro, com poucas idéas além do seu officio, hão sabendo fingir, de modo que não se interessava por aquellas tagarelices de casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.

Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos—uma ninharia! A questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distracção do distincto jornalista e do famoso advogado. Um homem honesto não ia fazer aquillo! E na segunda, seria tambem? e na terceira?

Não era possivel tanta distracção. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em pratica, Vicente accendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo:

—Os Srs. sabem que ha agora, na Europa, um novo systema de jogar o poker?

—Qual é? perguntou alguém.

—A differença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, sómente.

Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, despediu-se á meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns commentarios sobre a partida e não voltou mais.

Conforme o seu velho habito, Coleoni lia de manhã os jornaes, com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado á leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.

Elle não comprehendeu bem o requerimento, mas os jornaes faziam tanta troça, cahiam tão a fundo sobre a cousa, que imaginou o seu antigo bemfeitor enleiado numa meiada criminosa, tendo praticado, por inadvertencia, alguma falta grave.

Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mais dahi quem sabe? Na ultima vez que o visitou elle não veiu com aquelles modos extranhos? Podia ser uma pilheria...

Apezar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nelle não só a gratidão de camponez que recebeu um grande beneficio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da sua qualidade de funccionario e de sabio.

Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquelle sagrado respeito dos camponezes pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apezar dos bastos annos de Brasil, ainda não sabia juntar saber aos titulos, tinha em grande consideração a erudição do compadre.

Não é, pois, de extranhar que elle visse com magna o nome de Quaresma envolvido em factos que os jornaes reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que elle queria dizer. Chamou a filha.

—Olga!

Elle pronunciava o nome da filha quasi sem sotaque; mas, quando fallava portuguez, punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as phrases de exclamações e pequenas expressões italianas.

—Olga, que quer dizer isto? Non capisco...

A moça sentou-se a uma cadeira proxima e leu no jornal, o requerimento e os commentarios.

—Che! Então?

—O padrinho quer substituir o portuguez pela lingua tupy, entende o senhor?

—Como?

—Hoje, nós não falamos portuguez? Pois bem: elle quer que daqui em diante falemos tupy.

—Tutti?

—Todos os brasileiros, todos.

—Ma che cousa! Não é possivel?

—Póde ser. Os tcheques tem uma lingua propria, e foram obrigados a falar allemão, depois de conquistados pelos austriacos; os lorenos, francezes...

—Per la madona! Allemão é lingua, agora esse acugêlê, ecco!

—Acugêlê é da Africa, papai; tupy é daqui.

—Per Baccho! É o mesmo... Está doido!

—Mas não ha loucura alguma, papai.

—Como? Então é cousa de um homem bene?

—De juizo, talvez não seja; mas de doido, tambem não.

—Non capisco.

—É uma idéa, meu pai, é um plano, talvez á primeira vista absurdo, fóra dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas...

Por mais que quizesse, ella não podia julgar o acto do padrinho sob o criterio de seu pai. Neste falava o bom senso e nella o amor ás grandes cousas, aos arrojos e commettimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do Major, não foi de certo o de reprovação ou lastima; foi de piedade sympathica por ver mal comprehendido o acto daquelle homem que ella conhecia ha tantos annos, seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.

—Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.

E elle tinha razão. A sentença do archivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando fóros do certeza. Em principio, o sub-secretario supportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o suppunham insciente no tupy, irritou-se, encheu-se, de uma raiva surda, que se continha difficilmente. Como eram cegos! Elle que ha trinta annos estudava o Brasil minuciosamente; elle que em virtude desses estudos, fôra obrigado a aprender o rebarbativo allemão, não saber tupy, a lingua brasileira, a unica que o era—que suspeita miseravel!

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings