LIMA BARRETO (continued 4)
Reading edition
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céo atravez do nevoeiro que lhes humedece o rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle á cintura e gorro á cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sósinho, e olha aquella manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ella faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, elle só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; aquelle amanhecer brumoso e feio, era uma novidade para elle.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquella vida solta da caserna vai-lhe bem n'alma: o violão está lá dentro e, em horas de folga, elle o experimenta, cantarolando em voz baixa. É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em quando, soltar o peito.
O commandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O Major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predilecto é agora artilharia. Comprou compendios; mas, como sua instrucção é insufficiente, da artilharia vai á balistica, da balistica á mecanica, da mecanica ao calculo e á geometria analytica; desce mais a escada; vai á trigonometria, á geometria e á algebra e á arithmetica. Elle percorre essa cadeia de sciencias entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementarissima após um rosario de consultas, de compendio em compendio; e leva assim aquelles dias de ocio guerreiro enfronhado na mathematica, nessa mathematica rebarbativa e hostil aos cerebros que já não são mais moços.
Ha no destacamento um canhão Krupp, mas elle nada tem a ver com o mortifero apparelho: comtudo, estuda artilharia. É encarregado delle o Tenente Fontes, que não dá obediencia alguma ao patriota Major. Quaresma não se incommoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca de fogo e submete-se á arrogancia do subalterno.
O Commandante do «Cruzeiro do Sul», o Bustamante da barba mosaica, continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão, A unidade tem poucos officiaes e muito poucas praças; mas o Estado paga o pret de quatrocentas. Ha falta de capitães, o numero de alferes está justo, o de tenentes quasi, más já ha um major, que é Quaresma, e o commandante, Bustamante, que por modestia, se fez simplesmente Tenente-Coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma commanda, tres alferes, dous tenentes; mas os officiaes pouco apparecem. Estão doentes ou licenciados e só elle, o antigo agricultor do «Socego», e um alferes, Polydoro, este mesmo só á noite, estão a postos. Um soldado entrou:
—Sr. Commandante, posso ir almoçar?
—Póde. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça sahiu capengando em cima de grandes botinas: o pobre homem usava aquella peça protectora como um castigo. Assim que se viu no matto, que levava á casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade.
O commandante chegou á janella. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros appareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A blusa era curtissima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente: e as calças eram compridissimas e arrastavam no chão.
—Como vaes Ricardo?
—Bem. E o Sr. Major?
—Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo, aquelle seu olhar agudo e demorado:
—Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do commandante:
—Não... Para que dizer, Major, que sim... Se a cousa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é quando ha tiro... Uma cousa, Major; não se poderia, assim, ahi pelas horas em que não ha que fazer, ir nas mangueiras, cantar um pouco...
O Major coçou a cabeça, alisou o cavaignac e disse:
—Eu, não sei... É..
—O Sr. sabe que isso de cantar baixo é remar em secco... Dizem que no Paraguay...
—Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o Major recommendou:
—Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro tambem dormir. As refeições eram-lhe fornecidas por um frege proximo e elle dormia em um quarto daquella edificação imperial. Porque a casa em que se acantonara o destacamento, era o pavilhão do Imperador, situado na antiga Quinta da Ponta do Cajú. Ficavam nella tambem a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta serraria. Quaresma veiu até á porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o Imperador a quizesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas sahiam modeladas do seio daquella massa de nevoa pesada; e, satisfeitas, como se o pesadello tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente: e por fim, quasi repentinamente, as altas.
Á direita, havia a Saude, a Gamboa, os navios de commercio: galeras de tres mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos á vela—que iam sahindo da bruma, e, por instantes aquillo tudo tinha um ar de paysagem hollandeza, á esquerda, era o sacco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os Orgãos Azues, altos de tocar no céo; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depositos de carvão; e, alongando a vista pelo mar socegado, Nictheroy, cujas montanhas acabavam de recortar-se no céo azul, á luz daquella manhã atrazada.
A neblina foi se e um gallo cantou. Era como se a alegria voltasse á terra: era uma alleluia. Aquelles chiados, aquelles apitos, os guinchos tinham um accento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veiu dizer a Quaresma que havia duas deserções.
—Mais duas? fez admirado o Major.
—Sim, senhor. O 125 e o 320 não responderam hoje a revista.
—Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quasi nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, elle não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as aguas do mar. Não trazia luz alguma; só o movimento daquella mancha escura, revelava uma embarcação, e tambem a ligeira phosphorescencia das aguas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento poz-se a postos e Quaresma appareceu.
—O canhão! Já! Avante! ordenou o commandante.
E, em seguida, nervoso, recommendou:
—Esperem um pouco.
Correu á casa e foi consultar os seus compendios e tabellas. Demorou-se e a lancha avançava, os soldados estavam tontos e um delles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reappareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:
—Viram bem... a distancia... a alça... o angulo... É preciso ter sempre em vista a efficiencia do fogo.
Fontes veiu e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
—Ora, Major, você pensa que está em um polygno, fazendo estudos praticos... Fogo para diante!
E assim era. Quasi todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como os fortes, sahiam incolumes de tão terriveis armas.
Lá vinha uma occasião, porém, que acertavam, então os jornaes noticiavam: «Hontem, o forte Academico, fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, metteu uma bala no «Guanabara». No dia seguinte, o mesmo jornal rectificava, a pedido da bateria do cáes Pharoux que era a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando apparecia uma carta de Nictheroy, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça sabia por entre os fiapos da palha, como as guellas de um animal feroz occulto entre hervas.
Olhava o horizonte, depois de exame attento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:
Prometto pelo Santissimo Sacramento...
Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este lindissimo quadro: á sombra de uma grande arvore, os soldados deitados ou sentados em circulo, em torno de Ricardo Coração dos Outros, que entoava endeixas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do joven official.
—Que é isto? disse elle severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continencia; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilada, e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
—Seu Tenente, foi o Major quem permittiu, V. S. sabe que se nós não tivéssemos ordem, não iriamos brincar.
—Bem. Não quero mais isto, disse o official.
—Mas, objectou Ricardo, o Sr. Major Quaresma...
—Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do Major do «Cruzeiro do Sul». Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sysipho, mas voluntario, para a grandeza da patria. Fontes foi entrando e dizendo:
—Que é isto, seu Quaresma! Então o senhor permitte cantorias no destacamento?
O Major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e rispido do moço. Elle repetiu:
—Então o senhor permitte que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?
—Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
—E a disciplina? e o respeito?
—Bem, vou prohibir, disse Quaresma.
—Não é preciso. Já prohibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
—Fez bem.
Em seguida perguntou ao official o modo de extrahir a raiz quadrada de uma fracção decimal; o rapaz ensinou-lhe e elles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e esperava acabar a revolta para effectuar o casamento. Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino facto familiar a que estavam ligados aquelles estrondos, aquelles tiros, aquella solemne disputa entre duas ambições. Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metallica. Fontes assestou o ouvido; o Major perguntou:
—Que toque é?
—Sentido.
Os dous sahiram. Fontes perfeitamente fardado; e o Major apertando o talim, sem encontrar geito, tropeçando na espada veneravel que teimava em se lhe metter entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas trincheiras, armas á mão; o canhão tinha ao lado a munição necessaria. Uma lancha avançava lentamente, com a prôa alta assestada para o posto. De repente, sahiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou!—gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inoffensiva. A lancha continuava a avançar impavida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fôra um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Ás vezes elles chegavam bem perto á tropa, ás trincheiras, atrapalhando o serviço: em outras, um cidadão qualquer, chegava ao official e muito delicadamente pedia: o senhor dá licença que dê um tiro. O official accedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se annunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Publico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom aprecial-as no velho jardim de D. Luiz de Vasconcellos, vendo o astro solitario pratear a agua e encher o céo.
Alugavam-se binoculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação de theatro: «queimou Santa Cruz! Agora é o «Aquidaban»! Lá vai»! E dessa maneira a revolvia correndo familiarmente, entrando nos habitos e nos costumes da cidade.
No cáes Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornaes, engraxates, quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinarios, das arvores, a ver, a esperar a quéda das balas; e quando acontecia cahir uma, corriam todos em bôlo, a apanhal-a como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relogio, lapizeiras, feitas com as pequenas balas de fuzis: faziam-se tambem collecções das medias e com os seus estojos de metal, areados, polidos, lixados, ornavam consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os melões e as aboboras, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou estatuas.
A lancha continuava a atirar: Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projectil, recuou um pouco e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que a anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio, jorrar de vagar, muito pesada, gritavam queimou!
Houve um em Nictheroy que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-n'o trinta réis; os jornaes do tempo occuparam-se com elle, fizeram-se subscripções a seu favor. Um heroi! Passou a revolta e foi esquecido, tanto elle como a «Lucy», uma lancha que chegou a fazer-se entidade na imaginação da urbs, a interessal-a, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a furia do posto do Cajú, e Fontes deu instrucções ao seu chefe da peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que passou naquelle extremo da cidade não eram differentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra cahia na banalidade da repetição dos mesmos episodios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, sahia. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polydoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o fazia, de dia, porque Polydoro, o mais assiduo, marcineiro de profissão e em actividade numa fabrica de moveis, só vinha á noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o Governo pagava soldos dobrados, e, ás vezes, gratificações, além do que havia tambem a morte sempre presente; e tudo isso estimulava o divertir-se. Os theatros eram frequentados e os restaurants nocturnos tambem.
Quaresma, porém, não se mettia naquelle ruido de praça semi-sitiada. Ia ás vezes ao theatro, á paisana, e, logo acabado o espectaculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polydoro chegava, sahia a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até ao campo de São Christovão.
Ia vendo aquella successão de cemiterios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como carneiros tosqueados e limpos a pastar; aquelles cyprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que aquella parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
As casas tinham um aspecto funebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lugubre.
A paysagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer sentir nella tão forte aspecto funereo.
Foi vindo ate ao Campo; ahi deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residencia do General Albernaz. Devia-lhe aquella visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o General, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o commandante de Quaresma, o Tenente Coronel Innocencio Bustamante.
Bustamante era um commandante activo, mas dentro do quartel. Não havia quem como elle se interessasse pelos livros, pela boa calligraphia, com que eram escriptos os livros mestres, as relações de mostra, os mappas de companhia e outros documentos. Com auxilio delles, a organização do seu batalhão era irreprehensivel; e, para não deixar de vigiar a escripturação, apparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, elle logo perguntou ao Major:
—Quantas deserções?
—Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e reflectiu:
—Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
—Fazem muito bem... Ora! disse o Almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o Governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia Vice-Almirante. É verdade que o Governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, elle não commandaria nem uma divisão. Uma inquidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca commandado, nessa materia elle podia despender toda uma energia moça.
—O Almirante não deve falar assim... A patria está logo abaixo da humanidade.
Meu caro Tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
—Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
—Que tenho eu com elles? fez agastado Caldas.
Bustamante, o General e Quaresma assistiam a pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a furia de Caldas, que não se cansava de dansar a perna e alizar os longos favoritos brancos. O Tenente respondeu:
—Muito, Almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e elevação moral.
—Nunca houve e nunca haverá! disse de um jacto Caldas.
—Eu tambem penso assim, accrescentou Albernaz.
—Isto ha de sempre ser o mesmo, adduziu scepticamente Bustamante.
O Major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquellas contestações, ao contrario dos seus congeneres da seita, não se agastou. Elle era magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nazal, agitando a mão direita no geito favorito dos sermonarios, depois de ouvir todos, falou com uncção:
—Houve já um esboço: a idade média.
Ninguem ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia historia do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua affirmação fez calar todos, embora no intimo duvidosos. É uma curiosa idade média, essa de elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que anno? Se a gente diz: no tempo de Clotario, elle proprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Chrame mais a mulher deste e filhos—o positivista, objecta: ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. S. Luís, diremos logo nós, quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar tres crianças que tinham morto um coelho nas suas mattas. Objecta o fiel: Você não sabe que a nossa idade media vai até o apparecimento da Divina Comedia? S. Luís já era a decadencia... Citam-se as epidemias de molestias nervosas, a miseria dos camponios, as ladroagens á mão armada dos barões, as allucinações do milenio, as crueis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; elles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que elle já tinha desapparecido.
Nada disso foi objectado ao positivista e a conversa, resvalou para a revolta. O Almirante criticava severamente o Governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros á toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para occupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamante não tinha opinião assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz, ainda não tinha dado o seu aviso, e veiu a fazel-o assim:
—Mas nós reconhecemos Humaytá, e por pouco!
—Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturaes eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inutil... O Sr. sabe, esteve lá!
—Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silencio. Elle procurava ver Ismenia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o Major se sentia por qualquer cousa preso á molestia da moça. Viu todos: D. Maricota, sempre activa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminavel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de visitas á sala de jantar onde elle estava. Porfim, não se conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia peor, cada vez mais abysmada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O General contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquella sua desgraça intima, disse com um longo suspiro:
—Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o Major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Cajú. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação, especial que põe em nós o luar que estava lindo, terno e leitoso, naquella noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de deliquio; parece que nos tiram o envoltorio material e ficamos só alma, envolvidos numa branda athmosphera de sonhos e chimeras. O Major não colhia bem a sensação transcendente, mas soffria sem perceber o effeito da luz pallida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não por somno, mas em virtude daquella doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veiu chamal-o: o Marechal estava ahi. Era seu habito sahir á noite, ás vezes, de madrugada, e ir de posto em posto. O facto se espalhou pelo publico que o apreciava extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado.
Quaresma veiu ao seu encontro. Floriano vestia chapéo de feltro molle, abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de familia em aventuras extra-conjugaes.
O Maior cumprimentou-o e esteve a dar-lhe noticias do ataque que fora feito ao seu posto, ha dias passados. O Marechal respondia por monosyllabos preguiçosos e olhava ao redor. Quasi ao despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
—Hei de mandar pôr um holophote aqui.
Quaresma veiu acompanhal-o até ao bonde. Atravessavam o velho sitio de recreio dos Imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semi-accesa, resfolegava. Semelhava roncar, dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, socegados como que dormiam. As annosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magnifico. Os dous andavam, o marechal perguntou:
—Quantos homens tem você?
—Quarenta.
O Marechal mastigou um: não é muito; e voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais sympatica a do dictador. Se lhe falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronuncial-a. Continuaram a andar. O Major pensou; que é que tem? não ha desrespeito algum. Approximavam-se do portão. Num dado momento como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quasi não o fez.
Os edificios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco luar. O Major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era indispensavel; o portão estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e falou:
—V. Ex. já leu o meu memorial, Marechal?
Floriano respondeu lentamente, quasi sem levantar o labio inferior pendente:
—Li.
Quaresma enthusiasmou-se:
—Vê V. Ex. como é facil erguer este paiz. Desde que se cortem todos aquelles empecilhos que eu apontei, no memorial que V. Ex. teve a bondade de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptavel ás condições do paiz, V. Ex. verá que tudo isto muda, que, em vez de tributarios, ficaremos com a nossa independencia feita... Se V. Ex. quisesse...
Á proporção que falava, mais Quaresma se enthusiasmava. Elle não podia ver bem a physionomia do dictador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéo de feltro; mas, se a visse, teria de esfriar, pois havia na sua mascara sinaes do aborrecimento mais mortal. Aquelle falatorio de Quaresma, aquelle apelo á legislação, a medidas governamentaes, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não quizesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
—Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não havia exercito que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
—Mas, mão é isso, Marechal. V. Ex. com o seu prestigio e poder, está capaz de favorecer, com medidas energicas e adequadas, o apparecimento de iniciativas, de encaminhar o trabalho, de favorecel-o e tornal-o remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plastico e opalescente. Um grande edificio inacabado que havia na rua, parecia terminado, com vidraças e portas feitas com a luz da lua. Era um palacio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; elle se despediu do Major, dizendo com aquella sua placidez de voz:
—Você, Quaresma, é um visionario...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava physionomia ás cousas, fazia nascer soalhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...
III ...E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...
—Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não ha meio!
—Já a levou a um medico especialista?
—Já. Tenho corrido medicos, espiritas até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. Os dous se haviam encontrado na pagadoria da guerra e vinham pelo campo de Sant'Anna, a pé, andando pequenos passos e conversando. O General era mais alto que Quaresma, e emquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto, aquelle a tinha mettida entre os hombros proeminentes, como cotos de azas. Albernaz reatou:
—E remedios! Cada medico receita uma cousa; os espiritas são os melhores, dão homœpathia; os feiticeiros, tizanas, rezas e defumações... Eu não sei. Quaresma!
E levantou os olhos para o céo, que estava um tanto plumbeo. Não se demorou, porém, muito nessa postura; o pince-nez não permittia, já começava a cahir.
Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
—Por que não a recolhe a uma casa de saude, General?
—Meu medico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a menina está, não vale a pena...
Falava da filha, da Ismenia, que, naquelles ultimos mezes, péorara sensivelmente, não tanto da sua molestia mental, mas da saude commum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.
Albernaz dizia a verdade; para, cural-a tanto de sua loucura conto da actual molestia intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
Era de fazer reflectir ver aquelle homem, General, marcado com um curso governamental, procurar mediuns e feiticeiros, para sarar a filha.
Ás vezes até levava-os em casa. Os mediuns chegavam perto da moça, davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos, gritavam: sai, irmão!—e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ella os fluidos milagrosos.
Os feiticeiros tinham outros passes e as ceremonias para entrar no conhecimento das forças occultas que nos cercam, eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, accendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa exquisita, batiam com feixes de hervas, ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras inintelligiveis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.
Na sahida, a pobre D. Maricota, um tanto já diminuida da sua actividade e diligencia, olhando, ternamente aquelle grande rosto negro do mandigueiro, onde a barba branca punha mais veneração e certa grandeza, perguntava:
—Então, titio?
O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as ultimas communicações do que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua magestade de africano:
—Vó vê, nhã nhã... Tô crôtando mandinga...
Ella e o General tinham assistido a ceremonia e o amor de paes e tambem esse fundo de superstição que ha em todos nós, levavam a olhal-a com respeito, quasi com fé.
—Então foi feitiço que fizeram á minha filha? perguntava a senhora.
—Foi, sim, nhãnhã.
—Quem?
—Santo não qué dizê.
E o preto obscuro, velho escravo, arrancado ha um meio seculo dos confins da Africa, sahia arrastando a sua velhice e deixando naquelles dous corações uma esperança fugaz.
Era uma singular situação, a daquelle preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo captiveiro, lançando mão dos residuos de suas ingenuas crenças tribaes, residuos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses—e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infancia e de sua raça; aquelles sanguinarios manipanços da Africa indecifravel, quizessem vingal-o á legendaria maneira do Christo dos Evangelios...
A doente assistia tudo aquillo sem comprehender e se interessar por aquelles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se communicavam, que tinham ás suas ordens os seres immateriaes, as existencias fora e acima da nossa.
Andando, ao lado de Quaresma, o General lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a sciencia, contra os espiritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem piedade e commiseração.
O Major não sabia o que dizer diante daquella immensa dor de pai e parecia-lhe toda o qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
—General, o Sr. permitte que eu a faça ver por um medico?
—Quem é?
—É o marido de minha afilhada... o Sr. conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Póde ser, não é?
O General consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada medico que consultava, cada espirita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos elle esperava o milagre. Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Dr. Armando.
A revolta já tinha mais de quatro mezes de vida e as vantagens do Governo eram problematicas. No Sul, a insurreição chegava ás portas de S. Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas paginas dignas e limpas de todo aquelle enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violencias de apavorado e soube tornar verdade a gasta phrase grandiloquente: resistir até á morte.
A ilha do Governador tinha sido occupada e Magé tomado, os revoltosos, porém, tinham a vasta bahia e a barra apertada, por onde sahiam e entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
As violencias, os crimes que tinham assignalado esses dous marcos de actividade guerreira do Governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e elle soffria.
Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de moveis, roupas e outros haveres. O que não podia ser transportado, era destruido pelo fogo e pelo machado.
A occupação deixou lá a mais execranda memoria, e até hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um Capitão, patriotico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e insoffrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, e o Capitão chamava o pobre homem:
—Venha cá!
O homem approximava-se amedrontado e Ortiz perguntava.
—Quanto quer por isso?
—Tres mil réis, capitão.
Elle sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
—Você não deixa por menos... Está caro... Isso é peixe ordinario... Carapebas! Ora!
—Bem, Capitão, vá lá por dous e quinhentos.
—Leve isso lá dentro.
Elle falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
—Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto, Moreira Cesar deixou boas recordações de e ainda hoje ha lá quem se lembre delle, agradecido por este ou aquelle beneficio que o famoso Coronel lhe prestou.
As forças revoltosas parceiam não ter enfraquecido; tinham, porém, perdido dous navios, sendo um destes o «Javary», cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra detestavam-n'o particularmente. Era um monitor, chato, razo com a agua, uma especie de saurio ou chelonio de ferro, de construcção franceza. A sua artilharia era temida; o que sobremodo enraivecia os adversarios, era elle não ter quasi borda acima d'agua, ficar quasi ao nivel do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas machinas não funccionavam, e a grande tartaruga vinha collocar-se em posição de combate com auxilio de um rebocador.
Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não se soube e até hoje não foi esclarecido, porque foi. Os legalistas affirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma valvula ou um outro accidente qualquer.
Como o do seu irmão, o «Solimões», que desappareceu nas costas do cabo Polonio, o fim do «Javary» ainda está envolvido no mysterio.
Quaresma permanecia de guarnição no Cajú, e viera receber dinheiro. Deixara lá Polydoro, pois os outros officiaes estavam doentes ou licenciados, e Fontes, que, sendo uma especie de inspector geral, ao contrario de seus habitos, dormira aquella noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até á tarde.
Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore, maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes.
A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.
Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado, não o levassem a soffrer maus quartos de hora.
Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém, não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua liberdade.
De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado.
A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros.
E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega, demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos.
O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes no animo de Floriano.
A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente.
Tanto mais que o via apprehensivo, deixando perceber numa phrase e noutra desanimo e desesperança.
Na verdade o Major tinha um espinho n'alma. Aquella recepção de Floriano ás suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu enthusiasmo e sinceridade nem tão pouco a idéa que elle fazia do dictador. Sahira ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionario, que não avaliava o alcance dos seus projectos, que os não examinava sequer, desinteressado daquellas altas cousas de governo como só não o fosse!... Era pois para sustentar tal homem que deixara o socego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha elle de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não se interessava pela sorte delles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do paiz, o progresso de sua lavoura e o bem estar de sua população rural?
Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem está atrapalhado, não póde agora; mais tarde com certeza elle fará a cousa...
Vivia nessa alternativa dolorosa e era ella que lhe trazia apprehensões, desanimo e desesperança, notados por sua afilhada na sua physionomia já um pouco acabrunhada.
Não tardou, porém, que, abandonando os episodios da sua vida militar, Quaresma explicasse o motivo de sua visita.
—Mas qual dellas? perguntou a afilhada.
—A segunda, a Ismenia.
—Aquella que estava para casar com o dentista?
—Esta mesmo.
—Ahn!...
Ella pronunciou este ahn muito longo e profundo, como se puzesse nelle tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via melhor a causa, naquella obrigação que incrustam no espirito das meninas, que ellas se devem casar a todo o custo, fazendo do casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma deshonra, uma injuria, ficar solteira.
O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento, uma cousa vasia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.
Graças á frouxidão, á pobreza intellectual e fraqueza de energia vital de Ismenia, aquella fuga do noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nella se abysmou nessa idéa desesperada.
Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se fez duro e aspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem que só se póde ser bom quando se é forte de algum modo.
Ultimamente o Major tinha diminuido um pouco o interesse pela moça; andava atormentado com o seu caso de consciencia; entretanto, se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
Não se demorou muito na casa do compadre; elle queria, antes de voltar ao Cajú, passar pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no «Socego», e de quem tinha noticias, por carta, tres vezes por semana. Eram ellas satisfatorias, comtudo elle tinha necessidade de ver tanto ella como o Anastacio, physionomias com quem se encontrava diariamente ha tantos annos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituisse a calma e a paz de espirito.
A ultima carta que recebera de D. Adelaide, havia uma phrase de que, no momento, se lembrava sorrindo: «Não te exponhas muito, Polycarpo. Toma muita cautela». Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negocio de balas é assim como a chuva?!...
O quartel ainda ficava tio velho cortiço condemnado pela hygiene, lá para as bandas da cidade nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinella deu um grande berro, fez uma immensa bulha com a arma e elle entrou, tirando o chapéo da cabeça baixa, pois estava á paisana e tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos jacobinos.
No pateo, o instructor côxo adestrava novos voluntarios e os seus magestosos e demorados gritos: hom-broôô... armas! Mei-ããã volta... volver! subiam ao céo e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem.
Bustamante estava no seu cubiculo, mais conhecido por gabinete, irreprehensivel no seu uniforme verde garrafa, alamares dourados e vivos azul ferrete. Com auxilio de um sargento, examinava a escripta de um livro quarteleiro.
—Tinta vermelha, Sargento! É como mandam as instrucções de 1864.
Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
Logo que viu Quaresma entrar, o commandante exclamou radiante:
—O Major adivinhou!
Quaresma descançou placidamente o chapéo, bebeu um pouco d'agua, e o Coronel Innocencio explicou a alegria:
—Sabe que temos de marchar?
—Para onde?
—Não sei... Recebi ordem do Itamaraty.
Elle não dizia nunca do Quartel-General, nem mesmo do Ministro da Guerra: era do Itamaraty, do Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importancia a si mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma especie de batalhão da guarda, favorito e amado do dictador.
Quaresma não se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossivel obter a licença e tambem necessario mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.
—O Major é que vai commandar o corpo, sabia?
—Não, Coronel. E o senhor não vai?
—Não, disse Bustamante, alisando o cavaignac mosaico e abrindo a bocca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
Começava a tarde, quando Quaresma sahiu do quartel. O instructor côxo continuava, com força, magestade e demora, a gritar: hom-brôôô... armas! A sentinella não pôde fazer a bulha da entrada, porque só viu o Major, quando já ia longe. Elle desceu até á cidade e foi ao Correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéas para a consolidação definitiva da Republica.
Antes de chegar ao Correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tambem dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.
Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Nictheroy? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
E passou o dia atormentado pela duvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do General. Elle levava a intima convicção de que a sua sciencia toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco attenuada, o seu organismo cahia. Estava magra e fraca, a ponto de quasi não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto a ella vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigencias de sua mocidade levavam-n'as para outros lados.
D. Maricota, tendo perdido todo aquelle antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no quarto da filha, a consolal-a, animal-a, e, ás vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.
A molestia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismenia, tinha-lhe diminuido a lassidão, tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos cabellos castanhos, com reflexos de ouro, mais bellos se faziam quando cercavam a pallidez de sua face.
Raro era falar muito; e assim foi que, naquelle dia, se espantou muito D. Maricota com a loquacidade da filha.
—Mamãe, quando se casa Lalá?
—Quando se acabar a revolta.
—A revolta ainda não acabou?
A mãe respondeu-lhe e ella esteve um instante calada, olhando o tecto, e, após essa contemplação disse á mãe:
—Mamãe... Eu vou morrer...
As palavras sairam-lhe dos labios, seguras, doces e naturaes.
—Não diga isso, minha filha, adiantou-se D. Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...
A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se tratasse de uma criança. Ella ouvia tudo com paciencia e voltou por sua vez serenamente:
—Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa a senhora...
A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta semi-cerrada e levantou-se para fechal-a. Quiz ainda ver se a dissuadia daquelle pensamento; Ismenia, porém, continuava a repetil-o pacientemente docemente, serenamente:
—Eu sei, mamãe.
—Bem. Supponho que é verdade: o que é que você quer?
—Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
D. Maricota ainda quiz brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, poz-se a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, commovida, com lagrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha, falava a verdade.
Não tardou muito a se verificar. O Dr. Armando a tinha visitado naquella manhã pela quarta vez; ella parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se á cama e conversava com prazer.
D. Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue ás irmãs. Ellas foram lá ao quarto varias vezes e parecia dormir. Distrahiram-se.
Ismenia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve vontade de vel-o mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplal-o. Chegou-lhe o desejo de vestil-o. Poz a saia: e, por ahi, vieram recordações do seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente osseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas não se recordou com odio, antes como se fosse um logar visto ha muito tempo, e que a tivesse impressionado.
De quem ella se lembrava com raiva era da cartomante. Illudindo sua mãe, acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indifferença ella lhe respondeu: não volta! Aquillo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah!... Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho, pois não encontrara collete; e foi ao espelho. Viu os seus hombros nús, o seu collo muito branco... Surprehendeu-se. Era della aquillo tudo? Apalpou-se um pouco e depois collocou a corôa. O véo afagou-lhe as espaduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueja, uma cousa, deu um ai e cahiu de costas na cama, com as pernas para fóra... Quando a vieram ver, estava morta. Tinha ainda a corda na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi feito no dia immediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de suas melhores festas.
Quaresma foi ao enterro; elle não gostava muito dessa cerimonia; mas veiu, e foi ver a pobre moça, no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar immaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto. Era ella mesma ali; era a Ismenia dolente e pobre de nervos, com os seus traços meudos e os seus lindos cabellos, que estava dentro daquellas quatro taboas. A morte tinha fixado a sua pequena belleza e o seu aspecto pueril; e ella ia para a cova com a insignificancia, com a innocencia e a falta de accento proprio que tinha tido em vida.
Contemplando aquelles tristes restos, Quaresma viu caixão do coche parar na porta do cemiterio, atravessar pelas ruas de tumulos—uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na estreiteza da varzea e nas encostas das collinas. Algumas sepulturas como se olhavam com affecto e se queriam approximar; em outras, transparecia repugnancia por estarem perto. Havia ali, naquelle mudo laboratorio de decomposições, solicitações incomprehensiveis, repulsões, sympathias e antipathias; havia tumulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muitos, recumava o esforço, um esforço extraordinario, para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ella traz ás condições e ás fortunas.
Quaresma ainda contemplava o cadaver da moça e o cemiterio surgia aos seus olhos com as esculpturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscripções, em alguns tumulos; noutros, eram pyramides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas barôcas e delirantes, para fugir ao anonymato do tumulo, ao fim dos fins.
As inscripções exuberantes são longas, são breves: têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda a certidão de idade do morto que, lá em baixo, não se póde mais conhecer e é lama putrida.
E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem decadas e, ás vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Tudo é desconhecido; todas aquelles que querem fugir do tumulo para a memoria dos vivos, são anodynos felizes e mediocres existencias que passaram pelo mundo sem ser notadas.
E lá ia aquella moça por ali afóra para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quiz afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Elle estivera na sala de visitas, onde D. Maricota tambem estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulú, fardado do Collegio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e vinham. Na sala de jantar, estava o General silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o Almirante dizer:
—Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O Governo está exhausto.
O Major ficou na janella que dava para o quintal. O tecido do céo se tinha adelgaçado; o azul estava sedoso e fino; e tudo tranquillo, sereno e calmo.
A Estephania, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já seccos, a quem aquella dizia:
—Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao «Bonheur des Dames»... Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro.
O Major voltou de novo a contemplar o céo que cobriu o quintal. Tinha uma tranquillidade quasi indifferente. Genelicio appareceu demasiadamente funebre. Todo de preto, elle tinha afivelado ao rosto a mais profunda mascara de tristeza. O seu pince-nez azulado tambem parecia de luto.
Não lhe fôra possivel deixar de ir trabalhar; um serviço urgente, fizera-o indispensavel na repartição.
—É isto, General, disse elle, não esta lá o Dr. Genelicio, nada se faz... Não ha meio da «Marinha» mandar os processos certos... É um relaxamento...
O General não respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou á sala de jantar:
—Papae, está ahi o coche.
O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou á mulher que se ergueu com a face contrahida, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabellos já tinham muitos fios de prata. Não deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelicio tomou um partido: foi retirando os cirios de ao redor do caixão. A mãe levantou-se, veiu até ao esquife, beijou o cadaver: minha filha!
Quaresma adiantou-se, foi sahindo com o chapéo na mão. No corredor, ainda ouviu Estephania dizer a alguem: o coche é bonito.
Saiu. Na rua parecia que havia testa. As crianças da visinhança cercavam-o carro funebre e faziam innocentes commentarios sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram apparecendo e sendo dependuradas nas extremidades das columnas do coche: «Á minha querida filha», «Á minha irmã». As fitas rôxas e pretas, com lettras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
Appareceu o caixão, todo roxo, com guarnições do galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquillo ia p'ra terra. As janellas se povoaram, de um lado e d'outro da rua; um menino na casa proxima, gritou da rua para o interior: «mamãe, lá vai o enterro da moça»!
O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuario, cujos cavallos, russos, cobertos com uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciencia.
Aquelles que iam acompanhar até ao cemiterio, procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.
A esse tempo, na visinhança, alguns pombos immaculadamente brancos, as aves de Venus, ergueram o vôo, ergueram o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quasi sem bater azas, para o pombal que se occultava nos quintaes burguezes...
IV O BOQUEIRÃO
O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço.
Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia como seu trabalho effectivo.
As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las.
Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade.
Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche, tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava, irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao parallelismo, á symetria, com um horror artistico.
A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um instante unidos.
O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda, espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino, ha chapéos de seda—todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á espera do que der e vier.
Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio. Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de vacca, a silvina, o cipó chumbo—toda aquella drogaria que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores.
Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.
Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam.
Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora, consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher, mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era politico...
No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades mentaes e economicas da população.
A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre, daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.
Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e official.
Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram impotentes.
Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era encarquilhada e secca.
Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a elles interpretações suas e interpelações pittorescas.
Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.
Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado.
Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.
Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante. Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pae.
Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.
Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos, sahiam com a harmonica a tocar peças, no que eram eximios, sendo a presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança.
Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam; e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á natureza, como uma pena ou um castigo.
Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a poesia o o viço seductor de plena natureza.
Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera que o principe o viesse despertar.
Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no gallinheiro, o esvoaçar dos pombos—todo esse hymno matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor, com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam docemente como aves feridas.
D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na venda e não se incommodava com as cousas do sitio.
Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero.
«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões sinistros, imprecações—e tudo isto no seio da treva profunda da noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas, tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de uma carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a consciencia; e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e pedir—capitão, meu gorro; meu gorro!—parecia que era o meu proprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel, para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade, que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei, e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról de uma tolice politica qualquer...
Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade».
* * * * *
Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até á posição de combatente.
Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu «Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel das aventuras.
E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha passando—onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse.
A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual. Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo, viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de viver.
Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma face amiga.
Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas idéas e mais que tudo nas suas desillusões.
Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já presentia isso e queria esse allivio.
O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a situação da familia.
Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido:
—Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito. Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se recommendam com teimoso interesse.
Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a sua missa era quasi uma affirmação politica.
A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos.
Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando insensivelmente.
Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes nos jornaes.
Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia, e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando.
—Então acaba breve, hein?
—Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco.
Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir ironico dizendo:
—Emfim...
—A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se.
—Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada... Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!...
—Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar?
—Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões promptas...
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
—Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é um paiz perdido, acaba colonia ingleza...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico:
—Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil.
—Qual o que! Onde é que você viu um Governo...
—Mais baixo, Caldas!
—...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturaes: jazem por ahi á toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: mea culpa, mea maxima culpa...
Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.
Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram tambem: mea culpa, mea maxima culpa...
A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade.
Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o levasse á igreja em missa de setimo dia.
O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo dantesco.
Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao Almirante:
—A cousa está p'ra acabar...! Breve...
—E se resistirem? perguntou o General.
—Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao Marechal...
—Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:
—Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
—Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um pouco e aconselhou:
—Almirante não fale assim... Olhe que...
—Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
—Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do «Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graniticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num caes, desprezado e inoffensivo.
O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria.
Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra.
Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um conhecia o segredo de sua consciencia.
De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão.
Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia, escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado á mercê do vencedor.
De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso.
A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou que delirava.
E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.
Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva envolviam tudo.
Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror nocturno.
Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.
Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela madrugada:
—Sr. Major, está ahi o home do Itamaraty.
—Que homem?
—O official que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, gemeu—ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: Levem este.
Seguiu adiante e despertou outro:—onde você esteve? Eu—respondeu o marinheiro—na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do Itamaraty... Este tambem... Levem!...
Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e voltavam.
O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante, deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então: levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.—Onde esteve você? perguntou.—Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.—Que enfermeiro! fez o emissario. Levem este tambem...
—Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi chorando.
—Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!
E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das aguas da ilha.
Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente. No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.
A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o Boqueirão...
V A AFILHADA
Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle, Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade? Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira, nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena que presenciara na vespera.
Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado. Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar, para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua, propria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara—todo esse lado da existencia que parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle não provara, elle não experimentara.
Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do folk lore, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros, innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie, melhor, um encadeiamento de decepções.
A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do Itamaraty.
E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos... Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições...
Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a Patria?
Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos qualquer magua?
Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser revista.
Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar, por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira!
Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.
Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo e substancia?
E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na mesma tristeza.
E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente sim: mas, bem examinado, não.
Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente executado!
Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso—elle que fôra tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada...
Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais vel-os-ia, nunca!
E elle chorou um pouco.
Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte, sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos. Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes asiaticos»—o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe levasse ao alto logar cubiçado.
Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
—Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia:
—Que deseja, camarada?
Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
—Não me conhece mais, doutor?
Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e disse seccamente:
—Não.
—Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que cantou no seu casamento.
Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
—Ah? É o senhor! Bem: que deseja?
—O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso?
—Quem é?
—Aquelle que foi vizinho do seu sogro.
—Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi?
—Eu queria que o senhor se interessasse...
—Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão. Passe bem.
E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo.
Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe, mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
—Que ha?
O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura:
—Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito, mas... que se ha de fazer? Paciencia.
E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu placido uniforme de General.
Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao garboso «Cruzeiro do Sul».
O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos apontados para partir era o «Cruzeiro».
O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom—brôoo... armas! Mei—ãã volta!
Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença, Commandante!
Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação.