LIMA BARRETO (continued 5)
Reading edition
Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
—Entre, disse elle.
O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais decencia receber o inferior.
Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio, de severidade:
—Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei—ãã... volta... volver!
Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os outros, com oppressões e soffrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de donzella romantica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu ensanguentado—elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em salval-o.
—Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
—Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella.
Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras. Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio; não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio, tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição.
—Talvez seu marido, disse Ricardo.
Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo.
—Qual, esse...
Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto.
Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
—Se a senhora fosse lá...
Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:
—Vou.
Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de reconhecimento.
Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher:
—Vaes sahir?
Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa vivacidade:
—Vou.
Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á mulher, perguntou com autoridade:
—Onde vaes?
A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:
—Que faz o senhor aqui?
Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:
—Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já sabe?
O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:
—Fazes mal.
—Porque? perguntou ella com calor.
—Vaes comprometter-me. Sabes que...
Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:
—É isto! Eu, porque eu, porque eu, é só eu para aqui, eu para ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digo eu tambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!...
Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos. Então aquella menina? Então aquelle bibelot? Quem lhe teria ensinado taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho:
—Estás no theatro?
Ella lhe respondeu logo:
—Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou.
E accrescentou com força:
—É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.
Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sahir pela porta fóra.
Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna.
Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e aborrecia-se.
Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido lampejo de espada:
—Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido!
Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza:
—Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá.
Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que elles tinham direito de matal-o.
Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.
Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro—Março de 1911.