LIMA BARRETO (continued 3)
Reading edition
D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta noticia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a mão direita o grande annelão symbolico, o talisman, que cobria a phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de marquise.
Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, profundo e estrellado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se «Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no logar que moravam nelle—verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranquillidade.
Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas quadrinhas:
POLITICA de CURUZU Quaresma, meu bem, Quaresma! Quaresma do coração! Deixa as batatas em paz Deixa em paz o feijão. Geito não tens para isso Quaresma, meu cocumby! Volta á mania antiga De redigir em tupy. Olho Vivo.
O Major ficou estuporado. Que vinha ser aquillo? Porque? Quem era? Não atinava, não achava o motivo o fundo de semelhante ataque. A irmã approximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: «Lê isto, Adelaide».
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa c solicitude. Ella tinha aquella ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores do outros. Emquanto ella lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com politica? E coçava os cabellos já tanto encanecidos.
D. Adelaide disse então docemente:
—Socega, Polycarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu tambem os versos e perguntou ao padrinho:
—O Sr. se metteu algum dia nessa politica daqui?
—Eu nunca!... Vou até declarar que...
—Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
—Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fóra e encontraram os tres nessas considerações. Notaram a alteração de Quaresma. Estava pallido, tinha os olhos humidos e coçava successivamente a cabeça.
—Que ha, Major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira na villa. Acreditavam todos que o Major viera para ali no intuito de fazer politica, tanto assim que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuia remedios homeopathicos... O Antonino affirmara que havia de desmascarar semelhante tartufo.
—E não desmentiste? perguntou Quaresma.
Ricardo affirmou que sim, mas o escrivão não quizera acreditar nelle e reiterara os seus propositos de ataque.
O Major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de accordo com seu genio, incubou nos primeiros tempos a impressão, e, emquanto estiveram com elle os seus amigos, não demonstrou preoccupação.
Olga e o marido passaram no «Socego» cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já parecia cançado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos logarejos são de uma grande pobreza do pittoresco; ha um ou dous logares celebres, assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade historica.
Em Curuzú, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas leguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Dr. Campos já travara relações com o Major e, graças a elle, houve cavallos e silhão que tambem permitisse á moça ir á cachoeira.
Foram de manhã, o Presidente da Camara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O logar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em tres partes, pelo flanco da montanha abaixo. A agua estremecia na quéda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma aboboda de arvores. O sol coava-se difficilmente e vinha faiscar sobre a agua ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquelle salão fantastico.
Olga pôde ver tudo isso bem á vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do presidente era de um silencio de tumulo e o pae desta tomava com o sou marido informações sobre novidades medicinaes: Como se cura hoje erysipela? Ainda se usa muito o tartaro emetico?
O que mais a impressionou no passeio foi a miseria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ella tinha dos roceiros idéa de que eram felizes saudaveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta agua, porque as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquelle sapê sinistro e aquelle «sopapo» que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Porque ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão facil, trabalho de horas. E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Porque? Mesmo nas fazendas, o espectaculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quasi sem o pomar olente e a horta succulenta. A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ella não pôde ver outra lavoura, outra industria agricola. Não podia ser preguiça só ou indolencia. Para o seu gasto, para uso proprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais accusadas de preguiça, trabalham relativamente. Na Africa, na India, na Cochinchina, em toda parte, os casaes, as familias, as tribos, plantam um pouco, algumas cousas para elles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e tambem a sua piedade e sympathia por aquelles parias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbaticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades mezes e annos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remedio. Aquillo era uma situação do camponez da idade média e começo da nossa; era o famoso animal de La Bruyére que tinha face humana e voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passeiar ao roçado do padrinho, aproveitou a occasião para interrogar a respeito o tagarella Felizardo. A faina do roçado ia quasi no fim; o grande trato da terra estava quasi inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a collina que formava a lombada do sitio.
Olga encontrou o camarada cá em baixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastacio estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caidas. Ella lhe falou.
—Bons dias, sá dona.
—Então trabalha-se muito, Felizardo?
—O que se póde.
—Estive hontem no Carico, bonito logar... Onde é que você mora, Felizardo?
—É d'outra banda, na estrada da villa.
—É grande o sitio de você?
—Tem alguma terra, sim, senhora, sá dona.
—Você porque não planta para você?
—Quá sá dona! O que é que a gente come?
—O que plantar ou aquillo que a plantação der em dinheiro.
—Sá dona tá pensando uma cousa e a cousa é outra. Emquanto planta cresce, e então? Quá, sá dona, não é assim...
Deu uma machadada; o tronco escapou: collocou-o melhor no picador e, antes de desferir o machado, ainda disse:
—Terra não é nossa... E frumiga?... Nós não tem ferramenta... isso é bom para italiano ou allamão, que Governo dá tudo... Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quasi iguaes, de um claro amarellado, onde o cérne escuro começava a apparecer.
Ella voltou querendo afastar do espirito aquelle desacordo que o camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionaes; para os outros todos os auxilios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos patricios.
E a terra não era delle? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por ahi? Ella vira até fazendas fechadas, com as casas em ruinas... Porque esse acaparamento, esses latifundios inuteis e improductivos?
A fraqueza de attenção não lhe permittiu pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquelle perdera um pouco da sua morgue; havia mesmo occasião em que era até natural. Quando ella chegou, o padrinho exclamava:
—Adubos! É lá possivel que um brasileiro tenha tal idéa! Pois se temos as terras mais ferteis do mundo!
—Mas se esgotam, Major, observou o doutor
D. Adelaide, calada, seguia com attenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometteu-se na conversa:
—Que zanga é essa, padrinho?
—É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma injuria!
—Pois fique certo, Major, se eu fosse o senhor, adduziu o doutor, ensaiava uns phosphatos...
—De certo, Major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão não queria aprender musica... Qual musica! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje veio que é preciso... É assim, resumia elle.
Todos se entreolharam, excepto Quaresma que logo disse com toda a força d'alma:
—Sr. doutor, o Brasil é o paiz mais fertil do mundo, é o mais bem dotado e as suas terras não precisam emprestimos para dar sustento ao homem. Fique certo!
—Ha mais ferteis, Major, avançou o doutor.
—Onde?
—Na Europa.
—Na Europa!
—Sim, na Europa. As terras negras da Russia, por exemplo.
O Major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triumphante:
—O Sr. não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção: «Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.
Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do Brasil.
A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra, num dado instante todas se juntaram num unisono sustentado. Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterranea.
Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól, o visse distinctamente...
IV «PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»
D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas simples, medias e claras.
Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.
Para D. Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço, vestuario, tudo modesto, medio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara principes, bellezas, triumphos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ella sempre se sentiu completa.
O seu aspecto tranquillo e o socego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda, emolduravam e realçavam naquelle interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
Não se vá suppor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na apparencia até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se examinassem os seus habitos, gestos e attitudes logo se havia de ver que o socego e a placidez não moravam no seu pensamento.
Occasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em scisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um muchocho, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma phrase.
Anastacio em taes instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custodio com o Manduca da venda; e o trabalho marchava.
Inutil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia elles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ella superintendendo o serviço domestico.
As outras pessoas de suas relações não podiam tambem notar as preoccupações absorventes do Major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia seis mezes que não lhe visitava e da afilhada e do compadre as ultimas cartas que recebera, datavam de uma semana, não vendo aquella ha tanto tempo, quanto ao trovador e aquelle desde quasi um anno, isto é, o tempo em que estava no «Socego».
Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo approveitamento de suas terras. Os seus habitos não foram mudados e a sua actividade continuava sempre a mesma. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O hygrometro, o barometro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. Dera-se mal com elles. Fosse inexperiencia e ignorancia das bases theoricas delles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia baseado em combinações dos seus dados, sahiam erradas. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha secca.
Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus apparelhos, com aquelle grosso e cavernoso sorriso de troglodyta:
—Quá patrão! Isso de chuva vem quando Deus qué.
O barometro aneroide continuava a um canto a dansar o seu ponteiro sem ser percebido; o thermometro de maxima e minima, legitimo Casella, jazia dependurado na varanda sem receber um olhar amigo; a caçamba do pluviometro estava no gallinheiro e servia de bebedouro ás aves; só o anemometro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se protestasse contra aquelle desprezo pela sciencia que Quaresma representava.
Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de ser publica, lavrava occultamente. Havia no seu espirito e no seu caracter uma vontade de acabal-a de vez, mas como? Se não o accusavam, se não articulavam nada contra elle directamente? Era um combate com sombras, com apparencias, que seria ridiculo acceitar.
De resto, a situação geral que o cercava, aquella miseria da população campestre que nunca suspeitara, aquelle abandono de terras á improductividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preoccupações angustiosas.
Via o Major com tristeza não existir naquella gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio mutuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em familias geralmente irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto o exemplo dos portuguezes que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importancia, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do moitirão já se havia apagado.
Como remediar isso?
Quaresma desesperava...
A tal affirmação de falta de braços pareceu-lhe uma affirmação de má fé ou estupida, e estupido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preoccupar com os que já existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia duzia de cabeças de gado, fossem introduzidas mais tres, para augmenter o estrume!...
Pelo seu caso, elle via bem as difficuldades, os obices de toda a sorte que havia para fazer a terra productiva e remunerada. Um facto veiu mostrar-lhe com eloquencia um dos aspectos da questão. Vencendo a herva de passarinho, os maus tratos e o abandono de tantos annos, os abacateiros de suas terras conseguiram fructificar, fracamente é verdade, mas de forma superior ás necessidades de sua casa.
A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços infimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Sr. Azevedo no Mercado, o rei das fructas. Lá foi.
—Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
—Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela duzia cinco mil réis.
—Em porção, o Sr. sabe que...
—É isso... Emfim, se quer mande-os...
Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôz uma das mãos na cava do collete e quasi de costas para o Major:
—É preciso vel-os... O tamanho influe...
Quaresma os mandou e, quando lhe veiu o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa, de quem acaba de ganhar uma grande batalha immortal. Acariciou uma por uma aquellas notas encardidas, leu-lhes bem o numero e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma meza e muito tempo levou sem animo de trocal-as.
Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salario dos auxiliares e, após esse calculo que não era laborioso, teve a evidencia de que ganhara 1$500, mil e quinhentos réis, nem mais nem menos. O Sr. Azevedo tinha-lhe pago pelo cento a quantia com que se compra uma duzia.
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e elle viu naquelle ridiculo lucro objecto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada actividade que se poz ao trabalho. Para o anno, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fructeiras. Anastacio e Felizardo continuavam occupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para ajudal-o no tratamento das velhas arvores fructiferas.
Foi, pois, com o Mané Candieiro que elle se pôz a serrar os galhos das arvores, os galhos mortos e aquelles em que a herva damninha segurava as suas raizes. Era arduo e difficil o trabalho. Tinham ás vezes que subir ás grimpas para a extirparão do galho attingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas occasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
Mané Candieiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingenuas, onde com surpreza o Major não via entrar a fauna, a flora locaes, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuaes e muito ternas, mellosas até; por acaso lá vinha uma em que um passaro local entrara; então o Major escutava.
Eu vou dar a despedida Como deu o bacuráo, Uma perna no cantinho Outra no galho de páu.
Este bacuráo que entrava ahi satisfazia particularmente ás aspirações de Quaresma. A observação popular já começava a interessar-se pelo espectaculo ambiente, já se emocionava com elle e a nossa raça deitava, portanto, raizes na grande terra que habitara. Elle a copiou e mandou ao velho poeta de S. Christovão. Felizardo dizia que Mané Candieiro era um mentiroso, pois todas aquellas caçadas do caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poetico, principalmente no desafio: o moleque é bom!
Elle era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amollecidas pelo sangue africano.
Quaresma procurou descobrir nelle aquella odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas, sinceramente, não a encontrou.
Com auxilio de Mané Candieiro, foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fructeiras daquelle velho sitio abandonado ha quasi dez annos. Quando o serviço ficou prompto, elle viu com tristeza aquellas velhas arvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam soffrer e elle se lembrou das mãos que as tinham plantado ha vinte ou trinta annos, escravos, talvez, banzeiros e desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdescesse, e o renascimento das arvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tyês vermelhos, com o seu pio pobre, especie de ave tão inutil e tão bella de plumas que parece ter nascido para os chapéos das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr do dia, eram os sanhassús a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens de colleiros; e de tarde como que todos elles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo appareceu inopinadamente, com a rapidez ousadissima de um general consumado. Até ali elle se mostrara timido, parecia que sómente mandava esclarecedores.
Desde aquelle ataque ás provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas reappareceram; mas, naquella manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem acção e as lagrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o Major até mandara buscar o sulphato de cobre para a solução em que ia lavar a batata ingleza a plantar nos intervallos dos pés.
Toda a manhã, elle ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho, oscillando ao vento: naquella, elle não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! A modo que e obra de gente, disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terriveis hymhopteros, piratas infimos que lhe cahiam em cima do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatel-os. Quaresma poz-se logo em campo, descobriu as aberturas principaes do formigueiro e em cada uma queimou a formicida mortal. Passaram-se dias: os inimigos pareciam derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrellada, Quaresma ouviu uma bulha exquisita, como se alguem esmagasse as folhas mortas das arvores... Um estalido... E era perto... Accendeu um phosphoro e o que viu, meu Deus! Quasi todas as larangeiras estavam negras de iminensas saúvas. Havia dellas ás centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropellos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo peciolo; cá em baixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiros, levantando-as acima da descomunal cabeça, era longas fileiras pelo trilho limpo, aberto entre a herva rasteira.
Houve um instante de desanimo na alma do Major. Não tinha contado com aquelle obstaculo nem o suppuzera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade intelligente, organizada, ouzada e tenaz com quem se tinha de haver. Veio-lhe então á lembrança aquella phrase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas ellas nos expulsariam.
O Major não estava lembrado ao certo se eram essas palavras, mas o sentido era, e ficou admirado que só agora ella lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o amino. Comprou ingredientes e eil-o mais o Mané Candieiro, a abrir picadas a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os reductos centraes, as panellas dos insectos terriveis. Então era como se os bombardeassem: o sulpheto queimava, estourava em tiros seguidos, mortiferos, lethaes!
E dahi em diante, foi uma batalha sem treguas. Se apparecia uma abertura, um olho, logo se lhe applicava a formicida, pois do contrario, nenhuma plantação era possivel, tanto mais que extinctos os das suas terras, não tardariam os formigueiros das visinhanças ou dos logradouros publicos a deitar caniculos para o seu terreno.
Era um supplicio, um castigo, uma especie de vigilancia a dique hollandez e Quaresma viu bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um accôrdo entre os cultivadores, podia levar a effeito a extincção daquelle flagello, peor que a saraiva, que a geada, que a secca, sempre presente, inverno ou verão, outomno ou primavera.
Não obstante essa luta diaria, o Major não desanimou e pôde colher alguns productos das plantações que tinha feito. Se por occasião das fructas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda ella foi, quando viu partir para a estação em successivas carretas, as aboboras, os aipins, as batatas doces, em cestos cobertos com saccos cozidos. Os fructos, em parte, eram de outras mãos; as arvores não tinham sido plantadas por elle; mas aquillo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho!
Elle ainda foi ver aquelles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a gloria, e para a victoria. Recebeu o dinheiro dias depois, contou o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi á roça nesse dia; o trabalho de guarda livros roubou o de cultivador. A sua attenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio do dia, pôde dizer a irmã:
—Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
—Não, menor do que o dos abacates?
—Um pouco mais.
—Então... Quanto?
—Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando syllaba por syllaba.
—O que?
—Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil quinhentos.
D. Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois, levantando o olhar:
—Homem, Polycarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
—Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras feracissimas...
—É isto... Queres sempre ser a abelha mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrificios... Vê lá se fazem! Historias... Mettem-se no café que tem todas as protecções...
—Mas, faço eu.
A irmã prestou mais attenção a costura, Polycarpo levantou-se, foi até á janella que dava para o gallinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Elle concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
—Oh! Adelaide! Aquillo não é uma gallinha morta...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até á janella e verificou com a vista:
—É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou á sua sala de estudos. Meditava grandes reformas agricolas. Mandara buscar catalogos e ia examinal-os. Tinha já em mente uma charrúa dupla, um capinador mecanico, um semeador, um deslocador, grades, tudo americano, de aço, dando o rendimento effectivo de 20 homens. Até então, não quizera essas innovações; as terras mais ricas do mundo, não precisaram desse processos que lhe pareciam artificiaes, para produzir; estava, porém, agora disposto a empregal-os como experiencia. Aos adubos, no entretanto, o seu espirito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia o Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, phosphatos ou mesmo estrume commum, numa terra brasileira... Uma injuria!
Quando se convencesse de que eram necessarios, parecia-lhe que todo o seu systema de idéas ia por terra e os moveis de sua vida desappareceriam. Estava assim a escolher arados e outros «Planets», «Bajacs» e «Brabants» de varios feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe annunciou a visita do dr. Campos.
O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão, e o seu grande corpo. Era alto e gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quasi á flôr do rosto, uma testa média e recta: o nariz, mal feito. Um tanto trigueiro, cabellos corridos e já grisalhos, era o que se chama por ahi um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzú, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o logar ha mais de vinte annos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e á sua actividade clinica. Com esta, não gastava grande energia, mental: tendo de côr uma meia duzia de receitas, elle, desde muito, conseguira enquadrar as molestias locaes no seu reduzido formulario.
Presidente da Camara, era das pessoas mais consideraveis da Curuzú, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela sua affabilidade e simplicidade.
—Ora, viva Major! Como vai isto por ahi? muita formiga? Lá em casa já não ha mais.
Quaresma respondeu com menor enthusiasmo e jovialidade, mas comente com a alegria communicativa do doutor. Elle continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
—Sabe o que me traz aqui, Major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obsequio seu.
O Major não se espantou; sympathizava com o homem e abriu-se em offerecimentos.
—Como o Major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexivel, subtil; as palavras cahiam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se, colleavam-se:
—Como o Major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A victoria é nossa. Todas as mezas estão comnosco, excepto uma... Ahi mesmo, se o Major quizer...
—Mas, como? se eu não sou eleitor, não me metto, nem quero metter-me em politica? perguntou Quaresma ingenuamente.
—Exactamente por isso, disse o doutor com voz forte: e em seguida brandamente: a secção funcciona na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
—E dahi?
—Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o Major quer responder (é melhor já) que não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavaignac e respondeu claramente, firmemente:
—Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôz mais uncção e maciez a na voz, adduziu argumentos: que era para o partido, o unico que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexivel; disse que não, que lhe eram absolutamente antipathicas taes disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria affirmar uma cousa que elle não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banaes e despediu-se com o ar amavel, com a jovialidade mais sua que era possivel.
Isto se passou na terça-feira, naquelle dia de luz fosca e irritante. Á tarde houve trovoada, choveu muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o Major foi surprehendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentavel, portador de um papel official para elle, proprietario do «Socego», conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipaes, rezava o papel, O Sr. Polycarpo Quaresma, proprietario do sitio «Socego» era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do referido sitio que confrontavam com as vias publicas.
O Major ficou um tempo pensando. Julgava impossivel uma tal intimação. Seria mesmo? Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assignatura do Dr. Campos. Era certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil duzentos metros, pois seu sitio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros—era possivel!?
A antiga corvéa!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sitio. Consultando a irmã, ella lhe aconselhou que falasse ao Dr. Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com elle dias antes.
—Mas és tolo, Polycarpo. Foi elle mesmo...
A luz se lhe fez no pensamento... Aquella rede de leis, de posturas, de codigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de taes caciques, se transformava em pôtro, em polé, em instrumento de supplicios para torturar os inimigos, opprimir as populações, crestar-lhes a iniciativa e a independencia, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquellas faces amarelladas e chupadas que se encostavam nos portaes das vendas preguiçosamente; viu tambem aquellas crianças maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquellas terras abandonadas, improductivas, entregues ás hervas e insectos damninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, activo e trabalhador, sem animo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos—este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relampago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas historias de sua vida, a viagem proxima do papai, á Europa, o desespero do marido no dia em que sahiu sem annel, pedia noticias do padrinho, de D. Adelaide e, sem desrespeito, recommendava á irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da «Duqueza».
A «Duqueza» era uma grande pata branca, de penas alvas a macias ao olhar, que, pela lentidão e magestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse appellido nobre. O animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas duzias de patos, levara a «Duqueza» tambem. Era uma especie de paralysia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tres dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico collado ao chão, atacada pelas formigas, o animal só dava signal de vida por uma lenta oscillação do pescoço em torno do bico, espantando as moscas que a importunavam na sua ultima hora.
Era de ver como aquella vida tão extranha á nossa, naquelle instante penetrava em nós e sentiamo-lhe o soffrimento, a agonia e a dôr.
O gallinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou gallinhas, perús, patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo Governo tinha tantas escolas que produziam tantos sabios, não havia um só homem que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas aquelle consideravel prejuizo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador enthusiastico dos primeiros mezes; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propositos. Adquiriu compendios de veterinaria e até já tratava de comprar as machinas agricolas descriptas nos catalogos.
Uma tarde, porém, estava á espera da junta de bois que encommendara para o trabalho do arado, quando lhe appareceu á porta um soldado de policia com um papel official. Elle se lembrou da intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incommodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da collectoria, cujo escrivão, Antonio Dutra, conforme estava no papel, intimava o Sr. Polycarpo Quaresma a pagar quinhentos mil réis de multa, por ter enviado productos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as cousas geraes, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta kilometros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot da Revolução, ainda havia alfandegas interiores?
Como era possivel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopolio dos atravessadores do Rio se juntavam as exacções do Estado, como era possivel tirar da terra a remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais tetrico, mais sombrio, mais lugubre; e anteviu a epoca em que aquella gente teria de comer sapo, cobras, animaes mortos, como em França os camponezes, em tempos de grandes reis.
Quaresma veiu a recordar-se do seu tupy, do seu folk-lore, das modinhas, das suas tentativas agricolas—tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessario refazer a administração. Imaginava um Governo forte, respeitado, intelligente, removendo todos esses obices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sabias leis agrarias, levantando o cultivador... Então sim! O celleiro surgiria e a patria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar á estação, e lhe disse:
—Seu patrão, amanhã não venho trabaiá.
—Por certo; é dia feriado... A Independencia.
—Não é por isso.
—Porque então?
—Ha baruio na Côrte e dizem que vão arrecutá. Vou p'r'o mato... Nada!
—Que barulho?
—Tá nas foias, sim sinhô.
Abriu o jornal e logo deu com a noticia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sahir do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um Governo forte, até á tyrannia... Medidas agrarias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse á irmã, tomou o chapéo, e dirigiu-se á estação.
Chegou ao telegrapho e escreveu: «Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já.—Quaresma».
V O TROVADOR
—De certo, Albernaz, não é possivel continuar assim... Então, mette-se um sujeito num navio, assesta os canhões p'ra terra e diz: sai d'ahi seu presidente; e o homem vai sahindo?... Não! É preciso um exemplo....
—Eu penso tambem da mesma maneira, Caldas. A Republica precisa ficar forte, consolidada... Esta terra necessita de Governo que se faça respeitar... É incrivel! Um paiz como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é, no emtanto, pobre, deve a todo o mundo... Porque? Por causa dos Governos que temos tido que não têm prestigio, força... É por isso.
Vinham andando, á sombra das grandes e magestosas arvores do parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervallo, continuou:
—Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por ahi, que o não chamasse de «banana» e outras cousas... Sahia no Carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.
—E era um bom homem, observou o Almirante. Amava o seu paiz... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O Almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados, accendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
—Morreu arrependido... Nem com a farda quiz ir para a cóva!... Aqui para nós que ninguem nos ouve: foi um ingrato; o Imperador tinha feito tanto por toda a familia, não acha?
—Não ha duvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estavamos melhor naquelle tempo, digam lá o que disserem...
—Quem diz o contrario? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
—E mais justiça mesmo, disse com firmeza o Almirante. O que eu soffri, não foi por causa do velho, foi a canalha... Demais, tudo barato...
—Eu não sei, disse Albernaz com particular accento, como ha ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
Elles olharam um instante as velhas arvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre amores tão soberbas, tão bellas, tão tranquillas e seguras de si, como aquellas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra propria, dellas, da qual nunca sahiriam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O sólo sobre a qual cresciam, era dellas e agradeciam á terra extendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar á boa mãe, frescura e protecção contra a inclemencia do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quasi beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléa, e cobriam a terra com uma ogiva verde...
O velho edificio imperial se erguia sobre a pequena collina. Elles lhe viam o fundo, aquella parte de construcção mais antiga, joannina, com a torre do relogio um pouco afastada e separada do corpo do edificio.
Não era bello o palacio, não tinha mesmo nenhum traço de belleza, era até pobre e monotono. As janellas acanhadas daquella fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo elle, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco commum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas para annos, para seculos... As palmeiras cercavam-n'o, erectas, firmes, com es seus grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o céo...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e funcção.
Albernaz interrompeu o silencio:
—Em que dará isto tudo, Caldas?
—Sei lá.
—O homem deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custodio... hum!
—O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda á estação de S. Christovão. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente, desde o portão da Cancella até á linha da Estrada de Ferro. Era de manhã, e o dia estava limpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de sahirem da Quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordal-o: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado: e, dando com aquelles dous officiaes superiores, concertou-se rapidamente, fez a continencia que lhes era devida e ficou com a mão no bonet, um instante firme, mas logo bambeou.
—Abaixe a mão, fez o General. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom rispido e de commando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quarteis; elle obtivera licença para ir em casa, mas o somno fôra muito e descançava ali um pouco.
—Então como vão as cousas? perguntou o General.
—Não sei, não sinhô.
—Os homens desistem ou não?
O General esteve um instante examinando o soldado, Era branco e tinha os cabellos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram feias: mallares salientes, testa ossea e todo elle anguloso e desconjuntado.
—Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
—Do Piauhy, sim sinhô.
—Da capital?
—Do sertão, de Paranaguá, sim sinhô.
O Almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmal-o, resolveu falar-lhe com doçura.
—Você não sabe, camarada, quaes são os navios que elles têm?
—O «Aquidaban»... A «Lucy».
—A «Lucy» não é navio.
—É verdade, sim; sinhô. O «Aquidaban»... Um bandão delles, sim, sinhô.
O General interveio então. Falou-lhe com brandura, quasi paternal, mudando o tratamento de você para tu, que parece mais doce e intimo quando se fala aos inferiores:
—Bem, descança, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na ignacia.
Os dous generaes continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma, da estação. A pequena estação tinha um razoavel movimento. Um grande numero de officiaes, activos, reformados, honorarios moravam-lhe nas cercanias e os editaes chamavam todos a se apresentar ás autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continencias. O General, era mais conhecido em virtude de seu emprego; o Almirante, não. Quando passavam, ouviam perguntar: «quem é este Almirante»? Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incognito.
Havia uma unica mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismenia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquellas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lagrimas, mas elle as reteve com força.
Já a levara a uma meia duzia de medicos e nenhum fazia parar aquelle escapamento do juizo que parecia fugir aos poucos do cerebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrepido, apitando com furia e deixando fumaça pesada, pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante appareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguay, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméa. A barretina era um tronco de cône que avançava para a frente; e, com aquella banda roxa e casaquinha curta, parecia ter sahido, fugido, saltado de uma téla de Victor Meirelles.
—Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorario.
—Viemos pela Quinta, disse o Almirante.
—Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ahi, á toa, sem saber como, não vai commigo...
O General falara um pouco alto e os jovens officiaes que estavam proximo, olharam-n'o com mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou immmediatamente:
—Conheço bem esse negocio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em Curuzú...
—A cousa foi terrivel, accrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veiu chegando manso, vagaroso, a locomotiva, muito negra, bufando, sumido gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de cyclope, avançava que nem uma apparição sobrenattural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de officiaes, a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de traz.
A cidade andava inçada de secretas, familiares do Santo Officio Republicano, e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a minima critica, para se perder o emprego, a liberdade,—quem sabe?—a vida tambem. Ainda estavamos no começo da revolta, mas o regimen já publicara o seu prologo e todos estavam avisados. O chefe de policia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distincção de posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições do Governo um pobre continuo e um influente senador; um lente e um simples empregado de escriptorio. Demais surgiam as vinganças! mesquinhas, a revide de pequenas implicancias... Todos mandavam: a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer official, ou mesmo cidadão, sem funcção publica alguma, prendia e ai de quem cahia na prisão, lá ficava esquecido, soffrendo angustiosos supplicios de uma imaginação dominicana. Os funccionarios disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, ás occultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier Tinville.
Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todos esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto o hypocrita positivismo, um pedantismo tyrannico, limitado e estreito, que justificava todas as violencias, todos os assassinios todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessaria, lá diz elle, ao progresso e tambem ao advento do regimen normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas musicas de cornetins e versos detestaveis, o paraizo emfim, com inscripções em escriptura phonetica e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam theoremas de mecanica para justificar as suas idéas de Governo, em tudo semelhantes aos khanatos e emirados orientaes.
A mathematica do positivismo foi sempre um puro falatorio que, naquelles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a mathematica tinha sido feita e criada para o positivismo, como se a Biblia estivesse sido criada unicamente para a Igreja Catholica e não tambem para a Anglicana. O prestigio delle era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter á praça da Republica. O Almirante, cozido com as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel General. Penetraram no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de tiques de cornetas; o grande pateo estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas ensarilhadas, bayonetas reluzindo ao sol obliquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vai-e-vem de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de varias corporações e milicias, no meio dos quaes os trages escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se officiaes da guarda nacional, da policia, da armada, do exercito, de bombeiros e de batalhões patrioticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tel-o feito ao Ajudante General e Ministro da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvil-o.
O General porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com elle alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo elle era horror, maldição contra os insurrectos, e propunha os peores castigos.
—Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do Marechal, se os pegasse... ai delles!
O Tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua Republica uma idéa religiosa e transcendente. Fazia repousar nella toda a felicidade humana e não admittia que a quizessem de outra forma que não aquella que imaginava boa. Fóra dahi não havia boa fé, sinceriddae; eram hereticos interesseiros, e, dominicano do seu barrete phrygio, raivoso por não poder queimal-os em autos de fé, congesto, via passar por seus olhos uma serie enorme de réos confitentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por ahi...
Albernaz não tinha tanta furia contra os adversarios. No fundo d'alma, elle os queria até, tinha amigos lá, e essas divergencias nada significavam para a sua idade e experiencia.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na acção do Marechal. Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do archivo do largo do Moura, esperava obter uma outra commissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá.
O Almirante, tambem, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a em primeira instancia, estava gastando muito dinheiro... O Governo precisava de officiais de marinha, quasi todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma esquadra a commandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era difficil: bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoial-o e defender o seu Governo, imaginava organizar um batalhão patriotico, de que já tinha o nome «Cruzeiro do Sul» e naturalmente seria o seu commandante, com todas as vantagens do posto de coronel.
Genelicio, cuja actividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do Governo de Floriano: esperava ser sub-director e não podia um Governo sério, honesto e energico, fazer outra cousa, desde que quizesse pôr ordem na sua secção.
Essas secretas esperanças eram mais geraes do que se pode suppor. Nós vivemos do Governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações suppririam os titulos e habilitações para occupal-as; além disso, o Governo, precisando de sympathias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O proprio Dr. Armando Borges, o marido de Olga e sabio sereno e dedicado quando estudante, collocava na revolta a realização de risonhos anhelos.
Medico e rico, pela fortuna da mulher, elle não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-n'o. Já era medico do Hospital Syrio, onde ia tres vezes por semana e, em meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro, dava-lhe informações, o doutor ia de cama em cama, perguntando: como vai? Vou melhor seu doutor, respondia o syrio com voz gutural. Na seguinte, indagava: Já está melhor? E assim passava a visita; chegando ao gabinete receitava: doente n. 1, repita a receita; doente 5... quem é?... Quem é aquelle barbado... Ahn! E receitava.
Mas medico de um hospital particular não dá fama a ninguem: o indispensavel é ser do Governo, senão elle não passava, de um simples pratico. Queria ter um cargo official, medico, director ou mesmo lente da Faculdade.
E isso não era difficil, desde que arranjasse boas recommendações, pois já tinha certo nome, graças á sua actividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto «O cobreiro, Etiologia, Prophylaxia e tratamento» ou «Contribuição para o estudo da sarna no Brasil»; e mandava o folheto, quarenta e sessenta paginas, aos jornaes que se occupavam delle duas ou tres vezes por anno; o operoso, Dr. Armando Borges, o illustre clinico, o proficiente medico da nossos hospitaes, etc. etc.
Obtinha isso graças á precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de proprio, mas ricos de citações em francez, inglez e allemão.
O logar de lente é que o tentava mais; o concurso porém, mettia-lhe medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na Congregação, mas aquella historia de arguição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francez, inglez e italiano; tomara até um professor de allemão para entrar na sciencia germanica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em bibliotheca. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. Ar noite, elle abria as janellas das venezianas, accendia todos os bicos de gaz e se punha á meza, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O somno não tardava a vir ao fim da quinta pagina... isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances francezes, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Elle não comprehendia a grandeza daquellas analyses, daquellas descripções, o interesse e o valor dellas, revelando a todos, á sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daquelles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa sciencia e a pobreza de sua instrucção geral faziam-n'o ver naquillo tudo, brinquedos, passatempos, falatorios, tanto mais que elle dormia á leitura, de taes livros.
Precisava, porém, illudir-se, a si mesmo e á mulher. De resto, da rua, viam-n'o e se dessem com elle a dormir sobre os livros?!... Tratou de encommendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com titulos trocados e afastou o somno.
A sua clinica, entretanto, prosperava. De commandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão de uma orphã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simulação de intelligencia, mas aquella manobra indecorosa, indignou-a. Que necessidade tinha elle disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilegio de um titulo universitario? Tal acto pareceu á moça mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de uma penna...
Não foi desprezo, nojo que ella teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos activo; desinteressou-se delle, destacou-se de sua pessoa. Ella sentiu que tinham cortado todos os laços de affeição, de sympathia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, emfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquellas cousas de amor ao estudo, de interesse pela sciencia, de ambições de descobertas, nelle, eram superficiaes, estavam á flor da pelle; mas desculpou. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas proprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare e sahimos Mal dos Vinhas. Era perdoavel, mas charlatão? Era de mais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quasi indignidade?... Todos os homens deviam ser iguaes, era inutil mudar deste para aquelle...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande allivio, e a sua physionomia se illuminou de novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquella carreira atropellada para o nome facil, elle não deu pelas modificações da mulher. Ella dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a elle faltavam a sagacidade e finura necessarias para descobril-os sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quando estavam longe um do outro!...
A revolta veiu encontral-os assim; e o doutor, desde tres dias, pois ha tanto ella rebentara, meditava a sua ascenção social e monetaria.
O sogro suspendera a viagem á Europa, e, naquella manhã, após o almoço, conforme o seu habito, lia recostado numa cadeira de viagem os jornaes do dia. O genro vestia-se e a filha; occupava-se com sua correspondencia, escrevendo á cabeceira da meza de jantar. Ella tinha um gabinete, com todo o luxo, livros, secretaria, estantes, mas gostava pela manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ella escrevia e o pai lia; num dado momento elle disse:
—Sabes quem vem ahi, minha filha?
—Quem é?
—Teu padrinho. Telegraphou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n'«O Paiz».
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do facto sobre as idéas e sentimentos de Quaresma. Quiz desapprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão coherente com elle mesmo, tão de accordo com a substancia da vida que elle mesmo fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
—O padrinho...
—Está doido, disse Coleoni. Per la madona! Pois um homem que está quieto, socegado, vem metter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca funebre e a cartola reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia, excepto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as ultimas palavras do sogro, pronunciadas com aquelle seu portuguez rouco.
—Que ha? perguntou elle.
Coleoni explicou a repetiu os commentarios que já fizera:
—Mas não ha tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos annos, não é lá velho... Póde ainda bater-se pela Republica...
—Mas não tem interesse nisso, objectou o velho.
—E ha de ser só quem tem interesse que se deve bater pela Republica? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escripto, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
—De certo.
—É vêm você com as suas theorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
—Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros! É monopolio de vocês o patriotismo? fez Olga.
—De certo. Se elles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer e desmoralisar a acção da autoridade constituida.
—Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a serie de violencias que se vêm commettendo, aqui e no Sul?
—Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor fechando a discussão.
Ella não deixava de ser. A sympathia dos desinteressados, da população. inteira era pelos insurgentes. Não só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a multiplos factores, ha de ser assim normalmente.
Os Governos, com os seus inevitaveis processos de violencia e hypocrisias, ficam alheiados da sympathia dos que acreditam nelle; e demais, esquecidos de sua vital impotencia e inutilidade, levam a prometter o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças á sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas sympathias num mutismo prudente.
—Não me vá comprometter, hein Olga?
Ella se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande olhar luminoso e com os finos labios um pouco franzidos:
—Você sabe bem que eu não te comprometto.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus a mulher, que lhe seguiu a sahida, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingencias terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de commodos dos suburbios, cuja vista ia de Todos os Santos á Piedade, abrangendo um grande trato de area edificada, um panorama de casas e arvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua magua tinha assentado.
Por esses dias o seu triumpho desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração devida e elle quasi se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em publicar mais outro.
Ha dias vivia em casa, pouco sahindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu quarto, almoçando café, que elle mesmo fazia, e pão, indo á tarde jantar a uma tasca proximo á estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mezas sujas, abaixavam a voz e olhavam-n'o desconfiados; mas não deu importancia...
Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma—«Os lábios de Carola».
Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
É mais bella que Helena e Margarida, Quando sorri meneando a ventarola. Só se encontra a illusão que adoça a vida Nos labios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a vida...
TERCEIRA PARTE
I PATRIOTAS
Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão facil.
O palacio tinha um ar de intimidade, de quasi relaxamento, representativo o eloquente. Não era raro ver-se pelos divans, em outras salas, ajudantes de ordens, ordenanças, continuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nelle era desleixo e molleza. Os cantos dos tectos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira do rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como annunciara no telegramma. Fôra preciso por em ordem os seus negocios, arranjar quem fizesse companhia á irmã. Fizera D. Adelaide mil objecções á sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompativeis com a sua idade e superiores á sua força; elle, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensavel, necessario que toda a sua vontade, que toda a sua intelligencia, que tudo o que elle tinha de vida e actividade fosse posto á disposição do Governo, para então!... oh!
Aproveitava os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nelle expunham-se as medidas necessarias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exacções fiscaes, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violencias politicas.
O Major apertava o manuscripto na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquella planicie feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes; lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e placidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquelle momento, era do Anastacio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquella ternura passiva de animal domestico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas orbitas as escleroticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era commum tal attitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas signaes de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro á espera que o Presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia e Floriano tinha ainda, como signal do almoço, o palito na boca.
Falou em primeiro logar a uma commissão de senhoras que vinham offerecer o seu braço e o seu sangue em defeza das instituições e da patria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nella que uma escondia a outra, furtando toda ella a uma classificação honesta.
Emquanto falava, a mulhersinha deitava sobre o Marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incommodado com aquelle chammejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquelle olhar que queimava mais seducção que patriotismo. Fugia encaral-a, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na meza...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difficil sorriso do roceiro, declinou da offerta, visto a Republica ainda dispor de bastante força para vencer.
A ultima phrase, elle a disse com mais vagar e quasi ironicamente. As damas despediram-se; o Marechal gyrou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: Então, Quaresma? fez elle familiarmente.
O Major ia approximar-se, mas logo estacou no logar em que estava. Uma chusma de officiaes subalternos e cadetes cercou o dictador e a sua attenção convergiu para elles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espaduas. O Marechal quasi não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossylabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos labios.
Começaram a sahir. Apertavam a mão do dictador e, um delles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão molle, bateu-lhe no hombro com intimidade, e disse alto e com emphase; energia, Marechal!
Aquillo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo ceremonial da Republica, que ninguem, nem o proprio Floriano, teve a minima surpreza, ao contrario alguns até sorriram alegres por ver o califado khan, o emir, transmittir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos immediatamente. Um delles demorou-se mais a segredar cousas á suprema autoridade do paiz. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul turqueza, talim e sabre de praça de pret.
Os cadetes da Escola Militar formavam a phalange sagrada.
Tinham todos os privilegios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o dictador e abusavam dessa situação de esteio do sylla, para opprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos do positivismo se tinham collado naquellas intelligencias e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a Republica, em artigo de fé, em feitiço, em idolo mexicano, em cujo altar todas as violencias e crimes eram oblatas dignas e offerendas uteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a physionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante quasi um anno, tão fortes poderes, poderes de imperador Romano pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstaculo algum aos seus caprichos, ás suas fraquezas e vontades, nem mas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode cahido; o labio inferior pendente e molle a que se agarrava uma grande mosca; os traços flacidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse propria, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo elle era gelatinoso, parecia não ter nervos.
Não quiz o Major ver em taes signaes nada que lhe denotasse o caracter, a intelligencia e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse elle de si para si.
O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha das cousas governamentaes e administrativas.
Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as famosas encruzilhadas dos tal vezes, que tanto reagiram sobre a intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes homens.
Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de guerreiro extraordinario.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem balidellas no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsaveis.
De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insuccessos na exploração agricola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precaria, e não queria morrer sem deixar á familia as suas propriedades agricolas desoneradas do peso das dividas.
Honesto e probo como era, a unica esperança que lhe restava, repousava nas economias sobre os seus ordenados. Dahi lhe veiu essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensavel para conservar os rendosos logares que teve e o fez atarrachar-se tenazmente á presidencia da Republica. A hypotheca do «Brejão» e do «Duarte» foi o seu nariz de Cleopatra...
A sua preguiça, a sua tistreza de animo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse homem-talvez que, refractado nas necessidades mentaes e sociaes dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até enthusiasmo e fanatismo.
Esse enthusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possiveis, depois de ter elle sido ajudante general do Imperio, senador, ministro, isto após se ter fabricado á vista de todos o chrystalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tyrannia domestica. O bêbê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande o portar-se mal em fazer-lhe opposição, ter opiniões contrarias ás suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não ha dinheiro no Thesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais agua.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violencia, não tanto por elle em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; elle com muitos homens honestas e sinceros do tempo, foram tomados pelo enthusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava aquella figura placida e triste; na reforma radical que elle ia levar organismo anniquilado da patria, que o Major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse duvidas a certos respeitos.
De certo, elle não negaria taes esperanças e a sua acção poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de kilometros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, protecção aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o Marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquelle homem pequenino, taciturno, de pince-nez e foi-se chegando, se approximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quasi como um terrivel segredo:
—Elles vão ver o caboclo... O Major ha muito que o conhece?
Respondeu-lhe o Major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
—Então, Quaresma? fez Floriano.
—Venho offerecer á V. Ex. os meus fracos prestimos.
O presidente considerou um instante aquella pequenez de homem, sorriu com difficuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por ahi a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
—Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar physionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiatico; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a occasião para lhe falar em leis agrarias, medidas tendentes a desafogar e dar novas bases á nossa vida agricola. O Marechal ouviu-o distrahido, com uma dobra de aborrecimento no canto dos labios.
—Trazia á V. Ex. até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quasi «não me amole» e disse com preguiça a Quaresma:
—Deixa ahi...
Depositou o manuscripto sobre meza e logo o dictador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
—Que ha, Bustamante? e o batalhão, vai?
O homem approximou-se mais, um tanto amedrontado!
—Vai bem, Marechal. Precisamos de um quartel... Se V. Ex. desse ordem...
—É exacto. Fala ao Rufino em meu nome que elle póde arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras paginas do manuscripto de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquella ponta de papel, a lapiz azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da guerra. Ao acabar é que deu com a desconsideração:
—Ora! Quaresma! rasguei o teu escripto... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escripto.
O Major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
—Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
—Eu! foz Quaresma estupidamente.
—Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamaraty. Até á rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter soffrido alteração apreciavel. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas physionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo ameaçava, todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do Marechal, seu companheiro no Paraguay.
—Mas nós nos conhecemos! exclamou elle.
Quaresma esteve olhando aquelle velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tel-o já encontrado algum dia.
—Não me recordo... Donde?
—Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Polycarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriotico «Cruzeiro do Sul».
—O Sr. quer fazer parte?
—Pois não, fez Quaresma.
—Estamos em difficuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despezas devemos auxiliar o Governo... Não convém sangrar o Thesouro, não acha?
—Certamente, disse com enthusiasmo Quaresma.
—Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos officiaes, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por Major. Um amigo, influencia no Ministerio do Interior, lhe tinha mettido o nome numa lista de guardas nacionaes, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado Major, e a cousa pegou. A principio, protestou, mas como teimassem deixou.
—Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo Major.
—Qual é a minha quota?
—Quatrocentos mil réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
—Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha do lapiz e despediu-se jovialmente.
—Então, Major, ás seis, no quartel provisorio.
A conversa se havia passado na esquina da rua Larga com o Campo de Sant'Anna. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ou via-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do Quartel General sahia uma força, armas ao hombro, bayonetas caladas, dansando nos hombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e máu.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o secco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde attingisse á rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de suppor-se em tempos normaes.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no hombro. Voltou-se.
—Oh! General!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimonias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquelle seu uniforme mal tratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detraz da orelha esquerda.
—Então vem ver a cousa?
—Vim. Já me apresentei ao Marechal.
—Elles vão ver com quem se metteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A Republica, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O caboclo é de ferro... No Paraguay...
—O Sr. conheceu-o lá, não, General?
—Isto é... Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É fino o caboclo; não me quiz no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no deposito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessario... No Paraguay, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por polvora—não sabia?
—Não.
Pois foi. O meu gasto era ir para as praias, para o combate: mas o homem quer que eu fique com as munições... Capitão manda marinheiro faz... Elle sabe lá...
Deu de hombros, concertou o trancelim que já cahia da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:
—Como vai a familia?
—Bem. Sabe que Quinota casou-se?
—Sabia, o Ricardo me disse. E D. Ismenia, como vai?
A physionomia do General toldou-se e respondeu como a contragosto:
—Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estatua, numa atonia de inanimado, como que cahira em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria á mãe, dizendo: «Aprompta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento». Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismenia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento.
O General já consultara uma duzia de medicos, o espiritismo e agora andava ás voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espirito naquella obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não attingira, aniquilando-se, porém, o seu espirito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquella casa outr'ora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuido: e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principaes, a moça, com todos os cuidados, á custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, e lá ficava, emquanto as outras dansavam, um instante esquecidas da irmã que soffria.
Albernaz não quis revelar aquella dôr de sua velhice: reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquelle seu tom familiar e intimo que usava com todos:
—Isto é uma infamia, Sr. Quaresma. Que atrazo para o paiz! E os prejuizos? Um porto destes fechado ao commercio nacional, quantos annos de retardamento não representa!
O Major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossivel a reproducção de levantes e insurreições.
—De certo, adduziu o General. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau effeito!
O bonde chegara ao largo de S. Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao largo da Carioca e Albernaz seguiu para a rua do Rosario.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquella alegria expansiva de sempre. Não foi indifferença que sentiu, foi espanto, assombro, quasi modo, embora soubesse perfeitamente que elle estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na physionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo elle. Era o mesmo homem baixo, pallido, com aquelle cavaignac apontado e o olhar agudo por detraz do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o geito de apertar os labios era o mesmo que ella conhecia ha tantos annos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impellido, empurrado por uma força extranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que lhe entrara naturalmente, com o seu passo meudo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirava sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia annunciar; ia entrando conforme o velho habito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada:
—Papae saiu; e o Armando está lá em baixo escrevendo.
De facto, elle estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o classico um grande artigo sobre «Ferimentos por arma de fogo». O seu ultimo truc intellectual era este do classico. Buscava nisto uma distincção, uma separação intellectual desses meninos por ahi que escrevem contos e romances nos jornaes. Elle, um sabio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que elles. A sua sabedoria superior e o seu titulo academico não podia usar da mesma lingua, dos mesmos modismos, da mesma syntaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéa do classico. O processo era simples: escrevia do modo commum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o periodo com virgulas e substituia incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quammanho, sarapintava tudo de ao invez, empós, e assim obtinha o seu estylo classico que começava a causar admiração aos seus pares e ao publico em geral.
Gostava muito da expressão—ás rebatinhas; usava-a a todo o momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se physico, tratado de mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e qual o Dr. Sangrado.
A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente classico para orificio, julgou util a interrupção. Queria pôr buraco, mas era plebeu; orificio, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade.
Dizia ella:
—Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
—Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
Quaresma acrescentou:
—É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
—Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
—Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve duvidas e foi logo dizendo:
—Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pinaculo da escala zoologica iremos buscar normas de vida entre insectos?
—Não, é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos delles a certeza da generalidade do phenomeno, da sua immanencia, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Elle não tinha acabado a explicação e já Olga reflectia:
—Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade—vá; mas não; de que vale?
—Ha de trazer, affirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidal-a.
Conversaram ainda muito tempo. O Major contou a sua visita a Floriano, a sua proxima incorporação ao batalhão «Cruzeiro do Sul». O doutor teve uma ponta de inveja, quando elle se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquellas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterraneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléa, a casquilha rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os jacobinos, a guarda abnegada da Republica, os intransigentes, a cujos olhos, a moderação, a tolerancia e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-patria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o portuguez, o que não impedia de haver jornaes jacobinissimos redigidos por portuguezes da mais bella agua.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céo azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir ás faces pouco e pouco, depois da pallidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funccionava provisoriamente num velho cortiço condemnado pela hygiene, lá pelos lados da cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar terreo e sobrado, ambos divididos em cubiculos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma varanda de grade de páu e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscillante, que gemia á menor passada. A casa da ordem funccionava no primeiro quartinho do sobrado e o pateo, já sem as cordas de seccar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrélas e da agua de sabão, servia para a instrucção dos recrutas. O instructor era um sargento reformado, um tanto coxo, e admittido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: hom—brô... armas!
O Major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dolman era verde-garrafa e tinha uns vivos azul ferrete, alamares dourados e quatro estrellas prateadas, em cruz, na góla.
Uma gritaria fel-os vir até á varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
—É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, Coronel? continuou ele com interesse e piedade.
Bustamante estava impassivel na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
—Conheço... É um voluntario recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o voluntario e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
—Salve-me major!
Quaresma chamou de parte o Coronel, rogou-lhe e supplicou-lhe, mas foi inutil... Ha necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
—Eu sirvo sim, sim, mas dêm-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
—Restituam o violão ao cabo Ricardo!
II VOCÊ, QUARESMA, É UM VISIONARIO
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado de terra, mal se enxergam as partes baixas dos edificios proximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquella treva esbranquiçada e fluctuante, contra aquella muralha de flócos e opaca, que se condensa ali e aqui em apparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: ha grandes intervallos entre o seu fraco marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odôr da maresia parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mysterio. Entretanto, aquella pasta espessa, de uma claridade diffusa, está povoada de ruidos. O chiar das serras vizinhas, os apitos de fabricas e locomotivas, os guinchos do guindastes dos navios enchem aquella manhã indecifravel e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Accredita-se, dentro daquelle decoro, que é Charonte que traz a sua barca para uma das margens do Styge...
Attenção! Todos prescrutam a cortina de nevoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do seio da bruma, vão surgir demonios...
Não se ouve mais a bulha: o escaler afastou-se. As physionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o diluculo, não é o crepusculo: é a hora da angustia, é a luz da incerteza. No mar, não ha estrellas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro ás paredes brancas das casas. A nossa miseria é mais completa e a falta daquelles mudos marcos da nossa actividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruidos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são allucinações auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes intervallos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro a areia da praia, suja de bodelhas, algas e sargaços.