LIMA BARRETO (continued 2)
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Que o julgassem doido—vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas affirmações, não! E elle pensava, procurava meios de se rehabilitar, cahia em distracções, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo dia, e a outra, na preoccupação de provar que sabia o tupy.
O Secretario veiu a faltar um dia e o Major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fôra grande e elle mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um officio sobre cousas de Mato-Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acccento escarninho:
—Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupy que se encontravam na minuta, fosse pela allusão do funccionario Carmo, o certo é que elle insensivelmente foi traduzindo a peça official para o idioma indigena.
Ao acabar, deu com a districção, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram, para que elle examinasse. Novas preoccupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o officio em tupy seguiu com os companheiros. O Director não reparou, assignou e o tupinambá foi dar ao ministerio.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que lingua era? Consultou-se o Dr. Rocha, o homem mais habil da secretaria, a respeito do assumpto. O funccionario limpou o pince-nez, agarrou o papel, voltou-o de traz para diante, pôl-o de pernas para o ar e concluiu que era grego, por causa dos yy.
O doutor Rocha tinha na Secretaria a fama de sabio, porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma.
—Mas, indagou o chefe, officialmente as autoridades se podem communicar em linguas estrangeiras? Creio que ha um aviso de 84... Veja, Sr. Dr. Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertorios de legislação, andou-se de meza em meza pedindo auxilio á memoria de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Dr. Rocha, após tres dias de meditação, foi ao chefe e disse com emphase e segurança:
—O aviso de 84 trata de orthographia.
Ü Director olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso, intelligente e... assiduo. Foi informado que a legislação era omissa no tocante á lingua em que deviam ser escriptos os documentos officiaes; entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do paiz.
O Ministro, tendo em vista esta informação e varias outras consultas, devolveu o officio e censurou o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tympanos soavam furiosamente, os continuos andavam numa doubadoura terrivel e a toda a hora perguntavam pelo secretario que tardava em chegar.
Censurado! monologava o Director. Ia-se por agua a baixo o seu generalato. Viver tantos annos a sonhar com aquellas estrellas e ellas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escripturario!
Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
O Secretario chegou, foi ao gabinete do Director. Inteirado do motivo, examinou o officio e pela lettra conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o Coronel. O Major encaminhou-se pensando nuns versos tupys que lera de manhã.
—Então o Sr. leva a divertir-se commigo, não é?
—Como? fez Quaresma espantado.
—Quem escreveu isso?
O Major nem quiz examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distracção e confessou com firmeza:
—Fui eu.
—Então confessa?
—Pois não. Mas V. Ex. não sabe...
—Não sabe! que diz?
O Director levantou-se da cadeira, com os labios brancos e a mão levantada á altura da cabeça. Tinha sido offendido tres vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que frequentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento scientifico do mundo. Além disso escrevera no «Prytaneu», a revista da escola, um conto—«A Saudade»—producção muito elogiada pelos collegas. Dessa forma, lendo em todos os exames plenamente e distincção, uma dupla corôa de sabio e artista cingia-lbe a fronte. Tantos titulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos mesmo em Descartes ou Shakspeare, transformavam aquelle—não sabe—de um amanuense em offensa profunda, em injuria.
—Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamin Constant? Sabe o senhor mathematica, astronomia, physica, chimica, sociologia e moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francezinho ahi, póde hombrear-se com quem tirou gráu 9 em Calculo, 10 em Mecanica, 8 em Astronomia, 10 em Hydraulica, 9 em Descriptiva? Então?!
E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado.
—Mas, Sr. Coronel...
—Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fôra seu proposito duvidar da sabedoria do seu director. Elle não tinha nenhuma pretenção a sabio e pronunciara a phrase para começar a desculpa; mas, quando viu aquella enxurrada de saber, de titulos, a sobrenadar em aguas tão furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéas e nada mais sôbe nem pôde dizer.
Sahiu abatido, como um criminoso, do gabinete do Coronel, que não deixava de olhal-o furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. Sahiu afinal. Chegando á sala do trabalho nada disse; pegou no chapéo, na bengala e atirou-se pela porta afóra, cambaleando como um bebedo. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
—Cedo, hein Major?
—É verdade.
E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas palavras:
—O Major, hoje, parece que tem uma idéa, um pensamento muito forte.
—Tenho, filho, não de hoje, mas de ha muito tempo.
—É bom pensar, sonhar consola.
—Consola, talvez; mas faz-nos tambem differentes dos outros, cava abysmos entre os homens...
—E os dous separaram-se. O Major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canellas, sobraçando o violão na sua armadura de camurça.
V O BIBELOT
Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado, deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.
Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que orificio do corpo e para onde.
Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde, lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e prece.
De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio delirio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca. Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia. Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.
Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel; entretanto bastou um grãosinho de sandice...
Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado.
Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os tres a visital-o.
Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas.
O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o padrinho.
Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve um certo pudor em se misturar com os visitantes.
Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias; recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma.
No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos.
Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas, fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades livres de cada um.
E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio movimento da vida.
Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espirito fazia.
Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao vel-os disse amavelmente:
—Então vieram sempre... Estava a espera...
Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada.
—Como está Adelaide?
—Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni.
—Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma recordação triste; em seguida, perguntou:
—E o Ricardo?
A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania.
—Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua aposentadoria já está quasi acabada.
Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num céo de seda—a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni, embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
—O Major já está muito melhor; quer sahir?
Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
—É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto, mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos...
O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto:
—Sabe, padrinho, vou casar-me.
—É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos prevenil-o.
—Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
—É um rapaz...
—De certo, interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom signal.
—É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez Olga gentilmente.
—Então é para depois do fim do anno.
—Esperamos que seja por ahi, disse o italiano.
—Gostas muito delle? indagou o padrinho.
Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha della—não sabia... Gostava de outro? Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo que a ferisse, não tinham o que, ainda indeterminado na sua emoção e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos, quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de amar o individuo masculino.
E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
—Gosto.
A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida, não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.
Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella:
—Que tem, minha velha?
A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio de uma irremediavel tristeza, e respondeu:
—Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante:
—Morreu?
—Antes fosse sinhasinha.
E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as lagrimas e concluiu:
—Foi cousa feita.
Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde dôr.
O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e da sua solemnidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca. É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade do dia anterior.
Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as toilettes domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.
D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha senhora o seu ultimo triumpho:
—Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas musicas, não escrevo—é um inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora para outra era trabalho acima de sua força.
—É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.
Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito, solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.
Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu mandato.
Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada para breve.
Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do irmão.
A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance patriotico do sua obra.
De resto, elle agora soffria particularmente—soffria na sua gloria, producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das suas theorias.
Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!
E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade indiscutivel; mas como?
A reclame já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.
Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.
—Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?
—Pouca cousa, disse a moça.
—Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
—Vai casar-se, D. Olga? Parabens.
—Obrigada, fez ella.
—Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.
—Lá para o fim do anno... Tem tempo...
E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.
E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por fim achou um subterfugio, perguntando:
—Como vai o General?
—Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem, a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!
D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que absorvia toda a sua attenção.
Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios—ella não podia mais com isso. Decididamente, estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.
Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai aproveitando»—metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.
Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys, vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza que a reconfortavam.
Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.
O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa, sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu pensamento: não casar.
D. Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismenia, commentou:
—Merecia um castigo isso, não acham?
Coleoni interveio com brandura e boa vontade.
—Não ha razão para desesperar. Ha muita gente que tem preguiça de escrever...
—Qual! fez D. Adelaide. Ha tres mezes, sr. Vicente!
—Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
—E ella ainda o espera, D. ADelaide? perguntou Olga.
—Não sei, minha filha. Ninguem entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias-palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
—É orgulho? perguntou ainda Olga.
—Não, não... Se fosse orgulho, ella não se referia de vez em quando ao noivo. É antes molleza, preguiça... Parece que ella tem medo de falar para que as cousas não venham acontecer.
—E os paes que dizem a isso? indagou Coleoni.
Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incommodo do General não é grande e D. Maricota julga que ella deve arranjar outro.
—Era o melhor, disse Ricardo.
—Eu creio que ella não tem mais pratica, disse sorrindo D. Adelaide. Levou tanto tempo noiva...
E a conversa já tinha virado para outros assumptos, quando a Ismenia veiu fazer a sua visita diaria á irmã de Quaresma.
Cumprimentou todos e todos sentiram que ella penava. O soffrimento dava-lhe mais actividade á physionomia.
As palpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Indagou da saude de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim D. Adelaide lhe perguntou:
—Recebeste carta, Ismenia?
—Ainda não, respondeu ella com grande economia de voz.
Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veiu atirar ao chão uma figurinha de biscuit, que se esphacelou em innumeros fragmentos, quasi sem ruido.
SEGUNDA PARTE
I NO «SOCEGO»
Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.
A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a noruega, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.
Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá? Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.
Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou, foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila. Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou Attila, matei muita gente—e era só.
Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.
Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém, alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz delle, invisivel!...
Quaresma sahiu envolvido, penetrado da tristeza do manicomio. Voltou á sua casa, mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a sua physionomia apresentara mais desgosto que antes, muito abatimento moral, e foi para levantar o animo que se recolheu áquella risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas.
Não fora elle, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe á idéa aquelle doce acabar para a sua vida. Vendo-o naquelle estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sahir, enclausurado em sua casa de São Cristovam, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente:
—O padrinho porque não compra um sitio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a sua horta... não acha?
Tão taciturno que elle estivesse, não pôde deixar de modificar immediatamente a sua physionomia á lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna; e foi lembrando dos seus antigos projectos que respondeu á afilhada:
—É verdade, minha filha. Que magnifica idéa, tens tu! Ha por ahi tantas terras ferteis sem emprego... A nossa terra tem os terrenos mais ferteis do mundo... O milho póde dar até duas colheitas e quatrocentos por um...
A moça esteve quasi arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atêar no espirito do padrinho manias já extinctas.
—Em toda a parte—não acha, meu padrinho?—ha terras ferteis.
—Mas como no Brasil, apressou-se elle em dizer, ha poucos paizes que as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata ingleza... Tu irás ver as minhas culturas, a minha horta, o meu pomar—então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!
A idéa cahiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só estirava uma bôa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veiu-lhe a actividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos preços correntes das fructas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que cincoenta laranjeiras, trinta abacateiras, oitenta pecegueiros, outras arvores fruticferas, além dos abacaxis (que mina!) das aboboras e outros productos menos importantes, podiam dar o rendimento annual de mais de quatro contos, tirando as despezas. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus calculos, baseados em tudo no que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou em linha de conta a producção média de cada pé de fructeira, de hectare cultivado, e tambem os salarios, as perdia inevitaveis; e, quanto aos preços, elle foi em pessoa no mercado buscal-os.
Planejou a sua vida agricola com a exactidão e meticulosidade que punha em todos os seus projectos. Encarou-a por todas as faces, pezou as vantagens e onus; e muito contente ficou em vel-a monetariamente attrahente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstração das excellencias do Brasil.
E foi obedecendo a essa ordem de idéas que comprou aquelle sitio, cujo nome—«Socego»—cabia tão bem á nova vida que adoptara, após a tempestade que o sacudira durante quasi um anno. Não ficava longe do Rio e elle o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agricola. Esperava grandes colheitas de fructas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celleiro, virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus.
Com que alegria elle foi para lá! Quasi não teve saudades de sua velha casa de S. Januario, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenario mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquella vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos annos, fosse servir para salão de baile futil, fosse testemunhar talvez rixas de casaes desentendidos, odios de familia—ella tão boa, tão doce, tão sympathica, com o seu tecto alto e as suas paredes lisas, em que se tinham encrustado os desejos de sua alma e toda ella penetrada da exhalação dos seus sonhos!...
Elle foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por anno, tirados da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado publico, apodrecer numa banca, soffrer na sua independencia e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidemico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudavel?
E era agora que elle chegava a essa conclusão, depois de ter soffrido a miseria da cidade e o emasculamento da repartição publica, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aquelles seus desejos de reformas capitaes nas instituições e costumes: o que era principal á grandeza da patria estremecida, era uma forte base agricola, um culto pelo seu solo uberrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ella tinha de preencher.
Demais, com terras tão ferteis, climas variados, a permittir uma agricultura facil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flôr, olentes, muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das collinas, como theorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem reis, recebendo a uncção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pollen; as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os pecegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquillo surgia uma linda mulher, com o regaço cheio de fructos e um dos hombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso demorado de deusa—era Pomona, a deusa dos vergeis e dos jardins!...
As primeiras semanas que passou no «Socego», Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. Havia nella terra bastante, velhas arvores fructiferas, um capoeirão grosso com camarás, bacurubús, tinguacibas, tibibuyas, munjólos, e outros specimens. Anastacio que o acompanhara, appelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava os nomes dos individuos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
O Major logo organizou um museu dos productos naturaes do «Socego». As especies florestaes e campezinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possivel com os scientificos. Os arbustos, em herbario e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e transversalmente.
Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as sciencias naturaes e o furor auto-didacta dera a Quaresma solidas noções de botanica, zoologia, mineralogia e geologia.
Não foram só os vegetaes que mereceram as honras de um inventario; os animaes tambem, mas como elle não tinha espaço sufficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de tatús, cotias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, colleiros, tyês, etc. A parte mineral era pobre, argillas, arêa e, aqui e ali, uns blocos de granito exfoliando-se.
Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram estes e foram arrumados e collocados convenientemente.
Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado, e disse:
—Sabes o que estou fazendo, Anastacio?
—Não sinhô.
—Estou vendo se choveu muito.
—Para que isso, patrão? A gente sabe logo de olho quando chove muito ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar...
Elle falava com a sua voz molle de africano, sem rr fortes, com lentidão e convicção.
Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão, estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola. Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!
E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rapido, raspando o matto rasteiro, com a mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstaculo pelo solo, destruindo a herva má; Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto; e, ás vezes, quando o golpe falhava e a lamina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma poeira infernal, fazendo suppor que por aquellas paragens passara um pelotão de cavallaria. Anastacio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
—Não é assim, seu majó. Não se mette a enxada pela terra a dentro. É de leve, assim.
E ensinava ao Cincinato inexperiente o geito de servir-se do velho instrumento de trabalho.
Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usal-o da maneira ensinada. Era em vão. O flange batia na herva, a enxada saltava e ouvia-se um passaro ao alto soltar uma piada ironica: Bemtevi! O Major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se de raiva e batia com toda a força; e houve varias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando do chão, fel-o perder o equilibrio, cahir, e beijar a terra, mãe dos fructos e dos homens. O pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.
O Major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia á tarefa que se impuzera; mas, tanto é em nossos musclos firme a memoria ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento de nossa vida, que não foi impossivel a Quaresma acordar nos seus o geito, a maneira de empregar a enxada vetusta.
Ao fim de um mez, elle capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de habito requeriam.
Ás vezes, o fiel Anastacio seguia-o no descanço e ambos, lado a lado, á sombra de uma fructeira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daquelles dias de verão que enrodilhava as folhas das arvores e punha nas cousas um forte accento de resignação morbida. Então, ahi por depois do meio dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silencio a vida inteira, é que o velho Major percebia bem a alma dos tropicos, feita de desencontros como aquelle que se via agora, de um sol alto, claro, olympico a brilhar sobre um torpor de morte, que elle mesmo provocava.
Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um improvisado fogão de calháos, e o trabalho ia assim ate á hora do jantar. Havia em Quaresma um enthusiasmo sincero, enthusiasmo de ideologo que quer pôr em pratica a sua idéa. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra, aquelle seu morbido amor pelas hervas damninhas e o incomprehensivel odio pela enxada fecundante. Capinava, e capinava sempre até vir jantar.
Esta refeição elle fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar a area já limpa.
—Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma touceira de matto.
A irmã, mais velha que elle, não partilhava aquelle seu enthusiasmo pelas cousas da roça. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com elle, não foi senão pelo habito de acompanhal-o. De certo, ella o estimava, mas não o comprehendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Porque não seguira elle o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito... Andar com livros, annos e annos, para não ser nada, que doideira! Scguira-o ao «Socego» e, para entreter-se, criava gallinhas, com grande alegria do irmão cultivador.
—Está direito, dizia ella, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
—Qual, doente, Adelaide! Não estas vendo como essa gente tem tanta saude por ahi... Se adoecem, é porque não trabalham.
Acabado o jantar. Quaresma chegava á janella que dava para o gallinheiro e atirava migalhas de pão ás aves.
Elle gostava desse espectaculo, daquella luta encarniçada entre patos, ganços, gallinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos premios que ella comporta. Depois, fazia indagações sobre a vida do gallinheiro:
—Já, nasceram os patos, Adelaide?
—Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã accrescentava:
—Tua afilhada deve casar-se sabbado, tu não vaes?
—Não. Não posso... Vou encommodar-me, luxo... Mando um leitão e um perú.
—Ora, tu! Que presente!
—Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira, quando Anastacio veiu avisar-lhes que se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se installara, nenhuma visita batera á porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do logar, a pedir isso ou aquillo, esmolando disfarçadamente. Elle mesmo não travara conhecimento com ninguem, de modo que foi com surpreza que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Elle já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda a dentro.
—Boas tardes, Major.
—Boas tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um typo commum, mas o que havia nelle de extranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto deshonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que enthezoura enxundia para o inverno ingrato. Atravez da gordura de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era naquella idade, com pouco mais de trinta annos, sem dar tempo que todo elle engordasse; porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ageis. O visitante falou:
—Eu sou o Tenente Antonino Dutra escrivão da collectoria.
—Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
—Nenhuma, Major. Já sabemos quem o senhor é; não ha novidade nem nenhuma exigencia legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, offereceu outro a Quaresma e continuou:
—Sabendo que o Major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incommodal-o... Não é cousa de importancia... Creio que o Major...
—Oh! Por Deus, Tenente!
—Venho pedir-lhe um pequeno auxilio, um obulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou thesoureiro.
—Perfeitamente. É muito justo. Apezar de não ser religioso, estou...
—Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do logar que devemos manter.
—É justo.
—O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade tambem, de forma que somos obrigados a appellar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já, portanto, Major...
—Não. Espere um pouco...
—Oh! Major, não se incommode. Não é p'ra já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fóra e accrescentou:
—Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, Major?
—Muito bem.
—Pretende dedicar-se á agricultura?
—Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
—Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sitio já foi uma lindeza, Major! Quanta fructa! Quanta farinha! As terras estão cançadas e...
—Que cançadas, seu Antonino! Não ha terras cançadas.... A Europa é cultivada ha milhares de annos, entretanto...
—Mas lá se trabalha.
—Porque não se ha de trabalhar aqui tambem?
—Lá isso é verdade; mas ha tantas contrariedades na nossa terra que...
—Qual, meu caro Tenente! Não ha nada que não se vença.
—O Sr. verá com o tempo, Major. Na nossa terra não se vive senão de politica, fóra disso, ba-báo! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas palpebras gordas um olhar pesquizador sobre a ingenua physionomia de Quaresma.
—Que questão é? indagou Quaresma.
O Tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
—Então não sabe?
—Não.
—Eu lhe explico: o candidato do Governo é o Dr. Castrioto, moço honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de Camaras Municipaes do Districto que se hão de sobrepor ao Governo, só porque o Senador Guaryba rompeu com o Governador: e—zás—apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influencia... Que pensa o Senhor?
—Eu... Nada!
O serventuario do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no Municipio de Curuzú, não se incommodasse com a briga ao Senador Guaryba com o Governador do Estado! Não era possivel! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse elle consigo, este malandro quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem difficuldade. Estava tirando sardinha com mão de gato... Aquillo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as azas daquelle estrangeiro, que vinha não se sabe donde!
—O Major é um philosopho, disse elle com malicia.
—Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar nas tenções occultas do Major, apagou a physionomia e disse em ar de despedida:
—Então o Major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
—De certo.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vel-o montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desappareceu na estrada, e o Major ficou a pensar no interesse extranho que essa gente punha nas lutas politicas, nessas tricas eleitoraes, como se nellas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinara porque uma resinga entre dous figurões importantes vinha pôr desharmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fóra da esphera daquelles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar: Não exigia ella uma ardua luta diaria? Porque não se empregava o esforço que se punha naquelles barulhos de votos, de actas, no trabalho de fecundal-a, de tirar della seres, vidas—trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guarybas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ella quer carinho, luta, trabalho e amor...
O suffrageo universal pareceu-lhe um flagello.
O trem apitou e elle demorou-se a vel-o chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em communicação com o resto do mundo. Ha uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se tambem más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mysterio, e traz, além de noticias geraes, bôas ou más tambem o gosto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Elle chegou arfando e se extirando como um reptil pela estação afóra á luz forte do sol no poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e sahiu a levar noticias, amigos, riquezas, tristezas por outras estações além. O Major pensou ainda um pouco como aquillo era bruto e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginaria da belleza que os nossos educadores de dous mil annos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava á estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquelle chapéo dobrado, como um morrião... Aquelle fraque comprido... Passo miudo... Um violão! Era elle!
—Adelaide está ahi o Ricardo.
II ESPINHOS E FLORES
Os suburbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em materia de edificação de cidade. A topographia do local, caprichosamente montuosa, influiu de certo para tal aspecto, mais influiram, porém, os azares das construcções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Ha algumas dellas que começam largas como «boulevards» e acabam estreitas que nem viellas; dão voltas, circuitos inuteis e parecem fugir ao alinhamento recto com um odio tenaz e sagrado.
Ás vezes se succedem na mesma direcção com uma frequencia irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervallo coheso e fechado de casas. Num trecho, ha casas amontoadas umas sobre outras numa angustia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Ha casas de todos os gostos e construidas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de «chalets», de porta e janella, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burgueza, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezzaninos gradeados. Passada essa surpreza, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e columnas de estylo pouco classificavel, que parece vexada e querer occultar-se, diante daquella onda de edificios disparatados e novos.
Não ha nos nossos suburbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européas, com as suas villas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamisadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aquelles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os ha, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipaes tambem são variaveis e caprichosos. Ás vezes, nas ruas, ha passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de communicação são calçadas e outras da mesma importancia estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio secco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguella de trilhos mal juntos.
Ha pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empanem o brilho do vestido; ha operarios de tamancos; ha peralvilhos á ultima moda: ha mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quasi sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Alem disto, os suburbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidemico e no espiritismo endemico; as casas de commodos (quem as supporia lá!) constituem um delles bem inedito. Casas que mal dariam para uma pequena familia, são divididas, subdivididas, e os minusculos aposentos assim obtidos, alugados á população miseravel da cidade. Ahi, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miseria paira com um rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita taes caixinhas. Além dos serventes de repartições, continuos de escriptorios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vasias, castradores de gatos, cães e gallos, mandingueiros, catadores de hervas medicinaes, emfim, uma variedade de profissões miseraveis que as nossas pequena e grande burguezias não podem adivinhar. Ás vezes num cubiculo desses se amontoa uma familia, e ha occasiões que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta da nickel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de commodos de um dos suburbios. Não era das sordidas, mas era uma casa de commodos dos suburbios.
Desde annos que elle a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma collina, olhando a janella do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os suburbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de óca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no panorama um sabor do confusão democratica, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minusculo, rapido, atravessa tudo aquillo, dobrando d esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.
Era daquella janella que Ricardo, espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triumphos e tambem os seus soffrimentos e maguas.
Ainda agora estava elle lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquella bella, grande e original cidade, capital de um grande paiz de que elle a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus tenues sonhos e desejos em versos discutiveis, mas que a plangencia do violão, se não lhes dava sentido, dava um que de balbucio, de queixume dorido da patria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava elle? Não pensava só, soffria tambem. Aquelle tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival delle, Ricardo; outros já affirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais—ingratos!—já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em pról do levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infancia, daquella sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitellos. E o queijo? Aquelle queijo tão substancial, tão forte, feio como aquella terra, mas feraz como ella tanto que bastava comer delle uma pequena fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: «Irás longe, Ricardo. A viola quer teu coração».
Por que então aquelle encarniçamento, aquelle odio contra elle—elle que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substancia do paiz!
E as lagrimas lhe saltaram quentes dos olhos afóra. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bella a terra, era linda, era magestosa, mas parecia ingrata e aspera no seu granito omnipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das arvores.
E elle estava ali só, só com a sua gloria e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus ou como um apostolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Soffria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquellas lagrimas que iam cahir no solo indifferente. Por ahi, lembrou-se dos famosos versos: Se choro... bebe o pranto a areia ardente...
Com a lembrança, elle baixou um pouco o olhar á terra e viu que no tanque da casa, um tanto escondida delle, uma rapariga preta lavava. Ella abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro á pedra, e recomeçava. Teve pena daquella pobre mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua côr. Veiu-lhe um afflux de ternura e, depois, poz-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleiado no enigma do nosso miseravel destino humano.
A rapariga não o viu, distrahida com o trabalho; e se pôz a cantar:
Da doçura dos teus olhos A brisa inveja já vem
Era delle. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquella pobre mulher, abraçal-a...
E como eram as cousas? Elle recebia lenitivo daquella rapariga; era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então á memoria aquelles versos do padre Caldas, esse seu antecessor feliz que teve um auditorio de fidalgas:
Lereno alegrou os outros E nunca teve alegria...
Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
—Vai bem, D. Alice, vai bem! Se não fosse porque eu lhe pedia bis.
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
—Não sabia que o senhor estava ahi, senão não cantava na vista do senhor.
—Qual o que! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
—Deus me livre! Para o senhor me criticar...
Embora insistisse muito, a rapariga não quiz continuar. As maguas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veiu ao interior do quarto e pôz-se á meza na tenção de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliario mais reduzido possivel. Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ella objectos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede o violão na sua armadura de camurça. Havia tambem uma machina para fazer café.
Sentou-se e quiz começar uma modinha sobre a Gloria, essa cousa fugace, que se tem e se pensa que não se tem, alguma cousa impalpavel, incolhivel como um sopro, que nos alancêa, queima, inquieta e abraza como o Amor.
Tentou começar, dispoz o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéa daquelle furto que se queria fazer ao seu merito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a musica zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As ciganas defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar e o céo estava de um azul ligeiro, tenue, fino. Quiz sahir, procurar um amigo, espairecer com elle, mas quem? Ainda, se o Quaresma... Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessado pela modinha; mas assim mesmo comprehendia o seu proposito, os fins e o alcance da obra a que elle, Ricardo, se propunha. Ainda se o Major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram á porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
«Meu caro Ricardo—Saude—Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ella e o noivo fazem muito gosto que V. appareça. Se o amigo não estiver compromettido com alguem, agarre o violão e venha até cá tomar uma chavena de chá comnosco—Seu amigo Albernaz».
O trovador, á proporção que lia, ia mudando de physionomia. Até então estava carregada e dura: quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ella, descia e subia, ia de uma face a outra. O General não o abandonara; para o respeitavel milhar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um idolo bemfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o ultimo brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. D. Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquelle tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexiveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ella era alta, de feições mais regulares que a irmã Ismenia, mas menos interessante e mais commum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá a terceira filha do General, que já se ageitava a moça, tinha muito pó de arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelicio dava o braço á noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem á mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no General, mettido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fôra padrinho e estava irreprehensivel na sua casaca do uniforme. As ancoras reluziam como metaes de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardôr os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismenia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando providencias. O Lulú, o unico filho do General, impava no seu uniforme do Collegio Militar, cheio de dourados e cabellos, tanto mais que passara de anno, graças aos empenhos do pai.
O General não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um—sou muito feliz...—deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de immenso transporte a candida alma do menestrel.
Deram começo as dansas e o General, o Almirante, o Major Innocencio Bustamante, que tambem viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorario, o Dr. Florencio, Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O General estava satisfeito. Sonhava ha tantos annos uma cerimonia daquellas em sua casa e emfim pela primeira vez via realizado esse anceio.
A Ismenia foi aquella desgraça... O ingrato?... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
—É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O General tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e emquanto o limpava, respondeu, olhando com aquelle geito dos myopes:
—Estou muito contente.
Por ahi pôz o pince-nez, endireitou o truncelim e continuou:
Creio que casei bem minha filha: rapaz formado bem encaminhando e intelligente.
O Almirante acudiu:
—E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dous annos escripturario do Thezouro, é cousa nunca vista.
—O Genelicio não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florencio.
—Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recem-casado.
De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma—«Synthese de Contabilidade Publica Scientifica»—viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela imprensa desta capital. O Ministro, attendendo ao merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous terços do livro.
A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da expressão.
Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».
Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser sub-director na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados novos, o Major não pôde deixar de observar:
—Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
—Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.
—Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...
Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira phrase que lhe veiu aos labios:
—Quando se prospera, todas as profissões são boas.
—Não é assim tanto, obtemperou o Almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? hein Innocencio?
Albernaz levantou a cabeça como se quizesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
—É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaity, então...
—O Sr. esteve lá, General? perguntou o convidado amigo de Genelicio.
—Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi—Você sabe, não é Innocencio?
—Se estive lá...
—Polydoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores a esquerda e nós cahimos sobre os Paraguayos. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
—Foi seu Mitre, disse Innocencio.
—Foi. Atacamos com furia. Era um ribombar de canhões que mettia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
—Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, excepto o General que julgava a sabedoria do Paraguay excepcional.
—Foram os paraguayos, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bella, mas tem as suas cousas...
—Isso não quer dizer nada. Tambem na passagem de Humaytá... ia dizendo o Almirante.
—O senhor estava a bordo?
—Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaytá...
Na sala de visitas as dansas continuavam com animação. Era raro que alguém viesse lá de dentro até onde elles estavam. Os risos, a musica, e o mais que se adivinhava não distrahiam aquelles homens das suas preoccupações bellicosas.
O General, o Almirante e o Major enchiam de pasmo aquelles burguezes pacificos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não ha como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações de guerra. Elle só vê a parte pittoresca, a parte por assim dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de sómenos. A Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a sua importancia tragica: 3.000 mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra «bibliothèque rose», guerra de estampa popular, em que não apparecem a carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normaes.
Estavam Ricardo, o Dr. Florencio, o exacto empregado como engenheiro das Aguas, aquelles dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginarias daquelles tres militares, um honorario, talvez o menos pacifico dos tres, o unico que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira—quando D. Maricota chegou, sempre diligente, activa, dando movimento e vida á festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente pretos os cabellos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo enorme. Ella vinha offegante e dirigiu-se ao marido:
—Então, Chico, que é isso? Ficam ahi e eu que faça sala, que anime as moças... P'ra sala todos!
—Já vamos D. Maricota, disse alguém.
—Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, seu Caldas, seu Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo hombro.
—Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, seu Ricardo!
—Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o General parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
—Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
—Vai bem.
—Tem-lhe escripto?
—Ás vezes. Eu queria, General...
O General suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cahir, e perguntou:
—O que?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma ligeira, hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder a s palavras:
—Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vel-o.
O General esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabello e disse:
—Isso é difficil, mas você appareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros accrescentou:
—Estou com saudades delle, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem nome...
—Vá lá amanhã.
D. Maricota appareceu na frente e falou agastada:
—Vocês não vêm!
—Já vamos, fez o General.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
—Aquelle Quaresma podia estar bem, mas foi metter-se com livros... É isto! Eu, ha bem quarenta annos, que não pego em livro...
Chegaram á sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos retratos a oleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobilia não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dansantes. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janella, Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os serenos, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O General contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispoz-se a cantar. Foi ao piano, collocou a partitura e começou. Era uma romanza italiana que ella cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem educada. Acabou. Palmas geraes, mas frias, soaram.
O Dr. Florencio que ficara atraz do General, commentou:
—Tem uma bella voz esta moça. Quem é?
—É a filha do Lemos, do Dr. Lemos da Hygiene, respondeu o General.
—Canta muito bem.
—Está no ultimo anno do Conservatorio, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Elle occupou um canto da sala, agarrou o violão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tragico de quem vai representar o Oedipo-Rei e falou com voz grossa: «Senhoritas, senhores e senhoras». Parou. Concertou a voz e continuou: «Vou cantar «Os teus braços», modinha de minha composição, musica e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia exaltada». Seus olhos, por ahi, quasi lhe sabiam das orbitas. Emendou: «Espero que nenhum ruido se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui...to dê li ca do. Bem».
A attenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebuado, macio e longo, como um soluço de onda; depois, houve uma parte rapida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.
Aquillo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O General abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a mão, Quinota, no seu immaculado vestido de noiva, tambem.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu á sala de jantar. No corredor chamaram-n'o: Sr. Ricardo, Sr. Ricardo! Voltou-se. Que ordena minha senhora? Era uma moca que lhe pedia uma copia da modinha.
—Não se esqueça, dizia ella com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão ternas tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismenia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti approximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:
—Que é, Dulce?
A outra explicou-lhe. Ella aceitou a incumbencia: e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
—Seu Ricardo, quando é que o Sr. pretende estar com D. Adelaide.
—Depois de amanhã, espero eu.
—Vai lá.
—Vou.
—Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
III GOLIAS
No sabbado da semana seguinte áquella em que a filha do General recebera como marido o grave e giboso Genelicio, gloria e orgulho do nosso funccionalismo publico, Olga casara-se. A cerimonia correra com a pompa e a riqueza acostumadas em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas communs. Talvez nem mesmo essa ella tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquelle acto, mas, apparentemente, nenhuma vontade extranha á sua influira para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo medico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma larga estrada de triumphos nas posições e na industria clinica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal titulo um fóral de nobreza, equivalente áquelles com que os authenticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. Apezar de ser seu pai um importante fazendeiro por ahi, em algum logar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo elle aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um villão que não roçou os bancos de uma Academia.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso titulo, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo titulo, mas pela sua simulação de intelligencia, de amor á sciencia, de desmedidos sonhos de sabio. Tal imagem que delle fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inercia da sociedade, a sua tyrannia e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ella, de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a elle igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ella não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um commando fora della.
Apezar da pompa, esteve longe de ser uma noiva magestosa. Não obstante as origens puramente européas, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma physionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ella desapparecia dentro do vestido, dos véos e daquelles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar, De resto, a tua belleza não era a grande belleza—aquella que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas classicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego authentico on de pacotilha, ou tambem dessa magestade de opera lyrica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua physionomia era profunda e propria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quasi cobriam toda a cavidade orbitaria, fazia fulgurar o seu rosto mobil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malicia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrario do costume, não sahiram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora á festa, mandara o leitão e o perú da tradição e escrevera uma longa carta. O sitio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veiu distrail-o um pouco, sem desvial-o comtudo, de seus afazeres agricolas.
Passou um mez com o Major, e foi um triumpho. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo o municipio o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir á villa. Ficava a quatro kilometros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se póde chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planicies e rios em toscas pontes. A villa!... Tinha duas ruas principaes: a antiga, determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veiu da ligação da velha com a estrada de ferro. Ellas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras partiam dellas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, ia ter á igreja, ao alto de uma collina, feia e pobre no seu estylo jesuitico. Á esquerda da estação, num campo, a praça da Republica, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Camara Municipal.
Em um grande parallepipeto de tijolo, cimalha, janella com sacadas de grade de ferro, puro estylo mestre de obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edificios da mesma natureza das pequenas communas francezas e belgas da idade média.
Ricardo entrou num barbeiro da rua Marechal Deodoro, salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O figaro deu-lhe informações a villa e elle se deu a conhecer. Havia certos circumstantes, um delles tomou-o a seu cargo e dahi em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do Major já tinha convite para o baile do Dr. Campos, presidente da Camara, festa que teria logar na quarta-feira proxima.
Chegara sabbado e fora passeiar á villa domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu a sahida. A concurrencia nunca é grande na roça, mas Ricardo pôde ver algumas daquellas moças do interior, lymphaticas e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a collina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tedio. Foi na sahida da missa que lhe apresentaram o Dr. Campos.
Era o medico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de «aranha» com a sua filha, Nair, assistir o officio religioso.
O trovador e o medico estiveram um instante conversando, emquanto a filha, muito magra, pallida, com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando elles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquelle rebento dos ares livres do Brasil.
Á festa do Dr. Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua victoria. Se bem que o Major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquelle instrumento essencialmente nacional. As consequencias desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrioticas. Continuavam as suas idéas profundamente arraigadas, tão sómente elle as escondia, para não soffrer com a incomprehensão e maldade dos homens.
Gozava, portanto, a fulminante victoria de Ricardo, que indicava bem naquella população a existencia de um residuo forte da nossa nacionalidade a resistir ás invasões das modas e gostos estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Dr. Campos, presidente da Camara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquella manhã até esperava um dos cavallos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
—Major, foi uma boa idéa vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
—Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são extranhas todas essas cousas.
—Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos offerecem, não devemos rejeitar, não acha?
—Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de commandar uma esquadra.
—Até ahi não vou. Olhe, Major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral a intellectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: «Seu Ricardo, Você vai ser deputado», o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os threnos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vasa, Major.
—Cada um tem as suas theorias.
—De certo. Outra cousa. Major: conhece o Dr. Campos?
—De nome.
—Sabe que elle é presidente da Camara.
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança, O menestrél não notou o gesto do amigo e emendou.
—Móra daqui a uma legua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavallo passeiar com elle.
—Fazes bem.
—Elle quer conhecel-o. Posso trazel-o aqui?
—Pódes.
Um camarada do Dr. Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavallo promettido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous, pois, além do Anastacio, que não era bem um empregado, mas aggregado, admittira o Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham attenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquelle rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e passaros. Esvoaçavam tyês vermelhos, bandos de colleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das arvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham sahindo á luz, não sómente para a fecundação vegetal mas tambem para a belleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fôra para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um simio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apparencia de fraqueza muscular, não havia ninguem mais valente que elle a roçar. Com isto era um tagarella incansavel. De manhã, quando chegava, ahi pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do municipio.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do sitio, que o capão invadira. Obtido elle, o Major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervallos batatas inglezas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quizera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando delle os principios volateis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miudos e folhas, elle removia para longe, onde então queimaria em coiváras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas promettia dar um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrahir. Ha quem cante, elle falava e pouco se incommodava que lhe dessem ou não attençâo.
—Essa gente anda accesa por ahi, disse Felizardo logo que o Major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, attendia-lhe a conversa, raras não. Anastacio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hieratica de uma pintura mural thebana. O Major perguntou ao Felizardo:
—Que é que ha, Felizardo?
O camarada descançou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
—Negocio de politica... Seu Tenente Antonino quasi briga hontem com seu dotô Campo.
—Onde?
—Na estação.
—Porque?
—Negocio de partido. Pelo que ouvi: seu Tenente-Antonino é pelo governadô e seu dodô Campo é pelo senadô... Um sarcêro, patrão!
—E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleiava o tronco a remover. Anastacio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:
—Eu! sei lá... Urubu pellado não se mette no meio dos coroados. Isso é bom p'r'o sinhô.
—Eu sou como você, Felizardo.
—Quem me dera, meu sinhô. Inda traz-antonte ouvi dizê que o patrão é amigo do marechá...
Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
—Quem disse?
—Não sei, não sinhô. Ouvi a modo de dizê lá na venda do hespanhol, tanto assim que doutô Campo tá inchado que nem sapo com a sua amizade.
—Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguem... Qual amigo!
—Quá! fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão tá é varrendo a testada.
Apezar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquella cabeça infantil a idéa de que elle fosse amigo do Marechal Floriano. «Conheci-o no meu emprego»—dizia o Major: Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: «Quá! o patrão é fino que nem cobra».
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquillo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Elle tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar máos momentos; os enthusiasmos delle, entretanto, junto á vontade de ser bom amigo, podiam illudil-o e fazel-o instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se e a preoccupação dissipou-se. Á tarde, quando foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte delle.
D. Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se á cabeceira; Quaresma á direita e á esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a lingua do trovador.
—Gostou muito do passeio, Sr. Ricardo?
Não havia meio della dizer seu. A sua educacão de senhora de outros tempos, não lhe permittia usar esse plebeismo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueza, dizer senhor e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
—Muito. Que logar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
—E elle tomava aquella altitude de arroubo: uma physionomia de mascara de tragico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
—Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
—Hoje acabei uma modinha.
—Como se chama? indagou D. Adelaide.
—«Os labios da Carola».
—Bonito! Já fez a musica?
Era ainda a irmã da Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo a boca; deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
—A musica, minha senhora, é a primeira coesa que faço.
—Has de nol-a cantar logo.
—Pois não, Major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros sahiram a passeiar no sitio. Fôra essa a unica concessão que ao amigo fizera Polycarpo, no tocante ao regimen de seus trabalhos agricolas. Levava sempre o pedaço de pão, esfarelava em migalhas no gallinheiro, para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquellas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e avidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do perú, imponente, fazendo roda, a dar estouros presumpçosos. Em seguida, ia ao chiqueiro; assistia Anastacio dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se difficilmente e solemnemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacurinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe charfurdar-se na comida.
A avidez daquelles animaes era deveras repugnante mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia sympathicos.
Ricardo apreciava pouco aquellas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos esquecido a contemplal-as numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de arvore; e Quaresma olhava o céo alto emquanto Coração dos Outros contava qualquer historia.
A tarde ia adiantada, A terra já começava a amollecer, pelo fim daquelle beijo ardente e demorado do sol. Os bambús suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos o Major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram aquellas estupidas e tocantes phrases dos encontros satisfeitos: quando chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastacio tirara o chapéo e olhava a «sinhasinha», com o o seu terno e vasio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:
—Que dê teu marido?
—O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.