SCENA X
Reading edition
*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.
O REI:
Chega ao calhar… Então, meu duque, a trabuzana Foi bôa… Por um triz, iam-nos à pavana!
MAGNUS, grandioso:
Valeu-lhe, meu Senhor, (dôa isto a quem dôa!) Haver três homens, como nós, junto da C'roa, Para a salvar dum grande abismo!… A situação…
O REI:
Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavão.
MAGNUS:
Nem sei como exprimir a Vossa Majestade A alegria que sinto!… É de mais! que bondade! A grã-cruz do Pavão!… Nunca o julguei… Em suma, Feliz!… morro feliz… Já não há mais nenhuma!
O REI, a Ciganus:
E agora?
CIGANUS:
Meu Senhor, é dormir sem cuidados! Os mortos cemitério e os vivos…
OPIPARUS:
Enforcados.
CIGANUS:
Talvez que sim, talvez que não… É conforme: o rigor, a clemência, o perdão, Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar… Enforco-os, claro está, se os puder enforcar. Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta Clama contra a prisão… deixá-los hei à solta. Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste, Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste. Mas, se matando arrisco a própria vida, não: Converto-me, de algoz furioso em bom cristão… Reinar, eis o importante; o modo é secundário. É conforme se pode; é dia a dia; vário. Fica melhor um rei num corcel de batalha, O chicote na mão, contemplando a canalha. Inspira assim terror, incute mêdo e fé. Não há, porêm, cavalo? É governar a pé. E, se ainda precisa atitudes mais chatas, É governar de toda a forma,—até de gatas! O caso é governar, seja lá como fôr: Com manhas de toupeira ou vôos de condor, Por caminho sinuoso ou caminho direito… Eu, para governar, a tudo me sujeito, Indo de cara alegre até ao sacrifício De ser exemplarmente honesto… por ofício!
Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.
MAGNUS, sentencioso:
Nas vistas do marquês há pontos em que abundo, Pontos em que discordo. O mal é mais profundo! Talhemos com firmeza o mal pela raíz! Nas circunstâncias desastrosas do país, Quando um vento de insánia brava nos arrasta, Quando abusos de toda a ordem, toda a casta, Andam impunes; quando a moral e o direito Já não levam sequer à noção de respeito, Á noção do dever, urge com brevidade Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade! Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério! Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império! Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo! Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo, Nem o sacrário da família se venera, Não há reputação, ainda a mais austera, Que a não manchem… um lodaçal, um tremedal de escombros, E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros! É de mais! é de mais! Vamos todos a pique! É necessário um termo! é necessário um dique! Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho! E inda há gente… inda há gente! inda há homens de cunho! Inda há muita aptidão, muita capacidade E muita honra!… O que é mister é uma vontade! Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora! Qual o cancro que dia a dia nos devora? Toda a gente que vê, toda a gente que pensa Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença! Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão! Religião, Senhor e mais religião! Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada, Não há receio algum; dormirá descansada A monarquia. Deus, embora neste meio, Queiram ou não, é sempre Deus!… é ainda um freio!
OPIPARUS, galhofeiro:
E o profeta, que nos censura e nos fulmina, Tem palácio, grande estadão, mesa divina, É joisseur como dez banqueiros elegantes, E, facto escandaloso! a respeito de amantes Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos…) Esta especialidade: a mulher dos amigos!
MAGNUS, furioso:
Safa! que língua! que veneno!…
O REI:
E o duque atomatado! Como se não pudesse um ministro d'estado Regalar-se com vinhos bons ou fêmea alheia! Deixe-os morder de raiva. É tudo inveja, creia. Gosto dum vélho assim, danado e atiradiço… Um vélho folgazão… Simpatiso com isso. É cá dos meus… é cá dos meus…
MAGNUS, risonho e vaidoso:
Na juventude, Rapaz… como rapaz… vamos! fiz o que pude!… A crónica inda o lembra… Hoje o caso é diverso… Aos sessenta já custa a endireitar um verso!
O REI:
Maganão!
MAGNUS:
Hoje não!… Só em pequenas dozes… Falta o melhor… São mais as vozes do que as nozes…
O REI, gracejando:
Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola, É sair-nos o duque um perfeito carola! Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito… Mas entre homens prègar sermões acho esquisito, Meu caro duque… Estou a vê-lo qualquer ano, Entrapado em burel, frade varatojano!
MAGNUS, solene:
Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão, Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão. Católico e de lei, sob o ponto de vista Administrativo, e nada mais. Como estadista, Eu considero a Igreja uma pedra angular Da ordem! Quero o trono achegado ao altar! A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo! Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo! O homem público em mim, o defensor da C'roa, É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa. Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo, Eu, o particular e o filósofo, digo-o Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor: Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador! Eu admiro Voltaire!… Eu encontro-me em dia Com a marcha do globo e da filosofia.
O REI, galhofando:
Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras…
MAGNUS:
Leio Voltaire, mas quero os frades!…
OPIPARUS:
E eu as freiras…
CIGANUS:
Por mim desejo tropa, em logar de irmandades. Mas, se a raínha quer os frades, venham frades. Com certo geito e condições, inda afinal Se atamanca de Deus um bom guarda rural…
Trovão retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada a relâmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os cães. Sente-se ao longe um rumor imenso de multidões que debandam.
MAGNUS, meditando:
Que demónio!… cheira a chamusco… Volta a dança… Olha que brincadeira!… Isto, se a coisa avança, Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar! Não me sinto aqui bem… Nada! ponho-me a andar!… Uma história qualquer…
Ao rei:
Meu Senhor, a duquesa… (Foi dêste abalo repentino, esta surpresa…) Achou-se mal, deu-lhe um febrão… em tal estado, Que não gosto… não gosto… inspira-me cuidado… E se El-Rei o permite…
O REI:
Ignorava… Ora essa, Meu caro duque! Ande ligeiro, vá depressa… Boa noite… Dormir um pouco, e às cinco e meia Na toirada. Curro catita! É de mão cheia!
O rumor longínquo, de maré humana, avança, trágico, na escuridão profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro. Uivam os cães.