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Pátria

SCENA VI

Reading edition

Entram Ciganus e Opiparus acompanhando o fantasma, em meio de escudeiros armados e com archotes. O doido aparece tal qual o descrevemos: enorme, cadavérico, envolto em farrapos, as longas barbas brancas flutuando. Numa das mãos o bordão. Na outra um vélho livro em pedaços. Lembra um doido e um profeta, D. Quixote e o rei Lear. O olhar, cavo e misterioso, é de sonâmbulo e de vidente. O rei empalidece como um sudário. Os cães ululam, furiosos e trémulos.

CIGANUS:

Eis o doido… É curioso êste Matusalem… Como se chama? onde nasceu? de onde vem? Ignora tudo… Canta e soluça…

OPIPARUS:

De resto, Não tem fúrias, nem anda armado: um doido honesto.

O REI:

Que estafermo!… que monstro!… Um espião, talvez…

OPIPARUS:

Deixou-se maniatar, prender, qual uma rês Submissa… Não, um doido…

CIGANUS:

Um doido extravagante… Quem és? Despacha a língua… olha que estás diante D'el-rei… Diz o teu nome…

OPIPARUS:

O teu nome, vilão!

O DOIDO, absorto:

Como me chamo… como me chamo?… Ai! não me lembro… perdi o nome na escuridão…

CIGANUS:

Sempre a mesma resposta inalterável…

O REI:

Diz De donde vens? onde nasceste? em que país? Nada temas… El-rei é bom, podes falar…

O DOIDO, sonâmbulo:

Não tenho alma… não tenho pátria… não tenho lar…

O REI:

Traz um livro na mão, reparai…

CIGANUS, tomando o volume, que o doido entrega, pesaroso:

Deixa ver… Deixa-mo ver… um livro antigo… Sabes ler? Tu sabes ler?

OPIPARUS:

Anda, responde, não te encolhas…

CIGANUS, abrindo o livro:

Nem princípio, nem fim; trapos todas as fôlhas.

Folheando e lendo:

«Esta é a ditosa pátria minha amada… …………………………………. Alguns traidores houve algumas vezes… …………………………………. Porque essas honras vãs, êsse oiro puro Verdadeiro valor não dão… …………………………………. A que novos desastres determinas De levar êstes reinos, esta gente?… …………………………………. …………..apagada e vil triteza…»

O REI:

Parece verso…

CIGANUS, restituindo o livro:

Um alfarrábio fedorento, Coisa de prègador, talvez… cheira a convento…

CIGANUS:

Quem sabe se algum vélho ermitão alienado, Dêsses que vivem sós, longe do povoado, Em ermos alcantis ou cavernas de fera…

OPIPARUS:

Onde dormes?

O DOIDO:

Dormir!… dormir!… Oh, quem me dera Dormir!… Oh, quem me dera esta cabeça vaga, Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga, E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!… E os mortos dormem… e eu morri… então… então Porque não durmo?!…

Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum escuro passado, abolido e longínquo:

Olha os bandidos… os traidores!… Bem nos conheço!… fôram êles… subtilmente

Rosnam os cães, enfurecidos.

Com drogas más e com venenos de serpente, Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco, Me levaram a alma e me tornaram louco… Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!… A minha alma!… a minha alma!… Ouço gemidos… São talvez dela… tem-na aqui encarcerada… Onde estás, onde estás, alma desamparada?!… Grita por mim!… onde é que estás?!… Ai, quero emfim Ver-te comigo… Onde é que estás?!…

Os cães, truculentos, investem com êle. Resignado e com desprêzo:

Ah, cães danados… cães d'el-rei… mordei, mordei Êste corpo sem alma!… Ah fôsse outrora… outrora!… E ai dos cachorros e do dono!… Assim… agora… Mordei, mordei, ladrai, despedaçai sem p'rigo A minha carne e os meus andrajos de mendigo!…

CIGANUS:

Coitado! um noitibó maluco e mansarrão…

OPIPARUS:

Delírio de tristeza e de perseguição…

O REI:

Astrologus talvez o conheça…

CIGANUS:

O farçante! Prègador, impostor, mágico, nigromante, Meio raposa e meio c'ruja…

O REI:

É tal e qual… perfeito… Mas o demónio do mostrengo tem seu geito Para enigmas… Quem sabe!… Ide-o chamar… talvez…

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