Volume 2 — OS MAIAS
Reading edition
I
Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete até á rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um relogio ronceiro estava batendo dez horas.
—A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapéo.
A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia para os olhos, n'um tom cançado e doente:
—Já, sim, meu senhor. Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. Domingos, não tarda...
Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o moço do Cruges esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a negrura do lenço, deu um suspirosinho abatido. Lá ao fundo um canario rompera a cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o cordão da campainha.
Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquetão de flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mão, abafada n'um guardanapo; e ao vêr Carlos ficou tão atarantado, bambaleando á porta, que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
—Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a bondade d'esperar um instantinho, que eu abro já a sala... Tome lá, snr.
a
Augusta, tome lá, olhe não entorne mais! A senhora diz que lá manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.
a
, snr. D. Carlos... Por aqui, meu senhor...
Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala alta, espaçosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a rua de S. Francisco; e erguendo á pressa os dois transparentes de paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.
a
não se lembrava já do Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no começo do inverno estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras ciumentas, com o cozinheiro francez.
—Não o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar é um pouco escuro... Lembro-me perfeitamente... E então vossê agora aqui, hein? E está contente?
—Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges tambem mora cá por cima...
—Bem sei, bem sei...
—Tenha v. exc.
a
a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar parte á snr.
a
D. Maria Eduarda...
Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não presagiava a concordancia dos seus destinos!
Domingos, no entanto, já á porta da sala, com a mão no reposteiro, parou ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo:
—É a governante ingleza que está doente...
—Ah! é a governante?
—Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
—Ah!...
O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar, contemplando Carlos com admiração:
—E o avôsinho de v. exc.
a
passa bem?
—Obrigado, Domingos, passa bem.
—Aquillo é que é um grande senhor!... Não ha, não ha outro assim em Lisboa!
—Obrigado, Domingos, obrigado...
Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta curiosa e lenta pela sala. O soalho fôra esteirado de novo. Ao pé da porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes illustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam tres bellos lirios brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pés do sofá estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta intallação summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede, tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio Abrahão, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas encadernações de livros, albuns, duas taças japonezas de bronze, um cesto para flôres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que não pertenciam decerto á mãi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel Central, e em que dominava o jasmim.
Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho crú, com ramalhetes bordados, desdobrado ao pé da janella, fazendo um recanto mais resguardado e mais intimo. Havia lá uma cadeirinha baixa de setim escarlate, uma grande almofada para os pés, uma mesa de costura com todo um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um bordado enrolado, mólhos de lã de côres transbordando de um açafate. E, confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passára nos sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura pelo Aterro fóra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaço...
—Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe as sympathias.
A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas, dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetração quasi humana. Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha de repente namorára-se d'elle, deitada já na cadeira, de patas ao ar, descomposta, abandonando o ventresinho ás suas caricias. Carlos ia coçal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si.
Foi como uma inesperada apparição—e vergou profundamente os hombros, menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja preta, um collarinho direito de homem, um botão de rosa e duas folhas verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um pequeno lenço de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos pousou-se embaraçadamente á borda do sofá de reps. E depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um tom d'ouro que acariciava.
Através do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra fórma da sua perfeição. Os cabellos não eram louros, como julgára de longe á claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito dôce. Por um geito familiar cruzava ás vezes, ao fallar, as mãos sobre os joelhos. E através da manga justa de sarja, terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o macio, quasi o calor dos seus braços.
Ella calára-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber já pelo Domingos que a doente era a governante, só achou, na sua perturbação, esta pergunta timida:
—Não é sua filha que está doente, minha senhora?
—Oh não! graças a Deus!
E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de respirar, tosse, uma ponta de febre...
—Imaginámos ao principio que era uma constipação passageira; mas hontem á tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
Ergueu-se, foi puxar um enorme cordão de campainha que pendia ao lado do piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeça, deixava uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do pescoço. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli ousaria olhal-a tão francamente, com uma tão clara adoração, como quando a encontrava na rua.
—Que linda cadellinha v. exc.
a
tem, minha senhora! disse elle, quando Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo já n'estas palavras simples, ditas a sorrir, um accento de ternura.
Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no queixo, dava uma doçura mais mimosa ás suas feições sérias. E alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo:
—
Niniche!
estão-te a fazer elogios, vem agradecer!
Niniche
appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de
Niniche
. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que se chamava
Niniche
...
N'esse instante a criada entrou—a rapariga magra e sardenta, d'olhar petulante, que Carlos vira já no Hotel Central.
—Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda. Eu não o acompanho, porque ella é tão timida, tem tanto escrupulo em incommodar, que diante de mim é capaz de negar tudo, dizer que não tem nada...
—Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto de tudo.
E pareceu-lhe então que no olhar d'ella alguma coisa brilhára, fugira para elle, de mais vivo, de mais dôce.
Com o seu chapéo na mão, pisando familiarmente aquelle corredor intimo, surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria d'uma posse. Por uma porta meio aberta pôde entrevêr uma banheira, e ao lado dependurados grandes roupões turcos de banho. Adiante, sobre uma mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas coisas tão simples, tão banaes, evidencias de vida delicada.
Melanie correu um reposteiro de linho crú, fêl-o entrar n'um quarto claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho de ferro, sentada, com um laço de sêda azul ao pescoço, e os bandós tão lisos, tão acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda que cobria a commoda, até ás suas botinas bem engraxadas, classificadas, perfiladas n'uma prateleira de pinho.
Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não tinha nada. Era a senhora, tão boa, tão cautelosa, que a forçára a metter-se na cama... E para ella era um desgosto vêr-se alli ociosa, inutil, agora que Madame estava tão só, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma prisão para Madame!...
Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto, apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
absolutamente
necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe o pulmão direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York, filha de um
clergyman
, e tinha quatorze irmãos: os rapazes estavam na Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava só oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenças de peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mamã ainda vivia. O papá, já muito velho, morrera do couce de uma egua.
Carlos, no entanto, já de pé, com o chapéo na mão, continuava a observal-a, reflectindo. Então, de repente, sem motivo, ella enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar paternalmente a mão.
—
Oh! Thank you sir!
murmurou ella, commovida de todo.
Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa, arranjando ramos, com uma grande cesta de flôres pousada ao lado d'uma cadeira, e o regaço cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida na esteira, vinha morrer-lhe aos pés; e
Niniche
, deitada alli, reluzia como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um realejo ia tocando, na alegria da linda manhã de sol, a walsa da
Madame Angot
. Pelo andar de cima tinham recomeçado as correrias de crianças brincando.
—Então? exclamou ella, voltando-se logo, com um mólho de cravos na mão.
Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira, com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...
—Certamente! E ha de tomar algum remedio, não é verdade?
Atirou logo o resto dos cravos do regaço para o cesto, foi abrir uma secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.
—Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...
Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doçura das mãos d'ella—um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taçasinha de Saxe cheia d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que tão bem condizia com o seu puro perfil. Na rua o realejo calára-se, por cima do tecto já não cavallavam as crianças. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais de leve.
—Que bonitas flôres v. exc.
a
tem, minha senhora! disse elle, voltando a cabeça, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita.
De pé, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India, ella arranjava folhas em volta de duas rosas.
—Dão frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais bonitas flôres. Não ha nada que se compare ás flôres de França... Pois não é verdade?
Elle não respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doçura de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de claridade e cheia de silencio, a vêl-a pôr folhas verdes em torno de pés de rosa!
—Em Cintra ha lindas flôres, murmurou por fim.
—Oh, Cintra é um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo. Vale a pena vir a Portugal só por causa de Cintra.
N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaçou, e Rosa entrou de dentro, correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sêda preta, uma onda negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande boneca. Ao vêr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braços Cri-cri que vinha em camisa.
—Não conheces? perguntou-lhe a mãi, indo sentar-se outra vez diante do seu cesto de flôres.
Rosa começava já a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda côr. E assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro, com o seu dôce mimo de fórma, a sua graça ligeira, os seus grandes olhos cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se adiantou com a mão estendida para renovar o antigo conhecimento—ella ergueu-se na ponta dos pés, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca como um botão de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.
Depois quiz apertar a mão á sua velha amiga Cri-cri. E então, de repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr.
—É o robe-de-chambre, mamã! Não posso achar o robe-de-chambre de Cri-cri... Ainda a não pude vestir... Dize, sabes onde é que está o robe-de-chambre?
—Vejam esta desarranjada! murmurava a mãi olhando-a com um sorriso lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu guarda-vestidos, não se lhe deviam perder as coisas... Pois não é verdade, snr. Carlos da Maia?
Elle, ainda com a sua receita na mão, sorria tambem, sem dizer nada, todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar dôcemente.
A pequena então veio encostar-se á mãi, roçando-se pelo seu braço, com uma vozinha languida, lenta, e de mimo:
—Anda, dize... Não sejas má... Anda... Onde está o robe-de-chambre? Dize...
Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino laço de sêda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais séria:
—Está bem, está quieta... Tu sabes que não sou eu que trato dos arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
E Rosa obedeceu logo, séria tambem, comprimentando agora Carlos ao passar, com um arzinho senhoril:
—Bonjour, Monsieur...
—É encantadora! murmurou elle.
A mãi sorriu. Tinha acabado de compôr o seu ramo de cravos;—e immediatamente attendeu a Carlos, que pousára a receita sobre a mesa, e sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se lhe deviam dar de tres em tres horas...
—Pobre Sarah! dizia ella. E é curioso, não é verdade? Veio com o presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...
—Então vem a detestar Portugal!
—Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por toda a parte maus cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim é infelicissima, está ardendo por se ir embora...
Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a boa miss Sarah tinha talvez razão...
—E v. exc.
a
tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?
Ella encolheu os hombros, indecisa.
—Sim... Devo dar-me bem... É o meu paiz
O
seu
paiz!... E elle que a julgava brazileira!
—Não, sou portugueza.
E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomára de sobre a mesa, abria lentamente um grande leque negro pintado de flôres vermelhas. E Carlos sentia, sem saber porque, uma doçura nova penetrar-lhe no coração. Depois ella fallou da sua viagem que fôra muito agradavel; adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manhã da chegada a Lisboa, com um céo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e já um calorzinho do clima dôce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central.
Niniche
, uma noite, assustára-os muito com uma indigestão. Em seguida no Porto viera aquelle desastre...
—Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.
a
, na Praça Nova...
Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo pelo Damaso...
—São muito amigos, creio eu.
Depois d'uma leve hesitação, que ella comprehendeu, Carlos murmurou:
—Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... É de resto um rapaz que eu conheço apenas ha mezes...
Ella abriu os olhos, pasmada.
—O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que eram até parentes...
Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.
—É uma bella illusão... E se isso o faz feliz!...
Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.
—E v. exc.
a
, minha senhora, continuou logo Carlos não querendo fallar mais do Damaso, como acha Lisboa?
Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade meridional... Mas, havia tão poucos confortos!... A vida tinha aqui um ar que ella não pudera perceber ainda—se era de simplicidade ou de pobreza.
—Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
Ella riu.
—Não direi isso. Mas supponho que são como os gregos: contentam-se em comer uma azeitona, olhando o céo que é bonito...
Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coração fugiu para ella.
Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de commodidade, tão despidas de gosto, tão desleixadas. Aquella em que vivia fazia a sua desgraça. A cozinha era atroz, as portas não fechavam. Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e collinas que lhe tiravam o appetite...
—Além d'isso, acrescentou, é um horror não ter um quintal, um jardim, onde a pequena possa correr, ir brincar...
—Não é facil encontrar assim uma casa nas condições d'esta e com jardim, disse Carlos.
Deu um olhar ás paredes, ao estuque enxovalhado do tecto—e lembrou-lhe de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as frescas ruas de acacias.
Felizmente, Maria Eduarda tomára a casa apenas ao mez, e estava pensando em ir passar á beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.
—De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o dr. Chaplain.
O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. Ouvira-lhe as lições, visitára-o até intimamente na sua propriedade de Maisonnettes, ao pé de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um espirito bem superior!
—E tão bom coração! disse ella com um claro sorriso, um olhar que brilhou.
E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dôcemente: cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda fallando d'elle prolongadamente, gozando, através d'essa trivial sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus corações.
O bom dr. Chaplain! Que physionomia tão amavel, tão fina!... Sempre com o seu barretinho de sêda... E sempre com a sua grande flôr na casaca... De resto, o pratico maior que sahira da geração de Trousseau.
—E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, é uma pessoa encantadora... Não é verdade?
Mas Maria Eduarda não conhecia Madame Chaplain.
Dentro o relogio ronceiro começára a bater onze horas. E Carlos então ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita...
Quando ella lhe estendeu a mão, um pouco de sangue subiu-lhe de novo á face ao tocar aquella palma tão macia e tão fresca. Pediu os seus comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, á porta, já com o reposteiro na mão, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudação, a receber o olhar suave com que ella o seguia...
—Até ámanhã, está claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo sorriso.
—Até ámanhã, decerto!
O Domingos estava já no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.
—É coisa de cuidado, meu senhor?
—Não é nada, Domingos... Estimei vêl-o por aqui.
—E eu muito a v. exc.
a
. Até ámanhã, meu senhor.
—Até ámanhã.
Niniche
appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:
—Até ámanhã,
Niniche
!
Até ámanhã! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idéa que elle sentia distinctamente através da nevoa luminosa que lhe afogava a alma. Agora o seu dia estava findo:—mas, passadas as longas horas, terminada a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando ainda folhas verdes em torno de pés de rosa...
Pelo Aterro, por entre a poeira de verão e o ruido das carroças, o que elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus anneis entremettidos pelos pêllos de
Niniche
. Parecia-lhe mais linda, agora que conhecia o seu sorriso d'uma graça tão delicada; era cheia de inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha á porta, esse doente a quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o encantava é que não tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro perdido, á busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem impaciencias.
No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
—Trouxe-a a escosseza, já v. exc.
a
tinha sahido.
Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a lapis—
all rigth
. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... Não se tornára quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em que andára o seu coração. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas, que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma estalagem! Elle promettera-lh'o, a sério; já ella se preparára decerto, com a atroz cabelleira postiça, com o
water-proof
de grande roda; tudo estava
all rigth
... Achou-a n'esse instante ridicula, reles, estupida... Oh, era claro como a luz que não ia, que nunca iria, jámais! Mas tinha d'apparecer na estação de Santa Apolonia, balbuciar uma desculpa tosca, assistir á sua desconsolação, vêr-lhe os olhos marejados de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.
Quando chegou á mesa do almoço Craft e Affonso, já sentados, fallavam justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a publicar no
Jornal do Commercio
.
—Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as importunidades amorosas da mulher.
Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft censurou-lhe a ingratidão. Porque, realmente, não havia em toda a terra um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por Carlos...
—V. exc.
a
não faz idéa, snr. Affonso da Maia. É um culto. É uma idolatria!
Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, já bem disposto para com o homem que assim admirava tão prodigamente o seu neto, murmurou com bondade:
—Coitado, supponho que é inoffensivo...
Craft fez uma ovação ao velho:
—
Inoffensivo!
Admiravel, snr. Affonso da Maia!
Inoffensivo
, applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador, é um achado! E é com effeito o que elle é,
inoffensivo
... E é o que elles são...
—Chablis? murmurou o escudeiro.
—Não, tomo chá.
E acrescentou:
—Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo, arrasou-me... Tenho de me pôr uma semana a regimen de leite.
Então fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e do véo azul do Damaso.
—Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft remexendo o seu chá. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme, tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas...
C'était un œillet blanc panaché de noir
... Vossê não achou, Carlos?
—Sim, rosnou Carlos, estava bem.
Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que não haveria na sua vida conversa em que não surgisse a Gouvarinho, e que não haveria caminho na sua vida que o não atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, á mesa, decidiu comsigo não a tornar a vêr, escrever-lhe um bilhete curto, polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razões...
Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette, sem achar phrase que não fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia precisa para lhe dar o banal tratamento de
querida
. Vinha-lhe até por ella uma indefinida repulsão physica: devia ser intoleravel toda uma noite o seu cheiro exagerado de verbena;—e lembrava-se que aquella pelle do seu pescoço, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um tom pegajoso, um tom amarellado, para além da linha de pós d'arroz. Decidiu não lhe escrever. Iria á noite a Santa Apolonia, e no momento do comboio partir correria á portinhola, a balbuciar fugitivamente uma desculpa; não lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um rapido aperto de mão, e adeus, para nunca mais...
Á noite, porém, á hora de ir á estação, que sacrificio em se arrancar aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o coupé desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por causa d'uma rosa e d'um certo vestido côr de folha morta que lhe ficava bem, elle se'achára cahido com ella n'um sofá...
Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, já quasi vazia áquella hora, a comprar uma
admissão
; e ainda ahi esperou uma eternidade, vendo dentro do postigo duas mãos lentas e molles arranjar laboriosamente os patacos d'um troco.
Penetrava emfim na sala d'espera—quando esbarrou com o Damaso, de chapéo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as mãos, enternecido:
—Ó menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu partia?
Carlos não o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que encontrára o Taveira...
—Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta manhã, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei furioso! Isto é, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
Foi então que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo no chapéo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenço... Murmurou, embaraçado:
—O Taveira disse-me que ias, mas não me disse mais nada... Morreu-te alguem?
—Meu tio Guimarães.
—O communista? o de Paris?
—Não, o irmão d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu volto já, vou alli ao café encher o frasco de cognac. Com a afflicção esquecia-me o cognac...
Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pó, com chapeleiras na mão. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos, respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluçava por baixo do véo.
Carlos, vendo um wagon com a papeleta de
reservado
, imaginou lá a condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanação d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? Não sabia que era o
reservado
do snr. Carneiro?
—Não sabia.
—Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava, atabafadamente, na amontoação dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a proposito de lugares, tratavam-se de
malcriados
; adiante, uma criança esperneava no collo da ama, aos gritos.
—Ó menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente, surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braço pela cinta.
—Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lúgubre massada de ter d'ir a Penafiel!
—E então agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou para o seu wagon, enterrou na cabeça um barretinho de sêda—e depois debruçado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que ferro! agora que aquillo ia tão bem, o gajo no Brazil, e ella alli, á mão, a dois passos do Gremio!...
Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio transparente. De repente Damaso, á portinhola, deu um salto de surpreza:
—Olha os Gouvarinhos!
Carlos deu um salto tambem. O conde, de côco de viagem, de paletot alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia, vinha conversando com um empregado superior da estação, agaloado de ouro, que se encarregára da chapeleira de papelão de s. exc.
a
E a condessa, com um rico guarda-pó de foulard côr de castanho, um véo cinzento que lhe cobria a face e o chapéo, seguia atraz, com a criada escosseza, trazendo na mão um ramo de rosas.
Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
—Por aqui, Maia?
—De viagem, conde?
É verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do papá... Resolução da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
—Então temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mão ao pobre Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
Debruçado da portinhola, com as mãos de fóra calçadas de negro, o pobre Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o bom Gouvarinho não quiz deixar de lhe ir dar logo o seu
shake-hands
e o seu pezame.
Sósinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
—Que ferro!
—Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que fuzilou através do véo. Tudo tão bem arranjado, e á ultima hora teima em vir!...
Carlos acompanhou-os até ao
reservado
, n'um outro wagon que se estivera mettendo de novo para s. exc.
a
A condessa tomou o lugar do canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado desabridamente, enterrou-se com mais força na almofada; e um duro olhar de colera passou entre ambos. Carlos, embaraçado, perguntava:
—Então vão com demora?
O conde respondeu, sorrindo, disfarçando o seu mau humor:
—Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
—Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma navalha.
O conde não respondeu, livido.
Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido secco de freios retesados, começou a rolar, com gente ás portinholas, que ainda se debruçava, estendendo a mão para um ultimo aperto. Aqui e além esvoaçava um lenço branco. O olhar da condessa para o lado de Carlos teve a doçura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...
Carlos, só, dentro do coupé, voltando á Baixa, sentia uma alegria triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do Damaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solidão—com todos os seus encantos, e todas as suas cumplicidades.
No caes do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio passar diante das janellas na rua de S. Francisco. Só pôde vêr uma vaga tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ella estava passando na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e as partituras que tinha sobre o piano; e as flôres que espalhavam alli o seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manhã. Poria ella um instante o seu pensamento n'elle? Decerto; a doença em casa forçava-a a lembrar as horas do remedio, as explicações que elle dera, e o som da sua voz; e fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite estrellada, devagar, ruminando a doçura d'aquelle grande amor.
Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, esplendida, perfeita, «a visita á ingleza».
Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como n'uma acção triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma pequena flôr meio murcha. Elle deixava ficar a flôr no tapete: e mal podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho Thompson, tivera uma apoplexia. Ella lá estava, d'enfermeira. Depois, levando duas ou tres bellas flôres do jardim embrulhadas n'um papel de sêda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupé—porque o tempo mudára, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de chuva.
Á porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.
Niniche
corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braços para a beijar. Esperava um instante na sala, de pé, saudando com o olhar os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a musica que ella tocára essa manhã, ou o livro que deixára interrompido, com a faca de marfim entre as folhas.
Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ás vezes uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras, avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais bello, e como uma expressão do seu espirito.
Começavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que lhe era tão desfavoravel. Conversando, ainda de pé, ella dava aqui e além um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que não estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompôr constantemente a symetria das coisas;—e, machinalmente, ao passar, sacudia a superficie de moveis já perfeitamente espanejados com as magnificas rendas do seu lenço.
Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir do movimento das suas saias. Ella ás vezes abria familiarmente a porta de um quarto, apenas mobilado com um velho sofá: era alli que Rosa brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando profundamente com a boneca; ou então, ao canto do sofá, com os pésinhos cruzados, immovel, perdida na admiração d'algum livro d'estampas aberto sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a sua pessoa tinha a frescura de uma linda flôr.
No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pés do leito branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, verificando a cada instante se o lenço de sêda lhe cobria correctamente o pescoço, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella, provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame, com um suspiro. Depois murmurava:
—
Oh yes, I am very comfortable!
E enternecia-se.
Logo nos primeiros dias, ao voltar á sala, Maria Eduarda tinha-se sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomára muito naturalmente o seu bordado como na presença familiar de um velho amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarça! Devia ser um faisão de plumagens rutilantes: mas por ora só estava bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
Illustrações
ou algum jornal de modas; ás vezes, um instante calado, elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mãos de Maria, com brilhos de joias, iam puxando os fios de lã. Aos pés d'ella
Niniche
dormitava, espreitando-os a espaços, através das repas do focinho, com o seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de friagem lá fóra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a paz do vagaroso trabalho na talagarça, as vozes lentas e amigas, e ás vezes um dôce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
Mas no que diziam não havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de inverno, da Italia que era o seu sonho vêr, de livros, de coisas d'arte. Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos Feuillet, por cobrir tudo de pó d'arroz, mesmo as feridas do coração. Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lêra Michelet e lêra Renan. De resto não era catholica praticante; as igrejas apenas a attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as luzes, ou os lindos mezes de Maria, em França, na doçura das flôres de maio. Tinha um pensar muito recto e muito são—com um fundo de ternura que a inclinava para tudo o que soffre e é fraco. Assim gostava da Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista.
—Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa, comtanto que não haja gente que tenha fome!
Mas era isso possivel? Já Jesus, mesmo, que tinha tão dôces illusões, declarára que pobres sempre os haveria...
—Jesus viveu ha muito tempo, Jesus não sabia tudo... Hoje sabe-se mais, os senhores sabem muito mais... É necessario arranjar-se outra sociedade, e depressa, em que não haja miseria. Em Londres, ás vezes, por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a gemer de fome... É um horror! E em Paris então! É que se não vê senão o boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade...
Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma—como n'um só sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ás suas caridades, pedindo-lhe para ir vêr a irmã da sua engommadeira que tinha rheumatismo, e o filho da snr.
a
Augusta, a velha do patamar, que estava tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acções religiosas. E n'estas piedades achava-lhe semelhanças com o avô. Como Affonso, todo o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praça da Figueira, quasi com idéas de vingança, por ter visto nas tendas dos gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que era membro da
Sociedade protectora dos animaes
. O marquez, indignado tambem, jurava justiça, fallava em cadêas, em costa d'Africa... E Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia póde ter, mesmo isolado de tudo, um coração que é justo.
Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.
a
acha Nice elegante? V. exc.
a
prefere a capella de S. João Baptista a
Notre-Dame
?...
—E então a insistencia de fallar de pessoas que eu não conheço! A snr.
a
condessa de Gouvarinho, e os chás da snr.
a
condessa de Gouvarinho, e a frisa da snr.
a
condessa de Gouvarinho, e a preferencia que a snr.
a
condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ás vezes tinha medo de adormecer...
Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente. Decerto não sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre elles esse nome, começou a fallar de Mr. Guimarães, o famoso tio do Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica...
—O Damaso tem-me dito que v. exc.
a
o conhece muito...
Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
—Mr. Guimarães?... Sim, conheço muito... Ultimamente viamo-nos menos, mas elle era muito amigo da mamã.
E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeçando a puxar o seu longo fio de lã:
—Pobre Guimarães, coitado! A sua influencia na Republica é traduzir noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o
Rappel
, que d'isso é que vive... Se é amigo de Gambetta, não sei, Gambetta tem amigos tão extraordinarios... Mas o Guimarães, aliás bom homem e homem honrado, é um grutesco, uma especie de Calino republicano. E tão pobre, coitado! O Damaso, que é rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, não o deixava viver assim tão miseravelmente.
—Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o Damaso...?
Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco intoleravel.
Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avô. E durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a talagarça, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia, o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos lhe explicasse longamente a idéa do seu livro
A medicina antiga e moderna
. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam só guerreiros e fortes? A vida salva a uma criança parecia-lhe coisa bem mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no coração de Carlos e ficavam lá muito tempo, palpitando e brilhando...
Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões;—e ainda não sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jámais o nome do marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia não ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar;—e era realmente como a deusa que elle ideára, sem contactos anteriores com a terra, descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado d'affeições. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fé n'essas bellas uniões, todas d'estima, todas de razão—comtanto que se lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso perfumava-as d'um grande encanto—e não lhes diminuia a sinceridade. E, sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do bordado e com lentos sorrisos, ficára subtilmente estabelecido que entre elles só deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas interessantes, ou tornadas interessantes pela graça da sua pessoa; comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente córado, baixar-se, com a lenta attracção d'uma caricia, sobre as flôres que lhe trazia; comtanto que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava seguindo sympathicamente através do seu dia, mal elle deixava aquella adorada sala de reps vermelho—o seu coração estava satisfeito, esplendidamente.
Não pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenção casta, era o caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braços ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomára ao vêr-se de repente admittido a uma intimidade que julgára impenetravel,—os seus desejos desappareciam: longe d'ella, ás vezes, ainda ousavam ir temerariamente até á esperança d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu olhar negro, cahia em devoção, e julgaria um ultraje bestial roçar sequer as prégas do seu vestido.
Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginára que houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o céo está limpo; ou em descer de manhã ao jardim para escolher uma rosa mais aberta. Tinha na alma um constante sorriso—que os seus labios repetiam. O marquez achava-lhe o ar baboso e abençoador...
Ás vezes, passeando só no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o levaria aquelle grande amor. Não sabia. Tinha diante de si os tres mezes em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais senão elle occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe, separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era largo...
Conservava sempre as suas grandes idéas do trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres,—e que aquellas que não pertenciam ás puras felicidades do amor, pertencessem ás alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da visita á rua de S. Francisco não podia disciplinar o espirito, inquieto, n'um tumulto d'esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso... Fumava então cigarrettes, lia os poetas.
Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
whist
. O marquez batia-se ao dominó com o Taveira, enfronhados ambos n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o secretario de Steinbroken começára a vir ao Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de vêr entrar era o Cruges—que vinha da rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao predio vêr a «miss ingleza»; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da visinha...
—A visinha lá ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execução, tem expressão, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
Se elle não apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da visinha; Cruges achava-lhe «um verdadeiro typo de
grande dame
».
Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle dizia a faiscar d'ironia) o que se passava «no paiz do snr. Gambetta». Parecera remoçar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade d'esperança nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela condessa. Lá estava no Porto, nos seus deveres de filha...
—E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
—Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando
Niniche
que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romão entreabriu discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraçado, um ar de cumplicidade, murmurou:
—É o snr. Damaso!...
Ella olhou o Romão, surprehendida d'aquelles modos, e quasi escandalisada.
—Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flôr ao peito, gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mão, trazendo dependurado por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vêr Carlos alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraçou as mãos, veio comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,—e voltando-se logo para Carlos, de braços abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
—Então tu aqui, homem? Isto é que é uma surpreza! Ora quem me diria!... Eu estava mais longe...
Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle tinha chegado.
—Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cançado, como é natural... Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.
a
vê—e mostrou o seu luto pesado—acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso pousára os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de côr, cheio de sangue; e como cortára a barba (que havia mezes deixára crescer para imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As côxas roliças estalavam-lhe de gordura dentro da calça de casimira preta.
—E então, perguntou Maria Eduarda, temol-o por cá algum tempo?
Elle deu um puxãosinho á cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez risonho:
—Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... Isto é, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero dizer é que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pêllos da
Niniche
. E houve então um pequeno silencio. Maria Eduarda retomára o bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao bigode, estendeu a mão para acariciar tambem
Niniche
sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
—
C'est moi, Niniche!
dizia Damaso, recuando a cadeira.
C'est moi, ami... Alors, Niniche
...
Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente
Niniche
. E, aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, rosnando, e com rancor.
—Já me não conhece, dizia elle embaçado, é curioso...
—Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito séria. Mas não sei o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. É sempre este escandalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
—Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...
E então não se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades novas de Mademoiselle
Niniche
. Alli estava nos braços d'outro, emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
—Ó Damaso, não a accuses de ingratidão... Pois se a snr.
a
D. Maria Eduarda está a dizer que ella sempre te teve odio...
—Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenço de barra negra, limpando os beiços e mesmo o suor do pescoço, lembrou a Maria Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a tarde á espera...
—Eram vesperas de partida, disse ella.
—Sim, bem sei, o marido de v. exc.
a
... E como vai o snr. Castro Gomes? V. exc.
a
já recebeu noticias?
—Não, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. Depois por Cri-cri. Era necessario não esquecer Cri-cri...
—Pois v. exc.
a
—continuou elle, cheio subitamente de loquacidade—perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito
chics
? Olhe, minha senhora, d'uma coisa póde v. exc.
a
estar certa, é que hippodromo mais bonito não ha lá fóra. Uma vista até á barra, que é d'appetite... Até se vêem entrar os navios... Pois não é assim, Carlos?
—Sim, disse Carlos, sorrindo. Não é propriamente um campo de corridas... É verdade que não ha tambem propriamente cavallos de corridas... Verdade seja que não ha jockeys... Ora é verdade que não ha apostas... Mas é verdade tambem que não ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
—Mas então?
—Vêem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer mal á força... Não senhor, não senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual como lá fóra, as mesmas regras, tudo...
—Até na pesagem, acrescentou elle muito sério, fallamos sempre inglez!
Repetiu ainda que as corridas eram
chics
. Depois não achou mais nada:—e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se forçado a ficar em casa, estupidamente, a lêr...
—Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de pé descalço, não tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc.
a
, não tolero...
Carlos corára: mas Maria Eduarda parecia não ter ouvido, occupada a contar attentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a snr.
a
D. Maria Eduarda. Mas não imaginasse que era alguma preciosidade... Verdadeiramente até o presente era para Mademoiselle Rosa.
—Olhe, para não estar com mysterios, sabe o que é? Tenho-o alli no embrulhosinho de papel pardo... São seis barrilinhos d'ovos molles d'Aveiro. É um dôce muito célebre, mesmo lá fóra. Só o de Aveiro é que tem
chic
... Pergunte v. exc.
a
ao Carlos. Pois não é verdade, Carlos, que é uma delicia, até conhecido lá fóra?
—Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousára
Niniche
no chão, erguera-se, fôra buscar o seu chapéo.
—Já?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era só para elle. Até ámanhã, então!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando vêl-o erguer-se tambem. Elle conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
—
Au revoir
, disse o outro. Recados lá no Ramalhete; hei de apparecer!...
Carlos desceu as escadas, furioso.
Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe dissera na noite do jantar do Ega, á porta do Hotel Central, a respeito da própria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres «que era o
atracão
». Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse um ultraje? A supposição era insensata, talvez—mas reteve-o no pateo, applicando o ouvido para cima, com idéas ferozes de esperar alli o Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, á menor reflexão d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser assim surprehendido á escuta. O coupé do Damaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma vidraça—viu logo o Damaso sahir do portão, saltar para o coupé, bater com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó d'aquelle grutesco...
N'essa noite, depois de jantar, Carlos só no seu quarto fumava, enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa manhã,—quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapéo, logo da porta, exclamou, com o mesmo espanto da manhã:
—Então dize-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
Sem mover a cabeça do espaldar da poltrona, cruzando as mãos sobre os joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, disse, com uma dôce reprehensão paternal:
—Pois então tu vaes expôr a uma senhora as tuas opiniões lubricas sobre as lavradeiras de Penafiel!
—Não se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expôr! exclamou o outro, vermelho. Conta lá, anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber... Como a conheceste tu?
Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, começou, n'um tom lento e solemne de recitativo:
—Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. Via-se-lhe na mão uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expressão do seu semblante...
Damaso, já zangado, atirou com o chapéo para cima da mesa.
—Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
—Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, petrificado, ao encontrar lá o medico! Quem esperavas tu vêr lá? Um photographo?
—Então quem está doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza—emquanto o Damaso, sentado á beira do sofá, mordendo o charuto sem lume, olhava para elle desconfiado.
—E como soube ella onde tu moravas?
—Como se sabe onde mora o rei; onde é a alfandega; de que lado luz a estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se aprendem nas aulas de instrucção primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mãos nos bolsos.
—Ella tem agora lá o Romão, o que foi meu criado, murmurou depois d'um silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu lhe digo...
—Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi á terra. Vai mandal-o embora, é um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado más maneiras...
Então Damaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficára furioso... Emfim, agora que sabia que era por doença, bem, tudo se explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... Só com ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que não fosse delicado; e além d'isso ella estava de mau humor...
E acrescentou logo, accendendo o charuto:
—Que apenas tu sahiste, pôz-se melhor, mais á vontade... Rimos muito... Eu fiquei ainda até tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
—Não. É uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, não se atreveria a dizer-me mal de ti.
Damaso olhou-o, esgazeado:
—Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
—Não; é uma pessoa de bom senso, não se atreveria tambem.
E erguendo-se vivamente, Carlos abraçou Damaso pela cinta, acariciando-o, perguntando-lhe pela herança do titi, e em que amores, em que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhões...
Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de revez.
—Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um traste... Não ha a gente fiar-se em ninguem!
—Tudo na terra, meu Damaso, é apparencia e engano!
Seguiram d'alli á sala do bilhar fazer «a partida de reconciliação». E pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho já, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sério, e tratando-o outra vez por «menino». Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
—Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez cá no sabbado.
Foi um espanto para o Damaso.
—Homem! essa é curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois dias de Southampton... Jógo eu?
Jogou, falhou a carambola.
—Pois é verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma
toilette
ingleza com coisas brancas, coisas côr de rosa...
Chic
a valer, parecia um moranguinho! E então o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos escandalo!
II
No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.
—Não faças espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa
incognito
!
E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...
—Ha cá um quarto para mim? Eu por ora estou no
Hotel Hespanhol
, mas ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.
Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascença, e uma cópia dos
Borrachos
de Velasquez.
—Optimo covil para a arte! Velasquez é um dos Santos Padres do naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O pai Tompson esteve á morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.
—Ah! murmurou Carlos.
Ega, de monoculo no olho e mãos nos bolsos, contemplava Carlos.
—É verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, immoderadamente! Não me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, não é verdade? E que tal, no acto d'amor?
Carlos córou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a Gouvarinho senão relações superficiaes. Ia lá ás vezes tomar uma chavena de chá; e á hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar com o conde sobre as miserias publicas, á esquina do Loreto. Nada mais.
—Tu estás-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas não importa. Eu hei de descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira.... Porque nós vamos lá jantar na segunda-feira.
—Nós... Nós, quem?
—Nós. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou logo que haviamos de ter tambem «o nosso Maia». O Maia d'elle, e o Maia d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!
Carlos olhou-o com severidade.
—Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
—É o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega porém já sabia. A chegada dos Cohens, não é verdade? Lêra-o logo n'essa manhã, na
Gazeta Illustrada
, no
high-life
. Lá se dizia respeitosamente que s. exc.
as
tinham regressado do seu passeio pelo estrangeiro.
—E que impressão te fez? perguntou Carlos rindo.
O outro encolheu brutalmente os hombros:
—Fez-me o effeito de haver um cabrão mais na cidade.
E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua immunda, o Ega, um pouco córado, arrependido talvez, lançou-se em considerações criticas, clamando pela necessidade social de dar ás coisas o nome exacto. Para que servia então o grande movimento naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, é porque a sociedade, indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o idealisavam... Que escrupulo póde ter uma mulher em beijocar um terceiro entre os lençoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?
—E a proposito, a tua comedia, o
Lodaçal
? perguntou Carlos, que entrára um instante para a alcova de banho.
—Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E além d'isso fazia-me remexer na podridão lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... Affligia-me...
Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquetão claro e ás botas com mau verniz.
—Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente mandou-te fato de verão, hei de querer examinar esses córtes da alta civilisação... Não ha negal-o, diabo, esta minha linha está chinfrim!
Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a alcova de banho:
—Pois, menino, eu agora o que necessito é o regimen da Chimera. Vou-me atirar outra vez ás
Memorias
. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a proposito, é necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que elle me vai dar o pão, o tecto, e a enxerga...
Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona, com um antigo volume da
Illustração franceza
aberto sobre os joelhos, mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.
—Já não tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!
—Então esclarecêl-o com a tua clara razão, disse o velho rindo. Estamos cá precisando d'ambas as coisas, John.
Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho, rapazinho amavel da visinhança, filho do Vicente, mestre d'obras; o Manoelinho vinha ás vezes animar a solidão d'Affonso—e alli folheavam ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora, justamente, estava elle muito embaraçado por não lhe saber explicar como é que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, não era mettido na cadêa...
—Está visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraçado, com as mãos cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na cadêa!
—Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta bella logica? Olha, filho, agora que estão aqui estes dois senhores que são formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vêr os bonecos alli para cima da mesa... E depois vão sendo horas d'ires lá dentro á Joanna, para merendares.
Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se á mesa com o seu grande volume d'estampas, pensava quanto o avô, com aquelle seu amor por crianças, gostaria de conhecer Rosa!
Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quê! Já abandonada? Quando acabaria então o bravo John de fazer bocados incompletos d'obras-primas?...—Ega queixou-se do paiz, da sua indifferença pela arte. Que espirito original não esmoreceria, vendo em torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idéa nobre, por uma phrase bem feita?
—Não vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
—Pois então, acudiu o velho, planta os teus legumes. É um serviço á alimentação publica. Mas tu nem isso fazes!
Carlos, muito sério, apoiava o Ega.
—A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, é plantar legumes, emquanto não ha uma revolução que faça subir á superficie alguns dos elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre lá no fundo. E se se vir então que não encerra nada, demittamo-nos logo voluntariamente da nossa posição de paiz para que não temos elementos, passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos mais legumes!
O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia como uma decomposição da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificação da sua inercia. Terminou por dizer:
—Pois então façam vocês essa revolução. Mas pelo amor de Deus, façam alguma coisa!
—O Carlos já não faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!
O relogio Luiz XV interrompeu-os—lembrando ao Ega que devia ainda, antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr ao Fillon, ao photographo, vêr se podia tirar um bonito retrato.
—Um retrato?
—Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia d'annos d'uma creaturinha que me adoçou o exilio.
—Oh Ega!
—É horroroso, mas então? É a filha do padre Corrêa, filha conhecida como tal; além d'isso casada com um proprietario rico da visinhança, reaccionario odioso... De modo que, bem vês, esta dupla peça a pregar á Religião e á Propriedade...
—Ah! n'esse caso...
—Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!
Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupé fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da condessa Carlos vira-a só uma vez, em casa d'ella; e fôra uma meia hora desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e recriminações infindaveis. Ella queixára-se das cartas d'elle, tão raras, tão seccas. Não se puderam entender sobre os planos d'esse verão, ella devendo ir para Cintra onde já alugára casa, Carlos fallando no dever de acompanhar o avô a Santa Olavia. A condessa achava-o distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos de um fastidioso peso de bronze.
Por fim a condessa arrancára-lhe a promessa de a ir encontrar, justamente n'essa segunda-feira de manhã, a casa da titi, que estava em Santarem;—porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o apertar nos braços nús, em dias que o devesse receber na sua sala, mais tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltára,—e agora, rodando para casa d'ella, impacientavam-n'o já as queixas que teria de ouvir nos vãos de janella, e as mentiras chôchas que teria de balbuciar...
De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de verão, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sério:
—Dize-me uma coisa, se não é um segredo sacrosanto... Quem é essa brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhãs?
Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
—Quem te fallou n'isso?
—Foi o Damaso que m'o disse. Isto é, o Damaso que m'o rugiu... Porque foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sofá do Gremio, e com uma côr d'apoplexia, que elle me contou tudo...
—Tudo o quê?
—Tudo. Que te apresentára a uma brazileira a quem se atirava, e que tu, aproveitando a sua ausencia, te metteras lá, não sahias de lá...
—Tudo isso é mentira! exclamou o outro, já impaciente.
E Ega, sempre risonho:
—Então «que é a verdade», como perguntava o velho Pilatus ao chamado Jesus Christo?
—É que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma paixão, como suppõe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda não está melhor, eu vou vêl-a todos os dias. E Madame Gomes, que é o nome da senhora, que nem brazileira é, não podendo tolerar o Damaso, como ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta é a verdade; mas talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!
Ega contentou-se em murmurar:
—E ahi está como se escreve a historia... vá-se lá a gente fiar em Guizot!
Em silencio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra suave e favoravel em que se abrigára o seu amor! Agora já se pronunciava o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega, repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles do Damaso!
—Parece-me que temos cá mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapé um paletot cinzento e capas de sonhem.
A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada «do busto», vestida de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoço picada de tres estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flôres quasi enchia a mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Além da boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora, que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pé, conversando baixo com o conde, de mãos atraz das costas, um cavalheiro alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceição.
A condessa, um pouco córada, estendeu a Carlos a mão amuada e frouxa: todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. Sousa Netto já tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputação, o poder-se ter assim uma apreciação mais justa dos caracteres. Em Paris, por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta relaxação...
—Nunca sabe a gente quem mette em casa.
O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermões para o abbade: o abbade recitava-os; e os sermões, sob uma fórma mystica, eram de facto affirmações revolucionarias que o santo varão lançava com fervor, esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mãos no regaço, escutava o Ega, com o olhar espantado.
—Imaginei que v. exc.
a
tinha ido já para Cintra, veio dizer Carlos á senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.
a
é sempre a primeira...
—Como quer o senhor que se vá para Cintra com um tempo d'estes?
—Com effeito, está infernal...
—E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande leque preto.
—Creio que não ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte do snr. D. João VI.
—Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
—É verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.
a
, senhora baroneza?
Ella nem baixou a voz para dizer:
—Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e não gosto d'elle, não posso dizer nada...
—Oh senhora baroneza, que falta de caridade!
O escudeiro annunciára o jantar. A condessa tomou o braço de Carlos,—e, ao atravessar o salão, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento das caudas de sêda, pôde dizer-lhe asperamente:
—Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a brazileira...
Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel côr de vinho, escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca, com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos ficou á direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
—Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe ella, desdobrando o guardanapo.
—Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no peitilho da camisa, estava já observando, emquanto remexia a sopa, que a senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas e nos edificios grandes mudanças... A condessa, infelizmente, mal tinha sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, é que admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da Hungria. E através d'estas coisas graves, lançadas d'alto, com superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.
Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras da condessa. Tambem ella conhecia já a sua intimidade com a «brazileira». Era evidente pois que já andava alli, diffamante e torpe, a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne, estava decidido a bater no Damaso.
De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e cantada:
—O snr. Maia é que deve saber... O snr. Maia já lá esteve.
Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buço forte de quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentára, elle não sabia quem era. Sorriu tambem, perguntou:
—Onde, minha senhora?
—Na Russia.
—Na Russia?... Não, minha senhora, nunca estive na Russia.
Ella pareceu um pouco desapontada.
—Ah, é que me tinham dito... Não sei já quem me disse, mas era pessoa que sabia...
O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera apenas na Hollanda.
—Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao nosso... Já conheci mesmo um hollandez que era excessivamente instruido...
A condessa baixára os olhos, partindo vagamente um bocadinho de pão, mais séria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se tão tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle, então, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, muito naturalmente e risonho:
—Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idéa d'ir á Russia. Ha assim uma infinidade de coisas que se dizem e que não são exactas... E se se faz uma allusão ironica a ellas, ninguem comprehende a allusão nem a ironia...
A condessa não respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:
—No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto que é verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...
—A senhora condessa tem então uma credulidade infantil. Estou vendo que acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na testa...
Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinião do seu amigo Maia. Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessára a Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde via alli só inveja—a inveja que nos têm todas as nações por causa da importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na Africa...
—Está claro, dizia o conde, que não temos nem os milhões, nem a marinha dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique é de primeira ordem; e a tomada d'Ormuz é um primor... E eu que conheço alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que não ha hoje colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no progresso, nem mais liberaes que as nossas! Não lhe parece, Maia?
—Sim, talvez, é possivel... Ha muita verdade n'isso...
Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente contra todas essas explorações da Africa, e essas longas missões geographicas... Porque não se deixaria o preto socegado, na calma posse dos seus manipansos? Que mal fazia á ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiões e todas as raças ao mesmo typo de civilisação, o mundo ia tornar-se d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu—para quê? Para encontrar lá pretos de chapéo alto, a lêr o
Jornal dos Debates
!
O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
—Este Ega! Este Ega! Que graça! Que
chic
!
Então Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta pergunta grave:
—V. exc.
a
pois é em favor da escravatura?
Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser sériamente obedecido, quem era sériamente temido... Por issoninguem agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só houvera duas civilisações em que o homem conseguira viver com razoavel commodidade: a civilisação romana, e a civilisação especial dos plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...
Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega:
—Então v. exc.
a
n'essa idade, com a sua intelligencia, não acredita no Progresso?
—Eu não senhor.
O conde interveio, affavel e risonho:
—O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem realmente razão, porque os faz brilhantes...
Estava-se servindo
Jambon aux épinards
. Durante um momento fallou-se de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o ministro do reino...
—Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.
—Sim, pujante, disse o conde.
Mas elle agora não fallava tanto do talento do Barros como parlamentar, como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu
esprit
...
—Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em casa da snr.
a
D. Maria da Cunha... V. exc.
a
não se lembra, snr.
a
D. Maria? Esta minha desgraçada memoria! Ó Thereza, lembras-te d'aquelle paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois não te lembras, Thereza?
A condessa não se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo anciosamente, com a mão na testa, as suas recordações,—a senhora d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a Joanna, que estava em casa havia quinze annos, não sabia que fazer, andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis mezes já vira quatro caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!... Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma migalhinha de pão:
—Ó baroneza, ainda tens a Vicenta?
—Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.
a
D. Vicenta, se faz favor.
A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.
—E é a Vicenta que te penteia?
Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. Já sabia verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer
j'aime
,
tu aimes
...
—E a senhora baroneza, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os verbos mais necessarios.
Está claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir!
—Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me lembro!
Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto!
—Esta minha desgraçada memoria!... E era sobre cães. Uma coisa brilhante, philosophica até!
E, por se fallar de cães, a baroneza lembrou-se do
Tommy
, o galgo da condessa; perguntou por
Tommy
. Já o não via ha que tempos, esse bravo
Tommy
! A condessa nem queria que se fallasse no
Tommy
, coitado! Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandára-o para o Instituto, lá morrera.
—Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se para Carlos.
—Deliciosa.
E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeição. Com um olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de cães, lhe estava fallando da
Sociedade protectora dos animaes
. O snr. Sousa Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle, não seria mesmo de mais que o governo lhe désse um subsidio.
—Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, á imitação do que se faz lá fóra, como a
Sociedade de Geographia
e outras, a
Protectora dos animaes
parece-me decerto uma das mais uteis.
Voltou-se para o lado, para o Ega:
—V. exc.
a
pertence?
—Á
Sociedade protectora dos animaes
?... Não senhor, pertenço a outra, á de
Geographia
. Sou dos protegidos.
A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se extremamente sério: pertencia á
Sociedade de Geographia
, considerava-a um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilisadora, detestava aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:—e de repente a frialdade que até ahi os conservára ao lado um do outro reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma côrzinha no rosto. O seu pé, sem ella saber como, roçou pelo pé de Carlos; sorriram ainda outra vez;—e, como no resto da mesa se conversava sobre uns concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, com uma reprehensão amavel:
—Que tolice foi essa da
brazileira
?... Quem lhe disse isso?
Ella confessou-lhe logo que fôra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhãs inteiras que lá passava, todos os dias, á mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe claramente entrevêr uma
liaison
.
Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
—É perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem brazileira é, que é tão portugueza como eu; mas é porque ella tem a governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa. Foi até o Damaso, elle proprio, que lá me levou como medico!
No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dôce allivio que se fazia no seu coração.
—Mas o Damaso disse-me que era tão linda!...
Sim, era muito linda. E então? Um medico, por fidelidade ás suas affeições, e para as não inquietar, não podia realmente, antes de penetrar nacasa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
—Mas que está ella cá a fazer?...
—Está á espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... É uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vão-se brevemente embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas são de medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, sobre as suas impressões de Portugal...
A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pé apertava o de Carlos n'uma reconciliação apaixonada, com a força que desejaria pôr n'um abraço—se alli lh'o podesse dar.
A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeçára a fallar da Russia. O que a assustava é que o paiz era tão caro, corriam-se tantos perigos por causa da dynamite, e uma constituição fraca devia soffrer muito com a neve nas ruas. E foi então que Carlos percebeu que ella era a esposa de Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico, despachado segundo secretario para a legação de S. Petersburgo.
—O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz do leque. É um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto não é peor que os outros... Que a quantidade de mônos, de semsaborões e de tolos que nos representam lá fóra até faz chorar... Pois o menino não acha? Isto é um paiz desgraçado.
—Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto é um paiz
cursi
.
Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu sorriso cansado; a senhora de escarlate calára-se, já preparada, tendo mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento em que o Ega, ainda ácerca da Russia, acabava de contar uma historia ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...
—Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o conde, já de pé.
Os homens, sós, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café. Então o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mão, aproximou-se de Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu conhecimento...
—Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.
a
... Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Começava eu então a minha carreira publica... E o avô de v. exc.
a
, bom?
—Muito agradecido a v. exc.
a
—Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.
a
era... Emfim, era o que se chama «um elegante». Tive tambem o prazer de conhecer a mãi de v. exc.
a
...
E de repente calou-se, embaraçado, levando a chavena aos labios. Depois, lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretária da legação da Russia, com quem elle encontrára n'essa manhã o conde conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucção. Isso, segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia que não gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era junto do berço, não na bibliotheca...
—No emtanto é agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se publica um livro... Emfim, não direi quando se trata d'um Guizot, ou d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet, d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Netto?
Netto, grave, murmurou:
—Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas prendas...
Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr. Zola, é um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
—V. exc.
a
decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?
—Não me recordo textualmente, mas...
—Em todo o caso v. exc.
a
conhece perfeitamente o seu Proudhon?
O outro, muito seccamente, não gostando decerto d'aquelle interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
—V. exc.
a
leu evidentemente, como nós todos, as grandes paginas de Proudhon sobre o amor?
O snr. Netto, já vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser sarcastico, esmagar aquelle moço, tão litterario, tão audaz.
—Não sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!
Ega atirou os braços ao ar, consternado:
—Oh snr. Sousa Netto! Então v. exc.
a
, um chefe de familia, acha o amor um assumpto escabroso?!
O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto da sua consideravel posição burocratica:
—É meu costume, snr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar todas as opiniões alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se fixava algum tempo mais em Portugal. Então, durante um momento, acabando os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os seus muitos deveres não lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fôra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupações publicas, via-se forçado a não deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer Badajoz...
—E v. exc.
a
de que gostou mais, de Paris ou de Londres?
Carlos realmente não sabia, nem se podia comparar... Duas cidades tão differentes, duas civilisações tão originaes...
—Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvão...
Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvão, sobretudo nos fogões, quando havia frio...
O snr. Sousa Netto murmurou:
—E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima tão ao norte!...
Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez esta observação sagaz e profunda:
—Povo pratico, povo essencialmente pratico.
—Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
—E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse, cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por lá, em Inglaterra, d'esta litteratura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?...
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:
—Não, não ha d'isso.
—Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirée de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A senhora d'escarlate, no sofá ao lado, com os braços cahidos no regaço, pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaço. D. Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma
Illustração
; e vendo que Carlos ao entrar procurára com o olhar a condessa, chamou-o, disse-lhe baixo que ella fôra dentro vêr Charlie, o pequeno...
—É verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que é feito d'elle, d'esse lindo Charlie?
—Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
—A snr.
a
D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.
—É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento vêm só das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a proposito d'outras coisas: então a Cohen tambem chegou?