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Os Maias

Volume 2 — OS MAIAS (continued 2)

Reading edition

—Chegou, disse Carlos, mas não

tambem

. O

tambem

implica combinação... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De resto isso é historia antiga, é como os amores de Helena e de Páris.

N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de não ter achado Charlie bem... Estava tão quente, tão inquieto... Tinha quasi medo que fosse sarampo.—E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:

—Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o incommodo de o vir vêr um instante... É odioso, realmente, pedir-lhe logo depois de jantar para examinar um doente...

—Oh senhora condessa! exclamou elle, já de pé.

Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto, enterrados n'um sofá, conversavam fumando.

—Levo o snr. Carlos da Maia para vêr o pequeno...

O conde erguera-se um pouco do sofá, sem comprehender bem. Já ella passára. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sêda preta através do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado, por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraçada, e uma escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda côr de rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braços ao pescoço de Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sôfrego, penetrante, completo, findando n'um soluço de desmaio... Elle sentia aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os joelhos sem força.

—Ámanhã, em casa da titi, ás onze, murmurou ella quando pôde fallar.

—Pois sim.

Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera côr de cêra. Depois, cansada e sorrindo:

—Que doida que eu sou... Vamos vêr Charlie.

O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a commoda, disse, sorrindo tranquillamente:

—O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...

Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis. Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse ao marido:

—O pequeno está a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.

O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pé, a deixar-se serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr. Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra, desde a Universidade, não pegára n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou o conde de Steinbroken. Então o resto da noite passou-se no salão, em redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama tocou

fados

.

Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um

brandy and soda

, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pôde emfim soltar a pergunta que lhe faiscára nos labios toda a noite:

—Ó Ega, quem é aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em Inglaterra havia tambem litteratura?

Ega olhou-o com espanto:

—Pois não adivinhaste? Não deduziste logo? Não viste immediatamente quem n'este paiz é capaz de fazer essa pergunta?

—Não sei... Ha tanta gente capaz...

E o Ega radiante:

—Official superior d'uma grande repartição do Estado!

—De qual?

—Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instrucção publica!

Na tarde seguinte, ás cinco horas, Carlos, que se demorára de mais em casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez voar o coupé até á rua de S. Francisco, olhandoa cada momento o relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle lindo dia de verão, luminoso e sem calor. Com effeito á porta d'ella estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que assim se deixára retomar por aquelles braços exigentes, cada vez mais pesados, e já incapazes de o commover...

—A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltára da terra havia tres dias, e ainda não cessára de lhe sorrir.

Sentada no sofá, de chapéo, tirando as

luvas

, ella acolheu-o com uma dôce côr no rosto, e uma carinhosa reprehensão:

—Estive á espera mais de meia hora antes de sahir... É uma ingratidão! Imaginei que nos tinha abandonado!

—Porquê? Está peor, miss Sarah?

Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia seguindo perfeitamente na sua convalescença... Mas agora já não eram as visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe faltado.

Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratidão infinita do seu coração, que não ousava mostrar á mãe, pôl-a toda na longa caricia em que envolveu a filha.

—São historias que a mamã agora comprou, dizia Rosa, séria e presa ao seu livro. Hei de t'as contar depois... São historias de bichos.

Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéo.

—Quer tomar uma chavena de chá comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha morrendo por uma chavena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa, fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapéo...

Carlos, só com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro, tomando-lhe ambas as mãos.

—Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mamã não se queria demorar, porque tu podias ter vindo!

Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãosinhas de Rosa.

—E então que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.

—Andei a correr, havia uns patinhos novos...

—Bonitos?...

A pequena encolheu os hombros:

—Chinfrinzitos.

Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia?

Rosa sorriu. Fôra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma

gaja

... O Domingos tinha muita graça.

Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos, não devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rôta.

—O Domingos não anda rôto, disse Rosa muito séria.

E subitamente, com outra idéa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os joelhos, radiante:

—E trouxe-me uns grillos da Praça! O Domingos trouxe-me uns grillos... Se tu soubesses!

Niniche

tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? Eu nunca vi ninguem mais medrosa...

Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:

—É a mamã que lhe dá tanto mimo. É uma pena!

Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem é que ella estragava com mimo...

Niniche

? Pobre

Niniche

, coitada, ainda essa manhã fôra castigada!

Então Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mãos:

—Sabes como a mamã a castiga? exclamava ella, puxando a manga de Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez:

Bad dog! dreadful dog!

Era encantadora assim, imitando a voz severa da mamã, com o dedinho erguido, a ameaçar

Niniche

. A pobre

Niniche

, imaginando com effeito que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sofá. E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de tigre, jurando-lhe, por entre abraços, que ella nem era mau cão, nem feio cão; fôra só para contar como fazia a mamã...

—Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sêde, disse então Maria Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que nos traga o chá.

Rosa e

Niniche

partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, apenas houvesse significação n'uma certa palavra de que os seus labios estavam cheios e que não ousavam murmurar, que quasi receava que fosse adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coração.

—Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, impaciente de a vêr, tão serena, a occupar-se das suas lãs.

Com a talagarça desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer os olhos:

—E para que se ha de acabar? O grande prazer é andal-o a fazer, pois não acha? Uma malha hoje, outra malha ámanhã, torna-se assim uma companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?

Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve ácerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allusão ao seu amor,—esse amor que lhe fôra enchendo o coração á maneira que a lã cobria aquella talagarça, e que era obra simultanea das mesmas brancas mãos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da costura, para ser o desafogo da sua solidão?

Disse-lhe então, commovido:

—Não é assim. Ha coisas que só existem quando se completam, e que só então dão a felicidade que se procurava n'ellas.

—É muito complicado isso, murmurou ella, córando. É muito subtil...

—Quer que lh'o diga mais claramente?

N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava alli o snr. Damaso...

Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:

—Diga que não recebo!

Fóra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o seu coupé. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.

—Ahi está outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, é demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi todos os dias este assalto á minha porta! É intoleravel.

E com uma subita idéa, atirando o bordado para o açafate, cruzando as mãos sobre os joelhos:

—Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse passar os mezes de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço ninguem, não sei a quem me hei de dirigir...

Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes—como já n'outra occasião em que ella mostrára desejos d'ir para o campo. Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltára a fallar, e mais decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas collecções. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o, irresistivel.

—Eu sei com effeito d'uma casa... E tão bem situada, que lhe convinha tanto!...

—Que se aluga?

Carlos não hesitou:

—Sim, é possivel arranjar-se...

—Isso era um encanto!

Ella tinha dito—«era um encanto». E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperança, e não lh'a realisar com fervor.

O Domingos entrára com o taboleiro do chá. E emquanto o collocava sobre uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pé da janella, Carlos, erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em começar immediatamente negociações com o Craft, comprar-lhe as collecções, alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os mezes de verão. E não considerava, n'esse instante, nem as difficuldades, nem o dinheiro. Via só a alegria d'ella passeando com a pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascença, severos e nobres!

—Muito assucar? perguntou ella.

—Não... Perfeitamente, basta.

Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico serviço que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e côr de fogo. Pobre senhora! tão delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a graça das suas mãos nas coisas reles da mãi Cruges!

—E onde é essa casa? perguntou Maria Eduarda.

—Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se lá n'uma hora de carruagem...

Explicou-lhe detalhadamente o sitio,—acrescentando, com os olhos n'ella, e com um sorriso inquieto:

—Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fôr para lá installar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a vêr?

Ella pareceu surprehendida:

—Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que não tem quasi nada que fazer?...

Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto d'esta intimidade, tão largamente offerecida, e decerto mais dôce na solidão d'aldêa. Quando acabou a sua chavena de chá—era como se a casa, os moveis, as arvores fossem já seus, fossem já d'ella. E teve alli um momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas abrindo sobre o rio...

Ella escutava-o, encantada:

—Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia d'esperanças... Quando poderei ter uma resposta?

Carlos olhou o relogio. Era já tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na manhã seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...

—Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei de eu agradecer?...

Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ella retinha no seu coração.

Elle murmurou:

—Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.

Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.

—Não diga isso...

—E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!

Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:—e assim ficaram, mudos, cheios d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mãos inquietas e tremulas:

—Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...

Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutára, nem a comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido até ahi no seu coração irrompera por fim, triumphante, e embatendo no coração d'ella, através do apparente marmore do seu peito, fizera de lá resaltar uma chamma igual... Só via que ella tremia, só via que ella o amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe lentamente as mãos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, já sem força, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os dedos, devagar, murmurando apenas:

—Meu amor! meu amor! meu amor!

Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as mãos, erguendo para elle os olhos cheios de paixão, ennevoados de lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicação:

—Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...

Carlos estava já ajoelhado aos seus pés.

—Eu sei o que é! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a deixar fallar mais, certo de que adivinhára o seu pensamento. Escusa de dizer, sei perfeitamente. É o que eu tenho pensado tantas vezes! É que um amor como o nosso não póde viver nas condições em que vivem outros amores vulgares... É que desde que eu lhe digo que a amo, é como se lhe pedisse para ser minha esposa diante de Deus...

Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se não comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mãos d'ella presas, penetrando-a toda da emoção que o fazia tremer:

—Sempre que pensava em si, era já com esta esperança d'uma existencia toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... Levamos Rosa, está claro, sei que não se póde separar d'ella... E assim viveriamos sós, todos tres, n'um encanto!

—Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.

Carlos erguera-se.

—E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso amor?

Maria não respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera. E pouco a pouco uma idéa parecia surgir n'ella, inesperada e perturbadora, revolvendo todo o seu sêr. Os seus olhos alargavam-se, anciosos e refulgentes.

Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do chá: e durante um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sêres, sacudidos por um ardente vendaval de paixão, a caseira passagem d'um criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente, refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a vidraça. Carlos foi sentar-se no sofá, a folhear ao acaso uma

Illustração

, que lhe tremia nas mãos. E não pensava em nada, nem sabia onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com ella, dizia ceremoniosamente «minha cara senhora»: depois houvera um olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornára-se o cuidado supremo da sua vida, e a esposa secreta do seu coração.

—V. exc.

a

quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.

Maria Eduarda respondeu sem se voltar:

—Não.

O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella então atravessou a sala, veio para Carlos, que a esperava no sofá, com os braços estendidos. E era como se obedecesse só ao impulso da sua ternura, calmadas já todas as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixão, tão prompta a apoderar-se de todo o seu sêr, e murmurou, quasi triste:

—Mas conhece-me tão pouco!... Conhece-me tão pouco, para irmos assim ambos, quebrando por tudo, crear um destino que é irreparavel...

Carlos tomou-lhe as mãos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:

—O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na vida!

Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um longo suspiro.

—Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria dizer, mas não importa... É melhor assim!...

E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica solução digna, séria... E nada os podia embaraçar; amavam-se, confiavam absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...

E ella repetia, mais firme agora, já decidida, e como se aquella resolução a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, penetrando-a toda e para sempre:

—Pois seja assim! É melhor assim!

Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.

—Dize-me ao menos que és feliz, murmurou Carlos.

Ella lançou-lhe os braços ao pescoço: e os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:

—Adeus, deixa-me só, vai.

Elle tomou o chapéo, e sahiu.

No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete, passeava na quinta antes d'almoço—quando appareceu Carlos. Apertaram as mãos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o horisonte, perguntou rindo:

—Você quer-me vender tudo isto, Craft?

O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibeiras:

—A la disposicion de ustêd...

E alli mesmo concluiram a negociação, passeando n'uma ruasinha de buxo por entre os geranios em flôr.

Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas mil e quinhentas libras, pagas em prestações: só reservava algumas raras peças do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecção que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos não tinha no Ramalhete lugar para este vasto

bric-à-brac

, Craft alugava-lhe por um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.

Depois foram almoçar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza que fazia, só para offerecer uma residencia de verão, por dois curtos mezes—a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, já com olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de gosto.

Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu á rua de S. Francisco, a annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjára emfim definitivamente uma linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com ella ao collo, em triumpho. E não se conteve; foi á pequena que deu logo «a grande novidade», annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma cabra, e flôres, e arvores para se balouçar...

—Onde é? Dize, onde é? exclamava Rosa, com os lindos olhos resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.

—D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vêem-se passar os barcos no rio... E entra-se por um grande portão onde ha um cão de fila.

Maria Eduarda appareceu, com

Niniche

ao collo.

—Mamã, mamã! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouço... É verdade? Dize, deixa vêr, onde é? Dize... E vamos já para lá?

Maria e Carlos apertaram a mão, com um longo olhar, sem uma palavra. E logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, já, n'uma semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...

Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.

—Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...

—Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! É tal qual como n'um conto de fadas... As luzes estão accêsas, as jarras estão cheias de flôres... É só tomar uma carruagem e chegar.

—Sómente, é necessario saber o que esse paraiso me vae custar...

Carlos fez-se vermelho. Não previra que se fallasse em dinheiro—e que ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Então preferiu confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava desejando desfazer-se das suas collecções, e alugar a quinta: o avô e elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e das faienças, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de verão, uma residencia tão graciosa, e tão confortavel...

—Rosa, vai lá para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de silencio... Miss Sarah está á tua espera.

Depois, olhando para Carlos, muito séria:

—De sorte que, se eu não mostrasse desejos de ir para o campo, não tinha feito essa despeza...

—Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para metter as coisas do Craft? O que não fazia talvez era comprar conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos criados, etc....

E acrescentou, rindo:

—Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...

Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.

—Em todo o caso seu avô e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para que eu lá me installasse...

Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E isto inquietou-o—o vêl-a assim retrahir-se áquella absoluta communhão d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coração.

—Não approva então o que fiz? Seja franca...

—Decerto... Como não hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto vem de si? Mas...

Elle acudiu, apoderando-se das suas mãos, sentindo-se triumphar:

—Não ha

mas

! O avô e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, se fosse possivel que a nossa affeição se passasse fóra do mundo, distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria delicioso... Mas não póde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma coisa; quando não seja senão o cocheiro que me leva todos os dias a sua casa, quando não seja senão o criado que me abre todos os dias a sua porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os tornava invisiveis. Nós não somos deuses, felizmente...

Ella sorriu.

—Quantas palavras para converter uma convertida!

E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.

Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecções do Craft. «É um valor, disse elle ao Villaça, e acabamos d'encher com boa arte Santa-Olavia e o Ramalhete.»

Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em «desvario»,—despeitado por essa transacção secreta para que não fôra consultado. O que o irritava sobretudo era vêr, n'esta acquisição inesperada de uma casa de campo, outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de Carlos: e havia já duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos ainda não lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligação de rapazes em Coimbra, nos Paços de Cella, fôra elle o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal d'hotel, de que não mandasse ao Ega «um relatorio». O romance com a Gouvarinho, de que Carlos ao principio tentára, frouxamente, guardar um mysterio delicado, já o conhecia todo, já lêra as cartas da Gouvarinho, já passára pela casa da titi...

Mas do outro segredo não sabia nada—e considerava-se ultrajado. Via todas as manhãs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando flôres; via-o chegar de lá, como elle dizia, «besuntado d'extasi»; via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente amado... E não sabia nada.

Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a fallar de planos de verão, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas das preciosidades do Craft, o dôce socego da casa, a clara vista do Tejo... Aquillo realmente fôra obter por uma mão cheia de libras um pedaço do paraiso...

Era á noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeava com as mãos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente, farto d'aquelles louvores eternos á casinhola do Craft.

—Essa concepção do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoração, os velhos cretones do gabinete, desbotados já por tres barrelas... Um quarto de dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salão confuso como o armazem d'um cara-de-pau, e onde não é possivel conversar... A não ser o armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo é um lixo archeologico... Jesus! o que eu odeio

bric-à-brac

!

Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como reflectindo:

—Com effeito esses cretones são medonhos... Mas eu vou mandar remobilar, tornar aquillo mais habitavel.

Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.

—Habitavel? Vaes ter hospedes?

—Vou alugar.

—Vaes alugar! A quem?

E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi até ao chão, disse sarcasticamente:

—Peço perdão. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio é sempre um d'esses delicados segredos de sentimento e de honra em que não deve roçar nem a aza da imaginação... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!

Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega—e quasi sentia um remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas as suas outras aventuras as contára ao Ega; e essas confidencias constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, porém, não era «uma aventura». Ao seu amor misturava-se alguma coisa de religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre a sua fé... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentação de fallar d'

ella

ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas divinas e confusas que lhe enchiam o coração. Além d'isso, Ega não saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra cigarrette. Justamente o Ega tomára o seu castiçal, e começava a accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.

—Não sejas tolo, não te vás deitar, senta-te ahi, disse Carlos.

E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, á entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.

Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Suppuzera um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: e agora, só pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. Imaginára uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sofá, obedecia simplesmente e alegremente á disposição das coisas: e sahia-lhe uma creatura cheia de caracter, cheia de paixão, capaz de sacrificios, capaz de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o bom Ega teve esta pergunta chôcha:

—Então estás decidido a safar-te com ella?

—A

safar-me

, não; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!

Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno prodigioso, e murmurou:

—É d'arromba!

Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez, Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam nunca uma d'essas situações atrozes e reles em que a mulher é do amante e do marido, a horas diversas... Só lhes restava uma solução digna, decente, séria—fugir.

Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:

—Para o marido é que não é talvez divertido perder assim, de uma vez, a mulher, a filha, e a cadellinha...

Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle já pensára n'isso... E não sentia remorsos—mesmo quando os podesse haver no absoluto egoismo da paixão... Elle não conhecia intimamente Castro Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes não era um esposo a sério: era um dandy, um futil, um

gommeux

, um homem de sport e de cocottes... Casára com uma mulher bella, saciára a paixão, e recomeçára a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar para elle, para a sua toilette, para os seus modos—e comprehendia-se logo a trivialidade d'aquelle caracter...

—Que tal é, como homem? perguntou Ega.

—Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um

rastaquouère

, o verdadeiro typosinho do

Café de la Paix

... É possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na vaidade ferida... Mas é um coração que se ha de consolar facilmente nas

Folies Bergères

.

Ega não dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel nas

Folies Bergères

, póde não se importar muito com sua mulher, mas póde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra idéa, acrescentou:

—E teu avô?

Carlos encolheu os hombros:

—O avô tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente feliz; como eu teria de ser desgraçado toda a minha vida se quizesse poupar ao avô essa contrariedade... O mundo é assim, Ega... E eu, n'esse ponto, não estou decidido a fazer sacrificios.

Ega esfregou lentamente as mãos, com os olhos no chão, repetindo a mesma palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas coisas vehementes:

—É d'arromba!

III

Carlos, que almoçára cedo, estava para sahir no coupé, e já de chapéo—quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficára a fazer a barba.

Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava d'ella raramente. Mas Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhãs o pobre Ega mostrava um desapontamento ao receber o correio, que só lhe trazia algum jornal cintado, ou cartas de Celorico. Á noite percorria dois, tres theatros, já quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher era outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam, comcerteza, que não viera carta alguma para s. exc.

a

Decerto Ega não se resignava a perder Rachel, anciava por a encontrar; e roía-o o despeito de que ella, de qualquer modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração permanecia ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega apparecera á hora do jantar, transtornado: cruzára-se com o Cohen na rua do Ouro, e parecera-lhe que «esse canalha» lhe atirára de lado um olhar atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha» ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente, a uma esquina da Baixa.

Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a

Revista dos Dois Mundos

, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos acabava de a lêr—quando o Ega appareceu, de jaquetão, e em chinelas.

—Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.

—Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.

A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltára ao

rendez-vous

em casa da titi, sem lhe ter sequer escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e vinha agora intimal-o, «em nome de todos os sacrificios que por elle fizera», a que apparecesse na rua de S. Marçal, domingo ao meio dia, para terem uma explicação definitiva antes d'ella partir para Cintra.

—Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não vás, nem respondas... Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, não vos vêdes mais, e assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o Imperio Romano, e como o Rheno, por dispersão, insensivelmente...

—É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a calçar as luvas. Jesus! Que mulher massadora!

—E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...» Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá de extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo céo, delira, e depois põe dolorosamente os olhos no chão, e chama a isso «sacrificios...» Só com um chicote!...

Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se nas condessas de Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia e dólo.

—E que é isso que tu me tinhas a dizer?

Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.

—Tu não tens visto o Damaso?

—Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado... Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos...

—Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte, fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te

pulha

, a ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou, que te metteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ella lhe passou o pé... Vês d'ahi a infamiasinha. E isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe pôr cobro.

Carlos, muito pallido, disse simplesmente:

—Ha de se fazer justiça.

Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre «dinheiro» parecia-lhe poder ser castigada só com a morte. E um instante mesmo, com a mão no fecho da portinhola do coupé, pensou em correr a casa do Damaso, tomar um desforço brutal.

Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração, Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára combinado, na vespera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós, n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo e naturalmente. N'essa manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para arejar as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá, como um devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era através d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do Damaso!

Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não haveria paz, emquanto aquelle villão o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que elle não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...

Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisára a linda rua d'acacias que os pés d'ella pisariam na manhã seguinte: dera um longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alçado sobre um estrado, envolto em cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor sério d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão os seus amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa; e d'ahi a tres mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um claro lago, entre as flôres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calão nos bilhares do Gremio! Quando chegou á rua de S. Francisco resolvera, se visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.

Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em que lhe pedia para vir á noite

faire un bout de causerie

. Carlos desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão, no momento em que o Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.

Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com effusão o seu Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrára do rico dia passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza. Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão erudito e tão profundo, apesar da excellente musica da mulher, da Julinha (que para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão de velhice...

—Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o teu ar aureolado.

O poeta encolheu os hombros.

—O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia que o diz...? Não; é S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade não faz ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo é um valle de lagrimas...

—Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.

O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle dissera isso mesmo em casa dos Cohens...

E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço de Carlos:

—E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle, apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois do que houve!...

Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo da chegada, horas depois, soubera pela

Gazeta Illustrada

a vinda dos Cohens... E de resto se não podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades humanas tinham de se desfazer...

Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeça baixa. Depois parou de novo, franzindo a testa:

—Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá em casa dos Cohens, elle veio com uns ditos, umas insinuações... Eu declarei-lhe logo: «Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, é como se fosse meu irmão.» E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que eu n'estas coisas de lealdade e de coração sou uma fera!

Carlos disse simplesmente:

—Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.

—Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço de Carlos, lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá um coisita que me não sahiu má, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho de Cintra ao pôr do sol. Quiz provar ahi a esses da Idéa Nova, que, sendo necessario, tambem por cá se sabe cinzelar o verso moderno e dar o traço realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa chama-se—

Na estrada dos Capuchos

...

Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já de leve, antes de recitar,—quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo, vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquetão de flanella azul.

Alencar e elle não se encontravam desde a fatal soirée dos Cohens. E ao passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo n'elle o inventor d'essa perfida lenda da «carta obscena»—Alencar odiava-o pela certeza secreta de que elle fôra o amante amado da sua divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mão que deram foi incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi elle que fallou, por entre uma fumaça, affectando uma superioridade amavel:

—Acho-te com boa côr, Alencar!

O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:

—Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas

Memorias

, homem?

—Estou á espera que o paiz aprenda a lêr.

—Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle occupa-se da Instrucção publica... Olha, alli o tens tu, grave e ôco como uma columna do

Diario do Governo

...

O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado d'elles, de chapéo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus dominios. Já aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve, atravessou a rua.

Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:

—Ouve lá. Se continúas a fallar de mim e de pessoas das minhas relações, do modo como tens fallado, e que não me convém, arranco-te as orelhas.

O conde acudiu, mettendo-se entre elles:

—Maia, por quem é! Aqui no Chiado...

—Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito sereno. É apenas um aviso a este imbecil.

—Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Damaso, livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.

E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.

Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgára vêr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocação intoleravel. Só o Alencar não reparára em nada: continuava a discursar sobre coisas litterarias, explicando ao Ega as concessões que se podiam fazer ao naturalismo...

—Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se trata de paizagem é necessario copiar a realidade... Não se pode descrever um castanheiro

a priori

, como se descreveria uma alma... E lá isso faço eu... Ahi está esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É realista, está claro queé realista... Pudéra, se é paizagem! Ora eu vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas vejam lá vocês se isto os massa...

Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr do sol: uma ingleza, de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das madresilvas; então a ingleza pára, deixa o burrinho, olha enlevada o céo, os arvoredos, a paz das casas;—e ahi, no ultimo terceto, vinha «a nota realista» de que se ufanava o Alencar:

Ella olha a flôr dormente, a nuvem casta, Emquanto o fumo dos casaes se eleva E ao lado o burro, pensativo, pasta.

—Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista...

Ao lado o burro, pensativo, pasta

... Eis ahi a realidade, está-se a vêr o burro pensativo... Não ha nada mais pensativo que um burro... E são estas pequeninas coisas da natureza que é necessario observar... Já vêem vocês que se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... Vocês que lhes parece o sonetito?

Ambos o elogiaram profundamente—Carlos arrependido de não ter completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, só, de noite, na pôpa do seu galeão, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre soluços. Alencar achava isto sublime.

Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco—quando o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianças hollandezas.

—Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vêr tudo isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma missão... Você não adivinha?

Carlos não adivinhava.

E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um sorriso:

—Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você hoje, n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender. É só isto... A minha missão é apenas esta: perguntar-lhe se você tinha intenção de o offender.

Carlos olhou-o, muito sério:

—O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso quando o ameacei de lhe arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar as orelhas!

Telles da Gama saudou, rasgadamente:

—Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não tinha senão essa intenção. Em todo o caso, desde este momento, a minha missão está finda... Como você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande, majolica?

—Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É Thetis conduzindo as armas d'Achilles... É esplendido; e é muito raro... Veja você esse Deft, com as duas tulipas amarellas... É um encanto!

Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando o chapéo de sobre o sofá.

—Lindissimo tudo isto!... Então só intenção de lhe arrancar as orelhas? nenhuma de o offender?...

—Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume você um charuto.

—Não, obrigado...

—Calice de cognac?

—Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu bom Maia!

—Adeus, meu bom Telles...

Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava do coupé, com um mólho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria Eduarda devia chegar ás dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O hortelão, dispensado por dois dias, fôra a Villa Franca; não havia ainda criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa, em que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.

Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho de Craft, e que elle mobilára á japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre tres degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos.

Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas: e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo á sala de jantar, a verificar se, na mesa posta para o

lunch

, se conservavam ainda viçosas as flôres que lá deixára na vespera. Depois voltou ao coupé a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só passando uma saloia montada na sua egua.

Mas apenas accommodára o gelo—sentiu fóra o ruido lento da carruagem. Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-véo espesso como uma mascara. Os seus pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:

—

Êtes-vous là?

Appareceu—e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.

—Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.

—Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.

Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaço delicioso, deixando calmar o alvoroço do seu coração.

—É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia ella olhando lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com um tapete de Brousse, a estante envidraçada cheia de livros. Vou ficar aqui adoravelmente...

—Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão...

Maria Eduarda começou a tirar o véo, depois as luvas, fallando da estrada. Achára-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!

Atirou o chapéo para cima do divan—ergueu-se, toda alegre e luminosa.

—Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas do seu amigo Craft!... É Craft que se chama?

Craft

quer dizer industria!

—Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo e supplicante.

Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços.

E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de quinta que a separavam do resto do mundo...

Ella deixava-se beijar, séria e grave:

—E é verdade isso? É realmente verdade?...

Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:

—Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que não duvide de mim...

Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.

—Vamos vêr a casa, disse ella.

Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam sobre o rio e sobre os campos.

—Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está visto, entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui esplendidamente. Não lhe parece?

E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação dos armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta, cuidadosa, toda no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma alteração. E era realmente como se aquelle homem que a seguia, enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.

—O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle enorme leito de pau preto...

—Muda-se!

—Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ás horas do calor... Se não houvesse o tabique entre os dois quartos pequenos...

—Deita-se abaixo!

Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e ella não recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.

Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé de carvalho lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas duas negras figuras de Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda começou a achar o gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua excentricidade...

—Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se á janella.

Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal aparada, um pouco amarellada já pelo calor de julho; e entre duas grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da sésta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos cerrados parecia fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia, com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fabrica; e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol, até ás montanhas d'além-Tejo, azuladas tambem na faiscação clara do céo de verão.

—Isto é encantador! repetia ella.

—É um paraiso! Pois não lhe dizia eu? É necessario pôr um nome a esta casa... Como se ha de chamar?

Villa-Marie?

Não.

Château-Rose

... Tambem não, crédo! Parece o nome d'um vinho. O melhor é baptisal-a definitivamente com o nome que nós lhe davamos. Nós chamavamos-lhe a

Tóca

.

Maria Eduarda achou originalissimo o nome de

Tóca

. Devia-se até pintar em letras vermelhas sobre o portão.

—Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco:

Não me mexam!

Mas ella parára, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta, cheia de fruta, com as duas cadeiras já chegadas, e os crystaes brilhando entre as flôres.

—São as bodas de Canná!

Os olhos de Carlos resplandeceram.

—São as nossas!

Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um morango, depois a escolher uma rosa.

—Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Nós temos gelo, temos tudo! Não nos falta nada, nem a benção de Deus... Uma gotinha de champagne, vá!

Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se encontraram, apaixonadamente.

Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A cozinha agradou-lhe muito, arranjada á ingleza, toda em azulejos. No corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sêda vermelha, conservando nas suas pregas uma graça ligeira, e ao lado o cartaz amarello

de la corrida

, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como um quente lampejo de festa e de sol peninsular...

Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar, desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova, recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeçarias, onde desmaiavam na trama de lã os amores de Venus e Marte: da porta de communicação, arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascença, de ferro forjado: e, áquella hora, batida por uma larga facha de sol, a alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e tectos, de um brocado amarello, côr de botão d'ouro; um tapete de velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que poderiam correr nús os pés ardentes d'uma deusa amorosa—e o leito de docel, alçado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello bordada a flôres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas de velho brocatel,—enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão tragica do tempo de Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenço de sêda da India amarrado na cabeça, resonava as suas sete horas, pacata e solitariamente.

Mas Maria Eduarda não gostou d'estes amarellos excessivos. Depois impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em negro do fundo de todo aquelle ouro—onde apenas se distinguia uma cabeça degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves.

Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um setim côr de rosa e risonho.

—Não, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Sómente aquelle quadro, com a cabeça, e com o sangue... Jesus, que horror!

—Reparando bem, disse Carlos, creio que é o nosso velho amigo S. João Baptista.

Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão nobre, onde Craft concentrára as suas preciosidades. Maria Eduarda, porém, ainda descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.

—É para vêr de pé, e de passagem... Não se póde ficar aqui sentado, a conversar.

—Mas esta é materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o armario, veja que centro! Que belleza!

Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel divino» do Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peça superior era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, João, Marcos, Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um trophéo agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos, recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.

—Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um poema da Renascença, Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se póde metter dentro d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, como n'um altar-mór.

Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um luxo morto: finos moveis da Renascença italiana, exilados dos seus palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcorão, desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de um leque aberto...

Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV, ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma d'empoado.

Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?

—Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...

—Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo!

Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flôr de côr viva: e aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa, com transparencias fugitivas de concha na agua...

—Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é necessario saudar o genio tutelar da casa!

Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um deus bestial, nú, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo—e as duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...

—E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe riquezas, morrer por elle...

—O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é verdade?

—Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si...

Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.

Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois brincando, colheu uma margarida, para a interrogar:

Elle m'aime, un peu, beaucoup

... Ella arrancou-lh'a das mãos.

—Para que precisa perguntar ás flôres?

—Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero que m'o diga...

Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando:

—Ainda não vimos a saleta de banho...

Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem, como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.

—Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.

Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre asarvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...

Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo.

Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de persuadir Ega a ir tambem, com Carlos—quando Carlos acabasse emfim de reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do labor...» Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e a realisação do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes para perfumar o altar da Justiça...

—E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo com malicia.

Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...

—O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito

pic-nic

, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo não ha sociedade.

—Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se admitte...

Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que já duas vezes, dirigindo-se aelle, encontrára a mesma abstracção radiosa, impacientou-se:

—Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o Santissimo!

Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.

Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.

—Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me... Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez?

—Vá lá, homem. Se isso o resuscita...

Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como recordando-se, perguntou sem rebuço ao Ega noticias dos Cohens. Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flôr de lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findára, e agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...

—Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen duas vezes...

—Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega.

—No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta semana. E lá estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio sentar-se um bocado ao pé de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de lá, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... Não havia que duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen é um predestinado.

Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:

—O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, não duvido... São dignos um do outro.

No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente, elle não cessou de passear, n'uma agitação, trincando o charuto apagado. De repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes:

—Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa torpe filha d'Israel?

—Terça-feira, creio eu.

O Ega recomeçou a passear, sombrio.

N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar, chamou Carlos em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.

—É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que está alli uma senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar.

—Que senhora?

Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava para elle, aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove da noite, ao Ramalhete!

Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e assim mesmo, de casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenço a poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupé, parado á porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso, aterrador...

Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou:

—É só um instante! Quero-lhe fallar!

Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi brutal.

—Que diabo de tolice é esta? Que quer?

Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada; e não se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia tranquillamente na fivela d'um tirante.

—De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É só um instante, entre, tenho de lhe fallar!...

Carlos saltou para dentro, furioso:

—Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!

O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas palavras, bruscas e colericas, através do barulho das vidraças.

—Que imprudencia! que tolice!...

—E de quem é a culpa? De quem é a culpa?

Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente no macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto?

—Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para não fazer caso das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma esmola!...

Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do coupé, sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração d'ella, tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada, immovel, n'um infinito mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de falúas. A parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se, profundas, mordentes, repassadas d'amargura.

—Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me responde... Quero ter uma explicação franca comsigo, não apparece... Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude, não pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz eu?

Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a fitar, murmurou, torturado:

—Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não são necessarias explicações.

—São! É necessario saber se isto é uma coisa passageira, um amuo, ou se é uma coisa definitiva, um rompimento!

Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára. Terminou por affirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre elevados, não cahiria agora na pieguice de ter um amuo...

—Então é um rompimento?...

—Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para sempre, não...

—Então é um amuo? Porquê?

Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.

—Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a coragem de dizer o que é!

Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade, continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.

—Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser alteradas...

E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.

—Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...

E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligação? Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que, envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na banalidade d'uma união quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra, n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a perceber a sua affeição. E havia por acaso nada mais horroroso, para quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o publico conhece, até os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação. Ella mesmo mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupção d'um habito dôce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir feliz. Fôrapor isso que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim deviam ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns mezes... Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietação, tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.

Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do coupé, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu véo, estava chorando baixo.

Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com um chôro lento, que parecia não dever findar. E Carlos só achava esta palavra banal e desenxabida:

—Que tolice, que tolice!

Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente entre as arvores. Ella continuava a chorar.

Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou a commovel-o; e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não reter essas lagrimas infindaveis que laceravam o seu coração... E elle que estava tão tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma deliciosa lassidão!

Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já impaciente.

—Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo isto é para seu bem...

Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente por entre os seus longos soluços... E de repente, n'um arranque de paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se a elle com desespero, esmagando-o contra o seu seio.

—Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu soubesses! És a unica felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, vida, honra, tudo! tudo!...

Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se, sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe para os joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um momento ficaram assim—Carlos immovel, ella cahida sobre elle e arquejando.

Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo á ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera á porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer, acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:

—Outra vez ao Aterro, anda sempre!...

A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais suavemente, desceram a rampa de Santos.

Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia só uma fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que ella o arrancára para o torturar com estas recriminações, estes ardores entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como tonta, pendurada do seu pescoço,—elle viu surgir n'alma, viva e resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla áquella hora na sua sala de reps vermelho, fazendo serão, confiando n'elle, pensando n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a

Toca

, cheia de seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve então horror á Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupé.

—Basta! Tudo isto é absurdo... As nossas relações estão acabadas, não temos mais nada que nos dizer!

Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braço.

—Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem lhe pague as modistas!...

Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na tipoia escura, onde já havia um vago cheiro de verbena, os olhos d'ambos, sem se vêrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu raivosamente no vidro. A tipoia não parou. E a Gouvarinho, do outro lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraça.

—É melhor que sáia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!

O calhambeque parou. Carlos pulou para fóra, fechou d'estalo a portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapéo, virou costas, abalou a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idéas de rancor, sob a paz da noite estrellada.

IV

Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, installára-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde fôra acompanhar o avô, com o Ega, dizia-lhe alegremente:

—Então aqui ficamos nós sós a torrar,

na cidade de marmore

e de lixo...

—Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar, por entre a poeirada de Cintra!

Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao anoitecer—Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito: «Baptista, vou pastar.»

A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: «Assaltou-me de repente, amigo, juntamente com um horror á caliça de Lisboa, uma saudade infinita da natureza e do verde. A porção d'animalidade que ainda resta no meu sêr civilisado e recivilisado precisa urgentemente d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balançada n'um ramo de castanheiro. O solícito Baptista que me remetta ámanhã pelo omnibus a mala com que eu não quiz sobrecarregar a tipoia do

Mulato

. Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado com o Absoluto no alto dos

Capuchos

, e vêr o que estão fazendo os myosotis junto á meiga

fonte dos Amores

...»

—Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o deixava o Ega.

E atirando a carta:

—Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos

Imperiales

. Manda-lhe antes dos

Flôr de Cuba

. Os

Imperiales

são um veneno. Esse animal nem fumar sabe!

Depois de jantar Carlos percorreu o

Figaro

, folheou um volume de Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou

malagueñas

no terrasso—e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao andar do Cruges. O menino Victorino não estava em casa...

Amaldiçoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao hombro, lendo os telegrammas. Não havia nada novo por essa velha Europa; apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price...

—Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens lá uma mulher bonita que se mette na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de bichos!... Que esta é difficil, traz um

chulo

... Mas eu já lhe escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina.

Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. Não tornára a ver essa flôr? Pois essa flôr andava apregoando por toda a parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo explicações humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha figura, interior, e natureza de pélla! Com quanto mais força se atirava ao chão, mais elle resaltava para o ar, triumphante!...

—Em todo o caso é uma rez traiçoeira, e deves ter cautela com elle...

Carlos encolheu os hombros, rindo.

Não, não, dizia o Taveira muito sério, eu conheço o meu Damaso. Quando foi da nossa péga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida... É capaz de tudo... Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas ameaças...

—Ameaças! Que disse elle?

—Diz que te dás ares de espadachim e de valentão, mas has de encontrar dentro em pouco quem te ensine... Que se está ahi preparando um escandalo monumental... Que se não admirará de te vêr brevemente com uma boa bala na cabeça...

—Uma bala?

—Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao Damaso e dizia-lhe: «Damasosinho, flôr, fique avisado que, d'ora em diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...»

Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, apinhava-se até ás ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros do palhaço, rebocado de cáio e vermelhão, que tocava nos pésinhos d'uma

voltigeuse

e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um gosto de mel... Descançando na sella larga de xairel dourado, a creatura, magrinha e séria, com flôres nas tranças, dava a volta devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado á mão por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e nescio acompanhava-a, com as mãos ambas apertadas ao coração, n'uma supplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada d'ouro, empurrava-o, n'um arremedo de ciumes; e o palhaço cahia, estatelado, com um estoiro de nadegas, entre os risos das crianças e os rantantans da charanga. O calor suffocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado, abalou.

—Espera ao menos para vêr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o Taveira.

—Não posso, cheira mal, morro!

Mas á porta, de repente, foi detido pelos braços abertos do Alencar, que chegava—com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vêr alli o de seu Carlos. Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira até nos papeis publicos...

—Não, disse Carlos, o avô é que foi hontem... Eu não me sinto ainda em disposição do ir communicar com a natureza...

Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo. Ao lado, grave, o ancião de barbas calçava as suas luvas pretas.

—Pois eu é o contrario! exclamava o poeta. Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana. Estão lá os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do Victor...

Os Cohens! Carlos comprehendeu então a fuga do Ega e a «sua saudade do verde.»

—Ouve lá, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita troça juntos... Não era nenhum personagem, era apenas um alquilador de cavallos... Mas tu sabes, cá em Portugal, sobretudo n'esses tempos, havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que diabo, tu deves conhecel-o! É o tio do Damaso!

Carlos não se recordava.

—O Guimarães, o que está em Paris!

—Ah, o communista!

—Sim, muito republicano, homem de idéas humanitarias, amigo do Gambetta, escreve no

Rappel

... Homem interessante!... Veio ahi por causa d'umas terras que herdou do irmão, d'esse outro tio do Damaso que morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos, beberam-se uns liquidos, e até estivemos a fallar de teu pai... Queres tu que eu t'o apresente?

Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasião mais intima, quando podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...

—Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a padraria... Espirito largo, espirito muito largo!

O poeta sacudiu ardentemente as duas mãos de Carlos. O snr. Guimarães ergueu de leve o seu chapéo, carregado de crepe.

Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presença d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas troças! E isto trazia conjuntamente outra idéa, que n'esses ultimos dias já o atravessára, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua radiante felicidade, um sombrio arripio de dôr... Carlos pensava no avô.

Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia, nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sêcca e pretenciosa, fallava «em apparecer por Lisboa, com as elegancias do frio, lá para meado de novembro»; e era necessario antes d'isso que estivessem já longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo isto era facil, considerado quasi legítimo pelo seu coração, e enchia a sua vida d'esplendor... Sómente havia n'isto um espinho—o avô!

Sim, o avô! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz que lhe tornava tão bella a velhice. Homem de outras eras, austero e puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram—o avô, n'esta franca, viril, rasgada solução d'um amor indominavel, só veria libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas, acima e fóra das ficções civis; e nunca comprehenderia essa subtil ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados, procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da paixão, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de sabão, contra as tres ou quatro idéas fundamentaes de Dever, de Justiça, de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que assentára a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o horror d'uma fatalidade! Já a mulher de seu filho fugira com um homem, deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem, arrebatando a familia d'outro:—e a historia da sua casa tornava-se assim uma repetição d'adulterios, de fugas, de dispersões, sob o bruto aguilhão da carne!... Depois as esperanças que Affonso fundára n'elle—consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser para sempre, na imaginação angustiada do avô, um foragido, um inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sólo, tendo abdicado toda a acção que o elevaria no seu paiz, vivendo por hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina... Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os derradeiros annos do pobre avô!... Mas, que podia elle fazer? Já o dissera ao Ega. A vida é assim! Elle não tinha o heroismo nem a santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do avô, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus, tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...

Chegára ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por alli entraria em breve do Brazil, o

outro

—que nas suas cartas se esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle não voltasse! Uma onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria tão facil, perfeito e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio que cahisse ao mar! Ah, se

elle

morresse!... E esquecia-se, enlevado n'uma visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre, serena, sorrindo e coberta de luto...

No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um suspiro de fadiga, de desconsolação,—disse, depois de tossir risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:

—Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais só...

—Está só, está triste, murmurou Carlos. É necessario sacudirmo-nos... Eu já te disse que talvez fossemos viajar este inverno...

O menino não lhe tinha dito nada.

—Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?

Baptista reflectiu.

—Eu, da outra vez não vi o Papa... E antes de morrer não se me dava de vêr o Papa...

—Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vêr o Papa.

Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lançando um olhar ao espelho:

—Para vêr o Papa vai-se de casaca, creio eu?

—Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos, era um habito de Christo... Hei de vêr se te arranjo um habito de Christo.

Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate, d'emoção:

—Muito agradecido a v. exc.

a

Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez com menos merecimentos que eu... Dizem que até ha barbeiros...

—Tens razão, replicou Carlos muito sério. Era uma vergonha. O que hei de vêr se te arranjo com effeito é a commenda da Conceição.

Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do

Mulato

, o batedor favorito do Ega—que recolhia a parelha na velha cavalhariça da

Toca

, e, até á hora em que Carlos voltava ao Ramalhete, vadiava pelas tabernas.

Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoçar, Maria Eduarda, ouvindo rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos á porta da casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco toldo de fazenda côr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ás vezes trazia, á antiga moda hespanhola, uma flôr entre os cabellos; o forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate eburneo do seu rosto;—e assim, simples e radiante, entre sol e verdura, ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior. Cerrando o portão d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se logo envolvido n'um «extraordinario conforto moral», como elle dizia, em que todo o seu sêr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma permanente impressão de harmonia e doçura... Mas o seu primeiro beijo era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e

Niniche

ao lado, pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe sorria-lhes, sob o toldo côr de rosa. Em redor tudo era luminoso, familiar e cheio de paz.

A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. Já se podia usar o salão nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a tristeza d'um luxo morto: as flôres que Maria punha nos vasos, um jornal esquecido, as lãs de um bordado, o simples roçar dos seus frescos vestidos, tinham communicado já um subtil calor de vida e de conchego aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de ferro brunido:—e era alli que elles ficavam conversando emquanto não chegava a hora das lições de Rosa.

A essa hora apparecia miss Sarah, séria e recolhida—sempre de preto, com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de homem. Recuperára as suas côres fortes de boneca, e as pestanas baixas tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandós puritanos. Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo, mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldêa. Mas aquellas terras trigueiras d'olivedo não lhe pareciam campo: «é muito sêcco, é muito duro,» dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados da sua Inglaterra, e dos céos de nevoa, cinzentos e vagos.

Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima as longas lições de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se n'uma intimidade mais livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do Japão, construira ao pé da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiçoara-se áquelle recanto, chamava-lhe o seu

pensadoiro

. Era todo de madeira, com uma só janellinha redonda, e um telhado agudo á japoneza, onde roçavam os ramos—tão leve que através d'elle nos momentos de silencio se sentiam piar as aves. Craft forrára-o todo de esteiras finas da India; uma mesa de xarão, algumas faianças do Japão, ornavam-no sobriamente; o tecto não se via, occulto por uma colcha de sêda amarella, suspensa pelos quatro cantos, em laços, como o rico docel de uma tenda;—e todo o ligeiro kiosque parceia ter sido armado só com o fim d'abrigar um divan baixo e fôfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo para todas as

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