Volume 1 — OS MAIAS (continued 6)
Reading edition
—Mas o que é, é que não tenho amigos! gritou elle exhausto por fim, cahindo para o canto d'um sophá.
Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.
Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle não tinha direito de duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era necessario não ser pueril; nem theatral... A questão estava simplesmente em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a pontapés...
—Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: «Guarde-a».
—Ou isso! continuava Carlos. Não, senhor: limita-se a prohibir-te a entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de ter feito isto, não quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve portanto um acto de moderação. E tu queres mandal-o desafiar por isso?...
Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle simples gibão escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se não tratava d'isso! Não, não se tratava da mulher! A questão era outra...
Carlos então zangou-se.
—Para que diabo te expulsou elle de casa então? Não disparates, homem! Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E é triste, que te custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu... Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen. Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de morrer. Se elle não quizer fazer nada, tens de ficar de braços cruzados. Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a cabeça, e reconhecer-te infame...
—Então tenho de engolir a affronta?
Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava a lucidez do criterio mundano—e que chegava a ser torpe fallar elle, Ega, de
affronta
.
Ega, outra vez acabrunhado sobre o sophá, conservou um momento a cabeça enterrada nas mãos.
—Eu já nem sei, disse elle por fim. Vocês devem ter rasão... Eu estou-me a sentir idiota ... Então, vamos, que hei de eu fazer?
—Vocês teem a tipoia á espera? perguntou tranquillamente Craft.
Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.
—Excellente! Então, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de morrer ámanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma garrafa de Bourgonhe...
D'ahi a pouco estavam á mesa—n'aquella bella sala de jantar do Craft, que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovaes representando bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenças da Persia, e a sua original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já o perú, emquanto Craft, desarrolhava, com veneração, duas garrafas do seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.
Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o Chambertin.
—Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocês chegaram, estava a lêr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo em Inglaterra...
—Que é aquillo, além, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz moribunda.
Um
pâtê de foie-gras
. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.
—Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.
—Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. Não te romantises. Tu o que tens é fome. Todas as tuas idéas esta noite se ressentem da debilidade!
Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitação do seu trage de Satanaz nem jantára, contando ceiar bem em casa do outro... Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente
foie-gras
...
E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de perú, uma porção immensa de lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle só bebeu quasi toda uma garrafa de Chambertin.
O escudeiro fôra preparar o café: e, no entanto, ia-se discutindo, em todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que não: era vaidoso, e de rancores longos! N'um convento tambem não a fechava, sendo judia...
—Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade.
Ega, já com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que elle então entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear uma ordem para elle! Craft lembrou a
Santa Blague
!
—Vocês não teem coração, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. Vocês não sabem, eu adorava aquella mulher!
Então largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos melhores de toda aquella paixão,—porque poude, sem escrupulo, fazer reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das confidencias vaidosas. Começou por contar o encontro com ella na Foz—emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre folhas de livros emprestados, em que ella se assignava
Violetta de Parma
; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressões ardentes de mãos á sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados entre as lapides funebres...
—Muito curioso! dizia o Craft.
Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café. Emquanto se enchiam as chavenas, e Craft fôra buscar uma caixa de charutos, elle acabou a garrafa de Champagne, já pallido, com o nariz afilado.
O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega, com o calice de cognac ao lado, recomeçou as confidencias, contou a volta a Lisboa, a Villa Balzac, as manhãs deliciosas passadas lá com ella no calor d'um ninho d'amor...
Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinha outro detalhe, os nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos, jurou que queria morrer!
—Se vocês soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...
—Não queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu estás bebado, miseravel!
Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado á meza.
Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que não podia, era empiteirar-se. Tinha feito o possivel, bebido tudo, até agua raz. Nunca! Não podia...
—Olha, vou pôr aquella garrafa á boca, tu verás. E fico frio, fico impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta... Ora ahi tens. Dá cá a garrafa.
Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para elle, com a face livida.
—Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te metto uma bala no coração... Não, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi sobre o chão, como um fardo.
—Terra! disse tranquillamente Craft.
Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João da Ega. E emquanto o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz, não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos, balbuciando:
—Rachelsinha!... Racaqué, minha Raquesinha! gostas do teu bibichinho?...
Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, não chovia, um vento frio ia varrendo o ceu, já clareava a alvorada.
Ao outro dia, ás dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas, um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o nariz dentro dos lençoes.
Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lençoes até ao queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolação de deixar aquelles fofos colxões, a paz confortavel da quinta—para ir affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.
—Está frio lá fóra? perguntou elle melancholicamente.
—Não, está um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se lá fôr alguem da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeçando contra os moveis. Só achou o gibão de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calças de Craft. Ega enfiou-as á pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeça o bonet escossez, voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:
—Vamos a isso!
Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao portão, onde esperava o coupé de Carlos. Na alameda de acacias, tão tenebrosa na vespera sob a chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles.
—Doe-te a cabeça, Ega? perguntou Craft.
—Não, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem não estava bebado... O que estava era fraco.
Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e philosophico, esta reflexão:
—O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fosse nada!
Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma; fechou a portinhola, o coupé partiu.
Durante a manhã não veiu telegramma á quinta; e quando Craft appareceu na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava á porta, já escurecera, duas vélas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no sophá, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sécca, esperando todo o dia as testemunhas do Cohen.
—Que te dizia eu? Não ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
Mas Ega, agora agitado de idéas negras, temia que elle tivesse assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho de derramar sangue...
—Tenho um presentimento de desgraça, balbuciou elle aterrado.
E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe disse que, áquella hora, não podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle queria estar só na sala: e lá ficou, mais pallido, rigido, muito abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
—Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escuridão do quarto.
Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do chão estava cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo.
Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue, examinava o toucador, onde havia um maço de ganchos de cabello, uma liga com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.
Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi á cozinha. A criada estava sentada á meza, com a mão mettida pelos cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma cadeira, chupava o seu cigarro.
—Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
—Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz das costas.
Carlos voltou ao quarto, annunciando:
—É a confidente. As cousas terminam amavelmente.
—E como queria você que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que não convém um escandalo... É isto que calma os maridos. Além d'isso, já se satisfez, já lhe offereceu pontapés...
N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
—Não ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coça, e vão ámanhã para Inglaterra!
Carlos olhou para o Craft—que movia a cabeça, como vendo todas as suas previsões realisadas, e approvando plenamente.
—Uma coça, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um
menage
modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha!
Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel—não perdoando ao seu idolo ter-se deixado desfazer á paulada. Lembrava-se justamente da bengala do Cohen, um junco da India, com uma cabeça de galgo por castão. E aquillo zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixão! Aquillo pozera vergões roxos onde os seus labios tinham avivado signaes côr de rosa! E tinham
feito as pazes
. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas não! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo, decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as applicações de arnica! Aquillo acabava em arnica!
—Entre vocemecê para aqui, sr.
a
Adelia, gritou elle para a sala, entre para aqui! Aqui só ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto são amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecê diante de si o grande mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.
a
Adelia, sente-se... Não faça ceremonia... E póde contar... Aqui a sr.
a
Adelia, meninos, viu tudo, viu a coça!
A sr.
a
Adelia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um chapéo de flôres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. Não, ella não vira... Então o sr. Ega não tinha percebido bem... Ella só
ouvira
.
—Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé, naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos á espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu fiquei estarrecida, pensei até que eram ladrões. Corremos, eu e o Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por dentro, lá para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho á fechadura, mas não pude vêr nada... Lá o estalar de bofetadas, e trambulhões, e sons de bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse logo ao Domingos «ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas de repente, silencio geral! Nós voltámos para a cozinha; d'ahi a pouco o sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que nos podiamos deitar, que elles não precisavam nada, e que amanhã fallariamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhã parece que estavam muito amiguinhos... Que eu não puz os olhos na senhora. O sr. Cohen, apenas se levantou, veiu á cozinha, fez-me elle as contas, e pôz-me fóra; muito mal creado, até me ameaçou com a policia... Foi pelo Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bahú com um gallego, que o sr. Cohen ía com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim... Eu até tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.
A sr.
a
Adelia com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se. Ega, com os braços cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes parecia aquillo? Uma coça!.. Se um covarde d'aquelles não merecia uma bala no coração! Mas ella tambem, deixar-se tocar, não ter fugido, consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja!
—E a sr.
a
Adelia, perguntava Craft, não tem idéa de como elle descobriu?..
—Isso é que é prodigioso! gritou Ega, apertando as mãos na cabeça.
Sim, prodigioso! Não fôra carta apanhada: elles não se escreviam. Não podia ter surprehendido as visitas á Villa Balzac: as cousas estavam combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para vir ali, nunca ella commettera a indiscripção de se servir da sua carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle nunca a tinham visto, não sabiam quem era a senhora que o visitava... Tantos cuidados, e tudo estragado!
—Estranho, estranho! murmurava Craft.
Houve um silencio. A sr.
a
Adelia terminara por descançar familiarmente n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaço.
—Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia então uma cousa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi a senhora que sonhou alto com v. Ex.
a
, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha alto.
Ega, diante da sr.
a
Adelia, percorria-a desde as flôres do chapéo até á roda das saias, com os olhos faiscantes.
—Como é possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos separados!... Eu sei que tinham.
A sr.
a
Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calçados de luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas palavras:
—Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle.
Houve um silencio embaraçado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir, encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, triturando o bigode com a mão tremula.
Então Carlos enojado, cançado d'aquelle episodio que durava desde a vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar...
—Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaçado.
De repente fez um signal á sr.
a
Adelia, arrastou-a para a sala, fechou-se lá outra vez.
—Você não está farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
—Não. Acho um estudo curioso.
Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos, furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro de petroleo—quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a sr.
a
Adelia partira.
—Vamos lá jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?
E elle mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, alem do coupé de Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil.
No André tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no sophá de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos ía contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma saíndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, já á meza, com a cabeça entre os punhos, percorria um
Diario da Manhã
, que o criado offerecera para os senhores se entreterem.
De repente o Ega deu um murro no sophá, que rangeu lamentavelmente.
—Eu o que não percebo, gritou elle, é como aquelle malvado descobriu!..
—A hypothese da sr.
a
Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto é que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
Ega erguera-se:
—Eu não vos quiz dizer diante da Adelia, que não estava no segredo todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella, uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D. Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel ía vêl-a de vez em quando. São intimas, a D. Maria Lima é intima de todo o mundo. Depois sahia por uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava á porta da minha casa, á porta escusa, á porta da escada que vae ter ao cacifro de banho. Já vocês vêem... Os criados nem a avistavam. Quando ella lá lunchava, o lunch estava já posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem visse, era uma senhora com um véo preto, que vinha de casa da Lima... Como podia o homem apanhal-a?.. Além d'isso, em casa da Lima, ella mudava de chapéo, e punha um waterproof...
Craft cumprimentou.
—É brilhante! Parece de Scribe.
—Então, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...
—A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excellente velha, recebida em toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... Ás vezes mesmo em casa d'ella.
—Leva caro por esses serviços? perguntou tranquillamente Craft, que em todo aquelle caso procurava instruir-se.
—Não, coitada, disse o Ega. Dão-se-lhe de vez em quando cinco libras.
O criado entrava com uma travessa de camarões, os tres em silencio accommodaram-se á meza.
Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ía lá dormir, receiando, com os nervos tão excitados, a solidão da villa Balzac. Partiram, de charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e doce.
Felizmente não estava ninguem no Ramalhete; Ega, cançado, poude retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o criado o deixou, Ega approximou-se do tremó onde ardiam as luzes, e tirou do pescoço, de sob a camiza, um medalhão de ouro. Tinha dentro uma photographia de Rachel:—e a sua intenção agora era queimal-a, deitar ao balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixão. Mas, ao abrir o medalhão, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A photographia mostrava apenas a cabeça, com uma abertura de decote no começo do vestido: e as recordações de Ega alargaram aquelle decote uma vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros cançados que ella soltara nos seus braços. E ella ia-se embora,
nunca mais
a veria! Esta desolada amargura do
nunca mais
revolveu-o todo—e com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande phraseador soluçou muito tempo no segredo da noite.
Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. Já se sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fôra expulso da casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio, tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe dera um pontapé. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prégavam com fervor a innocencia da sr.
a
D. Rachel. O Alencar contava publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leão de Celorico, tendo tomado por evidencias de paixão os sorrisos de amabilidade de uma senhora que recebe,—escrevera á sr.
a
D. Rachel uma carta quasi obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao marido.
—Então dão-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona, escutava estas cousas com um ar cançado e doente.
Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito tão perigoso de ferro em braza, tivesse uma mãe rica, e fosse independente.
Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos Gouvarinhos—que fôra excellente—contou-lhe a conversa que tivera com a sr.
a
condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem, d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, não só pela Rachel, coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, tão interessante, tão brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçára o Ega de pontapés, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na cabeça; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o Gremio e a casa Havaneza, folgava em «enterrar» o Ega.
Ega, com effeito, sentia-se «enterrado». E n'essa noite declarou a Carlos que decidira recolher-se á quinta da mãe, passar lá um anno a acabar as
Memorias d'um Atomo
, e reapparecer em Lisboa com o seu livro publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos não perturbou esta radiante illusão.
Mas quando Ega, antes de partir, foí a recapitular os seus negocios de casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha tres letras a vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens—e elle seria, além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguido pelos credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos, para regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis.
Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras complicações. A mãe do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as viellas da Mouraria, a começar ahi uma divertida carreira de
faia
.
Ega recusou-se a attender ás reclamações da matrona. Que diabo tinha elle com essas torpezas?
Então o amante da creatura interveiu, ameaçadoramente, Era um policia, um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na Villa Balzac se passavam «cousas contra a natureza», e que o pagem não era só para servir á meza... Nauseado até á morte, Ega pacteou com a intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia, elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor romantico:
—Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um banho por dentro!
Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com tristeza:
—Má estreia, filho, pessima estreia!
E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava n'estas palavras, dizia tambem comsigo:—Pessima estreia!... E nem só a estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso, as palavras do avô tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias! Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as
Memorias d'um Atomo
, a dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma força, mil outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, lá voltava para Celorico, escorraçado. Pessima estreia! Elle, por seu lado, desembarcara em Lisboa, com idéas collossaes de trabalho, armado como um luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia de receitas, e esse melancolico capitulo da
Medicina entre os Gregos
. Pessima estreia!
Não, a vida não lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na sala de bilhar com as mãos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos conversavam, e fóra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria, encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, não estavam mais alegres. Craft e o Marquez tinham começado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico, achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada, se despedaçara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando, ia despertar as lampadas.
Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.
—Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres já visto a pequena...
Carlos ao outro dia não sahiu de casa, esperando um recado, faiscando d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para o Aterro—o primeiro encontro que teve, ás Janellas Verdes, foi o Castro Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no collo.
Ella passou, sem o vêr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... Não podia mais, precisava ouvir a voz d'ella, vêr o que os seus olhos diziam quando eram interrogados de perto.
Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou do braço, arrastou-o á rua de S. Marçal, installou-o n'uma poltrona, no seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao
Jornal do Commercio
sobre a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de
croquet
. Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou d'um livro de Tennyson, que não lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o levar ao outro dia, de manhã. Encontrou-a só, toda vestida de branco: e riam, baixavam já a voz, as duas cadeias estavam mais juntas—quando o escudeiro annunciou a sr.
a
D. Maria da Cunha. Era uma cousa tão extraordinaria, a D. Maria da Cunha áquella hora! Carlos, de resto, gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade, cheia de sympathia por todos os peccados—e ella mesma muito peccadora quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que dizer em particular á condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar uma d'essas tardes tomar chá, e fallar de Tennyson.
Na tarde em que elle se vestia para lá ir, Damaso appareceu-lhe no quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de «ferro». O telhudo do Castro Gomes mudára de idéa, já não ia ao Brazil! Ficava ali, no Central, até ao meiado do verão! De sorte que estava tudo estragado...
Carlos pensou logo em fallar da sua apresentação ao Castro Gomes. Mas, como em Cintra, sem saber porquê, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio.
Damaso no entanto maldizia a sua
chance
:
—E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasião. Mas que diabo queres tu, assim?...
Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles não se davam bem. Na vespera houvera de certo questão. Quando elle entrara, ella estava com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto d'hora...
—Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar á fava.
Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo, ora regelada; e, ás vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural, d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita.
—Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo Carlos pôr o chapeu.
Ia tomar chá com a Gouvarinho.
—Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca!
Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:
—Vem, fazes-me até favor...
A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.
—Ha que tempos que não damos assim um passeio juntos, disse Damaso.
—Tu andas lá mettido com estrangeiros!...
Damaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada. Depois, á porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.
a
condessa recebia, resolveu subitamente não entrar. Não, não entrava. Estava muito estupido, incapaz de achar uma palavra...
—Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda Carlos diante do portão. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te havia de mandar pela visita á pequena... Eu disse que tu tinhas ido lá por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os.
Não era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!
—Apparece á noite, Damasosinho, vai lá jantar ámanhã! exclamou Carlos, subitamente radiante, dando um ardente aperto de mão ao seu amigo.
Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir chá. A sala, forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. Em cima das mezas havia cestos de flôres. No sophá, duas senhoras de chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mão. A condessa, ao estender os dedos a Carlos, ficara tão côr de rosa—como a seda acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé d'um velador de pau santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que não era possivel entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
O conde ainda não apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrucção Publica.
Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os estudos. As pobres creanças succumbiam verdadeiramente á quantidade exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joãosinho, andava tão pallido e tão desfigurado, que ella ás vezes tinha vontade de o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenço, queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias, as difficuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...
A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito, consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominação. O marido d'ella—continuava a dama de preto—ficara tão desesperado que, encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fôra malvado!... Não havia verdadeiramente senão uma cousa digna de se estudar, eram as linguas. Parecia insensato que se torturasse uma creança com botanica, astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o pequeno d'ella, agora, tinha lições de chimica... Que absurdo! Era o que o pae dizia—para que, se elle o não queria para boticario?
Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.
Carlos ficou só com a sr.
a
condessa, que reoccupara a sua cadeira côr de rosa.
Immediatamente ella perguntou pelo Ega.
—Coitado, lá está para Celorico.
Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase tão feia «lá está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma melhor oração funebre. Celorico era horrível para um fim de romance...
—De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se:
lá está para Jerusalem!
N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda batalhando sobre a Reforma da Instrucção, levou as mãos á cabeça como lamentando um tão feio desperdicio de tempo, e não se quiz demorar. Não, nem mesmo o excellente chá da sr.
a
condessa o tentava. A verdade era que estava tão abandonado da graça de Deus, perdera de tal modo o sentimento das cousas bellas, que entrara, não para vêr a sr.
a
condessa—mas simplesmente fallar ao conde. Então ella teve um bonito ar de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade de montanhez não fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao sair, dando um
shake-hands
ao amigo Maia, quiz saber quando o principe de S.
t
Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.
a
condessa indignou-se. Não, era realmente de mais! Fazer convites, na sua sala, diante d'ella,—um homem que fallava tanto da sua cozinheira allemã, e nem sequer lhe offerecera jámais um prato de chou-crôute!
Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a sua sala de jantar para dar á sr.
a
condessa uma festa, que havia de ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.
—Muito alegre, este Gama, não é verdade? disse a condessa.
—Muito alegre, disse Carlos.
Então a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, áquella hora ella já não recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem. E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella. Ah, aquella creança nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada, com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge de folhas seccas.
—Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.
—Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e não imagina... Era d'uma belleza de idyllio.
E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a Cintra, n'aquella sala.
Mas a condessa mal o escutára. Tinha-se erguido, fallando de algumas canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novidades frescas da
season
. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia—
The pale star
. Não, Carlos não conhecia. Mas todas essas canções inglezas se parecem, sempre do mesmo tom dolente, romanesco, e muito
miss
. E trata-se sempre d'um parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...
Então a condessa leu alto a letra da
Pale star
. E era a mesma cousa, uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um timido beijo sob as arvores...
—É sempre o mesmo, disse Carlos, e é sempre delicioso.
Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido. Começou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas flores.
—Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.
Mas, a flôr que ella lhe queria dar estava no
boudoir
, ao lado. Carlos seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito tremó do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em barro do conde, na sua expressão de orador, a fronte erguida, a gravata desmanchada, o labio fremente...
A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que subia do seu seio arfando com força. E ella não acabava de prender a flôr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se adormecer sobre o panno...
—
Voila!
murmurou emfim, muito baixo. Ahi está o meu bello cavalleiro da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça!
Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos labios d'ella. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os braços;—e ella pendia para traz a cabeça, branca como uma cera, com as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sophá baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sophá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas.
D'ahi a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto do busto, coçando a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arrependido: ella, diante do tremó Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello. De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente, voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no sophá—e estava fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenço de seda da India.
Ao vêr Carlos no
boudoir
, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda n'essa manhã, na camara, se lembrara d'elle...
—Então, por que vieram tão tarde? exclamou a condessa, que se apoderara logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.
—O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de enthusiasmo.
—Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
É verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porém o Torres Valente (homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira defender a gymnastica obrigatoria nos collegios—erguera-se. Mas não imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.
—Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenço. E um dos melhores que eu tenho ouvido na camara! Dos de arromba!
O Conde modestamente protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idéa, os nossos filhos, os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!...
—Ah, esta piada, sr.
a
condessa! exclamou o velho. Eu só queria que v. ex.
a
ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um
chic!
O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe aquillo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino «todo impregnado de cathecismo», elle lançara-lhe uma palavra cruel.
—Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenço para se assoar outra vez.
—Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... «Creia o digno par, que nunca este paiz retomará o seu logar à testa da civilisação, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de instrucção, nós outros os legisladores formos, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio...
—Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço.
Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.
E o conde, quando elle se despediu, não se contentou com um simples aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez, movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do sophá—debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.
X
Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de chuva,—Carlos apeava-se d'um coupé de praça, que viera parar, de vagar, á esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.
a
condessa de Gouvarinho.
A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a solidão da Patriarchal para se desembaraçar do calhambeque d'assento duro, onde durante a ultima hora suffocára, sem ousar descer as vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...
Até ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fôra para o Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisação á provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas á treva catholica, purificando (como ella dizia) o tremedal papista... Já na escada havia um cheirinho adocicado e triste a devoção e a virgem velha: e no patamar pendia um largo cartão, com um distico em letras de ouro entrelaçadas de lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do Senhor! Carlos entrou, tropeçando logo n'um montão de Biblias. O quarto todo era um ninho de Biblias; havia-as ás pilhas por cima dos moveis, transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato, entaladas n'uma encadernação negra como n'uma armadura de combate, carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de cartonagens impressas em lettras de côr, irradiando versiculos duros da Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaças insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, á cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito rigido ficou revolto como um campo de batalha.
Depois a condessa começou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. Uma occasião em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas á porta atroaram a casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo á janella, viu um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mão, outras dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fôra a Borges quem mandára o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como tres avisos, tres rebates da Moral... Não quizera voltar mais ao beatifico cuté da titi. E n'essa tarde, como não havia ainda outro escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de praça.
Mas Carlos vinha de lá enervado, amollecido, sentindo já na alma os primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço,—e agora, pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia as folhagens da alameda, elle ía pensando como se poderia desembaraçar da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... É que a condessa ía-se tornando absurda com aquella determinação anciosa e audaz de invadir toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo—como se o primeiro beijo trocado tivesse unido não só os labios de ambos um momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde lá tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante:
Se tu quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sós!
... E isto era claro—a condessa concebera a idéa extravagante de fugir com elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo, o mais longe possivel da rua de S. Marçal!
Se tu quizesses!
Não, com mil demonios, não queria fugir com a sr.
a
condessa de Gouvarinho!...
E não era só isto—mas ainda exigencias, egoismos, explosões tumultuosas d'um temperamento cioso: já mais de uma vez, n'essas duas curtas semanas, por pieguices, ella despropositára, fallara de morrer, debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o inquietava eram certos clarões que lhe sulcavam o rosto, um dardejar nervoso dos olhos seccos, revelando a paixão que se accendera n'aquelles nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava até ás profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os braços, e queria fugir com elle—então adeus! Tudo estava estragado; e a sr.
a
condessa com a sua verbena, os seus cabellos côr de braza, e o seu pranto, era apenas um trambolho!
O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E Carlos descia a rua de S. Roque—quando encontrou o marquez, sahindo d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.
—Que é isso? Constipação? perguntou Carlos.
—Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma lentidão de moribundo. Deitei-me tarde. Cançasso. Oppressão no peito. Pigarreira. Dôres no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados.
—Não seja piegas, homem! Você o que precisa é roast-beef e uma garrafa de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem lá o Craft e o Damaso... Então descemos por essa rua do Alecrim, que já não chove, depois pelo Aterro fóra, a passo gymnastico, e em chegando lá você está curado.
O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, uma dôr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia,
liquidado
. O mundo começava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma preoccupação angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto com o padre capellão—com quem ás vezes, todavia, terminava por jogar as damas.
—Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me você ir primeiro ao Gremio... Quero escrever á Manoeleta que não conte comigo esta noite...
Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna, ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia chamar o
Lodaçal
—escripta para se vingar de Lisboa.
—O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais no cache-nez, é se eu estou assim no domingo para as corridas!
—O quê! exclamou Carlos, então as corridas são já no domingo?
O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande
sportman
de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um
gentleman
e com os seus cavallos de raça, os seus jockeys inglezes, constituia a unica feição séria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era uma brincadeira de pilecas e d'
abas
...
—Você não conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco
poseur
, mas oiro de lei.
Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braço a Carlos.
—Veja esse pulso!
—O pulso está excellente... Vá você dar lá esse golpe á Manoela, que eu fico aqui á espera.
No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E
ella
estaria lá, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas semanas vira-a duas vezes: uma occasião, estando a conversar com o Taveira á porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de chapeu, calçando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ella viera parar á porta do Mourão, ao Chiado, n'um coupé da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava dentro á loja um embrulho que tinha a fórma d'um cofre, apertado com uma fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doçura, ao pousar no seu... Era talvez uma illusão; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a realisar a antiga idéa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta exigencia, ficou perturbado; e com um ar de cão que defende o seu osso, lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que não viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cartão ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de
sport
; nem todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcção o nó da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propôr a Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porém não queria entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mão, atraz do Damaso. Resolveram então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Ahi, no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentação é mais
chic
... É mesmo pôdre de
chic
.»
—Deus queira com effeito que não chova no domingo, murmurou Carlos quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
Foram seguindo pelo meio da rua, em direcção ao Ferregial. Adiante do Gremio, encostado ao passeio, estava um coupé da Companhia, com um trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, casualmente; e viu, debruçado á portinhola, um rosto de creança, d'uma brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella não se contentou em sorrír, com o seu doce olhar azul fugindo todo para elle,—deitou a mãosinha de fóra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo do coupé, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, tão perturbado, que os seus passos hesitaram.
Ella
abaixou a cabeça, de leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoção, espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da mãe e da filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanação de sympathia.
—Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a impressão de Madame Gomes.
Carlos córou.
—Não, é uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha...
—Irra! que gratidão! rosnou o outro de dentro das dobras do seu cachenez.
Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idéa que lhe viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que é que Damaso não levaria uma manhã o Castro Gomes aos Olivaes, a vêr as collecções do Craft?... Elle estaria lá, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam
bric-à-brac
. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a almoçar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas colxas da India. E assim, já antes das corridas existiria entre elles uma camaradagem, talvez um tratamento de
você
.
No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, até ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto, apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella lenta inclinação de cabeça, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo... Ella até ahi não o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande
adeus
, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e á boneca... E então a linda côr que lhe enternecera o rosto tomava uma significação mais profunda—era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o homem que ella notára já de algum modo tinha penetrado na sua intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado á beira do seu leito...
Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, mais brilhante. Porque não iria ella tambem vêr as curiosidades do Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft arranjava um
lunch
delicado no seu velho serviço de Wedgewood. Elle ficava á meza junto d'ella. Depois iam vêr o jardim já em flôr; ou tomavam chá no pavilhão japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando ambos diante d'uma bella faiença ou d'um movel raro, e sentindo, atravez da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos seus corações... Nunca a vira tão formosa como n'essa tarde, dentro do coupé forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu perfil. Sobre o regaço do vestido negro pousava o tom claro das suas luvas; e no chapéo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.
A tipoia parara ao portão do Ramalhete, estavam agora entre as silenciosas tapessarias da ante-camara.
—Como é que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com um tom desconfiado, desembaraçando-se do cache-nez.
Carlos olhou para elle, como mal acordado.
—Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem você razão!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada à porta do Cruges!.. Talvez alguem que móre n'outro andar.
—Não móra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em todo o caso, é um mulherão.
Carlos achou a palavra odíosa.
Do corredor ouvia-se já no escriptorio de Affonso, atravez da porta aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'
handicap
e de
dead-beat
... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com convicção, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio no collo. Ao canto do sophá, Craft folheava um livro.
E o Damaso appellou logo para o marquez. Não era verdade, como elle estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores corridas que se tinham feito em Lisboa? Só para o grande premio nacional de seiscentos mil réis havia oito cavallos inscriptos! E além d'isso, o Clifford trazia a
Mist
.
—Ah, é verdade, oh marquez, é necessario que você appareça sexta-feira á noite no Jockey-Club, para acabarmos o
handicap
!
O marquez arrastara uma cadeira para o pé de Affonso, para lhe fazer a confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles, fallando ainda da
Mist
, decidindo que a
Mist
era chic, querendo apostar cinco libras pela
Mist
contra o campo—o marquez terminou por se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar ares patuscos... Apostar pela
Mist
! Todo o patriota devia apostar pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador portuguez!...
—Pois não é verdade, sr. Affonso da Maia?
O velho sorrio, amaciando o seu gato.
—O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de corridas, fazer uma boa tourada.
Damazo levou as mãos á cabeça. Uma tourada! Então o sr. Affonso da Maia preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um inglez!...
—Um simples beirão, sr. Salcede, um simples beirão, e que faz gosto n'isso; se habitei a Inglaterra é que o meu rei, que era então, me pôz fóra do meu paiz... Pois é verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro touros. Cada raça possue o seu
sport
proprio, e o nosso é o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas sabe o sr. Salcede qual é a vantagem da toirada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não ha instituição que tenha uma importancia egual á tourada de curiosos. E acredite uma cousa: é que se n'esta triste geração moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, deve-se isso ao touro e á tourada de curiosos...
O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo é que era fallar! Aquillo é que era dar a philosophia do toiro! Está claro que a tourada era uma grande educação phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar com os touros! Oh, estupidos, acabaes então com a coragem portugueza!...
—Nós não temos os jogos de destresa das outras nações, exclamava elle, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. Não temos o
cricket
, nem o
foot-ball
, nem o
running
, como os inglezes: não temos a gymnastica como ella se faz em França; não temos o serviço militar obrigatorio que é o que torna o allemão solido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a mellarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
Craft, do canto do sophá, onde Carlos se fôra sentar e lhe fallava baixo, respondeu, convencido:
—O que, o touro? Está claro! o touro devia ser n'este paiz como o ensino é lá fóra: gratuito e obrigatorio.
Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem muito de touros. Ah lá n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava a palma... Mas as corridas tinham outro
chic
! Aquelles
Bois de Boulogne
, n'um dia de
Grand-Prix
, hein!... Era de embatucar!
—Sabes o que é pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos. É que tu não tenhas um
four-in-hand
, um
mail coach
. Iamos todos d'aqui, cahia tudo de chic!
Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena não ter um
four-in-hand
. Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da Conceição irem todos dentro d'um omnibus.
Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braços, descorçoado:
—Ahi está, sr. Affonso da Maia! Ahi está por que em Portugal nunca se faz nada em termos! É por que ninguem quer concorrer para que as cousas saiam bem... Assim não é possivel! Eu cá entendo isto: que n'um paiz, cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisação.
—Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma grande palavra!
—Pois não é verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso. Assim eu, por exemplo...
—Tu, o quê? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisação?...
—Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou de véo azul no chapéo!
Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho, sorrindo ainda das idéas de Damaso sobre a civilisação, puxou a luneta, leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado Bonifacio.
—Isto é que é ter gosto, isto é que é comprehender as cousas! exclamava o Damaso, agitando os braços para Carlos, quando o velho desappareceu atravez do reposteiro de damasco. Este teu avô, menino, é podre de chic!..
—Deixa lá o chic do avô... Anda cá, que te quero dizer uma cousa.
Abriu uma das janellas do terraço, levou para lá o Damaso, e disse-lhe ahi, á pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle já fallara ao Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de flores. E agora só restava que Damaso amigo, como amabilidade sua, convidasse os Castro Gomes...
—Caramba! murmurou Damaso desconfiado, estás com furor de a conhecer!
Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasião para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zás, ia para a quinta passear com ella... A calhar!
—Pois vou ámanhã já fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. Ella pela-se por bric-a-brac!
—E vens dizer-me se acceitaram ou não...
—Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende tambem de litteratura; e olha que ás vezes a conversar atrapalha...
O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a porta envidraçada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
—E é isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente do braço.
—Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se d'elle e olhando-o com ferocidade. E você é-o no sentimento. E o Craft é-o na respeitabilidade. E o Damasosinho é-o na tolice. Em Portugal é tudo Pieguice e Companhia!
Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, que lhe beijava a mão, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara embaraçado; o marquez instinctivamente levou a mão á algibeira. Mas o velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abençoando-o, n'um murmurio de soluços; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou n'uma voz que ainda tremia:
—Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que é peior é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito, marquez.
—Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez commovido.
No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em que para o lado do Hyppodromo estavam já estalando foguetes. Um dos criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho de grandes barbas grisalhas.
Era um dia já quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, poem fulgores d'espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca faiscação de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentidão das horas de verão cança a alma, e vagamente entristece. No largo dos Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava, desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli, pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes, sentara-se com a sua bilha á sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solidão. E a distancia, sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
No entanto o tritanario continuava debruçado na guarita, sem poder arranjar lá dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da almofada, ir lá parlamentar—emquanto Carlos, impaciente, raspando com o chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim governando, irritadamente, sem descerrar os labios. É que toda aquella semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos Olivaes, fôra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, não procurara o Damaso. Os dias tinham passado, vazios; não se realisara o alegre idyllio dos Olivaes; ainda não conhecia Madame Gomes; não a tornara a ver; não a esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de melancolia e de malestar.
Uma caleche de praça passou, com dous sujeitos de flores ao peito, acabando de calçar as
luvas
; depois um dog-cart, governado por um homem gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas propheticas.
Para além do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras debruçadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a cavallo, atravancavam a rua.
Á entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de quintarola, o phaeton teve de parar atráz do dog-cart do homem gordo—que não podia tambem avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o disséra na vespera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem—quando, trotando na sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo, fez rodar para óra a caleche. Outro municipal entrometteu-se, brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E atravez do reboliço, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, um realejo tocando a
Traviata
.
O phaeton entrou—atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal:
—Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou Craft.
Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem larga e repousante chegava vagarosamente do rio.
No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da tribuna real forrada de um baetão vermelho de mesa de Repartição, erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar, mostrava á luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fóra d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio de madeira, que abafava as côres alegres dos raros vestidos de verão. Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas. Um grande silencio caía do ceu faiscante.
Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no homem triste que estava á entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava até aos joelhos—Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.
Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira á porta do buffete onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos amarellos ao peito, polainas brancas,—e queria animar as corridas. Já vira a
Mist
, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela
Mist
. Que cabeça d'animal, meninos, que finura de pernas!...
—Palavra que me enthusiasmou! E está decidido, um dia não são dias, é necessario animar isto! Aposto trez mil réis. Quer você Craft?
—Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vêr o aspecto geral.
No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte á vontade, com jaquetões claros, e de chapéo côco; outros mais em estylo, de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraçados e quasi arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro, parado, de mãos atraz das costas, pasmava languidamente para as senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preço dos bilhetes, achando aquillo «uma semsaboria de rachar.»
Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados: e junto á corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha, sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava agua fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como o ceu, n'uma pulverisação fina de luz.
O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que começa a engordar, veio apertar a mão a Carlos e a Craft. E mal elles lhe fallaram dos seus cavallos (
Rabbino
, o favorito, e o outro potro) encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica. Então, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, não podia apresentar um cavallo decente, com as suas côres, senão d'ahi a quatro annos. De resto não apurava cavallos para aquella melancolia de Belem, não imaginassem os amigos que elle era tão patriota: o seu fim era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...
—Emfim, vamos a vêr... Dê você cá lume. Isto está um horror. E depois, que diabo, para corridas é necessario cocottes e Champagne. Com esta gente seria, e agua fresca, não vae!
N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapagão sem barba, vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapéo branco deitado para a nuca, veio arrebatar o Darque, «que era muito preciso, lá na pesagem, para uma duvidasinha.»
—Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club, e folheia-me... Veja você, Maia, em que estado eu fico depois das corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo...
E lá foi, rindo da sua pilheria—empurrado para diante pelo commissario, que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava
catita
.
—Vamos nós vêr as mulheres, disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, n'uma fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêem no high-life dos jornaes, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e além um d'esses grandes chapéos emplumados á Gainsborough, que então se começavam a usar, carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles appareciam murchas, gastas, molles, com um baço de pó de arroz.
Carlos cumprimentou as duas irmãs do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banqueiras, de côres claras, interessando-se pelas corridas, uma de programma na mão, a outra de pé e de binoculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em silencio, Villaça com duas damas de preto.
A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava tambem aquella que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança.
—É um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um dito do Ega.
Carlos, no entanto, fôra fallar á sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de bôa mamã. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella disse, não aturara a séca de estar lá em cima perfilada, á espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos já grisalhos, só ella parecia divertir-se alli, muito á vontade, com os pés pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaço, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes por
meninos
... Tinha comsigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria bonita se não fossem as olheiras negras, cavadas até ao meio da face. Apenas Carlos se sentou ao pé d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o
Lodaçal
...
—Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.
—Entramos todos, sr.
a
D. Maria. Todos nós somos lodaçal...
N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan mollengão de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapéo branco. Aqui e além, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a senhora
hespanhola
, essa, tomou o oculo do regaço de D. Maria, e de pé, muito descançadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula a musica, dando ás corridas um ar de arraial... Além d'isso, que tolice, o hymno, como n'um dia de parada!
—E este hymno, então, que é medonho, dizia Carlos. A sr.
a
D. Maria não sabe a definição do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!
—Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, já encantada.
—O Ega diz que o hymno é a definição pela musica do caracter d'um povo. Tal é o compasso do hymno nacional, diz elle, tal é o movimento moral da nação. Agora veja a sr.
a
D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega. A
Marselheza
avança com uma espada núa. O
God save the queen
adianta-se, arrastando um manto real...
—E o hymno da Carta?
—O hymno da Carta ginga, de rabona.
E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe tranquillamente o binoculo no regaço, murmurou:
—Tiene cara de buena persona.
—Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!
No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos
Productos
. Eram o n.º 1 e o n.º 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostões a Carlos. E como Carlos se erguia para arranjar um programma:
—Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braço. Ahi vem o nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia...
Com um fato novo de cheviote claro que o remoçava, de luvas gris-perle, o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o programma, e já de longe sorrindo á sua boa amiga D. Maria. Quando chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre d'oleo na grenha, levou-lhe a mão aos labios, fidalgamente.
D. Maria fôra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham dançado muita ardente mazurka nos salões de Arroios. Ella tratava-o por
tu
. Elle dizia sempre
boa amiga
, e
querida Maria
.
—Deixa vêr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda, faze companhia.
Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!... Pois os nomes dos cavallos eram
Jupiter
e
Escossez
...
—Nenhum d'esses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha...
Alencar, pousando o chapéo sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar de elegancia, um perfume de côrte... Depois, lá em baixo, aquelle maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raças cavallares...
—Pois não é verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso, que és um mestre em todos os
sports
, sabes bem que o apuramento...
—Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...—disse Carlos, vagamente, erguendo-se a olhar outra vez á tribuna.
Eram quasi tres horas, e agora, de certo,
ella
já não vinha: e a condessa de Gouvarinho não apparecia tambem... Começava a invadil-o uma grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeça, ao sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tédio.
No entanto, ainda entravam senhoras. A menina Sá Videira, filha do rico negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braço do irmão, abonecada, com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas côr de tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgorão azul com riscas brancas: e atraz o barão, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande chapéo de palha.
D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento ouviu-se, como um glou-glou grosso de perú, a voz da baroneza achando
que c'était charmant, c'était très beau
. O barão, aos pulinhos, aos risinhos,
trouvait ça ravissant
. E o Alencar, diante d'aquelles estrangeiros que o não tinham saudado, apurava a sua attitude de grande homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte núa.
Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemães! O ar de sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhára, a elle! Ora, a insolente baleia!
D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente para a senhora hespanhola:
—Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta lyrico...
N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse que tinha ganhado
Escossez
. Outros affirmavam que fôra
Jupiter
. E no silencio que se fez, de lassidão e de desapontamento, ondeou mais viva no ar, lançada pelos flautins da banda, a valsa de
madame Angot
. Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando, olhando a tribuna—onde as senhoras continuavam debruçadas no parapeito, á espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu as impressões, dizendo que tudo
aquillo era uma intrujice
.
E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueñas e do coração d'Espronceda.
O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita aos Olivaes—e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os rantatans da musica, até a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado, embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os
chics
. Elle, muito á vontade, um pouco
poseur
, com um simples veston de flanella azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente. Não se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mão que repetiram foi mais intimo—e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.
O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado nú, sem sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois criados, estonteados e sujos, achatavam á pressa as fatias de sandwiches com as mãos humidas da espuma da cerveja.
Quando Carlos
e os seus
amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de champagne na mão, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz pallido de barba preta, que tinha debaixo do braço enrolada a bandeira vermelha de
Starter
, e o commissario imberbe, com o chapéo branco cada vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho já molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar Clifford, rompeu para elle, de taça no ar, fez tremer as vigas, soltando o seu vozeirão:
—Á saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da península, e rapaz cá dos nossos!... Hip hip, hurrah!
Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e enthusiasta, a voz do
starter
. Clifford agradecia, risonho, tirando lentamente as luvas—em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braço para o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro Vargas.
—Muito gosto em conhecer...
—Qual historias! Eu é que fazia furor! exclamou o commissario. Cá a rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto cá é a confraria, e todo o resto é chinfrinada!
E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe trazia mais sangue á face:
—Á saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante cá da patria! a melhor mão de redea... Hip, hip, hurrah...
—Hip, hip, hip... Hurrah!
E foi ainda a voz do starter que deu o
hurrah
mais vibrante e mais enthusiasta.
Um empregado assomou á porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O Vargas atirou uma libra para o balcão, abalou, gritando já de fóra, com o olho acceso:
—Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! É carregar no liquido! E você, oh lá de baixo, o patrão, sô Manuel, mande vir esse gelo... Está a gente aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, vá você, rebente! Irra!
No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou, molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a tradição de jantarem juntos, sempre que se encontravam.
—Olá! o general por aqui! exclamou Craft.
Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimentão, entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braço.
Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr. Clifford...
—E que me diz você a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se para Carlos.
Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o
Jockey-Club
rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que não estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se apostado? Não, então historias!... Em Inglaterra e em França, sim! Ahi eram um jogo como a roletta, ou como o monte... Até havia banqueiros, que eram os
bookmakers
... Então já viam!
E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava do apuramento das raças, e da remonta,—o outro ergueu os hombros, com indignação:
—Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a remonta da cavallaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavallos de corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavallo que corra mais, é o cavallo que aguente mais... O resto é uma historia... Cavallos de corridas são phenomenos! São como o boi com duas cabeças... Então historias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá!
E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago, esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacões, sahiu, bufando, entalando mais debaixo do braço o chicote—que tremia na ponta como avido de vergastar alguem.
Craft sorria, batia no hombro de Clifford.
—Veja você! cá nós, velhos portuguezes, não gostamos de novidades, e de
sports
... Somos pelo toiro...
—Com razão, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho. Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha...
De repente, fóra, houve um reboliço, e vozes sobresaltadas gritando
ordem
! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.
Era uma desordem!
Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé da tribuna real um magote de homens—onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as cordas da pista, apesar dos repellões dos policias:—e agora era uma massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros, empurrando-se contra as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.
E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do montão um dos sujeitos que correra no premio dos Productos, o que montava
Jupiter
, ainda de botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o, queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pé, tremulo, livido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!
Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
—Fóra! Fóra!
Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados outras questões surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o Mendonça decidira pelo Pinheiro, que montava
Escossez
, por ser intimo d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella insinuação infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, tratavam-se furiosamente de
pulhas
.
E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de pintinhas, procurava romper, erguia os braços, exclamava, n'uma voz supplicante e rouca:
—Por quem são, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... Eu tenho experiencia!
De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. Diante do jockey, sem chapéo, com a face a estoirar de sangue, gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer que ha ladrões, era só d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca devia ter pertencido ao Jockey-Club!—O outro, agarrado pelos amigos, esticando o pescoço magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. Então o Vargas, com um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou as mangas, berrou:
—Repita lá isso! repita lá isso!
E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de
ordem
e
morra
, chapéos pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando espavoridamente as carruagens;—e um sopro grosseiro de desordem relles passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiça de civilisação e a attitude forçada de decoro...
Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava, pallido:
—Isto é incrivel, isto é incrivel!...
Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
—Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao official de guarda, um moço pequenino mas decidido, que, em bicos de pés, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, «cavalheirismo» e «prudencia...» O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braço d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, arranjando o chapéo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do
Propheta
; em quanto o desgraçado juiz das corridas, o Mendonça, encostado á tribuna real, com os braços cahidos, aparvalhado, balbuciava n'um resto d'assombro:
—Isto só a mim! Isto só a mim!
O marquez, n'um grupo a que se juntára o Clifford, Craft, e Taveira, continuava a vociferar:
—Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto é um paiz que só supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras coisas civilisadas lá de fóra, necessitam primeiro gente educada. No fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá seu compadre! Ahi está o que é!
Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, assegurando, com um ar de consolação, que conflictos eguaes succedem em toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. Dizia-se mesmo que elle ia retirar a
Mist
. E alguns davam-lhe razão. Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raça correr n'um hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam reluzir navalhas.
—Ouve cá, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos, chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
—Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de véo no chapéo!
Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava fechada. Ia-se correr o
Grande premio nacional
. Os numeros já tinham subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do Darque, o
Rabbino
, com o seu jockey de encarnado e branco, descia, trazido á redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender. Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito.
Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo de chegar, e conversava de pé com D. Maria da Cunha. Estava com uma toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco de creme, onde as grandes luvas negras á mosqueteira punham um contraste audaz: e o chapéo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um véo branco, enrolado em volta da cabeça, cobrindo-lhe metade do rosto, com um ar oriental que não ía bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello côr de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro.