Volume 2 — OS MAIAS (continued 5)
Reading edition
—Uma entaladella assim! Eu é por causa da gente conhecida... Senão não me importava! Mas veja você tambem se arranja as coisas e se o Carlos deixa aquillo na gaveta...
Justamente Ega erguera-se com o papel na mão e caminhava para o piano, devagar, relendo baixo.
—Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fórma de carta ao Carlos, é mais correcto. Você depois copía e assigna. Ouça lá: «Exc.
mo
snr....» Está claro, você dá-lhe excellencia, porque é um documento d'honra... «Exc.
mo
snr.—Tendo-me v. exc.
a
, por intermédio dos seus amigos João da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignação que lhe causára um certo artigo da
Corneta do Diabo
de que eu escrevi o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a v. exc.
a
que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica está em que o compuz e enviei á redacção da
Corneta
no momento de me achar no mais completo estado d'embriaguez...»
Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixára pender os braços, rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, entalando o monoculo:
—Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
E desenvolveu a sua idéa, mostrando quanto era generosa e habil—emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica) declarasse «que calumniára por ser calumniador». Era necessario, pois, dar á calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a responsabilidade ás acções. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano e femeeiro, do que estar bebedo?... Não era vergonha para ninguem embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em Inglaterra era tão
chic
, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na Camara dos communs senão aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra ficava salva. Era um homem de bem que apanhára uma carraspana e que commettera uma indiscrição... Nada mais!
—Pois não te parece, Cruges?
—Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
—Pois não lhe parece a você, francamente, Damaso?
—Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraçado.
Immediatamente Ega retomou a leitura: «Agora que voltei a mim reconheço, como sempre reconheci e proclamei, que é v. exc.
a
um caracter absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento d'embriaguez ousei salpicar de lama, são-me só merecedoras de veneração e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu alguma palavra offensiva para v. exc.
a
, não lhe devia dar v. exc.
a
, ou aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se dá a uma involuntaria baforada d'alcool—pois que, por um habito hereditario que reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em estado de embriaguez... De v. exc.
a
, com toda a estima etc....» Rodou sobre os tacões, pousou o rascunho na mesa—e accendendo o charuto ao lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinára áquella confissão de bebedeira incorrigivel e palreira. Fôra ainda o desejo de garantir a tranquillidade do «nosso Damaso». Attribuindo todas as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperança hereditaria, de que tinha tão pouca culpa como de ser baixo e gordo, o Damaso punha-se
para sempre
ao abrigo das provocações de Carlos...
—Você, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio, sem querer, na cavaqueira depois do theatro, lá lhe escapa uma palavra contra Carlos... Sem esta precaução, ahi recomeça a questão, o escarro, o duello... Assim já Carlos não se póde queixar. Lá tem a explicação que tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice hereditaria... Você alcança d'este modo a coisa que mais se appetece n'este nosso seculo XIX—a irresponsabilidade!... E depois para a sua familia não é vergonha, porque você não tem familia. Em resumo, convem-lhe?
O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas roncantes phrases sobre «a hereditariedade», sobre «o seculo XIX». E um unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem força:
—Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em que o monogramma luzia mais largo, começou a copiar a carta na sua maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aço.
Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava em torno da mesa, seguindo sôfregamente as linhas que traçava a mão applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um momento atravessou-o um susto... Damaso parára, com a penna indecisa. Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um resto escondido de dignidade, Damaso alçou para elle os olhos embaciados:
—Embriaguez é com
n
ou com
m
?
—Com um
m
, um
m
só, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito bem... Que linda letra você tem, caramba!
E o infeliz sorriu á sua propria letra—pondo a cabeça de lado, no orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
Quando findou a cópia foi Ega que conferiu, pôz a pontuação. Era necessario que o documento fosse
chic
e perfeito.
—Quem é o seu tabellião, Damaso?
—O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
—Oh! nada. É um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, está d'appetite a cartinha!
Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa «Sou Forte», sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o chapéo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgazã e leve:
—Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fóra de portas, n'uma poça de sangue! Assim é uma delicia. E adeus... Não se incommode você. Então o grande sarau sempre é na segunda-feira? Vai lá tudo, hein! Não venha cá, homem... Adeus!
Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietação que o assaltára:
—Isso não se mostra a ninguem, não é verdade, Ega?
Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim Carlos era tão bom rapaz, tão generoso!
Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
—E chamei eu áquelle homem
meu amigo
!
—Tudo na vida são desapontamentos, meu Damaso! foi a observação do Ega, saltando alegremente os degraus.
Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos já esperava ao portão de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na
Toca
. Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.
—E então, meus senhores, temos sangue?
—Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o enveloppe.
Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
—Isto é incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
—O Damaso não é o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? Que elle se batesse?
—Não sei, corta o coração... Que se ha de fazer a isto?
Segundo o Ega não se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo em torno do artigo da
Corneta
que custára trinta libras a suffocar. Mas convinha conservar aquillo como uma ameaça pairando sobre o Damaso, tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.
—Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: é obra tua, usa-o como quizeres...
Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, queria saber como elle se portára n'aquelle lance d'honra...
—Pessimamente! gritou Ega. Com expressões de compaixão; sem linha nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mão no sapato...
—Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocês dizem-me que me ponha de ceremonia, calço uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde n'um tormento!
E não se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho suspiro de consolação.
No dia seguinte, depois do almoço, emquanto uma chuva grossa alagava os vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no
fumoir
, enterrado n'uma poltrona, com os pés para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a pouco subia n'elle a mágoa de que esse colossal documento de cobardia humana, tão interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo effeito se aquella confissão do «nosso distincto
sportman
» surgisse um dia na
Gazeta Illustrada
ou no novo jornal
A Tarde
, nas columnas do
High-life
, sob este titulo—
Pendencia d'honra
! E que lição, que meritorio acto de justiça social!
Todo esse verão, Ega detestára o Damaso, certo, desde Cintra, de que elle era o amante da Cohen—e de que, por esse imbecil de grossas nadegas, esquecera ella para sempre a
villa
Balzac, as manhãs na colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que lhe tornára o Damaso intoleravel—fôra a sua farofia radiante de homem preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acênosinho desdenhoso, com um dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era odioso! Odiava-o: e através d'esse odio ruminára sempre o desejo d'uma vingança—pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balão furado...
E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente se declarava bebedo. «Sou um bebedo, estou sempre bebedo»! Assim o dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil de cão gôso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar tão decisivo documento no fundo d'um gavetão?
Publical-o na
Gazeta Illustrada
ou na
Tarde
não podia, infelizmente, por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira que, resentido eternamente da questão com o Damaso em casa da Lola Gorda, correria a lêl-a
em segredo
na Casa Havaneza, no bilhar do Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a snr.
a
D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração era por confissão propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
Tão delicioso que não hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.
Carlos appareceu n'essa noite, já tarde, transido de frio, com um monte de bagagens—porque abandonára definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mãi Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da
Toca
. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do marquez, as longas cavaqueiras ao café com as janellas abertas e as borboletas voando em torno aos candieiros... Fóra as cordas d'agua, sob o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
—Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por fim Carlos, já não havia uma unica folha nas arvores... Tu não sentes sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
—Immensa! murmurou Ega lugubremente.
Ao outro dia a manhã clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de boné agaloado que lhe offereciam o
Hotel Terreirense
e a
Pomba d'Ouro
. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapéo alto, trazia o cesto em que viajára o reverendo Bonifacio.
Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraços, a sua robustez de patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde o fim do verão vertigens, um cansaço vago...
—Vocês é que estão excellentes, acrescentou abraçando outra vez Carlos e sorrindo ao Ega. E que ingratidão foi essa tua, John, mettido aqui todo um verão sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que têm vocês feito?
—Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos sobretudo o projecto d'uma
Revista
, um apparelho d'educação superior que vamos montar com uma força de mil cavallos!... Emfim logo se lhe conta tudo ao almoço.
E ao almoço, com effeito, para justificarem as suas occupações em Lisboa, fallaram da
Revista
como se ella já estivesse organisada e os artigos a imprimir na officina—tanta foi a precisão com que lhe descreveram as tendencias, a feição critica, as linhas de pensamento sobre que ella devia rolar... Ega já preparára um trabalho para o primeiro numero—
A capital dos portuguezes
. Carlos meditava uma série d'
ensaios
á ingleza, sob este titulo—
Porque falhou entre nós o systema constitucional
. E Affonso escutava, encantado com aquellas bellas ambições de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer á arena, lançar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia. Então o velho riu. O quê! compôr prosa, elle, que hesitava para traçar uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em tres phrases: aos politicos—«menos liberalismo e mais caracter»; aos homens de letras—«menos eloquencia e mais ideia»; aos cidadãos em geral—«menos progresso e mais moral».
Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feições da reforma espiritual que a
Revista
devia prégar! Era necessario tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no frontispicio—porque Ega queria que a
Revista
fosse original logo na capa. E então a conversação desviou para o exterior da
Revista
—Carlos pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascença, Ega exigindo uma cópia exacta da
Revista dos Dois Mundos
, n'uma nuance mais côr de canario. E, levados pela sua imaginação de meridionaes, já não era só para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fórma áquelle confuso plano.
Carlos exclamava para o Ega, com os olhos já apaixonados:
—Isto agora é sério. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a redacção!
Ega bracejava:
—Pudera! E moveis! E machinas!
Toda a manhã, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis, se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas já as difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico e parnasiano de que elle desejava que a
Revista
fosse o impeccavel modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam
impossiveis
—sem querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de linha e o fato mal feito...
Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum
bric-à-brac
da
Toca
: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a taboleta de verniz preto, com
Revista de Portugal
em altas letras a ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros, discutida nas
soirées
do Gouvarinho, folheada na camara com espanto pelos politicos...
—Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle atirando um gesto immenso até ao tecto.
E o mais contente era o velho.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S. Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, Ega não quiz subir.
—Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e fallar-lhe da
Revista
.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do
Hotel Alliança
:
—Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot.
—Que é isto?
—Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha você d'ahi ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o
Fructo prohibido
. Então Craft propôz «botequim e genebra».
—E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigára desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!»
—Canalha! rosnou Ega com odio.
Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição de Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
—Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai receber.
Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da
Toca
.
—Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora.
—Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar tão sympathico!
—Encantadora! repetiu Ega.
Mas o
Fructo prohibido
findára, os homens enchiam o peristylo, n'um rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim.
Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo—avistou defronte, na primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, correndo os dedos tremulos pelo bigode.
No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega: outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s. exc.
a
Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia.
Não a tornára a encontrar desde Cintra, onde só a via de longe, com vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu collo, ella era outra vez a
sua
Rachel, dos tempos divinos da
villa
Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado de felicidade. Lá tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro. Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como então os seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de recordações que o suffocava, o grande leito da
villa
Balzac, certos beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa á borda do sofá, e a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente, coberta de véos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do quarto, cantarolando a
Traviata
...
—V. exc.
a
dá licença, snr. Ega?
Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno subira. Á borda da rampa um lacaio, piscando o olho á Plateia, fazia confidencias sobre a patrôa, de espanejador debaixo do braço. E Cohen, agora de pé, enchia o meio do camarote, cofiando
as suissas
com um correr lento da mão bem tratada, onde reluzia um diamante.
Ega então, n'um soberbo alarde d'indifferença, cravou o monoculo no palco. O lacaio abalára espavorido, a um repique furioso de sineta; e uma megera azeda, de roupão verde e touca á banda, rompera de dentro, meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida que batia o tacão, se esganiçava: «Pois hei de amal-o sempre! hei de amal-o sempre!»
Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e o Damaso, com as cabeças chegadas como em Cintra, cochichavam n'um sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao Damaso! Collado á umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
E não desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho general, gottoso e resmungão, sacudia um jornal, gritava pela sua tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se debruçára no camarote com as mãos de fóra, calçadas de
gris-perle
, descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrára ás mãos, tremendo todo, a gritar «que o salvasse!...»
Subitamente, com uma idéa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na vespera guardára a carta do Damaso... «Eu t'arranjo!» murmurou elle. E abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que rola, enfiou, ao fundo da praça de Camões, n'um grande portão que uma lanterna alumiava. Era a redacção da
Tarde
.
Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da
Tarde
, fôra, havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e desde esse verão alegre em que o Neves lhe ficára sempre devendo tres moedas, os dois tratavam-se por
tu
.
Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo, sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapéo para a nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de pé, n'um respeito de crentes. N'um vão de janella, com dois homens d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquetão de cheviote claro e uma cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito já calvo rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
Ao vêr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacção, n'aquella noite de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos tão curiosos, tão inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
—Nada de politica, negocio particular... Não te interrompas. Depois fallaremos.
O outro findou a injuria que estava lançando ao José Bento, «essa grande besta que fôra metter tudo no bico da amiga do Sousa e Sá, o par do reino»—e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braço do Ega arrastando-o para um canto:
—Então que é?
—É isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na
Corneta do Diabo
, por uma questão de cavallos... O Maia pediu-lhe explicações. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que vocês publiquem.
A curiosidade do Neves flammejou:
—Quem é?
—O Damaso.
O Neves recuou d'assombro:
—O Damaso!? Ora essa! Isso é extraordinario! Ainda esta tarde jantei com elle! Que diz a carta?
—Tudo. Pede perdão, declara que estava bebedo, que é de profissão um bebedo...
O Neves agitou as mãos com indignação:
—E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo politico!... E que não fosse, não é questão de partido, é de decencia! Eu faço lá isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa, explicações dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! Tu estás a mangar!
Ega, já furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na face, teve ainda uma revolta áquella idéa do Damaso se declarar bebedo!
—Isso não póde ser! É absurdo! Ahi ha historia... Deixa vêr a carta.
E, mal relanceára os olhos ao papel, á larga assignatura floreada, rompeu n'um alarido:
—Isto não é o Damaso nem é letra do Damaso!... «Salcede»! Quem diabo é «Salcede»? Nunca foi o
meu
Damaso!
—É o
meu
Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
O outro atirou os braços ao ar:
—O meu é o Guedes, homem, o Damaso Guedes! Não ha outro! Que diabo, quando se diz o Damaso é o Guedes!...
Respirou com grande allivio:
—Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se é o Salcede, bem, acabou-se! Espera lá... Não é um gordalhufo, um janota que tem uma propriedade em Cintra? Isso! Um maganão que nos entalou na eleição passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... Perfeitamente, ás ordens... Ó Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi uma carta para sahir ámanhã, na primeira pagina, typo largo...
O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a «Reforma das Pautas».
—Vai depois! gritou o Neves. As questões de honra antes de tudo!
E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho, saltou para a borda da mesa, lançou logo o seu vozeirão de chefe, affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise arrastára a Lisboa, arrancára á quietação das villas e das quintas. O mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia, perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ás noites, áquelle jornal do partido, saber as novas,
beber do fino
, uns com esperanças de empregos, outros por interesses de terriola, alguns por ociosidade. Para todos o Neves era um «robusto talento»; admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da
Tarde
... Mas, através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do touro! E era a grande coisa na Camara—ter a farpa, sabêl-a ferrar!
—Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro.
O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá:
—A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio». Fôra na Camara dos Pares, na reforma da instrucção. Estava fallando o Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe esta:
«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!»
—Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido—o do rapaz mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota na bochecha côr de tomate:
—Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz. Mas já o Neves, de pé, bravejava:
—Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto é que é a estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega?
Ega murmurou, através do fumo do charuto:
—Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. João da Ega—que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro...
Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão querido de todos:
—Então, na grande faina, Melchior?
—Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os
Cantos da Serra
, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de dizer!
Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o Melchior:
—Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores. D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se vende e quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da nuca:
—Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes—que fossem jornaes, não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez por baixo e o resto cheio com «annos», despachos, parte de policia e loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios nem Revistas Criticas—que se não fallasse em parte nenhuma.
—Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece pensar em nada...
E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante! Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica, de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem por isso a sua incompetencia...
—Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem incompetentes...
O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
—Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa...
Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr. conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos
High-lifes
, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez cretinos—mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito alto—nós chafurdamos aqui muito em baixo...»
—E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes, o côro dos jornalistas!
Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa:
—Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era, para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!»
E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o charuto—Melchior arrebatou a penna:
—Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o livro do Craveiro?
Ega quiz saber o que escrevera já o amigo Melchior. Apenas tres linhas: «Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo termo—
activos
. Ega então suggeriu—
emprehendedores
. Melchior emendou, leu:
—«...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima!
Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em
verve
. E além d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...
—Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra! Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e demais a mais pertence cá ao partido!
Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal—quando entre elles surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
—Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
—Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande phrase do Gouvarinho...
O Gonçalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio esperto.
—A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:
—É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe! É uma coisa da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Você não foi á camara quando se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
—Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
—Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz—esse immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o Gouvarinho um imbecil...
—Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
—Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella rinche ou escoucinhe.
Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:
—É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle...
Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
—Ha ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito—o outro, faiscando todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
—Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal tambem se lançou na corrente realista. No tempo da Regeneração e dos Historicos a politica era o progresso, a viação, a liberdade, o palavrorio... Nós mudamos tudo isso. Hoje é o facto positivo,—o dinheiro, o dinheiro! o bago! a
massa
! A rica
massinha
da nossa alma, menino! O divino dinheiro!
E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio—onde o seu grito de «dinheiro! dinheiro!» parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, com a prolongação de um toque de rebate acordando as cubiças, chamando ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos jornaes sobre a mesa. E o Gonçalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou nos tacões, desappareceu tambem, abraçando ao passar um dos padres a quem tratou de «malandro!»
Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, já mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A «questão de cavallos» com que o Neves se contentára promptamente, distrahido e absorvido n'essa noite pela crise,—ninguem mais a acreditaria... O Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentações, desesperos que elle assim estivera preparando a Carlos—por causa d'um odiosinho ao Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega decidia correr depois d'almoço á redacção da
Tarde
, suster a publicação da carta.
Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroça de bois, sobre um enxergão onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha de setim preto da
villa
Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os céos!
Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cólera contra o Damaso resurgiu, mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Além d'isso chovia. E decidiu não voltar á
Tarde
, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, o que dissesse o Damaso? O artigo da
Corneta
estava extincto, o Palma bem pago.—E quem jámais acreditaria n'um homem que nos jornaes se declara calumniador e bebedo?
E Carlos assim pensou tambem—quando, depois d'almoço, Ega lhe contou a sua resolução da vespera ao vêr o Damaso no camarote, d'olho trocista posto n'elle, a segredar com os Cohens...
—Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da snr.
a
D. Maria, de nós todos, contando horrores... E então acabou-se, não hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiça de Deus! Não tinhamos paz emquanto o não aniquilassemos!
Sim, concordou Carlos, talvez. Sómente receava que o avô, sabendo o escandalo, se desgostasse de vêr o seu nome misturado a toda aquella sordidez de
Corneta
e de bebedeira...
—Elle não lê a
Tarde
, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, é já vago e desfigurado.
Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltára no Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarára depois n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinião do velho foi—que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaração revelava extrema lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
—Por esta não esperavamos nós! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. O Damaso torna-se um justo!
De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da
Corneta
, approvavam a aniquilação do Damaso. Só o Craft sustentou que Carlos lhe devia ter antes dado «bengaladas secretas»; e o Taveira achou cruel que se dissesse ao desgraçado, com um florete ao peito—«ou a dignidade ou a vida!»
Mas dias depois não se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fôra formado, finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha—Neves no Tribunal de Contas. Já os jornaes do governo cahido começavam, segundo a pratica constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao rei com azedume... E o derradeiro, esvaído echo da carta do Damaso foi, na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria
Tarde
onde ella fôra publicada, n'estas amaveis palavras:
—«O nosso amigo e distincto
sportman
Damaso Salcede parte brevemente para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante
touriste
todas as prosperidades na sua bella excursão ao paiz do canto e das artes.»
VI
Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
—Então, definitivamente, v. exc.
a
não vem ao sarau da Trindade?...
Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que lhe cantava entre os dedos:
—Não me interessa, estou muito cançada...
—É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde um christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia... Ora a snr.
a
D. Maria, n'este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa tambem rara,—a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao mesmo tempo nua e de casaca.
—Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!
Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
—Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá, Carlos, mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
—Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do
Hamlet
. Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais tarde...
Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d'
Ophelia
, de que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
Pâle et blonde, Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e tons d'ouro esfiado no cabello—o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos! Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente, d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!
—Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a canção d'
Ophelia
.
Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
—É esse grande orador de que fallavam na
Toca
?
Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente, homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar,
n'uma voz
de theatro e de papo, combinações sonoras de palavras...
—Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como um passaro n'um galho d'arvore...
—É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é deliciosa...
Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar fórma ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo...
—E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho secca-se e berra!
—Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista, que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo
sport
, pelos musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, voar á
Trindade
, n'um receio de perder o Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
—Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia d'ideal!...
—E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
—Melhores poetas, affirmou Carlos.
—Bons charutos!
—Bom cognac!
Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está como se pervertia um cidadão, impedindo-o de proteger as letras patrias—com promessas perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma razão litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
Meditações d'Outono
, e era necessario dar palmas ao Cruges.
—Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.
E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, tão clara e dôce, seguiam devagar pela rua—onde Carlos ainda duas vezes se voltou para olhar as janellas alumiadas.
—Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do Ega, em ter deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado de cavaco e de litteratura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto ao lado n'um
fumoir
forrado com as suas colchas da India, depois ter um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Além d'isso havia a lançar a
Revista
, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto annunciava um inverno
chic a valer
, como dizia o defunto Damaso.
—E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente, menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
—Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
—É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
—E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos, que dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse o Cruges...
—Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica!
E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés, segredando—sentiram logo um vozeirão tumido, garganteado, provinciano, de vogaes arrastadas em canto, invocando lá do fundo, do estrado, «a alma religiosa de Lamartine!...»
—É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que não passára da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéos de senhoras picados por manchas claras de plumas ou flôres. Em volta, de pé, encostados aos pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua gaforinha ao vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sêda branca; e, n'um grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendonça, o Pinheiro, assistindo áquelle
sport
da eloquencia com uma mistura d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com um botão de camelia na casaca mal feita.
O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além uma tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenço. E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo, «o
Anjo da Esmola
que elle entrevira, além no azul, batendo as azas de setim...» Ega não comprehendia bem—entalado entre um padre muito gordo que pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim não se conteve:—«Sobre que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou, com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
—Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime... Infelizmente está a acabar!
Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára o lenço, limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado, voltando-se para as cadeiras reaes com um tão ardente gesto d'inspiração—que o collete repuxado descobriu o começo da ceroula. Foi então que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola que deslumbrava o Rufino—porque elle, «como todos os homens educados pela philosophia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia não só a sua belleza poetica, mas a sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada, para a incomparavel poesia da mão calçada de fina luva que se estende para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»
De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando em baixo um berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoção. Um commissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do tablado, com o seu laçarote de sêda vermelha na casaca, dardejando severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam «
chut, silencio,
fóra!
» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de Craben. Todo o rumor findava—e o Rufino, que molhára lentamente os labios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:
—Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental d'este seculo...
Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para desabafar com Carlos.
—Tu imaginavas uma besta assim?
—Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.
—E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente «
bonsoir, messieurs
...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
—Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?
—Merci...
Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se, enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham fallado...
Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
—Em qual génerro?...
—Genero sublime, genero de Demosthenes!
Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.
Ruffino, no entanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus irrefutavelmente,—elle fôra dilacerado pelo espinho da descrença! Sim, quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam murmurar «
muito bem, muito bem
...»
Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a Natureza que atacava seus filhos!—E lançando os braços, como quem se debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando um botão de rosa e um berço!...
Os
bravos
partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: «Que rajadas!... Caramba!... Sublime!...»
Rufino sorria, bebendo esta commoção, que era a obra do seu verbo. Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e vazias...
Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvação, para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da caridade? d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega covardemente a alma? das sêccas escólas de philosophia que fazem de Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo, submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço divino, murmurára: «Venho d'além!»
Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o sol, este radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia alli, com a mão sobre o coração, affirmar a todos bem alto—havia um céo!
—Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos, affirmaram soberbamente o céo!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os bigodes.
—Que te parece, Thomaz?
—Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da democracia e da liberdade, vir aquelle pulha pôr-se alli a lamber os pés á familia real... Era simplesmente ascoroso!
Lá ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraços, de comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando das charuteiras. Então o poeta travou do braço do Ega:
—Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães, o tio do Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que é uma coisa séria, muito séria... Está lá em baixo no botequim, com um
grog
.
Ega pareceu surprehendido... Coisa séria!?
—Bem, vamos nós lá baixo tomar tambem um
grog
! E que recitas tu logo, Alencar?
—
A Democracia
, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. Uma coisita nova, tu verás... São algumas verdades duras a toda essa burguezia...
Estavam á porta do botequim—e precisamente o snr. Guimarães sahia, com o chapéo sobre o olho, de charuto accêso, abotoando a sobrecasaca. Alencar lançou a apresentação, com immensa gravidade:
—O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo Guimarães, um bravo cá dos nossos, um veterano da Democracia.
Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
—Tomei agora o meu
grog
de guerra, disse o snr. Guimarães com seccura, tenho para toda a noite.
Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mão pelas barbas a retocar a magestade da face, o snr. Guimarães começou com lentidão e solemnidade:
—Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar para me apresentar a v. exc.
a
, com o fim de o intimar a que olhe bem para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
—V. exc.
a
refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
—Carta que v. exc.
a
dictou! Carta que v. exc.
a
o forçou a assignar!
—Eu?...
—Affirmou-m'o elle, senhor!
Alencar interveio:
—Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra de curiosos...
O snr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha estado, contou elle, havia semanas fóra de Lisboa por negocios da herança de seu irmão. Não vira o sobrinho, porque só por necessidade se encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o Vaz Forte, deitára por acaso os olhos ao
Futuro
, um jornal republicano, bem escripto, mas frouxo de idéas. E avistára logo na primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica aliás justa
Coisas do high-life
, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes termos: «Li a tua infame declaração. Se ámanhã não fazes outra, em todos os jornaes, dizendo que não tinhas intenção de me incluir entre os bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!» Assim lhe escrevera. E sabia o snr. João da Ega qual fôra a resposta do snr. Damaso?
—Tenho-a aqui, é um
documento humano
, como diz o amigo Zola! Aqui está... Grande papel, monogramma d'ouro, corôa de conde. Aquelle asno! Quer v. exc.
a
que eu leia?
A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
—«Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. João da Ega. Eu era incapaz de tal desacato á nossa querida familia. Foi elle que me agarrou na mão, á força, para eu assignar: e eu, n'aquella atrapalhação, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios. Foi um laço que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe como eu gósto de si, que até estava o anno passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de Collares, não fique pois zangado commigo. Bem infeliz já eu sou! E se quizer procure esse João da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de tirar uma vingança que ha de ser fallada! Ainda não decidi qual, n'esta atarantação; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a minha dignidade... E se o não fiz já antes de partir para Italia, se ainda não pugnei pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me não tenho nas pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...» V. exc.
a
ri-se, snr. Ega?
—Pois que quer v. exc.
a
que eu faça? balbuciou o Ega por fim, suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se v. exc.
a
Isso é extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria...
O snr. Guimarães, embaçado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob os longos bigodes, e terminou por dizer:
—Com effeito, a carta é d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
Então Ega appellou para o bom senso do snr. Guimarães, para a sua experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros, indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?...
O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco natural.
—E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria! E diga-me o snr. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico?
O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
—Um refinado mentiroso.
—Então! gritou Ega em triumpho, atirando os braços ao ar.
De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente finda. E não restava senão os dois apertarem-se a mão fraternalmente, como bons democratas...
Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria, estendia a mão ao snr. Guimarães. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, desejou que o snr. João da Ega (se n'isso não tinha duvida) declarasse, alli diante do amigo Alencar, que não lhe achava a elle, Guimarães, cara de bebedo...
—Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito cavalheiro e d'um patriota!
Então trocaram um rasgado aperto de mãos—emquanto o snr. Guimarães affirmava a sua satisfação por conhecer o snr. João da Ega, moço de tantos dotes e tão liberal. E quando s. exc.
a
quizesse qualquer coisa, politica ou litteraria, era escrever este endereço bem conhecido no mundo:—
Redaction du
Rappel
,
Paris!
Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do sarau. O snr. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, quasi lhe gritára cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?»
Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
—Oh snr.
a
baroneza, então já nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dôr de cabeça que a torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficára lá um homemzinho a fazer musica classica...
—É o meu amigo Cruges!
—Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o
Pirolito
.
—V. exc.
a
afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.
a
D. Joanna!... Um servo seu, snr.
a
baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de cabeça!
Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
—Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus.
—Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça, snr.
a
baroneza!
O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca—o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas, bocejavam por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle musico de cabelleira.
—Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era composição d'elle, aquella coisa triste?
—É de Beethoven, snr.
a
D. Maria da Cunha, a
Sonata pathetica
.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de saes, disse que era a
Sonata pateta
. Por toda a bancada foi um rastilho de risos suffocados. A
Sonata pateta
! Aquillo parecia divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e côr de papoula:
—Muito bem, snr.
a
marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á marqueza, entre o
frou-frou
dos leques. Ella triumphava, bella e séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os saes—emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a
Tarde
. E cahido sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção rumorosa, atabalhoava as notas, n'uma debandada.
—Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com anciedade... Um
chut
furioso do amador de barbas grisalhas emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, arredára o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram á porta, onde já esperavam o marquez, o Craft, o Taveira—para abraçar, consolar o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguem ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o
Estado agricola da provincia do Minho
. Atraz, um criado veio collocar sobre a mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, onde por vezes destacavam como gemidos—«riqueza dos gados..., esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida região...»
Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os
chuts
do commissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em concha sobre a orelha.
Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho», achou-se em frente do snr. Guimarães.
—Que massada, hein?
O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da casaca do Ega:
—Eu espero que v. exc.
a
ha pouco não ficasse com a impressão de que eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães não tinha pelo Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
—Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.
a
sabe, é filho d'um agiota!
Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
—A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraçado casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, já v. exc.
a
vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim
blague
e mais
blague
! Mas emfim os factos são os factos, a historia de Portugal ahi está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.
Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
—E v. exc.
a
então parte brevemente para Paris?
—Ámanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se póde lá respirar...
N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se, a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.
—A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!
—Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião anarchista. Até me affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que é um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera:
Ce sacré Guimaran, il nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière!
Eu não estava lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes não sabem pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno
Mr. Guimaran
. Ha dois annos, quando fui á Italia, era
Mr. Guimarini
. E se fôr agora á Russia, cá por coisas, hei de ser
Mr. Guimaroff
... Embirro que me estropiem o nome!
Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda, disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.
Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre fumaças furtivas de cigarro. E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma boa
bêtise
que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a proposito d'estrumes do Minho...
—Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um monstro classico. Até os conselheiros d'Estado já sabem que para elle a propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
O democrata encolheu os hombros:
—Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes pimpões d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
—O compadre! exclamou Ega, attonito.
Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em hespanhol:
«Hombre, compadre!
» E elle tambem, logo: «
Compadre, caramba!
» D'ahi ficára a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli!
—Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações do
Rappel
, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
—Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!
E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
—É um mundo! .. E aqui onde me vê, ainda não ha tres mezes que elle me disse uma coisa que me foi direita ao coração!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
—Foi uma noite no
Rappel
. Eu estava a escrever, elle appareceu, já um pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como se elle fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que tinha sempre:
Bonsoir, mon ami!
E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se aquelle
bonsoir
, aquelle
mon ami
, assim recordados, lhe fizessem mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles, pallido, d'olhos chammejantes:
—Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, não fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um cartão em grossas letras, que um criado collocára no piano, annunciava um «intervallo de dez minutos» como n'um circo. E n'esse instante a snr.
a
condessa de Gouvarinho sahira pelo braço do marido, deixando atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de chapéos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.
as
A condessa porém foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vão de janella. Ega immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se beijocassem.
—Então, snr.
a
condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do Rufino?
—Muito cançada... E que calor, hein?
—Horrivel. A snr.
a
baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de cabeça...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos da boca, murmurou:
—Não admira, isto não é divertido... Emfim, já agora é necessario levar a cruz ao Calvario.
—Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente é uma lyra!
Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada e viva, ficou logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiração pelo Ega, que era um dos seus sentimentos.
—Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que é feito do seu amigo Maia?
Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de Carlos, cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
—Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha rebrilharam com uma faisca de malicia:
—Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o Principe Tenebroso!
E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante dos braços do conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effusão em que parecia renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechára com odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
—Que calor, não é verdade?
—Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.
a
apanhar ar d'essa janella.
Ella forçou os labios brancos a um sorriso:
—É conselho de medico?
—Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta! É apenas caridade de christão.
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a marqueza de Soutal, para o reprehender por elle não ter apparecido terça-feira na rua de S. Marçal. Surprehendido com tanto interesse, tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, fôra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas...
—Além d'isso não imaginei que v. exc.
a
começasse a receber tão cedo... V. exc.
a
antigamente era só depois da Cerração da Velha. Até me lembro que o anno passado...
Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltára-se, pousando a mão carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impressão sobre o «nosso Rufino». Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
variedade d'escala
, aquella arte tão difficil de passar do solemne para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de linguagem. Extraordinario!
—Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas, outros muitos. Mas não são estes vôos, esta opulencia... É tudo muito sêcco, idéas e factos. Não entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem tão pujante, tão respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as azas de setim... É de primeira ordem.
Ega não se conteve:
—Eu acho esse genio um imbecil.
O conde sorriu, como á tonteria d'uma criança:
—São opiniões...
E estendeu em redor as mãos ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo—emquanto os seus correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o Gonçalo, o Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roçar pelo ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes e senhoras da «sociedade». O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz saber como o amigo Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O conde declarou para os lados que não fizera mais por ora do que passar em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De resto, em questões de trabalho, o ministerio fôra infelicissimo! O presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro...
—Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
—Está na mesma, vai ámanhã para o Dáfundo. Mas realmente esse não se acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: «Você parte para o Dáfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manhã dá os seus passeios, respira o bom ar... E á noite, depois de jantar, á luz do candieiro, entretem-se a resolver a questão de fazenda!»
Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate d'azafama, veio, furando, annunciar a s. exc.
a
o fim do intervallo—offerecer o braço á snr.
a
condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas «terças-feiras», com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se em silencio. Era como se todo o passado, o sofá que rolava, a casa da titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de verbena—fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeça e as lunetas, como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia.
—Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem topete!
—Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixão, e agora continúa tranquillamente na rotina da vida.
—E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo, que a viste em camisa!... Bonito mundo!
Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braço, já preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no cache-nez de sêda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda lhe vinha a pregar uma!...
Depois, muito sério, considerando o Alencar:
—Ouve lá, isso que tu vaes recitar, a
Democracia
, é politica ou sentimento? Se é politica, raspo-me. Mas se é sentimento, e a humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, então fico, que d'isso gósto e até talvez me faça bem.
Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapéo, passou os dedos pelos anneis fôfos da grenha inspirada:
—Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam vocês Danton!... Mas já não fallo emfim d'esses leões da Revolução. Vejam vocês o Passos Manoel! Está claro, é necessario logica... Mas, tambem, caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de infinito!
Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão mais forte que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João de Castro e de Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era um maganão gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mão fechada no ar como se agitasse o pendão das Quinas, lamentava aos berros que nós portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e tão formosas tradições de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do indifferentismo, a sublime herança dos avós!...
—É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que, agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o convés d'uma caravella a ir levar o nome portuguez através dos mares desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande João de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores de fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...
—Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão, n'um tedio completo de «todas as nossas glorias». E Carlos, enervado, preso alli pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a impaciencia—quando viu o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando á pressa um paletot alvadio. Não o encontrára mais desde a infamia da
Corneta
, em que elle fôra «embaixador». E a cólera que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel de o espancar. Disse ao Ega:
—Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as orelhas áquelle maroto!
—Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!
Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera para os lados do Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria, áquella hora deserto, mudo, com dois bicos de gaz mortiços. Ao vêr Carlos fender assim sobre elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, encolhido, balbuciou atarantadamente: «Olá, por aqui...»
—Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então tambem andaste mettido n'essa maroteira da
Corneta
? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mão de forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa aversão nunca apagada—que já em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo coberto de luto que lhe rolára nas lages, dançava, escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.
—Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas. Mas Ega interveio:
—Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...
Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de bruços, Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.
O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baços. Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenço o pescoço e a face, exclamando com o cansaço radiante d'um triumphador:
—Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de duas velas.
Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de tanta solemnidade.
—
A Democracia!
annunciou o auctor d'
Elvira
, com a pompa d'uma revelação.
Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois atirou para a mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado e largo:
Era n'um parque. O luar Sobre os vastos arvoredos, Cheios de amor e segredos...
—Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É sentimento... Aposto que é o festim!
E era com effeito o festim, já cantado na
Flôr de Martyrio
, festim romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de luar, tudo são «risos, brindes, lascivos murmurios»—fóra, junto ás grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho que pede pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado dos homens para a Justiça e para a Igualdade? De que servira então a cruz do grande Martyr, erguida além na collina, onde, por entre os abetos
Os raios do sol se somem, O vento triste se cala... E as aguias revolteando D'entre as nuvens estão olhando Morrer o filho do Homem!
A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo no ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse impotente para esta coisa simples—dar pão á criança que chora!
Martyrio do coração! Espanto da consciencia! Que toda a humana sciencia Não solva a negra questão!
Que os tempos passem e rolem E nenhuma luz assome, E eu veja d'um lado a fome E do outro a indigestão!
Ega torcia-se, fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «
E do outro a indigestão!
» Nunca, nas alturas lyricas, se gritára nada tão extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle
realismo
sujo. Um jocoso lembrou que para indigestões já havia o bi-carbonato de potassa.
—Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que alargava a fivela do collete.
Mas tudo emmudeceu ante um
chut
terrivel do marquez, que desapertára o cache-nez, já excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achára a solução do soffrimento humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz sahida do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada, viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até á Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de mogno fosse um pulpito e uma barricada—o Alencar, alçando a fronte n'uma grande audacia á Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a Republica!
Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão e do Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços ao Operario! Aquella que é Aurora, Consolação, Refugio, Estrella mystica e Pomba...
Pomba da Fraternidade, Que estendendo as brancas azas Por sobre os humanos lodos, Envolve os seus filhos todos Na mesma santa Igualdade!...
Em cima, na galeria, resoou um
bravo
ardente. E immediatamente, para o suffocar, sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut, silencio!» Então Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:
—Bravo! Muito bem! Bravo!
E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os lados:
—Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se dêem ares intolerantes, isso não! Então applaudo eu!
E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, não se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de tão grande linhagem, reforçaram os
bravos
com calor. Já pela sala se voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revolução. Mas um silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da Republica? Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão justa estendida ao proletario? Era a esperança? Era a aurora?
Receaes a grande luz? Tendes medo do Abecê?... Então castigai quem lê, Voltai á plebe soez! Recuai sempre na Historia, Apagai o gaz nas ruas, Deixai as crianças nuas, E venha a forca outra vez!
Palmas, mais numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já não importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braços abertos, annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, não vermelha mas branca, elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as nações cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque Alencar não queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o Christianismo, como um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se, estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da Convenção! E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes, nem missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só de pureza e de fé, reza nos campos; a lua cheia é hostia; os rouxinoes entoam o
tantum ergo
nos ramos dos loureiraes. E tudo prospéra, tudo refulge—ao mundo do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...
Á espada succede o arado, A Justiça ri da Morte, A escóla está livre e forte, E a Bastilha derrocada. Róla a tiára no lodo, Brota o lirio da Igualdade, E uma nova Humanidade Planta a cruz na barricada!
Uma rajada farta e franca de
bravos
fez oscillar as chammas do gaz! Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito, levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas, no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando Alencar, alçando os braços ao tecto, com modulações de
preghiera
na voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera o vôo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz—foi um enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já se Essa, que se invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade—ou Nossa Senhora das Dôres.
Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já Ella tocava com os seus pés divinos os valles humanos. Já do seu seio fecundo trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:
As rosas têm mais aroma! Os fructos têm mais doçura! Brilha a alma clara e pura, Solta de sombras e véos... Foge a dôr espavorida, Foi-se a fome, foi-se a guerra, O homem canta na terra, E Christo sorri nos céos!...
Uma acclamação rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de canario. Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços brancos fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada até aos braços que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava: «filhos! rapazes!...» Quando Ega correu do fundo, com Carlos, gritando—«Fôste extraordinario, Thomaz!»—as lagrimas saltaram dos olhos do Alencar, quebrado todo d'emoção.
E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas pelo hombro, de
shake-hands
da gente séria, de «muitos parabens a v. exc.