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Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

CARTA.

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Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer.

Senhor, a dada Perdiz, Acerejada, e fresquinha, Veio emendar os estragos Da enjoativa gallinha;

Esta ave he sempre odioza A melancólicos dentes; Faz lembrar ultimos caldos De já perdidos doentes;

He, além disto, hum cruzado Fugido do mialheiro; Este meu mortal fastio Custou rios de dinheiro;

Mas da vossa lauta meza Bocados medicinais Forão tão bem applicados, Que me curárão de mais;

Venceo vosso cozinheiro O tal fastio cruel; Meu estomago já pede Meças com Fr. Manoel;

Mas, Senhor, vossa piedade Vai ser-vos hum dom fatal; Quizestes fazer hum bem, Que redunda em vosso mal;

Fizestes nascer a fome, E a fome pede mantença; Se a deixais entregue a mim, Póde morrer á nascença;

A vossa filha amparai; Não he de peitos honrados Pôr as suas Creaturas Na Roda dos Engeitados.

Em soando as duas horas, Sabei que esta cara minha Tem longos, ávidos olhos, Fitos na vossa Cozinha;

Eu não vou, porque inda fraco, Indo arrostar ar delgado, Antes de matar a fome, Morreria constipado.

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