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Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

CARTA

Reading edition

A hum Camarista, tendo o A. sido despachado.

A rara benignidade, Que quiz o Ceo conceder-vos, Permitta que de escrever-vos, Tome eu hoje a liberdade; Pois tendes tanta bondade, Peço, nella confiado, Que por mim ajoelhado, E na bocca o coração, Beijeis ao Principe a mão, E lhe deis este recado.

=Dizei, pois, a Sua Alteza, Que eu, seu humilde Afilhado, Por elle ha pouco arrancado D'entre os braços da pobreza, Na simples, mas farta meza, Entre os Irmãos, e os Parentes, Aos Ceos, com votos ardentes, Pedimos, que em paga justa, Prosperem a Mão Augusta, Que nos faz viver contentes:

E se entre as puras verdades, Que Vós lhe podeis contar, Virdes, que terão lugar Algumas jovialidades, Pintai-lhe as felicidades, Que vai tendo a gente minha; Dizei-lhe que na Cozinha Ardem já montões de brazas; Que em todas as minhas cazas, Era a mais fresca, que eu tinha;

Que os enroupados Sobrinhos, Affrontando o vento frio, Vem todos mostrar ao Tio Os seus novos jozésinhos; Que então lhes conto, e aos vizinhos, Por quem a roupa foi dada; Que Mão, nunca assás louvada, Mão Real, piedoza, e justa, Me poz livre a Rua Augusta,[19] Por varios crimes vedada;

[Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]

Que hum Tendeiro, que os seus bens Me fiava, dando arrancos, Veio em barrete, e támancos Dar-me logo os parabens; Espera que os meus vintens O fação tambem feliz; Porque, segundo elle diz, Ha de haver na sua Tenda Mais sahida na fazenda, E menos gasto no giz.[20]

[Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]

Mas eu hum crime cometto, Quando de ensinar-vos trato; Quiz ser ao Principe grato, Mas fui comvosco indiscreto; Homem, como Vós, discreto Não preciza formulario; A Egoa do Seminario[21] Me deve os rompões cravar, Por eu querer ensinar O Padre nosso ao Vigario.

[Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]

A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim; e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão pertendia o Governo de hum Forte.

Minha respeitoza mão De seus limites não sai; A escritura, que aqui vai, Não he carta, he Petição; Até ante os Thronos vão Vozes em papel incluzas; As minhas não vão confuzas; São memorial mui claro; Sou Poeta, dai-me amparo, He obrigação das Muzas.

Não peço hoje para mim; Bem cuberto anda meu peito; Inda beijo, inda respeito Huma Vestia de Setim. Triste Irmão tem já no fim Farda rôta, e chamuscada; Tem má côr, e he mal fadada; Quer que a mão piedoza, e franca, Que a mim me deo Vestia branca, Lhe dê Cazaca encarnada.

Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja.

Em sege estreita entaipados, Sol á ilharga, Sol por cima, Vinha eu, e o Padre Lima Cheios de pó, e encalmados. Eis-que na estrada atacados,

Párão as mulas baratas; Cuidei eu que erão Piratas, Que tirão vida, e dinheiro, Fui ver se era o Clavineiro, E achei duas Açafatas.

Trazião a arma mais dura, Que nos peitos se tem posto, Trazião ambas no rosto O respeito, e a formozura. Querem sege mais segura, Porque a sua está quebrada; E em quanto o Padre na estrada Lhe diz palavras pompozas, As minhas mãos respeitozas Lhe affoufavão a almofada.

Trabalho infeliz fizerão, Porque meus Fados são tais, Que acceitando tudo o mais, A almofada não quizerão.[22] Debaixo dos pés puzerão

[Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]

Minha obra desprezada Senhor, não fazemos nada, Tomar vãos trabalhos oizas, Tem todas as minhas coízas O destino da almofada.

No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou.

Senhor, talvez neste dia Já cantei Versos polidos; Porém em tectos cahidos Não mora o Deos da Poezia. Voou; e da testa fria Me tirou o verde loiro, E das mãos a Lyra de oiro; Tudo em fim se foi co'a bréca; Mas se a Aganippe se séca, Não se ha de secar o Doiro.

Embora no velho caco Murche o cansado miôlo; Se os loiros lhe tira Apollo, Com parras o adorna Baccho; Põe mira meu peito fraco Nos vossos puros almudes; E em honra de mil virtudes, De mil talentos diversos, Em vez de fazer dois Versos, Farei duas mil saûdes.

Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza.

Devo pouco á Natureza, E muito a hum brinco innocente; Porque elle me faz parente Da mais distinta Nobreza. Embora esquiva riqueza Pretas fortes me não mande; Qne importa que ha annos ande Sempre a perder nas menores, Se nas dos premios maiores Me sahio o premio grande.

Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da Mizericordia.

Que fazem Versos cansados, Applaudindo os vossos Annos, Se dos nossos Soberanos São melhor elogiados? Se os trazem sempre empregados Em servir a Monarquia, Se a Real Secretaria Escreve em vosso favor, Taes prozas louvão melhor, Do que a melhor Poezia.

Da vossa dexteridade Fião coizas encontradas; Dão-vos as duas estradas, A do Sangue, e da Piedade. Vivei pois comprida idade

Sempre entre Povos amigos; Mas se crescerem perigos, Cresceráõ as acções nobres; E a mão que defende os Pobres, Cortará os Inimigos.

No dia dos annos do mesmo Senhor.

A Minha Muza cansada, Perdendo os vôos ligeiros, E ao pé de murchos loireiros Com razão apozentada, Hoje, Senhor, animada Do amor, e da gratidão, Esquecendo a multidão De frios cabellos brancos, Vem, forcejando os pés mancos, Metter-me a Lyra na mão.

Gratidão seus passos rege; Quer que em limada Poezia Venha louvar neste dia Quem em todos me protege; Nas cordas de oiro, que elege, Quer, que invocando as Camenas, Eu cante as horas serenas Em que o Ceo piedozo, e justo Para o lado de hum Augusto Me fez nascer hum Mecenas.

Eu respondi, que a harmonia Me fugio co'a mocidade; E que a sólida verdade Não depende da Poezia; Que em proza sempre seguia Seu acertado conselho; E que em fim Poeta velho Por teima querer rimar, He o mesmo que ir dançar O vosso ginja, Botelho.[23]

[Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]

Ao mesmo Senhor em outro dia de annos.

Senhor, co'as minhas Poezias Festejava os annos teus; Porém mandão já os meus, Que eu venha co'as mãos vazias; Geladas madeixas frias Fechão do Parnazo o passo; Pois que já o Tempo escaço Esfriar meus Versos quiz, Quem me acceitou os que fiz, Me agradeça os que não faço.

Mas he da tua Grandeza, E a tal dia acção adquada, Inda que não trago nada, Não perder a Caza, e a meza; Por culpas da Natureza Não perca os meus ordenados; Cubrão teus tectos doirados Inutil, mudo Jarrêta; Não o merece o Poeta, Mas he costume aos Creados.

Ao mesmo Senhor em outro dia de annos.

Neste venturozo Dia, Honrado, e honrador Marquez, Sempre eu vim a vossos pés Trazer a offerta em Poezia; Ante Vós a Lyra erguia Humilde, alegre, e casquilho; Mas hoje mudando o trilho, A bem, Senhor, me levai, Que sendo os annos do Pai, Dê a Colgadura ao Filho.

Moço Illustre, eu dou conselhos, Filhos de, amor, e verdade; Permittida liberdade Aos fieis Creados velhos; Ouvi: Bons Pais são espelhos; Dão doutrinas sem enganos; E eu rogo aos Ceos Soberanos, Que ao vosso ouvindo as lições, Sejão as vosss acções O elogio dos seus Annos.

Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de Marrocos.

Na Quinta da Praia clama, Que lhe tireis a Cadeira Hum triste, que quarta feira Comvosco esteve em Moirama: Se a Estrella, que a Vós o chama, Não lhe abranda os seus destinos, Torna para os Marroquinos; Porque, agoiros por agoiros, Antes cativo de Moiros, Do que Mestre de Meninos.

No dia dos Annos de hum Menino.

De plumachos emplumado, Manso, alegre Cavallinho, Ou torneado carrinho D'alvos Carneiros puchado, Devião marchar ao lado Deste papel que remetto; Mas mostrando o meu affecto Como póde o meu destino, Em obzequio de hum Menino, Vou dar aos outros Suéto.

Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos.

A Lei da pura amizade Minhas lagrimas condemna; Quer que ceda a minha pena A' tua felicidade; Vai; e em quanto a vil maldade,

E a intrigante cubiça, A baixa inveja, a injustiça Pézas na recta balança, Conserva de mim lembrança, Que he tambem fazer justiça.

E vós, lindos Innocentes, Que nessas tenras idades Já sabeis mover saudades Nos amigos, nos parentes, Quando lhe virdes pendentes As balanças da razão, Ide internecello então Com rizos, com géstos novos; Lembrai-lhe, que aquelles Povos, Como vós, seus filhos são.

A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho.

Se vemos rir quem chorava, E tantos exemplos temos, Senhor, não desesperemos, Deos ainda está onde estava: Água branda as pedras cava; Em tudo o tempo he precizo; Saber teimar com juizo Tem mil montes aplanado; Talvez sejais despachado, E talvez que eu lavre o Avizo.

Ah Senhor, com que alvoroço, Na liza banca forrada, Eu de cazaca encarnada, E fitta preta ao pescoço Lançára o despacho vosso, Que tanto tempo esqueceo! Que grande favor do Ceo, Se o meu primeiro exercicio Fosse servir-me do Officio A favor de quem mo deo!

A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este

MOTE.

Não tem côr de Cardeal

Não ajuda ao Padre a cara; Revolvo antigos Annaes, E vejo que os Cardeaes Tinhão a pelle mais clara; Será maravilha rara Achar hum de côr igual; Forão brancos como a cal Mazarino, e Alberoni; E a não ser este o Negroni, Não tem côr de Cardeal.

Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes:

Que venhão fuscos garraios Metter em Versos a mão! Potente Jove, aonde estão Os teus vingadores raios? Hum homem de coiros baios Segue as Muzas tuas filhas; Tu, pois, que os vaidozos trilhas, Faze que este, em todo o cazo, Saia logo do Parnazo, E passe para Cassilhas.

Se em rhetorico exercicio Já soubeste regras dar, Tambem eu posso fallar, Porque sou do mesmo officio; Que o teu cérebro tem vicio, He verdade assás notoria; Na Poezia, e na Oratoria Vaz em total decadencia; Collega, tem paciencia, Has de vir á palmatoria.

No teu escuro Papel, Aos bons ouvidos ingrato; Achei hum vivo retrato Da confuzao de Babel; A' patria lingua infiel Ès da Nação o desdoiro; Bem sei que te chego ao coiro; Mas não merece passagem, Que a batina, e a linguagem Ajuntem Clerigo, e Moiro.

A quem me queira arguir, Mostro, Padre, o tal Papel; He testemunha fiel, Não me deixará mentir; Em novos termos urdir Mettes a todos n'um canto; Que uzas palavras de encanto Assentão gentes maxuchas, Boas para ajuntar bruchas, Ou para tirar quebranto;

Deixei-me, pois, de criterio, E tomei melhor caminho; Meu amigo, a hum louquinho He loucura fallar serio; Chova, pois, o vituperio Sobre esse tostado coiro; Saia o tal Cardeal Moiro, Que o Capinha, alvoroçado, Vai, por ordem do Senado, Metter garrochas no toiro.

Fulla escrava Americana Já mandava á luz do dia Hum Crioilo, que seria Nódoa da Curia Romana; Carregado de banana, Porque no caminho coma, O rumo da Europa toma; E em terra, marchando á pata, Com sacco, e folha de lata, Deo a sua entrada em Roma.

Assim mesmo estropeado, E envolvido em grosso panno, Foi entre o Povo Romano Com mil respeitos tratado; Do vento, e do Sol queimado, Semblante quebrado, e afflito, Tem tal dom na cara escrito, Que gritavão de redor, Huns, que he o Rei Belxior, Outros, que he S. Benedito.

Tomou a Benção Papal; E teve tanto poder, Que sem o Papa o saber, Ficou feiro Cardeal; Voltou para Portugal Já Cardeal Protector; Achou cá pouco favor; E zombão-lhe do Capello, Por ter mui crespo o cabello, E ser muito bassa a côr.

Erra o Vulgo os passos seus; He hum cego, e maldizente; A côr he méro accidente, Todos são filhos de Deos. Porém para os lucros teus O Capello te faz mal; No S. João, e Natal Terias gôrda guedelha, Armado de faca velha, Pincel, e pote de cal.

Padre, vai-te o mundo ao pêllo; E c'o a lingua maldizente Te vai cortando igualmente As Poezias, e o Capello; Porém eu, que sou singelo, E meus contrarios ameigo, Te affirmo, piedozo, e meigo, Que se não tens, por teu mal, Em Roma o de Cardeal, Tens no Parnazo o de Leigo.

Deves voltar outra vez, E dizem que nisso fallas; Mas pégão-se pelas sallas Teus molles tardîos pés. Se ajuda de custo vês,[24] Fazes-te côxo, e ronceiro; Meu Padre, és muito matreiro, Já todos estão de acôrdo; E sem te verem a bórdo, Não pões a mão no dinheiro.

[Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

Tua saude se estraga, Mas teu Medico condemno; Meu amigo, o teu veneno Não se cura com triaga; Para a tua antiga chaga Medicina impropria he esta; Muda, pois vês que não presta; Grita c'os olhos em braza, Que te fechem n'uma caza, E que te sangrem na testa.

De balde em Lisboa gritas, Attestando a Italia inteira, Que regeste huma Cadeira Nos Claustros dos Jezuitas; As obras que vejo escritas Provão que nos tens mentido; Até das Ordens duvido, Quando as tem cabeças tontas; Tu, cá pelas minhas contas, Ès hum mulato fugido.

Foge outra vez, se tal és, Qual foge apupado mono; Antes que venha teu dono, E te ponha nas Galés; Antes que enfeite teus pés Legal, sonóro fuzil; Não veja o patrio Brazil, Que os hombros do filho bello, Vindo buscar hum Capello, Só achárão hum barril.

Dizem todos, que és fingido, Que ninguem louco te chame; Por mais que eu lhe jure, e clame, Que és mesmo doido varrido; Dizem que estás conhecido, E que o fazes por estudo; Em tal cazo prompto acudo, E de outro lado te ataco; Se não és doido, és velhaco, E talvez que sejas tudo.

Mas já quem póde me ordena, Que armas ponhamos em terra; Apôs sanguinoza guerra, Alce a frente a Paz serena; Sobre essa pelle morena Em paz teu Capello ajusta; Assento que he coiza justa Seguires methodo novo, E não dares gosto ao Povo, Que quer rir á tua custa.

Não te finge falso agrado Meu semblante contrafeito; Não encobre honrado peito Coração refalseado; Se me julgas disfarçado, Alta injustiça me fazes; Eu te juro eternas pazes; E se falto aos votos meus, Ah Padre, permitta Deos Que eu sempre ensine rapazes.

E tu, que sem estes sustos Vives cheio de alegrias, Serenos, doirados dias, Aos pés de teus Reis Augustos; Tu, que por titulos justos Te chamas o novo Horacio, Quando entrares em Palacio Conserva de mim lembranças, Porque tenho as esperanças Postas em ti, e no Estacio.[25]

[Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]

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