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Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

CARTA.

Reading edition

Pedindo-se ao Author huma Gloza.

Menino, dizer finezas, Só o proprio Pertendente; Amor não póde imitar-se, Só o pinta quem o sente;

Se adora alguma Nerina, Se he para ella a tal Gloza, Que vão fazer os meus Versos, Onde está a sua proza?

Além disso, essa figura, Faces tenras, e córadas, Fallão mais discretamente, Que mil Cantigas glozadas;

Lenço nas pontas bordado, Cipó, tízicas fivellas, Sobre hum corpo assim talhado, Se eu gósto, que farão ellas?

Versos são mui fracas armas Para vencer corações; He clara a letra redonda, Leia a vida de Camões;

Sua divina Poezia Teve mui curtos poderes; Tratarão-no mal os homens, E inda peior as mulheres;

Pois entra de amor na estrada, Siga nella outro farol; Embuce-se a huma esquina, Soffra chuva, soffra Sol;

Erga alli o Altar do Amor; Queime alli humilde incenso; Suba ao alto do capote Branco, alcoviteiro lenso;

Que importa que os Çapateiros Dem assobio insultante, Se os negocios vão marchando Com passadas de Gigante?

Cem vezes na mesma tarde Pize esbelto a feliz rua; Alheias cadeias de aço, Relogio de hollanda crua;

Vá por aqui, que por Versos Dá em vão loucas passadas; São divertimento inutil, São as historias das Fadas;

Inda que para cantallos Lhe désse Garção a Lyra, Como hão de crer-lhe verdades Na linguagem da mentira?

Seja acérrimo chorão; Pranto entendem raparigas; Faça em lagrimas seu fundo, E não o faca em Cantigas;

Palêe co'estes remedios, Pois não tem o verdadeiro; He elle (aqui em segredo) O mílagrozo dinheiro;

Mas se teima em pedir Versos, E conselhos não supporta, Então perdôe, meu Menino, Póde bater a outra porta.

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