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Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

CARTA.

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Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos.

Pois que o talento inquieto Até em poezia provas, E queres ás mais desgraças Ajuntar desgraças novas;

Pois, que em galantes cantigas Teu Rival puzeste razo, E coroado de trovas Vás entrando no Parnazo,

Quero em trovas avizar-te, Que ha baixîos nesta barra; Vou ser Prégador trovista, Vou ser hum novo Bandarra;

A occupação de Poeta He nobre por natureza; Mas todo o Officio tem ossos, E os deste são, a pobreza;

Os dentes do bom Camões Sejão fieis testemunhas; Muitas vezes esfaimados Não achárão senão unhas;

Depois que seus frios olhos Se fechárão no Hospital Logo as Filhas da Memoria Lhe erguêrão Busto immortal;

De que serve honra tardia? Bem sei, que o rifão vem torto; Mas faz lembrar a cevada, Que se deo ao asno morto;

Só as Muzas o chorárão; E o enterro devia ser Como hoje nos pinta o Lobo O de João Xavier.

Homéro, o divino Homéro, Honra de antigas Idades, Por cujos inuteis ossos Brigárão sete Cidades;

Doces Versos recitando, Pela Grecia discorria; Tinha os Thezouros de Apollo, E esmola aos homens pedia;

Mas se de Authores antigos Tens tido pouco exercicio, Eu te aponto hum bem moderno, E até do teu mesmo Officio;

Foi este o famozo Quita, A quem triste fado ordena, Que a fome lhe traga o pentem, E da mão lhe tire a penna;

Em quanto na suja banca Pobre tarefa tecia, Seu espirito sublime Sobre o Parnazo se erguia;

Cozendo sobre o joelho Era dura, falsa cáveira, A sua alma conversava Com Bernardes, e Ferreira;

Mil vezes travêssas Muzas Da baixa obra o desvião; E mostrando-lhe o tinteiro, Pós, e banha lhe escondião;

Mas de que servem talentos A quem nasceo sem ventura? Vale mais, que cem Sonetos, A peior penteadura;

Amigo, vamos errados; Escolhemos muito mal; He o fado dos Poetas Não professarem real;

Péga no pardo baralho, E sobre a cama assentado, Fisga as biscas conhecidas Ao parceiro descuidado;

Matando boçaes tafûes, Vai mexendo os papelinhos; Nem poupes no cadafalso As gargantas dos Sobrinhos;

Em lhe vendo huma de seis, Arma-lhe os laços viscozos; Antes que lhe caia a xina Na ceira dos laparozos;

Imita ondados cabellos Co'rubro lápis na mão; Estas pinturas dão xina, As da Poezia, não;

Se em roda de loiras Ninfas Gyrão em torno teus ais, Em quanto lhe deres Versos, Acharás sempre Vestais;

Fallo como exprimentado; Fallo com peito sincero, Póde huuma vara de fitta, Mais que a Ilíada de Homéro;

No sonóro bandolim Fortuna as armas te deo; Não ha Dama, que rezista A' moda do Melibêo;

Toca-lhe mil contradanças; Mas se não tiverem Dom, Entre ellas não sevandiges O Fidalgo Cotilhom;

Nestas coizas he que eu creio; Poezia he mal fadada; Assenta, amigo Luiz, Que nunca servio de nada;

Poucas Damas a conhecem; Se a pedem, e se a festejão, Gostão do que não entendem, Pedem o que não dezejão;

Inda que por moda querem, Que lhes repitão Versinhos, Tem por modas de mais gosto Convulsões, e Jozézinhos;

Huma Venus me pedio, Por quem inda eu hoje peno, Que lhe fizesse hum Soneto, Inda que fosse pequeno;

Dinheiro, invisto dinheiro, Só em ti he que eu me fundo; Tens o Direito da força, És o Tyranno do Mundo;

Amigo, escolhe hum Paralta, Corpo esbelto, perna teza, O chapeo tocando as nuvens, As fivellas á Malteza;

Ornem-lhe loiros canudos, Pendentes com igualdade, Tenras faces, onde morão A Saûde, e a Mocidade;

Chegue á bocca rubicunda Cheirozo lenço anilado; Dê bilhetinho discreto, De huma Novela furtado;

Põe da outra parte hum Ginja, Fivella de oiro no pé, Bom vestido de lemiste, Boa meia grudifé;

Com óculos no nariz, Mas com a penna na mão, Assignando vinte letras Para Londres, e Amsterdão;

E dize-me, qual assentas, Que será o mais querido? Apósto, que as Damas todas Cuidão que o Velho he Cupido.

Amigo, tenho acabado O meu comprido Sermão; Préguei-te as altas verdades, Que trago no coração;

Abre mão das Poezias, Que nenhum prestimo tem; E cuida em sólidos meios De ganhar algum vintem;

Se dizes, que contra os Versos, Em Verso huma Carta ordeno, E que aqui me contradigo, Praticando o que condemno;

A teu forçozo argumento Respondo com Fr. Thomaz; Faze o que o Prégador diz, Não faças o que elle faz.

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