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Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

CARTA

Reading edition

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente.

Senhor, se vos são acceitos Pobres Versos, mal limados, Entre vidros, e receitas, Em triste leito traçados;

Se de hum sombrio doente A fúnebre poezia Os prazeres não perturba Deste faustissimo Dia;

Consenti, que a branda Lyra, Por vós outr'ora escutada, E que teimoza molestia Tem ha muito pendurada;

Sobre este cansado peito, Ferida com debil mão, Mande ao Ceo singelos hymnos, Nascidos do coração;

Consenti, que eu louve o Dia, Para mim assinalado, Qne raia em nosso Horizonte, De nova luz coroado;

Dia, que vos vio nascer; E que quiz trazer comsigo Quem une ao nome de Grande, O santo nome de Amigo;

Quem não quer só a Nobreza De Illustres Antepassados; E mais ama huma virtude, Que cem Titulos herdados;

Quem sabe, que o vir honrar Dos pequenos a baixeza, He entre os que nascem Grandes A verdadeira Grandeza;

Quem a favor de infelizes Traz sempre occupada a idéa; E estima a fortuna propria, Só para fazer a alhea;

Cem vezes, formozo Dia, Vem o Horizonte doirar; Nunca possão negros ventos Tuas luzes perturbar;

Tu nos déste em peito illustre, Que se doe de alheios ais, Hum coração adornado De mil Virtudes Morais;

Senhor, eu não doiro enganos, Que venal lizonja approva; Sabidas verdades digo, E sou dellas huima prova;

Sou hum dos muitos exemplos Do vosso bom coração; A minha felicidade Foi obra da vossa mão;

Razoando em meu favor Contra teimozos destinos, Felizmente pleiteastes A cauza dos meus Meninos;

Ao bom Principe pedistes, Que com mão compadecida, Lhes concedesse humas ferias, Que durassem toda a vida;

Pedistes depois, Senhor, Que a sua Real Grandeza Se dignasse de arrancar-me D'entre os braços da pobreza;

Sei que nelle he natural Ter dó das alheias penas: Mas ouve-as melhor Augusto, Quando lhas conta Mecenas;

Por este modo alegrastes A triste familia minha; E em caza nos levantastes O Interdicto da Cozinha:

Já hum segundo Frizão, Pendurada a lingua velha, Dá reboque, como póde, A' antiga meia parelha;

Já o sórdido Gallego, Meu antigo companheiro, De gravata, e carrapito Arvorado em Boleeiro;

Açoitando surdas ancas De dois Sendeiros roazes, No mesmo Bairro apregôa, Ora barrîs; ora pazes;

Mas, Senhor, deixando graças, Pois não as pede a materia, E pedindo á minha Muza, Que seja comvosco séria;

Rogo ao Ceo vos dê mil annos, Já que são tão bem gastados; Annos que achareis depois Em Livro de Oiro apontados;

E se em dia de Mercês Ides de Semana entrar, Seja a Mercê destes Annos O meu nome apprezentar.

Ao Principe, ajoelhando, Em favoravel momento, Por mim, Senhor, lhe jurai Eterno agradecimento;

E eu, em largando este leito, Já sei a hora opportuna De poder ajoelhar-lhe, Quando elle chega á Tribuna;

E pondo-me ao pé do Ginja, Que na Náo Ajuda falla; E faz a todos os Glorias Continencias co'a vengalla;

Surdo á historia do naufragio, Com que elle ás vezes me afferra, Rezarei ao Deos do Ceo, E assistirei aos da Terra.

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