REDONDILHAS.
Reading edition
Sôbolos rios que vão Por Babylonia, me achei, Onde sentado chorei As lembranças de Sião, E quanto nella passei. Alli o rio corrente De meus olhos foi manado; E tudo bem comparado, Babylonia ao mal presente, Sião ao tempo passado. Alli lembranças contentes N'alma se representárão; E minhas cousas ausentes Se fizerão tão presentes, Como se nunca passárão. Alli, despois d'acordado, Co'o rosto banhado em ágoa, Deste sonho imaginado, Vi que todo o bem passado Não he gôsto, mas he mágoa. {10} E vi que todos os danos Se causavão das mudanças, E as mudanças dos anos; Onde vi quantos enganos Faz o tempo ás esperanças. Alli vi o maior bem Quão pouco espaço que dura; O mal quão depressa vem; E quão triste estado tem Quem se fia da ventura. Vi aquillo que mais val Qu'então s'entende melhor, Quando mais perdido for: Vi ao bem succeder mal, E ao mal muito peor. E vi com muito trabalho Comprar arrependimento: Vi nenhum contentamento; E vejo-me a mi, qu'espalho Tristes palavras ao vento. Bem são rios estas ágoas Com que banho este papel: Bem parece ser cruel Variedade de mágoas, E confusão de Babel. Como homem, que por exemplo Dos trances em que se achou, Despois que a guerra deixou, Pelas paredes do templo Suas armas pendurou: Assi, despois qu'assentei {11} Que tudo o tempo gastava, Da tristeza que tomei, Nos salgueiros pendurei Os orgãos com que cantava. Aquelle instrumento ledo Deixei da vida passada, Dizendo: Musica amada, Deixo-vos neste arvoredo Á memoria consagrada. Frauta minha, que tangendo Os montes fazieis vir Par'onde estaveis, correndo; E as ágoas, que hião descendo, Tornavão logo a subir; Jamais vos não ouvirão Os tigres, que s'amansavão; E as ovelhas, que pastavão, Das hervas se fartarão, Que por vos ouvir deixavão. Ja não fareis docemente Em rosas tornar abrolhos Na ribeira florecente; Nem poreis freio á corrente, E mais se for dos meus olhos. Não movereis a espessura, Nem podereis ja trazer Atraz vós a fonte pura; Pois não pudestes mover Desconcertos da ventura. Ficareis offerecida Á Fama, que sempre vela, {12} Frauta de mi tão querida; Porque mudando-se a vida, Se mudão os gostos della. Acha a tenra mocidade Prazeres accommodados; E logo a maior idade Ja sente por pouquidade Aquelles gostos passados. Hum gôsto, que hoje s'alcança, Á manhãa ja o não vejo: Assi nos traz a mudança D'esperança em esperança, E de desejo em desejo. Mas em vida tão escassa Qu'esperança será forte? Fraqueza da humana sorte, Que quanto da vida passa Está recitando a morte! Mas deixar nesta espessura O canto da mocidade: Não cuide a gente futura Que será obra da idade O que he fôrça da ventura. Qu'idade, tempo, e espanto De ver quão ligeiro passe, Nunca em mi puderão tanto, Que, postoque deixo o canto, A causa delle deixasse. Mas em tristezas e nojos, Em gôsto e contentamento; Por sol, por neve, por vento, {13} Tendré presente á los ojos Por quien muero tan contento. Orgãos e frauta deixava, Despôjo meu tão querido, No salgueiro que alli'stava, Que para tropheo ficava De quem me tinha vencido. Mas lembranças da affeição Que alli captivo me tinha, Me perguntárão então, Qu'era da musica minha, Que eu cantava em Sião? Que foi daquelle cantar, Das gentes tão celebrado? Porque o deixava de usar, Pois sempre ajuda a passar Qualquer trabalho passado? Canta o caminhante ledo No caminho trabalhoso Por entre o espêsso arvoredo; E de noite o temeroso Cantando refreia o medo. Canta o preso docemente, Os duros grilhões tocando; Canta o segador contente; E o trabalhador, cantando, O trabalho menos sente. Eu qu'estas cousas senti N'alma de mágoas tão cheia, Como dirá, respondi, Quem alheio está de si {14} Doce canto em terra alheia? Como poderá cantar Quem em chôro banha o peito? Porque, se quem trabalhar Canta por menos cansar, Eu só descansos engeito. Que não parece razão, Nem sería cousa idonia, Por abrandar a paixão Que cantasse em Babylonia As cantigas de Sião. Que quando a muita graveza De saudade quebrante Esta vital fortaleza, Antes morra de tristeza, Que por abrandá-la cante. Que se o fino pensamento Só na tristeza consiste, Não tenho medo ao tormento: Que morrer de puro triste, Que maior contentamento? Nem na frauta cantarei O que passo, e passei ja, Nem menos o escreverei; Porque a penna cansará, E eu não descansarei. Que se vida tão pequena S'accrescenta em terra estranha; E se Amor assi o ordena, Razão he que canse a penna D'escrever pena tamanha. {15} Porém, se para assentar O que sente o coração, A penna ja me cansar, Não canse para voar A memoria em Sião. Terra bem-aventurada, Se por algum movimento D'alma me fores tirada, Minha penna seja dada A perpétuo esquecimento. A pena deste destêrro, Qu'eu mais desejo esculpida Em pedra, ou em duro ferro, Essa nunca seja ouvida, Em castigo de meu êrro. E se eu cantar quizer Em Babylonia sujeito, Hierusalem, sem te ver, A voz, quando a mover, Se me congele no peito; A minha lingua se apegue Ás fauces, pois te perdi, S'em quanto viver assi Houver tempo, em que te negue, Ou que m'esqueça de ti. Mas ó tu, terra de glória. S'eu nunca vi tua essencia, Como me lembras na ausencia? Não me lembras na memoria, Senão na reminiscencia: Que a alma he taboa rasa, {16} Que com a escrita doutrina Celeste tanto imagina, Que vôa da propria casa, E sobe á patria divina. Não he logo a saudade Das terras onde nasceo A carne, mas he do Ceo, Daquella santa Cidade, Donde est'alma descendeo. E aquella humana figura, Que cá me póde alterar, Não he quem se ha de buscar; He raio da formosura, Que só se deve d'amar. Que os olhos, e a luz que ateia O fogo que cá sujeita, Não do sol, nem da candeia, He sombra daquella ideia, Qu'em Deos está mais perfeita. E os que cá me captivárão, São poderosos affeitos Qu'os corações tẽe sujeitos; Sophistas, que m'ensinárão Maos caminhos por direitos. Destes o mando tyrano M'obriga com desatino A cantar ao som do dano Cantares d'amor profano, Por versos d'amor divino. Mas eu, lustrado co'o santo Raio, na terra de dor, {17} De confusões e d'espanto Como hei de cantar o canto, Que só se deve ao Senhor? Tanto póde o beneficio Da graça que dá saude, Que ordena que a vida mude: E o qu'eu tomei por vício, Me faz grao para a virtude; E faz qu'este natural Amor, que tanto se préza, Suba da sombra ao real, Da particular belleza Para a belleza geral. Fique logo pendurada A frauta com que tangi, Ó Hierusalem sagrada, E tome a lyra dourada Para só cantar de ti; Não captivo e ferrolhado Na Babylonia infernal, Mas dos vicios desatado, E cá desta a ti levado, Patria minha natural. E s'eu mais der a cerviz A mundanos accidentes, Duros, tyrannos e urgentes, Risque-se quanto ja fiz Do grão livro dos viventes. E, tomando ja na mão A lyra santa e capaz D'outra mais alta invenção, {18} Calle-se esta confusão, Cante-se a visão de paz. Ouça-me o pastor e o rei, Retumbe este accento santo, Mova-se no mundo espanto; Que do que ja mal cantei A palinodia ja canto. A vós só me quero ir, Senhor, e grão Capitão Da alta tôrre de Sião, Á qual não posso subir, Se me vós não dais a mão. No grão dia singular, Que na lyra em douto som Hierusalem celebrar, Lembrae-vos de castigar Os ruins filhos de Edom. Aquelles que tintos vão No pobre sangue innocente, Soberbos co'o poder vão, Arrazá-los igualmente: Conheção que humanos são. E aquelle poder tão duro Dos affectos com que venho, Qu'encendem alma e engenho; Que ja m'entrárão o muro Do livre arbitrio que tenho; Estes, que tão furiosos Gritando vem a escalar-me, Maos espiritos damnosos, Que querem como forçosos {19} Do alicerce derribar-me; Derribae-os, fiquem sós, De fôrças fracos, imbelles; Porque não podemos nós, Nem com elles ir a vós, Nem sem vós tirar-nos delles. Não basta minha fraqueza Para me dar defensão, Se vós, santo Capitão, Nesta minha Fortaleza Não puzerdes guarnição. E tu, ó carne, qu'encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de miseria cheia, Que mil vezes te levantas Contra quem te senhoreia; Beato só póde ser Quem co'a ajuda celeste Contra ti prevalecer, E te vier a fazer O mal que lhe tu fizeste: Quem com disciplina crua Se fere mais que huma vez; Cuja alma, de vicios nua, Faz nodas na carne sua, Que ja a carne n'alma fez. E beato quem tomar Seus pensamentos recentes, E em nascendo os affogar, Por não virem a parar Em vicios graves e urgentes: {20} Quem com elles logo der Na pedra do furor santo, E batendo os desfizer Na Pedra, que veio a ser Emfim cabeça do canto: Quem logo, quando imagina Nos vicios da carne má, Os pensamentos declina Áquella Carne divina, Que na Cruz esteve ja. Quem do vil contentamento Cá deste mundo visibil, Quanto ao homem for possibil, Passar logo entendimento Para o mundo intelligibil; Alli achará alegria Em tudo perfeita, e cheia De tão suave harmonia, Que nem por pouca recreia, Nem por sobeja enfastia. Alli verá tão profundo Mysterio na summa Alteza, Que, vencida a natureza, Os mores faustos do mundo Julgue por maior baixeza. Ó tu, divino aposento, Minha patria singular, Se só com te imaginar, Tanto sobe o entendimento, Que fara se em ti se achar? Ditoso quem se partir {21} Para ti, terra excellente, Tão justo e tão penitente, Que despois de a ti subir, Lá descanse eternamente!
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CARTA A HUMA DAMA.
Querendo escrever hum dia O mal, que tanto estimei; Cuidando no que poria, Vi Amor que me dizia: Escreve, qu'eu notarei. E como para se ler Não era historia pequena A que de mi quiz fazer, Das azas tirou a penna Com que me fez escrever. E, logo como a tirou, Me disse: Aviva os espritos; Que pois em teu favor sou, Esta penna, que te dou, Fara voar teus escritos. E dando-me a padecer Tudo o que quiz que puzesse, Pude emfim delle dizer, Que me deo com qu'escrevesse O que me deo a escrever. Eu qu'este engano entendi, Disse-lhe: Qu'escreverei? Respondeo, dizendo assi: Altos effeitos de mi. {22} E daquella a quem te dei. E ja que te manifesto Todas minhas estranhezas, Escreve, pois que te prézas, Milagres d'hum claro gesto, E de quem o vio, tristezas. Ah Senhora, em quem se apura A fé de meu pensamento! Escutae e estae a tento, Que com vossa formosura Iguala Amor meu tormento. E, postoque tão remota Estejais de m'escutar Por me não remediar, Ouvi, que pois Amor nota, Milagres se hão de notar. Escrevem varios Authores, Que junto da clara fonte Do Ganges, os moradores Vivem do cheiro das flores Que nascem naquelle monte. Se os sentidos podem dar Mantimento ao viver, Não he logo d'espantar, S'estes vivem de cheirar, Que viva eu só de vos ver. Huma árvore se conhece, Que na geral alegria Ella tanto s'entristece, Que, como he noite, florece, E perde as flores de dia. {23} Eu, qu'em ver-vos sinto o preço Qu'em vossa vista consiste, Em a vendo m'entristeço, Porque sei que não mereço A glória de ver-me triste. Hum Rei de grande poder Com veneno foi criado, Porque, sendo costumado, Não lhe pudesse empecer, Se despois lhe fosse dado. Eu, que criei de pequena A vista a quanto padece, Desta sorte m'acontece, Que não me faz mal a pena, Senão quando me fallece. Quem da doença Real De longe enfêrmo se sente, Por segredo natural Fica são vendo somente Hum volatil animal. Do mal, que Amor em mi cria, Quando aquella Phenix vejo, São de todo ficaria; Mas fica-me hydropesia, Que quanto mais, mais desejo. Da vibora he verdadeiro, Se a consorte vai buscar, Qu'em se querendo juntar, Deixa a peçonha primeiro, Porque lh'impede o gerar. Assi quando m'apresento {24} Á vossa vista inhumana, A peçonha do tormento Deixo á parte, porque dana Tamanho contentamento. Querendo Amor sustentar-se, Fez huma vontade esquiva D'huma estatua namorar-se: Despois, por manifestar-se, Converteo-a em mulher viva. De quem m'irei eu queixando, Ou quem direi que m'engana Se vou seguindo e buscando Huma imagem, que d'humana Em pedra se vai tornando? D'huma fonte se sabía, Da qual certo se provava Que quem sôbre ella jurava, Se falsidade dizia, Dos olhos logo cegava. Vós, que minha liberdade, Senhora, tyrannizais, Injustamente mandais, Quando vos fallo verdade, Que vos não possa ver mais. Da palma s'escreve e canta Ser tão dura e tão forçosa, Que pêzo não a quebranta, Mas antes, de presunçosa, Com elle mais se levanta. Co'o pêzo do mal que dais, A constancia qu'em mi vejo, {25} Não somente ma dobrais, Mas dobra-se meu desejo, Com qu'então vos quero mais. Se alguem os olhos quizer Ás andorinhas quebrar, Logo a mãe, sem se deter, Huma herva lhe vai buscar Que lhes faz outros nascer. Eu que os olhos tenho attento Nos vossos, qu'estrellas são, Cegão-se os do entendimento, Mas nascem-me os da razão De folgar com meu tormento. Lá para onde o sol sahe, Descobrimos, navegando, Hum novo rio admirando, Que o lenho que nelle cahe, Em pedra se vai tornando. Não s'espantem disto as gentes; Mais razão será qu'espante Hum coração tão possante, Que com lagrimas ardentes Se converte em diamante. Póde hum mudo nadador Na linha e cana influir Tão venenoso vigor, Que faz mais não se bulir O braço do pescador. Se começão de beber Deste veneno excellente Meus olhos, sem se deter, {26} Não se sabem mais mover A nada que se apresente. Isto são claros sinais Do muito qu'em mi podeis: Nem podeis desejar mais; Que se ver-vos desejais, Em mi claro vos vereis. E quereis ver a que fim Em mi tanto bem se pôs? Porque quiz Amor assim, Que por vos verdes a vós, Tambem me visseis a mim. Dos males que m'ordenais, Qu'inda tenho por pequenos, Sabei, se mos escutais, Que ja não sei dizer mais, Nem vós podeis saber menos. Mas ja que a tanto tormento Não se acha quem resista, Eu, Senhora, me contento De terdes meu soffrimento Por alvo de vossa vista. Quantos contrarios consente Amor, por mais padecer! Que aquella vista excellente, Que me faz viver contente, Me faça tão triste ser! Mas dou este entendimento Ao mal, que tanto m'offende, Como na vela s'entende, Que se se apaga co'o vento, {27} Co'o mesmo vento se accende. Exprimentou-se algum'hora D'ave, que chamão Camão, Que se da casa, onde mora, Vê adúltera senhora, Morre de pura paixão. A dor he tão sem medida, Que remedio lhe não val. Mas oh ditoso animal, Que póde perder a vida, Quando vê tamanho mal! Nos gôstos de vos querer Estava agora enlevado, Se não fôra salteado Das lembranças de temer Ser por outrem desamado. Estas suspeitas tão frias, Com que o pensamento sonha, São assi como as harpias, Que as mais doces iguarias Vão converter em peçonha. Faz-me este mal infinito Não poder ja mais dizer, Por não vir a corromper Os gostos que tenho escrito, Co'os males qu'hei d'escrever. Não quero que s'apregôe Mal tanto para encobrir, Porque em quanto aqui s'ouvir Nenhuma outra cousa sôe, Que a glória de vos servir. {28}
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Á MESMA.
Dama d'estranho primor, Se vos for Pezada minha firmeza, Olhae não me deis tristeza, Porque a converto em amor. E se cuidais De me matar, quando usais D'esquivança, Irei tomar por vingança Amar-vos cada vez mais. Porém vosso pensamento, Como isento, Seguirá sua tenção, Crendo qu'em tanta affeição Não haja accrescentamento. Não creais Que desta arte vos façais Invencibil; Que Amor sôbre o impossibil Amostra que póde mais. Mas ja da tenção que sigo, Me desdigo; Que se ha tanto poder nelle, Tambem vós podeis mais qu'elle Neste mal que usais comigo. Mas se for O vosso poder maior Entre nós, Quem poderá mais que vós, {29} Se vós podeis mais que Amor? Despois que, Dama, vos vi, Entendi, Que perdêra Amor seu preço; Pois o favor que lh'eu peço, Vos pede elle para si. Nem duvido Que não póde, de sentido, Resistir; Pois em vez de vos ferir, Ficou de vos ver ferido. Mas pois vossa vista he tal Em meu mal, Que posso de vós querer? Que mal poderei valer, Onde o mesmo Amor não val. Se attentar, Nenhum bem posso esperar: E oxalá Que vos alembrasse ja, Sequer para me matar. Mas nem com isto creais Que façais Meus serviços mais pequenos; Porqu'eu, quando espero menos, Sabei qu'então quero mais. Nada espero; Mas de mi crede este fero, Qu'em ser vosso, Vos quero tudo o que posso, E não posso quanto quero. {30} Só por esta phantasia Merecia De meus males algum fruito; E não era certo muito Para o muito que queria. De maneira, Que não he, na derradeira, Grande espanto, Que quem, Dama, vos quer tanto, Que outro tanto de vós queira.
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A HUMAS SUSPEITAS.
Suspeitas, que me quereis? Qu'eu vos quero dar lugar Que de certas me mateis, Se a causa, de que nasceis, Vós quizesseis confessar. Que de não lhe achar desculpa, A grande mágoa passada Me tẽe a alma tão cansada, Que se me confessa a culpa, Te-la-hei por desculpada. Ora vêde que perigos Tẽe cercado o coração, Que no meio da oppressão A seus proprios inimigos Vai pedir a defensão! Que, suspeitas, eu bem sei, Como se claro vos visse, Que he certo o que ja cuidei; {31} Que nunca mal suspeitei, Que certo me não sahisse. Mas queria esta certeza Daquella que me atormenta; Porque em tamanha estreiteza Ver que disso se contenta, He descanso da tristeza. Porque se esta só verdade Me confessa limpa e nua De cautela e falsidade, Não póde a minha vontade Desconforme ser da sua. Por segredo namorado He certo estar conhecido Que o mal de ser engeitado Mais atormenta sabido Mil vezes, que suspeitado. Mas eu só, em quem se ordena Novo modo de querella, De medo da dor pequena, Venho a achar na maior pena O refrigerio para ella. Ja nas iras m'inflammei, Nas vinganças, nos furores, Que ja doudo imaginei; E ja mais doudo jurei De arrancar d'alma os amores. Ja determinei mudar-me Para outra parte com ira; Despois vim a concertar-me Que era bom certificar-me {32} No que mostrava a mentira. Mas despois ja de cansadas As furias do imaginar, Vinha emfim a rebentar Em lagrimas magoadas, E bem para magoar. E deixando-se vencer Os meus fingidos enganos De tão claros desenganos, Não posso menos fazer, Que contentar-me co'os danos. E pedir que me tirassem Este mal de suspeitar Que me vejo atormentar, Indaque me confessassem Quanto me póde matar. Olhae bem se me trazeis, Senhora, pôsto no fim; Pois neste estado a que vim, Para que vós confesseis, Se dão os tratos a mim. Mas para que tudo possa Amor, que tudo encaminha, Tal justiça lhe convinha; Porque da culpa, qu'he vossa, Venha a ser a morte minha. Justiça tão mal olhada Olhae com que côr se doura, Que quero, ao fim da jornada, Que vós sejais confessada, Para qu'eu seja o que moura! {33} Pois confessae-vos jagora, Indaque tenho temor Que nem nesta última hora Me ha de perdoar Amor Vossos peccados, Senhora. E assi vou desesperado, Porque estes são os costumes D'amor que he mal empregado; Do qual vou ja condemnado Ao inferno de ciumes.
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LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
Corre sem vela e sem leme O tempo desordenado, D'hum grande vento levado: O que perigo não teme, He de pouco exprimentado. As redeas trazem na mão Os que redeas não tiverão: Vendo quanto mal fizerão A cobiça e ambição, Disfarçados se acolhêrão. A nao, que se vai perder, Destrue mil esperanças: {34} Vejo o mao que vem a ter; Vejo perigos correr Quem não cuida que ha mudanças. Os que nunca em sella andárão, Na sella postos se vem: De fazer mal não deixárão; De demonio hábito tem Os que o justo profanárão. Que poderá vir a ser O mal nunca refreado? Anda, por certo, enganado Aquelle que quer valer, Levando o caminho errado. He para os bons confusão, Ver que os maos prevalecêrão; Que, pôsto se detiverão Com esta simulação, Sempre castigos tiverão: Não porque governe o leme Em mar envolto e turbado, Que tẽe seu rumo mudado, Se perece grita e geme Em tempo desordenado. Terem justo galardão, E dor dos que merecêrão, Sempre castigos tiverão Sem nenhuma redempção, Postoque se detiverão. Na tormenta, se vier, Desespere na bonança, Quem manhas não sabe ter: {35} Sem que lhe valha gemer, Verá falsar a balança. Os que nunca trabalhárão, Tendo o que lhe não convem, Se ao innocente enganárão, Perderão o eterno bem, Se do mal não s'apartárão.
[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.
Nota dos editores.
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CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:
Se não quereis padecer Huma, ou duas horas tristes, Sabeis que haveis de fazer? Volveros por dó venistes, Que aqui não ha que comer. E, postoque aqui leais Trovinha que vos enleia, Corrido não estejais; Porque por mais que corrais, Não heis de alcançar a ceia.
A segunda a D. Francisco de Almeida.
Heliogabalo zombava Das pessoas convidadas; E de sorte as enganava, Que as iguarias que dava, Vinhão nos pratos pintadas. {36} Não temais tal travessura, Pois ja não póde ser nova; Porque a cêa está segura De vos não vir em pintura; Mas ha de vir toda em trova.
A terceira a Heitor da Silveira.
Cêa não a papareis: Com tudo, porque não minta, Para beber achareis, Não Caparica, mas tinta, E mil cousas que papeis. E vós torceis o focinho Com esta amphibologia? Pois sabei que a Poesia Vos dá aqui tinta por vinho, E papéis por iguaria.
A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama.
Porque os que vos convidárão Vosso estomago não danem, Por justa causa ordenárão, Se trovas vos enganárão, Que trovas vos desenganem. Vós tereis isto por tacha, Converter tudo em trovar; Pois se me virdes zombar, Não cuideis, Senhor, que he cacha, Que aqui não ha que cachar. {37}
Responde João Lopes.
Pezar ora não de são, Eu juro pelo Ceo bento, Se de comer não me dão, Qu'eu não sou camaleão, Que m'hei de manter do vento.
Responde o Author.
Senhor, não vos agasteis, Porque Deos vos proverá; E se mais saber quereis, Nas costas deste lereis As iguarias que ha.
Virado o papel, dizia assi:
Tendes nem migalha assada; Cousa nenhuma de môlho; E nada feito em empada; E vento de tigelada; Picar no dente em remôlho: De fumo tendes taçalhos; Ave da pena que sente Quem da fome anda doente; Bocejar de vinho e d'alhos; Manjar em branco excellente.
A derradeira a Francisco de Mello.
D'hum homem, que teve o scetro Da vêa maravilhosa, Não foi cousa duvidosa, {38} Que se lhe tornava em metro O qu'hia a dizer em prosa. De mi vos quero affirmar Que faça cousas mais novas, De quanto podeis cuidar; E esta cêa, que he manjar, Vos faça na boca em trovas.
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NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
Conde, cujo illustre peito Merece nome de Rei, Do qual muito certo sei Que lhe fica sendo estreito O cargo de Viso-Rei; Servirdes-vos d'occupar-me Tanto contra meu Planeta, Não foi senão azas dar-me, Com as quaes vou a queimar-me, Como o faz a borboleta. E s'eu a penna tomar, Que tão mal cortada tenho, Será para celebrar Vosso valor singular Dino de mais alto engenho. Que se o meu vos celebrasse, Necessario me sería Que os olhos d'aguia tomasse, Só para que não cegasse No sol de vossa valia. Vossos feitos sublimados {39} Nas armas, dignos de gloria, São no mundo tão soados, Qu'em vós de vossos passados Se resuscita a memoria. Pois aquelle ânimo estranho, Prompto para todo effeito, Espanta todo o conceito: Como coração tamanho Vos póde caber no peito? A clemencia, que asserena Coração tão singular, S'eu nisso puzesse a penna, Sería encerrar o mar Em cova muito pequena. Bem basta, Senhor, que agora Vos sirvais de me occupar; Que assi fareis aparar A penna, com que algum'hora Vos vereis ao ceo voar. Assi vos irei louvando, Vós a mi do chão erguendo, Ambos o mundo espantando; Vós com a espada cortando, Eu com a penna escrevendo.
Mote que lhe mandou o Viso-Rei.
Muito sou meu inimigo, Pois que não tiro de mi Cuidados, com que nasci, Que põe a vida em perigo. Oxalá que fôra assi! {40}
Volta.
Viver eu, sendo mortal, De cuidados rodeado, Parece meu natural; Que a peçonha não faz mal A quem foi nella criado. Tanto sou meu inimigo, Que por não tirar de mi Cuidados, com que nasci, Porei a vida em perigo. Oxalá que fôra assi! Tanto vim a accrescentar Cuidados, que nunca amansão Em quanto a vida durar, Que canso ja de cuidar Como cuidados não cansão. S'estes cuidados, que digo, Dessem fim a mi e a si, Farião pazes comigo; Que pôr a vida em perigo, O bom fôra para mi.
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A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
Senhora, s'eu alcançasse No tempo que ler quereis, Que a dita dos meus papéis Pola minha se trocasse; E por ver {41} Tudo o que posso escrever Em mais breve relação, Indo eu onde elles vão, Por mi só quizesseis ler; Despois de ver hum cuidado Tão contente de seu mal, Verieis o natural Do que aqui vêdes pintado; Que o perfeito Amor, de que sou sogeito, Vereis aspero e cruel, Aqui com tinta e papel, Em mi com sangue no peito. Que hum continuo imaginar Naquillo que Amor ordena, He pena, que emfim por penna Se não póde declarar; Que se eu levo Dentro n'alma quanto devo De trasladar em papéis, Vêde que melhor lereis, Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
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A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.
Se derivais da verdade Esta palavra Sitim, Achareis sem falsidade, Que apos o si tẽe o tim, Que tine em toda a Cidade. {42} Bem vejo que m'entendeis; Mas porque não falle em vão, Sabei que a esta Nação Tanto que o si concedeis, O tim logo está na mão. E quem da fama s'arreda, Que tudo vai descobrir, Deve sempre de fugir De sitins, porque da seda Seu natural he rugir. Mas panno fino e delgado, Qual a raxa e outros assi, Dura, aquenta, e he callado, Amoroso, e dá de si Mais que sitim, nem brocado. Mas estes, que sedas são Com quem s'enganão mil Damas, Mais vos tomão, do que dão; Promettem, mas não darão, Senão nodoas para as famas. E se não me quereis crer, Ou tomais outro caminho, Por exemplo o podeis ver, Quando lá virdes arder A casa d'algum vizinho. Oh feminina simpreza, Donde estão culpas a pares, Que por hum Dom de nobreza, Deixão dões da natureza, Mais altos e singulares! Hum Dom, que anda enxertado {43} No nome, e nas obras não. Fallo como exprimentado; Que sitim desta feição Eu tenho muito cortado. Dizem-me qu'era amarello; E quem assi o quiz dar, Só para me Deos vingar, Se vem á mão amarê-lo, O qu'eu não posso cuidar. Porque quem sabe viver Por estas artes manhosas, (Isto bem póde não ser) Dá a meninas formosas, Somente polas fazer. Quem vos isto diz, Senhora, Servio nas vossas armadas Muito, mas anda ja fóra; E póde ser qu'inda agora Traz abertas as fréchadas. E, postoque desfavores O tirão de servidor, Quer-vos ventura melhor; Que dos antigos amores Inda lhe fica este amor.
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A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
Peço-vos que me digais As orações que rezastes, Se são polos que matastes, Se por vós que assi matais? {44} Se são por vós, são perdidas; Que qual será a oração, Que seja satisfação, Senhora, de tantas vidas? Que se vêdes quantos vem A só vida vos pedir, Como vos ha Deos de ouvir, Se vós não ouvis ninguem? Não podeis ser perdoada Com mãos a matar tão prontas, Que se n'huma trazeis contas, Na outra trazeis espada. Se dizeis que encommendando Os que matastes andais; Se rezais por quem matais, Para que matais rezando? Que se na fôrça do orar Levantais as mãos aos Ceos, Não as ergueis para Deos, Erguei-las para matar. E quando os olhos cerrais, Toda enlevada na fé, Cerrão-se os de quem vos vê, Para nunca verem mais. Pois se assi forem tratados Os que vos vem quando orais, Essas horas que rezais, São as horas dos finados. Pois logo, se sois servida Que tantos mortos não sejão, Não rezeis onde vos vejão, {45} Ou vêde para dar vida. Ou se quereis escusar Estes males que causastes, Resuscitae quem matastes, Não tereis por quem rezar.
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A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
Se n'alma e no pensamento Por vosso me manifesto, Não me peza do que sento; Que se não soffrer tormento, Faço offensa a vosso gesto. E, pois quanto Amor ordena, E quanto est'alma deseja, Tudo á morte me condena, Não quero senão que seja Tudo pena, pena, pena.
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A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
Sem olhos vi o mal claro, Que dos olhos se seguio: Pois cara sem olhos vio Olhos, que lhe custão caro. D'olhos não faço menção, Pois quereis que olhos não sejão; Vendo-vos, olhos sobejão, Não vos vendo, olhos não são. {46}
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DISPARATES NA INDIA.
Este mundo es el camino Adó hay ducientos váos, Ou por onde bons e maos, Todos somos del merino. Mas os maos são de teor, Que desque mudão a côr, Chamão logo a ElRei compadre; E emfim dejadlos, mi madre, Que sempre tẽe hum sabor De quem torto nasce, tarde s'endireita. Deixae a hum que se abone: Diz logo de muito sengo, Villas y castillos tengo, Todos á mi mandar sone. Então eu, qu'estou de môlho, Com a lagrima no ôlho, Polo virar do envés, Digo-lhe: tu ex illis es, E por isso não te ólho; Pois honra e proveito não cabem n'hum saco. Vereis huns, que no seu seio Cuidão que trazem París, E querem com dous ceitís, Fender anca pelo meio. Vereis mancebindo de arte, Com espada em talabarte: Não ha mais Italiano. A este direis: Meu mano, Vós sois galante que farte; Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido. {47} Outros em cada theatro, Por officio lhe ouvirês Que se matarán con tres, Y lo mismo haran con cuatro. Prezão-se de dar respostas, Com palavras bem compostas; Mas se lhe meteis a mão, Na paz mostrão coração, Na guerra mostrão as costas; Porque aqui torce a porca o rabo. Outros vejo por ahi, A que se acha mal o fundo, Que andão emendando o mundo, E não se emendão a si. Estes respondem a quem Delles não entende bem El dolor que está secreto; Mas porém quem for discreto, Responder-lhe-ha muito bem: Assi entrou o mundo, assi ha de sahir. Achareis rafeiro velho, Que se quer vender por galgo: Diz que o dinheiro he fidalgo, Que o sangue todo he vermelho. Se elle mais alto o dissera, Este pelote puzera: Que o seu eco lhe responda; Que su padre era de Ronda, Y su madre de Antequera, E quer cobrir o ceo co'huma joeira. Fraldas largas, grave aspeito, {48} Para Senador Romano. Oh que grandissimo engano! Que Momo lhe abrisse o peito! Consciencia, que sobeja, Siso, com que o mundo reja, Mansidão outro que si; Mas que lobo está em ti, Metido em pelle de oveja! E sabem-no poucos. Guardae-vos de huns meus Senhores, Que ainda comprão e vendem; Huns, qu'he certo, que descendem Da geração de pastores: Mostrão-se-vos bons amigos; Mas se vos vem em perigos, Escarrão-vos nas paredes; Que de fóra dormiredes, Irmão, que he tempo de figos; Porque de rabo de porco nunca bom virote. Que direis d'huns, que as entranhas Lh'estão ardendo em cobiça, E se tẽe mando, a justiça Fazem de teas de aranhas? Com suas hypocrisias, Que são de vossas espias: Para os pequenos huns Neros, Para os grandes tudo feros. Pois tu, parvo, não sabías, Que lá vão leis, onde querem cruzados? Mas tornando a huns enfadonhos, Cujas cousas são notorias; {49} Huns, que contão mil histórias Mais desmanchadas que sonhos; Huns mais parvos que zamboas, Qu'estudão palavras boas, A que ignorancia os atiça: Estes paguem por justiça, Que tẽe morto mil pessoas, Por vida de quanto quero. Adonde tienen las mentes Huns secretos trovadores, Que fazem cartas d'amores, De que ficão mui contentes? Não querem sahir á praça; Trazem trova por negaça; E se lha gabais, qu'he boa, Diz qu'he de certa pessoa. Ora que quereis que faça, Senão ir-me por esse mundo? Ó tu, como me atarracas, Escudeiro de Solia, Com bocaes de fidalguia, Trazido quasi com vacas; Importuno a importunar, Morto por desenterrar Parentes, que cheirão ja! Voto a tal, que me fara Hum destes nunca fallar Mais com viva alma. Huns, que fallão muito, vi, De que quizera fugir; Huns que, emfim, sem se sentir, {50} Andão fallando entre si; Porfiosos sem razão; E desque tomão a mão, Fallão sem necessidade; E se algum'hora he verdade, Deve ser na confissão; Porque quem não mente... Ja m'entendeis. Oh vós, quem quer que me lerdes, Qu'haveis de ser avisado, Que dizeis ao namorado Que caça vento com redes? Jura por vida da Dama; Falla comsigo na cama; Passêa de noite e escarra; Por falsete na guitarra Põe sempre: Viva que ama, Porque calça a seu proposito. Mas deixemos, se quizerdes, Por hum pouco as travessuras, Porqu'entre quatro maduras Leveis tambem cinco verdes. Deitemos-nos mais ao mar; E se algum se arrecear, Passe tres ou quatro trovas. E vós tomais côres novas? Mas não he para espantar; Que quem porcos ha menos, Em cada mouta lhe roncão. Ó vós, que sois Secretarios Das consciencias Reais, E que entre os homens estais {51} Por Senhores ordinarios; Porque não pondes hum freio Ao roubar, que vai sem meio, Debaixo de bom governo? Pois hum pedaço de inferno Por pouco dinheiro alheio Se vende a Mouro e a Judeo. Porque a mente, affeiçoada Sempre á Real dignidade, Vos faz julgar por bondade A malicia desculpada. Move a presença Real Huma affeição natural, Que logo inclina ao Juiz A seu favor: e não diz Hum rifão muito geral, Que o Abbade donde canta, dahi janta? E vós bailais a esse som: Por isso, gentís pastores, Vos chama a vós mercadores Hum que só foi pastor bom.
—oOo—
A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
Mote.
Se vossa Dama vos dá Tudo quanto vós quizestes, Dizei-me: p'ra que lhe déstes O que vos ella fez ja? {52}
Volta.
Sendo os restos envidados, E vós de cachas mil contos Sabeis com quão poucos pontos, Que lhos achastes quebrados; Se o que tẽe, isso vos dá, Vós mui bem lho merecestes, Porque se a cacha lhe déstes Tinha-vo-la feita ja.
—oOo—
MOTE.
Menina formosa e crua, Bem sei eu Quem deixará de ser seu, Se vós quizereis ser sua.
Voltas.
Menina mais que na idade, Se para me querer bem Vos não vejo ter vontade, He porque outrem vo-la tem; Tẽe-vo-la, e faz-vo-la crua. Porém eu Ja tomára não ser meu, Se vós não foreis tão sua. Nos olhos, e na feição Vos vi, quando vos olhava, Tanta graça, que vos dava De graça este coração: Não o quizestes de crua, {53} Por ser meu: Se outrem vos dera o seu, Póde ser foreis mais sua. Menina, tende maneira, Que ainda não venha a ser, Pois não quereis quem vos quer, Que queirais quem vos não queira. Olhae não me sejais crua, Que pois eu Quero ser vosso, e não meu, Sêde vós minha, e não sua.
—oOo—
A HUMA DAMA DOENTE
Mote.
Da doença, em que ora ardeis, Eu fôra vossa mézinha Só com vós serdes a minha.
Voltas.
He muito para notar Cura tão bem acertada, Que podereis ser curada Somente com me curar. Se quereis, Dama, trocar, Ambos temos a mézinha, Eu a vossa, e vós a minha. Olhae, que não quer Amor, (Porque fiquemos iguais) Pois meu ardor não curais, Que se cure vosso ardor. {54} Eu cá sinto vossa dor; E se vós sentis a minha, Dae e tomae a mézinha.
—oOo—
OUTRO
Deo, Senhora, por sentença Amor, que fosseis doente, Para fazerdes á gente Doce e formosa a doença.
Voltas.
Não sabendo Amor curar, Foi a doença fazer Formosa para se ver, Doce para se passar. Então vendo a differença Que ha de vós a toda a gente, Mandou, que fôsseis doente, Para glória da doença. E digo-vos de verdade, Que a saude anda invejosa, Por ver estar tão formosa Em vós essa enfermidade. Não façais logo detença, Senhora, em estar doente, Porque adoecerá a gente, Com desejos da doença. Qu'eu por ter, formosa Dama, A doença, qu'em vós vejo, Vos confesso, que desejo {55} De cahir comvosco em cama. Se consentis, que me vença Deste mal, não houve gente Da saude tão contente, Como eu serei da doença.
—oOo—
AO MESMO
Olhae que dura sentença Foi amor dar contra mi! Que porqu'em vós me perdi, Em vós me busque a doença. Claro está, Que em vós só me achará; Qu'em mi, se me vem buscar, Não poderá mais achar, Que a fórma do que foi ja. Que s'em vós Amor se pôs, Senhora, he forçado assi, Que o mal, que me busca a mi, Que vos faça mal a vós. Sem mentir, Amor me quiz destruir Por modo nunca cuidado, Pois ha de ser ja forçado Pezar-vos de vos servir. Mas sois tão desconhecida, E são meus males de sorte, Que vos ameaça a morte, Porque me negais a vida. Se por boa {56} Tal justiça se pregoa; Quando desta sorte for, Havei vós perdão de Amor, Que a parte ja vos perdoa. Mas o que mais temo, emfim, He que nesta differença, Que se não torne a doença, Se me não tornais a mim. De verdade, Que ja vossa humanidade De que se queixe não tem; Pois para as almas tambem Fez Amor enfermidade.
—oOo—
A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.
Mote.
De atormentado e perdido, Ja vos não peço, senão Que tenhais no coração O que tendes no vestido.
Volta.
Se de dó vestida andais Por quem ja vida não tem Porque não o haveis de quem Vós tantas vezes matais? Que brado sem ser ouvido, E nunca vejo senão Cruezas no coração, E grande dó no vestido. {57}
—oOo—
A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.
Mote.
Amor, que todos offende, Teve, Senhora, por gôsto, Que sentisse o vosso rosto O que nas almas accende.
Volta.
Aquelle rosto que traz O mundo todo abrazado, Se foi da flamma tocado, Foi porque sinta o que faz. Bem sei que Amor se vos rende; Porém o seu presupposto Foi sentir o vosso rosto O que nas almas accende.
—oOo—
A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.
Mote.
Não estejais aggravada, Senão se for de vós mesma; Porqu'a mulher, que he errada, Com razão pela Quaresma Deve ser disciplinada.
Voltas.
Quererdes profano amor Em Quaresma, he consciencia: Açoutes e penitencia {58} Vos está muito melhor. Não fiqueis disto affrontada, Pois a culpa he vossa mesma; Que mulher, que he tão malvada, He bem que pela Quaresma Seja bem disciplinada. Se a penitencia vos val, Mui bem açoutada estais; Pois por Quaresma pagais Vossos vicios do carnal. Não torneis a ser errada, Nem condemneis a vós mesma, Pois estais ja emendada; E não sereis por Quaresma Outra vez disciplinada.
—oOo—
A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
Quem no mundo quizer ser Havido por singular, Para mais s'engrandecer, Ha de trazer sempre o dar Nas ancas do prometter. E ja que vossa mercê, Largueza tẽe por divisa, Como o mundo todo vê, Ha mister que tanto dê, Que venha a dar a camisa. {59}
—oOo—
A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS
Mote.
Senhora, pois me chamais Tão sem razão tão mão nome, Inda o diabo vos tome.
Voltas.
Quem quer que vio, ou que leo, Terá por novo e moderno, Ter quem vive no inferno, O pensamento no ceo. Mas se a vós vos pareceo, Que m'estava bem tal nome, Esse diabo vos tome. Perdido mais que ninguem Confesso, Senhora, ser; Mas o diabo não quer Aos Anjos tamanho bem. Pois logo não me convem, Ou se me convem tal nome, Será para que vos tome. Se vos benzeis com cautella, Como de Anjo, e não de luz, Mal póde fugir da Cruz, Quem vós tendes pôsto nella. Mas ja que foi minha estrella Ser diabo, e ter tal nome, Guardae-vos, que vos não tome. Ja que chegais tanto ao cabo, Com as mãos, postas aos ceos Vou sempre pedindo a Deos, {60} Que vos leve este diabo. Eu, Senhora, não me gabo; Mas pois que me dais tal nome, Tomo-o, para que vos tome.
—oOo—
A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.
Mote.
Qual terá culpa de nós Neste mal, que todo he meu? Quando vindes, não vou eu, Quando vou, não vindes vós.
Volta.
Reinando Amor em dous peitos, Tece tantas falsidades, Que de conformes vontades Faz desconformes effeitos. Igualmente vive em nós; Mas por desconcêrto seu Vos leva, se venho eu, Me leva, se vindes vós.
—oOo—
MOTE SEU.
Descalça vai pela neve: Assi faz quem Amor serve.
Voltas.
Os privilegios, que os Reis Não pódem dar, póde amor, {61} Que faz qualquer amador Livre das humanas leis. Mortes e guerras crueis, Ferro, frio, fogo e neve, Tudo soffre quem o serve. Moça formosa despreza Todo o frio, e toda a dor. Olhae quanto póde Amor Mais que a propria natureza. Medo, nem delicadeza Lh'impede que passe a neve. Assi faz quem Amor serve. Por mais trabalhos que leve, A tudo se off'receria; Passa pela neve fria, Mais alva que a propria neve; Com todo frio se atreve. Vêde em que fogo ferve O triste, que a Amor serve.
—oOo—
OUTRO ALHEIO
A dor que a minha alma sente, Não na sabe toda a gente.
Voltas.
Qu'estranho caso de Amor! Que desejado tormento! Que venho a ser avarento Das dores de minha dor! Por me não tratar peor, {62} Se se sabe, ou se se sente, Não na digo a toda a gente. Minha dor e causa della De ninguem ouso fiar; Que sería aventurar A perder-me, ou a perdella. E pois só com padecella, A minha alma está contente, Não quero que o saiba a gente. Ande no peito escondida, Dentro n'alma sepultada; De mi só seja chorada, De ninguem seja sentida. Ou me mate, ou me dê vida, Ou viva triste ou contente, Não ma saiba toda a gente.
—oOo—
OUTRO SEU
D'alma, e de quanto tiver, Quero que me despojeis, Com tanto, que me deixeis Os olhos para vos ver.
Volta.
Cousa este corpo não tem, Que ja não tenhais rendida: Despois de tirar-lhe a vida, Tirae-lhe a morte tambem. Se mais tenho que perder, Mais quero que me leveis, {63} Com tanto que me deixeis Os olhos para vos ver.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Amores de huma casada, Que eu vi pelo meu mal.
Voltas.
N'huma casada fui pôr Os olhos, de si senhores: Cuidei que fossem amores, Elles fizerão-se amor. Faz-se o desejo maior Donde o remedio não val, Em perigo de meu mal. Não me paraceo que Amor Pudesse tanto comigo, Que donde entra por amigo, Se levante por senhor. Leva-me de dor em dor, E de final em final, Cada vez para mor mal.
—oOo—
OUTRO SEU
Enforquei minha esperança; Mas Amor foi tão madraço, Que lhe cortou o baraço.
Volta.
Foi a esperança julgada Por sentença da Ventura, {64} Que pois me leve á pendura, Que fosse dependurada: Vem Cupido com a espada, Corta-lhe cerce o baraço. Cupido, foste madraço.
—oOo—
OUTRO SEU
Puz o coração nos olhos, E os olhos puz no chão, Por vingar o coração.
Volta.
O coração invejoso Como dos olhos andava, Sempre remoques me dava Que não era o meu mimoso: Venho eu de piedoso Do Senhor meu coração, E boto os olhos no chão.
—oOo—
OUTRO SEU
Puz meus olhos n'huma funda, E fiz hum tiro com ella Ás grades d'huma janella.
Volta.
Huma Dama, de malvada, Tomou seus olhos na mão; E tirou-me huma pedrada {65} Com elles ao coração. Armei minha funda então, E puz os meus olhos nella, Trape, quebrei-lhe a janella.
—oOo—
ALHEIO.
De pequena tomei amor, Porque o não entendi; Agora que o conheci, Mata-me com desfavor.
Voltas.
Vi-o moço e pequenino, E a mesma idade ensina Que s'incline huma menina Ás amostras d'hum menino: Ouvi-lhe chamar Amor, Pelo nome me venci; Nunca tal engano vi, Nem tamanho desamor. Cresceo-me de dia em dia Com a idade a affeição, Porque amor de criação, N'alma, e na vida se cria. Criou-se em mi este amor, E senhoreou-se de mi: Agora que o conheci, Mata-me com desfavor. As flores me torna abrolhos, A morte me determina Quem eu trouxe de menina {66} Nas meninas de meus olhos. Desta mágoa e desta dor Tenho sabido que emfim Por amor me perco a mim Por quem de mi perde amor. Parece ser caso estranho O que Amor em mi ordena, Qu'em idade tão pequena Haja tormento tamanho. Sejão milagres d'Amor, Hei-os de soffrer assi, Até que haja dó de mi Quem entender esta dor.
—oOo—
CANTIGA VELHA.
Apartárão-se os meus olhos De mi tão longe. Falsos amores, Falsos, maos, enganadores.
Voltas.
Tratárão-me com cautella, Por m'enganar mais asinha; Dei-lhe posse d'alma minha, Forão-me fugir com ella. Não ha vê-los, nem ha vella, De mi tão longe. Falsos amores, Falsos, maos, enganadores! Entreguei-lhe a liberdade, E, emfim, da vida o melhor; {67} Forão-se; e do desamor Fizerão necessidade. Quem teve a sua vontade De si tão longe? Falsos amores, E oxalá enganadores!
—oOo—
OUTRA.
Falso Cavalheiro, ingrato, Enganais-me, Vós dizeis, que eu vos mato, E vós matais-me.
Voltas.
Costumadas artes são Para enganar innocencias, Piedosas apparencias Sôbre isento coração. Eu vos amo, e vós ingrato Magoais-me, Dizendo, que eu vos mato, E vós matais-me. Vêde agora qual de nós Anda mais perto do fim, Que a justiça faz-se em mim, E o pregão diz que sois vós. Quando mais verdade trato Levantais-me Que vos desamo e vos mato, E vós matais-me. {68}
—oOo—
PROPRIO.
Se de meu mal me contento, He porque para vós vejo Em todo o mundo desejo, E em ninguem merecimento.
Volta.
Para quem vos soube olhar Tão impossivel foi ser O poder-vos merecer, Como o não vos desejar. Pois logo a meu pensamento Nenhum remedio lhe vejo, Senão se der o desejo Azas ao merecimento.
—oOo—
ALHEIO.
Vós, Senhora, tudo tendes, Senão que tendes os olhos verdes.
Voltas.
Dotou em vós natureza O summo da perfeição; Que o qu'em vós he senão, He em outras gentileza: O verde não se despreza, Que, agora que vós os tendes, São bellos os olhos verdes. Ouro e azul he a melhor Côr, por que a gente se perde; Mas a graça desse verde {69} Tira a graça a toda côr. Fica agora sendo a flor A côr, que nos olhos tendes, Porque são vossos e verdes.
—oOo—
ALHEIO.
Para que me dan tormento, Aprovechando tan poco? Perdido, mas no tan loco, Que descubra lo que siento.
Voltas.
Tiempo perdido es aquel Que se passa en darme afan, Pues cuanto más me lo dan, Tanto menos siento dél. Que descubra lo que siento? No lo haré, que no es tan poco; Que no puede ser tan loco Quien tiene tal pensamiento. Sepan que me manda Amor, Que de tan dulce querella, A nadie dé parte della, Porque la sienta mayor. Es tan dulce mi tormento, Que aun se me antoja poco; Y si es mucho, quedo loco De gusto de lo que siento. {70}
—oOo—
ALHEIO.
De vuestros ojos centellas, Que encienden pechos de hielo, Suben por el aire al cielo, Y en llegando son estrellas.
Voltas.
Falsos loores os dan, Que essas centellas tan raras No son nel cielo mas claras Que en los ojos donde estan. Porque cuando miro en ellas Lo como alumbran al suelo, No sé que seran nel cielo; Mas sé que acá son estrellas. Ni se puede presumir Que al cielo suban, Señora; Que la lumbre que en vós mora, No tiene más que subir; Mas pienso que dan querellas Á Dios nel octavo cielo, Porque son acá en el suelo Dos tan hermosas estrellas.
—oOo—
ALHEIO.
De dentro tengo mi mal, Que de fuera no hay señal.
Volta.
Mi nueva y dulce querella Es invisible á la gente; {71} El alma sola la siente, Que el cuerpo no es dino della. Como la viva centella Se encubre en el pedernal, De dentro tengo mi mal.
—oOo—
ALHEIO.
Amor loco, amor loco, Yo por vós, y vós por otro.
Voltas.
Dióme Amor tormentos dós, Para que pene doblado; Uno es verme desamado, Otro es mancilla de vós. Ved que ordena Amor en nós! Porque vós haceisme loco, Que seais loca por otro. Tratais Amor de manera, Que porque asi me tratais, Quiere que, pues no me amais, Que ameis otro que no os quiera. Mas con todo, si no os viera De todo loca por otro, Con mas razon fuera loco. Y tan contrario viviendo, Alfin, alfin, conformamos; Pues ambos a dós buscamos Lo que mas nos vá huyendo. Voy tras vós siempre siguiendo, {72} Y vós huyendo por otro: Andais loca, y me haceis loco.
—oOo—
ALHEIO.
Vêde bem se nos meus dias Os desgostos vi sobejos, Pois tenho medo a desejos, E quero mal a alegrias.
Volta.
Se desejos fui ja ter, Servírão de atormentar-me; Se algum bem póde alegrar-me, Quiz-me antes entristecer. Passei annos, passei dias Em desgostos tão sobejos, Que só por não ter desejos, Perderei mil alegrias.
—oOo—
PROPIO.
Pois he mais vosso que meu, Senhora, meu coração, Eu vosso captivo são, Meus olhos, lembre-vos eu.
Volta.
Lembre-vos minha tristeza, Que jamais nunca me deixa; Lembre-vos com quanta queixa {73} Se queixa minha firmeza: Lembre-vos que não he meu Este triste coração; E pois ha tanta razão, Meus olhos, lembre-vos eu.
—oOo—
OUTRO.
Senhora, pois minha vida Tendes em vosso poder; Por serdes della servida, Não queirais que destruida Possa ser.
Volta.
Isto não por me pezar De morrer, se vós quizerdes; Que melhor me he acabar Mil vezes, que supportar Os males que me fizerdes; Mas só por serdes servida De mi, em quanto viver, Vos peço que minha vida Não queirais que destruida Possa ser.
—oOo—
OUTRO.
Pois damno me faz olhar-vos, Não quero, por não perder-vos, Que ninguem me veja ver-vos. {74}
Voltas.
De ver-vos a não vos ver Ha dous extremos mortaes; E são elles em si taes, Que hum por hum me faz morrer; Mas antes quero escolher, Que possa viver sem ver-vos, Minh'alma, por não perder-vos. Deste tamanho perigo Que remedio posso ter, Se vivo só com vos ver, Se vos não vejo, perigo? Mas quero acabar comigo, Que ninguem me veja ver-vos, Senhora, por não perder-vos.
—oOo—
A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.
Mote.
Não sei se m'engana Helena, Se Maria, se Joanna; Não sei qual dellas m'engana.
Voltas.
Huma diz que me quer bem, Outra jura que me quer; Mas em jura de mulher Quem crerá, se ellas não crem? Não posso não crer a Helena, A Maria, nem Joanna; Mas não sei qual mais m'engana. Huma faz-me juramentos {75} Que só meu amor estima, A outra diz que se fina, Joanna, que bebe os ventos. Se cuido que mente Helena, Tambem mentirá Joanna; Mas quem mente não m'engana.
—oOo—
A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
Mote.
Menina, não sei dizer, Vendo-vos tão acabada, Quão triste estou por vos ver Formosa e mal empregada.
Voltas.
Quem tão mal vos empregou, Pouco de mi se dohia, Pois não vio o quanto me hia Em tirar-me o que tirou. Obriga o primor que tem Lindeza tão extremada Que digão quantos a vem, Formosa e mal empregada! Tomastes da formosura Quanto della desejastes, E com ella me guardastes Para tão triste ventura. Mataveis sendo solteira, Matais agora em casada; Matais de toda a maneira, Formosa e mal empregada. {76}
—oOo—
A HUMA Foãa Gonçalves.
Mote.
Com vossos olhos, Gonçalves, Senhora, captivo tendes Este meu coração Mendes.
Volta.
Eu sou boa testimunha, Que Amor tem por cousa má, Que olhos, que são homens ja, Se nomeiem sem alcunha; Pois o coração apunha, E diz, olhos, pois vós tendes, Chamae-me coração Mendes.
—oOo—
OUTRO
De que me serve fugir De morte, dor e perigo, Se me eu levo comigo?
Voltas.
Tenho-me persuadido, Por razão conveniente, Que não posso ser contente, Pois que pude ser nascido. Anda sempre tão unido O meu tormento comigo, Qu'eu mesmo sou meu perigo. E se de mi me livrasse, Nenhum gôsto me sería: Quem, senão eu, não teria {77} Mal, que esse bem me tirasse? Fôrça he logo que assi passe, Ou com desgôsto comigo, Ou sem gôsto e sem perigo.
—oOo—
A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
Quando me quer enganar A minha bella perjura, Para mais me confirmar O que quer certificar, Polos seus olhos me jura. Como meu contentamento Todo se rege por elles, Imagina o pensamento, Que se faz aggravo a elles Não crer tão grão juramento. Porém como em casos tais Ando ja visto e corrente, Sem outros certos sinais, Quanto me ella jura mais, Tanto mais cuido que mente. Então vendo-lhe offender Huns taes olhos como aquelles, Deixo-me antes tudo crer, Só pola não constranger A jurar falso por elles. {78}
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Ha hum bem, que chega e foge; E chama-se este bem tal, Ter bem para sentir mal.
Volta.
Quem viveo sempre n'hum ser, Inda que seja em pobreza, Não vio o bem da riqueza, Nem o mal d'empobrecer: Não ganhou para perder; Mas ganhou com vida igual Não ter bem, nem sentir mal.
—oOo—
A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
Mote.
Olhos, não vos mereci Que tenhais tal condição, Tão liberaes para o chão, Tão irosos para mi.
Volta.
Baixos e honestos andais, Por vos negardes a quem Não quer mais que aquelle bem, Que vós no chão espalhais? Se pouco vos mereci, Não m'estimeis mais que o chão, A quem vós o galardão Dais, e mo negais a mi. {79}
—oOo—
PROPRIO.
Venceo-me Amor, não o nego; Tẽe mais fôrça qu'eu assaz; Que como he cego e rapaz, Dá-me porrada de cego.
Volta.
Só porque he rapaz ruim, Dei-lhe hum boféte zombando. Diz-me: Ó mao, estais me dando, Porque sois maior que mim? Pois se eu vos descarrégo, E em dizendo isto, chaz; Torna-me outra; tá rapaz, Que dás porrada de cego.
—oOo—
AO DESCONCERTO DO MUNDO.
Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos; E para mais m'espantar, Os maos vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assi O bem tão mal ordenado, Fui mao; mas fui castigado. Assi, que só para mi Anda o mundo concertado. {80}
—oOo—
A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
Mote.
Perguntais-me, quem me mata? Não quero responder nada, Por vos não fazer culpada.
Volta.
E se a penna não me atiça, A dizer pena tão forte, Quero-me entregar á morte, Antes que a vós á justiça. Porém se tendes cobiça De vos verdes tão culpada, Direi que não sinto nada.
—oOo—
MOTE.
Esconjuro-te, Domingas, Pois me dás tanto cuidado, Que me digas se te vingas, Viverei menos penado.
Voltas.
Juravas-me, que outras cabras Folgavas de apascentar; Eu por não me magoar, Fingia qu'erão palabras. Agora d'arte te vingas D'algum meu doudo peccado, Qu'inda que queiras, Domingas, Não posso ser enganado. {81} Qualquer cousa busca o seu; A fonte vai para o Tejo, E tu para o teu desejo, Por te vingares do meu. De mi t'esqueces, Domingas, Como eu faço do meu gado: Praza a Deos, que se te vingas, Que morra desesperado. Na phantasia te pinto, Fallo-te, responde o monte, Busco o rio, busco a fonte, Endoudeço, e não o sinto: Domingas no valle brado, Responde o eco Domingas; E tu inda te não vingas De me ver doudo tornado!
—oOo—
ALHEIO.
Se a alma ver-se não póde Onde pensamentos ferem, Que farei para me crerem?
Voltas.
Se n'alma huma só ferida Faz na vida mil sinais, Tanto se descobre mais, Quanto he mais escondida. S'esta dor tão conhecida Me não vem, porque não querem, Que farei para ma crerem? {82} Se se pudesse bem ver Quanto callo, e quanto sento, Despois de tanto tormento Cuidaria alegre ser. Mas se não me querem crer Olhos, que tão mal me ferem, Que farei para me crerem?
—oOo—
ALHEIO.
Vosso bem querer, Senhora, Vosso mal melhor me fôra.
Voltas.
Ja agora certo conheço Ser melhor todo tormento, Onde o arrependimento Se compra por justo preço. Enganou-me hum bom comêço; Mas o fim me diz agora Que o mal melhor me fôra. Quando hum bem he tão damnoso, Que sendo bem, dá cuidado, O damno fica obrigado A ser menos perigoso. Mas se a mi por desditoso, Co'o bem me foi mal, Senhora, Co'o vosso mal bem me fôra. {83}
—oOo—
ALHEIO.
Se me desta terra for, Eu vos levarei, amor.
Voltas.
Se me for, e vos deixar, (Ponho por caso, que possa) Est'alma minha, qu'he vossa, Comvosco m'ha de ficar. Assi que só por levar A minha alma, se me for, Vos levarei, meu amor. Que mal póde maltratar-me, Que comvosco seja mal? Ou que bem póde ser tal, Que sem vós possa alegrar-me? O mal não póde enojar-me, O bem me será maior, Se vos levar, meu amor.
—oOo—
ALHEIO.
Pequenos contentamentos, Hi buscar quem contenteis, Que a mi não me conheceis.
Voltas.
Os gostos, que tantas dores Fizerão ja valer menos, Não os acceita pequenos, Quem nunca teve maiores: Bem parecem vãos favores, {84} Pois tão tarde me quereis, Qu'inda me não conheceis. Offereceis-me alegria, Tendo-me ja cego e mouco: He baixeza acceitar pouco, Quem tanto vos merecia. Ide-vos por outra via, Pois o bem que me deveis, Nunca mo satisfareis.
—oOo—
ALHEIO.
Perdigão perdeo a penna, Não ha mal que lhe não venha.
Voltas.
Perdigão, que o pensamento Subio a hum alto lugar, Perde a penna do voar, Ganha a pena do tormento: Não tẽe no ar, nem no vento, Azas com que se sostenha: Não ha mal que lhe não venha. Quiz voar a huma alta torre, Mas achou-se desasado; E vendo-se despennado, De puro penado morre. Se a queixumes se soccorre, Lança no fogo mais lenha: Não ha mal que lhe não venha. {85}
—oOo—
A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
Pois a tantas perdições, Senhoras, quereis dar vida, Ditosa seja a ferida, Que tẽe taes Cirurgiões! Pois ventura Me subio a tanta altura, Que me sejais valedoras, Ditosa seja a tristura, Que se cura Por vossos rogos, Senhoras! Ser minha pena mortal, Ja qu'entendeis, que he assi, Não quero fallar por mi, Que por mi falla meu mal. Sois formosas, Haveis de ser piedosas, Por ser tudo d'huma côr; Que pois Amor vos fez rosas Milagrosas, Fazei milagres de Amor. Pedi a quem vós sabeis, Que saiba de meu trabalho, Não pelo qu'eu nisso valho, Mas pelo que vós valeis. Que o valer De vosso alto merecer, Com lho pedir de giolhos, Fara qu'em meu padecer {86} Possa ver O poder que tẽe seus olhos. Vossa muita formosura Com a sua tanto val, Que me rio de meu mal, Quando cuido em quem me cura. A meus ais, Peço-vos que lhe valhais, Damas de Amor tão valídas, Que nunca tal dor sintais, Que queirais, Onde não sejais queridas.
—oOo—
CANTIGA ALHEIA.
Na fonte está Leonor Lavando a talha, e chorando, Ás amigas perguntando: Vistes lá o meu amor?
Voltas.
Pôsto o pensamento nelle, Porque a tudo o Amor a obriga, Cantava, mas a cantiga Erão suspiros por elle. Nisto estava Leonor O seu desejo enganando, Ás amigas perguntando: Vistes lá o meu amor? O rosto sôbre hũa mão, Os olhos no chão pregados, {87} Que de chorar ja cansados, Algum descanso lhe dão; Desta sorte Leonor Suspende de quando em quando Sua dor; e em si tornando, Mais pezada sente a dor. Não deita dos olhos ágoa, Que não quer que a dor s'abrande Amor, porque em mágoa grande Sécca as lagrimas a mágoa. Despois que de seu amor Soube novas perguntando, D'improviso a vi chorando. Olhae que extremos de dor!
—oOo—
ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D. FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.
Que diabo ha tão damnado, Que não tema a cutilada Dos fios seccos da espada Do fero Miguel armado? Pois se tanto hum golpe seu Sôa na infernal cadeia; Do que o demonio arreceia Como não fugirei eu? {88} Com razão lhe fugiria, Se contr'elle, e contra tudo Não tivesse hum forte escudo Só em Vossa Senhoria. Por tanto, Senhor, proveja, Pois me tẽe ao remo atado, Que antes que seja embarcado, Eu desembargado seja.
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ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
Vossa Senhoria creia Que não apura o engenho Fome, se he como a que tenho, Mas afraca e corta a veia. E quem o contrário sente, Está farto em toda a hora, Como estou faminto agora: Mas Martha, se está contente, Dá-lhe pouco de quem chora. E pois Vossa Senhoria Em geral a tudo acode, Acuda a mi, que só póde Dar-me no engenho valia. Esperte esta Musa minha, Que o tempo traz somnolenta; Valha-lhe nesta tormenta Com essa doce mézinha, Que só dá vida e contenta. {89} Acuda com provisão, Não de papel, mas provída D'ouro e prata; que esta vida Não sustentão papéis, não. De feitor a thesoureiro Ser-me-hia trabalho grande; Vossa Senhoria mande Algum remedio, primeiro, Com que a morte o ferro abrande.
Ajuda de Luis de Camões.
Nos livros doutos se trata Que o grande Achilles insano Deo a morte a Heitor Troiano; Mas agora a fome mata O nosso Heitor Lusitano. Só ella o póde acabar, Se essa vossa condição Liberal e singular Não mete entr'elles bastão, Bastante para o fartar.
—oOo—
A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
Esparsa.
Não posso chegar ao cabo De tamanho desarranjo, Que sendo vós, Senhora, Anjo, Vos queira tanto o Diabo. {90} Dais manifesto sinal De minha muita firmeza, Que os diabos querem mal Aos Anjos por natureza.
—oOo—
CANTIGA.
Vi chorar huns claros olhos, Quando delles me partia. Oh que mágoa! Oh que alegria!
Voltas.
Polo meu apartamento Se arrazárão todos d'ágoa. Quem cuidou qu'em tanta mágoa Achasse contentamento? Julgue todo entendimento Qual mais sentir se devia, Se esta dor, se esta alegria? Quando mais perdido estive, Então deo a est'alma minha Na maior mágoa que tinha, O maior gôsto que tive. Assi, se minha alma vive, Foi porque me defendia Desta dor esta alegria? O bem, que Amor me não deu No tempo que desejei, Quando delle me apartei, Me confessou, qu'era meu. Agora que farei eu, {91} Se a fortuna me desvia De lograr esta alegria? Não sei se foi enganado, Pois me tinha defendido Das íras de mal querido, No mal de ser apartado. Agora peno dobrado, Achando no fim do dia O princípio da alegria.
—oOo—
VILLANCETE PASTORIL.
Deos te salve, Vasco amigo. Não me fallas? Como assi? Bofé, Gil, não 'stava aqui.
Voltas.
Pois onde te hão de fallar, Se não 'stás onde appareces? Se Magdanela conheces, Nella me pódes achar. E como te hão d'ir buscar Aonde fogem de ti? Pois nem eu estou em mi. Porque te não acharei Em ti, como em Magdanela? Porque me fui perder nella O dia que me ganhei. Quem tão bem falla, não sei Como anda fóra de si. Ella falla dentro em mi. {92} Como estás aqui presente, Se lá tens a alma e a vida? Porqu'he d'hum'alma perdida Apparecer sempre á gente. Se es morto, bem se consente Que todos fujão de ti. Eu tambem fujo de mi.
—oOo—
OUTRO PASTORIL.
Porque no miras, Giraldo, Mi zampoña como suena? Porque no me mira Elena.
Voltas.
Vuelve acá, no estês pasmado, Mira que gentil sonar! Como te podrá mirar Quien no puede ser mirado? Y que bueno enamorado! No dirás, si es mala, o buena? No, que me hizo mudo Elena. Mira tan dulce armonía, Déjate dessos enojos. Tengo clavados los ojos Con que mirar te podia. Ansí Dios te dé alegría: No vés cuan dulce que suena? No, porque no veo Elena. {93}
—oOo—
OUTRO PASTORIL.
Crescem, Camilla, os abrolhos De chorares por Cincero: Não he muito, que lhe quero, Belisa, mais que meus olhos.
Voltas.
Sempre os teus olhos estão, Camilla, d'ágoas banhados. De se verem desamados Póde ser que chorarão. Si, mas crescem os abrolhos, E tu cegas por Cincero. S'eu não vejo quem mais quero, Para que quero mais olhos? Se se foi ha mais d'hum mês, Teus olhos não cansarão? Não, que apos elle se vão Estas lagrimas que vês. Fazem logo estes abrolhos O mato espinhoso e fero. Pois eu não vejo a Cincero, Isso só verão meus olhos. Chorando queres morrer? Mais quero viver chorando. Tu não vês que vás cegando? Se cego, como hei de ver? Põe na vista outros antolhos. Não posso, nem menos quero. Outra para outro Cincero, Antes não quero ter olhos. {94}
—oOo—
A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.
Mote.
Olhos, em qu'estão mil flores, E com tanta graça olhais, Que parece que os Amores Morão onde vós morais.
Volta.
Vem-se rosas e boninas, Olhos, nesse vosso ver; Vem-se mil almas arder No fogo dessas meninas. E di-lo-hão minhas dores, Meus suspiros e meus ais; E dirão mais, que os amores Morão onde vós morais.
—oOo—
MOTE.
Quem se confia em huns olhos, Nas meninas delles vê Que meninas não tẽe fé.
Voltas.
Quem põe suas confianças Em meninas sem assento, Offereça o soffrimento A duzentas mil mudanças. Mostrão no ar esperanças; Mas em seus olhos se vê Como não tẽe n'alma fé. Enganão ao parecer, {95} Porque no caso d'amar, São mulheres no matar, E meninas no querer. Quem em seus olhos se crer, Cem mil graças nelles vê; Vê-las sim, mas não ter fé. Amostrão-vos n'hum momento Favores assi a mólhos; Mas na mudança dos olhos Se lhe muda o pensamento. Em nada ja tẽe assento, E o que mais nelles se vê He formosura sem fé.
—oOo—
LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.
Cantiga Velha.
Sois formosa, e tudo tendes, Senão que tendes os olhos verdes,
Voltas.
Ninguem vos póde tirar Serdes tão bem assombrada; Mas heis-me de perdoar, Que os olhos não valem nada. Fostes mal aconselhada Em querer que fossem verdes: Trabalhae de os esconderdes. A vossa testa he jardim, Onde Amor se desenfada; He tão branca e bem talhada, Que parece de marfim. {96} Assi he; e quanto a mim, Isso vos nasce de a terdes Tão perto dos olhos verdes. Os cabellos desatados O mesmo sol escurecem; Senão que por ser ondados, Algum tanto desmerecem: Mas á fé, que se parecem A furto dos olhos verdes, Não vos peze, não, de os terdes. As pestanas tẽe mostrado Ser raios, que abrazão vidas: Se não forão tão compridas, Tudo o mais era pintado: Ellas me tinhão levado A alma, sem o vós saberdes, Se não forão os olhos verdes. O mimo desse carão Nem pôr-lhe os olhos consente: O ser liso e transparente Rouba todo o coração: Inda assi achareis nação, Que lhe não peze de os verdes; Mas não seja co'os olhos verdes. Esse riso, que he compôsto De quantas graças nascêrão, Senão que alguns me disserão, Vos faz covinhas no rôsto. Na vontade tenho posto Dar-vos a alma, se quizerdes, A trôco dos olhos verdes. {97} Nunca se vio, nem se escreve Boca co'huma graça igual, Se não fôra de coral, E os dentes de côr de neve. Dou-me eu a Deos, que me leve! Soffrerei quanto tiverdes, Não me tenhais olhos verdes. Essa garganta merece Outras palavras não minhas, Senão qu'he feita em rosquinhas D'alfenim, ao que parece. Eu sei bem quem se offerece A tomar tudo o que tendes, E tambem os olhos verdes. Essas mãos são ferropeas: Só o vê-las enfeitiça; Senão que são alvas, cheias, E tẽe a feição roliça; Com que appellais por justiça, Para com ellas prenderdes Quem vê vossos olhos verdes. A vossa galantaria Matará a quem fallardes: Tendes huns desdens e tardes, Que eu logo vos roubaria. Oh dou-me a Santa Maria! Sou cujo de quanto tendes, E tambem desses olhos verdes. {98}
—oOo—
AO MESMO.
Tudo tendes singular, Com que os corações rendeis, Senão que rindo, fazeis Covinhas para enterrar: E para resuscitar Tẽe força a graça que tendes; Senão que tendes os olhos verdes. Tudo, Senhora, alcançais, Quanto o ser formosa alcança, Senão que dais esperança Co'os olhos com que matais. Se acaso os alevantais, He para as almas renderdes; Senão que tendes os olhos verdes.
—oOo—
A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.
Cinco gallinhas e meia Deve o Senhor de Cascais; E a meia vinha cheia De appetite para as mais. {99}
—oOo—
MOTE.
Catharina bem promette; Ora má! como ella mente!
Voltas.
Catharina he mais formosa Para mi, que a luz do dia; Mas mais formosa sería, Se não fosse mentirosa. Hoje a vejo piedosa, Á manhãa tão differente, Que sempre cuido que mente. Prometteo-me hontem de vir, Nunca mais appareceo; Creio que não prometteo, Senão só por me mentir. Faz-me, emfim, chorar e rir; Rio, quando me promette, Mas chóro quando me mente. Jurou-me aquella cadella De vir, pela alma que tinha; Enganou-me; tinha a minha; Deo-lhe pouco de perdella. A vida gasto apos ella, Porque ma dá, se promette, Mas tira-ma, quando mente. Má, mentirosa, malvada, Dizei, porque me mentis? Prometteis, e então fugis? Pois sem tornar, tudo he nada. Não sois bem aconselhada; {100} Que quem promette, se mente, O que perde não o sente. Tudo vos consentiria Quanto quizesseis fazer, Se este vosso prometter Fosse por me ter hum dia. Todo então me desfaria Com gôsto; e vós de contente, Zombarieis de quem mente. Mas pois folgais de mentir, Promettendo de me ver, Eu vos deixo o prometter, Deixae-me vós o servir: Haveis então de sentir Quanto a minha vida sente O servir a quem lhe mente. Catharina me mentio Muitas vezes, sem ter lei, E todas lhe perdoei Por huma só que cumprio. Se como me consentio Fallar-lhe, o mais me consente, Nunca mais direi que mente.
—oOo—
MOTE.
A alma, qu'está offrecida A tudo, nada lhe he forte; Assi passa o bem da vida, Como passa o mal da morte. {101}
Volta.
De maneira me succede O que temo, e o que desejo, Que sempre o que temo, vejo, Nunca o que a vontade pede. Tenho tão offerecida Alma e vida a toda a sorte, Que isso me dera da morte, Como ja me dá da vida.
—oOo—
MOTE.
Ferro, fogo, frio e calma, Todo o mundo acabarão; Mas nunca vos tirarão, Alma minha, da minha alma.
Volta.
Não vos guardei, quando vinha, Em tôrre, fôrça, ou engenho; Que mais guardada vos tenho Em vós, que sois alma minha. Alli nem frio, nem calma, Não podem ter jurdição; Na vida sim, porém não Em vós que tenho por alma.
—oOo—
MOTE.
Esperei, ja não espero De mais vos servir, Senhora; {102} Pois me fazeis cada hora Tanto mal, que desespéro.
Volta.
Pois sei certo que folgais, Quando mais mal me fazeis, E que nunca descansais, Senão quando me mostrais Quão pouco bem me quereis; Servir-vos mais não espero Pois meu viver empeora Com me fazerdes, Senhora, Tanto mal, que desespéro.
—oOo—
MOTE.
Descalça vai para a fonte Leonor pela verdura; Vai formosa, e não segura.
Voltas.
Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de chamalote: Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura; Vai formosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabellos de ouro entrançado, Fita de côr d'encarnado, Tão linda que o mundo espanta: Chove nella graça tanta, {103} Que dá graça á formosura; Vai formosa, e não segura.
—oOo—
MOTE.
Quem disser que a barca pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente.
Voltas.
Se vos quereis embarcar, E para isso estais no caes, Entrae logo: que tardaes? Olhae qu'está preamar: E se outrem, por vos fretar, Vos disser qu'esta que pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente. Esta barca he de carreira; Tẽe seus apparelhos novos: Não ha como ella outra em Povos Boa de leme, e veleira: Mas, se por ser a primeira, Vos disser alguem que pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente.
—oOo—
MOTE.
Com razão queixar-me posso De vós, que mal vos queixais; Pois, Senhora, vos sangrais, Que seja n'hum corpo vosso. {104}
Voltas.
Eu para levar a palma, Com que ser vosso mereça, Quero que o corpo padeça Por vós, que delle sois alma. Vós do corpo vos queixais, Eu queixar-me de vós posso, Porque, tendo hum corpo vosso, Na minha alma vos sangrais. E sem fazer differença No que de mi possuis, Pelo pouco que sentis, Dais á minh'alma doença. Porque dous aventurais? Oh não seja o damno nosso! Sangre-se este corpo vosso, Porque, minha alma, vivais. E inda, se attentardes bem, Seguis medicina errada, Porque para ser sangrada Hum'alma sangue não tem. E pois em mi sarar posso Males, que á minha alma dais, Se inda outra vez vos sangrais, Seja neste corpo vosso.
—oOo—
MOTE.
Ojos, herido me habeis, Acabad ya de matarme; {105} Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis.
Voltas.
Pues me distes tal herida, Con gana de darme muerte, El morir me es dulce suerte, Pues con morir me dais vida. Ojos, qué os deteneis? Acabad ya de matarme; Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis. La llaga cierto ya es mia, Aunque, ojos, vós no querrais; Mas si la muerte me dais, El morir me es alegría. Y así digo que acabeis, O ojos, ya de matarme; Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis.
—oOo—
A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:
Mas porém a que cuidados?
Tanto maiores tormentos Forão sempre os que soffri, Daquillo que cabe em mi, Que não sei que pensamentos São os para que nasci. {106} Quando vejo este meu peito A perigos arriscados Inclinado, bem suspeito Que a cuidados sou sujeito, Mas porém a que cuidados?
Ao mesmo.
Que vindes em mi buscar, Cuidados, que sou captivo? Eu não tenho que vos dar: Se vindes a me matar, Ja ha muito que não vivo: Se vindes, porque me dais Tormentos desesperados, Eu, que sempre soffri mais, Não digo que não venhais; Mas porém a que cuidados?
Ao mesmo.
Se as penas que Amor me deu, Vem por tão suaves meios, Não ha que temer receios; Que val hum cuidado meu Por mil descansos alheios. Ter n'huns olhos tão formosos Os sentidos enlevados, Bem sei qu'em baixos estados São cuidados perigosos; Mas porém a que cuidados?...
Carta com a glosa acima.
Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he {107} servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Campos bem-aventurados, Tornae-vos agora tristes; Que os dias, em que me vistes, Alegres ja são passados.
Glosa.
Campos cheios de prazer, Vós qu'estais reverdecendo, Ja m'alegrei com vos ver; Agora venho a temer Qu'entristeçais em me vendo. E pois a vista alegrais Dos olhos desesperados, Não quero que me vejais, Para que sempre sejais, Campos, bem-aventurados. Porém se por accidente Vos pezar de meu tormento, Sabereis que Amor consente {108} Que tudo me descontente, Senão descontentamento. Por isso vós, arvoredos, Que ja nos meus olhos vistes Mais alegria, que medos, Se mos quereis fazer ledos, Tornae-vos agora tristes. Ja me vistes ledo ser, Mas despois que o falso Amor Tão triste me fez viver, Ledos folgo de vos ver, Porque me dobreis a dor. E se este gôsto sobejo De minha dor me sentistes, Julgae quanto mais desejo As horas que vos não vejo, Que os dias em que me vistes. O tempo, qu'he desigual, De seccos, verdes vos tem; Porqu'em vosso natural Se muda o mal para o bem, Mas o meu para mor mal. Se perguntais, verdes prados, Pelos tempos differentes Que de Amor me forão dados, Tristes, aqui são presentes, Alegres, ja são passados. {109}
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Trabalhos descansarião Se para vós trabalhasse; Tempos tristes passarião, Se algum'hora vos lembrasse.
Glosa.
Nunca o prazer se conhece, Senão despois da tormenta: Tão pouco o bem permanece, Que se o descanso florece, Logo o trabalho arrebenta. Sempre os bens se lograrião, Mas os males tudo atalhão; Porém ja que assi porfião, Onde descansos trabalhão, Trabalhos descansarião. Qualquer trabalho me fôra Por vós grão contentamento: Nada sentira, Senhora, Se víra disto algum'hora Em vós hum conhecimento. Por mal que o mal me tratasse, Tudo por bem tomaria; Postoque o corpo cansasse, A alma descansaria, Se para vós trabalhasse. Quem vossas cruezas ja Soffreo, a tudo se poz; Costumado ficará; E muito melhor será, Se trabalhar para vós. {110} Tristezas esquecerião, Postoque mal me tratárão; Annos não me lembrarião, Que como est'outros passarão, Tempos tristes passarião. Se fosse galardoado Este trabalho tão duro, Não vivêra magoado. Mas não o foi o passado, Como o será o futuro? De cansar não cansaria, Se quizereis, que cansasse; Cavar, morrer, fa-lo-hia; Tudo, emfim, esqueceria, Se algum'hora vos lembrasse.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Triste vida se me ordena, Pois quer vossa condição Que os males, que dais por pena, Me fiquem por galardão.
Glosa.
Despois de sempre soffrer, Senhora, vossas cruezas, A pezar de meu querer, Me quereis satisfazer Meus serviços com tristezas. Mas, pois em balde resiste Quem vossa vista condena, {111} Prestes estou para a pena; Que de galardão tão triste Triste vida se me ordena. De contente do mal meu A tão grande extremo vim, Que consinto em minha fim: Assi que vós e mais eu, Ambos somos contra mim. Mas que soffra meu tormento, Sem querer mais galardão, Não he fóra de razão Que queira meu soffrimento, Pois quer vossa condição. O mal, que vós dais por bem, Esse, Senhora, he mortal; Que o mal, que dais como mal, Em muito menos se tem, Por costume natural. Mas porém nesta victoria, Que comigo he bem pequena, A maior dor me condena A pena, que dais por gloria, Que os males, que dais por pena. Que mor bem me possa vir, Que servir-vos, não o sei. Pois que mais quero eu pedir, Se quanto mais vos servir, Tanto mais vos deverei? Se vossos merecimentos De tão alta estima são, Assaz de favor me dão {112} Em querer que meus tormentos Me fiquem por galardão.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Ja não posso ser contente, Tenho a esperança perdida; Ando perdido entre a gente, Nem morro, nem tenho vida.
Glosa.
Despois que meu cruel Fado Destruio huma esperança, Em que me vi levantado, No mal fiquei sem mudança, E do bem desesperado. O coração, que isto sente, Á sua dor não resiste, Porque vê mui claramente Que pois nasci para triste, Ja não posso ser contente. Por isso, contentamentos, Fugi de quem vos despreza: Ja fiz outros fundamentos, Ja fiz senhora a tristeza De todos meus pensamentos. O menos que lh'entreguei, Foi esta cansada vida: Cuido que nisto acertei, Porque de quanto esperei Tenho a esperança perdida. {113} Acabar de me perder Fôra ja muito melhor; Tivera fim esta dor, Que não podendo mor ser, Cada vez a sinto mor. De vós desejo esconder-me, E de mi principalmente, Onde ninguem possa ver-me; Que pois me ganho em perder-me, Ando perdido entre a gente. Gostos de mudanças cheios, Não me busqueis, não vos quero: Tenho-vos por tão alheios, Que do bem que não espero, Inda me ficão receios. Em pena tão sem medida, Em tormento tão esquivo Que morra, ninguem duvída; Mas eu se morro, ou se vivo, Nem morro, nem tenho vida.
—oOo—
A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.
Mote.
A morte, pois que sou vosso, Não a quero; mas se vem, Ha de ser todo meu bem.
Glosa.
Amor, qu'em meu pensamento Com tanta fé se fundou, {114} Me tẽe dado hum regimento, Que quando vir meu tormento Me salve com cujo sou. E com esta defensão, Com que tudo vencer posso, Diz a causa ao coração: Não tẽe em mi jurdição A morte, pois que sou vosso. Por exprimentar hum dia Amor se me achava forte Nesta fé, como dizia, Me convidou com a morte, Só por ver se a temeria. E como ella seja a cousa Onde está todo meu bem, Respondi-lhe, como quem Quer dizer mais, e não ousa: Não a quero, mas se vem... Não disse mais, porque então Entendeo quanto me toca; E se tinha dito o não, Muitas vezes diz a boca, O que nega o coração. Toda a cousa defendida Em mais estima se tem: Por isso he cousa sabida, Que perder por vós a vida Ha de ser todo meu bem.
{115}
—oOo—
Á MESMA DAMA.
Vejo-a n'alma pintada, Quando me pede o desejo O natural que não vejo.
Glosa.
Se só de ver puramente Me transformei no que vi, De vista tão excellente Mal poderei ser ausente, Em quanto o não for de mi. Porque a alma namorada A traz tão bem debuxada, E a memoria tanto voa, Que se a não vejo em pessoa, Vejo-a n'alma pintada. O desejo, que s'estende Ao que menos se concede, Sôbre vós pede e pretende, Como o doente que pede O que mais se lhe defende. Eu, qu'em ausencia vos vejo, Tenho piedade e pejo De me ver tão pobre estar, Qu'então não tenho que dar, Quando me pede o desejo. Como áquelle que cegou, He cousa vista e notoria, Que a natureza ordenou Que se lhe dobre em memoria O qu'em vista lhe faltou: Assi a mi, que não vejo {116} Co'os olhos o que desejo, Na memoria e na firmeza Me concede a natureza O natural que não vejo.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Sem vós, e com meu cuidado, Olhae com quem, e sem quem.
Glosa.
Vendo Amor que com vos ver Mais levemente soffria Os males que me fazia, Não me pôde isto soffrer; Conjurou-se com meu Fado; Hum novo mal me ordenou: Ambos me levão forçado, Não sei onde, pois que vou Sem vós e com meu cuidado. Não sei qual he mais estranho Destes dous males que sigo, Se não vos ver, se comigo Levar imigo tamanho. O que fica, e o que vem, Hum me mata, outro desejo: Com tal mal, e sem tal bem, Em taes extremos me vejo: Olhae com quem, e sem quem!
—oOo—
AO MESMO.
Amor, cuja providencia Foi sempre que não errasse, {117} Porque n'alma vos levasse, Respeitando o mal d'ausencia, Quiz qu'em vós me transformasse. E vendo-me ir maltratado, Eu e meu cuidado sós, Proveo nisso de attentado, Por não me ausentar de vós, Sem vós, e com meu cuidado. Mas est'alma, qu'eu trazia, Porque vós nella morais, Deixa-me cego, e sem guia; Que ha por melhor companhia Ficar onde vós ficais. Assi me vou de meu bem, Onde quer a forte estrella, Sem alma, qu'em si vos tem, Co'o mal de viver sem ella: Olhae com quem, e sem quem!
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Sem ventura he por demais.
Glosa.
Todo o trabalhado bem Promette gostoso fruito; Mas os trabalhos, que vem, Para quem dita não tem Valem pouco, e custão muito. Rompe toda a pedra dura, Faz os homens immortais {118} O trabalho quando atura; Mas querer achar ventura, Sem ventura, he por demais.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Minh'alma, lembrae-vos della.
Glosa.
Pois o ver-vos tenho em mais Que mil vidas que me deis, Assi como a que me dais, Meu bem, ja que mo negais, Meus olhos, não mo negueis. E se a tal estado vim Guiado de minha estrella, Quando houverdes dó de mim, Minha vida, dae-lhe a fim, Minh'alma, lembrae-vos della.
—oOo—
MOTE ALHEIO.
Tudo póde huma affeição.
Glosa.
Tẽe tal jurdição Amor N'alma donde se aposenta, E de que se faz senhor, Que a liberta e isenta De todo humano temor. E com mui justa razão, Como senhor soberano, {119} Que Amor não consente dano. E pois me soffre tenção, Gritarei por desengano: Tudo póde huma affeição.
—oOo—
TROVA DE BOSCÃO.
Justa fué mi perdicion; De mis males soy contento; Ya no espero galardon, Pues vuestro merecimiento Satisfizo mi pasion.
Glosa.
Despues que Amor me formó Todo de amor, cual me veo, En las leyes, que me dió, El mirar me consintió, Y defendióme el deseo. Mas el alma, como injusta, En viendo tal perfeccion, Dió al deseo ocasion: Y pues quebré ley tan justa, Justa fué mi perdicion. Mostrándoseme el Amor Mas benigno que cruel, Sobre tirano traidor, De zelos de mi dolor, Quiso tomar parte en él. Yo que tan dulce tormento No quiero dallo, aunque peco, {120} Resisto, y no lo consiento; Mas si me lo toma á trueco De mis males, soy contento. Señora, ved lo que ordena Este Amor tan falso nuestro! Por pagar á costa agena, Manda que de un mirar vuestro Haga el premio de mi pena. Mas vos, para que veais Tan engañosa intencion, Aunque muerto me sintais, No mireis, que si mirais, Ya no espero galardon. Pues que premio (me direis) Esperas que será bueno? Sabed, sino lo sabeis, Que es lo mas de lo que peno Lo menos que mereceis. Quien hace al mal tan ufano, Y tan libre al sentimiento? El deseo? No, que es vano. El amor? No, que es tirano. Pues? Vuestro merecimiento. No pudiendo Amor robarme De mis tan caros despojos, Aunque fué por mas honrarme, Vos sola para matarme Le prestastes vuestros ojos. Matáranme ambos á dos; Mas á vos con mas razon Debe el la satisfaccion; {121} Que á mi por él, y por vos, Satisfizo mi pasion.
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ALHEIO.
Todo es poco lo posible.
Glosa.
Ved que engaño señorea Nuestro juicio tan loco, Que por mucho que se crea, Todo el bien, que se desea, Alcanzado, queda poco. Un bien de cualquiera grado, Si de haberse es imposible, Queda mucho deseado. Mas para mucho, alcanzado, Todo es poco lo posible.
Outro.
Posible es á mi cuidado Poderme hacer satisfecho, Si fuera posible al hado Hacer no hecho lo hecho, Y futuro lo pasado. Si olvido pudiera haber, Fuera remedio sufrible; Mas ya que no puede ser, Para contento me hacer, Todo es poco lo posible. {122}
—oOo—
ALHEIO.
Vos teneis mi corazon.
Glosa.
Mi corazon me han robado; Y Amor viendo mis enojos, Me dijo: Fuéte llevado Por los mas hermosos ojos, Que desque vivo he mirado. Gracias sobrenaturales Te lo tienen en prision. Y si Amor tiene razon, Señora, por las señales, Vos teneis mi corazon.
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MOTE.
Qué veré que me contente?
Glosa.
Desque una vez yo miré, Señora, vuestra beldad, Jamas por mi voluntad Los ojos de vos quité. Pues sin vos placer no siente Mi vida, ni lo desea, Si no quereis que yo os vea, Qué veré que me contente?
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MOTE.
Sem vós, e com meu cuidado. {123}
Glosa.
Querendo Amor esconder-vos Em parte que vos não visse, Co'o extremo de querer-vos Cegou-me os olhos com ver-vos, Levou-vos, sem que vos visse. Eu cego, mas atinado, Quando vi que vos não via, Do mesmo Amor indignado, Ja vêdes qual ficaria Sem vós e com meu cuidado.
—oOo—
MOTE.
Retrato, vós não sois meu; Retratárão-vos mui mal; Que a serdes meu natural, Foreis mofino como eu.
Glosa.
Indaqu'em vós a arte vença O que o natural tẽe dado, Não fostes bem retratado; Que ha em vós mais differença, Que no vivo do pintado. Se o lugar se considera Do alto estado, que vos deu A sorte, qu'eu mais quizera; Se he qu'eu sou quem d'antes era, Retrato, vós não sois meu. Vós na vossa glória pôsto, Eu na minha sepultura, {124} Vós com bens, eu com desgôsto; Pareceis-vos ao meu rosto, E não ja á minha ventura. E pois nella e vós errarão O qu'em mi he principal, Muito em ambos s'enganárão. Se por mi vós retratárão, Retratárão-vos mui mal. Mas se esse rosto fingido Quizerão representar, E houverão por bom partido Dar-vos a alma do sentido Para a glória do lugar; Víreis, pôsto nessa alteza, Que vos não ha cousa igual; E que nem a maior mal Podeis vir, nem mor baixeza, Que a serdes meu natural. Por isso não confesseis Serdes meu, qu'he desatino, Com que o lugar perdereis: Se conservar-vos quereis, Blazonae que sois divino. Que se nesta occasião Conhecessem qu'ereis meu, Por meu vos derão de mão, . . . . . . . . . . Fôreis mofino, como eu. {125}
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MOTE.
Foi-se gastando a esperança, Fui entendendo os enganos; Do mal ficárão-me os danos, E do bem só a lembrança.
Glosa.
Nunca em prazeres passados Tive firmeza segura. Antes tão arrebatados, Qu'inda não erão chegados, Quando mos levou ventura. E como quem desconfia Ter em tal sorte mudança, No meio desta porfia, De quanto bem pretendia Foi-se gastando a esperança. Não tive por desatino A occasião de perdella; Mas foi culpa do destino, Que a ninguem, como mais dino, Amor pudéra sostella. Dei-lhe tudo o qu'era seu, Não receando taes danos Deste, a quem alma lhe deu: Quando ja não era meu, Fui entendendo os enganos. Fiquei deste mal sobejo A quem a causa compete Dizer-lhe tudo o que vejo, Que Amor acceita o desejo, Mas mente no que promete. {126} Que se a mi se me obrigou A dar-me bens soberanos, Foi engano que ordenou; Que do bem tudo levou, Do mal ficárão-me os danos. E se dor tão desigual Soffro em mi com padecellos, Quero de novo soffrellos; Que por a causa ser tal, Não determino offendellos. Dobre-se o mal, falte a vida, Cresça a fé, falte a esperança, Pois foi mal agradecida; Fique a dor n'alma imprimida, E do bem só a lembrança.
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ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.
Aquella captiva, Que me tẽe captivo, Porque nella vivo, Ja não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves mólhos, Que para meus olhos Fosse mais formosa. Nem no campo flores, Nem no ceo estrellas, Me parecem bellas, Como os meus amores. {127} Rosto singular, Olhos socegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. Huma graça viva, Que nelles lhe mora, Para ser senhora De quem he captiva. Pretos os cabellos, Onde o povo vão Perde opinião, Que os louros são bellos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocára a cór. Leda mansidão, Que o siso acompanha, Bem parece estranha, Mas barbara não. Presença serena, Que a tormenta amansa: Nella emfim descansa Toda minha pena. Esta he a captiva, Que me tẽe captivo; E pois nella vivo, He fôrça que viva. {128}
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MOTE.
Quem ora soubesse Onde o Amor nasce, Que o semeasse!
Voltas.
D'Amor e seus danos Me fiz lavrador; Semeava amor, E colhia enganos; Não vi, em meus anos, Homem que apanhasse O que semeasse. Vi terra florída De lindos abrolhos, Lindos para os olhos, Duros para a vida. Mas a rez perdida, Que tal herva pasce, Em forte hora nasce. Com quanto perdi, Trabalhava em vão: Se semeei grão, Grande dor colhi. Amor nunca vi Que muito durasse, Que não magoasse.
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ALHEIO.
Se me levão ágoas, Nos olhos as levo. {129}
Voltas.
Se de saudade Morrerei ou não, Meus olhos dirão De mi a verdade. Por elles me atrevo A lançar as ágoas, Que mostrem as mágoas Que nesta alma levo. As ágoas, qu'em vão Me fazem chorar, Se ellas são do mar, Estas de amar são. Por ellas relévo Todas minhas mágoas; Que se fôrça d'ágoas Me leva, eu as levo. Todas me entristecem, Todas são salgadas; Porém as choradas Doces me parecem. Correi, doces ágoas, Que se em vós m'enlévo, Não doem as mágoas, Que no peito levo.
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ALHEIO.
Menina dos olhos verdes, Porque me não vedes?
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Voltas.
Elles verdes são, E tẽe por usança Na côr esperança, E nas obras não. Vossa condição Não he d'olhos verdes, Porque me não vêdes. Isenções a mólhos Qu'elles dizem terdes, Não são d'olhos verdes, Nem de verdes olhos. Sirvo de giolhos, E vós não me credes, Porque me não vêdes. Havião de ser, Porque possa vê-los, Que huns olhos tão bellos Não se hão d'esconder: Mas fazeis-me crer, Que ja não são verdes, Porque me não vêdes. Verdes não o são, No que alcanço delles; Verdes são aquelles Qu'esperança dão. Se na condição Está serem verdes, Porque me não vedes? {131}
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ALHEIO.
Trocae o cuidado, Senhora, comigo; Vereis o perigo, Qu'he ser desamado.
Voltas.
Se trocar desejo O amor entre nós, He para qu'em vós Vejais o que vejo. E sendo trocado Este amor comigo, Ser-vos-ha castigo Terdes meu cuidado. Tendes o sentido D'Amor livre e isento, E cuidais qu'he vento Ser tão mal querido. Não seja o cuidado Tão vosso inimigo, Que queira o perigo De ser desamado. Mas nunca foi tal Este meu querer, Que a quem tanto quer, Queira tanto mal Seja eu maltratado, E nunca o castigo Vos mostre o perigo, Qu'he ser desamado. {132}
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Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.
Ver, e mais guardar De ver outro dia, Quem o acabaria?
Voltas.
Da lindeza vossa, Dama, quem a vê, Impossivel he Que guardar-se possa. Se faz tanta mossa Ver-vos hum só dia, Quem se guardaria? Melhor deve ser Neste aventurar Ver, e não guardar, Que guardar e ver. Ver e defender, Muito bom sería, Mas quem poderia?
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MOTE.
Irme quiero, madre, Á aquella galera, Con el marinero, Á ser marinera.
Voltas.
Madre, si me fuere, Do quiera que vó, No lo quiero yo, {133} Que el Amor lo quiere. Aquel niño fiero, Hace que me mueva Por un marinero Á ser marinera. El que todo puede, Madre, no podrá, Pues el alma vá, Que el cuerpo se quede. Con él por que muero Voy, porque no muera; Que si es marinero, Seré marinera. Es tirana ley Del niño Señor, Que por un amor Se deseche un Rey. Pues desta manera Quiero irme, quiero Por un marinero Á ser marinera. Decid, ondas, cuando Vistes vos doncella, Siendo tierna y bella, Andar navegando? Mas qué no se espera Daquel niño fiero? Vea yo quien quiero, Sea marinera. {134}
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MOTE.
Saudade minha, Quando vos veria?
Voltas.
Este tempo vão, Esta vida escassa, Para todos passa, Só para mi não. Os dias se vão Sem ver este dia, Quando vos veria. Vêde esta mudança Se está bem perdida, Em tão curta vida Tão longa esperança. Se este bem se alcança, Tudo soffreria, Quando vos veria. Saudosa dor, Eu bem vos entendo; Mas não me defendo, Porque offendo Amor. Se fôsseis maior, Em maior valia Vos estimaria. Minha saudade, Charo penhor meu, A quem direi eu Tamanha verdade? Na minha vontade {135} De noite e de dia Sempre vos teria.