ACTO PRIMEIRO.
Reading edition
SCENA I.
Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia.
ALCMENA.
Ah Senhor Amphitrião, Onde está todo meu bem! Pois meus olhos vos não vem, Fallarei co'o coração, Que dentro n'alma vos tem. Ausentes duas vontades, Qual corre mores perigos, Qual soffre mais crueldades, Se vós entre os inimigos, Se eu entre as saudades? Que a ventura, que vos traz Tão longe de vossa terra, Tantos desconcertos faz, Que se vos levou á guerra, Não me quiz leixar em paz. {302} Bromia, quem com vida ter, Da vida ja desespera, Que lhe poderás dizer?
BROMIA.
Que nunca se vio prazer, Senão quando não se espera. E por tanto não devia De ter triste a phantasia; Porque Vossa Mercê creia, Que o prazer sempre salteia Quem delle mais desconfia. Eu tenho no coração, Do Senhor Amphitrião Venha hoje alguma nova: Não receba alteração, Que a verdadeira affeição Na longa ausencia se prova.
ALCMENA.
Dizei logo a Feliseo Que chegue muito apressado Ao caes, e busque mêo De saber se algum recado Do porto Persico vêo: E mais lhe haveis de dizer, (Isto vos dou por offício) D'alguma nova saber, Em quanto eu vou fazer Aos Deoses o sacrificio. {303}
SCENA II.
BROMIA.
Saudades de minh'ama, Chorinhos e devoções, Sacrificios e orações, Me hão de lançar n'huma cama, Certamente. Nós mulheres de semente Somos sedenho mui tosco: Com qualquer vento que vente, Queremos forçadamente Que os Deoses vivão comnosco. Quero Feliseo chamar, E dizer-lhe aonde ha de ir. Mas elle como me vir, Logo ha de querer rinchar, De travesso. Eu que de zombar não cesso, Por ficar com elle em salvo, Lanço-lhe hum e outro remêsso; Aos seus furto-lhe o alvo; E então elle fica avesso. Porque o melhor destas danças, Com huns vindiços assi, He trazê-los por aqui Ó cheiro das esperanças, Por viver. Ha-os homem de trazer Nos amores assi mornos, Só para ter que fazer; {304} E despois ao remetter Lançar-lhe a capa nos cornos. Feliseo, se estais á mão, Chegae cá, vem como hum gamo: Bem sei que não chamo em vão.
SCENA III.
Feliseo e Bromia.
FELISEO.
Chamais-me? tambem vos chamo; Porém eu ouço, e vós não: Senhora, que me matais, Se vós ja nunca me ouvis, Ou me ouvis, e vos callais, Dizei: porque me chamais Se me vós a mim fugis?
BROMIA.
Eu vos fujo?
FELISEO.
Fugis, digo, De dar a meus males cabo.
BROMIA.
Sabei que desse perigo Não fujo como de imigo, Fujo como do diabo.
FELISEO.
Dae ao demo essa tenção, Usae antes de cortês, Cahi vós nesta razão. {305}
BROMIA.
Do p'rigo fogem os pés, Do diabo o coração.
FELISEO.
Dizeis-me que nessa briga Do meu coração fugis.
BROMIA.
Ainda qu'eu isso diga...
FELISEO.
Ah minha doce inimiga! Bem sinto que me sentis. Mas para que me chamais?
BROMIA.
Manda-vos minha Senhora Que chegueis daqui ao cais, E algumas novas saibais D' Amphitrião nesta hora.
FELISEO.
Quem as não sabe de si, D'outrem como as sabera?
BROMIA.
Não as sabeis vós de mi.
FELISEO.
Má trama venha por ti, Duna feiticeira má! Porque não me ólhas direito, Cadella, que assi me cortas?
BROMIA.
Porque vos quero dar portas; Que s'eu olhar d'outro geito, Trarei cem mil vidas mortas. {306}
FELISEO.
E pois para que me andais Enganando ha cem mil annos?
BROMIA.
Dou-vos vida com enganos.
FELISEO.
Nesses enganinhos tais Acho crueis desenganos.
BROMIA.
Quant'esses vos quero eu dar: Vós cuidais que estais na sella? Pois podeis-vos descer della; Qu'eu nunca vos pude olhar.
FELISEO.
Jogais comigo á panella? Tendes-me ha tanto captivo, E desenganais-me agora? Tudo isto he o que privo. Assi que he isso, Senhora, Dochelo morto, dochelo vivo? Se me vós desenganais No cabo de tantos annos, Direi, se licença dais, Dais-me vida com enganos, Desenganos, ja chegais. Mas se isso havia de ser, Dizei, má desconhecida, Destêrro de meu viver, Que vos custava dizer Amor, vae buscar tua vida? {307}
BROMIA.
Zombais? Fallais-me coprinhas?
FELISEO.
Rir-vos-heis se vem á mão: Copras não, mas isto são Ansias y pasiones minhas Dos bofes e coração.
BROMIA.
Is-vos fazendo d'huns sengos.....
FELISEO.
Perdóneme Dios si peco.
BROMIA.
Nesses dentinhos framengos Conheço que sois hum pêco De todos quatro avoengos.
FELISEO.
Tudo vos levo em capelo, Ja qu'estais tanto em agraço. Porém, fallando singelo, A furto desse mao zêlo, Quereis-me dar hum abraço?
BROMIA.
Ora digo que não posso Usar comvosco de fero: Tomae-o.
FELISEO.
Ja o não quero, Porque esse abraço vosso, Sabei que he engano mero.
BROMIA.
Oh! vós sois d'huns sensabores... {308} Abraço pedis assim? S'eu remango d'hum chapim...
FELISEO.
Tudo isso são favores: Zombae, vingae-vos de mim.
BROMIA.
Vós de furioso touro As garrochas não sentis.
FELISEO.
Vedes, com isso sé mouro: Quando cuido que sois ouro, Acho-vos toda ceitis.
BROMIA.
Emfim, sanha de villão Vos fez perder hum bom dia.
FELISEO.
Jagora o eu tomaria; Quereis-mo dar?
BROMIA.
Ora não. Cocei-vos eu todavia.
FELISEO.
Pois, Senhora, a quem vos ama Sois tão desarrazoada, Quero tomar outra dama; Que não digão os d'Alfama Que não tenho namorada.
BROMIA.
Deixae-me.
FELISEO.
Vós me deixais. {309}
BROMIA.
Deixae-me.
FELISEO.
Zombais de mi?
BROMIA.
Deixae-me. Pois m'engeitais, Eu me ausentarei daqui Onde me mais não vejais.
FELISEO.
Boa está a zombaria!
BROMIA.
Não são essas minhas manhas.
FELISEO.
Porém is-vos todavia?
BROMIA.
Voyme á las tierras estrañas. Adó ventura me guia.
SCENA IV.
Feliseo só.
Phantasias de donzellas, Não ha quem como eu as quebre; Porque certo cuidão ellas, Que com palavrinhas bellas Nos vendem gato por lebre. Esta tẽe lá para si Qu'eu sou por ella finado; E crê que zomba de mi; E eu digo-lhe que, si, {310} Sou por ella esperdiçado. Preza-se d'humas seguras; E eu não quero mais Frandes: Dou-lhe trela ás travessuras, Porque destas coçaduras Se fazem as chagas grandes. Qu'estas, que andão sempre á vela, Estas vos digo eu que coço; Porque de firmes na sella, Crem que falsão a costella, E ficão pelo pescoço. Que quando estas damas tais Me cachão, então recacho. Mas disto agora nó mais. Quero-me ir daqui ao cais Ver se algumas novas acho.
SCENA V.
Jupiter e Mercurio.
JUPITER.
Oh grande e alto destino! Oh potencia tão profana! Que a setta d'hum menino Faça que meu ser divino Se perca por cousa humana! Que m'aproveitão os ceos, Onde minha essencia mora Com tanto poder, se agora {311} A quem me adora por deos, Sirvo eu como a senhora? Oh quão estranha affeição! Quem em baixa cousa vai pôr A vontade e o coração, Sabe tão pouco d'Amor, Quão pouco Amor de razão. Mas que remedio hei de ter Contra mulher tão terribil, Que se não póde vencer?
MERCURIO.
Alto Senhor, teu poder O difficil faz possibil.
JUPITER.
Tu não vês qu'esta mulher Se preza de virtuosa?
MERCURIO.
Senhor, tudo póde ser; Que para quem muito quer, Sempre a affeição he manhosa. Seu marido está ausente Na guerra, longe daqui; Tu, qu'es Jupiter potente, Tomarás sua fórma em ti; Que o farás mui facilmente. E eu me transformarei Na de Sósea, criado seu; E ao arraial me irei, Onde logo saberei Como se a batalha deu. E assi poderás entrar, {312} Em lugar de seu marido; E para que sejas crido, Poderás tambem contar Quanto eu lá tiver sabido.
JUPITER.
Quem arde em tamanho fogo Tira-lhe a virtude a côr De subtil e sabedor; E quem fóra está do jôgo Enxérga o lanço melhor. Mas tu, que dos sabedores Tanto avante sempre estás, Se deos es dos mercadores, Sê-lo-has dos amadores, Pois tal remedio me dás. Ponha-se logo em effeito; Que não soffre dilação Quem o fogo tẽe no peito; E tu vae logo direito Aonde anda Amphitrião.
SCENA VI.
Feliseo e Callisto.
FELISEO.
Adó bueno por aqui, Tão longe do acostumado?
CALLISTO.
Mais longe vou eu de mi, D'ir perto de meu cuidado. {313}
FELISEO.
No andar vos conheci.
CALLISTO.
E vós onde vos lançais, Com vossa contemplação?
FELISEO.
Eu chego daqui ao cais A saber de Amphitrião: Não sei se vou por demais.
CALLISTO.
Porque por demais dizeis?
FELISEO.
Porque nada alli ha certo.
CALLISTO.
Novas lá não as busqueis, Que aqui as tendes mais perto.
FELISEO.
Pois dae-mas ja, se as sabeis.
CALLISTO.
Hum navio he ja chegado Á barra, que vem de lá; Traz de Amphitrião recado, Diz que o deixa embarcado Para se vir para cá. Tẽe vencido aquelle Rei; E diz, segundo lhe ouvi, Qu'esta noite será aqui.
FELISEO.
Essas novas levarei A Alcmena, que torne em si, Porque ella tẽe maior guerra {314} Co'os temores de perdello, Qu'elle co'o Rei dessa terra.
CALLISTO.
Onde amor lançar o sello, Nenhuma cousa o desterra. Porqu'inda que o pensamento Vos fique, Senhor, em calma, Por morte ou apartamento; Sempre vos lá ficão n'alma As pégadas do tormento.
FELISEO.
Isso he hum segredo mero, A que o amor nos obriga: Por isso em caso tão fero, Senhor, nunca ninguem diga, Ja lho quiz, e não lho quero. Eu quiz bem a huma mulher, Que vós conhecestes bem, E, com muito lhe querer, Casou-se.
CALLISTO.
Oh! e com quem? Que ainda o não posso crer.
FELISEO.
Com hum Mercador, que veio Agora do Egypto, rico.
CALLISTO.
Isso traz ágoa no bico. Esse homem he parvo, ou feio?
FELISEO.
Pois vêdes? disso me pico. {315} E em pago desta traição, Afóra outros mil descontos Que traz comsigo a affeição, Sempre os signaes destes pontos Trarei no meu coração.
CALLISTO.
Viste-la mais?
FELISEO.
Senhor, vi, Na janellinha da grade; Passei, e disse-lhe assi: Casada sem piedade, Porque não a haveis de mi?
CALLISTO.
Que vos disse?
FELISEO.
Lá no centro Lh'enxerguei pouca alegria; E como quem lhe dohia, Metendo-se para dentro Disse: Ja pasó folia.
CALLISTO.
Ah má sem conhecimento! Quem lhe désse mil chofradas!
FELISEO.
Senhor, como são casadas, Casão-se co'o esquecimento Das cousas que são passadas.
CALLISTO.
Lembranças de vos deixar Picar-vos-hão como tojos. {316}
FELISEO.
Senhor, haveis d'assentar Que onde amor vos quer matar, Siempre allá miran los ojos. Hum motete lhe mandei Hum dia, estando com febre, Só da paixão que tomei.
CALLISTO.
Pois vejamos quem tẽe lebre.
FELISEO.
Senhor, eu vo-lo direi.
Mote.
Vós por outrem, e eu por vós; Vós contente, e eu penado; Vós casada, eu cansado. Polos santos de minha dona!
CALLISTO.
Senhor, vós só o fizestes?
FELISEO.
Si, que ninguem me ajudou.
CALLISTO.
Se vós só o compuzestes, Crede, que extremos dissestes. Nunca Orlando tal fallou. Senhor, fizestes-lhe pé?
FELISEO.
Senhor, si; e todo hum anno... Vós zombais, se não m'engano? {317}
CALLISTO.
Não, mas dou-vos minha fé Que nunca vi tão bom panno.
FELISEO.
Ora olhe vossa mercê.
Volta.
Olhae em quão fundos vaos Por vossa causa me affógo, Que outro me ganha no jôgo, E eu triste pago os paos. Olhos travessos e maos, Inda eu veja o meu cuidado Por esse vosso trocado.
CALLISTO.
Não mais, qu'isso me degola.
FELISEO.
Senhor, eu haja perdão.
CALLISTO.
Fizestes esse rifão Em algum jôgo de bola? E foi-lhe elle ter á mão?
FELISEO.
Digo-vos que o vio, e lho leo Hum moçozinho d'escola.
CALLISTO.
Está isso assi do ceo. Sabe ella jogar a bola?
FELISEO.
Não. {318}
CALLISTO.
Pois não vos entendeo. Ora eu ja cheguei a ler Petrarca, e crede de mi Que nunca tal cousa vi. Onde mora o bom saber, Logo dá sinal de si. Onde casada puzestes, Dizei, porque não dissestes La que yo vi por mi mal.
FELISEO.
Renunciava o metal; Qu'em rifõeszinhos como estes, Ha-se-de pôr tal com tal. Que a trova trigo-tremez Ha de ser toda d'hum pano; Que parece muito Ingrez N'hum pelote Portuguez Todo hum quarto Castelhano. Ouvi outra tambem minha, Que fiz a certa tenção, Clara, leve, bonitinha, De feição, que esta trovinha, He trovinha de feição. Como eu hum dia me visse Morto, e a mão na candêa, E ella não me acodisse; Fiz-lhe esta, porque sentisse Que dava os fios á têa. E o propósito he Andar eu hum dia só; {319} E para que houvesse dó De mi e de minha fé, Lamentei-lhe como Jó.
CALLISTO.
Andastes, Senhor, mui bem.
FELISEO.
Ora, Senhor, attentai, E vêde o saibo que tem; Se he para a ver alguem.
CALLISTO.
Ora dizei.
FELISEO.
Ei-la vai.
Trova.
Coração de carne crua, Vê-lo teu amor aqui, Que esmorecido por ti Jaz no meio desta rua?
CALLISTO.
Na rua, Senhor, jazia? E era em tempo de lama?
FELISEO.
Senhor, quem falla a quem ama, De si mesmo se não fia: Haveis de mentir á dama.
CALLISTO.
Volta disso?
FELISEO.
Singular, {320} Senão que he muito sentida; Far-vos-ha, Senhor, chorar.
CALLISTO.
Oh! diga, por sua vida!
FELISEO.
Farei o que me mandar.
Volta.
Porque não has delle mágoa, Ó dura mais que ninguem, Que anda o triste, que não tem Quem lhe dê huma vez d'ágoa? Não lhe negues teu querer, Pois te não custa dinheiro; Que, emfim, por derradeiro A terra te ha de comer.
CALLISTO.
Tal trova nunca se vio. Agorentaste-la ja?
FELISEO.
Senhor, não; ainda está Como a sua mãe pario; E não está muito má.
CALLISTO.
He trova, que tẽe por seis; Não a posso mais gabar. Mas, pois, tal cousa fazeis, Senhor, não m'ensinareis Donde vem tão bem trovar?
FELISEO.
Não he a cousa tão pequena, {321} Como, Senhor, a fizestes, Essa que agora dissestes. Mas porém vou dar a Alcmena Estas novas que me déstes. Despois, Senhor, nos veremos; Ficae ja roendo esse osso.
CALLISTO.
O roer, Senhor, he vosso.
FELISEO.
Pois eu, por mais que zombemos, Hei de ser vosso e revosso.
CALLISTO.
Oh!.. Escusae-vos d'extremos, Qu'isso, Senhor, me atarraca. Mas nós nos encontraremos, E sôbre isso envidaremos Dous reales mais de saca.