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Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

ACTO TERCEIRO.

Reading edition

SCENA I.

Jupiter e Alcmena.

JUPITER.

Toda a pessoa discreta Terá, Senhora, assentado, Que hum bem muito desejado Se ha de alcançar por dieta, Para ser sempre estimado. E quem alcançado tem Tamanho contentamento; Por conservá-lo convem Que tome por mantimento A fome de tanto bem. E por isso hei de tomar Este tempo tão ditoso Para a frota visitar; E despois quando tornar, Tornarei mais desejoso. Que pois tão bom captiveiro Me tẽe presa a liberdade, Eu lhe prometto em verdade Que torne ainda primeiro, Que mo peça a saudade.

ALCMENA.

Aindaque se possa ir Mais asinha do que creio, Como hei d'eu consentir {343} Que se haja de partir Na mesma noite que veio?

JUPITER.

Forçada he minha tornada, Mas muito cedo virei; Porque desque foi chegada A este porto a Armada, Ainda a não visitei.

ALCMENA.

Pois, Senhor, tão pouco estais Com quem vistes inda agora? Faça-se como mandais.

JUPITER.

Vós me vereis cá, Senhora, Primeiro do que cuidais.

SCENA II.

Amphitrião e Sosea.

AMPHITRIÃO.

Emfim tu, que estás aqui, Estavas ja lá primeiro?

SOSEA.

Señor, crea que es ansí.

AMPHITRIÃO.

Eu nunca entendi de ti, Qu'eras tambem chocarreiro.

SOSEA.

Señor, yo que estoy presente, No soy Sósea su criado? {344}

AMPHITRIÃO.

Creio que não certamente, Porque Sósea era avisado, E tu es mui differente.

SOSEA.

Pues, Señor, si en mí se vé Que no soy quien de antes era, Vuélvome.

AMPHITRIÃO.

E para que?

SOSEA.

Ver se á dicha me quedé Durmiendo por la galera.

AMPHITRIÃO.

Pois me queres fazer crer Huma doudice tão rasa, Mais quero de ti saber: Como não entraste em casa D'Alcmena minha mulher?

SOSEA.

Aunque Sósea quisiese, La verdad no negará: Aquel yo que allá está, No quiso que á casa fuese Estotro yo, que iba allá. Y con furia tan crecida Á mí se vino aquel hombre, Que yo me puse en huida, Y ansí le dejé mi nombre, Por me dejar él la vida. {345}

AMPHITRIÃO.

Quem seria tão ousado, Que tanto mal te fizesse?

SOSEA.

Yo mismo Sósea llamado, Que á casa era ya llegado, Antes que de acá partise.

AMPHITRIÃO.

Tu chegaste antes de ti? Este he gentil disparate.

SOSEA.

Pues mas le digo daqui, Que vengo huyendo de mí, Porque yo mismo no me mate.

AMPHITRIÃO.

Erão dous, ou era hum só, Quem te fez assi fugir?

SOSEA.

Pésete quien me parió: Digo, que era un solo yo: Mil veces lo hé de decir? Puede ser que naceria De aquel hombre otro alguno, Como aquel de mí nacia; Porque aunque fuese él uno, Por mas de cuatro tenia. Él tenia mi aparencia, Empero yo nunca vi Tal fuerza, ni tal potencia: Esta sola diferencia Le tengo hallado de mí. {346}

AMPHITRIÃO.

Pudeste delle saber Cujo era?

SOSEA.

Quien? aquel yo? Tuyo, Señor, dijo ser.

AMPHITRIÃO.

Nunca eu tive mais que hum só, E esse não quizera ter.

SOSEA.

Pues, Señor, si el bien doblado Te le muestra agora Dios, Debe ser de ti alabado; Pues de uno solo criado Te ha hecho agora dos.

AMPHITRIÃO.

Antes para que conheças, Que cousa he mao servidor, Me pezará se assi for; Que de tão ruins cabeças, Quantas mais, tanto peor. E ja que são tão incertos Teus ditos para se crer; Muito melhor deve ser Que deixe teus desconcertos, E va ver minha mulher. {347}

SCENA III.

ALCMENA.

Que fado, que nascimento De gente humana nascida, Que d'escasso e avarento, Nunca consentio na vida Perfeito contentamento! Amphitrião, que mostrou Hum prazer tão desejado A quem tanto o desejou; Na noite, que foi chegado, Nessa mesma se tornou! De se tornar tão asinha Sinto tanto entristecer O sentido e alma minha, Que certo que me adivinha Algum novo desprazer. Mas parece este que vem, Se não estou enganada: Se elle he, venha com bem, Pois que com sua tornada Tão transtornada me tem.

SCENA IV.

Amphitrião, Alcmena e Sosea.

AMPHITRIÃO.

Com que palavras, Senhora, Poderei engrandecer Tão sublimado prazer, {348} Como he ver chegada a hora, Em que vos pudesse ver? Certo grão contentamento Tive de meu vencimento; Mas maior o hei de mim, De me ver pôsto no fim De tão longo apartamento.

ALCMENA.

Ja eu disse o que sentia De vinda tão desejada. Mas diga-me todavia: Como não foi ver a Armada, Que me disse hoje este dia?

AMPHITRIÃO.

Della venho eu inda agora Desejoso de vos ver, Muito mais que de vencer. Mas que me dizeis, Senhora, Que hoje me ouvistes dizer?

ALCMENA.

Se não estava remota, Certamente que lhe ouvi, Quando hoje partio daqui, Que tornava a ver a frota. Porque era forçado assi.

AMPHITRIÃO.

Sósea.

SOSEA.

Señor, aqui estoy yo.

AMPHITRIÃO.

Tu ouves tal desconcêrto? {349}

SOSEA.

Grandes orejas ganó, Pues estando en casa oyó Quien estava allá nel puerto!

AMPHITRIÃO.

Quando dizeis, que m'ouvistes?

ALCMENA.

Hoje, quando vos partistes.

AMPHITRIÃO.

Donde?

ALCMENA.

Daqui, de me ver.

AMPHITRIÃO.

Nunca vi grande prazer, Que não tenha os cabos tristes. Quantos males d'improviso Que causão grandes mudanças! Que mulher de tanto aviso, Agora minhas lembranças A tẽe fóra de juizo!

ALCMENA.

Quereis-me fazer cuidar Que poderia sonhar O que pelos olhos vi? Nunca vos eu mereci Quererdes-me exprimentar.

AMPHITRIÃO.

Postoque he para pasmar Ver hum caso tão estranho, Todavia hei de attentar, Se poderei concertar {350} Hum desconcêrto tamanho. Quando dizeis que vim cá?

ALCMENA.

Esta noite que passou.

AMPHITRIÃO.

Dae-me alguem que aqui se achou, Que me visse.

ALCMENA.

Esse que hi está, Sósea que comvosco andou.

AMPHITRIÃO.

Sósea, podes-te lembrar, Que hontem me vistes aqui?

SOSEA.

Nunca yo supe de mí Que me pudiese acordar De aquello que nunca vi.

ALCMENA.

Ora eu creo, e he assi, Que ambos vindes conjurados, Para zombardes de mi; Mas eu darei hoje aqui Sinaes que sejão provados.

AMPHITRIÃO.

Que sinaes póde ahi haver De mentira tão notoria, Que nem foi, nem póde ser?

ALCMENA.

Donde vim eu a saber Novas de vossa victoria? {351}

AMPHITRIÃO.

Que novas?

ALCMENA.

Dir-vo-las-hei, Assi como mas contastes: Que na batalha matastes Aquelle soberbo Rei, E tudo desbaratastes: Não fazendo resistencia N'huma batalha tão crua, Dando-vos obediencia, Vos derão huma copa sua, Lavrada por excellencia.

AMPHITRIÃO.

Sósea he culpado só Nestes acontecimentos.

SOSEA.

Señor, son encantamientos, Porque aquel hombre, que es yo, Le contaria estos cuentos.

AMPHITRIÃO.

Quem he esse, que vos deu Taes novas, saber queria?

ALCMENA.

Quem mo pergunta.

AMPHITRIÃO.

Quem? Eu! Quereis-me fazer sandeu?

ALCMENA.

Mas vós me fazeis sandia. {352}

AMPHITRIÃO.

Ora quero perguntar: Que fiz sendo aqui chegado?

ALCMENA.

Puzemos-nos a cear.

AMPHITRIÃO.

E despois de ter ceado?

ALCMENA.

Fomos-nos ambos deitar.

AMPHITRIÃO.

Nunca queira Deos que possa Achar-se na minha honra Nenhuma falta nem mossa: Seja isto doudice vossa, Antes que minha deshonra.

SOSEA.

Bien lo supe yo entender, Que era esto encantaciones; Y ahora me habrá de crer Que dos Sóseas puede haber, Pues hay dos Amphitriones.

ALCMENA.

Com me quererdes tentar Tão torvada me fizestes, Que me não pôde lembrar Que vos mandasse mostrar A copa que me hontem déstes.

AMPHITRIÃO.

Eu? copa? Se isso ahi ha, Que estou doudo cuidarei. {353}

SOSEA.

Señor, bien guardada está.

ALCMENA.

Bromia?

BROMIA, de dentro.

Senhora.

ALCMENA.

Dae cá A copa que hontem vos dei.

SOSEA.

Pues yo parí otro yo, Y vós otro Amphitrion, No es mucha admiracion, Si la copa otra parió, Ni aun fuera de razon.

SCENA V.

Amphitrião, Alcmena, Sosea e Bromia.

BROMIA.

Eis-aqui a copa vem, Testimunho da verdade.

AMPHITRIÃO.

Oh estranha novidade!

ALCMENA.

Poder-me-ha dizer alguem Que o que digo he falsidade?

AMPHITRIÃO.

Sósea, quando hontem cá vinhas, Poder-me-has negar, ladrão, {354} Que lhe déste as novas minhas, E mais a copa que tinhas Guardada na tua mão?

SOSEA.

Señor, que no pude, no, Ver á mi Señora Alcmena: Si aquel eso acá ordenó, No lleve este yo la pena Del mal que hizo el otro yo.

AMPHITRIÃO.

Ora eu não sei entender Tal caso, nem lhe acho fundo: Com tudo venho a dizer, Que ha tantos males no mundo, Que tudo se póde crer. Se vos trouxer quem vos diga Como esta noite dormi Na nao, crereis que he assi?

ALCMENA.

Nenhuma cousa me obriga A que não creia o que vi.

AMPHITRIÃO.

Se o Patrão aqui vier, Que he homem d'autoridade, Crereis o que vos disser?

ALCMENA.

Sim, que ninguem póde haver Que me negue esta verdade.

AMPHITRIÃO.

Eu estou em concrusão D'hoje desembaraçar {355} Tão enleada questão: Á nao me quero tornar A trazer cá Belferrão. Sósea, até minha tornada Fica nesta casa em vela; Qu'eu armarei tal cilada A quem ma a mim tẽe armada, Que venha hoje a cahir nella.

SCENA VI.

Alcmena e Bromia.

ALCMENA.

Oh mulher triste e suspensa Da mais alta confusão Que nunca vio coração! Em que mereces a offensa, Que te faz Amphitrião? Sempre de mi foi amado, Tanto quanto em mi se sente, Co'o coração tão liado, Que se de mi era ausente, Nelle o via figurado. E pois mulher, que cumprisse Melhor qu'eu fidelidade, Não a vi, nem quem me visse Que dos limites sahisse Hum pouco da honestidade. Pois porque he tão maltratada Innocencia tão singella? {356} Que a pena mais apertada, He a culpa levantada Ao coração livre della. Mas ja que minh'alma está Sem culpa do que padeço, Seja o que for; qu'eu conheço Que a verdade me porá No qu'eu pola ter mereço. Bromia?

BROMIA.

Senhora.

ALCMENA.

Hi mandar A Feliseo, que vá Meu primo Aurelio chamar; Que lhe quero perguntar Que conselho me dará. E pois que Amphitrião Vai buscar somente quem Lhe ajude a sua tenção, Quero eu ter aqui tambem Quem me defenda a razão. {357}

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